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Com o que sonha o Cristiano Ronaldo?

Cristiano Ronaldo não sonha, certamente, com comprar o carro ou a casa que sempre quis. Pode ficar assegurado o leitor: o sonho do  melhor jogador de futebol do mundo não é nada material. Ao contrário do que se possa achar, Cristiano Ronaldo não sonha com milhões de euros, mulheres bonitas nem ilhas privadas. Estamos em condições de afirmar com segurança que o CR7 já tem todas as copas, ligas, campeonatos, botas de ouro e bolas de ouro que poderia desejar.

Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka, sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência?

E mesmo sendo abstracto o sonho que o move, não é por isso algo mais comum: podemos também assegurar o leitor de que Ronaldo já tem todo o reconhecimento, fama e adoração possíveis de concentrar na auto-estima de um único ser humano. Não lhe faltará, por outro lado, liberdade: Cristiano Ronaldo já é, individualmente, mais livre de fazer no mundo tudo o que lhe couber no tempo que ainda lhe sobra. Faltar-lhe-á naturalmente a privacidade, mas também não é esse o sonho de Cristiano Ronaldo.

Com o que sonha, então, um homem que já é infinitamente rico, idolatrado, bonito, bom naquilo que faz, livre, saudável e jovem?

Pode parecer uma pergunta estúpida mas, se se prestar atenção, já somos obrigados a conhecer tantos e tão irrelevantes detalhes sobre a vida de Cristiano Ronaldo que mais vale debruçarmo-nos sobre o que realmente importa.

Agora o leitor pode até rir-se, mas é provável que Cristiano Ronaldo sonhe ser imortal. Nada de mais: apenas um sonho à escala da vida que leva. Talvez por isso lhe parecerá tão desproporcional a você, que mora no terceiro andar de um prédio e guarda cupões de descontos mas, lá está, o leitor também não tem museus e estátuas dedicados à sua vida.

Mas Cristiano Ronaldo seguramente saberá que nunca será imortal. Eis a contradição: a divindade com prazo de validade. Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência? Ou será que, pelo contrário, mete no máximo o Wizkid, que está em primeiro lugar do Top+, enquanto bebe o melhor champanhe do mercado e vê os melhores desenhos animados do mercado na melhor televisão do mercado?

Seria simples se o português mais famoso do mundo fosse só esta caricatura, edonista de bolas e átomos, mas Cristiano Ronaldo no fundo é tão humano como nós e, para complicar as coisas, assume publicamente, causas justas e sonhos normais. «Quero ser o melhor pai do mundo», disse recentemente numa entrevista. O problema aqui não é não só que Cristiano Ronaldo parte com uma enorme vantagem sobre todos os outros pais na corrida ao título de melhor pai do mundo; o problema é que o melhor pai do mundo não aceitaria um mundo tão injusto para os outros pais; o problema é que não é possível ser um bom pai, olhando com indiferença para os filhos dos outros.

E escusa de me recordar quantos milhões doou Cristiano Ronaldo a que causas. Não está aqui em causa a bondade de Cristiano Ronaldo nem a utilidade de distribuir a caridade em sacos de restos, entrançando harmoniosamente o biscoito ético com a reprodução da própria injustiça.

Mas afinal qual é o teu problema com o CR7?

Nenhum. O meu problema é convencermos a nossa juventude a querer ser como o Cristiano Ronaldo e a emular os seus sonhos. O meu problema é atomizarmo-nos nos nossos sonhos individuais, na impossibilidade de os atingir e no culto de uma imortalidade breve e ilusória, sem História nem sentido social. Por outras palavras, é urgente temperar o nosso enorme YOLO contemporâneo com um bocadinho de Memento Mori medieval.

Numa sociedade obcecada com o sentido da vida, com a procura da felicidade e que põe os olhos e a fé em cada movimento do Cristiano Ronaldo, da tabacaria, sem metafísica, é no mínimo estranho que a ideia da morte não seja convite bastante para nos fazer reflectir sobre o sentido histórico e social da nossa própria existência.

Longe do mundo e à deriva da História, presos num Truman Show de pobreza e injustiça, qualquer sonho é vão se não se apoiar na razão. Até mesmo os sonhos de Cristiano Ronaldo. Não se trata de renunciar à individualidade, mas sim de galgar socialmente, historicamente, os nosso limites biológicos, integrando-os numa história que dê razão ao que, em última análise, só para os religiosos pode ter sentido.

Que sonho devemos, então, colectivamente procurar? O sonho de sermos seres humanos cultos. Culto não no sentido pretensioso, mas na acepção do cultivo da humanidade, como plasmado na definição de Bento de Jesus Caraça:

«O que é o homem culto? É aquele que:
1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.
Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.»*

Não poderemos sonhar livremente enquanto não compreendermos a posição que ocupamos no mundo em que vivemos. Como Cristiano Ronaldo, podemos saltar, dançar, gritar e correr à vontade dentro do barco, que ele continuará a navegar inexoravelmente ao mesmo azimute. É preciso aprender a enfiar a mão na água, para lhe alterar um pouco o rumo e para que, um dia, os nossos netos deitem mão ao leme.

É que por mais que estejamos convencidos de que vivemos no éter, acima dos assuntos do mundo, independentes dos sonhos alheios, é neste mundo que vivemos. Por estarmos vivos estamos desafiados a transformá-lo. E mesmo que sejamos o Cristiano Ronaldo, um dia, quando menos se espera, morre-se uma morte estúpida, como são estúpidas todas as mortes, e alguém há-de dizer que (como Baltasar) não pôde subir às estrelas, se à terra pertencia.

*Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933)

Quem se mete com os estivadores mete-se com o país inteiro

Com a aquiescência encalistrada do governo PS, o patronato declarou Guerra Total aos trabalhadores do Porto de Lisboa. Guerra Total no sentido clássico, em que tudo vale, para a qual todos os recursos são mobilizados e que cujo alcance político é vertiginosamente ilimitado. Quando os rufias da Associação de Operadores do Porto de Lisboa respondem a uma greve com uma ameaça de despedimento colectivo, o que na realidade nos vêm dizer é que, neste país, podem fazer tudo o que lhes der na real gana.

Em directo, no telejornal, os terroristas avisaram que por cada novo dia de greve vão despedir mais trabalhadores. Como recordou o deputado ao Parlamento Europeu pelo PCP, João Ferreira, o Código do Trabalho é claro neste ponto: «É nulo o acto que implique coacção, prejuízo ou discriminação de trabalhador por motivo de adesão ou não a greve.» e «Constitui contra-ordenação muito grave o acto do empregador que implique coacção do trabalhador no sentido de não aderir a greve, ou que o prejudique ou discrimine por aderir ou não a greve». Mas os senhores que operam o nosso Porto acham que, no nosso país, estão acima da lei. O problema é que o Porto não é deles: é nosso e eles somente o operam; o País não é deles: é nosso e eles somente o exploram.

Perante a intimidação de um rufia não se arreda pé: faz-se frente. E os rufias a que os estivadores fazem frente não operam só o Porto de Lisboa: estão na tua fábrica, na tua empresa, na tua escola… Se os terroristas da Associação de Operadores do Porto de Lisboa vencerem esta batalha, todos os outros terroristas de todos os outros pequenos Estados Islâmicos verão que também eles podem impor a sua Sharia de Quero-posso-e-mando.

É portanto conveniente que nos interroguemos se é nesse país que queremos as nossas vidas e as vidas dos nossos filhos: um país onde os nossos patrões podem criar empresas paralelas para nos substituir por precários a 500 euros; onde somos obrigados a trabalhar até três vezes mais do que a lei permite como alternativa a sofrer processos disciplinares; onde os patrões inventam sindicatos para enganar os trabalhadores e não vão presos por burla; onde os contratos colectivos de trabalho vão para o lixo; onde os patrões podem mentir sobre o nosso salário e o nosso trabalho, sem ser acusados de difamação; onde não podemos estar com a nossa família; onde se fizermos greve e ousarmos levantar a cabeça somos imediatamente despedidos; onde quem não ganha uma miséria é que está mal; onde não ter direitos é que está bem.

A greve dos estivadores é uma greve contra a precariedade: a deles e a nossa. É uma greve pela dignidade: pela deles e pela nossa. No dia 16 de Junho, estejamos todos nas ruas para dizer aos rufias que se se quiserem meter com os estivadores, terão de se meter com o país inteiro. É que não é só por ser ilegal que a ameaça de despedimento colectivo não vai passar, é porque os trabalhadores não vamos deixar e, de caminho, ainda metemos os terroristas da Associação de Operadores do Porto de Lisboa no seu lugar, isto é, fora do Porto de Lisboa.

Apelo ainda à essencial leitura do comunicado que o PCP está a distribuir.

O Fernando Rosas e o Arnaldo Matos entram num bar…

Sentados ao mesmo balcão, o Fernando Rosas e o Arnaldo Matos têm a leve impressão de se conhecerem de algum lado. Trocam olhares desconfiados, mas permanecem silenciosos, dobrados sobre os copos de uísque e com cara de poucos amigos.

Finalmente, é o Arnaldo Matos que quebra o gelo:

– Que vida madrasta! Um gajo chegar a velho para ainda andar cá a fazer de palhaço! Estou sozinho no mundo!

– É a vida de hoxaista! – Desabafa o Rosas.

O Arnaldo atira-lhe um olhar e rebate:

– Tretas! Para uns é só trepar! Para o Arnaldo ficam os trocos! Vê-se mesmo que não conhece o Durão…

– Qual? O Barroso? – Pergunta o Rosas, surpreendido – Então não havia de conhecer? Andámos juntos a deslocar mobiliário académico para a sede do MRPP!

– Caramba! Também eu!

– Mas que tipo de anti-revisionista é você? Hoxaista, estalinista, maoista? – Pergunta o Rosas.

– Sei lá! Sou anti-PCP! – Exclama o Arnaldo.

– Também eu! – Confirma o Rosas – Ainda acha que está sozinho no mundo? Anime-se homem!

– Vê-se mesmo que não foi você que recebeu dinheiro da CIA para fazer esta figura… – Lamenta-se o Arnaldo.

– Olhe que por acaso também tive nisso!

– O quê? E também aplaudiu a queda do Muro de Berlim?

– Claro! Até disse que a queda da URSS era uma revolução socialista!

– Pois, mas de certeza que já meteu a reforma da cruzada anti-PCP… – Choraminga o Arnaldo.

– Ainda ontem fui para um programa chamar-lhes sectários! – Revela o Rosas. Pela primeira vez, o Arnaldo ensaia um sorriso tímido.

– Lá que temos muito em comum, temos… – admite o Arnaldo – talvez a vida valha mesmo a pena! Diga-me, também votou Sampaio da Nóvoa nas presidenciais?

– Sectário! Morte aos traidores! – Grita o Rosas, levantando-se para sair.

VI Lénine, a caminho de Lisboa

Antes de morrer, em 1924, o revolucionário russo Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lénine, foi vítima de terríveis alucinações. Febril e quase paralisado, recorda a sua irmã Maria, chegou a pedir veneno a Stáline para acabar o suplício. Até aqui tudo é histórico.

Segundo o próprio, em Janeiro desse ano, o médico mandou-o apanhar um comboio para Lisboa, onde deveria ser examinado por um médico famoso. Contudo, ao chegar a Lisboa, Lénine depara-se com um mundo estranho que, dizem os jornais, é 2016. Confuso e frustrado, depois de uns dias a vaguear pela cidade, o líder comunista decide regressar à Rússia. É à espera do comboio, em Santa Apolónia, que o encontramos, humano, lúcido, intempestivo e a lutar para compreender quem é que afinal, no meio desta realidade surrealista, está mesmo a alucinar. É esta, grosso modo, a história da peça de teatro «A Última Viagem de Lénine», que a associação Não Matem o Mensageiro estreia em Outubro, no Teatro da Trindade, quando a revolução russa celebra 99 anos.

Por que razão trazer Lénine a Lisboa? O que diria o revolucionário russo se os fios de Clio se enlaçassem e o comboio o largasse nos nossos dias? Admitiria que a viagem é apenas um delírio febril ou, pelo contrário, diria é o nosso mundo que está louco?

Quando Lénine escreveu as «Teses de Abril», em que defendia a tomada de todo o poder pelos sovietes, o revolucionário Alexander Bogdanov disse tratar-se do «delírio de um louco». A sua própria companheira, Nadejda Krupskaia, escreveu: «receio que Lénine possa ter enlouquecido». E, no entanto, seis meses depois, os bolcheviques tomavam o poder e começava a mais heroica aventura da História humana. Lénine não estava louco.

Os grandes protagonistas da História não são os indivíduos, mas as classes sociais. Mas para que esta apreciação materialista nos seja útil é necessário imprimir ao estudo da vida social, único critério da verdade histórica, um dispositivo dialéctico que analise a relação entre as classes e os indivíduos que as lideram. Da mesma forma que a realidade pode e deve ser estudada de forma dialéctica, de fora para dentro, do superficial para o complexo e do aparente para o sistemático, também o papel do carácter e da personalidade dos líderes históricos deve ser considerada da classe para a família, da consciência para a acção, da atitude individual para as contradições entre a atribuição e desempenho de papeis político-sociais.

Esta proposta exige necessariamente a capacidade de desligar a avaliação política da avaliação histórica (quantos políticos anti-comunistas agradecem, mesmo que secretamente, a Estaline pela derrota do III Reich?) e as considerações morais das considerações sociais (quantos anti-comunistas reconhecem que a pobreza aumentou na Roménia desde o fim do socialismo?).

Longe da citação gratuita e descontextualizada e da cor de bronze das estátuas rectilíneas, há um ser humano extraordinário, cujo génio reduz ao ridículo o encómio, a edulcoração e a calúnia. Na sua vida como na sua obra tudo em Lénine é verdadeiramente revolucionário, avançado e destemido.

Mas não precisamos só da obra de Lénine, precisamos da sua maneira de ser. Precisamos do homem extraordinariamente humilde, que gostava genuinamente de falar com os trabalhadores e de aprender com eles. Precisamos do homem que era capaz de criticar rispidamente os seus adversários e vencê-los pela palavra. Precisamos do homem capaz de trabalhar simultaneamente com Stáline, Kollontai, Trótsky, Radek, Zinoviev, Kamenev, Bukharin e Luxemburgo.

Precisamos do homem de sensibilidade fina, que chorava a ouvir Beethoven e que memorizou o Germinal de Zola. Precisamos do homem que ia «caçar» e não disparava porque, admitia, «a raposa era demasiado bonita». Precisamos do homem que, em 1917, legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo e empossou um ministro assumidamente homossexual. Precisamos do homem que uma noite dançou na neve porque a Revolução tinha vivido mais um dia que a Comuna de Paris.

Precisamos de um homem que, como todos, também cometeu erros. Precisamos do homem que os companheiros tiveram de segurar, porque chorava tanto que quase desmaiava, no funeral de Inessa Armand.

Precisamos do refugiado e do preso político que desprezava o luxo e que, conta Gorky, mesmo nos momentos mais duros era capaz de se rir da vida à gargalhada.

Precisamos do homem que admoestou o funcionário que um dia lhe aumentou o salário e que, quando um outro dia, o segurança, que não o conhecia, lhe pediu a identificação, obedeceu e foi a casa buscar o cartão de Presidente do Conselho.

Precisamos do homem que compreendeu quando a tarefa imediata não era construir o socialismo e quando a tarefa era tomar o poder. Precisamos do Lénine que viveu mesmo, do Lénine que vive e do Lénine que viverá. Precisamos do Lénine humano.

A peça que chega em Outubro é um texto original e um trabalho biográfico singular sobre o fundador da URSS que obrigou ao estudo das principais biografias e obras do personagem histórico. Num texto cómico e acessível, confundem-se mais de cinquenta citações da sua obra e de dezenas de cartas, inéditas em Portugal e recentemente divulgadas aquando da abertura dos arquivos do PCUS.

Como se trata de um projecto sem financiamento público, em breve voltaremos a pedir a solidariedade de todos.

Sê bem-vindo a Lisboa, Volodya.

Pingo Doce (ou o dia em que os elderes apanharam)

Muito antes das infames promoções do 1.º de Maio do Pingo Doce, mais precisamente no dia 25 de Abril de 2007, aconteceu um episódio engraçado. Tinha ido ao desfile popular, em Lisboa, quando, mal saio metro, mete-se à minha frente um tipo alto, muito loiro, vestido de camisinha branca e calcinha preta, engomadinho como se fosse para um baptizado, e diz-me assim: «Tem um minuto Deus nozo sinor?» era um elder, vulgo mórmon americanus.

Subimos avenida juntos, com o gajo a tentar convencer-me a juntar-me aos mórmones e eu, por outro lado, a tentar convencê-lo a juntar-se ao desfile. A páginas tantas, o elder, cujo nome já se me foi da alembradura, confessou-me que para ele o 25 de Abril não queria dizer nada. Primeiro porque não era de cá e, segundo, porque o reino dele não era deste mundo. Tentei explicar-lhe que ele, como imigrante que, no fim de contas, era, tinha boas razões para descer avenida, nem que fosse por solidariedade. O elder disse-me que não lhe interessava a política: o desemprego, a pobreza, a injustiça e as desigualdades pareciam-lhe detalhes irrelevantes no grande esquema de deus.

Só depois é que a conversa azedou: então não é que o cabrão do elder, que há segundos jurava não se interessar por política, me explicou que achava muito bem que se trabalhasse neste feriado, porque afinal, o 25 de Abril não estava na bíblia. Mais, e aqui é a porca torceu o rabo, a igreja dele aproveitava sempre a tarde do 25 de Abril e do 1.º de Maio para ir às compras.



A conversa acabou aí e nunca mais falei com ele. Mas, nessa mesma tarde, vi-o no Chiado. Os anarquistas tinham feito a sua própria mini-concentração, voluntariamente segregados do desfile popular que, aparentemente, não era suficientemente «combativo». A bófia carregou à bruta. De todos os lados, os extensíveis acertavam em tudo o que se mexesse. Era mesmo «para limpar» e ia tudo à frente. Foi uma coisa terrível: havia sangue no chão, mulheres aos gritos e a polícia batia, batia, batia…



Mas no meio da carga, vejo o elder, com dois sacos do pingo doce nas mãos, a correr à frente de um polícia, que diligentemente o apanha e, sem qualquer travo de xenofobia, lhe presta um enorme enxerto de porrada. O elder, desesperado, sem largar os saquinhos, tentava explicar ao polícia que não tinha nada a ver com aquilo, que não queria saber de política e só tinha ido às compras, que não sabia o que se estava a passar. Mas o polícia não falava inglês e o elder não levou menos por isso.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos levava uma vergonha infinita

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, não levava “todas as minhas jóias portuguesas” nem “os meus óclos de sol”. Não, se eu fosse a Joana Vasconcelos procurava antes ajudar esta gente a fazer as malas. Porque eles obviamente não sabem.

Dir-lhes-ia que se é para viajar assim, sem ler as críticas dos hotéis, sem “o meu caderno para poder fazer os desenhos”, sem dinheiro no cartão para gastar em Paris, mais valia ficar em casa.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e visse, como no poema de António Gedeão, “o sangue gorgolejar das artérias abertas e correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas” e visse “as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, órfãs de pais e de mães, andarem acossadas pelas ruas como matilhas de cães” e visse “o grande pássaro de fogo e alumínio cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas amassando na mesma lama de extermínio os ossos dos homens e as traves das suas casas”, eu agarraria “nas lã e na agulha, para qualquer eventualidade” e faria uma obra de arte inócua: qualquer coisa não tivesse nada a ver com os vivos; qualquer coisa estéril e senil, como um naperom gigante ou um cacilheiro em filigrana ou uma pirâmide de plástico ou qualquer coisa que dissesse, assim bem alto “o meu reino não é deste mundo” ou, simplesmente, “estou-me a cagar”.

É que se eu fosse a coqueluche travestida de artista da direita neoliberal, não poderia, mesmo que quisesse, saber como é. Se a minha carreira artística tivesse sido um passeio de mãos dadas com os responsáveis pela destruição dos países de onde vêm os refugiados (que nem turistas sabem ser), eu levaria comigo uma absoluta indiferença pela vida de quem é obrigado a deixar tudo: a família, a casa, a segurança, e também os “óclos” de sol, “as lãs” e o i-pad, para saber o que se passa no mundo.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não poderia parecer solidária mesmo que o piano na música de fundo mo exigisse. Porque, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, saberia que só se pode ser solidário com quem partilha, por mais ínfima que seja a partilha, da nossa condição.

É que se eu fosse a Joana Vasconcelos nunca, nunca (!) estaria naquela condição porque estaria sempre do outro lado: do outro lado das jaulas de arame farpado onde dormem as crianças que não podem passar; do outro lado da linha mediática que separa, por classes, os refugiados, migrantes, os viajantes e os turistas; do outro lado da Europa fortaleza; do outro lado da Comissão Europeia; do outro lado da arte, com o bricolage anabolizante e hiperbolizante; do outro lado da barricada.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não valeria a pena pedir-me para, como no poema, “lutar até ao desespero da agonia” nem para escrever “com alcatrão nos muros da cidade ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA”. Mas, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, como, de uma certa forma mais demorada, todos nós fugimos, teria que levar comigo, para o resto da vida, uma vergonha infitina.

O Homem na Jaula: racismo e capitalismo*


No Verão de 1906, o número de visitantes do Jardim Zoológico do Bronx triplicou. Segundo os registos oficiais do Zoo nova-iorquino, durante o mês de Setembro, eram mais de 40 mil os curiosos que, diariamente, pagavam bilhete para ver a jaula com os próprios olhos. Numa placa junto às grades, podia ler-se: «O Pigmeu Africano Ota Benga. Idade, 23 anos. Altura, 1,25m. Trazido do rio Kasai, Estado Livre do Congo, pelo Dr. Samuel P. Verner».

Quando a história de Ota Benga começa, a escravatura já tinha sido abolida nos EUA há 40 anos, mas o grande capital tinha herdeiros promissores. Foi William John McGee, presidente da prestigiada Associação Antropológica Americana, que solicitou à comunidade científica «a captura de africanos pigmeus» para exibição na Exposição Mundial de St. Louis de 1904. Os EUA eram então o epicentro mundial das teorias eugénicas sobre a «superioridade branca» que mais tarde inspirariam Hitler e a Expo de 1904 arrogava, orgulhosa, o «Império Americano» exibindo em jaulas dezenas de homens e mulheres de diferentes povos. Ota Benga era um deles.

Segundo o relato do autoproclamado «explorador e etnólogo» Paul Verner, o jovem Ota Benga fora «salvo de uma tribo de canibais e ficou muito feliz por se poder juntar a nós». Mais tarde, Verner admitiria que o adolescente fora comprado como escravo, por cinco dólares, ao Governo belga. O Rei Leopoldo II, genocida responsável por mais de 10 milhões de mortos e amigo pessoal de Verner, confessou-se «tão entusiasmado com a caçada» que quis participar pessoalmente. Mas não foi necessário caçar: o governo belga conduziu Verner ao mercado de escravos de Bassongo e, entre centenas de prisioneiros mutilados, uns sem mãos, outros sem orelhas, o «etnólogo» escolheu e comprou nove jovens da tribo mbuti, o mais novo com apenas 12 anos. Ota Benga é, dos nove, o único cujo destino nos é conhecido.

A manchete do St. Louis Pot-Dispatch de 26 de Junho era «Africanos Pigmeus na Expo» e, no interior, podia ler-se «Pigmeus requerem dieta de macaco». Preso dentro de uma jaula, Ota Benga era o centro das atenções do «mundo civilizado»: os homens picavam-no com bengalas para forçá-lo a mexer-se, as crianças gritavam-lhe e atiram-lhe pedras, as senhoras riam. Mais tarde, no Jardim Zoológico do Bronx, onde a tortura continuou, vários visitantes descrevem como Ota Benga, fechado numa cela com um orangotango, se tornara apático e indiferente às provocações das multidões.


Foi então que James Gordon, um religioso afro-americano, declarou guerra ao espectáculo degradante. «A nossa raça já está deprimida o suficiente sem que nos exibam junto de símios. Somos dignos de sermos considerados seres humanos», escreveu o reverendo numa carta ao New York Times. O editor do jornal respondeu que «os pigmeus são muito inferiores na escala humana» acrescentando que «a sugestão de que Benga devia estar numa escola em vez de numa jaula ignora a alta probabilidade de que uma escola seria para ele um lugar de tortura. A ideia de que todos os homens são iguais em tudo excepto nas oportunidades é uma ideia extremamente anacrónica».

Mas à pressão exercida pelos afro-americanos somou-se a resistência de Ota Benga, que tinha aprendido inglês sozinho e usava a nova língua para denunciar a sua situação aos visitantes do jardim zoológico. A gota de água chegou, em 1906, quando Benga, usando uma faca roubada, se defendeu de um grupo de agressores. Finalmente, no dia 28 de Setembro de 1906, Ota Benga foi libertado e acolhido num orfanato para negros, onde teve acesso à educação básica. Depois, trabalhou numa fábrica de tabaco em Lynchburg, na Virgínia. Segundo os que o conheceram pessoalmente, era um homem bom que gostava de andar descalço e tinha nas crianças os melhores companheiros e amigos. Ensinava os rapazes a caçar e contava-lhes histórias sobre a vida no Congo. As crianças costumavam observá-lo a acender uma fogueira para cantar na sua língua e dançar conforme a sua cultura. Estava, contava aos vizinhos, a planear a viagem de regresso para África. 

A I Guerra Mundial veio paralisar as viagens transatlânticas e travar os planos de Ota Benga. Dizem os relatos coevos que, lentamente, tornou-se taciturno e deixou de brincar com as crianças. Então, na noite de 20 de Março de 1916, há precisamente 100 anos, as crianças de Lynchburg viram-no acender uma fogueira cerimonial. Terá dançado e cantado toda a noite. Mas dessa vez, antes da manhã romper, suicidou-se com um tiro no coração. 

Uma só raça, a raça humana

Cem anos é muito tempo dirão alguns. O racismo não era «normal» há um século? Perguntarão outros. Será que a triste história de Ota Benga foi apenas um infeliz anacronismo histórico? Toda a História é anacrónica no sentido em que se move de contradição em contradição. Como Cronos, o deus do tempo que na mitologia grega devorava os seus próprios filhos, a História devora-se a si mesma alimentando-se, na eterna luta entre as classes, das classes e das contradições que ela própria gerou. O próprio conceito de «raça», que hoje em dia se insiste em usar, é anacrónico: há mais de meio século que a comunidade científica nos diz que este termo não faz sentido. A única raça humana é a humanidade.

Por outro lado, o racismo é ele mesmo tão anacrónico hoje como há trezentos anos. Muitas sociedades antigas conheciam a xenofobia e a escravatura, mas eram alheias ao conceito de raça e consideravam a cor dos olhos, da pele e do cabelo meras ocorrências geográficas. A escravatura, por exemplo, dependia da guerra ou da classe social mas não da cor da pele.

O racismo, como o conhecemos hoje, é uma construção ideológica do capitalismo, uma invenção para legitimar a hierarquia social. Com efeito, entre as primeiras demonstrações de racismo da História, o anti-semitismo coincide com a incubação do capitalismo a partir do século XIII. A escravatura foi indispensável ao desenvolvimento do capitalismo e do «mercado livre» e o racismo deu-lhe a base ideológica. Nas palavras de Malcolm X, «não há capitalismo sem racismo».


Marx escreveu que «o trabalho de pele branca nunca poderá ser livre enquanto o trabalho de pele negra for marcado como gado». O racismo continua a ser usado hoje em dia, como há cem anos, para dividir o proletariado por cores, legitimando a discriminação com falsos pretextos naturais e, por outro lado, justificando a negação das próprias promessas da burguesia: «liberdade, igualdade, fraternidade». A vida privada Thomas Jefferson, um dos «pais fundadores» dos EUA, reflecte este mecanismo: o autor da Declaração da Independência, famoso por afirmar que «todos os Homens nascem iguais», não via qualquer contradição em ser proprietário de 50 escravos, porque, afinal, se todos os homens nasciam iguais, os afro-americanos não eram humanos.

Na semana em que se assinala o Dia Internacional contra a Discriminação Racial devemos questionar-nos por que razão subsistem estes «anacronismos». É que, lembremo-nos, os captores de Ota Benga eram «civilizados», «democráticos», «desenvolvidos» e «cosmopolitas». E recordemos também que, «anacronicamente», poucos meses depois da morte de Benga, na Rússia Czarista, uma das regiões mais atrasadas do mundo, começava a construção mais avançada da humanidade. E o princípio do fim do racismo.


*Versão parcial de um artigo publicado no jornal «Avante!» n.º2208 de 24 de Março de 2016.

Nas ruas sobra o espaço que não cabe no orçamento

Há poucos dias, conversava com um amigo sobre o Orçamento do Estado proposto pelo PS e aprovado, na generalidade, com os votos do PEV, do BE e do PCP.

Sentados na Praça do Município lisboeta e separados pelo já tradicional tabuleiro de xadrez, o debate discorria previsivelmente entre as duas balizas do governo de Costa. Por um lado, a travagem do rumo renitido por PSD e CDS-PP, com importantes, embora tímidos, sinais de inversão de marcha.
É inegável, neste campo, o impacto social de algumas medidas já aprovadas como o fim dos cortes salariais para os trabalhadores da administração pública, a redução da sobretaxa de IRS, a restituição de 4 feriados roubados, a redução da taxa máxima de IMI, a redução das taxas moderadoras, o início da gratuitidade progressiva dos manuais escolares, o congelamento da propina máxima, a redução do IVA na restauração, o novo apoio a desempregados de longa duração, a revisão da base de cálculo das contribuições dos trabalhadores independentes ou as medidas de Combate à precariedade na Administração Pública e no Sector Empresarial do Estado.

Por outro lado, quem pode ignorar a incapacidade do PS de debelar as causas estruturais da crise económica que condena o nosso povo à miséria? Das privatizações da EGF à CP Carga passando pela política de nacionalização dos prejuízos dos banqueiros, o PS continua atavicamente amarrado à sua história e à sua classe.

O resultado, concordávamos os dois, é perigosamente exíguo: o salário mínimo de miséria, a falta de funcionários públicos, as 40 horas de trabalho, a submissão à dívida usurária e aos caprichos da EU… tudo neste governo é parco, insuficiente e, em demasiados casos, avoengo e fétido de Passos.

Eis então o busílis: qual é a utilidade de uma pequena concessão que não resolve o problema fundamental?

Reformismo, esquerdismo e coerência

O reformista argumentaria qualquer coisa em mal menor, asseverando que o mundo só avança de mal para pior. O reformista começaria o discurso com «É assim,» e lembrar-nos-ia da nossa fraqueza para sugerir, de seguida, voltar a receitas caducas e esgotadas para mais e novas cedências falidas como quem responde a mensagens de spam ou investe num vídeo-clube em Vila Nova de Gaia ou num Centro de Formação de Formadores de Empreendedores.

Já o esquerdista recusaria todo e qualquer compromisso e, batendo no peito, reafirmaria que como é contra a exploração não pode defender aumentos salariais. Como um rato que mexe mas não clica ou uns óculos muito bonitos mas sem graduação, o esquerdista diria que prefere o Passos no poder à manifesta insuficiência do Costa. Pouco tempo depois, estaria a dizer que com o Salazar é que era bom e a augurar cenários mais negros que o coração de um patrão de uma empresa de trabalho temporário.

Já o revolucionário, diria que as conquistas e as reformas só valem na medida em que sirvam para alavancar novas conquistas, demonstrando aos trabalhadores que é possível avançar e acentuando por esta via as contradições do capitalismo. Neste sentido, as reformas são úteis sempre que nos deixarem mais próximos da revolução.

Acabámos por concordar os dois que o Governo é só do PS mas que a possibilidade de avançar não depende dele porque o PS e a vontade do PS dependem só dos interesses de grandes empresários e banqueiros. O proveito deste governo para quem trabalha só pode estar dependente da luta de quem trabalha e da sua capacidade de exigir e conquistar nos locais de trabalho e nas ruas o que só as ruas podem dar. É pela luta que vamos lá.