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No primeiro de Abril, a verdade e a mentira.

Democratas ucranianos após a vitória no golpe

O PCP trai os seus princípios de sempre e quebra uma das suas mais importantes e conhecidas qualidades: a coerência. Ao contrário do que fez com outros movimentos e países, nomeadamente no que toca a manifestações espontâneas que surgem como “apartidárias” e promovidas por “jovens” sem intenções políticas além das de lutar pela democratização de regimes autoritários, o PC alinhou desta vez com a postura, a que até aqui vem qualificando como oportunista, típica do Bloco de Esquerda em Portugal.

Se, nos casos da Líbia e da Ucrânia, o PCP tinha tido uma posição que avaliava a situação concreta de cada um dos países e os interesses por detrás de cada um dos movimentos em causa, ao contrário do BE, que já então, segundo o PCP, alinhava com os “interesses do imperialismo norte-americano”, certamente por cedência “às pressões da comunicação social dominante”, no caso de Angola e dos jovens activistas, de que se destaca o herói e mártir Luaty, o PC não se importou de alinhar lado-a-lado com aquilo a que noutros casos chamaria de “pressões externas” e “ingerências na soberania”.

É verdade que ao PC acabou por nunca ser reconhecida a razão das dúvidas, tal como ninguém cobrou ao BE o apoio à intervenção militar da NATO na Líbia, nem o apoio à ascensão de um governo nazi-fascista na Ucrânia. Igualmente, não se conhece nenhuma intervenção do BE sobre a ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia, após o golpe que se iniciou com o seu apoio. Mas nada justifica que os comunistas quebrem a confiança do seu eleitorado mais fiel e dos seus mais ortodoxos militantes, nem mesmo os resultados eleitorais. Não é este o PC a que estávamos habituados.

Apesar do profundo desconhecimento que existe sobre a heróica luta de Luaty Beirão, que vai muito pouco além de um spinning em alguns “órgãos da comunicação social burguesa”, e fingindo que ignora o financiamento dos Estados Unidos da Américadirectamente pelo Congresso dos EUA, às organizações que apoiam a luta dos 17 activistas pela democracia, o PC tomou o caminho mais fácil e cedeu, juntando-se assim ao que sempre criticou.

Estranhamente, os comunistas que nos habituaram a serem defensores incondicionais das ditaduras violentas, desta vez, optaram por não se colocar ao lado da violenta ditadura do MPLA em Angola, ditadura essa que pode ser integralmente compreendida pelo domínio de José Eduardo dos Santos na comunicação social, nomeadamente na TV Zimbo, única estação de televisão privada de Angola, propriedade do próprio Presidente.

Veja-se aliás, o testemunho do Jurista Benja Satula, no canal do presidente José Eduardo dos Santos.

Tal como o apoio do PC, virulento inimigo do Partido Socialista – verdadeiro partido da democracia portuguesa – ao Governo do PS já demonstrava, o PC está a tornar-se um partido que abandona o quadro de princípios que sempre nortearam os comunistas e começa a mover-se ao sabor dos ventos mediáticos, desta vez inclusivamente com o inédito apoio a uma movimento que é apresentado em Portugal como “revolucionário” ou como “apartidário” mas que, como é sabido nos meios comunistas, reúne na sede da UNITA, força que ainda hoje é portadora de um passado que o PCP sempre identificou com “terrorismo”, “violência”, conhecida em Portugal pelo seu passado de violência contra o povo angolano e pelo apoio ao regime do apartheid na vizinha África do Sul.

Temos saudades do tempo em que o PC defendia, contra tudo e contra todos, contra Cavaco e contra a “comunicação social dominante”, Mandela. Relembramos que nessa altura, o PC teve a coragem de defender aquele que era internacionalmente reconhecido como terrorista. Hoje, o PC, fiel que se mantivesse aos seus princípios, defenderia a não ingerência na construção da democracia em Angola, demarcar-se-ia das práticas de limitações à liberdade de expressão, demarcar-se-ia de condenações políticas, exaltaria a necessidade de democracia e a independência angolanas, condenaria a supressão de direitos, não se colaria nem defenderia o regime de Angola, mas votaria contra aquilo a que nos velhos tempos chamaria “manobra oportunista” do BE, apresentando uma declaração de voto que poderia ser mais ou menos assim.

Até porque, ao alinhar com o BE, o PCP está a pedir que se resolva o problema da interferência política na Justiça em Angola com a interferência portuguesa na Justiça em Angola. O “meu” PC nunca faria tal coisa.

Ao sabor da brisa mediática

Até hoje, nas suas relações internacionais, jamais o BE havia tido um governo de um partido que coincidisse com a sua linha política. Timidamente e muito pontualmente, mostrou-se solidário com alguns governos que na América Latina avançavam com políticas progressistas. Nunca vimos este partido organizar actos contra o golpe na Venezuela, Equador ou Bolívia. Com Cuba jamais mostrou o mais pequeno gesto de empatia e não se sabe qual é a sua posição sobre o bloqueio contra a pátria de José Martí.

Nas suas posições sobre questões internacionais, o BE preferiu quase sempre deslizar ao sabor das marés imposta pelo mediatismo. Desde considerar simpática a candidatura de Barack Obama e de François Hollande, a não ter qualquer posição crítica sobre as manifestações em Kiev que levaram o fascismo ao poder com a consequente ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e a guerra contra a insurreição no Leste do país. Sobre a Líbia, é sobejamente conhecido o papel que tiveram os eurodeputados do BE na resolução que abriu as portas à agressão que conduziu aquele país à Idade Média e à brutalização das mulheres.

As críticas e o mal-estar gerado mudaram a sua postura em relação à Síria. Não apelou a uma intervenção externa e moderou o seu discurso em relação ao governo de Bashar al-Assad mas pouco ou nada ouvimos sobre o que pensa dos supostos rebeldes financiados e treinados pelos Estados Unidos, União Europeia, Turquia e Arábia Saudita. Entrevistou, há dias, em Lisboa, ao lado de um monumento com a estrela de David, uma investigadora síria que defende o derrube de Bashar al-Assad.

É curioso, pois, que quando chega ao poder, pela primeira vez, um partido da mesma família política do BE, se dá uma das maiores traições à esquerda das últimas décadas na Europa. O BE tinha apoiado e feito campanha pelo Syriza mas quando chegou ao governo e rasgou tudo o que havia prometido os portugueses tiveram de se retratar. Vários dirigentes que antes eram amigos de Alexis Tsipras fingiam distanciar-se. Os dirigentes do BE sentiram-se obrigados, por diversas vezes, a desmarcar-se das decisões políticas do Syriza mas, na verdade, nunca deixaram de estar ao lado do Syriza.

Esta semana, Marisa Matias voltou à Grécia para um encontro do Partido da Esquerda Europeia onde esteve presente o mesmo Alexis Tsipras que nos dias anteriores havia estado como observador num encontro dos socialistas europeus. O mesmo que aperta a mão ao genocida Nethanyau enquanto firma acordos com Israel. Uma vez mais, as palavras dizem uma coisa, as acções mostram outra. Foi assinado um documento conjunto contra a expulsão de refugiados da União Europeia ao mesmo tempo que Tsipras encabeça um dos governos que pede a deportação rápida de milhares de pessoas que fogem da guerra.

É certo que o BE não tem culpa pelo que decide ou não o Syriza mas este é o mesmo partido que tentou por diversas vezes obrigar o PCP a condenar o regime angolano. Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável.

Quando saltou o tema de Luaty Beirão para as manchetes dos jornais portugueses, o BE tentou aproveitar-se do caso e chegou a acusar uma vez mais o PCP de não estar à altura dos acontecimentos mesmo quando os comunistas haviam apresentados moções em defesa da salvaguarda dos direitos dos vários grevistas de fome. Sabendo que é forte a empatia ideológica entre o BE e o Syriza, a relação de proximidade de anos, os comícios conjuntos tanto na Grécia como em Portugal, a solidariedade mútua durante as campanhas eleitorais, sabendo de tudo isso, quando é que o BE vai condenar o regime grego pela expulsão de milhares de refugiados para a Turquia?

Sobre Angola e Luaty Beirão

Num artigo intitulado «Angola: carta aberta aos meus amigos do PCP», o encenador Castro Guedes manifesta a sua (sincera) incompreensão com aquilo que diz ser «os silêncios» do PCP, partido cuja dedicação à causa da liberdade reconhece, sobre o caso dos jovens angolanos acusados de prepararem um golpe de Estado.

Caro Castro Guedes, compreendo as tuas preocupações: a greve de fome é um gesto de protesto tão extremo que não nos pode deixar indiferentes. Soberania dos Estados não é o mesmo que soberania dos povos e não pode nunca impedir que, como o Che, estremeçamos perante qualquer injustiça cometida em qualquer parte do mundo. Por outro lado, como tu reconheces, a política económica e social do governo angolano reveste-se de opções semelhantes às que afligem os trabalhadores de outros países europeus, asiáticos ou americanos onde o capitalismo se desenvolve.

Mas isto não basta, Castro Guedes. O facto de alguns de nós não nos identificarmos com o governo líbio liderado por Gaddafi (e longe de mim comparar Angola à Líbia), não bastou para apoiarmos uma intervenção imperialista que representou a morte de centenas de milhares de pessoas, o regresso civilizacional à idade média, a pulverização do Estado em infinitas lutas tribais ou a instauração da Sharia. Não é por não gostarmos do Gaddafi que queremos o Estado Islâmico. E, na Líbia, antes das bombas, também houve manifestações por «liberdade de expressão», presos políticos e greves de fome.

Não, não estou a comparar Luaty Beirão ao Estado Islâmico. Mas pergunto-me, com a mesma sinceridade com que questionas o PCP, qual é a alternativa ao MPLA? Não podemos ser ingénuos: ambos sabemos porque é que o National Endowment for Democracy, o braço político da CIA, financia projectos de «solidariedade» e «promoção dos direitos humanos» em Angola como o Maka, muito próximo do autodenominado Movimento de Jovens Revolucionários de Angola.

A UNITA, que vem instrumentalizando os jovens activistas angolanos, é a alternativa que se perfila na agenda dos EUA para substituir o MPLA. Quem conheça a História de Angola sabe a UNITA que representa o equivalente angolano ao Estado Islâmico. Por outro lado, já ninguém acredita que os EUA invadiram o Iraque porque estavam preocupados com os direitos humanos.

É que se o nosso único critério para a solidariedade internacional for a reivindicação de «liberdade», vamos acabar muito mal acompanhados entre neonazis ucranianos, golpistas cubanos e fascistas venezuelanos.

Por isso pergunto-te, sinceramente, Castro Guedes: sabes, para além da liberdade de expressão, o que defende o Movimento de Jovens Revolucionários?

A soberania que me interessa reside nos povos. Não devem, portanto, ser os EUA ou a Europa a vestirem a farda de polícias dos direitos humanos. Muito menos devem ser os portugueses a dizer aos angolanos como se governar: para isso já bastaram 500 anos de colonialismo. É que qualquer análise da situação angolana que não tenha em consideração o legado português de atraso, opressão e escravatura, não merece ser levado a sério.

A solidariedade que me interessa é com os que lutam pela emancipação social dos trabalhadores. No dia em que os trabalhadores angolanos se dispuserem a lutar pelo fim do capitalismo, contarão com o meu apoio.

Até lá, estou como o PCP: solidário com a situação de Luaty e dos seus companheiros, preocupado com o respeito por princípios que são universais; firme na minha oposição à ingerência do imperialismo estado-unidense e europeu; inamovível na convicção de que cabe aos angolanos, e só aos angolanos, decidir sobre o seu futuro.