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Bicicletas partilhadas também são um meio de transporte… e devem ser públicas!

As bicicletas partilhadas servem como um bom adereço nas cidades responsáveis. Enganam bem. Maquilham estas cidades como cidades do futuro. Mas não cumprem um objectivo básico, o de servir as pessoas e a cidade no seu todo. Assim, surgem na cidade de Lisboa a GIRA pela EMEL e muitas empresas privadas de bicicletas partilhadas.

Nos últimos anos, várias cidades portuguesas criaram um sistema de bicicletas partilhadas. Na generalidade com nomes simpáticos (caso da GIRA em Lisboa), em simultâneo, estas mesmas cidades permitiram a entrada de empresas privadas para fazerem o mesmo serviço ou serviços semelhantes com bicicletas em suas cidades. Estas cidades não criam grande regularização destes serviços, pois qualquer empresa com interesse introduz um sistema de bicicletas partilhadas. No geral, o que se assiste é uma despreocupação generalizada em servir as pessoas, sejam moradores, trabalhadores, estudantes ou até mesmo os turistas.

Note-se o exemplo da cidade de Lisboa, talvez o mais mediático de todos, que começou a investir tardiamente nas infra-estruturas (por exemplo, as ciclovias e as próprias bicicletas) para uma melhor utilização de bicicletas individuais e partilhadas.

O sistema desta cidade é da responsabilidade da EMEL. Tem um custo anual-25€/mensal-15€/diário-2€. A partir do dia 30 de Setembro deste ano, cada viagem até 45 minutos tem um custo de 0.10€ (bicicletas clássicas) /0.20€ (bicicletas eléctricas), ou seja, num dia normal (ida/volta) as viagens custaram 0.20€/0.40€. Isto quererá dizer que, fazendo as contas, cinco dias por semana, quatro semanas por mês, dará um valor aproximado de 4€/8€. Neste momento, já estão em vigor os valores praticados em viagem que ultrapassem os 45 min até os 90 min, em que são acrescidos 1€ e 2€ por cada período adicional de 45 min acima dos 90 min de viagem. Uma viagem de bicicleta na cidade de Lisboa dura em média 45 min, de uma pessoa que vem de fora do centro da cidade. Tendo em conta estes valores todos, proponho a criação de um exemplo tipo (num cenário optimista), no qual um usuário com um passe mensal, utiliza somente as bicicletas clássicas, cinco dias por semana, e ultrapassa uma vez por semana o tempo de 45 min, num cenário pensado pós 30 de Setembro de 2018. De acordo com este cenário, teremos os seguintes valores num mês “normal”: 15€ passe mensal + 4€ uso diário (ida/volta) + 4€ por ultrapassar 45 min = 23€ mês. Conclui-se para cenários mais negativos e como foi afirmado num artigo do Jornal de Negócios: “as bicicletas são perfeitas para quem mora no centro“.

Esta rede de bicicletas foi lançada pelo poder autárquico como se fosse o último copo de água num deserto. O discurso associado à GIRA mistura práticas ambientalistas, cidade responsável e umas bikes giras e cool. Funciona através de uma APP (colocando em causa quem não tem telemóvel com estas configurações). Foi testada no Parque das Nações, por outro lado, um novo sistema de vigilância e controlo de pagamento de bilhetes da Carris foi testado na carreira 711 da Carris que faz o trajecto do Alto da Damaia ao Terreiro do Paço, nota-se que as escolhas sempre pendem pelas questões de classe, no caso da Carris com um florear racista. Apesar da expansão da GIRA pela cidade, facilmente, constata-se que em vários bairros municipais da cidade de Lisboa, elas ainda não chegaram (ver exemplos em Marvila). Soma-se, por fim, um novo factor, começam a aparecer recorrentes falhas dos travões destas bicicletas. Foram reportados mais de 40 acidentes por pessoas a usar a GIRA no início de Maio, segundo o Correio da Manha.

Como praticamente todas as redes que foram criadas pelo país, esta rede de bicicletas partilhadas não está associada à rede de transportes públicos, por exemplo, aos passes urbanos. Neste momento, há uma discussão importante sobre a criação de um Passe Intermodal na AML e as bicicletas partilhadas praticamente não têm lugar à mesa. Elas também estão totalmente desligadas de todas as outras redes semelhantes na Área Metropolitana de Lisboa, visto que cada cidade cria a sua rede e não partilha, ironicamente, com as outras redes na mesma área metropolitana. Deveria ser pensada uma AML com transportes urbanos integrados, públicos, eficientes e com preços adequados aos respectivos utentes. Esta deveria cumprir, entre vários objectivos, o de aliviar o fluxo de automóveis individuais nas cidades. Neste momento, para os utentes é mais prático utilizar um carro do que estar a pagar balúrdios para utilizar uma série de transportes, que cada vez mais são poucos eficientes.

Em simultâneo, com a existência da GIRA, a cidade de Lisboa dá alvará e promoção a todas redes de bicicletas partilhadas que chegam à capital, nacionais e estrangeiras. Com poucos impostos e legislação, este é um mercado em crescimento e de fácil acesso. Recentemente, uma multinacional na área, a oBike, chegou à cidade e, de um momento para o outro, colocou as suas bicicletas em cima de passeios, praças e lugares de estacionamentos de carros, o que foi considerado pela CML como prática “abusiva” e ordenou a retirada de todas as bicicletas do espaço público da cidade, neste momento há conversas para a mesma retornar à cidade. Em França, uma empresa retirou as suas bicicletas do mercado porque foram vandalizadas, roubadas e mandadas ao Rio Siena numa resposta dos franceses contra estes abusos praticados por empresas como oBike.

Num mercado aberto, sem muitas regras, de fácil acesso, barato, muito lucrativo e aliado a um discurso mediático e político de responsabilidade social e ambiental, as bicicletas partilhadas florescem e não dão respostas práticas e realmente responsáveis para a vida das pessoas.

O «crime» de Clemente Alves


Segundo quase todos os jornais, Clemente Alves, vereador da CDU na Câmara Municipal de Cascais, cometeu hoje um crime, casuisticamente inserido na secção noticiosa homónima e de cujo auto constam: «manifestação ilegal», «partir para a agressão» contra um agente e «impedir o trabalho das máquinas». Há, à partida, um problema óbvio nestas notícias: em Portugal não há manifestações ilegais (não é uma questão de opinião). Outra questão se impõe: se os jornalistas que escreveram estas peças (quase todas iguais porque roubadas umas às outras) não estavam lá, como é que souberam o que aconteceu?

A resposta certa é: «não sabem». Limitaram-se a pedir a versão do PSD de Cascais e a contrastá-la com a da polícia que, coincidente mente, é a mesma. Melhor trabalho teriam feito se tivessem perguntado a quem lá esteve o que realmente se passou. E até podiam deixar a notícia na secção «crime», porque é, de facto, de um crime que se trata.



Vamos aos factos:


1 – A Câmara Municipal de Cascais (CMC), gestão PSD, pôs clandestinamente em marcha a construção de um gigantesco parque de estacionamento de 350 lugares (pagos) numa área protegida, integrada no Plano Director Municipal como «Reserva Ecológica» destruindo leitos e cursos de água.

2 – A população, que há muito reivindica um espaço verde para estes terrenos, não foi tida, nem achada, nem consultada nem tão pouco avisada, como obriga a lei: a CMC não afixou sequer o necessário aviso de obra.

3 – O PCP, a CDU e Clemente Alves, que há muito vêm denunciando os vários atentados ambientais cometidos pela CMC, estiveram hoje em protesto pacífico na Quinta da Carreira. Há dezenas de testemunhas que contrariam a versão da polícia e garantem que foi a PSP que injustificadamente empurrou vários manifestantes e deteve Clemente Alves.

Ou seja, o vereador e candidato da CDU foi detido por protestar contra uma obra ilegal que lesa o meio-ambiente. Num país em que só por condão do dinheiro e da influência não é ainda mais comum ver titulares de cargos públicos detidos por suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais ou fraude fiscal, haja vereadores detidos por defender, não os seus interesses, mas os interesses da população, haja gente que dê o corpo ao manifesto para impedir mais um crime ambiental. Haja coragem. Haja CDU.

Sobre o glifosato e a Bayer.

Desculpem-me os leitores do manifesto74 por vir usar o vosso espaço com uma clarificação que passa perto de uma defesa pessoal, mas que, como compreenderão, é não só necessária, como colectiva.

O jornal i decidiu, no âmbito da campanha mediática em curso contra a solução governativa para que o Partido Comunista Português contribuiu, fazer uma delirante notícia com direito a meia capa. O correio da manhã, esse produto tóxico em papel que devia constar na categoria 2A da classificação da IARC – International Agency for the Research on Cancer – acompanhou de imediato. A origem da notícia está numa abstrusa manipulação de um artigo que escrevi neste blog levada a cabo por militantes e dirigentes do BE nas suas páginas de Facebook, onde me acusavam de insinuar que o BE teria recebido dinheiro da Bayer para propor a proibição do Glifosato. O i e o CM limitaram-se a aproveitar a boleia.

Então vamos ao que julgo interessar e poder contribuir para se perceber todo o enleio:

O glifosato é um composto químico classificado na lista 2A da IARC, ou seja, classificado como “potencialmente cancerígeno”. Isto significa que, em determinadas circunstâncias, perante determinadas concentrações, o produto pode ter efeitos cancerígenos. Nessa lista está o café quente (acima de 65º), a carne vermelha, praticamente todos os insecticidas domésticos e profissionais, a profissão de vidreiro ou de cabeleireiro, por exemplo.

O glifosato foi introduzido no mercado como herbicida pela Monsanto em 1974. A patente do glifosato rendeu milhões a essa multinacional, principalmente porque essa multinacional desenvolveu várias sementes geneticamente modificadas cuja principal característica era serem resistentes ao glifosato. Significa isto que a semente era vendida por ser resistente a um herbicida, o herbicida matava portanto as daninhas todas, sem prejudicar a cultura principal. Claro que com o tempo, as daninhas desenvolveram resistência ao glifosato e, como resposta, era necessário usar cada vez mais glifosato. A Monsanto tinha descoberto uma mina de ouro: sementes resistentes a um herbicida e o herbicida, tudo vendido pela mesma companhia.

Além dessa utilização, o glifosato é também utilizado no controlo de daninhas em espaço público, como forma de impedir o desenvolvimento de pragas, como as de carraças e outros insectos, alguns deles vectores de doenças de animais e humanos.

Ora, tal como todos os compostos, importa sempre gerir o risco. No caso da utilização do glifosato para controlo de daninhas em espaço público, devemos ponderar: é preferível ter carraças ou glifosato? é preferível usar algum outro composto alternativo? E avaliar a resposta a cada uma dessas perguntas.

Mas a verdadeira questão, como já devemos ir percebendo ao longo desta leitura, está na utilização de transgénicos resistentes a compostos sintéticos, sejam pesticidas, herbicidas, ou insecticidas. A utilização dessas sementes pode ser rentável para a Monsanto, para a Bayer, para a Syngenta, etc.. pode até, em alguns casos, ser rentável para o produtor que consegue volumes de produção como não podia ter sem a utilização dessa semente, mas não é certamente rentável para o planeta, para os solos, para a biodiversidade, para a saúde pública, etc. Ora, o PCP apresentou uma proposta para a proibição de cultivo de variedades vegetais geneticamente modificadas que foi sendo sucessivamente rejeitado desde a X legislatura por PS, PSD e CDS.

Mas em torno do glifosato colocaram-se outras questões. Com o alarme público que vem sendo alimentado desde 2014, existe uma preocupação generalizada em torno do composto, muitas vezes sem ter plena consciência do grau de risco a que se refere o “potencialmente cancerígeno” que, como já vimos, coloca a carne vermelha e o café quente exactamente no mesmo patamar que o glifosato. Esse alarme público é também resultado do normal lobbying junto dos orgãos de poder e surge só após a caducidade da patente da Monsanto, em 2001 e curiosamente, após o desenvolvimento do Liberty e do Ignite, compostos com que a Bayer visa substituir o Roundup – nome comercial do glifosato. Essas manobras, se não ligadas à ciência podem provocar a proibição de um composto de domínio público, barato e já experimentado pelos humanos para que seja substituído por um composto patenteado, caro e cujos efeitos na saúde são ainda desconhecidos. Uma vez mais, não significa que não se deva substituir, significa que se devem pesar estes riscos, um a um.

No entanto, com a alimentação da histeria colectiva em torno do glifosato patrocinada também pela comunicação social dominante, a Monsanto vê desvalorizar o seu principal activo: o glifosato e as sementes que lhe resistem. Ora, não podendo o glifosato ser utilizado, as sementes também se tornam inúteis. Podemos, neste momento, colocar a questão: mas a substituição do glifosato pode ser feita por vinagre diluído ou por água fervente. Para isso, a minha resposta é só: “ya, meu, então não se está mesmo a ver!?”. A resposta a uma proibição do uso do glifosato na agricultura industrial seria apenas uma: encontrar uma alternativa para a semente transgénica e para o herbicida. Curiosamente, só existe uma alternativa ao produto da Monsanto: a da Bayer, chamada glufosinato de amónio e comercializada sob o nome de liberty ou ignite.

Ora, quando em Março, o PCP foi acusado de defender a Monsanto, com insinuações várias de dirigentes do BE, quer no facebook, quer no esquerdapontonet, os órgãos de comunicação social limitaram-se a associar o PCP a um produto potencialmente cancerígeno sem tentar explicar uma única vez a posição do PCP e sem ouvir sequer a direcção do PCP ou o Grupo Parlamentar. Nessa altura, uma das muitas acusações lia-se assim: “PCP junta-se a PSD e CDS na defesa da Monsanto. Hoje, inacreditavelmente, o PCP juntou-se ao PSD e ao CDS para chumbar o projeto de lei do Bloco para proibir o glifosato no espaço público. A Monsanto agradece.” Esta foi produzida por Nelson Peralta, mas podíamos encontrá-la no mural de João Vasconcelos, deputado do BE.

Nessa altura, o PCP emitiu um comunicado, ignorado por toda a comunicação social. Ao mesmo tempo, o PCP, não escondendo que o problema do uso de químicos sintéticos na agricultura vai muito além do glifosato, pois que a demagogia é inimiga da sensatez, apresentou um projecto de resolução que visava dar a resposta necessária e ampla. Esse projecto foi igualmente ignorado pela comunicação social. Era muito mais simples, fácil e útil insistir na absurda ideia de que o PCP estava do lado da direita por estar feito com a Monsanto ou por mero sectarismo. Sectarismo esse que, a existir, não explicaria por que raio se teria o PCP abstido num projecto do BE sobre glifosato uns meses antes. A diferença é que o primeiro projecto tinha um conjunto medidas, entre as quais recomendar ao Governo Português que assumisse uma posição favorável à não renovação da licença do glifosato no plano da União Europeia, e o projecto do BE de Março visava proibir a utilização do glifosato no espaço público imediatamente. Ora, para ficar claro, o PCP votou a favor do projecto do Partido Ecologista “Os Verdes” que recomendava a não renovação da licença do glifosato. Logo aí ficou percebida a posição do PCP: apoiar soluções graduais que visem a não renovação da licença do glifosato mas demarcar-se de aventuras que visassem a proibição imediata, sem alternativas. O PCP preferiu a seriedade ao facilitismo.

Mas esse facilitismo pelo que obtou o BE não pode deixar de ser enquadrado na onda que beneficia a Bayer. Ou seja, o BE, tal como em muitas outras ocasiões, preferiu alinhar pelo mediatismo da questão do que pela defesa da saúde pública. A ser proibido, sem mais, o glifosato, que fariam as autarquias ao stock ja adquirido? como controlariam as daninhas? como impediriam pragas de carraças, por exemplo? Claro que pode haver alternativas, mas devem ser avaliadas e planificadas. O mais grave é que o BE sabia desde o início que o PCP tinha essa posição. O BE modificou o seu projecto de maneira a fazer com que o PCP alterasse o seu voto de abstenção para contra, e agendou o debate com essa intenção. O BE podia ter pedido a baixa do projecto sem votação, com o apoio do PCP, para que o projecto pudesse ser mais debatido. Optou por não o fazer. Porquê? Simples: a sua intenção não era aprovar o texto, era obter o voto contra do PCP para poder fazer as acusações que fez depois. Curiosamente, quando o projecto anterior chumbou como resultado da posição do PS, o BE não dirigiu ao PS as acusações que dirigiu ao PCP. Critérios e amizades que se compreendem.

Chegados a este ponto, vamos ao que escrevi. “A Bayer tinha um produto caro que visava substituir um produto barato. Agora talvez o consiga fazer com o apoio da legislação feita ao sabor de interesses não anunciados. Se o BE recebeu ordens de alguém para propor em Portugal a proibição do glifosato, não poderemos saber, mas que houve quem lucrasse milhões com propostas desse tipo, lá isso houve. Criado o alarme em torno do glifosato, restou ao BE cavalgar o seu mediatismo e acusar os comunistas de defenderem a Monsanto e a utilização de produtos cancerígenos. Na sua estratégia de isolar constantemente o PCP, o glifosato foi um eficaz produto. A comunicação social encarregou-se de intoxicar a opinião pública com essa “nova propriedade” do glifosato e com o preconceito de que o PCP é um partido tão ortodoxo que defende que devemos todos morrer por exposição a produtos que provocam o cancro.”

No dia em que a Bayer anunciou a compra da Monsanto, manobra que o PCP denunciou logo em Março aquando da discussão do projecto do BE, limitei-me a mostrar que o BE, na sua marcha anti-PCP e na sua habitual cavalgada sobre a espuma do mediatismo, acabou por estar alinhado com a estratégia de uma multinacional que agora vai deter praticamente o monopólio mundial da agricultura e dos fitofármacos e pesticidas mais importantes. A Bayer adquiriu a Monsanto a um preço mais baixo do que podia ter adquirido, caso o glifosato ainda tivesse patente e legalidade com perspectiva de futuro. O glifosato será substituído pelo glufosinato de amónio, cujos impactos e efeitos cancerígenos ainda são desconhecidos por ter uma utilização menos disseminada e mais recente. Mas o problema continuará: as sementes têm os seus genes patenteados por grandes multinacionais que dominam a agricultura mundial com custos incalculáveis para o planeta e o ser humano, mas gerando lucros brutais. Em vez de usarem glifosato vão usar glufosinato de amónio e em vez de serem detidas pela Monsanto e pela Bayer, serão todas detidas pela Bayer.

Espero que resulte claro que a minha alusão ao “BE ter recebido ordens” era uma chamada de atenção para os pés de barro do BE no que toca às suas posições. Se o PCP foi acusado de defender a Monsanto quando não apoiou o BE, julgo que é legítimo dizer que esse argumento pode ser utilizado também para o BE quando contribui para o sucesso da estratégia da Bayer. Evidentemente, considero tão ridícula a acusação do BE ao PCP como a minha insinuação, todavia a minha insinuação surge nesse contexto com vista a demonstrar precisament isso. Mas o BE gosta pouco que lhe chamem as atenções: quer ficar bem nas fotografias do mediatismo burguês mas não quer assumir que isso tem custos políticos. Quando ficava bem dizer mal de Khadafi, o BE não hesitou em apoiar a intervenção militar no parlamento europeu., mas nunca quis assumir o sangue nas mãos pelas bombas que caíram na Líbia. Agora que ficava bem ser contra o glifosato, nada indica que o BE tivesse vontade de assumir que essa posição favoreceu a estratégia da Bayer.

Os índios da Pradaria

Os Lakota, também conhecidos como índios da pradaria, são um povo indígena da América do Norte, cujas terras originais se estendiam pelos actuais estados norte-americanos do Dacota do Sul e do Norte. Formados por sete tribos vizinhas, entre as quais se encontram os Sioux, os Lakota imigraram para o Norte, oriundos do baixo Mississipi, e ali se fixaram vivendo da agricultura e da caça do búfalo, actividade iniciada após a introdução do cavalo na vida das comunidades, no século XVIII. É em parte da vida dos Lakota que falam grandes produções de Hollywood, como “Dances with wolves” (“Danças com lobos”), filme realizado a partir do romance homónimo, de Michael Blake.

É sabido que as tribos Lakota resistiram ao processo de violenta invasão e colonização branca dos seus territórios, e que essa resistências lhes valeu uma sucessão de massacres, guerras e outros actos de violência brutal por parte do exército norte-americano, que no final do século XIX dizimou populações inteiras de búfalos, de forma a vergar os Lakota, obrigando-os a aceitar a vida em reservas e a dependência de rações alimentares fornecidas pelo governo federal.

Em 1890 dá-se o tristemente célebre massacre de Wounded Knee, na reserva de Pine Ridge (Dacota do Sul), no qual foram mortos centenas de índios, incluindo mulheres e crianças. Depois de várias guerras, traições, promessas quebradas e imposição da fome e do sangue, as autoridades federais obtiveram por fim domínio sobre a Nação Lakota, que em todo o caso é coisa diferente de se dizer que os Lakota foram submetidos à vontade dos seus colonizadores.

Insubmissão em Pine Ridge

A memória de Wounded Knee encontra-se bem viva no seio dos Lakota, e ao longo do século XX muitos foram os incidentes que, com maior ou menor gravidade, maior ou menor visibilidade, mostraram aos norte-americanos e ao mundo que a Nação Lakota se encontra bem longe da domesticação desejada pelo imperialismo.

No início dos anos 70 é criado o American Indian Movement (AIM), assistindo-se a um reforço da luta dos ameríndios Lakota contra as imposições federais. As tensões acumuladas tiveram grave desfecho em Junho de 1975, quando um tiroteio ocorrido na reserva resultou na morte de dois agentes federais e um activista do AIM. Os agentes federais responsáveis pela morte do activista ameríndio foram absolvidos, mas Leonard Peltier, o bem conhecido activista acusado pela morte dos agentes federais caídos, foi condenado a duas penas de prisão perpétua, encontrando-se actualmente na penitenciária federal Coleman, na Florida.

Petróleo na pradaria

O Dakota Access Pipeline Project é um projecto em concretização, que visa construir um enorme “pipeline” para transportar petróleo ao longo de mais de 1.000 quilómetros entre o Dacota do Norte e o Illinois. O tubo atravessa vastas áreas naturais, que incluem territórios que os tratados reservam à Nação Lakota, colocando em risco sítios arqueológicos considerados sagrados pelos Lakota, reservas e cursos de água, terras que as tribos ameríndias vêem como a raiz da sua cultura e identidade.

Os Lakota afirmam, e as evidências parecem confirmar os seus argumentos, que as rupturas de pipelines no Dacota do Norte têm sido frequentes, contaminando as suas terras e dizimando a vida que nelas procura encontrar a tranquilidade aniquilada noutras paragens.

A luta dos Lakota contra o Dakota Access Pipeline tem sido intensa, violenta e olimpicamente ignorada pela imprensa norte-americana e internacional. É precisamente por isso que deste espaço lanço aos índios da pradaria o meu grito de solidariedade e apoio à defesa da sua cultura, das suas terras, memória, identidade e forma de vida. Porque a luta dos Lakota pode não fazer parte dos espaços de entretenimento-informativo a que chamamos “telejornais” (e afins), mas não pode deixar de receber, nos espaços de comunicação livres dos “critérios editoriais” do sistema, o apoio e a divulgação merecida.

Os Liquidadores de Chernobyl, Heróis da Humanidade

– 1:24 de 26 de Abril de 1986, durante a execução de um teste de segurança na Central Nuclear de Chernobyl explode o reactor número 4.
Novamente a Humanidade será colocada à prova. Numa situação que comportará desafios e riscos humanos absolutamente aterradores pelo que se poderia calcular, e outros, então ainda inimagináveis.

Tendo em conta algumas testemunhas sobreviventes o desastre começa durante o teste de segurança, por erro humano, com a supressão absolutamente irresponsável do cumprimento de algumas premissas essenciais do Regulamento de Segurança Nuclear da União Soviética. Ou seja, os técnicos e engenheiros presentes(não todos) terão negligenciado na execução do seu trabalho de algumas normas de segurança, iniciando um processo em que erros de execução e seguintes erros de correcção se sucedem e agravando tudo até à explosão do reactor 4.

Após a explosão do reactor são logo chamados a intervir numa primeira linha os serviços de bombeiros da cidade vizinha de Pripyat(uma cidade construída de raiz para apoio à Central) que combatem as chamas como podem com milhões de litros de água e nitrogénio líquido.
No centro do reactor 4 debaixo de 14 metros de destroços a grafite que revestia o combustível nuclear queimou-se e derreteu o urânio, a precipitação radioactiva que originaria seria cem vezes maior que a potência combinada das duas bombas atómicas lançadas sobre o Japão
Do reactor apenas ia saindo uma estranha fumaça fina, mas que já era a radiação. 
Por esta hora ninguém teria noção exacta do impacto na Central do acidente e das iminentes consequências posteriores. 
No dia seguinte a vida aparentava a normalidade possível. A cidade não foi evacuada e as primeiras equipas de técnicos, cientistas e engenheiros da URSS apenas agora chegavam a Pripyat e inclusive ficam instaladas num hotel em pleno centro da cidade.
Anormal por então segundo os habitantes, apenas, um saber estranho na boca, meio metálico meio ácido. Já era o iodo radioactivo.
As medições começaram então a ser feitas, numa época em que a unidade de medida ainda era o Roetgen. Em 26 de Abril de 1986 o nível de radioactividade já era 600 mil vezes superior ao normal. Houve quem pensasse que as máquinas de medição não poderiam estar bem. E ninguém sabia no dia seguinte que o reactor continuava a expelir radioactividade. Nesse dia 26, em Pripyat a radiação já estava 50 vezes superior ao nível considerado inofensivo, a aproximação física ao local da Central aumentava exponencialmente os níveis de radiação e 15 minutos de proximidade poderiam ser fatais.
Começa então a rápida evacuação da cidade e zonas limítrofes. A radioactividade continuava a subir.
48 horas depois já só os militares e membros da comissão cientifica permanecem em Pripyat, no mesmo hotel em pleno centro, provavelmente continuavam a desconhecer a real gravidade da situação e respectivos impactos.
Perante as medições da radioactividade e os sucessivos alertas que começam a chegar, inclusive de países vizinhos, procurou-se informação precisa e o estabelecimento de medidas prioritárias. A observação do reactor confirmou a explosão e a sua destruição.

A URSS decide então lançar sobre o reactor, através de helicópteros, areia e chumbo aos milhares de toneladas em sucessivas viagens. Bravos pilotos condenam a sua vida a brutais níveis de radiação sob os céus da Central, muitos perecerão em pouco tempo. Por esses dias seguintes começam a surgir as primeiras vitimas civis e militares por exposição à radiação. Primeiro as náuseas e as tonturas, depois as queimaduras e depois os piores horrores que o ser humano pode passar.
As partículas radioactivas começam a cair com as chuvas, os ventos vão
destruindo paisagens e florestas, as poeiras radioactivas espalham-se, a Bielorrúsia e a Ucrânia são imediatamente afectadas. Países a
milhares de quilómetros sentiram os seus níveis radioactivos subir.
O ataque aéreo tornava-se insuficiente, nem paliativo, seria mesmo necessário entrar na Central. Mineiros(cerca de 10 mil, trabalhando por turnos, de idades compreendidas entre os 20 e os 30 anos) e Engenheiros teriam de entrar, escavar túneis subterrâneos, selar fissuras, retirar materiais. Como se referiu, algumas das primeiras medidas tomadas revelaram-se inócuas e até posteriormente prejudiciais em alguns aspectos.
Os lençóis subterrâneos por baixo da Central estavam em grande perigo ameaçando os rios que atravessavam e serviam algumas grandes cidades. Era urgente restabelecer a todo o custo as temperaturas dentro da central pois uma nova explosão poderia condenar toda a vida humana num raio milhares de quilómetros em poucas horas, era este o maior perigo.
A radioactividade constituía um inimigo invisível e absolutamente aterrador, a Central uma ameaça sem precedentes.

Liquidadores, Heróis da Humanidade

Toda a União Soviética foi mobilizada, todos os recursos se viraram para o controlo possível da catástrofe.
Perante a catástrofe e o holocausto eminente, cerca de um milhão de cidadãos vindos de toda a URSS vêm para a região de Chernobyl participar nas infinitas tarefas de limpeza nuclear. Militares e civis, muitos voluntariamente, de todas as profissões, idades e repúblicas soviéticas, faziam o melhor que podiam. Era preciso limpar a poeira radioactiva que tudo cobria, liquidar os animais para evitar contaminações, enfim um conjunto enorme de tarefas perigosíssimas. A alcunha deste heróis era Liquidadores. Eram os Liquidadores e a sua missão era liquidar, acabar com a radioactividade.
Estariam constantemente cobertos de poeira radioactiva, estariam expostos a níveis de radioactividade brutais e que se desconhecia em precisão e cujas consequências poderiam ser as piores possíveis.
Estes homens e mulheres já sabiam ao que vinham. Sabiam o que deixavam para trás nas suas casas e ao que provavelmente se condenavam. E de facto muitos não sobreviveram e muitos sofreram(e sofrem) terríveis sequelas para sempre.
Em diversas tarefas, os níveis de radiação destruíam as próprias máquinas que as executavam, e então os próprios Liquidadores substituíam máquinas. Ganharam também assim a alcunha de “bio-robots”.
O imenso sacrifício dos Liquidadores, o seu sentido de responsabilidade, a sua dádiva à Humanidade é impossível de adjectivar. Algo que apenas se tenta perceber e sentir.
Após as primeiras linhas de trabalhos junto do reactor se terem manifestado úteis e imprescindíveis para alguns riscos, continuavam no entanto a ser globalmente insuficientes, era agora preciso atacar o coração do reactor 4, ir ao seu cimo e iniciar os trabalhos para a construção de um sarcógafo que pudesse, dentro do possível, selar todo o reactor.
Nunca um projecto destes tinha sido feito, seria necessário projectar e construir uma estrutura colossal num lugar onde humanos apenas poderiam trabalhar durante segundos, literalmente segundos. Era preciso levar homens e máquinas ao topo do reactor e para isso até instrumentos e robots do projecto espacial soviético chegaram a ser utilizados. Para a construção do sarcófago foram necessários 1000 metros cúbicos de cimento.
Todo o trabalho realizado desde a explosão até à construção do sarcófago, já teria custado financeiramente, 18 biliões de rublos.

3 Heróis 

A dado passo foi necessário retirar a água de uma piscina radioactiva que se formou no interior da Central, devido ao perigo de corrosão radioactiva e posterior infiltração nos solos, era absolutamente necessário abrir uma válvula que permitiria a passagem dessa água para outro espaço já seguro. O problema é que essa válvula estava dentro dessa piscina e quem lá fosse provavelmente já não regressaria.
O Técnico Alexei Ananenko, o Engenheiro Valeriy Bezpalov ofereceram-se. Ainda assim precisavam de mais uma pessoa para apoio, pelo que um jovem trabalhador da Central terá dito “Eu vou com vocês”, o seu nome era Boris Baranov.
Foram e cumpriram a missão salvando tecidos de água que abasteciam alguns dos principais rios da Europa e da URSS.
Sobre o que se passou após cumprirem a missão não se sabe precisamente, existindo apenas alguns rumores. Um primeiro, segundo o qual nunca chegaram a regressar, e outro rumor de que regressaram mas que pouco depois terão falecido por síndrome radioactivo.

7 meses após a explosão e o início dos trabalhos com a conclusão da construção do sarcógado da Central e a limpeza da área, as autoridades militares após se ter enfrentado níveis gigantescos de radiação, limpado toda a grafite e realizado tarefas tão heróicas consideraram ser necessário um acto simbólico para a conclusão dos trabalhos, decidiram hastear a bandeira soviética no topo da Central.
Para o jornalista Igor Kostin que acompanhou todo o processo “hastear a nossa bandeira ali foi como hasteá-la no Reichstag quando Exército Vermelho derrotou o fascismo, para aqueles soldados a bandeira era um símbolo do triunfo sobre a radioactividade”.

O preço do desastre de Chernobyl de que se assinalam 30 anos, muito resumidamente, é incalculável sob todos os aspectos. Eventualmente até para a própria existência da URSS.
Os impactos ambientais e humanos do desastre continuam a fazer-se sentir até aos dias de hoje.
O sarcófago foi construído para resistir precisamente 30 anos. E aparentemente tem aguentado a sua tarefa, estando em construção um novo que o cobrirá.
E para acrescentar um pouco mais de incrível…a verdade é que até há poucos anos, o resto da central Nuclear de Chernobyl ainda funcionava, aliás, nunca parou de funcionar…

Um saco de plástico pago não polui?

Actualmente quando faço compras, recebo três ou quatro sacos de plástico para as levar até casa. Geralmente não pago pelos sacos, excepto num ou outro supermercado. Mesmo quando pago, o preço do saco fica em torno de 2 cêntimos. Depois de utilizar os sacos para transportar as compras, geralmente uso os sacos para transportar coisas na moto, incluíndo a roupa suja, para colocar o lixo e para transportar o lixo.
A partir de dia 15 de Fevereiro, uma nova lei entra em vigor, para supostamente diminuir o consumo de plástico. Então vejamos: eu continuarei a ir às compras e, eventualmente passarei a utilizar uma alcofa para transportar as compras. Contudo, continuarei a precisar de sacos do lixo. Como tal, das duas uma: ou compro os sacos de transporte das compras por 10 a 12 cêntimos ou compro sacos de plástico para o lixo que são maiores, mas mais baratos.

Quem tiver muito dinheiro continuará a comprar o número de sacos que lhe apetecer. Os que têm menos dinheiro terão de começar a pagar por algo que sempre esteve já incluído no preço dos produtos: o saco de plástico.
O que devia ser feito era proibir a distribuição de sacos não biodegradáveis, gratuita ou paga, para ricos ou para pobres. Ao mesmo tempo, assegurar a diminuição das toneladas e toneladas de embalagens supérfluas que são vendidas juntamente com os produtos. Se eu quero iogurtes, não quero papel nem cartão. Se eu quero tomates, não quero cuvetes. Se eu quero bolos não quero plástico. Se eu quero chocolates, ou cereais não quero tintas, nem papelinhos dourados. Façam o exercício e vejam quanto do que compraram vai para o lixo assim que começam a arrumar as coisas no frigorífico ou nos armários. Agora ainda pensam que o problema está nos sacos de plástico gratuitos aos quais até davam uso? Ou está na trampa que nos é imposta sem qualquer possibilidade de reutilização, apenas servindo o fim de embelezar os produtos e de fazer publicidade a esta ou aquela marca?
Contra esta proposta, surgiu uma outra, do PCP, que propunha a proibição de distribuição de sacos não biodegradáveis, bem como a proibição de utilização de embalagens que não tenham como utilidade a individualização ou a preservação do produto, e ainda a promoção da utilização de embalagens com tara para estimular a sua reutilização. Qualquer uma destas medidas representava uma diminuição muito substantiva da carga poluente que cada um de nós acrescenta à natureza. Todas foram rejeitas. 
Mas há uma taxa nos sacos de plástico.
Educar ambientalmente pela carteira não é proteger o ambiente, é guardá-lo para que só os ricos o possam estragar.