Autor: Simão Correia Bento

Histórias que a Cidade não conta

Para Orquídea era o morto que partia, só ele; e cá em baixo a vida persistia, mas uma vida dissoluta, de madrugada sem forças, (…) A vida tornava-se àquela hora quase intransitável, uma comédia tão torpe, uma beberagem tão repulsiva…

Urbano Tavares Rodrigues in Aves da Madrugada

A cidade de Lisboa, tal como outra qualquer, é um organismo vivo, é uma peça de teatro intempestiva, é um constante improviso que se conjuga numa harmonia que estranhamente flui e faz mexer cada órgão.

Infelizmente, o neoliberalismo, ideologia dominante na Europa, fomentador do individualismo desenfreado, tem tentado impor a ideia da cidade enquanto a forja de mais riqueza para o capital que, por via do trabalho, açambarca a mais-valia de quem todos os dias sai do seu “dormitório” para trabalhar. Aos olhos de hoje, a cidade, em que Lisboa é o exemplo perfeito, não é mais um organismo. É sim, um conjunto de operações de loteamento individuais que, graças à mão imaginária do mercado, se acaba por conjugar e fazer uma cidade. Nada mais é do que um somatório de edifícios e equipamentos que, se magicamente corresponderem a determinados critérios, poderá eventualmente ser considerada uma cidade. Não é um sítio para se viver, nem para se trabalhar. É um sítio para se dormir, com ou sem teto, com ou sem saneamento ou condições. É sobretudo um espaço de aprofundamento das desigualdades e da exploração.

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Ambiente, Classe e Transformação

Refletir seriamente sobre a situação ambiental atual requer, obrigatoriamente, uma análise materialista e dialética da realidade, como aliás Engels prova no seu livro “A Dialética da Natureza”. Esta é uma condição absolutamente necessária pois, se da simbiótica e destrutiva relação entre sociedade e ambiente chegámos à condição do dia de hoje, é, também, através desta que superaremos os problemas que têm vindo a degradar o meio ambiente. Essa superação passa inevitavelmente pela libertação das amarras do sistema capitalista e pela construção do ser humano novo, livre, dono do seu destino e em profundo equilíbrio e respeito com o próximo e com o planeta. É a partir desta premissa que o ser humano tem de trilhar o caminho para a sua emancipação. Na ciência, surgem desde logo pistas para forjarmos o nosso caminho: o princípio de Le Chatelier. A vida é uma equação química de múltiplos reagentes e produtos, resta-nos, portanto, pela força do trabalho e da unidade encontrar o equilíbrio entre as forças produtivas, as necessidades da revolução que está por vir e o planeta, que nos oferece finitos, mas úteis, recursos.

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