A unidade não é um slogan

Nacional

O sistema capitalista e a sua configuração geopolítica estão em profunda transformação. Esta frase é verdadeira desde que o capitalismo é o modo de produção hegemónico, mas as transformações por que o sistema e os seus centros políticos e económicos passam ao longo dos tempos, pode conhecer momentos de maior convulsão, de maior intensidade e maior turbulência. O momento actual é de profunda crise e apresenta-se como tempo de mudanças à escala global com incertos desfechos.

A crise de sobreprodução aliada a uma crise de sobreacumulação capitalista fazem as dinâmicas da economia convergir para um vórtice de crise estrutural profunda e com consequências planetárias que já se começam a sentir. As perturbações na hegemonia imperialista dos Estados Unidos da América e dos seus principais postos avançados regionais (União Europeia e Japão) resultam da incapacidade do capitalismo de dar resposta às necessidades das populações e de assegurar a progressão no nível de vida dos trabalhadores e do surgimento de novas potências industriais que ameaçam o capitalismo monopolista ou que introduzem novos aspirantes a monopólios numa corrida antes dominada por um só centro de interesses.

Tal como em outros momentos da História, é no limiar das suas crises mais fundas e no despontar das condições subjectivas e objectivas para a sua superação revolucionária, que as classes dominantes se tornam mais agressivas. A repressão, a guerra, a concentração de riqueza e o aumento da exploração, o recurso à eliminação física de grupos sociais ou políticos, são parte de um arsenal que o capital nunca hesita em usar quando a crise económica se torna em crise social ou política. A fascização do Estado, colocando todas as ferramentas do  poder ao serviço dos grupos monopolistas e suprimindo as liberdades individuais e colectivas e abolindo os direitos laborais, colocando na primeira linha do assalto as mulheres trabalhadoras, são um recurso de que a burguesia nunca abdica quando a alternativa é perder o seu domínio sobre os meios de produção, os recursos naturais e a força de trabalho.

Perante a iminência da perda da hegemonia, a burguesia não negoceia as condições de rendição, aumenta a ofensiva e torna-se mais predatória, mais sanguinária e mais violenta. A actual guinada à direita que se sente em vários países da União Europeia, a cavalo de todos os pretextos, visam no essencial assegurar a hegemonia de classe e a submissão dos povos deste continente aos mandos do capitalismo global, cuja geografia da sede, não sendo clara, não é irrelevante.

É neste cenário de crise estrutural do capitalismo que ascendem as ilusões idealistas de direita e a ofensiva ideológica “de direita”, mas é também neste caldo que ressurgem, sob diversas formas “os radicalismos de fachada socialista”. Tanto uns quanto outros, evoluíram nas formas mas mantém os conteúdos, os métodos e os objectivos. A ofensiva ideológica do individualismo, do medo, da divisão, da distração, da obliteração de classe, surge tanto pela direita como pela “esquerda”, com a característica comum de que, uma como a outra gozam da tolerância ou promoção dos meios de comunicação dominantes, da academia subordinada à classe dominante e dos sistemas educativos da burguesia.

É igualmente neste cenário que as classes dominantes e os seus partidos aspiram aos maiores e mais rudes golpes contra o movimento operário e especialmente contra o movimento comunista e seus partidos de classe. A operação de radicalização da linguagem, das propostas e da ação da direita é acompanhada de uma deslocação para a direita de todo o espectro político no plano económico, ainda que pontuado por elementos de progressismo ou aparente progressismo que muitas vezes acaba por redundar no desligamento entre as lutas e as suas causas, tornando-as inócuas, irrelevantes ou contraproducentes. A alimentação da ilusão de que existe um anti-racismo, um feminismo, uma luta pela libertação sexual, que não se radique no grande caudal da luta de classes, desvia a força da luta das massas para um individualismo idealista, desenraizado das relações materiais que provocam as desigualdades e as opressões. Não existem plenos feminismo, nem anti-racismo, nem ecologismo, nem liberdade sexual burgueses, pela simples razão de que não existe um humanismo pleno burguês. Toda a empatia no sistema capitalista é racista, machista, elitista e homofóbica porque essas são expressões estruturais do sistema capitalista. A empatia burguesa para com os seus pares é económica e material, a restante, quando existe, é moral e não deixa de ser selectiva.

Ao mesmo tempo, o surgimento ou ascensão de ameaças – mais ou menos reais de fascismo – convocam as camadas intermédias para a defesa da democracia burguesa e o fetiche da “unidade de esquerda” ganha nova dimensão. É verdade que essa idealização de uma “esquerda unida” é uma velha aspiração de muitos e que cumpre historicamente um papel. Aliás, a unidade foi determinante para vencer o fascismo, quer à escala global, quer à escala nacional, por exemplo. O mesmo não é dizer que o seu papel é imutável, nem que a “unidade de esquerda” é um objectivo em si mesma.

Quando a “unidade” se torna o objectivo em vez de ser o instrumento, os objectivos passarão a definir-se em torno de um “programa mínimo” e a hegemonia da classe operária na direcção dos processos diluir-se-á.

“Lenine elaborou a teoria do desenvolvimento contínuo do processo revolucionário, da transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista, sob condição de que a classe operária tivesse um papel hegemónico na própria revolução democrática-burguesa.”

in Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Álvaro Cunhal, 1971

Não admira portanto que, nos momentos de maior intensidade da ofensiva ideológica à direita, também se tornem mais fortes as expressões de ofensiva ideológica “à esquerda”, assegurando a veiculação das mensagens e objectivos que, não apenas não coloquem em causa o domínio da burguesia, como contribuam para os fortalecer. O enfraquecimento das organizações operárias, sindicais e políticas, sempre mereceu grande empenho de todas as franjas da burguesia, coloquem elas as suas fichas nos partidos de “direita” ou nos ditos de “esquerda”. Seria só estranho que os partidos estivessem unidos numa plataforma eleitoral quando os seus militantes e dirigentes se confrontam no local de trabalho ou de residência, divergem na táctica, na estratégia e nos objectivos diariamente ou “espalham com as patas o que outros juntam com o bico”.

É nesse contexto que devemos interpretar os grandes chamamentos à “unidade” e a fixação das “frentes populares” como slogans, como distrações do essencial. Além de não existirem garantias de que as tácticas frentistas forçadas podem ser úteis no combate ao fascismo em democracia, existem provas contemporâneas dos resultados da organização da táctica política da “esquerda” em função da “ameaça de direita” ou da “ameaça do fascismo”. Vejamos os casos do Brasil, Argentina, EUA e até mesmo Portugal, em que vários partidos da dita “esquerda” estruturam toda a sua intervenção, não na criação dos elementos políticos necessários à ruptura com o decadente sistema capitalista, mas no combate a uma determinada figura através das tácticas do “ele não”. O cimento dessa consigna é areia solta perante a força do capitalismo e dos seus meios e, mesmo que pontualmente triunfe, está condenado ao fracasso sempre que implique a subordinação do movimento operário a outras forças de classe. Está condenado ao fracasso porque nenhuma solução política duradoura se constrói apenas com base na próxima vitória eleitoral e porque nenhuma solução política institucional é duradoura se não responder aos anseios dos trabalhadores no plano nacional e das massas trabalhadoras de todo o mundo.

As amálgamas de “unidade forçada” alimentam a ilusão de que existe um capitalismo suportável, um capitalismo humanizado e que esse capitalismo pode conter o capitalismo mau e desumano. Essa ilusão aprisiona a capacidade de transformação da humanidade, contém a criatividade das massas e situa o debate político, económico e ideológico no redil do pensamento burguês.

O antifascismo far-se-á de pontes, de unidade, de construções conjuntas, sem dúvida. Mas de pontes que tenham um encontro no presente e outro num futuro de garantia do desenvolvimento económico ao serviço de todos, de concretização das nacionalizações, da reforma agrária, de libertação de imposições imperialistas, de confronto com o domínio do capital estrangeiro e com a subordinação à União Europeia e de construção de uma sociedade socialista. Pontes que prometam apenas manter-nos no lodaçal e que subordinem posições avançadas ao politicamente aceite na “esquerda de direita” ou na “esquerda imperialista” não são pontes, são farsas condenadas a desbaratar a esperança e a confiança dos trabalhadores nas areias movediças do capitalismo.

O combate ao fascismo far-se-á de pontes construídas nas ruas, nas empresas, nas fábricas, nas pontes inquebráveis dos trabalhadores de braços dados, elidindo o fetichismo da “unidade institucional” e colocando o objectivo na unidade dos trabalhadores, na unidade em torno dos interesses comuns das massas e das suas posições mais avançadas. A ideia de que a “unidade de esquerda” é feita com partidos ou com frentes não está errada em si mesma, mas desligada da realidade concreta, das lutas do dia-a-dia, das dinâmicas de cada grupo social, de cada classe e de cada forma de exploração redunda na diluição das posições revolucionárias, na neutralização da força transformadora do projecto comunista e na bipolarização ideológica e partidária entre duas versões do mesmo capitalismo.

Se para combater o fascismo é preciso tirar os comunistas do boletim de voto, os primeiros a tombar não serão os fascistas.