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Chaplin: o cinema e a necessidade de transformar o mundo

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Charlie nasce a 16 de Abril de 1889 em Londres. Filho de um actor e de Hannah (conhecida nos palcos como Lili Harley), uma encantadora actriz e cantora, Charlie passa a sua infância na inenarrável pobreza londrina. A morte do pai e a doença mental da mãe deixaram-no com o seu irmão Sidney, de quem foi, aliás, separado, a lutar pela sobrevivência.

Estreia-se como membro do grupo de teatro The Eight Lancashire Lads e a sua fama de bailarino de sapateado espalha-se. Aos 12 anos, sobe ao palco como Billy em Sherlock Holmes e prossegue como comediante de vaudeville, acabando por ir até aos Estados Unidos em 1910 com a Fred Karno Repertoire Company. Aí nasce a «estrela» e em 1912 é contratado para um filme. Acede fazê-lo em 1913 e passa a trabalhar na Keystone Film Company. Em 1915 muda-se para a Essanay Company e Sidney junta-se ao seu irmão nos Estados Unidos. Junta-se então à Mutual Film Corporation e protagozina The Floorwalker, The Fireman, The Vagabond, One A.M. , The Count, The Pawnshop, Behind the Screen, The Rink, Easy Street, The Cure, The Immigrant e The Adventurer.


Em 1917 lança-se como produtor independente, constrói os seus estúdios e em 1918 lança Shoulder Arms seguidos de Sunnyside e A Day’s Pleasure em 1919. Seguiram-se as obras primas: O Garoto em 1921, A Quimera do Ouro em 1925, O circo em 1928, Luzes da cidade em 1931, Tempos modernos em 1936, O Grande Ditador em 1941, Monsieur Verdouxem 1947, Luzes da ribalta em 1952, Um rei em Nova York em 1957. Já lá irei.

Agora, o nosso vagabundo.

Na sua infância, Chaplin é confrontado com a doença mental da sua mãe, que apesar do amor incondicional pelos seus filhos, não tem quaisquer condições de garantir a sua sobrevivência. Chaplin é sujeito à decisão de internar a sua própria mãe para garantir quer a sua saúde (da mãe), quer o seu sustento. E é dos escombros de uma meninice não vivida que surge uma das personagens que mais risos arrancou em toda a história do cinema. A linguagem física de Chaplin torna-se o seu maior trunfo (em tempos de cinema mudo, que mais poderia desejar-se?) usado com mestria naquele que foi sempre e simultaneamente o seu sonho e o seu objectivo. Charlot tornou-se no que sempre quis ser, por causa e apesar de si mesmo e da sua circunstância.

A ambição logo deu a mão ao espírito crítico e a uma análise social atenta, progressista e completamente em contraciclo do ambiente em que passou a movimentar-se. Ao invés de aproveitar serenamente as vantagens que lhe trazia a sua comédia, Charlie Chaplin decidiu intervir através da sua criação cinematográfica. Com métodos de filmagem jamais explicados (com a desculpa de que seriam a revelação dos segredos de um mágico), os argumentos nunca estavam finalizados. Partiam de conceitos, de situações/cenas concretas rumo à improvisação em torno das premissas cenográficas e situacionistas, construindo-se estrutura narrativa desses pontos de partida. Tal método levava a rodagens longas, a repetições intermináveis, que se juntavam a uma exigência rígida imposta por Chaplin (como nos mostram as inúmeras cenas cortadas e de pré-produção do documentário de 1983, Unknown Chaplin).

Chaplin era ainda escritor (contam-se, pelo menos, quatro livros: My Trip Abroad, A Comedian Sees the World, My Autobiography e My Life in Pictures, além de todos os guiões), compositor (Sing a Song; With You Dear in Bombay; There’s Always One You Can’t Forget, Smile, Eternally, You are My Song) e talvez o único cineasta que financiou e produziu os seus filmes além de ser autor, actor, realizador, e compositor das bandas sonoras dos seus filmes.A grande marca no assumir de posições políticas, num quadro em que elas existiam envergonhadamente, começa em 1921. O Garoto de Charlot, quase num registo autobiográfico e apesar da comédia física (quase visceral) é o retrato das condições de vida de muitas crianças do pós I Guerra Mundial, da extrema pobreza que se instalou na Europa (com impactos profundos numa Inglaterra destruída, com níveis brutais de desemprego e condições de vida altamente precárias) vista pelos olhos do garoto e do vagabundo. Em Tempos Modernos, talvez um dos melhores filmes da história do cinema, Chaplin faz um retrato da modernização fabril que pode mesmo ser transposto (com as necessárias adaptações) aos dias de hoje. Num cenário quase profético, Chaplin retrata os efeitos do taylorismo e do fordismo nos trabalhadores, o tratamento destes como uma peça da grande engrenagem capitalista, a desumanização total das relações laborais, a perseguição política e sindical. Cada cena é incrivelmente actual e assertiva: o trabalhador que sai da fábrica e continua a apertar os parafusos (apertando os botões dos casacos das pessoas que passam), o transeunte que pega numa bandeira caída de um camião (e que se supõe ser vermelha) e imediatamente tem uma manifestação de trabalhadores que seguem a bandeira em punho (que apenas tinha sido levantada para ser entregue a quem a perdeu) e que acabam presos, a inesquecível canção inventada por Chaplin no restaurante, já no fim do filme. Sem nunca perder o fito da crítica económica e social, Chaplin consegue manter o registo profundamente cómico dos seus filmes.

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Não foi por acaso que durante muitos anos Chaplin foi apontado como um perigoso subversivo pelo governo norte-americano e, claro, por McCarthy, o caçador de bruxas, que não deixou, obviamente, de ser caricaturado nos seus filmes. Suspeito de ligações ao Partido Comunista, que Chaplin sempre negou (restará saber a verdade), a verdade é que a sua visão da classe trabalhadora nunca deixou de ser assustadoramente incisiva. O Grande Ditador é exemplo disso mesmo. Logo após a invasão da Polónia por Hitler, as rodagens começam. Filme escrito, produzido e realizado por Charles Chaplin em 1940, este interpreta Adenoid Hynkel, ditador da Tomânia e um barbeiro judeu muito parecido com o governante. Hynkel tem planos para conquistar o mundo (como se vê na dança inesquecível de Chaplin com o globo terrestre) e entra em conflito com Benzino Napaloni, ditador da Bacteria, numa sátira deliciosa a Hitler e a Mussolini, que tem como história central a opressão a que estão sujeitos os judeus do bairro do barbeiro, com episódios evidentemente abstrusos pelo meio. O discurso final de Chaplin é ainda hoje uma referência política mundial:


«É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, ouves-me? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos a sair das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!»

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Gosto de pensar que Chaplin, como o filme homónimo de Richard Attenborough conta, terá morrido no natal de 77, sentado ao sol, com um livro na mão, sereno, convicto de que na sua vida, fez tudo a que se propôs. A figura inesquecível do vagabundo (sempre trôpego, sempre dócil, sempre sorridente), de um grande ditador que provoca gargalhadas, de um garoto que encontra no vagabundo a felicidade maior, de um miúdo que apesar da sua infância roubada nunca deixou de ser um miúdo, um cineasta que apesar de estar no coração do império sempre afirmou o pensamento e a palavra sem medo, com a convicção que só a razão e um profundo humanismo lhe poderiam garantir e que, com a mestria que só Chaplin tinha, pôs o mundo a ver e a pensar o mundo, entre risos sonoros e a comoção que só o sorriso de Charlie Chaplin ainda hoje consegue provocar.

No mês de Abril, o mês de Chaplin, o mês da Revolução, a alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

*Texto originalmente publicado em 2015, no site Arte-Factos

Ao cuidado de Miguel Gomes e do cinema


Quando o Governo PSD/CDS fez aprovar a lei do cinema em 2012, num contexto de penumbra e falta de recursos, o sector foi seduzido por um discurso de abundância que só o PCP combateu.

O financiamento da criação e produção cinematográfica em Portugal esteve sempre demasiado dependente da participação de privados, com excepção dos anos logo após o 25 de Abril de 1974, durante os quais o Estado assegurava um financiamento com base nos princípios do empréstimo, garantindo os recursos a todos os que apresentassem um projecto que cumprisse os critérios técnicos necessários e recebendo de volta os fundos emprestados apenas quando a bilheteira o permitisse. Esse regime, limpo de critérios de gosto e de imposições estéticas ou mercantilistas, durou pouco e foi liquidado pelo primeiro Governo PS, logo em 1976. O PS começava cedo a mostrar ao que vinha também no cinema.

A dependência financeira criada desde então junto dos privados teve impactos tremendos na quantidade e na qualidade da produção. Porque a quantidade e a qualidade estão intimamente ligadas. É preciso produzir muito, experimentar muito, investigar muito, para que sejam criadas as obras-primas.

Em 2012, o sector estava sujeito a um sub-financiamento terrorista. O Governo PSD/CDS não realizava os concursos nem libertava verbas, a pretexto da diminuição da receita privada que financiava o ICA. Usou esse sub-financiamento para colocar todo o sector a exigir uma nova lei de financiamento. E o sector aceitou a cenoura e exigiu uma lei. Essa lei estava preparada pelo Governo e apresentava uma solução mágica: novas taxas sobre privados que substituiriam as taxas em queda previstas na legislação anterior. O sector pressionou mesmo o PCP para que o PCP defendesse essa lei.

Em boa hora, o PCP alertou o sector para os efeitos dessa opção política. Em boa hora, o PCP pensou pela sua cabeça, pelo seu colectivo, e não pela pressão exercida pelo governo, pela comunicação social e pelos próprios profissionais do cinema que, pressionados pela seca, aceitavam água contaminada com prazer. Exigiam-na até.

O PCP propôs sempre que fosse o Estado a assegurar a principal fatia do financiamento à produção cinematográfica. O Cinema não é uma arte menor. Se todas as restantes artes são financiadas directamente pelo orçamento do Estado, por que raio deve o cinema ficar refém dos fornecedores de televisão por cabo? Por que raio deve o Cinema ficar dependente do número de pessoas que subscreve esses serviços?

O PCP propôs então que o Estado devia entrar, no mínimo, com uma parcela igual à recolhida em taxas, parcela adicional ao custo de funcionamento do ICA, ANIM e Cinemateca que seria sempre o custo base do esforço estatal. Ou seja, na proposta do PCP, o Estado assegura o funcionamento dos institutos públicos e apenas conta com apoio privado para pagar 50% do investimento em produção nova. Tal nunca foi aceite pelo Governo PSD/CDS nem pelo PS, aliás, verdadeiro autor da lei, sendo que a lei estava preparada desde os tempos de Gabriela Canavilhas, apesar de ter tido a abstenção do PS na Assembleia da República.

A verdade é que com a aprovação da lei em 2012 e com as manobras do Governo PSD/CDS, a produção cinematográfica em Portugal ficou 2 anos sem concursos e sem financiamento. Mas problema fundamental de uma lei que faz depender o financiamento de uma arte dos agentes económicos que a exploram é político e vai muito além do problema criado pela suspensão dos concursos. A dependência criada demite o Estado do seu papel fundamental de apoio às artes e responsabiliza agentes privados directamente interessados em conteúdos.

Os comunistas alertaram isolados para esse problema, batalhando contra um sector que achava que os grandes grupos económicos e o monopólio das comunicações e da televisão iria financiar a actividade artística livre. A lei do cinema do PSD/CDS, igual à que o PS defendia (Canavilhas chegou a acusar o Governo PSD de estar a usar uma lei que ela tinha deixado pronta), renovava assim o mecanismo de financiamento privado do cinema, aplicando o modelo do mecenato obrigatório como solução para a produção cinematográfica em Portugal.

Ora, uma breve olhada pela História da Arte, demonstra que a virtude do mecenato reside na subsistência do autor, mas não sem o sacrifício da sua liberdade criativa. É precisamente essa limitação que o PCP quer eliminar ao responsabilizar o Estado pelo financiamento da criação e produção artística, incluindo no cinema, garantindo liberdade de criação e total ausência de constrangimentos estéticos ou mercantis.

A lei do cinema em vigor é o substrato em que o actual Governo PS provoca a intrusão no júri dos distribuidores de conteúdos, condicionando de forma absolutamente inaceitável o resultado dos concursos que determinam quais os projectos financiados e não financiados. Estamos portanto perante um Governo que entende que da obrigação de financiamento pelas operadoras privadas de TV decorre o direito a escolher em que se usa e aplica o dinheiro.

É mais ou menos o mesmo que perguntar à EDP, à Galp, à Banca, em que querem que se gastem os seus impostos.

Certamente diria a EDP que quer que os seus impostos sirvam apenas para financiar modernização de barragens, a Galp pediria que fossem usados em incentivos à compra de automóveis movidos a combustão e a banca exigira que os seus impostos fossem gastos em créditos bonificados para que mais pessoas pudessem comprar bens a crédito junto da banca.

Esta visão perversa, de submissão da produção cinematográfica ao mercado da distribuição de conteúdos liquida a componente criativa e artística do cinema e imprime-lhe a forma de entretenimento. O cinema pode ser visto como entretenimento, como arte, como ambos até. O que não pode é o Estado dedicar toda a sua política precisamente à produção que não carece de apoio que é a que merece acolhimento pelo mercado. São precisamente as expressões mais vanguardistas que precisam do apoio do Estado e não as receitas de blockbuster estudadas e conhecidas à exaustão. Ou seja, não se trata aqui de hipervalorizar o cinema de investigação ou de vanguarda, nem de penalizar o de entretenimento e diversão. Trata-se de definir qual é o papel do Estado no financiamento a cada uma dessas formas. A Constituição é clara: ao Estado cabe assegurar a livre fruição e criação cultural e artística e em nenhum artigo dessa lei da república surge a obrigação de subsidiar ou financiar artigos comerciais de entretenimento, ainda que sejam filmes.

Na minha opinião, o sistema de concursos devia ser apenas uma pequena parte do processo de financiamento da produção cinematográfica. Julgo que todos os profissionais do cinema que cumpram os requisitos requeridos por um projecto devem ter direito a usufruir de apoio do Estado na produção da obra pretendida, sem filtro de gosto, nem considerações subjectivas sobre qualidade. Acho, como acho para todas as artes, que o simples facto de cumprir os requisitos de admissibilidade para concurso deve gerar o direito ao apoio. O contrário provoca uma distorção subjectiva no resultado que é incompatível com a liberdade de criação e, logo, na de fruição.

Talvez seja cedo para exigir soluções destas, talvez não. Mas estou convencido de que é para lá que devemos caminhar. No entanto, sem prejuízo dessa posição, importa agora travar a intrusão dos agentes económicos na selecção dos projectos de cinema sujeitos a concurso.

Não deixa de ser importante referir que o PCP já afirmou, por mais do que uma vez, que tudo fará para travar esta nova ofensiva às liberdades de criação e fruição culturais.

Mas é preciso que fique claro: o problema reside na lei que faz depender o cinema das operadoras e enquanto esse problema não for resolvido, com a responsabilização do Estado, a intromissão privada na produção cinematográfica virá por todas as formas, com júri ou sem júri.

Que Miguel Gomes venha agora acusar o PCP de ter responsabilidade (https://www.publico.pt/2017/11/24/culturaipsilon/opiniao/nao-ao-decretolei-do-cinema-1793498) no resultado da lei que ele apoiou contra o PCP, faz-me alguma confusão, por ser o estilo de quem se preocupa com os apoios que recebe e não com a justeza do sistema que os distribui – e isso não é aquilo a que Miguel Gomes nos habituou.

Sim, porque o problema vai muito além dos filmes premiados e que têm a possibilidade de entrar no circuito de distribuição (a muito custo. Relembro até que o PCP propôs a exibição obrigatória de filmes – curtas, médias e longas – portugueses nas salas).

O problema é também das centenas de jovens realizadores que fazem sem apoios porque os os mesmos de sempre sempre abocanham os resultados dos concursos, deixando migalhas ou absolutamente nada para muitos criadores que fazem das tripas coração para ter um filme e que gastam tudo do seu próprio bolso para garantir uma produção e que investem o seu próprio tempo e dinheiro, contra tudo e contra todos, para fazer visualizações onde consigam;

Das iniciativas como o Shortcutz que de um bar passaram a vários países, os cineclubes que governos e câmaras foram destruindo e substituindo por um cinema itinerante pelo país que exibe filmes como o “Sei lá” também existem e ficam de fora dos parcos apoios a festivais já instituídos;

Daqueles que andam a telefonar às câmaras municipais a pedir apoios, que contactam equipamentos públicos para exibir os seus filmes porque as salas não os procuram e até rejeitam. É também aí que corre o sangue do cinema português, do verdadeiramente “novo” cinema português e é esse que está escondido. A lei actual e o status quo que beneficiou os grandes nomes não traz esse cinema para as salas. O decreto-lei que Miguel Gomes denuncia, tal como o PCP fez, também não traz esse cinema para as salas mas deixa tudo como está.

O financiamento do estado não pode servir apenas para financiar a actividade dos consagrados na ribalta, deve servir essencialmente para consagrar os que, ainda na sombra, merecem ser reconhecidos. Porque nós aqui vemos e divulgamos (http://manifesto74.blogspot.pt/2014/10/este-e-o-nosso-cinema.html#more), ou é dar um salto ao CineAvante, ou ler alguns jornais (https://www.jn.pt/artes/interior/parlamento-chumba-propostas-de-pcp-e-be-para-valorizar-e-apoiar-cinema-2565661.html) ou visitar a página do Parlamento e verificar quem tem mais projectos de valorização do cinema e das artes e respectivas votações.

E não somos cúmplices de coisa nenhuma. Nem por acção nem omissão.

*

Projectos de Lei
509/XII/3ª
Estabelece os princípios do financiamento da produção cinematográfica nacional e da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema e assegura o financiamento correspondente aos anos de 2012 e 2013

446/XII/3ª
Estabelece os princípios do financiamento da produção cinematográfica nacional e da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

80 500 euros ano/turma

A Comissão Europeia, uma cúpula não eleita que dirige a União Europeia, tem um organismo composto por gente não eleita que é dotado de poderes que se sobrepõem aos dos estados, aos dos governos de cada país, aos das assembleias democraticamente eleitas em cada estado. A juntar a isso, cada país tem também um banco central, como o Banco de Portugal, igualmente não eleito nem controlado por ninguém. A não ser pelos Bancos privados, claro.

Esse tal organismo da Comissão Europeia, a Direcção-Geral da Concorrência (DGComp), também se lhes sobrepõe.

A DGComp é particularmente atenta àquilo a que chama “ajudas de Estado”. E impõe uma disciplina férrea para que a concorrência seja livre e efectiva entre os grupos económicos. Mas fá-lo de uma estranha forma. Vejamos, no caso Banif, por exemplo, a DGComp fez questão de garantir que a venda do Banif era feita num contexto de total igualdade entre todos os interessados. Como garantiu isso? Fazendo com que apenas um interessado pudesse efectivar a sua proposta e arredando os restantes. A Caixa Geral de Depósitos não podia comprar o Banif porque tinha uma “ajuda de Estado”, a JC Flowers não podia porque não tinha ainda presença bancária em Portugal, outros não puderam comprar porque não tinham um negócio bancário 5 vezes superior ao do Banif. Ou seja, foram inventadas regras – inventadas mesmo – para garantir que apenas o Santander pudesse comprar o Banif. Como está assegurada a livre concorrência? Segundo o Secretário de Estado do Tesouro, a DGComp assumiu que o seu papel não é criar condições para que haja muitos interessados, mas sim assegurar que todos os interessados a concurso estão em pé de igualdade. Ou seja, se o interessado a concurso for apenas um, estará sempre nas melhores condições de igualdade possível. Consigo próprio.

A intromissão da DGComp nas decisões de cada estado sobre áreas absolutamente fundamentais não é, contudo, e ao contrário do que possa parecer, para garantir uma efectiva concorrência com limitação à constituição de monopólios. Pelo contrário, a intervenção intrusiva da DGComp visa especialmente garantir que os grandes grupos económicos e financeiros sejam capazes de monopolizar o negócio. Desde os bancos ao sector energético, esse é o papel objectivo da DGComp. Ou seja, a DGComp considera que um Banco que conte com “ajudas do Estado” tem de ser rapidamente limpo para entregar de bandeja a acionistas privados que tenham condições para integrar o banco no seu balanço – o que significa objectivamente que um banco tem de ser entregue a um banco maior, sendo que a DGComp não pondera sequer a ideia de os bancos pagos pelo Estado poderem, de facto, ficar nas mãos do Estado. Parece que isso distorce a concorrência.

Mas a posição da DGComp é muito curiosa. Por exemplo, para criar monopólios industriais, ou para financiar o surgimento de novos monopólios, as ajudas de Estado são quase sempre aceites, como é o caso das energias renováveis em Portugal, mas também numa boa parte de países europeus, onde a consolidação de uma rede de geração e distribuição não é do interesse de nenhum agente privado. Então, nesses casos, a DGComp autoriza que o Estado dê uma “ajuda de Estado” para a implantação dessa rede. Veja-se o que se passou em Portugal com as eólicas e que continua a passar-se: o Estado paga às empresas o investimento que é necessário para implantar a rede de geração, depois a empresa tem de devolver a “ajuda de Estado” reflectindo esse custo na tarifa de electricidade. Ou seja, o cidadão paga – através do Estado – o custo da construção e implantação da rede de geração e depois paga à empresa que fica com essa rede a tarifa com um acréscimo para devolver ao Estado a “ajuda”. Ou seja, os cidadãos pagam a dívida a si mesmos, sendo que a operação é neutra do ponto de vista do Estado como um todo, mas é duplamente penalizadora do ponto de vista do bolso de cada um dos cidadãos.

Curiosa é também a abordagem que o Comissão Europeia faz sobre o apoio à produção cinematográfica, por exemplo. No âmbito das secretas negociações em torno do TTIP – Tratado de Livre Comércio Transatlântico – a Comissão Europeia preparava-se para legislar no sentido de proibir o financiamento de Estado à produção cinematográfica europeia porque, como nos Estados Unidos o cinema não é financiado, seria uma distorção na concorrência entre Hollywood e as produções RTP!

Mas tudo isto refiro para chegar à concorrência no disputado mercado da Educação. Os grupos económicos estiveram-se nas tintas enquanto a educação era uma coisa que precisava de investimento. Durante anos e anos, foi preciso que os cidadãos se unissem para fazerem as suas próprias escolas, depois o Estado assumiu esse papel e, agora, agora que a Escola representa um apetecível mercado, os privados já estão muito interessados no negócio. A bem da Educação, claro está!

Ora, sendo que as “ajudas de Estado” são, sempre que convém à DGComp e aos grupos monopolistas, uma distorção nas regras da concorrência, então que dizer de um conjunto de empresas que só vive à custa do Estado? Que dizer de empresas privadas que distribuem lucros entre os seus acionistas ou sócios e que só têm negócio porque o Estado lhes paga as contas e ainda lhes angaria clientes? Isto não é manter empresas ligadas à máquina com o Estado a pagar a conta? Isto não é favorecer empresas perante outras?

Claro que a Educação, para nós, não pode ser entendida, em momento algum, como uma commodity, uma mercadoria. Claro que a Educação é um direito, claro que não pode estar sujeita ao controlo de interesse privado algum, claro que não pode deixar de ser laica quando paga pelo Estado. Claro que a Educação privada é sinónimo de degradação da qualidade e de desigualdade. Mas não era disso que se pretendia falar. Este é um texto sobre a mentira da “livre concorrência capitalista” que na verdade se chama “concentração monopolista”.

80 500 euros por ano, por turma, é o que os portugueses pagam a colégios privados para funcionarem, muitos deles pertencem a um mesmo dono, a uma mesma empresa. Ficar rico à sombra do Estado. Capitalismo 101.