Todos os artigos: Nacional

Do Ribeiro ambiental ao esgoto a céu aberto

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, vieram a público alguns especialistas instantâneos em diversas áreas: relações internacionais, geopolítica, geoestratégia, história, resolução de conflitos, estratégia militar, entre outros. E não estou a falar dos comentadores residentes nos diversos media, os tudólogos, que tanto têm opinião e sabedoria para disseminar sobre política internacional ou o melhor esquema tático do Benfica, a morte da rainha de Inglaterra ou a localização do novo aeroporto de Lisboa. Esta sabedoria, de quem veio ao mundo para nos iluminar, aos comuns mortais, é sancionada pelos jornalistas que os acompanham, sem que exerçam o seu dever de contraditório que, de tempos a tempos e dependendo dos convidados, exercem com veemência.

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Tornar-se imortal e, depois, morrer: homenagem a Godard

No filme À bout de souffle, Jean Seberg, na pele de uma jornalista, pergunta ao escritor famoso encarnado por Jean-Pierre Melville qual é a sua maior ambição na vida. Este tira os óculos escuros e a sua resposta é já proverbial: devenir immortel, et puis, mourir. Tornar-se imortal e, depois, morrer. Na eventualidade de Jean-Luc Godard ter ambicionado o mesmo, é seguro dizer agora que se alguém o conseguiu, em 91 anos de vida e 63 de cinema, foi o próprio, teimoso como a obra que deixa, bela como um decreto de expropriação

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Em memória de Wiriyamu

Na passada sexta-feira o primeiro-ministro, de visita a Moçambique, fez um pedido de desculpas pelo Massacre de Wiriyamu. Foi o quebrar da nossa versão do “Pacto del Olvido”, e afronta uma série de gente. Durante décadas o Massacre de Wiriyamu (entre outros) foi olimpicamente ignorado. Mas aconteceu.

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Assim se faz um pobre

Com cara fechada sobre uma solenidade que denuncia o compromisso umbilical e político com os senhores da alta finança, lançou assim António Costa, nossa nova Dona Abastança, o anúncio de várias medidas paliativas que passam certidão de óbito a qualquer laivo de socialismo desta maioria parlamentar.

Numa altura em que se percebe que a inflação e a carestia de vida só paulatinamente voltarão a valores considerados dentro da normalidade, cenário confirmado por Mário Centeno, governador do Banco de Portugal e ex-ministro das finanças de António Costa, as medidas anunciadas pelo governo, de carácter extraordinário e temporário, não configuram um conjunto de soluções e respostas ao que enfrentam o povo e os trabalhadores portugueses. De facto, o anúncio resulta, em larga medida e em boa análise, num financiamento dos lucros do grande capital e dos sectores estratégicos, nomeadamente os energéticos e agro-alimentares, através do erário público, subsidiando de forma extraordinária o poder de compra dos trabalhadores, mantendo intocável a posição de privilégio económico e fiscal destes grupos.

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(In)consciência de Classe para Gente com Pressa

O português sai de casa e vai comprar o combustível mais caro que alguma vez já comprou à GALP, e pelo caminho ouve na rádio que a mesma GALP acaba de apresentar lucros de 420 milhões de €, uma subida de 153% face ao período homólogo. Depois vai ao Pingo Doce e constata que, do pão à escova de dentes, está tudo muito mais caro, e de passagem lê na banca dos jornais que a dona do mesmo Pingo Doce (Jerónimo Martins) acaba de apresentar lucros de 261 milhões, uma subida de 40% face ao período homólogo. Ao almoço, usa o cartão de refeição Edenred para pagar uma refeição diária, que já aumentou duas vezes no espaço de um ano, e vê no rodapé do telejornal que essa mesma Edenred tivera proveitos de 170 milhões, uma subida de 28%. Depois passa numa papelaria para comprar uma resma de papel para os trabalhos do filho e vê na banca que a Navigator somou lucros de 162 milhões de euros, mais 151% do que no mesmo período do ano passado. Em seguida, pega no telemóvel e lê uma mensagem de alerta de fim de plafond de dados móveis, e ouve na rádio que a NOS lucrou 85 milhões e a Sonaecom 48, que representam subidas de 16 e 20% respectivamente.

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Para lá do arco-íris – a Luta é dos trabalhadores

Passado o mês de Junho, as calçadas ainda encrostadas de glitter puído, voltam as empresas à costumeira exploração a preto e branco.

Junho recebe o cognome de “mês do orgulho LGBTQIA+” em honra das manifestações de Stonewall ocorridas em Junho de 1969 nos EUA. Stonewall Inn, um bar nova-iorquino, era sujeito a constantes rusgas policiais e, na noite de 28 de Junho, alguém parece ter dito “não” através do arremesso de um tijolo ao corpo policial, desencadeando uma resistência em massa. O mito diz-nos que o tijolo iniciático foi propelido pela mão de uma mulher transsexual; a realidade não lhe acompanha o glamour pós-moderno: nem era Marsha P. Johnson uma mulher trans (havendo-se considerado sempre, a si próprio, um homem gay que se tranvestia), nem foi dele que partiu o ataque desencadeador da revolta. O mito serve décadas de apagamento da luta histórica, de importante impacto social e político, de mulheres lésbicas da classe trabalhadora, votando Stormé DeLarverie e um soco muito bem arremessado a um polícia ao infeliz esquecimento.

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Proxenetas aqui nunca!

Regressámos, muito recentemente, às tentativas de fazer passar a legalização do lenocínio como se da garantia de mais direitos às pessoas prostituídas se tratasse. Passam pela televisão, ouvem-se na Assembleia da República e reproduzem-se, um pouco por todos os espaços digitais, discursos de empoderamento, feminismo, direitos humanos e liberdade de escolha – como se a prostituição fosse isto tudo. Liberdade.

Posicionam-se, mais uma vez, vozes contra quem defende que a prostituição é uma forma grave de violência contra as mulheres, chamando-nos de puritanas. Juntam-se conceitos diversos e baralham-se para que, no fim da discussão, fique mesmo tudo fora do lugar.

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Quo Vadis, Europa?

42 mortos, centenas de feridos e o silêncio absoluto.

É este o resultado da cooperação securitária entre as monarquias facínoras de Espanha e Marrocos que à porta do enclave de Melilla concretizaram em sangue e vida imigrante as políticas da União Europeia. Um episódio mais a juntar à crise humanitária do caldo de carne do Mediterrâneo e à infame e mortífera colaboração entre Espanha e Marrocos no que toca a dar fim a quem por intervenção directa e indirecta do imperialismo procura dar um sentido de dignidade à vida.

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