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A Caravana

Nas últimas semanas, chegou-nos aos olhos e aos ouvidos a história de uma caravana de milhares de emigrantes partidos das Honduras rumo aos EUA. A forma como a história é tratada deveria fazer pensar todos os que estão envolvidos no jornalismo. A começar pelos próprios. O que fica da informação que é dada é que, de repente, milhares de pessoas decidiram partir das Honduras, a pé, atravessar o México e tentar entrar nos EUA em busca de uma vida melhor. Não me recordo – e a caixa de comentários está aí para quem quiser fazer o favor de me corrigir, o que agradeço – de ver nestas peças os motivos que levam milhares de pessoas a abandonar o seu país, a pé, percorrerem centenas de quilómetros e tentarem entrar num país em que, à partida, sabem que serão barrados.

Um olhar para esta caravana sem ter em conta os desenvolvimentos de 2009, quando Zelaya foi deposto à boa maneira dos anos 60 na América Latina, inclusivamente levado para uma base militar dos EUA no país, é abrir caminho às teorias da invasão de migrantes, ao populismo, ao alarmismo e à aceitação do fecho de fronteiras neste como noutros casos. Nesta entrevista do ex-presidente hondurenho ao portal Sputnik, é abordado, ainda que de forma superficial, algo inegável: Foi o momento em que se iniciou uma viragem à direita nas Américas, no retorno generalizado daquele meio continente ao bordel dos EUA do século passado. Nenhum jornal, rádio ou tv se lembrou de recordar o dia 9 de Junho, quando passaram nove anos daquele golpe. A Telesur fê-lo.

Eleições em 2017 e um enorme 21
A 26 de Novembro de 2017, tiveram lugar eleições que opuseram o conservador Juán Orlando Hernández, oligarca acusado de vários casos de corrupção e do partido no poder desde 2009, a Salvador Nasralla, candidato da oposição democrática. No dia seguinte às eleições, com 60% dos votos apurados, Nasralla seguia à frente na votação com uma margem de 5%. Dois dias depois, depois de um apagão nos dados e alegados problemas técnicos, o Supremo Tribunal Eleitoral dava Orlando Hernández em vantagem. Vantagem essa que viria a ser confirmada 21 dias depois. Vinte e um dias depois. Os resultados oficiais deram 42,95% ao presidente em exercício e 41,42% a Nasralla. Ao fim de 21 dias.

Protestos, mortos, estado de exceção
No tempo que mediou a eleição e a divulgação dos resultados, o povo saiu às ruas e tiveram lugar protestos que culminaram em mortos, feridos e ao apelo da ONU pelos direitos humanos, como podemos ver nesta notícia do Público, igual à do JN, de 2 de Dezembro de 2017. Antes disto, no caso do Público, apenas por uma vez se aflorou o tema Honduras, a 30 de Novembro; já o JN pegou no assunto por três vezes, nos dias 18 de Dezembro, 27 de Dezembro e 7 de Janeiro. Foram estas as notícias que encontrei após pesquisar nos dois jornais. As referências a Zelaya surgem apenas de forma lateral como um membro da candidatura, omitindo, propositadamente ou não, que foi deposto em 2009 após um golpe militar.

Silêncio
No dia 15 de Dezembro de 2017, o PCP emite uma nota de imprensa sobre a situação das Honduras, manifestando solidariedade com as forças democráticas. Nos media portugueses, nem uma linha. No mesmo espaço de temporal entre as eleições e as notícias dos jornais lusos, temos, no portal AbrilAbril, seis entradas com o mesmo assunto (aqui, aqui – onde se aborda uma significativa greve de polícias -, aqui, aqui e aqui. Deixo para o fim esta entrada. Aqui, o AbrilAbril faz o que nenhum órgão de informação tradicional foi capaz de fazer. Cruza fontes, cita jornais hondurenhos e de outros países da região, deixa ligações para páginas de ativistas e organizações.

A Caravana que foge de tudo
Por tudo isto, é responsabilidade dos media, se quiserem recuperar a credibilidade perdida, mais do que dar as notícias, enquadrá-las, explicá-las, desmontá-las e ir mais além. O povo hondurenho foge de tudo o que aconteceu depois de 2009. Da violência, da corrupção, da fome, dos assassinatos. Peguemos, por exemplo, no relatório da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura –, que deu origem a esta notícia da Lusa replicada pelo DN, onde podem ler-se as brilhantes frases: “A Venezuela é o país da América Latina com maior número de pessoas subalimentadas, 3,7 milhões de cidadãos, segundo dados divulgados hoje pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO)”, para, mais à frente, afirmar que “Segundo o relatório, o Haiti tem cinco milhões de pessoas subalimentadas (45,7% da população)”. Ou seja, na contabilidade da Lusa, que o DN copia e cola sem critério, 3,7 milhões são mais do que cinco milhões. Regressando às Honduras, o relatório, disponível online para quem quiser ler, diz, por exemplo, que os casos de desnutrição crónica afetam mais de 25% das crianças, sendo o terceiro país com a maior taxa, superado apenas pela Guatemala e pelo Equador.

Tempos
O tempo das notícias não pode ser o tempo das redes sociais, dos cliques, das visualizações. Da espera por uma foto chocante da Caravana que se torne viral. É preciso entender, explicar. É preciso jornalismo. A forma como este e outros temas são tratados são ignição para o que está a acontecer no Mundo. Um filme repetido que todos já vimos mas, parece, ninguém se importa de rever.

Por fim, deixo este texto de José Goulão, jornalista, que enquadra na perfeição a situação na América Latina e faz aquilo que mais ninguém, até agora, fez. Jornalismo.

Uma antiga aliança

O que se passa no Brasil com Bolsonaro, nos EUA com Trump, na Hungria e Itália com governos e governantes fascistas, é tudo reflexo contemporâneo de uma aliança já antiga. Nada de novo. Fascismo e capital, capital e fascismo. Nenhum desses actores subiu ao estrelato sem patrocínio, sem alavancas financeiras colossais. Nenhum deles ganhou prestígio por via de brilhantes curriculums académicos, muito pelo contrário. Ora, acontece que fascismo, capitalismo, imperialismo não se combatem com contra-correntes do género “EleNão”. Com essas e outras iniciativas, pode o fascismo bem.

O que é necessário é organizar, resistir, politizar, tomar partido e avançar. É necessário derrubar, sim, mas construindo. E se o “EleNão” dá uma possível resposta imediata ao derrubar, já o mesmo não ocorre em relação ao que virá depois. Nesse caso, depois da queda, estará um gigantesco ponto de interrogação, que pode, no limite, ser a porta para uma ameaça ainda maior, e a urgência dos tempos ensina-nos que não há grande tempo para perguntas. O fascismo sabe recompor-se e fá-lo rápido. A prova é que, depois do fim de Hitler, Franco, Salazar ou Mussolini, ele está aí. Em todo o lado.

Direita ponto net

Por estes dias temos lido uma curiosa, impressionante – mas não pouco adivinhável – sintonia a respeito da situação social e política na Venezuela. Confesso que cheguei a confundir textos do Expresso ou do Observador com os que ultimamente têm aparecido no portal Esquerda.net. A determinada altura, já não sabia se estava a ler Henrique Raposo ou Duarte Marques no Esquerda.net, se estava a ler Mariana Mortágua ou Luís Leiria no Expresso ou no Observador. Só não confundi os últimos artigos do portal do Bloco com os publicados por articulistas de “Povo Livre” ou de “O Diabo”, porque é muito pouco provável que tenha lido ultimamente o que quer que seja destes últimos, nem de passagem ou por distracção. Que o Esquerda.net se tenha tornado, por exemplo, num multifacetado arraial de arrependidos, às piruetas em assuntos internacionais e com vergonha de escrever Syriza ou Tspiras, até se admite. Que chegue ao ponto de se confundir com o argumentário mais rançoso e anti-democrático da direita mais mesquinha e reaccionária, até para o Bloco já me parece um exagero.

A verdade é que quem lê passagens como “a Assembleia Constituinte não será eleita, nem respeitará o parlamento, nem os partidos”, que a votação na qual participaram 8 milhões de cidadãos é “uma ameaça à democracia”, ou que a mesma “usou mecanismos de trapaça”, contrariamente ao que dizem observadores externos, fica sem saber onde veio mesmo parar. É que o nome do portal engana os desavisados. E não é de agora. E o ódio latente com que os responsáveis do BE se referem a um governo democraticamente eleito como o da Venezuela, diz muito acerca das suas verdadeiras motivações e do seu posicionamento ideológico.

Muitos foram, nas últimas décadas, os governos de países da América Latina a merecerem ódios de especial fervor. Um fervor proporcional ao seu grito de revolta contra as amarras imperialistas de quem, num passado recente, patrocinou golpes, semeou o caos e a miséria em toda aquela região. Não ter apreço por este ou aquele líder, por esta ou aquela personalidade, é uma questão menor. Debater vias e processos, causas e consequências, faz parte da dialéctica. Não ter memória, não ter consciência e, sobretudo, reagir publicamente ao som do ruído capitalista e com autênticos assomos de raiva ao pior estilo caceteiro e pinochetista, já me parece muitíssimo mais grave.

A pós-verdade da Venezuela

Quando se vive – isto é, quando se forma opinião – sobretudo a partir de artigos do Observador, do Expresso ou do Público – quando não apenas dos títulos – é-se “apanhado” muito facilmente naquilo a que tecnicamente se chama “fazer figura de parvo”. É o que muito tem acontecido a quem, por estes dias, tem levantado especiais brados pelo “caos” na Venezuela e se enche dos sentimentos de “pena” e “piedosa comoção” pelo povo do país. É aquele travozinho burguês, chique, enjoativo, quando não de nojo, que tão bem conhecemos, de gente que “acha mal” que a oligarquia corrupta da Venezuela não possa voltar ao seu glorioso passado de muito “progresso” e “prosperidade”, na sempre eterna “esperança” de um belo dia do horizonte “criar muitos empregos” para aqueles “pobrezinhos descalços”.

A verdade é que até aqui, enquanto a dupla EUA/oligarquia interna andou a minar e a atacar sem tréguas a constitucionalidade, a perturbar a paz social, a alimentar a violência, a sabotar a economia e a conspirar internacionalmente contra o próprio país, ninguém teve qualquer especial “pena” do povo venezuelano. Enquanto o caos andou a ser semeado e instado tanto interna como externamente, com consequências directas no degradar das condições de vida do povo, ninguém apareceu a defender a “democracia” nem desatou a insultar os seus principais mentores. Aliás, o “assunto Venezuela” nunca era tema de debate, sobretudo quando o governo bolivariano erradicava o analfabetismo, ou promovia a saúde pública, a educação e a cultura como nunca antes na História do país.

Mas agora, que certa comunicação social portuguesa, paga bem sabemos nós por quem e para quê, coloca títulos e artigos a preceito sobre um propalado “apocalipse” em curso, fica dado o toque de midas para a “comoção” geral. E “comoção” de quem? Sobretudo daqueles que estão sempre à espreita de um qualquer arranjozinho “jornalístico” que permita dar a sempre tão saborosa – e revanchista, reaccionária – bicadazinha ao PCP. Título a preceito, fotografia do Jerónimo, bandeiras vermelhas, um “caos” como hipérbole, a ligação desejada e pronto, está o ramalhete composto. Enfim, como se diz na minha terra, quem não os conhecer que os compre.

O futuro do Brasil não passa pelo Parlamento

Não houve como não parodiar e rir com as desgraçadas intervenções e justificações dos deputados brasileiros na famigerada votação do «impeachment». «Impeachment», diga-se, cujo verdadeiro equivalente de sentido é – convém memorizar – «golpada». E se algum dia lhe disserem o contrário não acredite, é mentira. Palavra de tradutor/intérprete.

Tudo aquilo naquela tarde/noite roçou o irreal, o ridículo. O problema é que o ridículo, no Brasil como noutras partes do globo, pode de facto ser muito perigoso. Sobretudo se tivermos a noção de que passa também por aquele leque de “decisores políticos” muito da vida de um dos países mais populosos do mundo. País esse onde grassa ainda uma grande disparidade social e económica, uma sociedade de alguns ricos e de muitos muitos milhões de pobres.

O destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso

Importa, contudo, ter bem presente – é a História que no-lo ensina – que da mesma forma que o capital não respeita barreiras de formalismos e legalidades na sua acção monopolista e destruidora, o que faz abolindo ou contornando tais “minúcias”, também não há – não pode haver! – obstáculos formais ou legalistas que não possam ser derrubados quando estão em causa questões fundamentais como a democracia, o respeito pela vontade popular, a liberdade.

Importa assim reforçar a ideia de que quanto a esses pilares fundamentais, seja na América do Sul, na Europa ou noutras latitudes onde impere uma organização fundamentalmente burguesa de Estado, o destino do Brasil não se decide nem se decidirá em sessão parlamentar. Na Câmara de Deputados decide-se uma votação, uma mera formalidade. Já o destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso.

Neste caso concreto, a solução terá que passar necessariamente por uma de duas vias: ou o povo luta nas ruas – em todo o lado – de forma firme e organizada – e é bom lembrar que o capital também se organiza e se organiza bem – contra este movimento reaccionário de uma direita corrupta e a soldo dos grandes interesses, ou então o povo – a vítima – será cúmplice e espectador manso da tomada de poder da grande oligarquia financeira nacional e internacional – hoje com mais vigor que no passado –, que há muito anseia pelo saque e controlo total das riquezas e potencialidades económicas do país.

Ao sabor da brisa mediática

Até hoje, nas suas relações internacionais, jamais o BE havia tido um governo de um partido que coincidisse com a sua linha política. Timidamente e muito pontualmente, mostrou-se solidário com alguns governos que na América Latina avançavam com políticas progressistas. Nunca vimos este partido organizar actos contra o golpe na Venezuela, Equador ou Bolívia. Com Cuba jamais mostrou o mais pequeno gesto de empatia e não se sabe qual é a sua posição sobre o bloqueio contra a pátria de José Martí.

Nas suas posições sobre questões internacionais, o BE preferiu quase sempre deslizar ao sabor das marés imposta pelo mediatismo. Desde considerar simpática a candidatura de Barack Obama e de François Hollande, a não ter qualquer posição crítica sobre as manifestações em Kiev que levaram o fascismo ao poder com a consequente ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e a guerra contra a insurreição no Leste do país. Sobre a Líbia, é sobejamente conhecido o papel que tiveram os eurodeputados do BE na resolução que abriu as portas à agressão que conduziu aquele país à Idade Média e à brutalização das mulheres.

As críticas e o mal-estar gerado mudaram a sua postura em relação à Síria. Não apelou a uma intervenção externa e moderou o seu discurso em relação ao governo de Bashar al-Assad mas pouco ou nada ouvimos sobre o que pensa dos supostos rebeldes financiados e treinados pelos Estados Unidos, União Europeia, Turquia e Arábia Saudita. Entrevistou, há dias, em Lisboa, ao lado de um monumento com a estrela de David, uma investigadora síria que defende o derrube de Bashar al-Assad.

É curioso, pois, que quando chega ao poder, pela primeira vez, um partido da mesma família política do BE, se dá uma das maiores traições à esquerda das últimas décadas na Europa. O BE tinha apoiado e feito campanha pelo Syriza mas quando chegou ao governo e rasgou tudo o que havia prometido os portugueses tiveram de se retratar. Vários dirigentes que antes eram amigos de Alexis Tsipras fingiam distanciar-se. Os dirigentes do BE sentiram-se obrigados, por diversas vezes, a desmarcar-se das decisões políticas do Syriza mas, na verdade, nunca deixaram de estar ao lado do Syriza.

Esta semana, Marisa Matias voltou à Grécia para um encontro do Partido da Esquerda Europeia onde esteve presente o mesmo Alexis Tsipras que nos dias anteriores havia estado como observador num encontro dos socialistas europeus. O mesmo que aperta a mão ao genocida Nethanyau enquanto firma acordos com Israel. Uma vez mais, as palavras dizem uma coisa, as acções mostram outra. Foi assinado um documento conjunto contra a expulsão de refugiados da União Europeia ao mesmo tempo que Tsipras encabeça um dos governos que pede a deportação rápida de milhares de pessoas que fogem da guerra.

É certo que o BE não tem culpa pelo que decide ou não o Syriza mas este é o mesmo partido que tentou por diversas vezes obrigar o PCP a condenar o regime angolano. Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável.

Quando saltou o tema de Luaty Beirão para as manchetes dos jornais portugueses, o BE tentou aproveitar-se do caso e chegou a acusar uma vez mais o PCP de não estar à altura dos acontecimentos mesmo quando os comunistas haviam apresentados moções em defesa da salvaguarda dos direitos dos vários grevistas de fome. Sabendo que é forte a empatia ideológica entre o BE e o Syriza, a relação de proximidade de anos, os comícios conjuntos tanto na Grécia como em Portugal, a solidariedade mútua durante as campanhas eleitorais, sabendo de tudo isso, quando é que o BE vai condenar o regime grego pela expulsão de milhares de refugiados para a Turquia?