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As críticas ao Ventura

André Ventura falta a um debate entre cabeças de lista às eleições europeias para participar num programa da bola e rimo-nos dele. André Ventura diz “Eu digo em voz alta o que as pessoas dizem nos cafés” e rimo-nos dele. De certeza que houve uns gajos na Alemanha dos anos 20 que também se riram daquele tipo enfezado e histriónico que liderava o NSDAP. Calculo que tenham perdido a vontade de rir quando bateram com os costados em Buchenwald.

Devia servir-nos de exemplo que limitarmo-nos a rir dos fascistas não é a melhor estratégia para os vencer. E atenção: eu também me rio do Ventura, mas tenho consciência de que isso pode ser contraproducente.

Mas adiante: o Ventura faltou ao debate das Europeias porque sabe que não ia lá ganhar votos. Mais; sabe que se lá fosse arriscava-se a que o seu discurso populista fosse exposto como um apanhado de ideias feitas sem programa ou projecto que o sustente. Mas no programa da bola ele expõe-se à vontade, sem o contraditório de um debate formal. Publicita-se. E para um populista isso basta; para um populista as eleições são um concurso de popularidade, e portanto basta que gostem dele, seja por dizer que é muito católico, que quer fazer a América grande de novo ou que quer acabar com a corrupção. Além de que comparecer ao programa da bola em que aparece regularmente lhe permite dizer que é uma pessoa que honra os seus compromissos e valoriza o seu ganha-pão. E isto dá-lhe crédito popular.

O Ventura diz que diz em voz alta o que é dito nos cafés porque isso lhe dá votos. Há anos que a cultura dominante incute no povo que a política é uma coisa de cúpulas, em que uns senhores com estudos decidem lá do alto o que é melhor para nós todos. E às tantas aparece um gajo (ou seja, a comunicação social decide que é hora desse gajo aparecer) que lhes diz que a sua opinião, aquela que até aqui estava circunscrita à mesa de café, é válida. E de novo: isto dá-lhe crédito social.

Como dizia o Ricardo M Santos há uns dias: quando falamos de André Ventura é bom recordar que foi o candidato apoiado por PSD e PP à Câmara Municipal de Loures, apoiado por Pedro Passos Coelho mesmo depois das declarações que fez sobre a comunidade cigana. Que foi candidato à liderança do PSD. Que além de comentador desportivo é (ou foi) professor auxiliar na Universidade Autónoma de Lisboa e professor convidado na Faculdade de Direito, que é doutorado, etc. A sua formação académica e os cargos que assume na academia não são negativos por si. Mas a sua consciência de classe acompanha a sua natureza, e ele fez uma opção clara pela burguesia. Pelo que o seu discurso populista é apenas um engodo e não uma adesão à defesa do interesses do povo e do país.

André Ventura diz que teve uma origem humilde, diz-se muito cristão, muito benfiquista e muito do povo. E dirá seja o que for desde que isso lhe traga votos.

E traz. Ouço com frequência pessoas a reagir ao Ventura como reagiram há uns anos ao Marinho e Pinto. Que é um gajo que “diz as coisas como elas são”, “umas boas verdades”. Em suma, que “é um gajo à séria, vou votar nele”. E se continuarmos a rir do Ventura, vão mesmo. Quando nos rimos da fachada popular do Ventura, há uma quantidade enorme de gente que se identifica com ele e sente que também é de si que nos estamos a rir.

O que o Ventura precisa de saber, e precisamos de ser nós a dizer-lho, é que nas mesas dos cafés há muito mais dignidade do que a que ele tem, e que as conversas são muito mais sérias do que o seu populismo de merda. Que se fala da bola, mas também se ouve aquela velhota a lamentar a pensão de miséria que recebe e que a obriga, no balcão da farmácia, a escolher quais os medicamentos que pode aviar. Que se queixa o pai que, cigano ou não, recebe o RSI e tem três filhos para alimentar, mas já ninguém dá emprego a um analfabeto. O trabalhador, indignado porque os seus impostos servem para salvar bancos e financiar os Berardos desta vida, mas não servem para meter mais dois ou três médicos no centro de saúde.

O que é urgente é dizer a toda a gente que o Ventura não passa de um balão de ar quente; que o seu discurso popular é uma farsa; que o fato que traz no pêlo custa mais do que um salário médio; que nos anos da troika ele esteve de pedra e cal com quem nos apertou o cinto; que ele só saiu do PSD porque, tal como Santana Lopes, não ganhou a corrida à liderança.

Mas que se tivesse ganho, o PSD continuaria, como sempre, ao serviço dos interesses do capital, e que agora com o seu BASTA/CHEGA, continua ao serviço dos mesmos interesses. É urgente dizer a toda a gente que vê no Ventura uma saída do mais-do-mesmo na política é que essa saída, a única saída, é aquela que é construída activamente pelos trabalhadores, pelo povo, pelos explorados; e que essa saída é o PCP e a CDU.

E é urgente que o façamos agora, antes que o Ventura – ou o cavalo em que o capital apostará caso o Ventura falhe – tenha o seu Buchenwald à nossa espera.

As costas da democracia

Os últimos dias foram bastante profícuos em casos de imbecilidade extrema. Médicos que acham a homossexualidade uma doença, psicólogos que acham que a erva deixas as pessoas homossexuais e uma advogado que é só o espelho dos partidos que representa, PSD e CDS, despejando ódio e preconceito sobre ciganos e negros. O direito de gente como esta encher páginas nos media dominantes não pode ser encarado como uma coisa normal, apenas sujeita a critérios editoriais. A democracia burguesa abre caminho a estas posturas, ao palco para medíocres, ao afunilar opiniões, procurando uma aceitação fácil que possa render alguma exposição a um título chamativo nas redes sociais.


Não há, por isso, ilusões. A democracia burguesa defende os interesses da burguesia e a História continua a demonstrar que são inconciliáveis com a classe oprimida, ainda que esta classe não saiba que o é e por que é.

A batalha da desinformação a que fomos sendo sujeitos ao longo dos anos levou ao ponto em que estamos hoje: é aceitável, em nome da democracia e da liberdade de expressão, colocar sob os holofotes um médico que acha que a homossexualidade é uma doença. Há uma gravidade enorme em tudo isto; primeiro, porque a classe médica é das mais cotadas entre a confiança dos portugueses, depois, porque é inconcebível que um jornal publique isto.

Um médico afirmar que a homossexualidade é uma doença, não está no campo da liberdade de expressão. Está no campo da mentira. É como se um tradutor resolver dizer que “yes” se traduz por “não”. Ele pode dizê-lo, mas está a mentir.

Também o candidato do PSD a Loures nos brindou com uma entrevista em que adopta aquela que sempre foi a postura do CDS, com e sem PSD, em relação talvez não a minorias mas em relação a minorias pobres. Porque há naquele campo muito quem critique as lojas dos chineses, mas esticam os braços para fazer chegar mais um visto gold a um qualquer empresário que esteja disponível para gastar meio milhão de euros numa casa.

Em 2009, Portas afirmava que o “RSI é um incentivo à
preguiça” e que os subsidiários são “
gente que, pura e simplesmente, não quer trabalhar e quer viver a custado contribuinte“. A ideia vingou porque, em tempo de crise profunda, os discursos populistas vendem bem. A História demonstra-o também. E bem podem dirigentes do CDS tentar demarcar-se disto. O partido deles é um dos grandes promotores de uma criminalização da pobreza e da sua censura pública. Foi com PSD e CDS que os desempregados passaram a ter apresentações periódicas na Junta de Freguesia, como qualquer condenado.

A aceitação deste tipo de discursos, a cobro da democracia e da liberdade de expressão é, na verdade, a sua negação. É abrir caminho a discursos fáceis, falsos, que são tomados como verdadeiros. É o vingar da opinião da classe dominante que, enquanto puder dividir os explorados entre explorados-brancos, explorados-ciganos, explorados-negros e por aí fora, vai levando a água ao seu moinho. É o vingar da ideologia dominante no que respeita à não-existência de ideologias e na comparação entre esquerda e direita, que são a mesma coisa. Como se ideologias que defendem extinções em massa, genocídios, a superioridade racial e religiosa fossem comparáveis a uma cuja principal matriz é haver um mundo sem exploradores nem explorados.

O branqueamento do que foi a II Guerra Mundial, em que os EUA aparecem quase como que o fiel da balança, os neutros, entre comunistas e nazis, promove este estado de coisas e beneficia com ele. Porque há alguma esquerda que tem medo de assumir aquilo em que acredita, papagueando as mentiras e falsidades que são debitadas pelos beneficiários da ideologia dominante. Está bom de ver, não colocando em causa a ideologia dominante, esta adopta esta esquerda como sua, promovendo-a como moderna, europeia, o centro-esquerda, como se isso existisse e não fosse apenas social-democracia maquilhada.

A democracia burguesa tem umas costas tão largas que conseguiu, ao longo dos anos e a cobro de supostas democracia e da liberdade de expressão, fazer crer que comunistas e fascistas são a mesma coisa, que autarcas corruptos roubam mas fazem e que o vizinho, que está sem emprego, é um malandro que não quer trabalhar.

E os discursos de André Ventura, Quintino Aires e Gentil Martins são, ao mesmo tempo, alicerce e telhado do edifício que foi sendo construído pela ideologia dominante. E vivem bem uns com os outros.