Je pourrais être Mourad Hamyd

Nacional

12 mortos. Vimos as caras dos cartoonistas, a cara do polícia. 3 suspeitos. Vimos a cara dos irmãos Kouachi, entretanto mortos, e soubemos que Mourad Hamyd, cunhado de Cherif Kouachi, era o terceiro suspeito, presumivelmente teria guiado o carro da fuga. Durante várias horas eram 3 os suspeitos, para muitas pessoas em todo mundo eram 3 os assassinos, mas Mourad entregou-se à polícia francesa e com ele trazia a prova da sua inocência: à hora do ataque estava na escola. Colegas e professores rapidamente o apoiaram e confirmaram essa informação. Para os orgãos de informação, o terceiro “suspeito” era agora inocente, mas o epíteto “suspeito” continuava lá.

Hoje as coisas tomaram outro rumo, infelizmente um rumo com mais ataques, com mais sangue e com mais mortes. Já quase não se menciona Mourad Hamyd, mas desgraçadamente ele continuará sempre a ser “suspeito”. Não para a maioria, mas para uma minoria em número suficiente para dificultar muito a paz e o sossego do resto da vida de Mourad.

Este é daqueles acontecimentos que marcam uma era, gerações, a História. Não sabemos o que irá mudar com este ataque, mas é nestes momentos que uma sociedade que se diz civilizada – seja lá isso o que for -, deve fazer prova disso mesmo. Não é aceitável que se deixe circular uma informação com este tipo de gravidade e de tão fácil verificação. Não é aceitável que se ponha em risco a vida de uma pessoa inocente. Não seremos todos e todas Charlie, sobre isso já muito se escreveu, mas potencialmente somos todos e todas Mourad.

A informação viaja com mais velocidade do que a luz, para o bem e para o mal. Foi através dessa velocidade que foi possível perseguir e encontrar tão rapidamente os 2 presumíveis culpados do ataque e foi essa mesma velocidade que virou todos os focos e ódios para Mourad. Nos próximos dias vai debater-se muito o que se passou, o que devemos fazer para que não se volte a passar e porque se passou, presumo que se debata pouco como foi possível que através de má informação, durante umas horas, um inocente tenha tido a cabeça a prémio.

Mais do que nunca esta é a hora de respirar fundo, manter a calma e a cabeça muito fria e imparcial. Com essa atitude devemos questionar o que é esta sociedade da informação, quais são as consequências de se ter permitido a criação de monopólios de informação e a criação de empresas e entidades supra-estatais que nos espiam de forma legal, ou mesmo ilegal e sem consequência.

Ontem, François Hollande dizia-nos que a França estava em guerra contra o terrorismo, não contra nenhuma religião ou comunidade. Nesta guerra a informação e a sua propagação são armas decisivas, é também decisivo que as mãos que a manipulam sejam o mais limpas e honestas possível.

Nota final: apesar de, segundo Hollande, a guerra não ser contra nenhuma religião ou comunidade, é Hollande, no mesmo discurso, que aproveita para dizer que se calhar temos de começar a repensar as leis de imigração para a União Europeia… Mourad Hamyd é inocente, mas pelos vistos continuará a ser suspeito, sem aspas, de viver onde não o querem.