Sobre-exploração e tomates cherry

O Marx foi um gajo porreiro. Justo e generoso. Deixou-nos O Manifesto, mas como não queria deixar os burgueses à deriva, entregues às tolices da mão invisível, deixou-lhes O Capital. E eles estudaram-no, bem melhor do que nós. Stalin explica:Stalin meme 2

Vem isto a propósito das declarações do Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), particularmente da frase que deu manchete e indignou muita gente: “As pessoas são contra as estufas em Odemira mas depois querem comer tomates cherry”. Eu percebo a indignação. É um murro no estômago, porque a verdade dói. As pessoas são contra aquelas condições de trabalho mas querem tomates cherry. E querem telemóveis com baterias de lítio por tuta e meia. E querem t-shirts a 3 euros e calças de ganga a 9 euros na Primark. Tudo isto sem ter de pensar que nos custos de produção, o custo que mais facilmente pode ser reduzido é o custo da mão de obra – e para isso, não há nada melhor do que explorar os trabalhadores do terceiro mundo. Como disse a Sophia de Mello Breyner:

 

As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas

 

Sejamos honestos: por muito que achemos ultrajantes as palavras do secretário-geral da CAP, o que ele disse nem é novidade nem é original na burguesia: há uns dias, sobre o mesmo tema, o presidente Marcelo disse que precisamos dos imigrantes porque fazem “trabalhos que os portugueses não aceitam fazer, mesmo em período de desemprego”. Já deu para perceber, ou é preciso um desenho? A classe dominante não tem nada contra a imigração, pretende é que os trabalhadores imigrantes sejam submetidos à divisão racial do trabalho. Mesmo a extrema-direita abertamente racista não tem problemas nenhuns em explorar trabalhadores imigrantes, a viver em prédios construídos por trabalhadores imigrantes e a trabalhar em escritórios limpos por trabalhadores imigrantes, desde que a divisão racial do trabalho se mantenha, e que esses imigrantes sejam para sempre cidadãos de segunda. É essa a base do nacional-chauvinismo. Portanto, para a generalidade da população o problema não é que situações de sobre-exploração como aquela que se verifica em Odemira aconteçam; é que elas aconteçam cá. É mais confortável quando condições de trabalho iguais ou piores se verificam lá longe. Sejamos honestos: a generalidade dos indivíduos no núcleo do Império ignora activamente o sofrimento dos trabalhadores do mundo sobre-explorado sobre o qual assenta o seu bem-estar relativo, num processo de ansiedade doxástica que envolve um esforço, consciente ou inconsciente, de não tomar conhecimento das condições em que são produzidos os seus bens de consumo. Não é propriamente novo o conhecimento das condições de trabalho a que são sujeitos os trabalhadores imigrantes de Odemira, ou quaisquer outros trabalhadores desprotegidos, seja qual for a sua nacionalidade ou sexualidade, quase sempre relativizados com uma qualquer variação do “ao menos têm emprego” que há uns anos o Martim Neves grunhiu sob os aplausos duma plateia histérica. O tratamento dado aos trabalhadores das estufas de Odemira decorre naturalmente do entendimento contemporâneo do trabalho e do trabalhador como se de uma mercadoria se tratasse: se daí resultar uma maior apropriação de mais-valia, o burguês prefere importar os trabalhadores em vez de importar os bens de consumo. É a aplicação dos métodos coloniais na metrópole. E isso, explicou-nos o Aimé Césaire, é a génese do fascismo.

Mas adiante: Não pretendo com isto apelar ao ascetismo, à fantasia hippie da quinta comunal, ao mito do consumo ético; não existe consumo ético sob a alçada do capitalismo. Vamos continuar a consumir produtos produzidos por trabalhadores explorados porque todo o trabalho assalariado é exploração, e vamos continuar a consumir produtos produzidos por trabalhadores sobre-explorados porque são os únicos ao alcance dos nossos rendimentos. O que é urgente é que todos tomemos consciência de que o sistema em que vivemos, ainda que possamos gozar de algum bem estar relativo, se constrói e desenvolve às costas do sofrimento de milhões de seres humanos. Das dezenas de milhar de seres humanos, muito deles crianças, que todos os dias morrem por falta de recursos que existem mas que estão fora do seu alcance porque não é lucrativo fazer-lhes chegar esses recursos. O que é urgente é que nos solidarizemos com todos os povos do mundo, com os seus movimentos de libertação, que rejeitemos e denunciemos a propaganda imperialista que sobre eles lança todo o tipo de mentiras e calúnias, que rejeitemos doutrinas que promovem a divisão racial ou sexual do trabalho e as reconheçamos como aquilo que são: não categorias neutras, mas instrumentos de opressão e divisão de classe ao serviço do capital.

Há uns anos, o Warren Buffett disse “Claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que a está a travar, e estamos a vencer”. É urgente que também nós, trabalhadores, tomemos consciência de que só pela luta de classes é que conseguiremos desmantelar este sistema desumano e desumanizante que é o capitalismo.

G: género

G: género

O género é o conjunto das expectativas sociais que os sistemas de exploração dominantes em cada momento histórico atribuem ao sexo em função das suas necessidades políticas e económicas, transformadas em normas psicossociais sobre como se deve comportar e expressar, respectivamente, uma mulher ou um homem. Historicamente, essas expectativas constroem-se como cofragens de identidades e de expressões performativas de grande profundidade cultural e que, consciente ou inconscientemente, em maior ou menor grau, todos reproduzimos.

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F: flexibilidade

F: flexibilidade

Flexibilidade é o termo que, no linguajar dos capitalistas, designa a disponibilidade dos trabalhadores para serem mais explorados.

Na novilingua do empreendedor, a flexibilidade é uma ginástica que só praticam os trabalhadores, que devem estar ainda mais disponível para trabalhar mais horas e assumir mais tarefas.

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PAN: O Partido de Estimação do Capital

Quando o sistema capitalista se sente ameaçado reage. Defende-se. Ataca. Se puder, aniquila o adversário, derruba o obstáculo, impede o seu crescimento. Com inúmeros tentáculos, tantos quantos os seus múltiplos interesses, não é por outro lado expectável que leve ao colo ou seja mansinho face a quem possa minimamente pôr em causa o seu domínio selvático. Vem isto a propósito da completamente desproporcionada atenção mediática que o PAN e o seu congresso tiveram nos media durante os últimos três dias. E a conclusão é simples: o PAN é um partido “de estimação” do sistema, amigável, de ecologia fofinha, que como não belisca interesses instalados tem neles direito a um “colinho” como nunca se viu com partidos ou movimentos ecologistas.

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E: empregador

E: empregador

Ao substituir “patrão” por “empregador”, o capital pretende mais do que esconder o conflito entre as classes e diluir a carga histórica e política das palavras: o principal propósito aqui é mostrar a exploração como uma inevitabilidade económica. “Se os empregadores não criassem empregos, não havia trabalhadores” é a conclusão a que chega quem aceitar este termo.

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D: democracia e ditadura

D: democracia e ditadura

A democracia, na sua raiz etimológica, refere-se simplesmente ao “poder do povo”. Os que, nos dias que correm, usam a palavra como sinónimo de capitalismo não estão interessados no poder, participação e decisão do povo. A sua única preocupação é a legitimação do poder da classe dominante por via de eleições.

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C: colaborador

C: colaborador

Se “trabalhador” quisesse dizer a mesma coisa que “colaborador” não tinham inventado esta última palavra. Não há “código da colaboração”, “horário de colaboração”, “Ministério da Colaboração” nem querem que “colaboremos mais horas” porque não há colaboração nenhuma. Há pessoas que vendem a sua força de trabalho e pessoas que a compram por um valor. Por isso, faz tanto sentido chamar colaborador a um trabalhador como ao cliente de uma loja. Se patrão e trabalhador colaborassem verdadeiramente, os lucros seriam colaborativamente distribuídos.

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B: Bill Gates

B: Bil Gates

Talvez por usarmos os seus produtos todos os dias, a canonização de Bill Gates como paradigma do capitalista empreendedor que merece ser bilionário pode parecer inquestionável. Afinal, se ele criou a Microsoft porque é que a Microsoft não pode ser dele? Mais! Sem a promessa de um dia poder ser muito rico, provavelmente Bill Gates não teria criado nada e ainda estaríamos agora a usar máquinas de escrever.

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