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O eurocentrismo de Duarte Pacheco

Não, este não é só um texto sobre a Venezuela. Esta é uma reflexão sobre declarações proferidas por Duarte Pacheco, deputado do PSD, no Esquerda-Direita da SIC Notícias, sobre a legitimidade da ONU e da UE. Duarte Pacheco não é só mais um deputado, é também secretário da Mesa da Assembleia da República. A desvalorização do papel da ONU é um padrão que tem vindo a ganhar adeptos entre os representantes dos Estados mais reacionários e unilateralistas, como Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

Pacheco puxa dos galões e compara a ditadura fascista que vigorou em Portugal, durante 48 anos, com o momento que se vive na Venezuela. Ora, em Portugal, em 48 anos, houve sete eleições, todas viciadas, todas sem qualquer acompanhamento internacional. Em todas ganhou o fascismo. Na Venezuela, desde que Chavez subiu ao poder, por via eleitoral, em 1999, houve mais de 20 atos eleitorais e referendários; nuns ganhou o chavismo, noutros não, como foi o caso do referendo constitucional de 2007, que Chavez perdeu. Seguidamente, num outro referendo sobre a continuidade de Chavez como presidente, este ganhou. Desta vez, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, e António Guterres, atual presidente da AG da ONU, foram observadores internacionais e atestaram a validade do ato. Nas eleições para a Assembleia Nacional, Maduro perdeu e foi criada uma Assembleia Constitucional, que era, de resto, uma exigência da oposição. Recorde-se que foi na Venezuela, país governado de forma ditatorial, segundo Duarte Pacheco, que a oposição pôde realizar o seu próprio referendo, sem qualquer acompanhamento internacional, e, no fim, queimar os votos, afirmando que 98% dos votantes decidiu pela destituição de Maduro. Aqui ao lado, em Espanha, há presos políticos por terem feito o mesmo na Catalunha. Um referendo. Negar tudo isto é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, manipulação descarada da opinião pública e alinhamento com a opinião publicada.

Pinochet vs Maduro

“Pinochet não pôs a economia tão mal como Maduro”. Esta é, talvez, uma afirmação tão nojenta como sem sentido. A economia chilena de Pinochet não piorou, porque foram precisamente os setores económicos oligarcas, com o imprescindível apoio dos EUA no assassinato de Allende. Achar que os setores económicos que promoveram o golpe sangrento que resultaria na ditadura sanguinária de Pinochet seriam os mesmos a sofrer as suas consequências, não pode ser só ignorância. É má-fé e reveladora de falta de caráter. Fazer de conta que as sanções económicas impostas pelos EUA e UE, à revelia da ONU, não têm qualquer preponderância na situação catastrófica da Venezuela, é desonesto. Não há outro nome.

ONU vs UE

Duarte Pacheco, mestre em Estudos Europeus, tem obrigação de saber qual é o papel da ONU, para o bem e para o mal. Estudou, com certeza, Tomas Hobbes e a sua teoria do conflito permanente, com a ausência de um Leviatão – uma entidade suprema que regulasse a relação entre Estados. A ONU, ainda que o seu órgão máximo, a Assembleia Geral, possa apenas aprovar ou rejeitar resoluções, sem caráter deliberativo, foi a forma encontrada para equilibrar as relações entre os Estados. Obviamente, com o papel central no seu Conselho de Segurança, há uma situação de desigualdade entre todos os seus membros, uma vez que nada garante – e acontece amiúde – que os países do Conselho de Segurança deliberem em função dos seus interesses estratégicos e políticos e não em favor dos interesses da maioria da sociedade internacional. Quando Duarte Pacheco afirma que “conhecemos a forma como funcionam muitas das democracias da ONU”, para justificar que a legitimação de Guaidó não tenha passado naquela organização, está, de forma lamentável, a questionar a legitimidade da ONU, como o fazem Trump e Bolsonaro no que respeita, por exemplo, à mudança das suas embaixadas para Jerusalém. No entanto, não surpreende. Duarte Pacheco era deputado do PSD quando Durão Barroso, à revelia da ONU, albergou uma das maiores farsas da História recente, que provocou milhões de mortos, com a cimeira das Lages e as provas, que nunca existiram, da existência de armas de destruição massiva no Iraque.

O eurocentrismo neocolonialista

Em França, há semanas que decorrem confrontos com os Coletes Amarelos. Resultaram, até ao momento, pelo menos, em 11 mortos, mais de 3.000 feridos, e centenas de detidos. Em Espanha, continuam detidos militantes independentistas catalães e bascos, para além de artistas condenados ao abrigo da célebre Lei Mordaça. No entanto, nestes casos, parece não haver nada de anormal. Duarte Pacheco não acha que haja comparação entre a situação em França e a situação na Venezuela. Os mortos franceses são menos mortos que os venezuelanos, os feridos franceses são menos feridos do que os feridos venezuelanos e os detidos são menos detidos. Porquê? Por nada. Apenas e só porque o renascido eurocentrismo neocolonialista assim o dita. Porque o eixo EUA-UE considera apenas uma forma de organização social e de Estado e é a democracia liberal. Tudo o que vá além disso, deixa de ser legítimo, ainda que haja razões históricas, culturais e sociais para que assim seja. Um mundo uniformizado sob a égide dos cidadãos europeus, tão melhores e tão mais avançados do que os indígenas do resto do Mundo. É por isso que Duarte Pacheco coloca a ONU num patamar abaixo da UE, onde pode haver mortos e feridos por protestos antigovernamentais, que continua a ser uma democracia. Não há outro motivo, embora a História nos ensine o que sucedeu após o descrédito da Sociedade das Nações. A ideologia dominante reconhece apenas o seu modo de organização. Para lá disto, é o vazio. É, no fundo, o neocolonialismo. Levar o nosso modo de vida a todo o Mundo, subdesenvolvido, de incapazes de se governarem sem a bênção dos seus colonizadores. É, no fundo, uma vergonha. O mapa abaixo, publicado pela AFP, demonstra este caminho que se está a trilhar. Para a agência de notícias francesa, o mundo é apenas América do Norte e Europa, dando espaço à China, mau era, atendendo à sua dimensão diplomática e política na cena internacional. No entanto, África não é considerada, nem a maior democracia do Mundo, a Índia, que não reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. No fundo, todos sabemos que nada disto tem a ver com petróleo.

Silêncio

Calados, caladinhos, cabeça baixa, orelhas que tapem os ouvidos, que vão falar os comunistas. Os velhos e cansados, os que desde 1921 que vão acabar, os retrógrados e contra o progresso, mais o liberalismo que é o futuro, mais o feminismo urbano-burguês. Mudos, calados obedientes, que o pensamento é só um, só pode ser um, que é a natureza humana. Calem-se as ideologias estafadas da igualdade de oportunidades do trabalho com direitos e do direito ao trabalho. São millenials, querem T0 com 2 metros quadrados, querem Uber e Glovo, que se foda quem paga as motas e os carros. Isto salva-se com o Banco Alimentar, desde que não haja bifes, porque temos de deixar que nos roam os ossos. Não há uma app que mastigue por mim? É a vida, só há um caminho, é a natureza humana, que é fodida, porque o ser humano é egoísta quando nasce. Claro que há igualdade desde que não abane o défice, que o défice cai bem em qualquer mesa, não pode é haver muita chatice, diz que é pessoal lá em Bruxelas que diz que somos uns calões; calados e mudos. O quarto poder e tal, que anda um bocado mau, o senhor Presidente da República até falou sobre isso.

Do lado de cá estamos nós, surdos e cegos, como o burro no quadro de Grosz. Deu no jornal, que eu vi; deu no Facebook, que eu vi; deu no Portugal Glorioso ou no Direita Política, que eu vi e, se não é verdade, não faz mal, porque podia ser. Vamos lá dar a papa aos meninos, vamos explicar como é que se deve pensar, que temos o Marques Mendes as fazer-nos esse favor, mais a Manuela Moura Guedes e o Jorge Coelho e a ponte que os pariu a todos.

Silêncio
Não se pode dar espaço a quem pensa diferente, a quem tem um projeto diferente. Já viram se a mensagem passa? Vamos bloquear esta merda, mesmo que estejamos a bloquear a nós próprios. Então não é que a UGT votou ao lado da administração numa cena sobre jornalistas precários? Olha que não estava à espera. Ah, espera… Não importa, vamos buscar um ex-isto e ex-aquilo radicalmente social-democrata acomodado, vamos dar espaço, deixar falar. Porque Cuba e Venezuela e Vietname e Laos. E a Coreia do Norte, cheia de mísseis e não sei quando. Temos de discutir as fake news, não se percebe como aqueles lorpas caem nisto. E as armas de destruição massiva no Iraque, que comemos que como lorpas e demos a mastigar aos pacóvios? E aquele maluco da ONU que afinal era mas que o Expresso disse que sim, mas afinal não. E os ucranianos que são maus mas os russos é que são piores. Nós é que somos quem dá a informação cuidada e isenta. Nós somos mesmo quarto poder e devíamos ser contrapoder. Mas depois lá se vão assessorias e consultorias nas próximas eleições. Vamos calar isto, se não, como dizia o António, esta merda vai voar.
Silenciados
A imagem abaixo representa uma recolha efetuada nos sites de diversos órgãos de informação sobre o espaço de comentário político destinado a cada partido. Importa realçar que foram recolhidos dados no JN, DN, Público, Sol, Expresso, TSF, Visão, TVI e SIC. Incluindo os canais noticiosos. Não contam comentadores convidados para assuntos imediatos, que pertencem, invariavelmente, ao círculo ideológico de PS, PSD e CDS, embora não estejam diretamente ligados aos partidos referidos. De referir que a imagem aponta apenas presenças individuais. Há os seguintes casos em que a mesma pessoa se desdobra em vários órgãos, sendo esses os seguintes:

PSD – Paulo Rangel (Público / TVI)
CDS – Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
BE – Marisa Matias (DN / TVI)
BE – Francisco Louçã (Expresso / SIC)

Então, a presença partidária nos media com espaço de opinião está distribuída da seguinte forma:

PS
Ana Catarina Mendes (JN)
Maria Antónia Almeida Santos (DN)
Francisco Assis (Público)
João Gomes Cravinho (Público)
Pedro Adão e Silva (Expresso)
Isabel Moreira (Expresso)
Ana Gomes (SIC)
Jorge Coelho (SIC)
Carlos Zorrinho (TVI)
Fernando Medina (TVI)
João Cravinho (TVI)
Pedro Silva Pereira (TVI)
Catarina Marcelino (Visão)

PSD
Poiares Maduro (JN)
Margarida Balseiro Lipes (DN)
Paulo Rangel (Público / TVI)
Feliciano barreiras Duarte (Sol)
João Lemos Esteves (Sol)
Sofia Vala Rocha (Sol)
Duarte Marques (Expresso)
Diogo Agostinho (Expresso)
Marques Mendes (SIC)
Carlos Carreiras (TVI)
José Luís Arnaut (TVI)
Luís Montenegro (TVI)
Manuela Ferreira Leite (TVI)
José Eduardo Martins (Visão)

CDS
Nuno Melo (JN)
Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
Bagão Félix (Público)
Nádia Piazza (TSF)
Lobo Xavier (SIC)
Paulo Portas (TVI)

BE
Mariana Mortágua (JN)
Marisa Matias (DN / TVI)
Pedro Filipe Soares (Público)
Francisco Louçã (Expresso / SIC)
José Soeiro (Expresso)
Fernando Rosas (TVI)
José Manuel Pureza (Visão)

PCP
Rui Sá (JN)
Bernardino Soares (TVI)
Rita Rato (Visão)

Calados
É inegável que o PCP é silenciado nos órgãos de comunicação social. Hão-de haver motivos. No caso dos três comentadores comunistas, importa realçar que Bernardino Soares, de acordo com o site da TVI, esteve meses sem qualquer participação e não há referência à sua substituição por outro membro do PCP. Não há como romper este bloqueio, que é ideológico. Não é nem mais nem menos que isso. É permitir a outros que comentem sobre tudo, incluindo questões sobre o PCP, sejam elas sobre o partido em si, sejam sobre opções políticas, que são afirmadas sem direito a contraditório. Abaixo, segue um vídeo ilustrativo do que se passa, publicado no Facebook do PCP, sobre uma importante iniciativa e discussão política em torno das posições do Partido.

Organização e luta
Perante este cenário de bloqueio, é demasiado fácil bater no PCP, em que tanto alguma esquerda como a direita mais saudosista de outros tempos usam os mesmos argumentos. Porque não há contraditório. Estamos na era da informação a ser enformados. É também por isso que é tão importante que os militantes comunistas se informem, mais não seja, da atividade do Partido pelos meios que têm à disposição. Que discutam e decidam, que percebam que, se não temos espaço espaço nestes órgãos, não somos nós que estamos errados. Não há critério editorial que pretenda explicar o afastamento do PCP dos media e, ao mesmo tempo, resista ao exemplo de Daniel Oliveira. Sozinho, o ex-bloquista tem espaços de comentário em quatro órgãos: Expresso, SIC, TSF e Canal Q. Eu tenho a minha opinião sobre as posições de Daniel Oliveira, que não vem ao caso. Mas devia, ao menos, fazer-nos pensar como é que alguém, seja quem for, consegue ter mais espaço de comentário do que um partido inteiro que, por acaso, tem 15 deputados.

O Acordo Normal

O muito mediatizado – diria até festiva e apaixonadamente celebrado – acordo entre PS e PSD, não pode deixar de ser visto como um acto absolutamente normal. Mais do que possível ou provável, o encontro convergente entre os dois é acima de tudo ideologicamente inevitável. Mais tarde ou mais cedo, cairiam nos braços um do outro, alinhados sob qualquer pretexto de circunstância. Sabemos agora, de uma forma mais clara, que as declarações de António Costa sobre a “negação” ou “impossibilidade” da criação de um bloco central valem zero, e que a “possibilidade” de tal acontecer já não é sequer uma “possibilidade”: na verdade, ela já começou a ser construída.

Não é notícia que o acordo tenha acontecido. Notícia seria se ele nunca viesse a acontecer. Não é novidade para ninguém – e não era necessário o pretexto dos fundos europeus e de uma falsa descentralização que continua a ignorar a regionalização – que PS e PSD estão de acordo em quase tudo. Estão de acordo na forma como seguem submissamente os mandos dos directórios internacionais, na forma como encaram o mundo “intocável” da finança, na forma como desprezam os direitos laborais, na forma como privilegiam o sector privado em detrimento do público, na forma como ignoram a cultura e as artes, ou ainda, e sobretudo, na forma como pretendem garantir o seu rotativismo de “mudança para que tudo fique na mesma”.

Se a convergência PS e PSD era inevitável, inevitável terá também de ser a resposta dos trabalhadores e do povo português. A prática política deste governo PS, bem como as declarações nada inocentes de muitos dos seus responsáveis em particular durante as últimas semanas, têm indicado uma trajectória que inequivocamente afasta o partido das convergências que visavam uma mudança de caminho em face do do governo anterior, mas que, compreensivelmente, o aproximam agora e cada vez mais do seu destino e da sua verdadeira marca identitária.

Se o governo PSD/CDS acabou derrotado e derrubado pelo estado a que condenou o país, ao aproximar-se desse rumo, o mesmo acabará por suceder também ao PS. Saiba, porém, o PS que estes acordos nupciais não vão caindo em saco roto. Os sinais são lidos e interpretados. A mensagem é recebida e o seu teor “ilumina” os passos futuros. Que não restem dúvidas de que os trabalhadores e o povo saberão dar a rápida e enérgica resposta que esta “sintonia de direita” reclama.

A Estrela Hugo Soares

A mais reluzente e vibrante estrela do universo laranjinha – agora imaginemos o que não nos reservariam as “cadentes”… – entrou de forma triunfal na sua nova tarefa de líder da bancada parlamentar. Naquilo que mais pareceu birra de afirmação pessoal, ou quiçá apenas tentativa infantilóide de captar atenções, logo que foi eleito, Hugo Soares começou por destratar, pública e grosseiramente, o presidente da Assembleia da República. Sem mais nem porquê, a trote de argumentos pífios, acusou Ferro Rodrigues de desrespeitar o órgão a que preside.

Primeiro, levanta o manto da suspeição, pondo tudo e todos em causa. Depois, congratula-se por ter sido desmentido.

Poucos dias depois, a vedeta lembrou-se de brincar com coisas ainda mais sérias. Exigiu ao governo a recontagem das vítimas da tragédia de Pedrógão “num prazo de 24 horas”. Fê-lo, aliás, como quem pede uma recontagem de votos na distrital de Lisboa do PSD, ou algo parecido. Acabou, contudo, a congratular-se pelo facto de a Procuradoria-Geral da República – não o governo – ter vindo confirmar o número do qual ele próprio havia duvidado. Primeiro, levanta o manto da suspeição, pondo tudo e todos em causa. Depois, congratula-se por ter sido desmentido. E assim, acontece.

É muito importante notar que Hugo Soares foi a melhor coisa que o PSD arranjou para liderar a sua bancada. Tal como André Ventura foi o melhor que o PSD arranjou para Loures. Tal como Teresa Leal Coelho foi considerada pelo partido a melhor escolha para a câmara de Lisboa. Agora imagine-se esta mesma gente, este mesmo partido, mandatado para fazer as escolhas de um próximo governo. Imagine-se este leque de sábios a tomar decisões sobre a vida de milhões de pessoas. Não que os anteriores tenham sido melhores, evidentemente. Mas porque a tendência hercúlea deste PSD é conseguir substituir por algo ainda muitíssimo pior tudo aquilo que já parecia ser inacreditavelmente mau.

PSD, o partido de sonsos

Fico sempre surpreendido com aqueles que acham que o PSD está a passar “por uma crise”. É preciso uma boa dose de ingenuidade, ou estar-se muito desatento, para se supôr que Pedro Passos Coelho está isolado numa qualquer demanda individual perdida e a lutar para “sobreviver politicamente”. Passos na liderança tem os dias contados desde que o PSD foi derrotado pelas suas próprias políticas, e ele, os militantes e os dirigentes do partido sabem-no melhor do que ninguém. A razão pela qual ainda não se demitiu, ou pela qual se arrasta penosamente contra os ventos e as marés negativas – o tal diabo que nunca chegou… – é algo que está muito para lá do calculismo e do imediatismo interno. Passos Coelho está, muito sonsamente, a cumprir um papel. Tal como Rui Rio.

É evidente que a “cama” de Rui Rio está a ser preparada. É evidente que Passos Coelho precisa daquele silêncio purificador de que beneficiaram os regressados Cavaco ou Guterres. O tempo de um e de outro precisa é de ser concertado, coordenado e conjugado, porque valores mais altos se levantam e a “clientela” – o capital – continua a precisar do PSD. Passos tem de aguentar o barco porque vem borrasca nas autárquicas; Rui Rio tem de esperar a noite de nevoeiro para aparecer de forma sebastiânica.

Ninguém no PSD estranha ou desconhece o esquema que está em curso. Não se ouvem, nem se ouvirão, críticas internas significativas a Passos Coelho, nem mesmo sobre esta sua recorrente pontaria de se enterrar todas as vezes que decide abrir a boca sobre o que quer que seja. A missão interna é muito clara: “ele tem de lá estar” e aguentar o embate inevitável das autárquicas. Tem de aguentar ainda o não menos violento embate do não-colapso do actual governo. E só quando o terreno estiver menos pantanoso, quando se achar chegada a ocasião política para novo “assalto” – e no caso do PSD é quase sempre literal – ao poder, lá virá Rui Rio e a sua carteira recheada de interesses fazer a “mudança” de que “todos precisavam muito”.

Este filme não é novo. Vimo-lo já no PSD, como vimo-lo já também no PS. Patrocinados e a reboque de certa imprensa, uns e outros mergulham oportunisticamente nestas tácticas sonsas e ludibriantes (para muitos). Um dia, tudo desembocará daquele que é, no fundo, o seu objectivo final. Com rostos aparentemente desavindos, aparentemente adversários, protagonistas de falsas lutas internas, todos acabarão por convergir naquilo que lhes é essencial: servir interesses, distribuir favores, cumprir promessas a banqueiros e a grandes empresários. Porque para estes, nunca o país esteve “tão bem” como quando para os trabalhadores esteve “tão mal”. E é preciso garantir que nada mude e tudo se “reforme”. Conforme.

Da Amnésia da JSD Lisboa

Comecemos por fazer uma citação: “Quando um país enfrenta um nível elevado de desemprego, a medida mais sensata que se pode tomar [sobre a subida do Salário Mínimo Nacional] é exactamente a oposta” – Pedro Passos Coelho, 6 de Março de 2013. Sim, esse mesmo Pedro Passos Coelho. O líder do partido que está no canto inferior direito do cartaz que se queixa… dos baixos salários. O governante que, nos últimos anos, mais atacou os salários dos portugueses, mais agravou os impostos sobre os rendimentos do trabalho, mais desprezou a situação social dos jovens do país, que mais os insultou e apoucou convidando-os a emigrar ou a aproveitar as “oportunidades” do desemprego!

Esqueceu-se a própria JSD de quando vinha a público defender a tese peregrina – e completamente idiota! – de que os prolongamentos dos contratos a prazo poderiam salvar 1100 empregos por dia?

A lata da JSD Lisboa parece, de facto, proporcional ao grau de nervosismo evidente na liderança do partido. Se não for, porém, uma questão de ter ou não ter lata, maior ou menor vergonha na cara, pergunta-se: será esquecimento? Não se recordam os jotas laranjinhas de o que foi a anterior governação PSD/CDS em matéria de salários, pensões e impostos? Não se lembram que foi o PSD quem propôs contratos a termo sem limite de renovações? Não se recordam da maravilhosa medida de “estímulo” do governo PSD/CDS em 2014 que promovia oito horas de trabalho diário em troca de um valor abaixo do salário mínimo nacional? Esqueceram-se dos chumbos sucessivos às propostas de aumento do valor de salário mínimo que esteve sempre na cauda da União Europeia? Esqueceu-se a própria JSD de quando vinha a público defender a tese peregrina – e completamente idiota! – de que os prolongamentos dos contratos a prazo poderiam salvar 1100 empregos por dia? Esqueceu-se a JSD de quando partilhava artigos de jornais que diziam e, passo a citar, que “a flexibilidade laboral é a janela de oportunidade para mais jovens entrarem no mercado de trabalho”?

Que se passa na mente dos laranjinhas deste país? Já lá vigora a mesma desorientação e desespero dos correligionários mais crescidos? Estamos perante a assunção clara do desnorte do PSD, de alto a baixo? A resposta talvez seja, porém, mais fácil. Esta gente toma, de facto, o povo português por parvo. E fá-lo desde muito cedo, como se vê. Foram responsáveis directos por uma política desastrosa… e queixam-se da “situação”. Não é uma questão de ter ou não ter lata. Já é só pura e dura perversão.

Tira a nossa bandeira da tua lapela

Em 1387, já no rescaldo revolução portuguesa de que nos escreve António Santos no post anterior, uma boa parte da nobreza nacional ainda mantinha lealdade a Castela a pretexto dos interesses de Portugal. A lealdade a Beatriz de Portugal não era a lealdade a Portugal, apesar do nome. Passos Coelho é um dos filhos dessa nobreza traidora, que usando Portugal na lapela, não sendo leal a Castela, não é leal à nossa bandeira.

Bem sei que é coisa que parece de menor importância, mas a pose de Passos Coelho, com a bandeira portuguesa na lapela em forma de pin, provoca-me uma repulsa visceral. É claro que a bandeira nacional é de todos, é um símbolo nacional e ninguém é dono dos símbolos nacionais. Ninguém menos o povo. São do povo os símbolos nacionais, porque, mesmo quando não resultam do povo, são por ele apropriados.

E provoca-me repulsa porque Passos Coelho sabe que a única ponta de patriotismo que pode mostrar é a bandeira portuguesa na lapela, o mesmo pin que ostentava enquanto condenava milhões de portugueses à miséria e ao empobrecimento, o mesmo pin que passeava pelas reuniões em que prestava servil vassalagem a Merkel e o mesmo que usava enquanto lampeiro vendia a riqueza dos portugueses a grupos económicos alemães, chineses, brasileiro. Porque um patriota não precisa de bandeira ao peito enquanto vende os interesses do país, um patriota defende o seu povo sem precisar de usar o verde o vermelho ao peito, porque estão no seu coração e nos seus actos.

Passos persiste na postura de Primeiro-Ministro espoliado da sua legitimidade divina para governar. Amuado como um rei que julgava que o seu reinado era direito decretado pelos astros, usa a nossa bandeira, apropria-se de um símbolo de todos, ainda sem perceber que já não passa de sobranceria espúria, nacionalismo bafiento e ridícula ofensa ao povo que em boa hora correu com ele do Governo.

A bandeira será livre e de todos, é certo. E é por isso mesmo que a utilização da bandeira por um barão da destruição do país, para esconder a sua verdadeira bandeira, é uma usurpação, uma apropriação que conspurca o símbolo nacional com que de mais anti-patriótico existe que é, como Passos fez, governar contra o seu povo.

Passos, tira a nossa bandeira da tua lapela.

#passostiraopin #tiraanossabandeiradatualapela

Nunca um português chegou tão longe

Quando visitávamos a aldeia da minha mãe, em Trás-os-Montes, o meu tio fazia sempre questão de apontar quem era o senhor que era pai do doutor, fosse o doutor juiz, médico, enfermeiro, professor, engenheiro, arquitecto, advogado ou outra coisa qualquer. Era o retrato de um país ainda com o fascismo cravado na mente, das aparências, da subalternização, mesmo quando já estávamos no final da década de 80 e a entrar nos anos 90. Era aquela reverência saloia que permanecia numa zona do país onde a electricidade ainda só chegava ao centro da aldeia. Os restos de um país com as contas em dia, porque naquele tempo é que era bom.

Quando Durão Barroso encontrou um país de tanga e fugiu depois de deixá-lo todo nu, rumo à presidência da UE, o saloiismo que veio novamente à tona. Nunca um português tinha chegado tão longe, um cargo tão importante, a ajuda que poderia dar ao país, afinal, era um português. E o prestígio para a nação? Tantos comentadores, artigos nos jornais, peças de rádio e tv que explicaram a fuga rumo a um tacho melhor como sendo um ponto de viragem nas relações do país com a UE. E o prestígio? Já falei no prestígio?

Faltou explicar que Barroso era nascido em Portugal mas tem a nacionalidade que a esmagadora maioria dos líderes europeus sempre teve: o capital. Sem pátria, claro, porque vai andando de bolso em bolso sem nunca sair dos bolsos dos mesmos, num círculo que se fecha quando alguém que exerceu um cargo político passa para o sector financeiro. Paga-se tudo.

Barroso sabe-o e percebeu-o logo em 2003, quando serviu de mordomo à Cimeira das Lajes, que abriu caminho à invasão do Iraque em busca das armas de destruição massiva. Ao lado de Bush, Blair e Aznar, Portugal entrava no mapa da guerra. Barroso associou um país inteiro à morte de mais de meio milhão de pessoas. E, ainda hoje, continuamos à procura das armas que abriram caminho a mais uma guerra, mesmo quando já toda a gente questionava a sua existência, incluindo Hans Blix, responsável da ONU naqueles anos. Toda a gente sabe quem ganhou. Os interesses geoestratégicos, a máquina de guerra dos EUA que precisava de novo impulso, o petróleo, a necessidade de manter em guerra uma zona do globo e a instalação de um governo-fantoche. Treze anos depois, o Iraque continua destruído.

A semana de Kadhim Sharif al-Jabouri e Blair

O nome dirá pouco a quase toda a gente, mas a imagem correu mundo. Kadhim era o homem da marreta que destruía a estátua de Saddam, depois de o ditador ter matado 14 dos seus 15 familiares. Passados 13 anos, apesar do sofrimento por que passou ao ver a maioria da sua família morta, Kadhim afirma que “Bush e Blair são mentirosos. Eles
destruíram o Iraque, mandaram-nos de volta à estaca zero, de volta à
Idade Média”, diz Kadhim, revoltado. “Se eu fosse um criminoso, iria
matá-los com as minhas próprias mãos
.
Kadhim já não vive em Bagdade. Tal como milhões de refugiados, fugiu da capital iraquiana para Beirut, no Líbano. Bagdade deixou de ser segura a todos os níveis, especialmente depois do aparecimento do Estado Islâmico, que só este ano já realizou oito atentados terroristas no Iraque. Kadhim esquece Aznar e Barroso. E o nosso mal é tantas vezes a memória, seja em que parte do globo for. Mas foi este Iraque que Barroso ajudou a destruir. 
Também nesta semana ficámos a conhecer as primeiras conclusões do Chilcot Report, que acusa Tony Blair de ter sido imprudente e não ter esgotado todas as possibilidades de evitar uma guerra pelo petróleo que ainda hoje faz vítimas. Mas isso não é problema para Blair. Nem as empresas petrolíferas que representa nem a financeira JP Morgan parecem preocupadas com isso. Continuará a ser pago a peso de ouro.
Barroso promovido
Também nesta semana ficámos a saber que Durão Barroso será promovido, com o cargo de presidente não-executivo da Goldman Sachs. Aquele banco que esteve na origem da crise de 2008. Lembram-se? Não é caso único, claro. É uma família de iluminados, basta recordar que, em Agosto de 2014, o filho de Durão Barroso foi contratado pelo Banco de Portugal sem qualquer concurso, por ser um caso de “comprovada e reconhecida competência profissional”. Os favores pagam-se e foi assim com Álvaro Santos Pereira, que rumou à OCDE, com Maria Luís Albuquerque, na Arrow, e Portas, na Mota-Engil.

E daqui temos a prova que se Roma não paga a traidores, Bruxelas e todo o poder financeiro que lhe está associado, paga. Bem e para a vida toda. Aguardemos, pois, o discorrer de todos os méritos de Durão Barroso, o excelente trabalho que fez numa UE em desagregação, o peso dos mortos que devia ter na consciência, se a tivesse, a espinha direita em direcção ao seu umbigo. Voltemos agora às declarações de grandiosidade saloia, de ver como aquele é o Durão, o senhor doutor que é presidente de tudo e mais alguma coisa, que matou e continua a matar milhares de pessoas. Mas é doutor.