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Podes tirar o Daniel Oliveira do BE mas não tiras o BE do Daniel Oliveira

Daniel Oliveira, fazedor de opinião de encomenda do Expresso e talvez de mais uns quantos órgãos da doutrina dominante, certamente por reconhecimento de um brilhantismo fabricado precisamente por quem lhe paga e não menos certamente aceite pelo próprio como verdadeiro, usa uma vez mais as colunas que produz no jornal de Balsemão para a campanha eleitoral, a coberto de opinião.
Desta feita, DO começa logo por dizer que as sondagens não indicam nada mais que tendências, mas segue um texto bastante robusto e programático para algo que se baseia apenas em tendências. Depois, partindo dessa desvalorização aparente da sondagem, DO segue uma construção política definida pelo BE como orientação nacional: isolar a CDU e definir um programa conjunto entre BE e PS.
É certo que em Almada, uma das irmãs Mortágua, expôs bem o objectivo fundamental do BE naquele concelho, que é exactamente o mesmo afirmado por Sandra Cunha para o BE em Setúbal. Em ambos os casos, afirmaram sem margem para dúvidas que o seu objectivo é tirar a maioria absoluta à CDU, mas é igualmente certo que a brandura e simpatia da Comunicação Social perante o BE não permita afirmar este objectivo como central porque fica mal na fotografia quando a Catarina Martins anda por aí com a sua candura a dizer a quem queira ouvir que não percebe os ataques do PCP e que o BE não ataca o PCP. Uma coisa é o que diz Catarina Martins para se vitimizar, outra é o que fazem os seus candidatos e porta-vozes, de que são exemplos Joana Mortágua, Sandra Cunha e Daniel Oliveira. A prática é o critério da verdade e começa mal o BE ao vitimizar-se quando é o primeiro a mostrar que o seu objectivo é retirar terreno eleitoral à CDU.

Regressemos ao tema: então DO faz todo um programa político e anuncia toda uma política de alianças baseado em tendências e esquece-se de nos relembrar, por exemplo, que as sondagens de 2013, também elas indicadoras de uma “tendência”, davam sempre uma votação muito próxima entre CDU e BE e que atribuíam a ambas as forças políticas um vereador, sendo que a CDU acabou elegendo 2 e o BE nenhum. Também se esquece de nos relembrar que existe uma experiência de vereação do BE em Lisboa, precisamente alcançada num contexto de proximidade com a candidatura do PS de então (2007, António Costa).
“O Zé faz falta” lia-se por toda a Lisboa, a grande consigna do BE para convencer os lisboetas de que o BE seria uma espécie de grilo da consciência de António Costa e condição para uma política realmente de esquerda. Sá Fernandes, apoiado pelo BE, inicia uma política de total alinhamento com os piores traços do comportamento do executivo PS de António Costa e mostra que para não mais serviu do que para alimentar a ilusão de que um qualquer vereador do BE pode dar qualquer espécie de garantias de seriedade e lealdade às pessoas que vivem e trabalham em Lisboa. Não deixa de ser engraçado que DO, seguindo a linha encomendada pela Mesa Nacional que não ofende certamente a do conselho de administração de Balsemão, parta de uma “tendência” que falhou redondamente há quatro anos quando o candidato João Semedo não foi eleito vereador para construir toda uma teoria também ela rotundamente negada pela prática, pela verdade.
Há duas manobras de DO baseadas em mentiras que devem ser desmascaradas:
A primeira, a de que um vereador do BE pode condicionar mais a política do Executivo do que Manuel Salgado, vereador do PS na CML. Em nada essa teoria encontra respaldo. Pelo contrário, todos os indícios existentes a negam. Começando pelo facto de a probabilidade de eleição de um vereador do BE ser parte da propaganda habitual das sondagens e terminando na experiência recente de vereadores do BE eleitos em Lisboa. Das duas uma: ou DO está delirante e acha mesmo que o candidato do BE pode vir a ser um vereador simultaneamente leal ao povo e a Medina e ao mesmo tempo que o Medina o respeitará mais do que aos seus próprios amigos de partido, ou então DO mente e efabula para cumprir com falácias a orientação nacional do BE que consiste em atacar e isolar a CDU.
A segunda, a de que a CDU se pôs de parte de qualquer debate sobre o poder em Lisboa. Todos sabemos que a CDU e as forças que a compõem: PCP, PEV, ID e muitos independentes, não discutem cenários políticos com base em sondagens e não discutem coligações ou acordos com base em siglas e símbolos partidários, mas sim com base em programas e propostas concretas. Concentrar os esforços na campanha e na divulgação das propostas da CDU é a prioridade dos seus membros e candidatos e isso é um contributo de seriedade para a política de Lisboa e do país, ao invés de alimentar debates sobre arquitecturas fabricadas por jornais e sondagens, ajudando a criar a confusão e a ilusão e instrumentalizando cenários inventados como armasde arremesso contra alguma força política, que é precisamente o que DO faz no seu “artigo”: inventa um cenário que não tem nada de real e, partindo desse cenário criado, utiliza-o como arma contra a CDU em Lisboa. O trabalho dos candidatos da CDU em Lisboa, de que destaco o meu camarada João Ferreira por ser o candidato a presidente da Câmara e por demonstrar que dispõe, como nenhum outro candidato ao mesmo cargo, das capacidades e condições para levar a cabo um mandato ao lado do povo de Lisboa e colocar o poder autárquico ao serviço dos que aí vivem e trabalham, fala por si e afirma-se como um elemento concreto perante as palavras abstractas de DO. Contra a efabulação e invenção de DO, a prática e a verdade do dia-a-dia da CDU e dos seus candidatos. E podemos olhar para o mandato que ora está prestes a terminar e reconhecer, como em nenhuma outra força política, a constância da CDU e a lealdade dos seus vereadores ao projecto inicialmente apresentado, sem deslumbramentos ou delírios, sem cedências de princípios e sem abandonar por um minuto a combatividade e a tenacidade que os caracterizou desde o primeiro momento.
Acrescenta-se uma outra mentira de DO e uma opinião que é dada como facto: a de que a CDU é contra a redução do espaço para a viatura individual e a de que a municipalização da Carris foi a melhor medida de sempre para a cidade. Sobre isto é importante dizer que a CDU defende acima de tudo a criação de uma rede de transportes públicos eficiente e capaz de responder às mais diversas necessidades da população, que ainda não existe e que não defende, por isso, soluções que passem pela simples penalização do uso do transporte individual. Ou seja, não é penalizando o uso do transporte individual sem criar alternativa que vamos resolver o problema da mobilidade em Lisboa. Para PS e BE, fazer as pessoas pagar cada vez mais para circular ou estacionar, proibir a circulação de viaturas individuais em cada vez maiores áreas, é uma solução em si mesma, mesmo que não seja acompanhada, como não é, de uma rede de transportes mais eficaz. Sobre a municipalização da Carris, cá estaremos para ver onde vai dar essa grande medida do Governo, mas também relembro que, não fora o PCP, e essa municipalização sucederia como primeiro passo de um processo de privatização e que foi a intervenção do PCP que determinou que assim não fosse, para já.
Daniel Oliveira saiu do BE mas mantém o método do manual de instruções do bom esquerdista: passo 1, demagogia; passo2, atacar a CDU; instruções gerais, sempre que possível, combinar ambos.

E se Portugal fosse governado como Loures?

Quem cresceu nos dormitórios suburbanos de Lisboa pode separar as memórias da sua cidade na incursão nos prédios que estão agora onde antes era só campo. Lentamente, como uma enxaqueca histórica, a especulação imobiliária apoderou-se das cidades, transformou-se nas cidades. Acompanhando a retirada das funções sociais do Estado, o poder autárquico timonado pelo PS e PSD reduziu-se à insignificância votada, não pelos eleitores, mas pelos sucessivos governos: a sina de estruturas democraticamente opacas que seguem mecanicamente procedimentos formais, que servem para cobrar taxas e, no compasso das eleições, tapar uns buracos.

Por esta razão, poucos decidem participar nas assembleias municipais e de freguesia. Porque estes concelhos não servem para conhecer, passear, debater, aprender e viver, mas para dormir. Não são cidades. São armazéns onde nos guardam, nos terceiros andares das catacumbas sub-urbanas. Também por esta razão, fiquei agradavelmente surpreso com o Bairro da Quinta do Mocho, em Loures, que visitei recentemente. O antigo “bairro problemático” é hoje uma galeria de arte de rua sem paralelo em Portugal e que já valeu a Loures o reconhecimento europeu. Não se trata apenas de reabilitação visual e estética: o projecto “O Bairro i o Mundo” derruba os muros de preconceito e racismo que cercavam o bairro, transformando-o em gueto. Agora, as paredes dos prédios reúnem o melhor do graffiti português num museu a céu aberto. Ao contrário dos subúrbios da linha de Sintra, com as suas ruas desconfiadas e o seu recato de estores corridos, as ruas da Quinta do Mocho destilam conversas e visitantes, projectos e vida. Nunca o bairro foi tão bonito.

Há uma relação entre ruas mais limpas e salas de teatro cheias: cultiva-se cultura e colhe-se cidadania. 

As mudanças na Quinta do Mocho reflectem, na Câmara Municipal de Loures, uma forma diferente de fazer política que contrasta diametralmente o governo. Em Loures, sem penalizar mais os trabalhadores, a Câmara reduziu em mais de 30% a dívida de dezenas de milhões de euros legada pela danosa e fraudulenta gestão do PS. Já o governo, castigando fortemente os trabalhadores, fez crescer a dívida pública em 100% em menos de 7 anos. Enquanto Passos Coelho aumenta o horário de trabalho da função pública para 40 horas, Bernardino Soares segura as 35. Enquanto o governo continua a sua vertigem privatizadora, despojando as populações de bens e serviços essenciais, a Câmara de Loures impede a privatização da água e vai mais longe, proibindo que se corte a água a qualquer família por falta de dinheiro. Quem diz que os partidos são todos iguais não sabe, entre muitas coisas, que em Loures a água é mesmo um Direito Humano.

Isto aqui é uma orquestra.

E quem diz o contrário é tolo. Há uma relação entre ruas mais limpas e salas de teatro cheias: cultiva-se cultura e colhe-se cidadania. O povo de Loures parece sorrir mais porque a sua vontade não foi traída e os seus votos não se peitam. Aqui Abril abre-se à amizade, à alegria, aos afectos… Na boa governação da Câmara de Loures ressoa o eco democrático de Abril, desapegado ao poder pessoal e com a cristalina transparência nas contas que é apanágio dos comunistas. Por todo o concelho, esta forma de estar na política e de entender o poder manifesta-se na forma participada de democracia que, em Loures, dá agora os primeiros passos.

Um dos traços mais facilmente distinguíveis da nova gestão da CDU é justamente a disponibilidade para debater tudo e ouvir todos, com uma humildade e atenção que, novamente, destoam da reconhecida altanaria do governo. Para conhecer os problemas, a Câmara Municipal de Loures realiza dezenas de sessões públicas por todo o Concelho, visita os centros de saúde, dá a palavra os trabalhadores públicos, aos moradores, aos artistas, às associações. Este capital de trabalho, honestidade e confiança é consensual: Loures já não é coutada de nenhuma família nem parque infantil para nenhuma casta.

Recentemente, o Parlamento mudou-se simbolicamente para Loures para assinalar o centenário do Parlamento do Tojal. E se o simbolismo dessa mudança não tivesse sido histórico? E se Portugal pudesse ser governado como este concelho de Lisboa? Loures é uma maquete à escala para construir um país novo. Isto não quer dizer que seja sonho concretizado nem arquétipo para transcrever em série: é apenas fôlego para soprar mais vida e deixar-nos supor como seria, se Portugal fosse governado como Loures. Mas não só para suposições serve o exemplo, mas também para abonar o optimismo revolucionário: do sopro dos exemplos havemos inaugurar na História desta terra uma nova dinastia, sob a soberana linhagem do Povo, cognome O Trabalhador.