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No dia internacional em memória das vítimas do Holocausto nazi-fascista.

Entre o discurso xenófobo e racista dos grupelhos de extrema-direita que se manifestam um pouco por toda a União Europeia e o cinismo dos burocratas de Bruxelas relativamente à situação das centenas de milhares de refugiados que aguardam por uma solução para as suas vidas em campos improvisados no leste e no centro da Europa a distância é muito mais aparente do que efectiva. Os fascistas querem impedir activamente a entradas dos refugiados na zona da UE; já a burocracia de Bruxelas vai adiando a solução que desde há muitos meses se impõe, talvez na expectativa de que iraquianos, sírios, líbios e afegãos se cansem das precárias condições em que se encontram aguardando uma mão que não se estende.

Na semana em que se celebra a libertação de Auschwitz pelo Exército soviético, a 27 de Janeiro de 1945, o parlamento dinamarquês aprovou legislação que envergonha o seu povo e que se destina a desencorajar quem foge da guerra, da destruição e da perseguição fanática a dirigir-se para aquele país por tantos considerado exemplar no quadro da União Europeia. A lei prevê o confisco de bens dos refugiados acima dos 1340 euros e dificulta o reagrupamento familiar, condição fundamental para o estabelecimento de famílias em países de acolhimento onde possam viver com dignidade e em paz. [1] É a versão elaborada do muro húngaro. Há até quem recorde a acção dos nazis face aos judeus, naqueles anos de má memória entre 1933 e 1945.

Perante a falta de vergonha dinamarquesa a Comissão Europeia assobia para o lado e aponta baterias à Grécia, que agora acusa de “negligenciar seriamente as suas obrigações” no que se refere à gestão de fronteiras. [2] Ironia das ironias, académicos de várias instituições (incluindo dinamarquesas) preparam a candidatura dos habitantes das ilhas gregas de Lesbos, Kos, Chíos, Samos, Rodes e Leros ao Prémio Nobel da Paz, como reconhecimento da sua acção de auxílio aos refugiados que todas as semanas chegam a solo grego. [3]

Das lágrimas de crocodilo de Barroso em Lampedusa ou das loas à senhora Merkel não restam memória suficiente para criar em torno da vergonha europeia face ao desinteresse a que estão votados os refugiados e imigrantes concentrados em campos uma cortina de fumo. Ao contrário do que se disse e escreveu no final de 2015 a palavra do ano não foi “refugiado” porque relativamente aos refugiados a atitude mais comum entre “nós”, “europeus”, foi a indiferença.

A 1 de Setembro de 2015 o PCP divulgou uma nota “Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa” [4] na qual deixava clara a sua posição sobre as causas da crise humanitária bem como sobre a resposta a dar-lhe. Na referida nota podia ler-se, no seu ponto 4, uma observação respeitante à distinção entre “refugiados” e “migrantes” absolutamente justa a que poucos deram ênfase: (o PCP) “deplora a visão de total discriminação na resposta a dar aos problemas humanitários colocados a pretexto da distinção entre refugiados e migrantes e condena frontalmente as visões e declarações, nomeadamente de partidos políticos portugueses, que a pretexto do drama humanitário criado pelas políticas dos EUA, da NATO e da União Europeia apontam o caminho de novas aventuras militares no Médio Oriente e no continente africano.”.

Meio ano passou. Das várias dezenas de milhares de refugiados que desde o Verão de 2015 se foram concentrando na Europa à espera de resposta por parte dos governos nacionais e dos burocratas de Bruxelas apenas escassas centenas viram as suas situações resolvidas. A “Europa” é também isto. Não o é todavia em meu nome.

Notas:
[1] Imune às críticas, Dinamarca aprovou confisco de bens aos refugiados, Público, 26.01.2016.
[2] “Grécia negligenciou seriamente as suas obrigações” na gestão da sua fronteira, Público, 27.01.2016.
[3] Greek islanders to be nominated for Nobel peace priz, The Guardian, 24.01.2016.
[4] Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa, 01.09.2015.

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Migrantes, ciganos e untermensch


Pergunta para queijinho: que nome se dá a uma pessoa forçada a abandonar o seu país para fugir a uma guerra civil ou a outro tipo de catástrofe humanitária? Se «refugiado» foi a palavra em que pensou, está desactualizado. Dos autores de «colaborador» e «empreendedor», chega-lhe agora «migrante» a mais recente aquisição lexical da comunicação social da classe dominante.

A semântica da luta de classes é um dos termómetros mais fidedignos das estratégias em confronto. Quando as pitonisas da comunicação social dominante nos dizem que uma criança palestiniana morreu no «fogo cruzado», quando atirava pedras num «território disputado», o que no fundo querem dizer é que o valor da vida humana varia na proporção directa do lucro que possa gerar.

O aluvião deste novo termo, até aqui ausente do discurso mediático, pretende matar dois coelhos de uma cajadada. Por um lado, a expressão «migrantes» permite tratar os refugiados e os imigrantes como nómadas que decidiram migrar. Por serem migrantes como as aves não importa que morram cinco ou seis… afinal, já se sabe, não é por morrer uma andorinha que morre a primavera. São uma «praga», como lhes chamou David Cameron, inoportuna que vem aproveitar-se dos «benefícios» europeus. Por outro lado, estes «migrantes» são destituídos, pela palavra, do móbil da sua tragédia pelos demiurgos das guerras imperialistas que arrasaram a Síria e a Líbia, do saque capitalista que depreda a África oriental e do terrorismo islamita engendrado pelos EUA.


Mais sucintamente, o objectivo racista da palavra «migrantes» é ressuscitar o conceito nazi de untermensch, ou sub-humanos, equiparando os refugiados a «ciganos» e legitimando a barbárie ilimitada. Não se pode construir um muro no coração da União Europeia para impedir os refugiados de escapar à morte, mas pode-se fazê-lo contra «migrantes» que vêm de férias. Não se pode usar arame farpado para cortar a carne de bebés que morrem de fome, mas pode-se fazê-lo contra «migrantes» que chegam para «pôr em causa os nossos sistemas de segurança social». Não se pode enfiar refugiados em campos de concentração, mas pode-se fazê-lo contra os «migrantes» que vêm destruir os «costumes europeus».