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Para não ter protestos vãos

Assistimos nos últimos anos (leia-se: desde a entrada em funções do actual governo) ao surgimento de movimentos civis que, mais do que organizar o descontentamento popular, têm todo o apoio da comunicação social para gerar o descontentamento que depois cavalgam. Estamos todos recordados da forma como foi empolada a opção do governo de cortar no financiamento aos colégios privados com contratos de associação. Se não estiverem, podem recordar o drama aqui.

Depois desta idiotice pegada, obviamente, a direita tomou-lhe o gosto e, achando que andamos aqui todos a comer gelados com a testa, pegou em Ana Rita Cavaco, a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros que antes disso foi Conselheira Nacional do PSD e passou por dois governos PSD (o de Durão e o de Passos), e incumbiu-a de criar dois sindicatos-fantoche que só têm servido para colocar em causa o já débil funcionamento do SNS.

A partir daqui a fantochada só piora; mais recentemente, um patrão da camionagem e um advogado trafulha lembraram-se de criar um sindicato de camionagem, apesar do primeiro ser objectivamente quem explora os trabalhadores da sua empresa e o segundo nunca ter pegado num camião na vida. O trafulha, não contente com o feito, já anunciou que vai pertencer aos organismos de gestão de mais uns quantos sindicatos de sectores onde nunca trabalhou.

A pergunta da praxe é, obviamente, “Onde é que andaram nos anos da troika?”. Mas nem é essa a pergunta que importa fazer. Os anos da troika foram maus, mas o que eu gostava mesmo de saber é onde é que andaram nos últimos 45 anos de política de direita, e mesmo assim estou a dar de barato a ausência desta gente no sindicalismo de classe que havia mesmo antes de Abril e que levou muitos camaradas meus, alguns ainda vivos, a bater com os costados na cadeia.

E tal como o meu partido é silenciado na comunicação social – algo tão óbvio que quem quiser debatê-lo pode fazê-lo com a parede mais próxima, porque para esse peditório eu não dou – o sindicalismo de classe, o sindicalismo dos sindicatos da CGTP-IN, é também ele silenciado. São décadas de lutas sem qualquer espaço nos media para os nossos activistas, mas temos directos atrás de directos em protestos de enfermeiros em que os dirigentes dos sindicatos-fantoche cedem a palavra à Bastonária. Despedem-se 51 trabalhadores da autarquia em Almada, e nem uma palavra. O SINTAP faz uma acção e tem lá a comunicação social em peso.

A ver se torno isto claro: o capital não tem medo nenhum de discursos inflamados ou de revolta. Aquilo que assusta o patronato é a luta organizada. E a luta organiza-se com consciência de classe e unidade na acção. E esta unidade tem de ser promovida por local de trabalho, por empresa, por sector. Pode parecer aglutinador um Sindicato dos Trabalhadores do Concelho de Almada (fundado por ex-dirigentes da UGT e do SINTAP), que “integra todas as mulheres e homens trabalhadores que nele se inscrevam, livremente e que exerçam funções de serviços em todos os sectores de actividade, publico, privado ou cooperativo”1, mas que unidade é que isto permite? De que forma é que este sindicato pretende representar ao mesmo tempo os 51 cantoneiros de limpeza despedidos pelo actual executivo PS/PSD na câmara e os trabalhadores do Minipreço em luta pela actualização de tabelas salariais?

O trabalhador de contact center da Randstad colocado ao serviço da Meo tem reivindicações mais próximas do administrativo dos quadros da Meo do que o seu colega de empresa, também trabalhador de contact center da Randstad, mas colocado em Évora ao serviço da Fidelidade. E ainda estamos só a falar de operadores de contact center da mesma empresa. Imagine-se querer agrupar debaixo da mesma bitola todos os operadores de contact center independentemente da empresa para a qual prestam serviço. Tentar fazê-lo, ainda que isto permita algumas conquistas locais, promove a desagregação de laços entre profissionais de áreas diferentes dentro da mesma empresa, quando o objectivo dum movimento sindical unitário, democrático e de classe seria trazê-los à mesma luta.

Merecem a este propósito menção honrosa alguns sindicatos “independentes” de tudo menos de certos grupelhos trotskistas e que, apesar de todo o seu discurso revolucionário, servem um único propósito que é de dividir a classe, acusando toda a CGTP de ser um instrumento do PCP. Se tivessem um pingo de vergonha na cara calavam a boca em vez de repetir a lengalenga que a direita usa há décadas. Seguem a cartilha do capital, que pela mão dos lacaios Maldonado Gonelha e Torres Couto, entre outros, pretendem desde sempre “partir a espinha à intersindical”.

Sim, há muitos comunistas nos sindicatos da CGTP. Há muitos comunistas em comissões sindicais, tal como há muitos comunistas nas comissões de higiene, segurança e saúde no trabalho. Mas só lá estão com o voto daqueles que com eles trabalham. Falar é fácil, mas só mesmo os comunistas para, com prejuízo do seu tempo livre e arriscando o posto de trabalho, ter este espírito de missão que nos faz lutar não por nós, mas por todos.

Não para fugir à exploração, mas para lhe pôr um fim.

P.S. – Um texto sobre o movimento sindical de classe não ficaria completo sem um apelo à participação na Manifestação de 10 de Julho.

Pela revogação das normas gravosas da legislação laboral, contra as propostas de alteração do governo PS que a agrava, pela valorização do trabalho e dos trabalhadores! Dia 10 de Julho, 14h30, na Praça da Figueira.

Notas:

1 – Ex-Dirigentes da UGT e SINTAP fundam Sindicato em Almada

O eurocentrismo de Duarte Pacheco

Não, este não é só um texto sobre a Venezuela. Esta é uma reflexão sobre declarações proferidas por Duarte Pacheco, deputado do PSD, no Esquerda-Direita da SIC Notícias, sobre a legitimidade da ONU e da UE. Duarte Pacheco não é só mais um deputado, é também secretário da Mesa da Assembleia da República. A desvalorização do papel da ONU é um padrão que tem vindo a ganhar adeptos entre os representantes dos Estados mais reacionários e unilateralistas, como Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

Pacheco puxa dos galões e compara a ditadura fascista que vigorou em Portugal, durante 48 anos, com o momento que se vive na Venezuela. Ora, em Portugal, em 48 anos, houve sete eleições, todas viciadas, todas sem qualquer acompanhamento internacional. Em todas ganhou o fascismo. Na Venezuela, desde que Chavez subiu ao poder, por via eleitoral, em 1999, houve mais de 20 atos eleitorais e referendários; nuns ganhou o chavismo, noutros não, como foi o caso do referendo constitucional de 2007, que Chavez perdeu. Seguidamente, num outro referendo sobre a continuidade de Chavez como presidente, este ganhou. Desta vez, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, e António Guterres, atual presidente da AG da ONU, foram observadores internacionais e atestaram a validade do ato. Nas eleições para a Assembleia Nacional, Maduro perdeu e foi criada uma Assembleia Constitucional, que era, de resto, uma exigência da oposição. Recorde-se que foi na Venezuela, país governado de forma ditatorial, segundo Duarte Pacheco, que a oposição pôde realizar o seu próprio referendo, sem qualquer acompanhamento internacional, e, no fim, queimar os votos, afirmando que 98% dos votantes decidiu pela destituição de Maduro. Aqui ao lado, em Espanha, há presos políticos por terem feito o mesmo na Catalunha. Um referendo. Negar tudo isto é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, manipulação descarada da opinião pública e alinhamento com a opinião publicada.

Pinochet vs Maduro

“Pinochet não pôs a economia tão mal como Maduro”. Esta é, talvez, uma afirmação tão nojenta como sem sentido. A economia chilena de Pinochet não piorou, porque foram precisamente os setores económicos oligarcas, com o imprescindível apoio dos EUA no assassinato de Allende. Achar que os setores económicos que promoveram o golpe sangrento que resultaria na ditadura sanguinária de Pinochet seriam os mesmos a sofrer as suas consequências, não pode ser só ignorância. É má-fé e reveladora de falta de caráter. Fazer de conta que as sanções económicas impostas pelos EUA e UE, à revelia da ONU, não têm qualquer preponderância na situação catastrófica da Venezuela, é desonesto. Não há outro nome.

ONU vs UE

Duarte Pacheco, mestre em Estudos Europeus, tem obrigação de saber qual é o papel da ONU, para o bem e para o mal. Estudou, com certeza, Tomas Hobbes e a sua teoria do conflito permanente, com a ausência de um Leviatão – uma entidade suprema que regulasse a relação entre Estados. A ONU, ainda que o seu órgão máximo, a Assembleia Geral, possa apenas aprovar ou rejeitar resoluções, sem caráter deliberativo, foi a forma encontrada para equilibrar as relações entre os Estados. Obviamente, com o papel central no seu Conselho de Segurança, há uma situação de desigualdade entre todos os seus membros, uma vez que nada garante – e acontece amiúde – que os países do Conselho de Segurança deliberem em função dos seus interesses estratégicos e políticos e não em favor dos interesses da maioria da sociedade internacional. Quando Duarte Pacheco afirma que “conhecemos a forma como funcionam muitas das democracias da ONU”, para justificar que a legitimação de Guaidó não tenha passado naquela organização, está, de forma lamentável, a questionar a legitimidade da ONU, como o fazem Trump e Bolsonaro no que respeita, por exemplo, à mudança das suas embaixadas para Jerusalém. No entanto, não surpreende. Duarte Pacheco era deputado do PSD quando Durão Barroso, à revelia da ONU, albergou uma das maiores farsas da História recente, que provocou milhões de mortos, com a cimeira das Lages e as provas, que nunca existiram, da existência de armas de destruição massiva no Iraque.

O eurocentrismo neocolonialista

Em França, há semanas que decorrem confrontos com os Coletes Amarelos. Resultaram, até ao momento, pelo menos, em 11 mortos, mais de 3.000 feridos, e centenas de detidos. Em Espanha, continuam detidos militantes independentistas catalães e bascos, para além de artistas condenados ao abrigo da célebre Lei Mordaça. No entanto, nestes casos, parece não haver nada de anormal. Duarte Pacheco não acha que haja comparação entre a situação em França e a situação na Venezuela. Os mortos franceses são menos mortos que os venezuelanos, os feridos franceses são menos feridos do que os feridos venezuelanos e os detidos são menos detidos. Porquê? Por nada. Apenas e só porque o renascido eurocentrismo neocolonialista assim o dita. Porque o eixo EUA-UE considera apenas uma forma de organização social e de Estado e é a democracia liberal. Tudo o que vá além disso, deixa de ser legítimo, ainda que haja razões históricas, culturais e sociais para que assim seja. Um mundo uniformizado sob a égide dos cidadãos europeus, tão melhores e tão mais avançados do que os indígenas do resto do Mundo. É por isso que Duarte Pacheco coloca a ONU num patamar abaixo da UE, onde pode haver mortos e feridos por protestos antigovernamentais, que continua a ser uma democracia. Não há outro motivo, embora a História nos ensine o que sucedeu após o descrédito da Sociedade das Nações. A ideologia dominante reconhece apenas o seu modo de organização. Para lá disto, é o vazio. É, no fundo, o neocolonialismo. Levar o nosso modo de vida a todo o Mundo, subdesenvolvido, de incapazes de se governarem sem a bênção dos seus colonizadores. É, no fundo, uma vergonha. O mapa abaixo, publicado pela AFP, demonstra este caminho que se está a trilhar. Para a agência de notícias francesa, o mundo é apenas América do Norte e Europa, dando espaço à China, mau era, atendendo à sua dimensão diplomática e política na cena internacional. No entanto, África não é considerada, nem a maior democracia do Mundo, a Índia, que não reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. No fundo, todos sabemos que nada disto tem a ver com petróleo.

Depoimento exclusivo de um futuro colete amarelo português

A situação é muito grave e exige uma resposta que “PÁRE PORTUGAL”. É que tem mesmo de PARAR TUDO! Aquilo dos coletes em França foi giro e até “li na net” que o governo de lá “cedeu”. A tudo. Foi uma limpeza. Aqui a situação também é muito grave. Mas é muito grave porquê? Porque vou eu, afinal, levantar este rabinho do sofá e participar numa “manif” pela primeira vez na minha vida? Porque vou eu ser um futuro colete amarelo? Fácil. VAMOS LÁ, Portugal, vamos lá dizer isto a plenos pulmões!

A situação é muito grave porque acabaram de me CONGELAR SALÁRIOS a mim e PENSÕES aos meus “velhos”. A situação é grave porque acabaram de me ROUBAR FERIADOS, civis e religiosos. É grave porque me ROUBARAM O SUBSÍDIO de férias e de natal. É grave porque fizeram um AUMENTO BRUTAL DE IMPOSTOS e a seguir foram cantar a “Nini dos meus 15 anos”, com a família, para o coliseu. É grave porque tiveram a distinta lata de me dizer que eu, com um salário de 600 euros, VIVIA ACIMA DAS MINHAS POSSIBILIDADES. É grave porque tiveram o desplante de me dizer que se os sem-abrigo aguentam, EU TAMBÉM AGUENTO. É grave porque tiveram a desfaçatez de me dizer que perder o emprego é, afinal de contas, uma boa OPORTUNIDADE.

É grave porque tiveram o topete de me dizer, no meio das minhas dificuldades financeiras, que saísse da minha “ZONA DE CONFORTO. É grave porque a alternativa que me arranjam é EMIGRAR. É grave porque fui OBRIGADO a tirar o meu filho da universidade por falta de dinheiro. É grave porque PERDI A CASA e o emprego. É grave porque o subsídio foi CURTO e não houve emprego criado que me valesse. É grave porque governo e presidente da república aprovaram sucessivos orçamentos INCONSTITUCIONAIS. É grave porque me disseram que tinha que EMPOBRECER, custasse o que custasse.

É grave porque um ministro que dizia ser amigo das famílias me RETIROU O ABONO DE FAMÍLIA. É grave porque fui insultado por um tipo que FALSIFICOU um doutoramento. É grave porque fui espoliado com sobrecarga de impostos por um tipo que se ESQUECEU DE PAGAR a Segurança Social durante 5 ANOS. É grave porque fui acusado de não saber gerir a minha vida por um tipo que foi consultor e administrador de uma empresa investigada pelo gabinete ANTI-FRAUDE da União Europeia.

É por tudo isto que é GRAVE. E como a mim não me apanham a colocar presenças em eventos de Facebook assim à toa, vou participar numa coisa a sério porque isto é tudo MUITO GRAVE. Agora sim, tiraram-me do sério. Vamos Portugal, vamos à luta. VAMOS… ao coletezinho.