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Debater a Europa, esse eufemismo

Foto: Versobooks

De repente, do alto sapiencial de quem adora «recentrar» ou «circunscrever» todas as discussões à órbita da sua própria mundividência, ou ego, aparece a afirmação ou acusação de que os candidatos às próximas europeias não estão a «debater a Europa». Mas o que é isso de «debater a Europa» afinal, quando esse apelo vem geralmente da direita, de liberais, de ditos europeístas, ou dos comentadores que se sentem muito confortáveis com o sistema? Vamos por partes, começando por referir aquilo que essa expressão definitivamente «não é».

«Debater a Europa» não é debater as condições de vida da população residente na UE, porque esses que exigem tal debate são os mesmos que fazem vista grossa ao colossal fosso existente entre os países que pertencem à mesma UE, nomeadamente nas brutais diferenças de salários, de pensões, de sistemas de saúde, de educação, nas quotas de produção, etc. São exactamente os mesmos que, sabendo que o papel de Portugal na UE esteve, está e continuará a estar reservado «à cauda» do sistema, mesmo assim acham «muito bem» que sejamos todos muito «europeístas» e muito defensores de uma união económica e financeira.

«Debater a Europa» não é debater política económica, porque os que clamam por esse «debate» não são nem nunca foram capazes de apontar o dedo a interferências e ingerências dos «grandes» da UE e dos mandantes do BCE na soberania económica e financeira dos demais países da União. São os mesmos que aceitam tacitamente um sistema que submete os países a jugos apertados, a troikas calculistas, a impostos sem o devido retorno ou a quotas de produção asfixiantes.

«Debater a Europa» não é debater a paz entre as nações, porque quem o exige não se importa nada que a UE pactue ou participe activamente nas acções de guerra e saque dos EUA a nações soberanas, por «mero acaso» ricas em recursos naturais.

«Debater a Europa» não é debater o ambiente ou as políticas ambientais, porque isso não se faz com uma postura ou posição de defesa ou de transigência para com o capitalismo desenfreado que a UE intrinsecamente desenvolve. Sob a capa de federalismos «verdes», falsos e hipócritas, é o capitalismo o inimigo primeiro e mais sério do meio ambiente e dos ecossistemas, que não tem pejo em destruir e submeter às suas «regras», lógicas, interesses e desmandos.

O que é então, para esses «exigentes» senhores, «debater a Europa»?

«Debater a Europa» não é um debate, é desde logo uma assunção. É a assunção de uma lógica de pertença inquestionada e inquestionável a uma federação capitalista que existe e vai sempre existir, sem espaço para perguntar verdadeiramente se é essa ou não a vontade do povo português (que nunca foi consultado ou referendado nessa matéria, por muito que digam o contrário).

«Debater a Europa» não é um debate, é uma abstracção. É fazer de conta que os assuntos que se «debatem» têm impacto nas decisões mais importantes e mais determinantes da UE relativamente à vida dos povos ou à soberania dos Estados, e que elas não são sobretudo impostas pelo directório do grande capital, pelos grandes países dentro e fora da própria UE, como é o caso dos EUA.

«Debater a Europa» não é um debate, é uma manobra de diversão. É retirar importância à luta social e laboral dos trabalhadores e dos povos, iludindo-os de que é apenas e só numa eleição para um parlamento cujo único grande poder é o direito de veto – e mesmo este, partilhado –, que reside a salvação para todos os males que os afligem. Isto não significa que devamos voltar costas à sua realização e à necessidade da eleição de deputados. Aliás, só na perspectiva de que esta eleição é apenas uma pequena parte de uma luta muito maior, é que todos devemos não menosprezá-la nem abandoná-la à sorte e ao arbítrio dos partidos do sistema, mas participar nela marcando a diferença, votando ao lado daqueles que querem verdadeiramente contrariar a sua lógica e obter os ganhos possíveis para quem menos tem e menos pode.

As críticas ao Ventura

André Ventura falta a um debate entre cabeças de lista às eleições europeias para participar num programa da bola e rimo-nos dele. André Ventura diz “Eu digo em voz alta o que as pessoas dizem nos cafés” e rimo-nos dele. De certeza que houve uns gajos na Alemanha dos anos 20 que também se riram daquele tipo enfezado e histriónico que liderava o NSDAP. Calculo que tenham perdido a vontade de rir quando bateram com os costados em Buchenwald.

Devia servir-nos de exemplo que limitarmo-nos a rir dos fascistas não é a melhor estratégia para os vencer. E atenção: eu também me rio do Ventura, mas tenho consciência de que isso pode ser contraproducente.

Mas adiante: o Ventura faltou ao debate das Europeias porque sabe que não ia lá ganhar votos. Mais; sabe que se lá fosse arriscava-se a que o seu discurso populista fosse exposto como um apanhado de ideias feitas sem programa ou projecto que o sustente. Mas no programa da bola ele expõe-se à vontade, sem o contraditório de um debate formal. Publicita-se. E para um populista isso basta; para um populista as eleições são um concurso de popularidade, e portanto basta que gostem dele, seja por dizer que é muito católico, que quer fazer a América grande de novo ou que quer acabar com a corrupção. Além de que comparecer ao programa da bola em que aparece regularmente lhe permite dizer que é uma pessoa que honra os seus compromissos e valoriza o seu ganha-pão. E isto dá-lhe crédito popular.

O Ventura diz que diz em voz alta o que é dito nos cafés porque isso lhe dá votos. Há anos que a cultura dominante incute no povo que a política é uma coisa de cúpulas, em que uns senhores com estudos decidem lá do alto o que é melhor para nós todos. E às tantas aparece um gajo (ou seja, a comunicação social decide que é hora desse gajo aparecer) que lhes diz que a sua opinião, aquela que até aqui estava circunscrita à mesa de café, é válida. E de novo: isto dá-lhe crédito social.

Como dizia o Ricardo M Santos há uns dias: quando falamos de André Ventura é bom recordar que foi o candidato apoiado por PSD e PP à Câmara Municipal de Loures, apoiado por Pedro Passos Coelho mesmo depois das declarações que fez sobre a comunidade cigana. Que foi candidato à liderança do PSD. Que além de comentador desportivo é (ou foi) professor auxiliar na Universidade Autónoma de Lisboa e professor convidado na Faculdade de Direito, que é doutorado, etc. A sua formação académica e os cargos que assume na academia não são negativos por si. Mas a sua consciência de classe acompanha a sua natureza, e ele fez uma opção clara pela burguesia. Pelo que o seu discurso populista é apenas um engodo e não uma adesão à defesa do interesses do povo e do país.

André Ventura diz que teve uma origem humilde, diz-se muito cristão, muito benfiquista e muito do povo. E dirá seja o que for desde que isso lhe traga votos.

E traz. Ouço com frequência pessoas a reagir ao Ventura como reagiram há uns anos ao Marinho e Pinto. Que é um gajo que “diz as coisas como elas são”, “umas boas verdades”. Em suma, que “é um gajo à séria, vou votar nele”. E se continuarmos a rir do Ventura, vão mesmo. Quando nos rimos da fachada popular do Ventura, há uma quantidade enorme de gente que se identifica com ele e sente que também é de si que nos estamos a rir.

O que o Ventura precisa de saber, e precisamos de ser nós a dizer-lho, é que nas mesas dos cafés há muito mais dignidade do que a que ele tem, e que as conversas são muito mais sérias do que o seu populismo de merda. Que se fala da bola, mas também se ouve aquela velhota a lamentar a pensão de miséria que recebe e que a obriga, no balcão da farmácia, a escolher quais os medicamentos que pode aviar. Que se queixa o pai que, cigano ou não, recebe o RSI e tem três filhos para alimentar, mas já ninguém dá emprego a um analfabeto. O trabalhador, indignado porque os seus impostos servem para salvar bancos e financiar os Berardos desta vida, mas não servem para meter mais dois ou três médicos no centro de saúde.

O que é urgente é dizer a toda a gente que o Ventura não passa de um balão de ar quente; que o seu discurso popular é uma farsa; que o fato que traz no pêlo custa mais do que um salário médio; que nos anos da troika ele esteve de pedra e cal com quem nos apertou o cinto; que ele só saiu do PSD porque, tal como Santana Lopes, não ganhou a corrida à liderança.

Mas que se tivesse ganho, o PSD continuaria, como sempre, ao serviço dos interesses do capital, e que agora com o seu BASTA/CHEGA, continua ao serviço dos mesmos interesses. É urgente dizer a toda a gente que vê no Ventura uma saída do mais-do-mesmo na política é que essa saída, a única saída, é aquela que é construída activamente pelos trabalhadores, pelo povo, pelos explorados; e que essa saída é o PCP e a CDU.

E é urgente que o façamos agora, antes que o Ventura – ou o cavalo em que o capital apostará caso o Ventura falhe – tenha o seu Buchenwald à nossa espera.

Nem uma União Europeia para os fascistas.

Na iniciativa de convívio com apoiantes da Coligação Democrática Unitária (CDU) realizada segunda-feira, dia 15 no Centro de Trabalho Vitória e que contou com largas dezenas de participantes, João Ferreira, primeiro candidato das listas para o Parlamento Europeu, dirigiu-se aos amigos presentes com um agradecimento, mas também com justas considerações sobre o papel dos comunistas e aliados no contexto actual.

Aliás, o candidato não se limitou a fazer um discurso de mobilização, mas também um discurso de alerta e de luta. A consideração fundamental do camarada assentou na valorização da política alternativa proposta pelo PCP e pela CDU mas avançou para uma questão ideológica sobre o fundo político da actual situação política.

“O PCP nunca embarcou na falsa dicotomia entre nacionalismos ou União Europeia”, para citar livremente. É evidente que aprofundou um pouco e a questão merece ainda mais aprofundamento. Porque o momento político, como aliás sempre se pode dizer, é decisivo. É decisivo para Portugal e para todos os povos que trabalham na Europa, é decisivo para a superação dos movimentos proto-fascistas e abertamente fascistas e é decisivo para a clarificação do campo estratégico em que nos movemos.

A propaganda da União Europeia, de integracionismo, centralização e federalismo, é a propagando dos grandes grupos económicos que falam pela voz dos governos dos estados-membros, dos comissários e da vasta maioria dos deputados ao parlamento europeu.

Neste momento, ganham particular dimensão teses que vêm sendo construídas há muito e que estão intimamente ligadas à natureza e objectivos do grande capital europeu e transnacional.

i. A falsa dicotomia entre União Europeia e nacionalismo e extrema-direita,


ii. A banalização e promoção dos movimentos fascistas históricos e o revisionismo histórico,


iii. A promoção do fascismo como elemento de modernidade,


iv. A preocupação em criar o recipiente popular reaccionário para o apoio à ascenção de forças fascistas,


v. O ataque sem limites às forças progressistas.

Para facilitar, separemos os pontos, apesar da sua interligação evidente.

i. A falsa dicotomia entre União Europeia e o nacionalismo de extrema-direita:

No contexto de aprofundamento da integração federalista e capitalista da União Europeia, o surgimento e agravamento de tensões entre as classes é inevitável. A divisão internacional do trabalho e o patamar diverso de graus de desenvolvimento económico entre os estados acrescenta à crescente tensão entre interesses classistas, a concorrência e disputa inter-capitalista. A integração gera inevitavelmente situações de domínio e submissão, partindo de um ponto desigual. As próprias regras de funcionamento da UE assentam numa arquitectura de domínio económico, financeiro, político e cultural. A soberania dos Estados foi paulatinamente aspirada para cúpulas à escala da UE, no sentido da satisfação dos objectivos das grandes potências. Sempre que as grandes potências, ao serviço das grandes transnacionais, entendem ser útil expropriar um estado da sua capacidade de decisão, captam mais um poder para as instâncias supranacionais. Essa perda de soberania galopante acompanha um sentimento de descontentamento com os resultados desta política. É a própria União Europeia que finge ter no nacionalismo de extrema-direita o seu inimigo. Ao mesmo tempo, é a UE que lhe pavimenta o caminho e que o promove como suposta alternativa. A aposta por todo o espaço europeu em forças proto-fascistas ou abertamente fascistas é uma opção dos grandes grupos económicos e visa assegurar que o descontentamento com os resultados da UE não se organiza em torno de objectivos revolucionários, mas sim conservadores, ou seja, o grande capital garante com o culto do fascismo, que uma franja descontente da população apoia uma segunda via do próprio capital. Por detrás dos nacionalismos exacerbados da extrema-direita estão os mais obscuros e poderosos interesses, exactamente os mesmos que estão por detrás da UE.

Acaso se poderá dizer que não são os grupos económicos que fomentam e estimulam o sugimento dos grupos neo-fascistas. A realidade desmente essa ideia. Vejamos como a comunicação social introduz esse assunto no dia-a-dia, como jornais inteiros funcionam como porta-vozes dessas forças, como se promovem figuras antes irrelevantes nas políticas nacionais a salvadores e como se branqueiam histórias e vidas de criminosos para se travestirem de políticos.

Acaso se poderá dizer que também não é a UE que promove o caldo de cultura reacionária. Mas a realidade desmente essa tese: a constante propaganda anti-comunista; o apoio ao revisionismo histórico por parte da UE; a ameaça russa; a constante espoliação de povos inteiros das suas riquezas e da sua soberania económica, política, produtiva; a imposição de normas desajustadas das realidades de cada povo; a concentração da propriedade produtiva, do solo, da água e outros recursos naturais; a salvação dos grandes bancos da União Europeia; a concentração de recursos nas grandes potências da UE; o desrespeito constante pelas opções de cada povo; a imposição de regras orçamentais que visam a privatização de serviços e a destruição do papel dos estados; a participação na guerra e na agressão imperialistas e a consequente hostilização de povos a quem a própria UE destruiu os seus países; são características permanentes da política da União Europeia. Essas características são objectivamente a origem de todos os descontentamentos. O descontentamento que desagua na extrema-direita, afinal de contas, é apenas a resposta que o grande capital prepara para as suas próprias desgraças. Não é um placebo, é uma dose redobrada do veneno.

ii. A banalização e promoção dos movimentos fascistas históricos e o revisionismo histórico

Por toda a comunicação social, nas escolas, nos discurso dos comentadores e “historiadores” do sistema, há uma banalização dos crimes do nazismo e do fascismo. O fascismo é vendido como um antídoto doloroso, mas funcional. A realidade desmente essa tese: a corrupção, a concentração da riqueza, a pobreza extrema, a fome e a guerra vêm de mãos-dadas com a repressão. A repressão e dureza que são vendidas como fontes de disciplina são apenas fontes de novas formas de exploração e de agrilhoamento de todos os que se não contentem com a desigualdade. O revisionismo histórico que exalta o papel das potências capitalistas ocidentais e apaga ou deturpa o contributo decisivo do sistema comunista mundial contra o fascismo e o nazismo, ao mesmo tempo que se aligeiram os crimes dos regimes fascistas europeus visam apenas afastar os povos e os trabalhadores da única alternativa real ao capitalismo sob todas as suas formas: a luta revolucionária pelo socialismo.

iii. A promoção do fascismo como elemento de modernidade

É enternecedor verificar a constante preocupação da comunicação social com a ausência de um movimento fascista em Portugal. Por todos os jornais, rádios e televisões, se verificam constantes apelos ao surgimento destas forças. Não apenas pela sua promoção, pela projecção de figuras oportunistas e demagógicas, pela sagração de novas vedetas com mais tempo de antena do que as forças políticas que realmente se posicionam no tabuleiro nacional, mas também pela consolidação da ideia de que o fascismo é moderno e de que Portugal está atrasado em relação aos países mais desenvolvidos da União Europeia.

Somos constantemente bombardeados com perguntas do género “porque não existem movimentos de extrema-direita em Portugal?”, como se isso fosse um requisito da actualidade, como se estivéssemos a falhar em alguma coisa. A comunicação social, detida pelos grupos económicos que dominam o país nas mais diversas esferas, faz tudo o que pode para criar novos focos de atenção, para criar literalmente movimentos que não têm expressão material.

iv. A preocupação em criar o recipiente popular reaccionário para o apoio à ascenção de forças fascistas

A comunicação social, acompanhando a degradação do nível de vida das populações e dos trabalhadores, concentra-se na divulgação do crime, deturpa a realidade no sentido de criar a sensação de corrupção estrutural no frágil sistema democrático e nos partidos por igual, hostiliza minorias, exalta a repressão, e dá espaço a um vasto conjunto de intelectuais de sarjeta a quem nenhum outro valor se reconhece a não ser o serviço que prestam à ideologia dominante e o ataque mentiroso ao socialismo e aos portadores do seu projecto.

A existência de canais de televisão e jornais integralmente dedicados à divulgação da pequena criminalidade é um elemento que denuncia bem os seus objectivos. Além de ser óptima fonte de receitas, o medo e a sensação de insegurança são óptimos combustíveis para o ódio fascista. A ameaça, real ou não, à segurança das populações é o primeiro passo para a justificação da repressão.

A promoção de simpatia por líderes como Trump e Bolsonaro e o ataque cerrado a todos os líderes que não se lhes ajoelham são mais um instrumento da comunicação social na luta pelo domínio ideológico.

Depois de várias tentativas falhadas para a criação de um movimento de extrema-direita em Portugal, mas sempre apoiadas pela comunicação social, a táctica altera-se para adoptar o modelo norte-americano e brasileiro: é preciso antes alterar a infra-estrutura para acomodar a super-estrutura. Isso significa que o grande capital decide apostar antes na criação de um desejo popular, de um certo acolhimento e simpatia por ideias reaccionárias, anti-comunistas, racista e xenófobo, idealista e individualista, capaz de ser captado por uma força ainda por criar. Perceberam que antes de nos apresentar a falsa solução, têm de falsificar o problema.

v. O ataque sem limites às forças progressistas

Quarenta e cinco anos de distância permitem a consolidação de mentiras sobre o 25 de Abril, tal como 102 anos de distância permitem consolidar mentiras sobre a grande revolução socialista e 30 anos permitem apagar muito da história da derrota da experiência socialista de leste. À medida que nos afastamos temporalmente de uma realidade, o branqueamento histórico torna-se mais eficaz.

Aproveitando essa distância e o domínio hegemónico da cultura, educação, economia e religião, o grande capital vira todas as suas armas contra o movimento operário, contra os sindicatos e partidos de classe. Onde os pôde destruir ou desfigurar por dentro, não hesitou.

Em Portugal, desde o início dos anos 40 que o PCP ganhou características que dificultaram essa tarefa aos seus inimigos. Características que mantém e que permitem aos comunistas portugueses seguir o caminho da luta e aos trabalhadores portugueses ter um partido de classe, uma vanguarda organizada sem outro objectivo senão o de os defender, mobilizar para essa defesa e de com eles construir uma democracia real, capaz de retirar a decisão das mãos dos administradores e capatazes do capitalismo europeu e de a devolver ao espaço em que trabalhamos: Portugal. O tal “soberanismo” de que acusam o PCP não é mais do que democracia: não pode haver democracia se não for o povo português a decidir.

A deturpação e a mentira, a par de um estratégico silenciamento, são armas dos monopólios e grandes grupos económicos contra o PCP. O ódio desses grupos contra o PCP perpassa para a esmagadora maioria de colunistas e comentadores e até para muitos jornalistas. Fragilizar a força que pode colocar em causa os objectivos dos grupos económicos é um passo fundamental para o sucesso da sua ambição de agravamento da exploração. Mas é muito mais do que isso: a debilitação ou o aumento da hostilidade anti-comunista são também o estrume para as ervas daninhas fascistas.

Temos esta cassete, não por sermos obcecados com ela, não por não sermos capazes de dizer outras coisas, mas porque a realidade é tremendamente brutal: só a luta é o caminho. Teses e debates e diversões e dúvidas existenciais pululam os esquerdismos como se buscassem uma pedra filosofal contra o avanço do fascismo. Pois não há. Mas há sangue e músculos, há homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, que unidos pela superação do capitalismo e pelo aprofundamento revolucionário da democracia, foram, são e serão, a única frente que conta contra o fascismo.

PCPorquê?

Para lá do campeonato das bandeirinhas entre quem conseguiu o quê nos orçamentos do estado e nos debates parlamentares e outras dimensões da vida institucional e política nacional, há todo um verdadeiro conjunto de motivos para apoiar o PCP e as estruturas eleitorais em que participa, como a CDU.

Mais do que apoiar o PCP por ter a bancada parlamentar mais interventiva, por ter o grupo parlamentar mais jovem, por ser o autor da esmagadora maioria das propostas que vão fazendo furor, desde o fim das taxas moderadoras ao fim das propinas, por ser o autor da exigência de renegociação da dívida, por ter sido o primeiro partido a propor a limitação da utilização de animais selvagens em circos, por ter sido o primeiro e propor o fim do abate de animais errantes e a sua esterilização, por ter sido o primeiro a propor a água pública, a revogação da lei das rendas, o controlo público da banca, mais do que apoiar o PCP por ter sido primeiro a exigir o aumento do orçamento da cultura para 1% do Orçamento do Estado, e o primeiro e único a propor a responsabilização do Estado pelo financiamento da produção cinematográfica, por ter sido o partido que defendeu desde o início o fim das provas globais e exames nacionais, a descriminalização do consumo de drogas, a redução de impostos para trabalhadores e o aumento de impostos para os grandes lucros, o único que ainda defende que a um posto de trabalho permanente deve corresponder um contrato de trabalho efectivo, sobram-me motivos.

É que nesta corrida pelo protagonismo que é o circo da democracia parlamentar, apesar de haver bons e fortes motivos para apoiar o PCP, a verdade é que a batalha está inquinada porque o campo está inclinado. Se nos limitamos à disputa de ver quem chegou primeiro aonde – e devemos travá-la – estamos à partida a travar o combate que nos é mais difícil. Não se trata de desvalorizar as conquistas e as propostas concretas do PCP, mas trata-se essencialmente de destacar esse partido do pântano que é o panorama partidário nacional. O PCP apresenta propostas e combate para a sua aprovação e concretização no actual contexto político, mas não é neste contexto político que propõe que essas propostas se consolidem e sejam verdadeira e plenamente concretizadas.

É verdade que apoio eleitoralmente o PCP porque o PCP não precisa fingir estar presente nas lutas dos trabalhadores, nem ir a correr atrás de uma greve para se apropriar das suas conquistas. O PCP já lá está, não precisa fingir. O PCP tem esse património tremendo, que todos os militantes conhecem, que é o de ser aquele a quem se dirigem os trabalhadores quando são ofendidos nos seus direitos. Quantas vezes, não estamos em tarefas do PCP, mesmo dentro dos centros de trabalho, e trabalhadores que nunca votaram PCP – quem sabe não lhe eram até avessos – vêm pedir informações ou apoio sobre ofensas a que foram sujeitos nos locais de trabalho?

É verdade que apoio o PCP e a CDU porque são titulares desse vasto capital de propostas pontuais e concretas, ao longo da história da democracia portuguesa. São incontáveis as propostas já copiadas e apropriadas por outros. Esse combate será sempre hostil ao PCP. A simpatia da comunicação social com que contam os restantes, jamais nos abençoará. Enquanto BE, PSD, CDS e PS apoiaram a ascensão e tomada do poder pelos nazis na Ucrânia, apoiaram os bombardeamentos na Líbia e mantiveram a postura de agressão à Síria e ninguém lhes pediu contas, fizeram-se constantes acusações ao PCP pelas suas posições sobre esses mesmos países. Acusações essas que nunca geraram um tempo de antena para explicações que representasse um milésimo do tempo de antena que as próprias acusações tiveram.

Isso é igualmente verdade para as diversas questões do dia-a-dia: ainda há bem pouco tempo, o BE propôs o fim das provas nacionais e foi notícia por todo o lado sem referir uma única vez que o PCP já tinha proposto isso há muito. O PS aventou o fim das propinas – apesar de sempre ter sido contra essa medida e de ser autor de grande parte da legislação que as aumenta e faz cobrar – e foi notícia durante dias sem que um único órgão de comunicação social tenha noticiado que essa é uma proposta de há muito do PCP.

Nessa disputa da afirmação das diferenças, não podemos descansar. Mas atermo-nos a ela é entrar na dança que nos condena. É que se a diferença do PCP para os restantes partidos é apenas ser autor moral de muitas propostas que hoje são moda, e ser pioneiro e ter razão antes do tempo, então essa diferença talvez não compense que se abdique de votar numa coisa da moda, bonitinha e simpática como o BE e o PS, cuja imagem é constantemente limpa e melhorada pelos próprios órgãos de comunicação social, detidos pelos mesmos interesses que controlam esses partidos. Se o BE acaba por propor o mesmo que o PCP, para quê votar num partido que é vendido como um partido envelhecido, retido na URSS, amigo da oligarquia angolana, próximo da dinastia norte-coreana, companheiro de ditadores latino-americanos?

É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para uma comunicação social que inventou as notícias falsas mas que agora se escandaliza com as “fake news”? É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para o bando de imbecis que discute comunismo apenas com um argumento chamado “gulag” mas que é o mesmo que discute Salazar como o homem “que morreu pobre” e que fala de nazismo para dizer “que nem tudo foi mau”?

Podemos enlear-nos nesse debate sem fim e disputar a autoria das propostas mais avançadas. E devemos. Mas não é por ganhar essa batalha que eu voto na CDU, para votar PCP.

É porque o PCP é o único que não sucumbe à ditadura do marketing televisivo (que para esse partido seria suicídio), que não define as suas posições em função da simpatia que receberão da comunicação social dos grandes grupos económicos, que não hesita em defender o que considera justo independentemente do acolhimento mediático e das redes sociais. Aquele que prefere empenhar-se em explicações atrás de explicações, para justificar um voto ou uma posição menos demagógica porque prefere perder votos a falar verdade do que ganhar votos a dizer mentiras. É o único partido que existe além das suas bancadas institucionais, que tem células, organizações de base, que não serve apenas para debates mas também para dinamizar, organizar e dirigir as lutas colectivas e não para satisfazer ambições políticas de indivíduos.

É o único partido que realiza reuniões pela noite adentro para debater as condições em que vivem os portugueses e como é possível ultrapassar as dificuldades e resolver os problemas em vez de passar reuniões a debater quem será o líder da concelhia, o presidente da distrital e o candidato a deputado, ou pior, a fazer jogos de bastidores para promover este ou aquele militante a chefe, falsificando eleições, pagando quotas em barda, ou prometendo favores.

Mas também é por mais do que isso. É porque o PCP é o único que apresenta as suas propostas com um fito de transformação, um projecto vasto e maior, que coloca o interesse dos trabalhadores acima do interesse dos grandes grupos económicos nacionais ou internacionais. É porque é o único que, independentemente de apresentar propostas que já são copiadas por outros, o faz integrando essas propostas num projecto de ruptura com a política actual, de degradação e afundamento nacional. É o único partido que é capaz de combater PSD e CDS e ao mesmo tempo afirmar que o rumo actual é um rumo de continuidade com a linha política desses partidos, que é capaz de afirmar sem medo que este rumo, do Governo minoritário do PS, é um rumo de desastre e de subordinação do interesse nacional. É o único partido capaz de afirmar, distante de deslumbramentos como os de todos os restantes federalistas convictos (apesar de se autodenominarem “europeístas”) que o próprio projecto da União Europeia é um projecto de estímulo à ascensão dos nacionalismos de extrema-direita e de concentração do poder político e económico. É o único capaz de continuar a afirmar que é urgente a recuperação da soberania monetária como instrumento para a recuperação de outras dimensões da soberania e é o único que coloca o confronto entre o trabalho e o capital no centro de todas as restantes questões políticas.

Apoiar o PCP não é apenas defender um partido que é pioneiro nas propostas que consideramos justos, porque isso, outros, mesmo que tardiamente, podem mostrar-se interessados em fazer e copiar, mas é apoiar e defender um partido que afirma orgulhosamente as suas marcas distintivas, que valoriza o trabalho colectivo, a solidariedade, a cooperação, que desmonta os fundamentos da ideologia dominante e das suas imposições e que se candidata a eleições para o parlamento europeu e para a assembleia da república, não apenas com a intenção de fazer uns brilharetes com propostas nas capas dos jornais (que mesmo quando merece, não tem), mas com a muito mais funda intenção de utilizar esses espaços para denunciar o esgotamento do modelo capitalista de democracia, para denunciar os interesses que se movem por detrás de cada grupo parlamentar, refém dos grupos económicos, contaminado pelas corrupções sistémicas, legais e ilegais. O PCP dignifica os parlamentos em que participa porque demonstra que não são do povo, mas sim dos grupos económicos. É por ser a excepção, contra todas as forças mais obscuras ou declaradas, que conto com o PCP.