mil vezes abril

Nacional

Em 2022, o CDS desapareceu do parlamento português e só foi ressuscitado pela necessária bondade de um PSD perdido, querendo estender a mão à direita mais reaccionária e retrógrada, mas sabendo que isso lhe custaria votos. Não se ouviram nem leram, por essa altura, tantos cântigos fúnebres como os que ouvem os comunistas desde a sua fundação.

A extinção eleitoral do CDS, não apenas não mereceu dos donos disto tudo e seus papagaios a exaltada e estafada celebração da decadência eleitoral e o anúncio de morte, como lhes assegurou a continuidade da sua presença em diversos órgãos de comunicação social, com honras de comentadores em horário nobre, sem direito a contraditório, sem questionamento, levando para casa os seus milhares de euros para regurgitarem o volutabro que nos pretendem enfiar pelas cabeças abaixo. Nunca houve hora da morte nem certidão de óbito para o cadáver mais evidente da democracia portuguesa, pelo contrário, houve dois anos de custosa e penosa reanimação. Já o PCP, ainda o muro de Berlim não havia caído e tinha a sua morte traçada e decidida.


A inexorável morte do PCP, que traduziria o triunfo dos capitalistas que usam o nosso país como mais um dos seus quintais, é decidida nos conselhos de administração das cotadas em bolsa, da banca, nas mais altas instâncias da União Europeria, nas redacções dos jornais, rádios e tvs, mas isso ainda não a tornou realidade. Sabemos que eles estão habituados a decidir tudo: que decidem para que lado sopram os ventos da chamada “esquerda” e da chamada “direita”, que decidem o que diz cada partido, que decidem quando um se extingue e outro se acende. Nós sabemos que a comunicação social dominante, às ordens dos que lhes pagam os anúncios publicitários e dos que lhe capturaram a função por lhe deterem o capital social, tem a capacidade de destruir personalidades, de criar novas e inquestionáveis personalidades de reputada capacidade de mastigar opiniões para no-las dar já macias, semi-digeridas. Também sabemos que a comunicação social tem a capacidade de determinar quanto tempo, com que tom, com que cor e qualidade de imagem, tem cada agente económico, cada marca, cada partido, cada evento político ou social e que, com isso, influencia o conhecimento e opinião que cada um de nós tem sobre a nossa envolvente social, cultural, política e económica.

As administrações dos grupos económicos, os grandes accionistas, os monopólios e seus partidos decidem a duração dos contratos dos seus trabalhadores, ou mesmo a ausência de contratação; decidem o horário e decidem se o trabalhador tem direito ou não a ver os seus filhos; decidem quanto o trabalhador leva para casa e decidem quanto querem pagar de impostos; os grupos económicos decidem quanto dinheiro dão a cada partido; quantas horas de televisão vai ter cada líder partidário; decidem em quem bate a polícia; a taxa de juro; o custo da habitação; quem vive na periferia e quem vive na metrópole; quem cá trabalha legalmente e quem cá trabalha ilegalmente; decide quem condenam os tribunais; decide se a guerra é boa ou má; o valor de uma vida negra, de uma criança árabe ou de milionários enlatados no fundo do mar; e por isso se compreende que estejam habituados a que os seus desejos sejam profecias autorrealizáveis. O capitalismo faz navegação à vista no imediato, mas planifica bem a gestão do longo-prazo e tem a elite académica, os intelectuais orgânicos de um extremo ao outro do espectro dominante, do wokismo ao neo-fascismo, dispõe de uma capacidade criativa capaz de torcer temporariamente até algumas regras do seu próprio funcionamento e dispõe de um aparelho global de destruição militar que influencia determinantemente a divisão internacional do trabalho.

Podendo contorcer-se nas suas próprias regras, o que o capitalismo não pode contornar, contudo, são as leis da história. As leis que regem o movimento histórico, com fluxos e refluxos, com acelerações e desacelerações, são um substrato universal em que até o mais poderoso império é forçado a viver.
Declarada que está há décadas a morte do comunismo e, em Portugal, do Partido Comunista Português, essa profecia nunca será cumprida na medida em que, existindo um sistema de exploração, nada pode impedir o alargamento em número da classe de explorados e o aumento do seu poder real. Mesmo uma eventual extinção de um partido operário não significará em momento algum a extinção da força da classe que o criou, porque essa força material é crescente, independentemente de ser consciente. Estando cada vez mais consolidadas as condições objectivas para uma revolução, o capital aposta na desmobilização das condições subjectivas, numa dialética de forças que é uma batalha constante, em cada lugar de trabalho, em cada rua, em cada cidade.

O êxtase com que todos os quadrantes de comentadores e quase todos os partidos, mais ou menos assumidamente, festejam o resultado negativo da CDU e do PCP nas eleições portuguesas de 2024 é a celebração indisfarçável dos que anunciam o colapso das ideias revolucionárias e do PCP, dos mesmos que focam nas forças mais reaccionárias a sua atenção, seja ela por simpatia ou por simulacro de apaixonado combate.

Não é nosso papel, nem isso nos aproveitaria, bater no peito afirmando ter orgulho nos nossos erros. Mas também não é nosso papel interiorizar todas as responsabilidades em torno de resultados eleitorais ou organizacionais que não vão ao encontro das nossas legítimas e justas expectativas. Do que o povo e os trabalhadores precisam, agora mais do que nunca ao longo das últimas décadas, é de uma linha política de afirmação de um caminho novo, claro e inequívoco, que centre na capacidade criativa das massas populares, na sua capacidade de gestão e resolução dos seus próprios problemas, o rumo para a ruptura com o lodaçal em que a grande burguesia tem afundado o país, sacrificando os trabalhadores, os jovens, as mulheres e os reformados.

Terá, porventura, existido uma compreensão de que o PCP e a CDU disputavam um lugar de influência sobre o PS, quando esse não é o campeonato em que jogam estas forças: estão no parlamento e nas ruas para levar a voz dos trabalhadores a todos os cantos da democracia e para construir uma alternativa política que não se constrói de remendos, mas de rupturas. Não se candidataram para ser voz da consciência de um PS decrépito e degradado, comprometido com novembro e os grupos económicos até à medula, mas para criar as condições necessárias para o fim da alternância entre os partidos que estão ao serviço da grande burguesia. Claro que não desperdiçarão, e nem podiam, neenhuma oportunidade para melhorar as vidas dos que aqui vivem e trabalham, mas o seu projecto é de grande fôlego e não se contém em “programas mínimos”. 

Do que precisamos é de clarificar o que nos divide, o que nos distingue, evitando a tibieza e a flagelação, de cara erguida com a certeza de que cada um de nós dará tudo o que tem pela liberdade, pela democracia e pelo progresso. Dissipar as dúvidas criadas pelas novas nuvens de confusão lançadas sobre o que significa ser “de esquerda” ou “de direita”, clarificar que a verdadeira distinção se coloca entre os que se posicionam do lado do trabalho e os que se põem do lado do capital, entre os revolucionários e os conservadores, os que pretendem ultrapassar o actual modo de produção e os que pretendem mantê-lo às custas da exploração do trabalho, do sangue das guerras, da submissão do neocolonialismo e da destruição do planeta e exaustão dos seus recursos.

Mais do que nunca é preciso distinguir o que define o projecto revolucionário e concretizar as linhas de objectivos imediatos, concretizáveis e alcançáveis à escala da vida dos trabalhadores de hoje: romper com a submissão à classe dominante organizada em União Europeia, abandonar a subordinação à grande burguesia nacional e internacional que esmaga os trabalhadores e parte significativa da pequena-burguesia, assumir a nacionalização dos sectores estratégicos da economia como primeiro passo para qualquer ruptura real, e acertar o passo com 1974, sem ignorar que a revolução ficou inacabada, o que significa que deve ser terminada.

Abril vive nos corações dos portugueses, da juventude, dos trabalhadores, dos homens e mulheres que aqui vivem, incluindo dos 70% dos portugueses que tinham menos de 5 anos ou ainda não eram nascidos porque muitas das conquistas ainda vivem na nossa realidade. Mas isso não significa que necessariamente viva com esse nome (muitos sentem Abril e não lhe sabem o nome): ir ao concreto, avaliando e estudando o passado, olhos postos no futuro, ultrapassar a incompreensão e, nos cinquenta anos da revolução, mais do que dizer mil vezes Abril, afirmar como objectivos a recuperação da força dos trabalhadores na política, a participação directa dos trabalhadores na gestão das empresas e do estado e a colocação do estado e dos seus instrumentos ao serviço do povo e do país. As formas para atingir mais organização e mais luta – que são as mesmas, interdependentes e interpenetrantes – são bem conhecidas dos que lutam num colectivo supra-centenário: organizar para lutar e organizar na luta em torno da questão salarial, dos problemas da juventude, pelos serviços públicos e pela cultura, pelo ambiente e pela produção nacional, pela habitação e pela paz.

Por mais voltas que demos, a pandemia e a guerra intercapitalista na Ucrânia, demonstram como os adversários dos trabalhadores aproveitam e aproveitarão cada oportunidade para corroer o mais forte instrumento político da sua classe, pelo que nada, como sempre soubemos, substitui o contacto directo, a organização no local de trabalho, a penetração nos bairros e nas comunidades, a chamada das margens para o trabalho unitário, alargando o caudal de descontentamento organizado. Além de ser o único caminho para o fortalecimento da resposta de massas e o único para vencer os obstáculos comunicativos, é a mais poderosa força contra os projectos mais reaccionários e saudosistas que acolhem a simpatia da comunicação social e do capital. Independentemente dos resultados eleitorais, que pretendemos os melhores e mais correspondentes ao esforço real que se faz, é impossível destruir um projecto cujo trabalho é uma extensão das aspirações e anseios das massas trabalhadoras. É preciso garantir que o é. 

3 Comments

  • António Machado

    30 Março, 2024 às

    Avante!

  • Clemente Alves

    28 Março, 2024 às

    Ao trabalho, ao esclarecimento cara a cara, à luta braço a braço, ao avanço !

  • Clara Santana Rita

    26 Março, 2024 às

    Uma análise realizada com objectividade e consciência política. Um alerta para todos os que necessitam de informações assentes em bases sólidas e democráticas contra a invasão da liberdade de expressão.

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