Autor: filipe guerra

isto continua assim…

Aqui está uma boa imagem do que tem sido esta campanha eleitoral no sistema mediático. Quarta-feira antes do Domingo eleitoral, a SicNotícias entendeu fazer um debate convidando apenas representantes de PSD, PS, CDS e BE. Claro, mais uma vez um representante da CDU ou alguém desta área política ficou de fora.

Já aqui foi escrito e descrito com um forte exemplo, larguíssimos meses antes do início da campanha eleitoral, o que se fazia, porque se fazia, quais os objectivos e interesses, os responsáveis, os promotores e outros cúmplices deste tipo de discriminação, que sendo diária, em período eleitoral se agudiza e agrava com naturais e desejadas consequências eleitorais. Rigorosamente, ontem foi  só mais um momento a somar a tantos outros.
Mas que fique claro, ainda há gente séria a trabalhar na comunicação social, mesmo durante esta campanha eleitoral, sendo que neste blogue também já se citou um bom exemplo de um bom trabalho.

Há quem diga, num exercício de desilusão e frustração, que não vale a pena a denúncia, porque sempre foi assim, porque já se sabe, porque tudo fica na mesma…mas é importante não desistir. Porque é uma denúncia que comporta uma expressão do confronto político e ideológico, clarificando papéis e alianças. Não por acaso ao caso estão na imagem 3 ex-ministros de PSD, PS e CDS e um dirigente BE. Não foi por acaso que foi a CDU a única força parlamentar excluída.

Cinco aspectos têm que ficar desde já, salvo posterior aprofundamento, limpidamente claros:

1. A comunicação social dominante é hoje dominada, quer do ponto de vista económico quer facticamente nas opções editoriais, pelo grande poder económico nacional e estrangeiro, pelo Estado(e aqui por quem o dirige politicamente e ideologicamente) e pela igreja católica, sendo claro que serão sujeitos de simpatia dessa mesma comunicação social dominada os que sejam do agrado dos seus detentores que nomeiam, põem e dispõem nas chefias de redacção e direcção editorial os mais prestáveis para os mais miseráveis serviços;

2. Não é possível que nenhum democrata deixe de se sentir revoltado com os sucessivos episódios de rocambolescos e mal-disfarçados, quer sob a forma de notícia, quer em comentário(nas sondagens até as contas passaram a ser de sumir), episódios de discriminação da CDU;

3. É uma insídia para o Estado de Direito, o absoluto achincalhamento diário da Constituição da República e da vasta legislação sobre o sector, nomeadamente sobre a sua actuação em período de campanha eleitoral, bem como os silêncios comprometidos ou comprometedores(agora escolha o leitor) de quem tem por função cumprir e fazer cumprir a Constituição, mas também o alheamento ou abstenção da Entidade Reguladora da Comunicação e da própria Comissão Nacional de Eleições;

4. Não é expectável que os resultados eleitorais não sejam contaminados por aquilo que tem sido as preferências políticas e ideológicas dos poderes editoriais da comunicação social dominante;

5. Que fique claro a tudo e todos, quem não vive da comunicação social não morre pela comunicação social;

Continuamos na luta!

Uma cara, um discurso, uma empatia

João Gobern redigiu uma reportagem sobre um dia da campanha da CDU no Norte do país. O texto que abaixo se transcreve é um exemplo de um bom trabalho!
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“Jerónimo de Sousa e a CDU não morrem de amores por trípticos, como o famigerado “uma maioria, um governo, um presidente”. Ainda gostam menos da troika, presume-se. Mas um dia em três andamentos – um encontro, uma ação de rua, um comício – reforça a ideia de três missões eleitorais: resistir, desmistificar e crescer.

“Na terceira volta de um dia dividido em três momentos e por dois distritos (Porto e Aveiro), mantendo-se na sala sobrelotada da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira a mesma temperatura ambiente antes garantida pelo sol, que brilhou para todos nós, e pelo entusiasmo militante, lembro-me do título de um filme. Contava a vida de Thomas More (1478-1535), que gostava de pensar pela sua própria cabeça e acabou por perdê-la, diante do libidinoso poder de Henrique VIII. O filme chamava-se, na língua original, A Man for all Seasons. O que, em tradução literal (que dá jeito, como se verá), poderia desaguar em algo de parecido com “Um Homem para Todas as Estações”, salientando o oposto de qualquer alusão camaleónica, sublinhando, isso sim, a ideia de alguém que dispensava diferentes máscaras para se afeiçoar a distintos ambientes.

Foi assim que vi e li Jerónimo de Sousa, igual, uno e indivisível (passe a expressão), num “encontro com artistas, intelectuais e quadros técnicos”, depois no contacto direto com a população de Gondomar e, por fim, a jogar em casa no comício da Feira: sempre o mesmo homem, sem inflexões no discurso, sem constrangimentos, sem cosmética. À saída do comício, que, de acordo com alguns jornalistas “residentes” da campanha da CDU, lhe terá rendido a melhor intervenção de toda a campanha, até pela introdução do humor na abordagem aos adversários, cruzamo-nos pela terceira vez. Sinto-o naturalmente cansado (pudera…) depois do empolgamento alguns minutos antes, mas bem-disposto, com a certeza dos pontos marcados em três frentes. O mesmo homem para todas as ocasiões, característica ou qualidade que não se distribui a outros dos que, por estes dias, dão a volta a Portugal, os que variam o modelo consoante as audiências. Aqui, com maior ou menor inspiração nas intervenções, a ausência de surpresas – e, muitas vezes, dos soundbytes que estão como a fast food para o jornalismo, “enchendo” mais do que alimentando – vale uma contrapartida na constância das palavras.

A cara

Quando Jerónimo de Sousa chega à Cooperativa Árvore, já os apoiantes da CDU aguardam o secretário–geral comunista gozando o sol resistente do outono, ou resguardando-se da sua intensidade. Percebo rapidamente um deslize indumentário: entre mais de uma centena de presenças, só há três gravatas – a do veterano presidente da direção da Árvore, Amândio Fernandes Secca, a do ex-deputado Honório Novo (chamado a mestre-de-cerimónias) e a minha. Falta de prática, sem drama de maior. O líder da CDU entra, faz questão de percorrer um a um os pequenos grupos em que, sem ordem de trabalhos, se discutem os calores da política, as dúvidas quanto ao futuro que se desenhará a partir de segunda-feira, os refugiados e a fragmentação europeia, os méritos persistentes das atividades da Árvore, mas também o prolongamento estival e o futebol de fim de semana. Já se ouviram desabafos: “É pena que, nestas coisas, só venham aqueles que não precisam de ser convencidos. Isto devia chegar aos que andam indecisos ou aos que, aparentemente, desistiram de participar.” De acordo, mas não é esse um problema transversal à maioria dos momentos de campanha dos partidos e coligações que dificilmente chegarão ao governo?

Nem neste ambiente, faltam os momentos para a fotografia, no sentido literal, com pedidos de selfie ao disponível deputado, e no sentido figurado: Jerónimo de Sousa pega ao colo numa criança que lhe arranca uma gargalhada franca, quando lhe confessa que, quando for grande, quer ser primeiro-ministro. Algo a que, sejamos realistas, o próprio político não aspira. Vinho branco e vinho do Porto regam o encontro, temperado por umas tapas que se distribuem sem privilégios, a cada um de acordo com as respetivas “necessidades”.

A partir das escolhas do “convidado de honra”, Pedro Estorninho, do Teatro Ensaio, lê poemas de Vinicius de Moraes (O Operário em Construção, obviamente) e Manuel da Fonseca. Mas até a dimensão dos poetas se encolhe momentaneamente quando Jerónimo de Sousa agradece aos artistas e intelectuais “os momentos de alento” nos tempos difíceis. Denuncia a “mercantilização da cultura, subordinada pela economia”. Indigna-se com os cortes, 75%, não menos do que isso, nos apoios públicos às Artes. Revolta–se com o desprezo a que os governantes (os de hoje e os de ontem, que o Partido Socialista acaba sempre empurrado para a moldura do arco) trataram a ciência a investigação. Aponta a emigração de quadros como um mal de dimensão ainda imprevisível. E propõe, olhando as parcelas contempladas no Orçamento, um evidente reforço nas verbas tocantes à Cultura: dotar este setor de 1% do total. Acrescenta a nota do dia, com referência direta a António Costa, disposto a trocar um Ministério da Cultura por um “governo da Cultura”, percebendo-se que não vê aqui mais do que uma fanfarronada inconsequente.

Pelo meio da intervenção, específica, cirúrgica, ficam as grandes linhas de força que voltarão a ouvir-se pelo dia fora: a promessa de uma política “patriótica de esquerda”, para a qual se torna imprescindível a “desmistificação” do voto útil; a ideia de que o reforço da votação na coligação dos comunistas com os ecologistas carrega mais e maiores garantias à obstaculização das “políticas de direita”, venham elas dos partidos atualmente no poder ou do PS. Quer dizer: nesta primeira realização, fica claro o objetivo de fixar apoios e eleitores. Entre os presentes e os que, segundo Honório Novo, não quiseram deixar de explicar as ausências e de enviar mensagens de saudação e de solidariedade, casos do arquiteto Siza Vieira e do historiador Manuel Loft. Primeiro passo: cumprido.

O discurso

O fim de tarde continua a fintar ventos, nevoeiros ou friagens. Do alto de um palanque que permite a toda a gente que se distribui por um jardim ver o secretário-geral e o cabeça de lista da CDU pelo distrito do Porto, Jorge Machado, fazem-se os discursos, depois de percorridas, com mobilização assinalável, as ruas de Gondomar. Há um cuidado natural desta coligação em somar o local ao geral, daí o destaque para a presença do candidato do distrito, que se encarrega de desfilar aquilo que entende como os atropelos da governação na sua área da influência. Ainda que o quadro se repita, um pouco por toda a parte: as machadadas no Serviço Nacional de Saúde, o encerramento de escolas, a subida do desemprego. Ora se o retrato apresentado equivale ao do país, acaba por ter um impacto forte nas populações o zoom sobre os problemas que enfrentam em casa e perto dela. No caso concreto, a escala em Gondomar também funciona como prémio à militância dos habitantes de São Pedro da Cova cuja terra, mesmo unificada em freguesia com Fânzeres, de acordo com a reforma administrativa de 2013, manteve uma maioria CDU – um sinal daquilo a que os comunistas e seus aliados gostam de chamar “política de proximidade”.

Outra forma de a praticar permite a Jerónimo de Sousa um exercício em que se mostra exímio, porque nunca se desliga de uma autenticidade que impede até votantes de outras forças políticas de algum comentário desagradável ou, sequer, de lhe negarem um aperto de mão. No centro do desfile, em que alguém explica a uma apoiante mais espontânea, que tenta lançar a palavra de ordem “vota CDU, quem fica a ganhar és tu”, que há uma componente “individual e egoísta” nesse grito que não sublinha as verdadeiras vantagens de tal voto e que talvez seja melhor ficar-se pelo clássico “a CDU avança, com toda a confiança”, o secretário-geral comunista ziguezagueia no percurso, não no discurso. Não deixa abraço por dar a quem se mostra recetivo, reservando “um bacalhau” aos que parecem mais retraídos. Arrasta atrás de si os que o rodeiam, expondo-se pela imprevisibilidade dos seus passos, a comentários desagradáveis que, registe-se, não aparecem. À porta de uma loja que distribui cigarros eletrónicos, um homem lamenta-se: “Tenho mesmo pena que este gajo seja deste partido… Se fosse de outro, gosto tanto dele que lhe dava o meu voto. Mas assim…” Não há um incidente, uma provocação, uma buzinadela de descontentamento mesmo nas passagens em que o trânsito é interrompido ou retardado. Na cadência de um para arranca ao sabor da condução do líder, naquilo que poderia tornar-se o momento mais desgastante da jornada, Jerónimo de Sousa parece recarregar baterias com as pequenas conversas, com as questões que lhe saltam ao caminho, quase sempre protagonizadas pelos espoliados da vida, com as explicações que entende dar e as propostas que deixa, evitando promessas. Aos 68 anos, liderando o Partido Comunista Português há mais de uma década, este homem sabe que dificilmente chegará a um governo, a menos que a geografia política seja tingida de uma forma radicalmente diferente. Mas resiste, em nome das (suas) ideias. Pobre será a analogia, mas há um momento que me recorda uma velha anedota. “O teu casamento foi por amor ou por interesse? Só pode ser por amor, que aquilo interesse não tem nenhum…” Com Jerónimo de Sousa, se a dicotomia proposta andar entre a ambição e a convicção, a resposta surge, transparente: só pode ser convicção, que a ambição – de poder, leia-se – não passa por aqui.

A empatia

Há precisamente vinte anos, na campanha que levaria António Guterres a São Bento, tive a oportunidade de – também por um dia, em toca-e-foge com a caravana CDU, na ocasião por terras alentejanas, bem mais chegadas à causa – acompanhar Álvaro Cunhal. Se Carlos Carvalhas já era o secretário-geral comunista desde 1992,Cunhal valia muito mais do que um símbolo ou do que uma “presidência honorária”. Se todas as comparações podem tornar-se odiosas, sobretudo se as submetermos a uma qualquer valoração, há algumas que podem justificar-se – é o caso. Desses contactos fugazes (tendo conhecido Cunhal em 1985 e no cenário muito especial de um Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, realizado em Moscovo), ressaltam algumas particularidades: o autor de Até Amanhã, Camaradas, obviamente amado pelos seus correligionários, era acima de tudo respeitado. A sua palavra parecia passar como lei, mesmo que fosse largamente discutida no foro interno. Talvez em função da sua origem, de uma base intelectual imensa, até das prisões e do exílio a que foi sujeito, Cunhal não alcançava o tal grau de proximidade interpares que Jerónimo de Sousa pode facilmente reivindicar. Lembro-me bem do olhar de um, perscrutante e penetrante como conheci poucos. Com Jerónimo, sem implicações na convicção, há mais vizinhança, mais familiaridade. E os seus camaradas exultam com essa acessibilidade fraterna.

O discurso da Biblioteca de Santa Maria da Feira acaba por espelhar precisamente esta linha de atuação: às traves-mestras do que a CDU quer fazer passar, aumentando a intensidade nos últimos dias de campanha mas sobretudo reafirmando uma linha política que se orgulha do desempenho de oposição mais constante e mais coerente nos últimos quatro anos, no Parlamento mas também fora dele (lá vem outra vez a proximidade), Jerónimo acrescenta o humor. Quando compara o PS de uma determinada fase a “um peru do Natal”, cheio de si mas angustiado, condicionado pelas “abstenções violentas” diante das moções de censura da CDU. Ou quando evoca uma expressão, “felizmente caída em desuso: a do filho de pai incógnito”, que seria o memorando assinado com a troika que, afinal, não teve pai (PS) nem mãe (PSD), “Nem mesmo padrinho, que temos de deixar um espacinho para o CDS”.

Ouvem-se-lhe frases fortes, nomeadamente quando dá eco a quem acusa a CDU de estar sempre a atacar o PS: “O estranho é eles, PS, não se lembrarem que não estiveram em nenhum dos grandes combates.” Quanto a algumas propostas de António Costa, a resposta chega com ironia: não lhe chamem ataques, vejam-nos “como pedidos de esclarecimento”… Diz-se farto de, em tantos anos, andar a ver “sempre o mesmo filme, rebobinado”. E reafirma que o lugar da CDU será sempre o mesmo, diante dos desrespeitos e dos atropelos aos trabalhadores, frente às injustiças.

A sala estava cheia, ao ponto de se admitir um ligeiro erro nas expectativas – pensou-se “por baixo”. A escolha de Santa Maria da Feira esteve longe de ser aleatória: Aveiro é um dos distritos, tal como Coimbra, em que a CDU espera recuperar um deputado em tempos perdido. Coube, aliás, a Miguel Viegas, cabeça de lista pelo círculo, abraçar os problemas das terras que pretende vir a representar: pensar localmente para agir globalmente. Uma vantagem clara desta coligação: nem Tonis nem Quins, nem vedetinhas musicais de ocasião. Ouviram-se – e bem – canções de Fausto e Carlos Puebla, folclore açoriano e a Trova do Vento Que Passa. Em aparte, a coligação confirmou-se económica e ecológica: no final, foi lançado o apelo para que fossem devolvidas à estrutura as bandeirinhas que serviram para engalanar a sala e para animar as imagens recolhidas.

Jerónimo de Sousa sai da sala em passo rápido. Onze horas depois voltará a estar na rua, bem mais a sul, com a mesma cara, com muitas das mesmas palavras – sendo hoje nitidamente preconceituoso falar de uma “cassete” comunista, de tal forma foi renovado o léxico -, com todas as ideias. Por certo, também com a ambição de conseguir que pelo menos um em cada dez votantes acabe por decidir-se por esta cor política. Para fecho, a pergunta que se tornou tradicional: comprava a este homem um carro em segunda mão? Claro que sim, “com toda a confiança”. Não seria o único, reconheço. Mas também não seriam assim tantos. A ele, até o desafiava para uma converseta mais amena, mais circunstancial. Nem que fosse para abordarmos o futebol, que tanta urticária causa a quem não o percebe. Não acontece, ao que me dizem, com o secretário-geral comunista: segundo fontes geralmente bem informadas, Jerónimo de Sousa é bom de bola.”

João Gobern, Reportagem: Uma cara, um discurso uma empatia in Diário de Notícias 29/9/2015

20 anos sem Ovidi Montllor i Mengual

La Fera Ferotge – Serà un dia que durarà anys(Ovidi Montllor)


Apreta fort les dents
Apreta fort els punys
Infla’t d’aire els pulmons
Obre bé els ulls
Fes treballar el cap
controla el cor
No tanques mai la boca
Crida ben fort
Deixa’t anar
Dóna’t tot tu.

Serà blava i tranquil.la la mar.
Serà espessa i verda la vall.
Serà gran i dolça la muntanya.
Serà un dia que durarà anys.

Gent de mar, de rius i de muntanyes,
Tindran mar i prats i rius i boscos.
Tindran tot. I es parlarà de vida.
Les ciutats seran rius plens de gent.
Floriran flors i cants i alegries.

Floriran crits i cors i paraules.
En el dia que durarà anys,
braços lliures i boques i mans.

Apreta fort les dents
Apreta fort els punys
Infla’t d’aire els pulmons
Obre bé els ulls
Fes treballar el cap
controla el cor
No tanques mai la boca
Crida ben fort
Deixa’t anar
Dóna’t tot tu.

Trivela de Quaresma

“Amigo,
Imagina que eras tu com o teu filho nos braços que tinhas de deixar o teu país, escondido, a fugir da guerra e da fome, desesperado por encontrar um sítio no mundo onde pudesses recomeçar e dar ao teu filho tudo aquilo a que ele tem direito.
Agora que imaginaste, vê a realidade do que se está a passar na Europa.
As crianças que fogem da guerra também são nossas crianças, também elas têm direito de ter um futuro e construir um mundo melhor.
Não podemos ficar indiferentes a este problema, está nas nossas mãos impedir isto”

 Ricardo Quaresma, 29/8/2015

A arte de desinformar


Portugal não é um país com muita população. Assim, os grandes iniciativas de massas, com dezenas e centenas de milhares de pessoas são fenómenos raros e por isso mesmo alvo de grande atenção mediática. Num breve exercício de memória, podemos recordar grandes acontecimentos e celebrações desportivas, manifestações do movimento sindical e de outros movimentos sociais, alguns eventos religiosos, santos populares, grandes concertos e espectáculos musicais com artistas internacionais de renome. Haverá mais um ou outro exemplo, mas não muitos mais. E, com excepção das grande manifestações sindicais, estes acontecimentos são alvo de grande divulgação e atenção mediática, antes, durante e depois de terem lugar.

A Marcha Nacional A Força do Povo, ocorrida ontem e promovida pela CDU, segundo a sua organização teve a participação de cerca de 100 mil pessoas. Não discutirei este número, não tenho essa intenção ou objectivo, pois, tendo participado nesta Marcha, em nenhum momento consegui ver o seu início e o seu fim devido à sua magnitude. Mais importante do que a precisão científica de um número final, importa sublinhar a sua dimensão humana e impacto político.

Eu gostaria de referir que sou de uma região longe de Lisboa. Onde o PCP não tem a implantação que precisava para melhor intervir, e onde a CDU não tem nenhum deputado ou sequer vereador eleito, tão pouco qualquer maioria em Junta de Freguesia. E desta região, saíram cerca de 700 democratas para a Marcha. Portanto, fica claro que, não sendo esta Região uma excepção positiva à regra, a Marcha foi uma iniciativa com muita, muita gente.

Se iniciativas desta dimensão humana são raras, com a natureza de apoio político são ainda mais raras. Nas últimas largas décadas, as únicas iniciativa de dimensão e natureza semelhante foram as marchas do PCP em 2008 e da CDU em 2009. Ou seja, a marcha de ontem foi singular e seria expectável que sob qualquer critério com o mínimo de razoabilidade tivesse uma cobertura noticiosa relevante. Mas não foi nada disso que aconteceu…

RTP empurra para a frente

O Telejornal da RTP não considerou que a Marcha fosse motivo de abertura, pelo contrário, empurrou-a para o mais tarde que conseguiu. Assim, apenas 20 minutos após o seu início veio a primeira de duas curtas peças sobre a Marcha. A ordem cronológica do Telejornal até à Marcha foi, a abrir o caso Sócrates, depois Passos sobre Sócrates, incêndio em fábrica de tintas, convenção do PS, lesados do BES, iniciativa de PSD e CDS(repescada, pois tivera lugar no dia anterior), novamente a convenção do PS(só sobre a convenção do PS foram mais de 6 minutos), e eis que, finalmente, a CDU.

As duas peças juntas, as tais que apenas ao fim de 20 minutos a RTP apresentou, tiveram os tempos somados de 3 minutos. Em nenhuma das peças houve qualquer plano panorâmico sobre a Marcha, apenas imagens focadas sobre quem estava em palco ou pequenos grupos de manifestantes.

Na segunda peça houve um breve roda-pé sobre o número de autocarros(que rapidamente saiu de imagem), nas duas peças houve 3 entrevistas a participantes, não se tendo feito qualquer referência aos números da organização sobre o total de participantes. Apenas se soube que a Marcha “reuniu várias gerações”.


Na SIC, a estrela foi a Branquinha 

A SIC conseguiu fazer um pouco pior que a RTP, conseguiu ridicularizar-se ainda um pouco mais.
O Jornal da Noite da SIC também empurrou a Marcha da CDU mais para a frente, abriu com o caso Sócrates, seguiu para a convenção PS e, ao fim de 9 minutos, lá chegou uma única peça sobre a Marcha.

A primeira imagem da peça, o primeiro impacto, que a SIC dá da Marcha é a de uma cadela a beber água, seguem-se mais 40 segundos com a cadela a beber água e/ou em acrobacias rumo ao colo do dono, e ainda uma entrevista ao dono onde o telespectador fica a saber que a branquinha “é um cão espectacular que veio da rua”, dos 4 minutos totais que durou a peça da SIC, os primeiros 40 segundos foram passados nisto.




Após o destaque a Branquinha, uma imagem positiva da cabeça da Marcha, a que se seguiram diversas entrevistas aos participantes, o que não teria mal nenhum desde que não se entendesse que esses grandes planos individuais seriam instrumentais para esconder tudo o resto que se passava à volta, como de facto aconteceu. Seguindo esta linha de encobrimento, a SIC colocou em imagem na peça um momento em que o grande plano é uma Praça dos Restauradores mal composta e com a Marcha ainda por chegar.

De resto, mais do mesmo, nenhuma perspectiva panorâmica sobre a Marcha e da intervenção de Jerónimo de Sousa tivemos 31 breves segundos(a Branquinha teve 40 segundos de atenção). Nenhuma referência ainda ao número de participantes da organização, ou outros por tentativa de aproximação. O telespectador limitou-se a ouvir que foram milhares…o que conjugado com as imagens exibidas permitiria eventualmente concluir que não estariam muitos milhares.


A TVI não foi a pior

A TVI seguiu um critério semelhante ao da RTP e SIC. Contudo com algumas diferenças que é justo referir.

Devido à final da Liga dos Campeões de futebol, o Jornal das 8 começou às 19:00. Cronologicamente, a sua sequência de abertura foi(e a esta hora ainda não havia notícias de Sócrates) a final da Liga dos Campeões, o incêndio na fábrica de tintas, a convenção do PS, iniciativa de PSD e CDS(tal como a RTP, também foi repescar uma iniciativa já do dia anterior), e finalmente a Marcha numa peça de apenas cerca de 2 minutos.

A peça da TVI destaca-se das peças da RTP e SIC apenas por dois motivos, foi a única que, pelo menos, tentou dar uma imagem panorâmica que reflectisse dentro do possível a dimensão da Marcha e foi a única que citou o número de manifestantes referido pela organização. Os seus breves 2 minutos assim até nem pareceram tão maus, e terão permitido ao telespectador ter uma ideia da dimensão da Marcha.


Em relação aos jornais de Domingo dia 7, zero. 

Nos quatro principais jornais generalistas de hoje, Domingo dia 7 de Junho, nenhum faz qualquer referência de capa sobre a Marcha de ontem. O Público deu a sua fotografia de capa a um “caçador de tesouros” e é o único jornal que faz uma breve, mas errónea no conteúdo, referência ao “líder do PCP”. Ao que parece no desenvolvimento da notícia d’O Público lá vem a fúria, a aldrabice e a cegueira costumeiras.

Creio que estes encobrimentos e desaparecimentos da Marcha Nacional A Força do Povo, nas várias deturpações publicadas, pelo estilo, natureza e forma, pelo método e conteúdo, não serão mera azelhice ou coincidência, falta de atenção ou de pessoal de serviço. Antes reflectem opções políticas e ideológicas dos proprietários económicos da comunicação social, ou proprietários fácticos das suas linhas editoriais, colocando-as ao serviço dos grandes grupos económicos, intoxicando e subvertendo o papel e função da comunicação social.

Quem paga, manda. Quem tem o poder, manda. E as eleições vêm aí. A CDU, o seu projecto e a sua força humana são incómodas, são para desaparecer, por forma a que tudo siga como até agora. Pensarão eles.

P.S.- a Marcha da CDU observada pela perspectiva da televisão venezuelana TeleSur aqui
P.S.2- para que não haja qualquer mal-entendido, gostava que ficasse claro que gostei de ouvir tudo o que os camaradas e amigos presentes na Marcha disseram e como disseram aos órgãos de comunicação social(as suas motivações são as minhas). Estamos na Luta!

Até Sempre Comandante Mozgovoy


(Mozgovoy intervém nas celebrações da Revolução de Outubro)

Alexey Mozgovoy terá falecido hoje, vítima de um atentado, juntamente com mais três pessoas. Mozgovoy, originário da região de Lugansk,  foi poeta e solista de coro antes do despoletar do processo de fascização da Ucrânia, contra o qual se opôs activamente desde o início das manifestações pro-UE na Praça Maidan de Kiev, fundando o Batalhão rebelde Fantasma. Mozgovoy desde o início da guerra apelou à reconciliação de todos os ucranianos, de Oeste e Leste, insistindo na ideia da separação entre classes no interesse pela guerra civil e na necessidade de punir os oligarcas pela guerra e pelo saque do país.

Pela sua lucidez, coragem, exemplo e estímulo, Mozgovoy tornou-se um alvo prioritário. Por diversas vezes a sua morte foi tentada(e anunciada), surgindo daí a alcunha de Fantasma para o seu batalhão.
O exemplo de Mozgvoy perdurará.

Na juriš! (35 anos depois de Tito)





(Na juriš! é uma Canção da resistência jugoslava, composta em 1943, pela Brigada Eslovena “Levstik”, e que aqui é interpretada pelo Coro Partizan de Trieste ‘Pinko Tomazic’)

Na  juriš!

Ao assalto, ao assalto, ao assalto,
Ecoa nas madeiras o clamor dos combatentes,
As fileiras inimigas são grandes!
Atirar, esquivar, bater, atirar!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.
Atirar, esquivar, bater, atirar!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.

Ao assalto, ao assalto, ao assalto,
Vingaremos as casas queimadas,
Vingaremos todos os nossos túmulos!
Baniremos os demónios e pouparemos o sofrimento!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.
Baniremos os demónios e pouparemos o sofrimento!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.

Ao assalto, ao assalto, ao assalto,
Já canta a nossa metralha
Pelas florestas, pelos vales e montanhas,
Dispara e não falha, de sangue inimigo
A terra deve banhar
Ao assalto, Partizan!

Sobre o Luiz Pacheco!

Escrever sobre Luiz Pacheco é difícil, dificílimo, por mais singela que se queira a homenagem. É assim quando se gosta mesmo de Pacheco. A sua força, a sua garra, a sua coragem, o seu desprendimento e despudor, a sua inteligência, a sua extraordinária capacidade de se expressar e de escolher as palavras certas no momento certo, a sua coloquialidade… O Pacheco não foi mais um escritor, nem a sua obra foi vulgar. Nem na forma nem no conteúdo. Bastará lembrar que Pacheco termina o seu trabalho literário sem um único romance de grande fôlego. Ler mais