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Abaixo o caviar, viva o kebab

Há muitos anos que o jornalismo está a ser cozinhado em lume brando. Quando deixou de questionar o poder e passou a servir de apêndice dos grandes grupos económicos e financeiros, os principais jornais, rádios e televisões entraram numa espiral decadente que preferem atribuir às recentes transformações tecnológicas. Em momento algum lhes ocorre questionar se por acaso não terá algo a ver com a crise do sistema político e económico.

Sejamos claros. Durante décadas, venderam-nos falsas verdades e agora que outros seguem o mesmo caminho apontam-lhes o dedo e defendem o monopólio da mentira. Foi a imprensa que serviu de comissária política na cruzada neoliberal pela precarização do trabalho e pela privatização dos serviços públicos. Agora espantam-se que as redes sociais se assumam como fonte prioritária de conhecimento para muitos. É certo que é um mar agitado de mentiras por onde sopram os perigosos ventos da extrema-direita mas é justamente por não haver uma imprensa livre de interesses privados que o discurso destravado do fascismo volta a estar em cima da mesa.

Há umas semanas, a filósofa belga Chantal Mouffe afirmava, em entrevista ao Público, que “a melhor forma de combater o populismo de extrema-direita é com o de esquerda”. Como qualquer pós-marxista, tem um perigoso gosto por transfigurar conceitos que o próprio Pacheco Pereira fez questão em desfazer. Não há populismo de esquerda. Mas, ainda assim, Chantal Mouffe tocou no sensível nervo do campo das armas do nosso tempo para combater o fascismo. Na verdade, de todos os tempos. Só a radicalização do discurso em defesa da ruptura com o capitalismo pode fazer com que os trabalhadores voltem a confiar na esquerda.

Não são poucos os países onde a esquerda descafeinada abandonou princípios e abraçou a política do possível. Sobretudo, deixou de ter a questão de classe como eixo central do seu discurso. Hoje, a extrema-direita é praça-forte em muitos lugares porque adoptou um discurso forte, apesar de pejado de mentiras, construindo uma imagem que aparece aos olhos dos trabalhadores e das populações como alternativa anti-sistema. Foi precisamente a comunicação social que promoveu a anti-política, o individualismo e a ideia de que são todos iguais para que se apoiem sempre os mesmos escondendo que há alternativas.

Há esgotos mais limpos que os corredores por onde as portas giratórias do poder conduzem o dinheiro. São muitos os jornalistas que apenas cumprem ordens e que como qualquer polícia se limitam a brandir o cassetete quando lhes mandam. Mas tanto a caneta como o bastão fazem as mesmas vítimas.

Na Alemanha, a população ficou ganha para o conceito de expropriação quando percebeu que era a única forma de ter direito a ter uma habitação digna. No País Basco, centenas de jovens ocuparam um bairro operário abandonado que estava destinado a servir de terreno para futuros apartamentos para ricos. Na Andaluzia, vários trabalhadores do campo entram em herdades improdutivas e põem-nas a produzir para proveito de todos. Acabou o tempo das palavras mansas e das soluções edulcorantes. Mas também da prática ruminante inconclusiva. Combater o fascismo é defender a justiça social por todos os meios possíveis.

Nem uma União Europeia para os fascistas.

Na iniciativa de convívio com apoiantes da Coligação Democrática Unitária (CDU) realizada segunda-feira, dia 15 no Centro de Trabalho Vitória e que contou com largas dezenas de participantes, João Ferreira, primeiro candidato das listas para o Parlamento Europeu, dirigiu-se aos amigos presentes com um agradecimento, mas também com justas considerações sobre o papel dos comunistas e aliados no contexto actual.

Aliás, o candidato não se limitou a fazer um discurso de mobilização, mas também um discurso de alerta e de luta. A consideração fundamental do camarada assentou na valorização da política alternativa proposta pelo PCP e pela CDU mas avançou para uma questão ideológica sobre o fundo político da actual situação política.

“O PCP nunca embarcou na falsa dicotomia entre nacionalismos ou União Europeia”, para citar livremente. É evidente que aprofundou um pouco e a questão merece ainda mais aprofundamento. Porque o momento político, como aliás sempre se pode dizer, é decisivo. É decisivo para Portugal e para todos os povos que trabalham na Europa, é decisivo para a superação dos movimentos proto-fascistas e abertamente fascistas e é decisivo para a clarificação do campo estratégico em que nos movemos.

A propaganda da União Europeia, de integracionismo, centralização e federalismo, é a propagando dos grandes grupos económicos que falam pela voz dos governos dos estados-membros, dos comissários e da vasta maioria dos deputados ao parlamento europeu.

Neste momento, ganham particular dimensão teses que vêm sendo construídas há muito e que estão intimamente ligadas à natureza e objectivos do grande capital europeu e transnacional.

i. A falsa dicotomia entre União Europeia e nacionalismo e extrema-direita,


ii. A banalização e promoção dos movimentos fascistas históricos e o revisionismo histórico,


iii. A promoção do fascismo como elemento de modernidade,


iv. A preocupação em criar o recipiente popular reaccionário para o apoio à ascenção de forças fascistas,


v. O ataque sem limites às forças progressistas.

Para facilitar, separemos os pontos, apesar da sua interligação evidente.

i. A falsa dicotomia entre União Europeia e o nacionalismo de extrema-direita:

No contexto de aprofundamento da integração federalista e capitalista da União Europeia, o surgimento e agravamento de tensões entre as classes é inevitável. A divisão internacional do trabalho e o patamar diverso de graus de desenvolvimento económico entre os estados acrescenta à crescente tensão entre interesses classistas, a concorrência e disputa inter-capitalista. A integração gera inevitavelmente situações de domínio e submissão, partindo de um ponto desigual. As próprias regras de funcionamento da UE assentam numa arquitectura de domínio económico, financeiro, político e cultural. A soberania dos Estados foi paulatinamente aspirada para cúpulas à escala da UE, no sentido da satisfação dos objectivos das grandes potências. Sempre que as grandes potências, ao serviço das grandes transnacionais, entendem ser útil expropriar um estado da sua capacidade de decisão, captam mais um poder para as instâncias supranacionais. Essa perda de soberania galopante acompanha um sentimento de descontentamento com os resultados desta política. É a própria União Europeia que finge ter no nacionalismo de extrema-direita o seu inimigo. Ao mesmo tempo, é a UE que lhe pavimenta o caminho e que o promove como suposta alternativa. A aposta por todo o espaço europeu em forças proto-fascistas ou abertamente fascistas é uma opção dos grandes grupos económicos e visa assegurar que o descontentamento com os resultados da UE não se organiza em torno de objectivos revolucionários, mas sim conservadores, ou seja, o grande capital garante com o culto do fascismo, que uma franja descontente da população apoia uma segunda via do próprio capital. Por detrás dos nacionalismos exacerbados da extrema-direita estão os mais obscuros e poderosos interesses, exactamente os mesmos que estão por detrás da UE.

Acaso se poderá dizer que não são os grupos económicos que fomentam e estimulam o sugimento dos grupos neo-fascistas. A realidade desmente essa ideia. Vejamos como a comunicação social introduz esse assunto no dia-a-dia, como jornais inteiros funcionam como porta-vozes dessas forças, como se promovem figuras antes irrelevantes nas políticas nacionais a salvadores e como se branqueiam histórias e vidas de criminosos para se travestirem de políticos.

Acaso se poderá dizer que também não é a UE que promove o caldo de cultura reacionária. Mas a realidade desmente essa tese: a constante propaganda anti-comunista; o apoio ao revisionismo histórico por parte da UE; a ameaça russa; a constante espoliação de povos inteiros das suas riquezas e da sua soberania económica, política, produtiva; a imposição de normas desajustadas das realidades de cada povo; a concentração da propriedade produtiva, do solo, da água e outros recursos naturais; a salvação dos grandes bancos da União Europeia; a concentração de recursos nas grandes potências da UE; o desrespeito constante pelas opções de cada povo; a imposição de regras orçamentais que visam a privatização de serviços e a destruição do papel dos estados; a participação na guerra e na agressão imperialistas e a consequente hostilização de povos a quem a própria UE destruiu os seus países; são características permanentes da política da União Europeia. Essas características são objectivamente a origem de todos os descontentamentos. O descontentamento que desagua na extrema-direita, afinal de contas, é apenas a resposta que o grande capital prepara para as suas próprias desgraças. Não é um placebo, é uma dose redobrada do veneno.

ii. A banalização e promoção dos movimentos fascistas históricos e o revisionismo histórico

Por toda a comunicação social, nas escolas, nos discurso dos comentadores e “historiadores” do sistema, há uma banalização dos crimes do nazismo e do fascismo. O fascismo é vendido como um antídoto doloroso, mas funcional. A realidade desmente essa tese: a corrupção, a concentração da riqueza, a pobreza extrema, a fome e a guerra vêm de mãos-dadas com a repressão. A repressão e dureza que são vendidas como fontes de disciplina são apenas fontes de novas formas de exploração e de agrilhoamento de todos os que se não contentem com a desigualdade. O revisionismo histórico que exalta o papel das potências capitalistas ocidentais e apaga ou deturpa o contributo decisivo do sistema comunista mundial contra o fascismo e o nazismo, ao mesmo tempo que se aligeiram os crimes dos regimes fascistas europeus visam apenas afastar os povos e os trabalhadores da única alternativa real ao capitalismo sob todas as suas formas: a luta revolucionária pelo socialismo.

iii. A promoção do fascismo como elemento de modernidade

É enternecedor verificar a constante preocupação da comunicação social com a ausência de um movimento fascista em Portugal. Por todos os jornais, rádios e televisões, se verificam constantes apelos ao surgimento destas forças. Não apenas pela sua promoção, pela projecção de figuras oportunistas e demagógicas, pela sagração de novas vedetas com mais tempo de antena do que as forças políticas que realmente se posicionam no tabuleiro nacional, mas também pela consolidação da ideia de que o fascismo é moderno e de que Portugal está atrasado em relação aos países mais desenvolvidos da União Europeia.

Somos constantemente bombardeados com perguntas do género “porque não existem movimentos de extrema-direita em Portugal?”, como se isso fosse um requisito da actualidade, como se estivéssemos a falhar em alguma coisa. A comunicação social, detida pelos grupos económicos que dominam o país nas mais diversas esferas, faz tudo o que pode para criar novos focos de atenção, para criar literalmente movimentos que não têm expressão material.

iv. A preocupação em criar o recipiente popular reaccionário para o apoio à ascenção de forças fascistas

A comunicação social, acompanhando a degradação do nível de vida das populações e dos trabalhadores, concentra-se na divulgação do crime, deturpa a realidade no sentido de criar a sensação de corrupção estrutural no frágil sistema democrático e nos partidos por igual, hostiliza minorias, exalta a repressão, e dá espaço a um vasto conjunto de intelectuais de sarjeta a quem nenhum outro valor se reconhece a não ser o serviço que prestam à ideologia dominante e o ataque mentiroso ao socialismo e aos portadores do seu projecto.

A existência de canais de televisão e jornais integralmente dedicados à divulgação da pequena criminalidade é um elemento que denuncia bem os seus objectivos. Além de ser óptima fonte de receitas, o medo e a sensação de insegurança são óptimos combustíveis para o ódio fascista. A ameaça, real ou não, à segurança das populações é o primeiro passo para a justificação da repressão.

A promoção de simpatia por líderes como Trump e Bolsonaro e o ataque cerrado a todos os líderes que não se lhes ajoelham são mais um instrumento da comunicação social na luta pelo domínio ideológico.

Depois de várias tentativas falhadas para a criação de um movimento de extrema-direita em Portugal, mas sempre apoiadas pela comunicação social, a táctica altera-se para adoptar o modelo norte-americano e brasileiro: é preciso antes alterar a infra-estrutura para acomodar a super-estrutura. Isso significa que o grande capital decide apostar antes na criação de um desejo popular, de um certo acolhimento e simpatia por ideias reaccionárias, anti-comunistas, racista e xenófobo, idealista e individualista, capaz de ser captado por uma força ainda por criar. Perceberam que antes de nos apresentar a falsa solução, têm de falsificar o problema.

v. O ataque sem limites às forças progressistas

Quarenta e cinco anos de distância permitem a consolidação de mentiras sobre o 25 de Abril, tal como 102 anos de distância permitem consolidar mentiras sobre a grande revolução socialista e 30 anos permitem apagar muito da história da derrota da experiência socialista de leste. À medida que nos afastamos temporalmente de uma realidade, o branqueamento histórico torna-se mais eficaz.

Aproveitando essa distância e o domínio hegemónico da cultura, educação, economia e religião, o grande capital vira todas as suas armas contra o movimento operário, contra os sindicatos e partidos de classe. Onde os pôde destruir ou desfigurar por dentro, não hesitou.

Em Portugal, desde o início dos anos 40 que o PCP ganhou características que dificultaram essa tarefa aos seus inimigos. Características que mantém e que permitem aos comunistas portugueses seguir o caminho da luta e aos trabalhadores portugueses ter um partido de classe, uma vanguarda organizada sem outro objectivo senão o de os defender, mobilizar para essa defesa e de com eles construir uma democracia real, capaz de retirar a decisão das mãos dos administradores e capatazes do capitalismo europeu e de a devolver ao espaço em que trabalhamos: Portugal. O tal “soberanismo” de que acusam o PCP não é mais do que democracia: não pode haver democracia se não for o povo português a decidir.

A deturpação e a mentira, a par de um estratégico silenciamento, são armas dos monopólios e grandes grupos económicos contra o PCP. O ódio desses grupos contra o PCP perpassa para a esmagadora maioria de colunistas e comentadores e até para muitos jornalistas. Fragilizar a força que pode colocar em causa os objectivos dos grupos económicos é um passo fundamental para o sucesso da sua ambição de agravamento da exploração. Mas é muito mais do que isso: a debilitação ou o aumento da hostilidade anti-comunista são também o estrume para as ervas daninhas fascistas.

Temos esta cassete, não por sermos obcecados com ela, não por não sermos capazes de dizer outras coisas, mas porque a realidade é tremendamente brutal: só a luta é o caminho. Teses e debates e diversões e dúvidas existenciais pululam os esquerdismos como se buscassem uma pedra filosofal contra o avanço do fascismo. Pois não há. Mas há sangue e músculos, há homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, que unidos pela superação do capitalismo e pelo aprofundamento revolucionário da democracia, foram, são e serão, a única frente que conta contra o fascismo.

Tarefas urgentes para Rui Tavares

Rui Tavares acordou estremunhado, banhado em suores frios e percebeu que, afinal, está na hora de pegarmos em armas e combater o fascismo em todas as suas formas. Bem, não todas. Porque temos de escolher bem e combater o fascismo mas defender a UE. Já lá iremos. Um historiador estremunhado e assustado, nas manhãs de calor como as que temos vivido, pode ser um caso alarmante. Ao ponto de ser o próprio a referir que nunca pensou que “a versão atualizada [do fascismo] do século XXI viesse a ser tão caricaturalmente parecida com o original”. Um historiador como Rui Tavares, devia saber que a “História repete-se, pelo menos, duas vezes”, dizia Hegel, “a primeira como tragédia, a segunda como farsa”, disse Marx.

Apanhado de surpresa, Tavares esbraceja, alvoroçado, com o que está a passar-se em Itália, na Hungria, esquece Polónia e Ucrânia, Espanha, a vergonha do Mediterrâneo potenciada pelas intervenções externas a cobro – imagine-se – da UE nos países do Médio Oriente e norte de África, que Rui tavares tão bem conhece dos seus tempos de eurodeputado. Sem esquecer o tratado de extradição de refugiados assinado entre a progressista e europeísta Grécia e a Turquia.

Os aliados

Tavares começa a sua lista de tarefas, talvez ainda entorpecido pelo sono profundo em que está há anos, avisando que tem aliados em todos os quadrantes políticos contra a barbárie. As remelas talvez estejam a tolher-lhe o pensamento. O historiador está disposto a colocar de lado tudo o que faz com que haja, de facto, um ressurgimento do fascismo, para combater o fascismo. É neste labirinto de lençóis que Tavares se perde: “Discordarei com eles sobre a austeridade, o politicamente correto, o progressismo e o conservadorismo e todas as coisas sobre as quais já discordávamos antes. Mas se eles e elas sentirem a mesma urgência em fazer, em primeiro lugar, barragem contra a barbárie, estamos juntos”. Tanta ingenuidade chega a ser enternecedora, vinda de alguém que, dada a sua formação, conhece a História. O cronista propõe-se, assim, a tomar comprimidos para dormir mas afirma que vai lutar para ficar acordado. É este o cronista no seu labirinto.

A Torre de Marfim

Para Tavares, a austeridade e a miséria não são desculpas para que as pessoas se tornem racistas e “adeptos de tiranetes”. Esta é uma visão perfeitamente normal de alguém desligado da realidade – e, mais grave, da História – sobre aquilo que é a vida dos comuns mortais. Não sendo desculpa, parece-me evidente que é inegável. Mas, quem nunca teve a barriga vazia, não consegue perceber que a necessidade e o desespero são maiores do que a moral. Rui Tavares, historiador, posiciona-se assim contra a História e não aceita que as condições sociais influem, de facto, no surgimento de fascismos e no crescimento da extrema-direita. Ou melhor, aceita só um bocadinho. Podemos discutir isso, mas não pode ser o foco. Em suma, a História repete-se, mas não temos de encontrar formas para que não se repita. Depois vemos isso. Tavares não diz como contrariar isso, avança apenas com a “intransigência”. Portanto, a História mostra-nos e explica-nos o que está a acontecer, nada disto é novo, mas Rui Tavares está demasiado agitado para procurar a raiz e prepara-se para acabar com isto tudo, apostado que está em cortar canas de bambu com uma colher de sopa.

Isto é tudo nosso

O cronista afirma que não há tempo para discutir soberanias e não-ingerências. E nós sabemos bem, pelo exemplo do aval que deu à invasão da Líbia, que isto são questões de somenos. Os tempos são graves e assustadores. Rui Tavares acaba de acordar e Putin e a perigosa Rússia têm de vir à baila, ao lado de Trump, Órban e Salvini. Afinal, o historiador já decidiu que a Rússia adora interferir em eleições. Portanto, avancemos para fazer tudo exatamente da mesma forma que fizemos até aqui para que tudo fique na mesma.

Mais UE, quando o rei vai ONU

Outra das tarefas urgentes é, evidentemente, salvar a UE. Não seria dia se não fosse assim. Salvar as mesmas instituições que nos trouxeram até aqui. A UE, o colchão a que Tavares se agarra com unhas e dentes, após acordar apostado em acabar com o fascismo, a UE da austeridade, que fecha fronteiras, que vende refugiados à Turquia, a UE da França e da Alemanha, do Tratado de Lisboa e tudo o mais. Rui Tavares não percebe que é a política da UE e a ineficácia da ONU que nos trazem aqui. A ONU das sanções, das resoluções que valem menos que zero, um instrumento de controlo político de Estados soberanos. Ah, sim, a soberania não é para aqui chamada. Temos é que salvar a UE, que tem dado tão bons resultados.

Por fim, “errei”

A terminar, somos lembrados de que Rui Tavares escreve sobre a Hungria desde 2010. E nós aqui, desatentos, só agora, com o historiador acordado, conseguimos perceber que ele anda a escrever sobre a Hungria desde 2010! Ele, que até acreditava que o fascismo voltaria, mas mais fofo. Sem “tanta desfaçatez e arrogância”. E, veja-se, surpreendido porque o fascismo é fascismo.

TPC para Rui Tavares

Vamos então ajudar Rui Tavares e dar-lhe cinco tarefas para que possa ser um antifascista:

1 – Perceber que nem todos são antifascistas porque discordam da política de Órban ou Trump. Este é antes o modelo ideal para que as pombas brancas que sobrevoam os sonhos de Rui Tavares possam passar a abutres, como bem vimos no pós-guerras mundiais, nos Balcãs ou no Médio Oriente e no norte de África ou na América do Sul. Esta é uma lição importante para o Rui que, talvez por querer andar com tanta e tão variada gente, acabou num partido reduzido a um grupo de amigos com tempo de antena.

2 – O Rui sabe que os maiores conflitos da História se deram depois de grandes convulsões sociais provocadas pela Economia neoliberal, defendida pela UE, que o Rui também defende. Por isso, vamos lá colocar a cabeça no lugar e perceber que este parágrafo da sua lista de tarefas é absurdo. Porque lateraliza o que são as questões centrais. É mais ou menos como combater incêndios cortando a copa das árvores. Não dá. Vamos lá trabalhar este aspeto.

3 – Muito do que hoje se passa na Europa tem precisamente a ver com a perda de soberania, económica e não só, de diversos Estados. A imposição, através de ingerências externas, de mecanismos financeiros e/ou militares, em países soberanos, cujas populações, vá lá perceber-se porquê e como, não concordam com o Rui Tavares. Nós sabemos que, para o Rui, lutas só à escala planetária e, se for preciso, universal. Mas cada coisa no seu lugar. Temos de trabalhar melhor também esta matéria.

4 – A mais perigosa das fantasias é acreditar que a UE, com o fascismo cá dentro, é solução para alguma coisa. Não há muito mais a acrescentar.

5 – O “nosso jardim” – e a Eurovisão em Israel, que tal? – podia ser uma ilha de progressismo e democracia se não estivesse refém da UE e dos seus tratados e pactos, se pudéssemos pescar, cultivar e produzir, se fossemos nós a definir o nosso défice e como pagar a dívida, enfim, se tivéssemos soberania. Aquela coisa de que falámos lá em cima.

No 75º aniversário do assassinato de Ferreira Soares

Corria o dia de ontem e assinalava-se em Nogueira da Regedoura(Sta.Maria da Feira) mais uma sentida homenagem a Ferreira Soares, “Dr. Prata”, militante do PCP, assassinado a tiros de pistola-metralhadora no seu consultório.

Ferrreira Soares nasceu em 1903 em Viana do Castelo, tendo cursado Medicina na Universidade do Porto. Concluído o curso, exerceria a sua actividade clínica primeiro em Espinho e depois em Nogueira da Regedoura. Seria ainda reconhecido etnógrafo, crítico e contista.

Localizando Ferreira Soares, é preciso caracterizar a década de 30, é necessário relembrar, muito sumariamente que por essa altura se fortificava pelo país o regime fascista do Estado Novo, com o desmantelamento(pela repressão, pela desistência e até adesão) de um conjunto significativo de estruturas de intervenção  política e social, a situação de miséria e pobreza em que viviam as classes populares e trabalhadoras(mortalidade infantil, fome, desemprego, analfabetismo, entre tantos outros dramas), e também um quadro internacional em que o fascismo e o nazismo avançam por quase toda a Europa. Note-se ainda que, também neste tempo o PCP atravessa um período marcado por diversas dificuldades que o debilitam muito.

Não obstante a aspereza da situação geral, corajosamente Ferreira Soares desenvolverá uma intensa actividade revolucionária e militância, na unidade antifascista, com e pelo alargamento da influência do PCP, integrando o seu Comité Regional do Douro.

A actividade política que desenvolveu naquela época, acabou por ter o destino provável da perseguição e da semi-clandestinidade forçada em 1936, obrigando o “Dr. Prata” a deslocar-se para Nogueira da Regedoura.

Na região, sabia-se que Ferreira Soares, conhecedor da pobreza que grassava pelas populações, comummente e solidariamente prestava o seu auxílio médico graciosamente aos que não tinham qualquer condição para aceder à Saúde. Apenas cobrava a quem podia cobrar. Justamente, Ferreira Soares construíra o médico presente, o homem bom e comunista prestigiado.

Em 4 de Julho de 1942, a PVDE, com recurso a um falso ferimento de uma agente sua conseguiu introduzir-se em sua casa, que era também o seu consultório, e aí alvejou-o com 14 balas de pistola-metralhadora.

O assassinato, o desaparecimento físico de Ferreira Soares constituíram um momento de enorme consternação para o povo das redondezas, o seu enterro foi uma expressiva manifestação de dor, revolta e protesto daqueles que ele fraternalmente apoiara e pelos quais acabaria dando a sua própria vida.

Ferreira Soares, o “Dr. Prata”, pela sua intervenção, pelo seu exemplo, pela sua memória, é ainda hoje um força presente na luta dos democratas e dos comunistas.

“Ucrânia: as máscaras da revolução”



“Passaram-se dois anos desde o golpe, mas, enfim, algum veículo ocidental decidiu abdicar da propaganda odiosa das agências de notícias internacionais e de fato fazer jornalismo em relação à Ucrânia. Trata-se do documentário “Ucrânia: as máscaras da revolução” – disponível, por ora, somente em inglês, alemão e francês.

Realizado pelo jornalista Paul Moreira e exibido pela emissora francesa Canal+, o documentário já é uma realização memorável simplesmente por ser francês – afinal, tudo o que se tem dito nos últimos anos contra o regime de Kiev tem sido descartado, por neoliberais, pretensos democratas, fascistas e até mesmo ditos socialistas confusos como “propaganda russa.” Para além disso, é importante notar também que Paul Moreira expressa, de forma bem clara, não ser nenhum tipo de radical pró-russo, mas um liberal, com uma visão política ocidental, que se preocupa com a “democracia” na Ucrânia – inclusive chega a dizer, ao introduzir sua reportagem, que vibrava pelos manifestantes que ocupavam Kiev e confrontavam a polícia em 2013, ao assistir às imagens pela TV.

O tema central da reportagem é a forma como os fascistas tomaram o país, se tornaram uma força política inquebrável, organizaram batalhões militares, de como influenciam a política – quando, é claro, não ocupam cargos. Mostra de maneira aberta e concreta a violência dos fascistas ucranianos tanto ideologicamente, nas noções abertamente xenofóbicas e genocidas, como em suas práticas – bloqueios à Crimeia, intimidação por meio da força, organização e treinamento de milícias, além de assassinatos em massa. E por fim demonstra o que muitos, inclusive o Presidente Poroshenko, têm tentado negar a todos os custos nos últimos anos: os fascistas não são um setor radical à parte do governo golpista, mas uma célula chave dele, incorporada em cargos, na Assembleia, etc.

É claro, há problemas no documentário: trata muito superficialmente do papel que os Estados Unidos tem tido na Ucrânia, como se a política dos falcões fosse somente a de ignorar os fascistas – quando, de fato, financiaram e apoiaram o golpe abertamente.

Mas é uma obra importante por um simples motivo: o espaço que dão a fascistas, políticos ucranianos e figuras do alto-escalão americano é como uma corda. Com sua capacidade intelectual de sempre, se enforcam em frente às câmeras, imaginando levar a cabo grandes proezas diplomáticas.

Pedro Marin foi editor da Revista Opera, que contou, em 2015, com um correspondente na Ucrânia, e atualmente escreve para o site Global Independent Analytics.”
Via Diário Liberdade

Alerta antifascista… e na primeira linha o partido comunista!

Os patrões condenam, os jornais escondem, os fascistas atacam. Um grupo de neonazis atacou, esta tarde, pelo menos três pessoas, entre as quais uma que saía do comício da CDU que encheu, esta tarde, o  Coliseu dos Recreios. Quantas páginas dedicará à versão das vítimas a próxima edição do Expresso?

Foi assim durante toda a tarde: a pretexto de uma manifestação contra a «islamização», capangas fascistas percorreram impunemente as ruas de Lisboa, provocando negros, comunistas e homossexuais.

Mais, na verdade, foi sempre assim: os cabeças-rapadas só agridem e fogem porque os donos da comunicação social estão mais interessados em ver as traseiras dos autocarros a caminho de um jogo que ouvir as vozes que lutam por um país mais justo. Da mesma forma que os fascistas sempre foram a vanguarda do capital, os comunistas continuarão a ser a vanguarda dos trabalhadores.

Nenhuma rua para o fascismo, nenhum voto neutro.

Na juriš! (35 anos depois de Tito)





(Na juriš! é uma Canção da resistência jugoslava, composta em 1943, pela Brigada Eslovena “Levstik”, e que aqui é interpretada pelo Coro Partizan de Trieste ‘Pinko Tomazic’)

Na  juriš!

Ao assalto, ao assalto, ao assalto,
Ecoa nas madeiras o clamor dos combatentes,
As fileiras inimigas são grandes!
Atirar, esquivar, bater, atirar!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.
Atirar, esquivar, bater, atirar!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.

Ao assalto, ao assalto, ao assalto,
Vingaremos as casas queimadas,
Vingaremos todos os nossos túmulos!
Baniremos os demónios e pouparemos o sofrimento!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.
Baniremos os demónios e pouparemos o sofrimento!
Ao assalto Partizan
Antes de ti é o dia da liberdade.

Ao assalto, ao assalto, ao assalto,
Já canta a nossa metralha
Pelas florestas, pelos vales e montanhas,
Dispara e não falha, de sangue inimigo
A terra deve banhar
Ao assalto, Partizan!