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Medina e o amarelo da Carris

Carta Aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina.

Caro Fernando,
Ouvi-o dizer há alguns meses que o conceito de “turistas a mais não existe. Não tem sentido“. Em plena época de recreio gostava de o incitar a fazer um teste: viver durante uma semana na cidade cujos destinos tem gerido apenas com o passe nas mãos, o mais básico, mantemos o teste dentro da primeira coroa da cidade.

O que sugiro é que vá viver para um local da cidade de Lisboa e que, todos os dias, imagine que trabalhe num sítio diferente. Nesta sua semana sugiro então um conjunto de tarefas:

– apanhar o 28E no Martim Moniz tendo que chegar em meia hora ao final da linha, leve o protector, que a exposição ao elemento solar é perigosa!;
– apanhar o 15E no Cais do Sodré em direcção a Belém, a qualquer hora do dia, aqui terá duas experiências diferentes, a da sardinha em lata ao sol e a da sardinha em lata à lua, porque o eléctrico maior não deve conseguir andar de noite… sugestão, se tiver sono, saia meia hora mais cedo, porque naturalmente não vai apanhar o primeiro eléctrico;
– apanhar a linha verde do metro no Cais do Sodré às 8h30 da manhã (ainda bem que agora Arroios fechou, senão era sardinha em lata subterrânea);
– esperar pelo 760 no Desterro, por exemplo. Mas não se esqueça de mandar sms para a Carris e confirmar que o próximo autocarro chegaria a si dentro de 15 minutos, isto durante 25 ou mais…;
– apanhar a linha azul em São Sebastião por volta das 16h e ver que o próximo metro chega dentro de 9 minutos. Esperar 2 minutos, voltar a olhar para o tempo e ver que o próximo metro chega dentro de…9 minutos. Esperar mais 2 minutos…já percebeu, certo?
– para terminar, aconselho-o a fingir que é carteiro e que trabalhar na Baixa, de preferência tem de entregar cartas na Rua Augusta. Coisas com que terá de ter cuidado: pessoas que travam de repente para a selfie; círculos espontâneos que ocupam toda a rua para verem um artista de rua; empregados de restaurante que, tentando dar o seu melhor, o param a cada passo lhe dizerem “hello!”; e enfim, todo um labirinto de pernas, gadgets, pára-arranca a caminho.

Pronto, fiquemos por aqui.

Se depois de cumprir estes desafios continuar a achar que não há turistas a mais, tiro-lhe o chapéu, é um guru da paciência. Se conseguir passar por isso e nem por um segundo tiver vontade de soltar um berro no meio da rua porque o 728 vinha cheio e não parou, prometo que lhe ergo uma estátua.

Mas até vou concordar consigo, não há turistas a mais, é verdade. Mas há autocarros a menos, metro a menos, limpeza a menos, planeamento a menos, sentido do real a menos. O Fernando tem um gabinete, sai do gabinete vai para os estofos do automóvel, e dos estofos do automóvel para o conforto da casa. Deve chatear-se por vezes com o trânsito, mas este seria menos com transportes a mais…

Enfim, Lisboa está um caos, convença-se disso.
Se quer, como todos queremos, que continuem os estrangeiros a adorar Portugal e Lisboa, pense que a primeira coisa a fazer é mesmo dar melhores condições para quem cá vive, viver melhor, mover-se melhor, desperdiçar menos energias a rogar pragas à enchente de turistas.

Repetindo, o problema não é a enchente, é o serviço da Carris não dar mostras de melhoria, são os constantes problemas técnicos do Metropolitano (até quando havia muitas greves o metro passava mais vezes…), é a impossibilidade que uma família normal tem para alugar uma casa sem ter de hipotecar a vida, é a palermice de decidir que o caos de Lisboa devia aumentar com obras em cada m2 só para chegarmos ao final de Setembro com o seu ego ajardinado.

Por mim estou farto de Lisboa, só não fui já embora porque a minha actividade, para já, não o permite. Mas lhe garanto, assim que tenha possibilidade para o fazer, ála que se faz tarde! Pelo menos passo a ser menos um para lhe dizer que enquanto tivermos respeito a menos por quem vive na cidade, continuará sempre a haver turistas a mais.

Maio130: A História do 1º de Maio


Vídeo feito para o espectáculo “Maio 130”, apresentado na Festa do Avante (Café-Concerto de Lisboa) a 4 de Setembro de 2016.

O espectáculo feito “a partir dos acontecimentos de 1886 em Chicago, que marcaram a luta dos trabalhadores e definiram o 1.º de Maio como o seu dia internacional de celebração e de luta”, cruzou “componentes documentais, poéticas e artísticas de diferentes geografias e momentos históricos.

Vídeo de Ana Nicolau, texto de Joana Manuel.
Locução de Joana Manuel e André Albuquerque.

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Desta vez foi anunciado o fim do Teatro da Cornucópia. Naturalmente, não somos indiferentes a esta decisão e notícia, mas também não ficamos surpreendidos. É cada vez mais frequente vermos estruturas e projectos a encerrar ou a prosseguir à custa da descaracterização profunda do seu projecto artístico. Quem seguiu o trajecto de desinvestimento público na criação artística sabia bem que os actos resultariam em empobrecedoras consequências, o encerramento da Cornucópia é uma das mais visíveis.

Entre muitas declarações públicas, ouvimos o Presidente da República, debaixo dos focos da comunicação social, indagar o Ministro da Cultura sobre possíveis soluções para um caso concreto. Preferíamos que o Presidente da República se tivesse indagado publicamente sobre como foi possível, décadas a fio, sucessivos governos desrespeitarem a Constituição e terem activamente contribuído para o definhamento do tecido social da criação artística em Portugal. O esvaziamento contínuo da criação artística conduz a um consequente empobrecimento da sociedade e da sua capacidade de expressão. Contrariar este esvaziamento é garantir-lhe a liberdade a que tem direito.
É preciso manter abertas todas as portas de projectos e estruturas que trabalham por esse país fora e deixar abrir todas as outras que se fecharam ou estão por abrir. Em todo os lugares, em todas as áreas artísticas, os mais diferenciados projectos de criação independente caminham num fino e frágil arame que ao menor deslize se romperá com a garantia certa da irreversibilidade dessa ruptura. São muitos os programas que ficam por cumprir, os espectáculos que têm ficado por fazer, os filmes que não são produzidos, os projectos que não chegam a realizar-se. São muitos os trabalhadores e trabalhadoras que têm ficado sem trabalho, que têm emigrado, que têm desistido de fazer aquilo que sabem fazer. São milhões aqueles que ficam impossibilitados de ver, ouvir, experimentar e sentir de outro modo.

Quando um cada vez maior consenso insiste na necessidade de reforço substancial do financiamento da actividade artística, não o faz por mero capricho. Fá-lo porque sabe que essa é a única forma de garantir que a criação e fruição culturais, tal como o exige a letra da Constituição, são acessíveis a todas as pessoas neste país, independentemente da sua condição social, vivendo nos centros urbanos ou na mais recôndita aldeia, interessadas ou envolvidas nas mais diversas formas de expressão. E é por isso que as estruturas de criação são financiadas: para cumprirem a prestação de um serviço público de qualidade e para que a criação artística seja diversificada e não fique refém da sua mercantilização.

E por mais que haja quem diga que muito há a fazer para lá dos números – e há -, enquanto a questão primordial do financiamento não for resolvida, teremos sempre esse muro imenso a separar-nos da possibilidade de levar a cabo tranquilas e detalhadas análises de fundo que possam lançar as bases para decisões sustentadas e informadas sobre o serviço público de cultura que gostaríamos de ter.

O que nos une não são consensos sobre formas de gestão, muito menos sobre escolhas estéticas. Une-nos sim a complexa mas indispensável garantia da democraticidade e da diversidade cultural e artística. Une-nos a necessidade de manter abertas as portas das estruturas de criação existentes e de criar as condições para o aparecimento de outras portas. Porque são abomináveis os fins prematuros a que temos assistido e a que poderemos continuar a assistir, em que tanta e tanta gente não chega sequer a descobrir o tanto que tinha ainda por dizer.

O apelo que fazemos não é apenas dirigido aos diferentes órgãos de soberania e às entidades públicas que diariamente fazem o Estado funcionar. O apelo que fazemos é dirigido a todas as pessoas que ao lerem esta carta aberta se recusem a aceitar o fim prematuro de tantos projectos artísticos, para que exijam a possibilidade de ver nascer, crescer e consolidar todos os projectos que a arte deste país lhes puder oferecer. Que se recusem a aceitar que a precariedade, os baixos salários, o trabalho não-remunerado e a negação de tantos direitos laborais sejam a forma de sustentar a actividade artística. Que se recusem a aceitar que o país continue a querer desenvolver-se sem respeitar um dos vectores mais decisivos para a sua democratização, a Cultura.

Então, este apelo é simples:

Não há tempo a perder. 1% do Orçamento do Estado salva mil cornucópias. Lutemos por isto. Exijamos este compromisso.

SUBSCREVEM

Alexandra Diogo – actriz
Alexandra Lázaro – psicóloga clínica
Alexandra Lourenço – arquivista
Alexandre Alves – assistente de realização
Alex Cortez – músico
Alfredo Brito – actor e locutor
Alípio Padilha – fotógrafo de cena
Amarílis Felizes – economista
Ana Alves Miguel – funcionária da administração local
Ana Araújo – professora
Ana Brandão – actriz
Ana Caetano – bailarina
Ana Cláudia Serrão – músico
Ana Figueira – directora artística
Ana Filipa Martins – bióloga
Ana Jacobetty – pianista
Ana Lázaro – actriz, dramaturga e encenadora
Ana Nicolau – realizadora
Ana Moura – fadista
Ana Mourato – encenadora e actriz
Ana Paula Santos – professora
Ana Pereira – produtora teatral
Anabela Laranjeira – professora
André Albuquerque – actor
André Levy – biólogo e actor
André Vazão – estudante
Andreia Bento – actriz
Andreia Salavessa – arquitecta
Ângela Cerveira – técnica de cinema
António Amaro das Neves – historiador
António Durães – actor
António Sousa Dias – compositor e professor
Armando Possante – cantor e professor
Áurea Duarte Ferreira – professora

Beatriz Maia – estudante de teatro
Beatriz Peixoto – estudante
Bruno Raposo Ferreira – psicólogo clínico e investigador
Bruno Schiappa – actor e encenador

Camila Reis – ilustradora
Carla Bolito – actriz
Carla Veloso – actriz
Carlos de Andrade – economista
Carlos Borges – actor
Carlos Costa – dramaturgo, encenador e actor
Carlos Seixas – produtor musical
Carlos Vidal – professor universitário e crítico de arte
Carlota Lagido – coreógrafa, figurinista e bartender
Catarina Molder – cantora lírica, gestora cultural, apresentadora
Catarina Moura – cantora
Catarina Mourão – realizadora
Catarina Rôlo Salgueiro – actriz
Cátia Barros – cenógrafa e figurinista
Cátia Pinheiro – encenadora
Célia Machado – produtora executiva
Célia Williams – actriz
Cláudia Cláudio – professora
Cláudia Dias – coreógrafa
Cláudia Lucas Chéu – dramaturga e encenadora
Cláudia Marisa Oliveira – docente
Cláudia Silvano – produtora
Cristina Maria Figueiredo – professora
Cristina Planas Leitão – coreógrafa
Cristina Santos – professora de dança e gestora cultural
Cucha Carvalheiro – actriz
Custódia Gallego – actriz

Daniel Lima – músico
Daniel Moreira – artista plástico
Daniel Sousa – músico e professor
Deolindo Leal Pessoa – médico
Diana Costa e Silva – actriz
Dörte Schneider – assistente de realização

Edna Geovetty – estudante
Eduardo Carvalho Pacheco – produtor
Eduardo Costa – professor reformado e escritor
Eduardo Ribeiro – actor
Eliana Veríssimo – professora e pianista
Elsa Figueiredo – bibliotecária reformada
Elsa Valentim – actriz
Emanuel Arada – actor

Fátima Leal – assistente social
Fátima Rolo Duarte – designer
Fernanda Lapa – actriz e encenadora
Fernando Jorge – actor
Filipa Malva – cénografa e figurinista
Filipa Prates Coelho – produtora
Filipa Vala – bolseira de pós-doutoramento em divulgação e comunicação de ciência
Filipe Melo – músico
Francisco Rebelo – músico

Gil Cabugueira – direcção de produção
Graeme Pulleyn – encenador

Hugo C. Franco – técnico de luz e criador multimédia
Hugo Lemonnier – estudante

Idália Tiago – socióloga
Igor Gandra – director artístico e encenador
Inês Barbedo Maia – produtora de teatro
Inês Lago – actriz e encenadora
Inês Meira – estudante
Inês Gomes – estudante
Inês Gregório – produtora
Íris Reis – assistente de realização
Issac Achega – músico
Isabel Anastácio – reformada
Isabel Casimiro – professora reformada
Isabel Craveiro – actriz e encenadora
Isabel Medina – actriz e encenadora
Isabel Lebre – assistente de realização
Isabel Pereira – secretária
Isilda Sanches – locutora de rádio
Ivo Costa – músico

JP Simões – músico
Joana Almeida – actriz
Joana Brandão – actriz e encenadora
Joana Dourado – bolseira e cantora
Joana Gomes – cenógrafa
Joana Gusmão – produtora
Joana Lourenço Cardoso – directora de arte
Joana Manuel – actriz
Joana von Mayer Trindade – coreógrafa, bailarina e professora
Joana Providência – coréografa
João Barreiros – técnico de luz
João Cabrita – músico
João Castro – actor
João Gesta – programador cultural
João Hasselberg – músico
João de Mello Alvim – encenador
João Monge – autor
João Nuno Martins – produtor
João Paulo Janicas – professor
João Pedro Rodrigues – realizador
João Sotero – escultor
João Sousa – músico
John Havelda – professor universitário
Jonathan de Azevedo – designer de luz
Jorge Cadima – professor universitário
Jorge Ferreira da Costa – assistente de realização
Jorge Louraço Figueira – dramaturgo
Jorge Palinhos – docente
Jorge Silva – actor
José Arruda – antropólogo
José Carlos Faria – cenógrafo
José Carlos Nelas – enfermeiro
José Castela – professor
José Gusmão – economista
José Laginha – bailarino e director artístico
José Leite – actor
José Luís Ferreira – produtor e programador
José Luís Lopes – assistente de realização
José Nunes – encenador
José Peixoto – actor e encenador
José Russo – actor e encenador

Kimi Djabate – músico

Lara Li – cantora
Lígia Roque – actriz e encenadora
Lígia Soares – coreógrafa e actriz
Loubet Simões – técnico de conservação e restauro
Luciana Fina – realizadora
Luísa Ortigoso – actriz
Luís Castro – encenador e investigador
Luís Gaspar – actor
Luís Lopes – músico
Luís Pacheco Cunha – músico
Luís Pedro Madeira – músico
Luís Possolo – poeta

Mafalda Simões – directora de produção e comunicação
Manuel Gusmão – poeta e ensaísta
Manuel Loff – historiador
Manuel Mendonça – actor
Manuel Rocha – músico e professor
Manuela Pires – jurista
Márcia Lima – actriz
Margarida Madeira – animadora e ilustradora
Margarida Pinheiro – professora e cantora
Margarida Rita – produtora teatral
Margarida Sousa – actriz
Marlene Duarte – podologista
Maria Alice Samara – historiadora
Maria Anadon – cantora
Maria Gusmão – técnia superior da admin. pública
Maria Helena Alves – empregada sindical reformada
Maria João Fura – músico e cantora
Maria João Garcia – produtora
Maria João Luís – actriz e encenadora
Maria João Simões – directora técnica e de cena
Maria de Lurdes Nobre – produtora cultural
Maria Manuel Ferreira de Almeida – técnica superior FLUC
Maria do Mar – músico
Maria Sequeira Mendes – professora de teoria do teatro
Mariana Magalhães – actriz
Mário Afonso – bailarino e coreógrafo
Marlene Cavaco – conservadora restauradora
Marta Bernardes – artista plástica e de cena
Marta Carreiras – cenógrafa e figurinista
Marta Manuel – professora e músico
Marta Pinho Alves – professora do ensino superior politécnico
Marta Silva – bailarina
Matamba Joaquim – actor
Miguel Bonneville – artista
Miguel Gonçalves Mendes – realizador
Miguel Moreira – artista
Miguel Oliveira (MOLÉCULA) – rapper
Miguel Pires Ramos – director de programas tv
Mónica Calle – actriz e encenadora
Mónica Garnel – actriz
Mónica Talina – actriz e produtora cultural

Nádia Monteiro – assessora de imprensa
Nélson Duarte (Sr. Alfaiate/DJ Nelassassin) – dj hip hop
Nuno Almeida – assistente administrativo da CML
Nuno Góis – actor
Nuno Grácio – músico
Nuno Machado – actor
Nuno Pinto Custódio – encenador
Nuno Vieira de Almeida – músico

Octávio Gameiro – professor, autor e tradutor
Ofélia Libório – educadora de infância
Olga Roriz – coreógrafa
Orlando Santos – músico

Patrícia Calais Garcia – técnica superior da Seg.Social
Patrícia Santos Pedrosa – arquitecta e investigadora
Paolo Marinou-Blanco – realizador e argumentista
Paula Almeida Silva – assistente de produção
Paulo Capelo Cardoso – artista plástico e cenógrafo
Paulo Montez – produtor
Paulo Moura Lopes – actor
Paulo Raposo – antropólogo e docente universitário
Pedro Barbosa – produtor
Pedro Estorninho – encenador
Pedro Gil – actor
Pedro Jordão – arquitecto
Pedro Lamas – actor e professor de teatro
Pedro Madaleno – músico
Pedro Madeira – assistente de realização
Pedro Penilo – artista plástico
Pedro Pernas – actor
Pedro Pestana – músico
Pedro Pousada – artistas plástico e professor universitário
Pedro Rodrigues – produtor teatral
Pedro Sabino – argumentista
Pedro Sousa Loureiro – actor, encenador e artista plástico
Pedro Vieira – guionista

Rafaela Lacerda – bióloga e encenadora
Raquel Bulha – locutora de rádio e tv
Raquel Castro – actriz
Raquel Castro – investigadora
Renata Sancho – realizadora
Renato Azul – músico e videógrafo
Ricardo Alves – encenador
Ricardo Correia – encenador
Ricardo Neves-Neves – encenador e actor
Ricardo Pinto – músico
Ricardo Vaz Trindade – actor
Rita Cruz – actriz
Rita Maia – dj
Rita Namorado – pianista e professora
Rita Natálio – performer, escritora e investigadora
Rita Santos – produtora
Rita Saraiva Grade – bailarina
Rita Simões – professora
Rita Veloso – professora
Rodrigo Malvar – actor e artista sonoro
Rogério Nuno Costa – artista
Romeu Costa – actor e encenador
Romeu Runa – bailarino
Rui Alves – músico
Rui Ferreira – criativo
Rui Francisco – arquitecto e cenógrafo
Rui Galveias – músico e artista plástico
Rui Guerra – músico
Rui Júnior – músico
Rui Monteiro – desenhador de luz
Rui Pité (RIOT) – músico
Rui Valente – director técnico

Sandra Cristina Rodrigues – bancária
Sara Barbosa – encenadora e actriz
Sara Carinhas – actriz e encenadora
Sara Gonçalves – actriz e encenadora
Sara Trindade – assistente social
Sara Vaz – bailarina e actriz
Saúl Falcão – professor e músico
Sebastião Faro – publicitário
Sérgio Alves – designer
Sérgio Dias Branco – professor universitário
Sérgio Godinho – músico e escritor
Sérgio Machado Letria – gestor cultural
Sílvia Filipe – actriz
Sónia Arantes – produtora
Sofia Oliveira – directora de produção
Sofia de Portugal – actriz
Sofia Reis – produtora executiva
Susana Bilou Russo – antropóloga
Susana Fonseca – decoração
Susana Moody – músico
Susana de Sousa Dias – realizadora

Tadeu Faustino – actor
Tânia Alves – actriz
Tânia Guerreiro – actriz
Tânia Guerreiro – gestora cultural
Teresa Almeida – administrativa
Teresa Carvalho – artista plástica
Teresa Coutinho – actriz
Teresa Faria – actriz e encenadora
Teresa Lopes – professora
Teresa Miguel – directora de produção
Teresa Sobral – actriz
Thomas Walgrave – director artístico
Tiago Baptista – conservador de cinema
Tiago de Lemos Peixoto – dramaturgo
Tiago Mota Saraiva – arquitecto
Tiago Santos – músico
Tiago Silva – montador de som
Tomás Pimentel – músico
Tó Trips – músico

Vanda Cerejo – actriz
Vânia Couto – cantora, coordenadora de projectos e professora
Vânia Rovisco – coreógrafa e performer
Vasco Araújo – artista plástico
Vasco Nogueira – médico
Vasco Paiva – engenheiro florestal
Vasco Peres – maquinista de cena
Vasco Pimentel – director de som
Vera Marques – produtora
Vera Moura – estudante
Vera Silva – perchista
Vicente Alves do Ó – realizador
Vítor d’Andrade – actor
Vítor da Glória Silva – bancário reformado
Victor Pinto Ângelo – assistente de produção

Zézé Gamboa – realizador
Zillah Branco – socióloga

Ela é que guia, e então?

Quando começámos a namorar ela já tinha a mota. Confesso que sempre tive algumas dificuldades (chamemos-lhe medo, pronto) em andar de mota, o que fez com que só passado vários meses me tenha sentido confortável, e a esforço, para me deslocar no dito veículo. Mas era estúpido não usufruir da mobilidade extra que se ganha numa Lisboa caótica e portanto tenho enchido o peito e temos ido a sítios com ela ao volante.

Ela vai sempre ao volante porque o passo de ser eu a conduzir de vez em quando não é fácil. Para começar aprendi a andar de bicicleta tarde e mal – sou um Indurain em estrada aberta, mas quando é preciso parar e retomar a marcha muitas vezes ou contornar obstáculos de forma constante, rapidamente me transformo numa criança de 3 anos que ainda não percebeu o que é isso de coordenação motora -, e nunca na minha vida experimentei fazê-lo em cidade. Ora, portanto, a passagem para as duas rodas e com motor, no meio dos buracos, dos semáforos verde-tinto, das ciclovias cheias de peões, etc., não será fácil…

Mas este texto não é sobre a minha dificuldade (medo) em pilotar uma vespa, é sobre os olhares que nos lançam quando a vêm a ela, mulher, ao volante, e a mim, homem, à pendura. E não são poucos nem de raspão. Há quem fique especado, com aquela expressão na cara de quem ainda acha que “parece impossível, um gajo daquele tamanho ser conduzido por uma gaja…”

Chega a haver dedos apontados, envergonhados e rápidos, mas apontados, chega a haver quem faça questão que eu perceba que estão a censurar, quem sabe a achar que serei meio-homem por me submeter a tamanha humilhação. E esta reprovação não é uma coisa exclusiva a fortes e viris machos, muitas mulheres imprimem a mesma expressão facial, o mesmo sorrisinho reprovador, os mesmos dedinhos marotos a censurar.

É por coisas como estas que continuo a soltar uma lágrima quando me dizem que vivemos num país que respeita a igualdade de género. E neste caso o “problema” é o homem, porque é a mulher que assume uma posição de poder, e isso é demais para as cabeças de muita gente, isso é um pecado indesculpável.

Estamos a anos-luz da total desigualdade e subjugação de um(uns) género(s) em relação ao(s) outro(s), mas também ainda estamos a anos-luz da total igualdade. E não chega que se trilhe um caminho legislativo em direcção à igualdade, é preciso mesmo é resolver as cabeças, as mentes e os hábitos.

PETIÇÃO – DGArtes: financiamento 2017

Nas artes performativas temos boas e más notícias. As boas é que finalmente se irão rever os critérios e regulamentos dos concursos aos apoios da DGArtes. As más é que corremos o sério risco de manter um nível de financiamento similar ao de 2016. Querendo potenciar as boas notícias e tentando eliminar, ou pelo menos minorar as más, o CENA e o STE tomaram a iniciativa de lançar uma petição pública com algumas exigências.

A diversidade de agentes do sector que aceitaram ser primeiros subscritores e os que agora têm vindo a assinar, mostram que há uma convergência de preocupações muito grande em torno dos financiamento mas também do combate à precariedade e da valorização social das estruturas de criação artística.

É preciso assinar esta petição, dar-lhe força. Depois é preciso continuar a trabalhar para que as exigências nela contida se vão cumprindo. Mas vamos ao primeiro passo, ler e assinar. Ah, e depois divulgar por todos os meios e mais alguns. Vamos a isso?

DGArtes: financiamento 2017

Estar de cabeça limpa é o que todos desejamos quando realizamos o nosso trabalho. Ter a tranquilidade mental e a saúde física para desempenhar as funções que nos são exigidas da melhor forma possível. Para isso, são necessárias condições de trabalho, condições para sermos profissionais.

Não é novidade nenhuma que o meio das artes do espectáculo tem sofrido enormemente com a degradação destas condições.

A precariedade laboral tem levado a que muitos trabalhadores vejam as suas contas e as suas vidas penhoradas, ao serem empurrados para um regime contributivo da Segurança Social que não conseguem sustentar. A inexistência de contratos de trabalho coloca-os em situação de desprotecção social gritante, principalmente quando falamos das profissões que utilizam o corpo como instrumento de trabalho vital. Os baixos salários e o alastramento do desemprego impedem projectos de vida planeados.

Também as estruturas de criação têm visto degradadas as suas condições de produção e divulgação. É evidente a redução do número de apresentações. É evidente a produção de espectáculos com menos trabalhadores, limitando assim a liberdade de criação, sendo esta situação contornada, por vezes, com recurso a estagiários, muitas das vezes de forma ilegal ou com prejuízo da solidez artística. Para as estruturas (poucas) que têm espaços próprios, é cada vez mais difícil mantê-los, para as que não têm, o aluguer de salas de ensaio e/ou apresentação, tem-se tornado cada vez mais oneroso, cortando a possibilidade de crescimento destas estruturas.

E o cenário de 2017 não se afigura risonho. Estamos perante a possibilidade de serem suspensos os concursos plurianuais da DGArtes e de estender por mais um ano o apoio às estruturas que deles estavam a usufruir. É certo que a intenção de reformular os regulamentos dos concursos é de louvar, mas não podem os trabalhadores e as estruturas ficar, outra vez, prejudicados por esta boa intenção.

Estender o apoio por mais um ano, com valores idênticos ou ligeiramente superiores aos de 2016, até se encontrar a nova fórmula concursal, mantém as estruturas já apoiadas e os seus trabalhadores a viver abaixo do limite mínimo aceitável, impede que novas estruturas possam ser contempladas com apoios que lhes permitiriam solidificar o seu projecto artístico e empregar mais trabalhadores. É imprescindível que as verbas disponibilizadas pela DGArtes cresçam de forma exponencial, retomando valores já alcançados no passado.

Assim, o CENA, o STE e os trabalhadores, estruturas e espectadores que subscrevem este documento, exigem:

a) no próximo ano, um acréscimo significativo do apoio concedido às estruturas financiadas pelos plurianuais anteriores, garantindo que todas vêem o seu contrato estendido para 2017;
b) a abertura imediata de concursos pontuais, anuais e de internacionalização para 2017, com um reforço significativo de verbas, nunca inferior ao dobro do valor de 2016, garantindo o acesso de mais estruturas ao financiamento;
c) que, como já foi anunciado, se cumpra a intenção de ouvir todos os agentes do sector para a reformulação dos regulamentos dos concursos de apoio às artes;
d) que se regulamentem mecanismos simples e eficazes de combate à precariedade laboral no sector;
e) que as estruturas de criação artística vejam reflectida na sua carga fiscal a relevância que têm como agentes de dinamização artística, cultural e social.

ASSINAR AQUI

PRIMEIROS SUBSCRITORES

CENA – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual
Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos
PLATEIA – Associação de Profissionais das Artes Cénicas
Amarelo Silvestre
Artistas Unidos
Carlos Costa – actor/encenador
CENDREV
‘dobrar
Erva Daninha
Escola da Noite
Escola de Mulheres
Filipa Malva – cenógrafa
Festival Internacional de Marionetas do Porto
Inês Barbedo Maia – produtora
José Leitão – encenador
Julieta Guimarães – produtora
Manifesto em Defesa da Cultura
Máquina Agradável
Miguel Boneville – artista
Musicamera Produções
Pedro Carvalho – actor
Rodrigo Francisco – encenador
Sérgio Dias Branco – professor de Estudos Fílmicos, Universidade de Coimbra
Sónia Baptista – artista
Teatro Art’imagem
Teatro das Beiras
Teatro de Ferro
Teatro do Eléctrico
Teatro Extremo
Teatro Praga
Tenda
Teresa Arcanjo – actriz
Umbigo
Vasco Gomes – artista circense

Para que não haja dúvidas, este texto é sobre o Pedro Passos Coelho ter sido desobrigado pelo arquitecto Saraiva

Um arquitecto Saraiva que é jornalista, que escreve livros e que escreve crónicas sobre pêlos, elevadores e outros elementos do seu dia-a-dia cosmopolita. Um ex-primeiro ministro e ora líder da oposição Pedro Passos Coelho que é político, que é quase africano e que prevê a chegada do diabo à Terra para breve. Um livro badalhoco chamado “Eu e os Políticos”, escrito pelo arquitecto Saraiva, e uma apresentação de livro aceite pelo PPC, que entretanto foi desobrigada e que entretanto até já nem se vai realizar por motivos de segurança. Uma editora chamada Gradiva que ainda deve estar a pensar porque raio é que editou este livro. Seja liberal se lhes compro mais algum…

Pois é. O PPC aceitou apresentar o livro do Saraiva sem ler o que ele tinha escrito. Ele escreveu o que costuma escrever. Palermice, irrelevância e linhas de ressabiamento por não ser Niemeyer ou Saramago. Mas nem percamos mais tempo com a dita obra que não merece mais publicidade. Centremo-nos no Pedro. O Passos Coelho.

Diz que não sabia o conteúdo do livro quando aceitou o convite porque tem grande estima pelo Saraiva. Começa mal…

Diz que agora sabe o conteúdo e que não quer ficar associado a ele. Vá, todos temos direito ao erro seguido de perdão.

Diz que como é um homem de palavra (hum…) pediu ao Saraiva para o desobrigar de apresentar o livro. Pedro, uma poça cheia com a tua pata. Pedro, o que farias se o Saraiva não te tivesse desobrigado? Pois é. Tentaste, e bem, compor a asneirola mas como se diz em Massamá, saiu-te pior a emenda que o soneto.

Pedro, a coisa certa a fazer era: “Quero aqui anunciar que não estarei presente na apresentação do livro do Saraiva, que muito estimo e estimarei já que me ajudou sempre em horas de aperto, porque não quero ficar ligado ao conteúdo do livro que desconhecia, confesso, no momento em que aceitei o convite para o apresentar. Telefonei já ao Saraiva, que muito estimo e estimarei não só como jornalista mas também como arquitecto, dando-lhe conta da minha decisão e desejando os melhores sucessos para as férias que fará com as receitas deste livro. Não ficaria de bem com a minha consciência se estivesse presente na apresentação do livro do Saraiva, que muito estimo e estimarei não só como escritor mas também como sobrinho do Prof. José Hermano Saraiva, já que o conteúdo do livro é mesmo daqueles que não interessam nem ao menino jesus e tenta expor ao ridículo figuras políticas que também estimo, umas mais do que as outras. Já enviei um sms ao Ângelo Correia e ele respondeu a dizer que me apoia. Muit’brigado.”

Assim tinha sido bonito, e escusava de dizer que era um homem de palavra, que para se ter palavra é preciso não mentir. Não mentir sobre os impostos que se promete não aumentar e que rapidamente se aumenta, sobre os défices que estão controlados e que afinal não, sobre a solidez de bancos que afinal são tipo gelatina a desfazer-se na goela, e p’ia fora, como se diz em Massamá.

E depois é um tipo de fé, ou de fezadas, vá. Tanto aceitou apresentar livros sem saber o seu conteúdo como aceitou pôr em prática medidas que nem deve ter lido. É pelo menos um homem amigo do seu amigo, e isso tem o seu valor.

Mas se calhar não gosta mesmo é de ler e ponho aqui as mãos no fogo em como não leu o Orçamento do Estado para 2016 nem lerá o documento para 2017. Será que é por isso que o PSD nem se deu ao trabalho de apresentar medidas de alteração ao OE de 2016 e já anunciou que não apresentará para o de 2017? Certamente que é por isso, porque em nenhum momento se pode acredita que o façam por birra ou por falta de cultura democrática… E depois, o OE tem tantas páginas…

Bem, já vou longo. Fica o recado, se assim o quiseres aceitar, Pedro: por mim, e creio que muitos e muitas de nós, estás desobrigado de continuar a abrir boca. Até mai’logo, como se diz em Massamá.

P.S. – não comprem o livro do Saraiva, e se virem algum exemplar, deitem-lhe a mão e enfiem-no num marco do correio com destino à Nova Zelândia, pode ser que faça sucesso por lá e o queiram importar.

Uma noite em Kilkenny, ou porque é que a esperança não é para ter, é para manter

“The Hole in the Wall”, Kilkenny, Irlanda

Eu e ela andámos pela Irlanda. Passámos em Kilkenny – passem por lá que vale a pena. A noite foi passada num pub, claro, chamado “The Hole in the Wall“, que está aberto desde meados do séc.XVI! Nesse pub, nessa mesma noite, não estava muita gente, mas havia de tudo, e por ordem cronológica do contacto que tivemos com eles: o jovem barman irlandês; um dentista norte-irlandês católico e que emigrou para o sul; um casal suíço; o dono irlandês do pub e conceituado médico cardiologista; dois casais de norte-americanos que vivem perto de Kansas City.

E a conversa teve vários desenvolvimentos, todos quiseram saber novas de Portugal, todos tinham queixas do sistema político actual, todos tinham a cabeça meio baralhada nos conceitos, nas escolhas e nas prioridades. Mas vamos por partes, ou melhor, por personagens.

– o jovem barman irlandês: o que tenho a realçar é que não sabia o que eram os PIIGS e que, sendo músico e pelos vistos putativo maestro, não conhecia fado, o Chico Buarque e a Elis Regina.

– o dentista norte-irlandês católico e que emigrou para o sul: emigrou para o sul porque se sentia excluído na Irlanda do Norte. Disse qualquer coisa sobre se sentir um negro na África do Sul em tempo de apartheid. Disse também que vivemos em fascismo, que a Merkel isto e aquilo, mas depois, mais tarde, disse também que só gostava de dois políticos, Donald Trump e Vladimir Putin.

E como pessoa que sentiu a segregação religiosa na pele, achou por bem afirmar que há quem diga que Paris em 2050 e Londres em 2070, serão cidades islâmicas e que ele não quer viver em cidades islâmicas. Conclusão, é preciso mesmo expulsar os árabes do continente europeu.

– o casal suíço: entre eles falavam alemão, ele chamava-se Roberto (que pronunciou num italiano impecável), ela chamava-se Laure (que pronunciou num francês impecável). Mantiveram-se a noite toda a falar entre eles, pouco interagindo com os restantes. O alemão permite manter a distância, seja isso bom ou mau…

– o dono irlandês do pub e conceituado médico cardiologista: foi médico do corredor de Fórmula 1, Eddie Irvine, inventou um medicamento qualquer para o coração. Um cérebro. E a conversa ia bem, quando no início da noite disse que o pub não era dele, era do banco, que andávamos todos a trabalhar para pagar aos bancos. Até aqui tudo normal, é um facto indesmentível, o que se faz quanto a isso é que nos pode distanciar.

Não sei se estamos muito ou pouco distantes, mas esta mesma pessoa, que durante a noite mostrou ser bom anfitrião, a certa altura elogiou Donald Trump, dizendo que ele tem coragem de dizer coisas que os políticos nem sempre dizem, e que espera que para lá de as dizer, ele as faça. E quais são essas coisas? Dificultar a entrada de estrangeiros nos EUA, ora pois…

– os dois casais de norte-americanos que vivem perto de Kansas City: vamos subdividir em casal 1 e homem 2 (o homem do casal 2, sendo que não ouvi nada da mulher 2, a não ser cantar).

O casal 1 quer muito visitar Portugal. A filha dela esteve cá há pouco tempo (pela conversa a surfar no Alentejo) e adorou, prometeu também voltar. Adoram vinho, demos conselhos.

Quanto ao resto. Não gostam muito do Trump, mas também não gostam da Hillary. ainda assim talvez votem Trump, porque ele não é mentiroso, porque até é um homem de sucesso e porque não pode ser um monstro tão grande se gosta tanto, e demonstra, da mulher e dos filhos.

E sobre Bernie Sanders? Bem, esse é apelidado de socialista – ficámos sem perceber se para eles isso era bom ou mau -, mas na verdade até nem é, porque depois entra em contradição sobre alguns temas. Mas captou muito eleitorado jovem porque defende o acesso às universidades de forma gratuita. E o casal 1 concorda que o que se paga para tirar um curso nos EUA é absurdo. Um médico, por exemplo, tem de pagar cerca de 260.000$, fazendo com que, tendo recorrido a um empréstimo, chegue aos 30 e poucos anos com meio milhão de dólares de dívida ao banco. Mas o casal 1 continua a preferir o Trump…bem, o homem 1 balançou um pouco…

E um outro lado, menos comum e mais agradável. O casal 1 e o homem 2 afirmaram que detestam a arrogância norte-americana que os faz não estudar outras línguas, que os faz dizer que os EUA são o melhor país do Mundo e o resto é paisagem. Não gostam do complexo de superioridade, é isso. Positivo. Dizem que gostavam imenso de aprender outras línguas, de visitar outros países, era a primeira vez que saíam dos EUA e notaram logo que os irlandeses são gente muito, muito simpática. E são.

Disseram ainda que das coisas que tinham mais pena por viverem no Kansas, era a dificuldade de contacto com pessoas de outros países, porque quase nenhum turista vai visitar a cidade deles.

Conclusões: e porque é que vos conto este encontro nocturno? Porque ele não me sai da cabeça, porque sempre que dizem que só em Portugal é que acontece isto ou aquilo, cada vez me arrepio mais. Quando me disserem que só neste país é que há falta de activismo por causas, só neste país é que há um desconhecimento grande a nível político e ideológico, tomarei aquela noite como um belo barómetro.

É claro que há alheamento, desinformação, falta de cultura política, falta de prática democrática, alienação, mas isso acontece em todas as partes do globo. Nesta conversa estavam presentes pessoas com cursos superiores, com profissões que normalmente associamos a um certo nível intelectual, mas as baboseiras que saíram daquelas bocas foram similares às baboseiras que muita gente com graus académicos muito básicos diz.

Não é a academia que forma a solidariedade entre as pessoas e os povos, a academia americana não conseguiu travar um movimento recente de jovens estudantes universitários que acha que certos livros devem ser pura e simplesmente banidos das bibliotecas universitárias, sugerindo até eventos com fogueiras bem vivas e alimentadas pelas suas páginas. Não é a academia que elimina todos os preconceitos mais básicos e animais de alguns seres humanos, nem é ela que vai fazer com que abdiquemos do pequeno quintal que conquistámos durante anos.

O Mundo não é um lugar bonito, nem pacífico, e na maior parte do seu território e nas cabeças de muita gente, não está sequer a caminhar no sentido do progresso e da modernidade. O Mundo é mesmo um lugar estranho, que vive de equilíbrios muito precários, de constante luta por recursos e ideias de putativas sociedades ideais.

O ser humano está cheio de contradições, seja em Portugal, na Irlanda, na Suíça ou nos EUA. Mas o que me assustou mais naquela noite, foi mesmo a constatação de que não caminhamos para uma sociedade que queira paz, caminhamos para uma sociedade que se deixa levar na cantiga do cada um por si e se cada um não consegue o que quer a culpa é do outro. Depois é só escolher quem é o outro, se é o vizinho, ou se é o refugiado ou imigrante que nos entra pelo país e pela cabeça dentro aos trambolhões sem que os nossos Estados se preocupem em combater a xenofobia crescente. Internacionalismo não rimará nunca com racismo.

No dia em que os seres humanos perceberem que a luta é mesmo entre o fundo e o topo da pirâmide, o que o médico irlandês vai perceber é que se andamos todos a trabalhar para os bancos então o que é preciso não é expulsar quem vem para o nosso país, é lutar contra os bancos dos seus países de origem. O que os norte-americanos que acham incrível o custo da educação no seu país vão fazer, é provavelmente juntarem-se e começarem por acabar com o sistema de bipartidarismo que os oprime. O que o dentista norte-irlandês católico vai fazer é voltar para o Ulster e em conjunto com os seus pares protestantes libertar o país do imperialismo capitalista britânico.

No dia em que os seres humanos perceberem, deixa de haver pirâmide, porque a base deixa de suportar o bruto peso do topo.