Autor: filipe guerra

No 75º aniversário do assassinato de Ferreira Soares

Corria o dia de ontem e assinalava-se em Nogueira da Regedoura(Sta.Maria da Feira) mais uma sentida homenagem a Ferreira Soares, “Dr. Prata”, militante do PCP, assassinado a tiros de pistola-metralhadora no seu consultório.

Ferrreira Soares nasceu em 1903 em Viana do Castelo, tendo cursado Medicina na Universidade do Porto. Concluído o curso, exerceria a sua actividade clínica primeiro em Espinho e depois em Nogueira da Regedoura. Seria ainda reconhecido etnógrafo, crítico e contista.

Localizando Ferreira Soares, é preciso caracterizar a década de 30, é necessário relembrar, muito sumariamente que por essa altura se fortificava pelo país o regime fascista do Estado Novo, com o desmantelamento(pela repressão, pela desistência e até adesão) de um conjunto significativo de estruturas de intervenção  política e social, a situação de miséria e pobreza em que viviam as classes populares e trabalhadoras(mortalidade infantil, fome, desemprego, analfabetismo, entre tantos outros dramas), e também um quadro internacional em que o fascismo e o nazismo avançam por quase toda a Europa. Note-se ainda que, também neste tempo o PCP atravessa um período marcado por diversas dificuldades que o debilitam muito.

Não obstante a aspereza da situação geral, corajosamente Ferreira Soares desenvolverá uma intensa actividade revolucionária e militância, na unidade antifascista, com e pelo alargamento da influência do PCP, integrando o seu Comité Regional do Douro.

A actividade política que desenvolveu naquela época, acabou por ter o destino provável da perseguição e da semi-clandestinidade forçada em 1936, obrigando o “Dr. Prata” a deslocar-se para Nogueira da Regedoura.

Na região, sabia-se que Ferreira Soares, conhecedor da pobreza que grassava pelas populações, comummente e solidariamente prestava o seu auxílio médico graciosamente aos que não tinham qualquer condição para aceder à Saúde. Apenas cobrava a quem podia cobrar. Justamente, Ferreira Soares construíra o médico presente, o homem bom e comunista prestigiado.

Em 4 de Julho de 1942, a PVDE, com recurso a um falso ferimento de uma agente sua conseguiu introduzir-se em sua casa, que era também o seu consultório, e aí alvejou-o com 14 balas de pistola-metralhadora.

O assassinato, o desaparecimento físico de Ferreira Soares constituíram um momento de enorme consternação para o povo das redondezas, o seu enterro foi uma expressiva manifestação de dor, revolta e protesto daqueles que ele fraternalmente apoiara e pelos quais acabaria dando a sua própria vida.

Ferreira Soares, o “Dr. Prata”, pela sua intervenção, pelo seu exemplo, pela sua memória, é ainda hoje um força presente na luta dos democratas e dos comunistas.

O salto de Aleksei Leonov

Nas páginas da História dedicadas aos pequenos passo para uns mas grandes passos para a Humanidade, cumpre recordar um feito do projecto cosmonáutico soviético bem como de um dos seus Comandantes. Em 18 de Março de 1965, o Comandante Aleksei Leonov fez o primeiro passeio espacial, após sair de bordo da nave espacial Vostok 2, durante 12 minutos e 9 segundos, apenas ficando ligado à Vostok 2 por uma corrente de cerca 5 metros de cumprimento.

Aleksei Leonov fez parte do grupo de pilotos da Força Aérea Soviética que formou o primeiro grupo de cosmonautas soviéticos em 1960.

Após o seu regresso de órbita na Vostok 2, e com o sucesso alcançado, Aleksei participou ainda em diversos outros projectos, entre os quais estavam uma viagem circunlunar a bordo da nave Soyoz bem como atingir a Lua com a Lok/N1(ambos os projectos não se concretizaram, por riscos e inutilidade superveniente). Mais tarde, seria também Comandante da metade Soviética da missão Apolo-Soyus, a primeira missão espacial conjunta União Soviética-Estados Unidos.

Entre 1976 e 1982 Aleksei foi Comandante da equipa de Cosmonautas e Director-Adjunto do Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin na Cidade das Estrelas. Foi director do jornal Neptuno.

Aleksei veio também a publicar diversos obras com trabalhos plásticos sobre a Terra e as tripulações que o acompanharam.

Primeira vez
No próximo dia 12 de Abril estreará na Rússia o filme “Primeira vez”, gravado em 3D, com realização de Dmitry Kiselyov e com o actor Yevgeny Mironov no papel de Aleksey Leonov. Um filme que pretenderá fazer a reconstituição possível da preparação da viagem, das suas dificuldades e desafios, mas que infelizmente não terá qualquer divulgação ou projecção por cá.

32 anos


(Ódio à civilização burguesa.)

Esta gente parece ter alma
porque a música está a tocar.

José Gomes Ferreira, 1933

Armas de intoxicação massiva


Qual é a diferença entre um terrorista em Paris, um saqueador em Palmira ou um sanguinário em Aleppo? É que se ele estiver em Aleppo, na grande imprensa, não terá nenhum destes adjectivos e será apenas um “rebelde” ou um “insurgente”, provavelmente acrescentarão ainda que é “moderado”. É o que tem acontecido.

A grande comunicação social construiu uma gigantesca e sinistra distopia mediática em que um mercenário de guerra fanatizado é apresentado como um “rebelde moderado” que luta por liberdade e democracia  ao passo que simultaneamente um soldado sírio que arrisca a própria vida pela libertação de uma cidade do seu país se vê transformado num carniceiro contra o seu próprio povo capaz de bombardear o vigésimo-sétimo “último hospital para crianças” de Aleppo.

Nos últimos dias, aproximando-se a derrota militar em Aleppo dos terroristas do daesh/al-qaeda/al-nusra entre outros mercenários animados pelos incansáveis e mal-disfarçados apoios de países e organizações como os EUA, UE, Turquia, Israel ou Arábia Saudita, os níveis de intoxicação mediática atingiram patamares absolutamente insuportáveis, pela natureza e cadência. Desta vez também, por exemplo, através de videos de “mensagem final” que chegaram às redes sociais e televisões nos últimos dias.

Se por um lado é verdade que uma análise atenta desmonta facilmente estas sucessivas farsas, por outro lado, através das brutais armas de intoxicação massiva que o capital e o imperialismo têm ao seu dispor para a sua difusão, as aldrabices, as mistificações e manipulações de toda a ordem e feitio acabam por atingir os seus fins em larga escala.

Independentemente de casos de guerra, em que populações civis sequestradas são utilizadas como escudos humanos pelos miseráveis terroristas que insistem em comportar-se como cobardes até à última, e que objectivamente colocam em causa vidas civis, a verdade é que os interesses do império e do capital nestas sucessivas acções de intoxicação mediática à escala global visam a diabolização dos libertadores e o seu isolamento e, naturalmente, criar condições políticas que para já dificultem novas reconquistas, que impeçam o restabelecimento da ordem e a reconstrução do país, bem como preparar no futuro novas escaladas belicistas.

Além dos tradicionais meios e formas de conformação de realidade e intoxicação, de facto hoje por força de novos meios tecnológicos e do seu acesso massificado em vastas áreas do mundo, importa acompanhar e denunciar estas “novas” vertentes da intoxicação até porque são elas próprias muitas vezes causa ou meio difusor para as tradicionais fontes de manipulação de massas. Por exemplo, estes videos que iniciaram a sua circulação em redes sociais rapidamente(esse seria seu objectivo) foram utilizados em televisão ganhando ainda maior projecção. E sim, estes são só um exemplo.

Quando a única posse é o colectivo, a luta é o caminho

(Bruce Springsteen e Tom Morello – The ghost of Tom Joad)


“Se tu, que tens tudo o que os outros precisam ter, puderes compreender isto, saberás também defender-te. Se tu souberes separar causas de efeitos, se souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lenine foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas isso é que tu não podes compreender, pois que a qualidade da posse te cristalizou para sempre na fórmula do «eu» e para sempre te há-de isolar do «nós»”


John Steinbeck in As Vinhas da Ira

Intoxicação de guerra

Nos últimos dias, na devastada cidade síria de Aleppo, tem ganho progressivo espaço mediático o emocionante caso de uma menina de nome Bana Alabed, de sete anos de idade apenas, e que por via da rede social twitter, vem partilhando preocupações, apelos políticos e outras mensagens sobre o seu dia-a-dia na guerra.
O caso é que Bana é uma ficção. Bana é um produto tóxico inventado num qualquer laboratório ao serviço da guerra mediática, é uma ficção do império colocada ao seu serviço político e cuja divulgação percorreu as redes e meios da moda(primeiro nas redes sociais, seguida por uma rápida e global divulgação nos órgãos de comunicação social de “referência”).
Estórias como esta sempre houve e, francamente, não valeriam grande atenção não se dera o caso desta Bana ter tido honras de
Telejornal da RTP, e veja-se com atenção toda esta peça. Tornando-se em mais um caso, que se soma a tantos outros, de manipulação sobre a guerra na Síria na RTP. Sendo que Bana é, ainda por cima, uma boneca particularmente mal montada.

Aleppo está em guerra há mais de 4 anos, é uma cidade tomada, saqueada e devastada pelos sucessivos grupos terroristas(animados, financiados e munidos por EUA/NATO/UE, pela Turquia entre outras potências regionais) do Daesh à Al-Nusra, dos “rebeldes” aos “insurgentes”, dos “jihadistas” aos “jihadistas moderados”, entre outras mutações nominativas que estes grupos vão assumindo…mas importa que é uma cidade absolutamente destruída. Assim, estranha-se na vida de Bana:

1- como vive e se mantém a viver na cidade, numa zona “controlada pelos rebeldes”?

2- como se mantém ligada constantemente à internet sabendo-se que por lá não existem elementos civilizacionais básicos como a electricidade ou água?

3- como tem e para que tem uma criança de 7 anos um telefone de tecnologia 3G em zona de guerra?
4- como podem neste cenário existir redes de telemóvel e internet?

5- como fala e escreve tão correctamente em inglês uma criança síria de 7 anos(4 deles em guerra)?
6- porque nunca em 415 mensagens escreveu ou falou na sua língua nativa?

7- como sabe ela os nomes de diversos presidentes como Putin(ela ao Assad liga pouco) ou Obama e ainda instituições como o Tribunal Penal Internacional(com sete anos apenas ela já conhece o TPI)?

8- como conhece e porque já se corresponde via twitter com outras crianças “vítimas” de Putin como os pequenos ucranianos e arménios Vadim Dovganyuk e Elena Hagoyan?

9- é notável a pontualidade nos bombardeamentos e o talento cinematográfico de sua mãe(que não a protege, antes a filma à janela enquanto ocorre um bombardeamento);

Esta contagem rápida de situações estranhas podia continuar com muito mais questões. Mas o mais relevante, agora, não é a personagem Bana, mas sim a relevância dada pela RTP a esta aldrabice pegada.

É absolutamente lamentável que as senhoras “jornalistas” Ana Rita Freitas e Sara Cravina, como duas baratas tontas tenham editado e reproduzido uma peça cujos dados não são delas(antes são de alguém que os inventou, que construiu as imagens e  uma narrativa que elas devoraram) e sobre os quais não fizeram qualquer fact-checking, qualquer verificação sobre a sua veracidade. Assim, acefalamente, para adjectivar por baixo, no mínimo, assinaram e mandaram para o ar na estação televisiva de serviço público, em pleno Telejornal(entre outros espaços de “informação” em televisão do grupo RTP), 2 minutos de mentira e intoxicação pura.

A direcção de informação da RTP desde o início da guerra na Síria, em 2012, tem tido um linha editorial perfeitamente enquadrada com a “informação” e opinião construídas e formatadas por agências e outros veículos de produção de conteúdos para os mass media internacionais, que naturalmente servem os objectivos políticos e de narrativa mediática do império, dos EUA/NATO/UE, distribuindo todo esse material desinformativo e objectivamente tóxico por este mundo fora.

O director de informação da RTP, o ascendente ainda que curto, mal formado e patusco, Paulo Dentinho, já esteve na Síria e entrevistou pessoalmente Al-Assad, conheceu aquela realidade, a de uma guerra já desenvolvida e cujos traços essenciais nos planos militar e mediático eram notórios, sendo, portanto, indesculpável a opção editorial da RTP e da sua direcção de informação. Este director e esta direcção, nesta opção que fazem, colocam-se no papel de cúmplices em toda a intoxicação que se serve regularmente aos tele-espectadores sobre a guerra na Síria, sendo este ridículo caso de Bana apenas mais um triste episódio.