Combustíveis fósseis, lucros vivos.

Não precisamos de recuar muito no tempo para recordar Durão Barroso anunciando aos portugueses que a liberalização dos preços dos combustíveis ia baixar os preços da gasolina e do gasóleo. Da mesma forma, não precisamos fazer um grande esforço para relembrar que tal nunca aconteceu. Na verdade, o preço dos combustíveis desde a liberalização em 2002 até hoje só parou de subir nos tempos da epidemia de COVID, retomando a escalada logo a seguir.

A mentira de Durão, uma das várias que o homem de mão dos EUA nos enfiou antes de abandonar o governo para rumar à comissão europeia e à Goldman Sachs, depois de comprometer Portugal com a ignomínia da guerra de Bush contra o Iraque, teve perna curta. Aliás, a mentira era tão evidente e óbvia que custa a crer que alguém tenha tido a desfaçatez de a proferir porque o que existia antes da selvajaria da liberalização eram preços máximos, que não obrigavam nenhuma gasolineira a cobrá-los. Ou seja, antes de 2002, as gasolineiras podiam vender os combustíveis abaixo do preço fixado por lei, só não podiam vender a preço superior.

A ridicularia da liberalização ainda hoje, passados quase 25 anos, está patente na risível afixação de preços nas autoestradas, em que, painel após painel, se anunciam os preços de três gasolineiras, três preços iguais para o gasóleo, três preços iguais para a gasolina. Dinheiro bem gasto porque nos espeta na cara todos os dias a mentira da liberalização e da concorrência.


Bem sabemos que os aumentos dos combustíveis não se prendem estritamente com a voragem das gasolineiras e que há factores nacionais e principalmente internacionais que influenciam determinantemente os preços. Mas também sabemos que os lucros das principais empresas de combustíveis não param de crescer. Ou seja, as suas margens são cada vez maiores e países como Portugal, totalmente dependentes do exterior no que toca a combustíveis e espoliado dos seus meios nacionais de refinação, são presas fáceis do assalto.
Perante a escalada de esbulho que as gasolineiras fazem aos trabalhadores e empresas, sucessivos governos de todas as cores, limitam-se a assistir e a aplaudir os lucros desses grupos económicos, sabendo bem que cada euro que os seus accionistas recebem é um euro retirado dos bolsos de quem trabalha.

O actual governo não é diferente, ou melhor, é diferente porque é ainda pior: um bando de fantoches sem pátria que se apropriou da pátria dos que os elegeram e a pretende retalhar até à obliteração. Ora, tendo os anteriores governos feito tudo para não mexer nas margens das gasolineiras e não fixar preços máximos, foram inventando fórmulas de impostos adaptáveis à constante subida dos preços dos combustíveis: o isp baixava um pouco quando os preços subiam muito. Foi sol de pouca dura e não tardou a que essa trapaça também se esgotasse e o isp deixasse de estar indexado aos preços. Estamos portanto perante a situação mais extrema: as gasolineiras cobram o que querem e o estado cobra por cima.

No entanto, a campanha de guerra promovida contra o Irão pelos EUA e seus aliados – em que Portugal se insere – tem sido pretexto para renovada escalada nos preços dos combustíveis. Assim que se antevê uma subida no barril nos mercados internacionais, já as gasolineiras estão a fazer reflectir a subida nos preços, fazendo o inverso quando os preços do crude baixam. E fazem isso nas barbas dos ditos reguladores, fiscalizadores, agências, institutos, autoridades tributárias, económicas e da concorrência (Esta última particularmente irrelevante num país dominado por oligopólios em praticamente todos os sectores de actividade).

Nessa operação de dilatação do tempo de diminuição dos preços e de antecipação dos aumentos, as gasolineiras encaixam milhões de euros de lucros, num movimento puramente especulativo – em 2025, os lucros da Galp cresceram 41% em relação ao ano anterior, ascendendo a 272 milhões de euros.

Perante o descarado assalto que as gasolineiras vão fazendo aos trabalhadores portugueses, que no dia em que escrevo este texto se traduz no aumento de 11.5 cêntimos no gasóleo, o governo faz gestão do imposto sobre o produtos petrolíferos para que a subida do preço “não se sinta tanto nos consumidores”, porque não fosse essa medida do magnânimo governo, a subida seria de 12 cêntimos.
A situação fala por si, mas não deixa de ser bastante ilustrativo o facto de o governo fazer tudo, até baixar impostos, só para não tocar nos lucros dos grandes accionistas das empresas de upstream energético. Isto significa que este governo, como outros, continua a linha de prejudicar os portugueses todos antes de tocar num cêntimo dos lucros dos grandes grupos económicos.
Exigia-se uma medida de controlo e fixação de preços, a recuperação do papel do estado na refinação e na distribuição.

Em vez disso, temos um governo que baixa meio cêntimo um imposto e se desdobra em serviços ao grande capital.
Querem dizer-te que tudo isto é demasiado complexo, que tudo depende do cenário macroeconómico e internacional, que não se pode fazer nada à escala nacional, que Portugal é um país pequeno, querem reduzir-nos à condição de espectador-consumidor no sistema global, quando são os trabalhadores o único protagonista real da história. Se é verdade que Portugal não pode determinar os preços dos combustíveis, não é menos verdade que pode condicioná-los. Basta que não alimente a guerra imperialista, que não abdique de fixar preços máximos e de desliberalizar o mercado, que não use apenas os impostos como forma de intervenção na economia, que reclame o papel de estado soberano e faça sobrepor aos interesses dos accionistas as nossas vidas.

“Which side are you on?”: anatomia de uma canção em vésperas da Greve Geral

As canções folk norte-americanas funcionam como documentos históricos. Guardam a imensa e insubmissa capacidade de trazer até nós o seu contexto -guardam secas, mortes, deslocações, greves – mas também uma espécie de espaço afectivo colectivo, vivo – guardam obstinação, resistência, esperança.
Estas canções não dizem apenas do seu presente. Persistem nelas artefactos do passado e, em simultâneo, qualquer coisa ainda disponível no futuro; de voz em voz, terra em terra, são uma espécie de construção incessante de cartografia oral viva, aberta a todos os trabalhadores e apta a orientar-nos, ainda hoje, perante (e através) das complexidades do tempo, dos sistemas de organização social e da própria condição humana.

Ler mais

Cândido, A voz que fez da palavra um acto de Abril

Cândido Mota, Arquivos da Festa do Avante! 2014

Candido Mota, Arquivos da Festa do Avante! 2014

Há vozes que informam. Outras que entretêm. Depois, há daquelas raras que ficam na História, não só pelo timbre ou a presença que transcende, mas pelo sentido que carregam. A de Cândido Mota era dessas.

Partiu o camarada de mil lutas, mas não se apaga a presença. Há vidas que não cabem no tempo em que existiram, mas que se prolongam na memória colectiva, na cultura que ajudaram a construir, na luta que nunca abandonaram.

Ler mais

A guerra do avesso da guerra

O avesso da guerra imperial contra o Irão é a guerra social contra os EUA: aquilo que por fora faz pontaria às crianças iranianas, aponta por dentro às crianças americanas. Dito de outro modo: os planos de explodir o Irão ameaçam implodir os EUA. Assumiu-o Trump, sem flores de retórica e com lixo entre os dentes, no início do mês: «Não podemos tratar das creches, do Medicare, do Medicaid [programas de saúde pública para os mais vulneráveis]. Todas essas coisas individuais… podem ser os Estados a tratar disso. Só temos de tratar duma coisa: protecção militar (…) Estamos a fazer guerras, não podemos tratar das creches». Dois dias depois, o magnata apresentou o orçamento para 2027: mais 445 mil milhões para a guerra, um aumento de 42% em relação a 2026 para uns fabulosos 1,7 biliões de dólares (quase seis vezes o PIB de Portugal). Se o avesso de um número é uma quantia negativa da mesma coisa, uma precisa ausência quantificada, uma falta que se sente, então, no forro de um orçamento para a guerra encontraremos outra guerra.

Ler mais

Feminismo-L’Óreal e a falta de Xá

Do cotovelo da Terra à pestana do Mundo, eis que o Feminismo-L’Óreal voltou a cruzar o estreito de Ormuz. Tem barbas mais brancas do que as do próprio Ayatollah esta obsessão do Ocidente com o que as mulheres vestem nos países de maioria muçulmana, tendo-se fossilizado uma lógica pobrezinha, já aqui endereçada, em que os níveis de liberdade sobem tanto quanto a bainha das saias, numa relação de proporcionalidade directa. Dir-se-ia que também por aqui paira uma nova polícia da moral, aliada à polícia da moda. Pois que, para as feministas liberais, negacionistas da luta de classes, trata-se bem mais de moda do que de emancipação colectiva. Essa mesma obsessão tem sustentado e feito circular uma igualmente pobre ladainha sobre “libertação” das mulheres. Curiosamente, note-se, falamos de mulheres que têm por destino nascer entre o Top 10 dos produtores da OPEP. Para todos os males, bombas. Assim como assim, mulheres mortas não usam hijab. 

Ler mais

Providencialmente Provinciano e Piegas

Não é um providencial senhor de Santa Comba Dão, mas parece. Pelo menos, parece pensar muito como ele – e se calhar nele, também. Passos Coelho tem reaparecido por aí – apenas a espaços, como um verdadeiro piegas – para dizer fundamentalmente duas coisas: que se voltar à política será um mau sinal; e que se o fizer, vem acompanhado do Chega e da IL. Isto significa que Passos se vê a si próprio como salvador da pátria, iluminado, que há-de voltar se houver nevoeiro. E significa também que, quando tiver de sair das cavernas para salvar o país das trevas, tenciona fazê-lo com a ajuda da extrema-direita institucionalizada. Para quem é que isto pode constituir novidade, mesmo?

Ler mais

O Congresso, 1957

Imagem gerada por IA

Corria o ano de 1957 quando o Partido Comunista Português realizou o seu V Congresso. À polícia política do regime não lhe passaria pela cabeça que os comunistas se juntariam a uns meros seis quilómetros do Forte de Santo António da Barra, onde o presidente do conselho, o fascista de nariz adunco, instalara a sua residência de férias, pobrezinho haveriam de o vir chamar, pedófilo só dali a dez anos quando rebentar o escândalo de Ballet Rose, sempre faz parecer que é assunto de predileção da classe dominante, hoje e amanhã.

Ler mais