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Rui Moreira Rio

O Rui Moreira confunde a sua vontade com a vontade da cidade do Porto. Felizmente, e como todos sabemos, já existia Porto antes do Rui Moreira e, curiosamente, também já existia PCP antes do Rui Moreira. O PCP está a favor da cidade do Porto, como sempre esteve, embora esteja contra o Rui Moreira. Por incrível que isso possa parecer, ao presidente da CMP, há quem não concorde ele. Chama-se democracia e foi por isso que o PCP lutou anos e anos na clandestinidade, embora isso possa parecer estranho a quem representa, encapotadamente, os dois partidos que são herdeiros da outra senhora.



Rui Moreira, tão defensor da independência do Porto e do norte, confundindo os dois tantas vezes, deveria recordar qual foi e é o partido a favor da regionalização, aquele que efectivamente fez campanha por ela e aquele que mais contesta, na AR e fora dela, a divisão na atribuição de fundos europeus. Ao contrário de outros, o PCP diz ao povo do Porto o que diz ao povo do país. Não faltarão casos, como Rui Moreira bem saberá, de deputados de outros partidos, eleitos pelo círculo do Porto, que distribuem sorrisos nas ruas da cidade e se esquecem dela no parlamento.

Por fim, sobre este assunto,utilizar um espaço de divulgação da CMP, pago por todos nós, incluindo os comunistas, para ataques políticos, é de um baixo nível atroz, até mesmo para uma cidade em que o baixo nível se mede pela escala Rui Rio.

O presidente, que até escreveu um livro sobre a TAP e o Porto em tempo recorde, ganhou simpatia por defender a cidade contra a companhia. Esqueceu-se, no entanto, que a raiz do problema está na privatização da TAP, que os seus amigos do PSD e CDS tentaram e que o PS não teve coragem para afrontar, optando por uma solução que não é sim nem sopas.



Sobre a privatização da TAP, Rui Moreira foi claro: “A TAP não é estrutural para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro nem para região, nem a região parece ser estrutural para a TAP. Não dramatizo essa situação, é um problema do Governo, não é um problema nosso“.



Obviamente, como o PCP afirmou e previu, transformou-se numa questão estrutural para todos. A menos que o livro editado tenha sido só para gastar papel e rasgar as vestes, que até levou a ataques a regiões e autarquias galegas, com quem o Porto tem e deve ter uma ligação profunda.

O tempo dirá quem beneficiou com o silêncio do presidente da CMP durante a discussão da privatização da TAP e se, directa ou indirectamente, estavam ligados à Associação Comercial do Porto. O PCP cá estará para ver. E a cidade também.

O que falta nos Panama Papers

O mundo acordou ontem com uma revelação explosiva. Os chamados Panama Papers prometiam colocar a nu um escândalo sem precedentes, de dimensão global, depois da fuga de documentos de uma empresa de advogados especializada em esconder dinheiro, a Mossack Fonseca, do Panamá. Importa referir desde já que há centenas de empresas que prestam este tipo de serviços, logo, esta lista está longe de ser completa. Afinal, o que diferencia esta lista que agora vamos conhecendo, do Wikileaks? Muita coisa. Demasiada.

Mãos de fada
A primeira grande diferença em relação ao Wikileaks é que, neste caso, a informação foi fornecida em bruto e está acessível a quem pretender consultá-la. No Panama Papers, a informação surge filtrada por um consórcio internacional de jornalistas de investigação, cerca de 200, oriundos de 65 países. O “Centre for Public Integrity (CPI) é uma organização que tem como principais doadores a Fundação Ford, a Fundação Carnegie, o Fundo da Família Rockefeller, a Fundação W. K. Kellog e a Fundação Open Society, propriedade do sinistro George Soros. E lá se foi a independência. Só isto deveria fazer soar campainhas de alarme em relação ao objecto da divulgação e ao ser real objectivo. As matérias parecem estar a ser tratadas com mãos de fada pelos benfeitores da CPI.

Wikileaks vs Panama Papers
Como referido atrás, o Wikileaks permite-me, ainda hoje, pesquisar tudo e mais alguma coisa, nomeadamente através de emails trocados por milhares de pessoas e entidades com a Stratfor, uma organização que se dedica a análises geopolíticas e que actua como centro de interesses dos Estados Unidos da América em todo o mundo. Ao contrário dos Panama Papers, em que a informação há-de ser divulgada aos poucos e com um critério que se desconhece, no Wikileaks eu consigo verificar as jogadas de bastidores e, por exemplo, o trajecto de Poroshenko para chegar ao governo da Ucrânia. E, no entanto, ele serviu só como peão, sendo um dos mencionados também nos Panama Papers. Outro exemplo que posso consultar sem filtros é a forma como a Stratfor mediava o patrocínio do RAAM pela Chevron, em Angola, para preparar um golpe de Estado.

Filtros
Como se verifica acima, há uma enorme diferença, e não é pequena: são os filtros por onde a informação passa até chegar a nós. Percebe-se, por isso, o corporativismo do Ricardo Alexandre, editor do Internacional da RTP, quando elogia a divulgação dos dados pelos jornalistas, garantindo a idoneidade deles. Pelos patrocínios atrás mencionados, faria tanto sentido acreditar que não há uma agenda nos Panama Papers como na imparcialidade das análises de Marques Mendes.

EUA fora do mapa
O dado mais curioso surge pelo facto de, até ao momento, não haver qualquer informação relativa a norte-americanos. E a verdade é que nem Putin surge directamente associado a qualquer offshore, pelo que pude ler até agora. Surgem pessoas que lhe são próximas, mas não ele. No entanto, é a cara dele que consta quando se fala em políticos e ex-políticos. E não David Cameron, por exemplo. Facto, até ao momento, é que os grandes visados estão por todo o Mundo, menos nos Estados Unidos da América. Fala-se em brasileiros, em argentinos, africanos, médio-oriente e Europa.

E as consequências?
Várias e nenhuma. Nenhuma, porque estes escândalos não são novos nem inéditos. Alguém se lembra do escândalo que envolveu Jean Claude Juncker e ficou conhecido como LuxLeaks? A investigação de então foi feita pelo mesmo grupo de jornalistas, que parece ter uma especial predilecção para não estado-unidenses. No entanto, o assunto era o mesmo. A consequência foi a sua nomeação para presidente da UE. Ninguém espera que os mesmos que alimentam o capitalismo, que jogam com os países como peças num tabuleiro de xadrez em defesa dos seus interesses particulares, nos forneça armas que coloquem o sistema em causa.

O exemplo da Islândia
A Islândia era, até há bem pouco tempo, a personificação do que alguns acreditavam ser um exemplo de como o capitalismo pode ser conciliador entre classes, entre exploradores e explorados, com o pomposo título de “Islândia iniciou o julgamento do neoliberalismo“. Nada mais falso. Nenhum neoliberalismo será julgado por leis burguesas de tribunais burgueses, que visam a manutenção do sistema em que vivemos. Agora, com o primeiro-ministro da Islândia entre os envolvidos no Panama Papers, pode ser que consigamos todos perceber que há coisas que não se reformam. São irreformáveis, são as suas contradições intrínsecas. Acreditar o contrário é esperar que exista um pote de dignidade no fim do arco-íris do capitalismo.

Nós pagamos o dinheiro desviado para as offshore
Quem paga todos estes desvios somos nós. As tremendas fugas aos impostos de milhares de milhões, com tantos zeros que nem saberia como escrevê-los, são pagas por todos nós, que temos de arcar com os défices e pactos de estabilidade e tudo e mais alguma coisa. A solução seria acabar com os offshores. Claro que isso é defendido e já foi proposto. Tanto o seu fim como a sua taxação. Só que isso implicaria uma vontade global que, lá está, não existe. Porque o capitalismo se entranhou de tal forma que já não vai lá com lavagens a frio. Tem de ser escaldado, pendurado pelos pés, batê-lo bem com uma raquete para tirar o mofo e, por fim, podemos colocá-lo no lixo sem que cause mais danos.

No primeiro de Abril, a verdade e a mentira.

Democratas ucranianos após a vitória no golpe

O PCP trai os seus princípios de sempre e quebra uma das suas mais importantes e conhecidas qualidades: a coerência. Ao contrário do que fez com outros movimentos e países, nomeadamente no que toca a manifestações espontâneas que surgem como “apartidárias” e promovidas por “jovens” sem intenções políticas além das de lutar pela democratização de regimes autoritários, o PC alinhou desta vez com a postura, a que até aqui vem qualificando como oportunista, típica do Bloco de Esquerda em Portugal.

Se, nos casos da Líbia e da Ucrânia, o PCP tinha tido uma posição que avaliava a situação concreta de cada um dos países e os interesses por detrás de cada um dos movimentos em causa, ao contrário do BE, que já então, segundo o PCP, alinhava com os “interesses do imperialismo norte-americano”, certamente por cedência “às pressões da comunicação social dominante”, no caso de Angola e dos jovens activistas, de que se destaca o herói e mártir Luaty, o PC não se importou de alinhar lado-a-lado com aquilo a que noutros casos chamaria de “pressões externas” e “ingerências na soberania”.

É verdade que ao PC acabou por nunca ser reconhecida a razão das dúvidas, tal como ninguém cobrou ao BE o apoio à intervenção militar da NATO na Líbia, nem o apoio à ascensão de um governo nazi-fascista na Ucrânia. Igualmente, não se conhece nenhuma intervenção do BE sobre a ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia, após o golpe que se iniciou com o seu apoio. Mas nada justifica que os comunistas quebrem a confiança do seu eleitorado mais fiel e dos seus mais ortodoxos militantes, nem mesmo os resultados eleitorais. Não é este o PC a que estávamos habituados.

Apesar do profundo desconhecimento que existe sobre a heróica luta de Luaty Beirão, que vai muito pouco além de um spinning em alguns “órgãos da comunicação social burguesa”, e fingindo que ignora o financiamento dos Estados Unidos da Américadirectamente pelo Congresso dos EUA, às organizações que apoiam a luta dos 17 activistas pela democracia, o PC tomou o caminho mais fácil e cedeu, juntando-se assim ao que sempre criticou.

Estranhamente, os comunistas que nos habituaram a serem defensores incondicionais das ditaduras violentas, desta vez, optaram por não se colocar ao lado da violenta ditadura do MPLA em Angola, ditadura essa que pode ser integralmente compreendida pelo domínio de José Eduardo dos Santos na comunicação social, nomeadamente na TV Zimbo, única estação de televisão privada de Angola, propriedade do próprio Presidente.

Veja-se aliás, o testemunho do Jurista Benja Satula, no canal do presidente José Eduardo dos Santos.

Tal como o apoio do PC, virulento inimigo do Partido Socialista – verdadeiro partido da democracia portuguesa – ao Governo do PS já demonstrava, o PC está a tornar-se um partido que abandona o quadro de princípios que sempre nortearam os comunistas e começa a mover-se ao sabor dos ventos mediáticos, desta vez inclusivamente com o inédito apoio a uma movimento que é apresentado em Portugal como “revolucionário” ou como “apartidário” mas que, como é sabido nos meios comunistas, reúne na sede da UNITA, força que ainda hoje é portadora de um passado que o PCP sempre identificou com “terrorismo”, “violência”, conhecida em Portugal pelo seu passado de violência contra o povo angolano e pelo apoio ao regime do apartheid na vizinha África do Sul.

Temos saudades do tempo em que o PC defendia, contra tudo e contra todos, contra Cavaco e contra a “comunicação social dominante”, Mandela. Relembramos que nessa altura, o PC teve a coragem de defender aquele que era internacionalmente reconhecido como terrorista. Hoje, o PC, fiel que se mantivesse aos seus princípios, defenderia a não ingerência na construção da democracia em Angola, demarcar-se-ia das práticas de limitações à liberdade de expressão, demarcar-se-ia de condenações políticas, exaltaria a necessidade de democracia e a independência angolanas, condenaria a supressão de direitos, não se colaria nem defenderia o regime de Angola, mas votaria contra aquilo a que nos velhos tempos chamaria “manobra oportunista” do BE, apresentando uma declaração de voto que poderia ser mais ou menos assim.

Até porque, ao alinhar com o BE, o PCP está a pedir que se resolva o problema da interferência política na Justiça em Angola com a interferência portuguesa na Justiça em Angola. O “meu” PC nunca faria tal coisa.

Blocobuster

Há várias formas de atrair a atenção para vários assuntos. Normalmente, as melhores campanhas são as que não são consensuais, que geram aquilo a que se chama “buzz”, que significa agitar, fazer com que se fale de um determinado produto. Ontem, o Bloco decidiu apresentar um cartaz em que afirma que Jesus também tinha dois pais. A imagem, feita a partir de um “meme” com 300 anos que circula na internet desde que há ficheiros JPG, pretende isso mesmo, criar “buzz”, aproveitando o Bloco para surfar na crista da onda da sua mediatização. Sou ateu e comunista, creio que faz de mim insuspeito quanto a religiões e à simpatia que nutro por elas, que é nenhuma. Sejam elas quais forem.

No entanto, há vários disparates na iniciativa do Bloco, que começa por celebrar uma liberdade individual provocando outra. E isso não pode fazer-se. E mais grave ainda, não pode fazer-se apropriando-se de uma luta que foi tremenda e esteve longe, muito longe, de ser apenas uma luta que envolveu o Bloco: envolveu pessoas e o seu direito a fazerem o que bem entendem com a sua vida. Exactamente o mesmo que faz quem quer ou precisa de acreditar num ser espiritual.

A História, toda ela, demonstra-nos que não há direitos assegurados. Os povos lutam para consegui-los e têm uma tarefa ainda mais complicada, que é defendê-los, como vimos ainda recentemente em relação ao retrocesso civilizacional que era a nova lei da IVG, aprovada por PSD-CDS com a bênção de Cavaco.

Devíamos todos saber que as lutas pelas liberdades, sejam elas quais forem, não são um sprint, são corridas de fundo, longas e difíceis. O que o Bloco faz é festejar a vitória da passagem aos 5km nos mais de 42km que compõem uma maratona.

Depois, para quê trazer a religião, seja ela qual for, para esta discussão? Recordo-me muito bem de ter ido, com outros camaradas, distribuir panfletos a favor da despenalização da IVG – quando o Bloco ainda achava que os direitos fundamentais se referendam – à saída da igreja de Leça, depois da missa de domingo. E de sermos muito bem recebidos e de recolhermos apoios que seriam bem surpreendentes, se fossem revelados.

Isto para dizer que as igrejas, enquanto instituições, não me merecem o mínimo respeito. São, de facto, máquinas de manipulação e alienação das massas, como também a História nos demonstra. Mas, para lá das instituições estão as pessoas e não pergunto a alguém que esteja do meu lado na barricada se reza virado para Meca ou ajoelha para o terço. É o campo das liberdades invioláveis que cada um tem de ter. Tal como a sexualidade, também a espiritualidade diz respeito a cada um de nós.

Demonstrado que está o disparate, creio que é legítimo concluir que o Bloco conseguiu o que queria: criou o “buzz” e é falado. Se isso será bom ou mau para o Bloco, é-me indiferente; que não trouxe nada de bom à luta pelas liberdades individuais, pela igualdade e contra o preconceito, tenho a certeza.

As cartas de Marcelo

Um bufo da PIDE a Presidente da República?

Carta de 14 de Abril de 1973

“Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de caraterísticas de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a atividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens”

“Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas””

“O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública”

Marcelo Rebelo de Sousa

“Cartas Particulares a Marcello Caetano”, de José Freire Antunes.

Marcelo: O candidato deles

O custo das campanhas das presidenciais e a forma como Marcelo Rebelo de Sousa foi louvado pelos media já foi aqui abordado, e tão bem, pelo António. Não é sobre isso que me apetece escrever, embora isto ande tudo ligado. No dia 3 de Janeiro de 2016, o Público decidiu vender um folheto de campanha do candidato que é tão independente do PSD/CDS como eu sou vegetariano.

Esta capa deve fazer-nos pensar, tem de fazer-nos pensar no papel dos media tradicionais na formação de opinião. E Marcelo é um especialista nisso, tendo em conta que andou anos e anos, durante 52 domingos por cada um, a explicar-nos como devemos pensar em relação a tudo e mais alguma coisa, desde o futebol, passando pelo atletismo, política internacional, nacional, culinária, geopolítica, rendas de Bilros e tudo o mais.


Nas suas Conversas em Família, Marcello, perdão, Marcelo, pôde dizer tudo, ensinar-nos tudo, com o alto patrocínio da TVI. Voltando ao dia 3 de Janeiro e ao Público, convém recordar desde já que é propriedade da família Azevedo. Do Belmiro e do Paulo. Na sua criação e história, o Público sempre foi tido como um diário mais inclinado para a esquerda, uma esquerda urbana e intelectual, com estudos. Foi essencialmente a secção cultural que, durante muitos anos, fez o Público crescer entre este segmento da população.

O equívoco começa aqui. Um diário de esquerda criado por um capitalista é coisa que não existe. O primeiro número do Público, para quem se recorda, tinha como foto da primeira página Álvaro Cunhal de costas, com uma manchete que anunciava o fim do PCP e da sua linha ideológica. E fica claro para que “esquerda” é que o Público foi criado, pensado e mantido durante tantos anos, mesmo com todos os prejuízos que sempre teve.

A verdade é que o poder da imprensa escrita já não é o que era. Logo no dia 3 de Janeiro, nas redes sociais, foram inúmeras as publicações a condenar o Público e a questionar se fará o mesmo com todos os outros candidatos. É pouco, é certo. Há uma parte substancial da população que não usa redes sociais e continua a comer tudo o que é debitado pelos media. Mas começa a haver uma mudança que os media tradicionais parecem não acompanhar ou não perceber. A Internet permite um escrutínio e difusão muito mais abrangente do que sucedia há uns anos, quando o Correio da Manhã tomava o partido da direita e apelava ao voto na AD. De forma tosca, mas apelava. E, honra lhe seja feita, sem grande dissimulação.

É evidente que há uma promiscuidade entre jornais, jornalistas e política. No anterior governo do PSD/CDS, foram pelo menos dez os jornalistas do Diário de Notícias que assumiram funções em cargos de nomeação, desde directores de serviço até assessores. Isso mesmo: dez jornalistas que um jornal que se aguenta nas bancas sabe-se lá como, perdeu para um governo. Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Licínio Lima, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. O DN há-de ser um caso de estudo sobre a sua verdadeira utilidade, sendo um jornal de âmbito nacional que vendia, em 2014, pouco mais de 15.000 exemplares por dia, contadas também as assinaturas digitais. Isto talvez ajude a perceber a simpatia mediática que Marcelo, o candidato da direita, goza nos jornais, rádios e tv.

Marcelo é o candidato deles. Da direita, do populismo dos orçamentos para as campanhas, mesmo depois de ter apoiado Cavaco, quando este gastou 1.800.000 euros na sua campanha. Nesta altura, Marcelo andava pouco preocupado com os gastos. É o candidato dos donos dos media e dos seus amigos do BES, por onde também passou Maria de Belém, que a Ordem dos Médicos, com um sentido de oportunidade muito apurado, homenageará no dia 12.

Nenhuma destas questões é nova e a promoção do candidato do PSD/CDS repetir-se-á até ao dia das eleições. De forma mais ou menos clara, Marcelo será levado ao colo até ao trono de Belém. Cabe a nós desmascarar o papel que sempre teve no apoio à direita, às várias direitas que foram comandando o país através de esquemas de promoção semelhantes.

Crónica dos dias negros

As eleições foram há um mês e um dia. Falou o povo, o PS decidiu responder ao apelo da esquerda e, entretanto, meteram-se ao barulho o Cavaco, os banqueiros, a direita mais conservadora e saudosista, comentadores e opinadores, no Expresso e no Observador, com particular incidência, com as suas três mãos: duas agarradas à cabeça e uma a bater no peito, em defesa dos superiores interesses da nação.
Nas televisões, a generalidade dos comentadores avisa para a desgraça dos mercados, a fragilidade de um possível acordo do PS com a esquerda e meia-dúzia de maluquinhos criam eventos no facebook para darem as mãos e saírem à rua contra qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o que é.

Cavaco entrou em pânico e convidou a minoria parlamentar a formar governo, mesmo sabendo que será chumbado, deixando de lado a estabilidade política e os mercados – outra vez os mercados. Paulo Rangel, de braço dado com o seu colega no Parlamento Europeu, Francisco Assis, vão lançando avisos para as tempestades que se avizinham.

Pelo meio, Cristas levanta-se e revela-nos que foi buscar inspiração a Jesus para ser ministra e Calvão da Silva – valha-me deus, que a chuva no Algarve é o criador a colocar-nos à prova – de fato completo e galochas. Foi obra do senhor, que ainda chamou um octogenário para a sua beirinha, tão bom e misericordioso, e o pé-de-meia para um segurozinho, talvez a piscar o olho à ala de ressabiados do PS, que devemos ter sempre algum de lado para uma necessidade, como se o nosso quotidiano não consumisse toda a nossa necessidade.

O dono dos jornais diários de Viseu, Leiria, Coimbra e Aveiro assina um editorial em que avisa para o perigo comunista e assume o combate aos vermelhos, que medo, que nos vêm tirar tudo. Bem vistas as coisas, só tem medo que lhe tire alguma quem tem alguma coisa para ser tirado. E a esmagadora maioria da população não tem.

A direita pinta os dias negros, a comunicação social faz-lhe eco, ou oco, como preferirem, contra tudo aquilo que devia ser o jornalismo. Ontem mesmo, lia-se por todo o lado que os refugiados que chegarão a Portugal terão médico de família e isenção de taxas moderadoras. Os jornalistas, sem conhecerem ou procurarem conhecer a lei de asilo e o estatuto do refugiado, e nós, o povo, pequeninos que somos, enchemos o peito de brio para os que são ainda mais pequenos que nós e dizemos que não pode ser, e os nossos, os nossos pobres, que ainda há uns dias eram os malandros que viviam à custa do rendimento mínimo, sem quererem trabalhar, malandros, a viver à custa de quem trabalha, como eu.

Sem percebermos que nós é que estamos mal, que aceitamos não ter médico de família como se fosse normal, e pagamos tudo e mais alguma coisa porque nos dizem que tem que ser assim, que pagamos ou temos o abismo, quando o Ricardo Salgado, coitado terá a sua reforma aumentada para o triplo. O mesmo Salgado a quem o agora ministro Calvão da Silva, valha-me deus, atestou a idoneidade.

Ao final do dia, o Expresso titulava que, caso o PS forme governo, os funcionários públicos seriam aumentados quatro vezes no próximo ano, quando o que deveria dizer é que os roubos nos salários de que foram vítimas seriam repostos, ainda que sem retroactivos.

Que PSD e CDS entrem em pânico por perderem os lugares, mesmo apesar das nomeações em catadupa que surgiram antes das eleições, para boys e girls de toda a espécie e feitio, é uma coisa; que haja órgãos de comunicação social que se prestem ao seu serviço, é vergonhoso, mas, ao que parece, também e coisa que não abunde por aqueles lados.

Que PSD e CDS pintem os dias de negro, é uma opção, que a comunicação social esteja, descaradamente ao seu serviço, é um negro diferente, um negro triste, um negro cinzento tão pobre, tão sem nada que faz lembrar os anos em que só à força do lápis azul era possível travar a verdade. Os tempos são outros, os lápis são cinzentos, como são cinzentos e negros os interesses que se movem em alguns meios dos nossos órgãos de comunicação.

É um avião? é um pássaro? É um “governo de esquerda”? Não… é um Governo PS.

Independentemente do que venha a ser o resultado institucional da rejeição do programa do PSD/CDS que até agora parece desenhar-se no horizonte, não está em cima da mesa, para já, a construção de um “Governo de Esquerda”.

Quando tal vier a ser uma realidade em Portugal, será certamente resultado de uma movimentação de massas consciente da necessidade de ruptura com o capitalismo e com a consolidação do processo de integração capitalista europeia e não apenas de resultados eleitorais. Mas para já o que está a parecer resultar das eleições legislativas de Outubro é uma derrota do PSD e do CDS, sem que exista necessariamente – como consequência directa – uma substituição automática das suas políticas por outras distintas e de “esquerda”.

A derrota do PSD e do CDS nas eleições e a constituição de uma maioria “atípica” numa conjuntura igualmente “rara” criam factualmente uma nova relação de forças institucional que permite materializar essa derrota na alteração dos protagonistas do Governo. Mas é também possível ir um pouco mais longe do que a habitual alternância sem alternativa. E havendo essa possibilidade, o PCP afirmou que o “o PS só não é Governo se não quiser” logo na noite das eleições e após a divulgação dos resultados. Isso significa que é preciso travar o passo ao PSD e CDS mas também que é possível construir uma política que, não sendo a proposta pelo PCP, nem pela CDU, é melhor para os portugueses do que a prossecução da actual.

A efabulação de que isso corresponde a um “governo de esquerda”,  a manterem-se as premissas conhecidas da política institucional portuguesa e a natureza dos partidos que a compõem, contribui mais para mistificar do que para esclarecer.

Não significa isto que não podemos vir a ter um Governo de Esquerda. Apenas que para já, tudo indica estarmos numa fase muito distinta dessa.

A construção da alternativa patriótica e de esquerda de que o país necessita não surgirá de reuniões entre partidos, mas emergirá da força do povo, da expressão da sua vontade inequívoca de mudar e ousar continuar os caminhos que ensaiou em Abril e que foram travados em Novembro. A direita está em pânico e fez baixar todo e qualquer padrão de dignidade que ainda pudesse ter. Há muito tempo que o grande patronato e o seu braço político (PS, PSD e CDS) não viam tão ameaçado o seu domínio.

E eis que o próprio PS se vê pressionado a definir-se sob pena de poder vir a ser considerado inútil no panorama da democracia partidária. Quem vos escreve não alimenta ilusões sobre de que lado se encontra o PS, mas também não alimenta simplismos. E uma coisa é um PS liberto para fazer o que quer e outra coisa é um PS que não pode fazer o que quer. Todavia, apesar de acossada e desvairada, a direita não está perdida. O grande capital não perde o norte tão facilmente.

Para situarmos a estratégia da direita é preciso compreender que ela se posiciona, neste momento, quase toda no plano das ideias e da ideologia, usando  a mentira, a chantagem, o terrorismo e a manipulação como instrumentos de pressão sobre o povo português, com o empenho descarado de Cavaco Silva.

É preciso compreender que PSD e CDS estão há meses a repetir a mentira do crescimento e a ladainha da recuperação económica, da diminuição do desemprego e do aumento das exportações e do investimento. Na verdade, toda essa construção é falsa e não corresponde à verdade. Na realidade, o país está mais pobre, está mais desigual, menos democrático e mais dependente – no financiamento e na produção. O país produz menos riqueza do que em 2011 e regrediu mais de 15 anos em muitos indicadores económicos.

Mas a insistência nessa mentira funciona como uma luz ao fundo do túnel para milhões de portugueses. E as ideias, não apenas a matéria, também moldam realidades.

Aceitar que o país está em rota ascendente é cair na primeira esparrela de PSD e CDS.

A segunda esparrela é aceitar a ideia de que estamos perante a emergência de um “governo de esquerda”. Porque, independentemente do governo que exercer funções nos próximos anos (ou meses) o país está factualmente asfixiado por uma dívida que foi contraída nos bancos e transposta para a dívida soberana, está factualmente depauperado e com o aparelho produtivo capturado pelos monopólios financeiros e económicos, está factualmente menos capacitado do ponto de vista social para lidar com a exclusão, a pobreza e a miséria, está igualmente depauperado no campo da investigação e desenvolvimento e da produção científica. Ou seja, essa realidade é que é o substrato da política institucional.

 E se um Governo PS tomar posse e entrar em funções essa realidade vai continuar a ser o verdadeiro cenário de governação. E PSD/CDS e o seu Presidente estão a fazer todo o caminho actual com os olhos postos no futuro: culpar a “esquerda toda”, o “socialismo”, pelos resultados do desastre que já aí está, mas camuflado pelas suas mentiras e propaganda.

O fio da navalha sobre o que caminhamos é demasiado estreito para equilibrismo – chamar “governo de esquerda” a um Governo liderado pelo PS, ainda que negociando algumas melhorias e medidas positivas para os trabalhadores com o PCP, é começar a tombar já para o lado errado.

*foto de obra da autoria de ± maismenos ±