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«Nós também estivemos lá… por pouco» por Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

Celebrar Abril e Maio não pode ser só estética. É sempre um momento de resistência necessário. Celebrando-se aquilo que foi, reivindica-se o que já não é. Celebramos a luta antifascista e as conquistas arrecadadas. Afirmamos a urgência dos direitos que nos são retirados, que a nossa geração já não conheceu, mas que também não esqueceu. A celebração de Abril e Maio não se ancora numa evocação identitária oca e simplista, mas sim num pulsar de exigências que nos é quotidiano.

A produção cultural, no contexto actual, já é em sim um acto de resistência, sobretudo quando politicamente posicionada, sobretudo em Abril e Maio. Elas também estiveram lá é mais do que a reivindicação da memória histórica e muito mais que uma celebração. A verbalização não sai fácil, a selecta audiência e a imediatez passional da época dificultam a tarefa, mas exigem-se umas linhas sobre as que resistiram, as que lutaram e as que as transformaram – a elas e às suas histórias – em símbolos de luta. Uma peça que, por se posicionar política e ideologicamente sem descurar o sentido estético, tem (ou teria) a capacidade de impactar públicos vastos. Uma peça que conjugando cinema, música, literatura, fotografia e teatro mostra que as opções estéticas são em si veículos de mensagens. Neste caso, numa só peça, a confluência de artes para uma construção colectiva. Uma peça de teatro político que fomenta o sentido crítico e levanta questões sem apontar, à partida, a direcção certa para o processo de reflexão de cada espectador.

Elas. Elas, as mulheres da resistência antifascista, de Abril e Maio, e do PREC. Uma produção que escapa a um cânone de arte militante assente no evento, Elas viajaram e fizeram-nos viajar entre os três momentos que, em comum, têm a resistência e a luta. A resistência e a luta delas que não foi – nem é – a mesma que a deles. Mas, mais do que dar visibilidade às narrativas da Teresa, da Júlia ou da Eugénia, por oposição à resistência e à luta do Domingos, do Vítor ou do Henrique, mostraram-nos como o processo revolucionário foi construído em conjunto, como formas de opressão desaguaram em formas de transformação de classe, de género, de sociedade e de cultura. Elas, que continuam de fora das narrativas oficiais. Elas, que não desistiram das suas reivindicações em Abril de 1974 e, menos ainda, em Novembro de 1975.

Com elas participamos num jogo de espelhos entre ausências e presenças, num confronto entre os actores estabelecidos da nossa memória colectiva e as figuras (femininas) que passaram os últimos 40 anos a julgar que não tinham nada para contar. Trouxeram relatos que iluminam as particularidades de viver mulher durante o fascismo, sobretudo na sombra do quotidiano, da intimidade. A brutalidade de viver mulher sob a asa de um homem – primeiro o pai, depois o marido. Violações conjugais ou abortos clandestinos e solitários – porque o pão não chegava para mais um, os contraceptivos não existiam e o maridinho tinha vontades. A tortura pela PIDE que era tudo o que foi para o Zé, o Pedro e o António, mas para a Georgete, a Conceição e a Aurora revestia-se ainda do machismo sistémico, com humilhação sexual, exposição de nudez e chantagem através dos filhos. Nesta peça, ao iluminar-se o que era viver mulher não se apaga que nem todas as mulheres estavam em pé de igualdade. As mulheres trabalhadoras do Couço não se confrontavam com as mesmas dificuldades da mulher que vivia na Avenida e que escondia as suas leituras proibidas. A livreira, filha de trabalhadores, que estudava na escola comercial e não tinha dinheiro para comprar um dicionário não é a Teresa que foi expulsa do liceu por distribuir propaganda. Mas até sobre isto a peça nos põe a reflectir, sobre a importância da opção de classe.

Neste jogo do ausente e presente, surgem paralelismos com a resistência espanhola, com o que foi lá e cá, numa península que aguentou as mais longas ditaduras europeias. Está ausente da peça, talvez porque só agora começa a surgir na discussão da memória colectiva, relatos do que se passava nas colónias. Relatos das Elas (e eles) que no hemisfério contrário se debatiam contra uma guerra colonial, contra a morte quase certa, contra um fascismo que as considerava menos que humanas.

Ainda há muito caminho a percorrer, mas para isso elas (nós) estão a fazer a sua parte.

Como é que as mulheres desta peça também estiveram lá? Talvez ainda estejam a tentar descobrir. O Teatro do Vestido foi uma das companhias que não recebeu financiamento da DGArtes. Sem financiamento desde Janeiro, as actrizes asseguram os compromissos contratuais já estabelecidos. Até quando é que, nestas condições, elas vão continuar a estar lá?

Como é que nós também estivemos lá? Ainda nem nós sabemos bem. A EGEAC anunciou os poucos dias que a peça estaria em cena (já começa a ser hábito uma programação que serve mais para marcar calendário do que promover uma efectiva política cultural). Condições: 20 bilhetes diários, 2 bilhetes por pessoa levantados no próprio dia a partir das 13h. Local: Cinema São Jorge. Como: Chegada a meio da manhã para marcar lugar. Resultado: 18 bilhetes reservados pela EGEAC, 2 disponíveis. Um cenário que se repetiu como tema e variações nos restantes dias. Fosse isto um momento isolado e estaria a cidade de Lisboa bem servida em matéria de política cultural. O desinvestimento é um dos sintomas da incompreensão do papel da cultura numa sociedade (ou então por compreenderem bem demais). A política de compadrio e de desrespeito pelo público é outro. A cidade de Lisboa e o país precisam de uma política cultural séria, que não se guie pelo monopólio da EGEAC e dos interesses privados que com ela se movem.

O país precisa que elas continuem lá e que ela – a cultura – esteja sempre lá.

*Autor Convidado
Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Desta vez foi anunciado o fim do Teatro da Cornucópia. Naturalmente, não somos indiferentes a esta decisão e notícia, mas também não ficamos surpreendidos. É cada vez mais frequente vermos estruturas e projectos a encerrar ou a prosseguir à custa da descaracterização profunda do seu projecto artístico. Quem seguiu o trajecto de desinvestimento público na criação artística sabia bem que os actos resultariam em empobrecedoras consequências, o encerramento da Cornucópia é uma das mais visíveis.

Entre muitas declarações públicas, ouvimos o Presidente da República, debaixo dos focos da comunicação social, indagar o Ministro da Cultura sobre possíveis soluções para um caso concreto. Preferíamos que o Presidente da República se tivesse indagado publicamente sobre como foi possível, décadas a fio, sucessivos governos desrespeitarem a Constituição e terem activamente contribuído para o definhamento do tecido social da criação artística em Portugal. O esvaziamento contínuo da criação artística conduz a um consequente empobrecimento da sociedade e da sua capacidade de expressão. Contrariar este esvaziamento é garantir-lhe a liberdade a que tem direito.
É preciso manter abertas todas as portas de projectos e estruturas que trabalham por esse país fora e deixar abrir todas as outras que se fecharam ou estão por abrir. Em todo os lugares, em todas as áreas artísticas, os mais diferenciados projectos de criação independente caminham num fino e frágil arame que ao menor deslize se romperá com a garantia certa da irreversibilidade dessa ruptura. São muitos os programas que ficam por cumprir, os espectáculos que têm ficado por fazer, os filmes que não são produzidos, os projectos que não chegam a realizar-se. São muitos os trabalhadores e trabalhadoras que têm ficado sem trabalho, que têm emigrado, que têm desistido de fazer aquilo que sabem fazer. São milhões aqueles que ficam impossibilitados de ver, ouvir, experimentar e sentir de outro modo.

Quando um cada vez maior consenso insiste na necessidade de reforço substancial do financiamento da actividade artística, não o faz por mero capricho. Fá-lo porque sabe que essa é a única forma de garantir que a criação e fruição culturais, tal como o exige a letra da Constituição, são acessíveis a todas as pessoas neste país, independentemente da sua condição social, vivendo nos centros urbanos ou na mais recôndita aldeia, interessadas ou envolvidas nas mais diversas formas de expressão. E é por isso que as estruturas de criação são financiadas: para cumprirem a prestação de um serviço público de qualidade e para que a criação artística seja diversificada e não fique refém da sua mercantilização.

E por mais que haja quem diga que muito há a fazer para lá dos números – e há -, enquanto a questão primordial do financiamento não for resolvida, teremos sempre esse muro imenso a separar-nos da possibilidade de levar a cabo tranquilas e detalhadas análises de fundo que possam lançar as bases para decisões sustentadas e informadas sobre o serviço público de cultura que gostaríamos de ter.

O que nos une não são consensos sobre formas de gestão, muito menos sobre escolhas estéticas. Une-nos sim a complexa mas indispensável garantia da democraticidade e da diversidade cultural e artística. Une-nos a necessidade de manter abertas as portas das estruturas de criação existentes e de criar as condições para o aparecimento de outras portas. Porque são abomináveis os fins prematuros a que temos assistido e a que poderemos continuar a assistir, em que tanta e tanta gente não chega sequer a descobrir o tanto que tinha ainda por dizer.

O apelo que fazemos não é apenas dirigido aos diferentes órgãos de soberania e às entidades públicas que diariamente fazem o Estado funcionar. O apelo que fazemos é dirigido a todas as pessoas que ao lerem esta carta aberta se recusem a aceitar o fim prematuro de tantos projectos artísticos, para que exijam a possibilidade de ver nascer, crescer e consolidar todos os projectos que a arte deste país lhes puder oferecer. Que se recusem a aceitar que a precariedade, os baixos salários, o trabalho não-remunerado e a negação de tantos direitos laborais sejam a forma de sustentar a actividade artística. Que se recusem a aceitar que o país continue a querer desenvolver-se sem respeitar um dos vectores mais decisivos para a sua democratização, a Cultura.

Então, este apelo é simples:

Não há tempo a perder. 1% do Orçamento do Estado salva mil cornucópias. Lutemos por isto. Exijamos este compromisso.

SUBSCREVEM

Alexandra Diogo – actriz
Alexandra Lázaro – psicóloga clínica
Alexandra Lourenço – arquivista
Alexandre Alves – assistente de realização
Alex Cortez – músico
Alfredo Brito – actor e locutor
Alípio Padilha – fotógrafo de cena
Amarílis Felizes – economista
Ana Alves Miguel – funcionária da administração local
Ana Araújo – professora
Ana Brandão – actriz
Ana Caetano – bailarina
Ana Cláudia Serrão – músico
Ana Figueira – directora artística
Ana Filipa Martins – bióloga
Ana Jacobetty – pianista
Ana Lázaro – actriz, dramaturga e encenadora
Ana Nicolau – realizadora
Ana Moura – fadista
Ana Mourato – encenadora e actriz
Ana Paula Santos – professora
Ana Pereira – produtora teatral
Anabela Laranjeira – professora
André Albuquerque – actor
André Levy – biólogo e actor
André Vazão – estudante
Andreia Bento – actriz
Andreia Salavessa – arquitecta
Ângela Cerveira – técnica de cinema
António Amaro das Neves – historiador
António Durães – actor
António Sousa Dias – compositor e professor
Armando Possante – cantor e professor
Áurea Duarte Ferreira – professora

Beatriz Maia – estudante de teatro
Beatriz Peixoto – estudante
Bruno Raposo Ferreira – psicólogo clínico e investigador
Bruno Schiappa – actor e encenador

Camila Reis – ilustradora
Carla Bolito – actriz
Carla Veloso – actriz
Carlos de Andrade – economista
Carlos Borges – actor
Carlos Costa – dramaturgo, encenador e actor
Carlos Seixas – produtor musical
Carlos Vidal – professor universitário e crítico de arte
Carlota Lagido – coreógrafa, figurinista e bartender
Catarina Molder – cantora lírica, gestora cultural, apresentadora
Catarina Moura – cantora
Catarina Mourão – realizadora
Catarina Rôlo Salgueiro – actriz
Cátia Barros – cenógrafa e figurinista
Cátia Pinheiro – encenadora
Célia Machado – produtora executiva
Célia Williams – actriz
Cláudia Cláudio – professora
Cláudia Dias – coreógrafa
Cláudia Lucas Chéu – dramaturga e encenadora
Cláudia Marisa Oliveira – docente
Cláudia Silvano – produtora
Cristina Maria Figueiredo – professora
Cristina Planas Leitão – coreógrafa
Cristina Santos – professora de dança e gestora cultural
Cucha Carvalheiro – actriz
Custódia Gallego – actriz

Daniel Lima – músico
Daniel Moreira – artista plástico
Daniel Sousa – músico e professor
Deolindo Leal Pessoa – médico
Diana Costa e Silva – actriz
Dörte Schneider – assistente de realização

Edna Geovetty – estudante
Eduardo Carvalho Pacheco – produtor
Eduardo Costa – professor reformado e escritor
Eduardo Ribeiro – actor
Eliana Veríssimo – professora e pianista
Elsa Figueiredo – bibliotecária reformada
Elsa Valentim – actriz
Emanuel Arada – actor

Fátima Leal – assistente social
Fátima Rolo Duarte – designer
Fernanda Lapa – actriz e encenadora
Fernando Jorge – actor
Filipa Malva – cénografa e figurinista
Filipa Prates Coelho – produtora
Filipa Vala – bolseira de pós-doutoramento em divulgação e comunicação de ciência
Filipe Melo – músico
Francisco Rebelo – músico

Gil Cabugueira – direcção de produção
Graeme Pulleyn – encenador

Hugo C. Franco – técnico de luz e criador multimédia
Hugo Lemonnier – estudante

Idália Tiago – socióloga
Igor Gandra – director artístico e encenador
Inês Barbedo Maia – produtora de teatro
Inês Lago – actriz e encenadora
Inês Meira – estudante
Inês Gomes – estudante
Inês Gregório – produtora
Íris Reis – assistente de realização
Issac Achega – músico
Isabel Anastácio – reformada
Isabel Casimiro – professora reformada
Isabel Craveiro – actriz e encenadora
Isabel Medina – actriz e encenadora
Isabel Lebre – assistente de realização
Isabel Pereira – secretária
Isilda Sanches – locutora de rádio
Ivo Costa – músico

JP Simões – músico
Joana Almeida – actriz
Joana Brandão – actriz e encenadora
Joana Dourado – bolseira e cantora
Joana Gomes – cenógrafa
Joana Gusmão – produtora
Joana Lourenço Cardoso – directora de arte
Joana Manuel – actriz
Joana von Mayer Trindade – coreógrafa, bailarina e professora
Joana Providência – coréografa
João Barreiros – técnico de luz
João Cabrita – músico
João Castro – actor
João Gesta – programador cultural
João Hasselberg – músico
João de Mello Alvim – encenador
João Monge – autor
João Nuno Martins – produtor
João Paulo Janicas – professor
João Pedro Rodrigues – realizador
João Sotero – escultor
João Sousa – músico
John Havelda – professor universitário
Jonathan de Azevedo – designer de luz
Jorge Cadima – professor universitário
Jorge Ferreira da Costa – assistente de realização
Jorge Louraço Figueira – dramaturgo
Jorge Palinhos – docente
Jorge Silva – actor
José Arruda – antropólogo
José Carlos Faria – cenógrafo
José Carlos Nelas – enfermeiro
José Castela – professor
José Gusmão – economista
José Laginha – bailarino e director artístico
José Leite – actor
José Luís Ferreira – produtor e programador
José Luís Lopes – assistente de realização
José Nunes – encenador
José Peixoto – actor e encenador
José Russo – actor e encenador

Kimi Djabate – músico

Lara Li – cantora
Lígia Roque – actriz e encenadora
Lígia Soares – coreógrafa e actriz
Loubet Simões – técnico de conservação e restauro
Luciana Fina – realizadora
Luísa Ortigoso – actriz
Luís Castro – encenador e investigador
Luís Gaspar – actor
Luís Lopes – músico
Luís Pacheco Cunha – músico
Luís Pedro Madeira – músico
Luís Possolo – poeta

Mafalda Simões – directora de produção e comunicação
Manuel Gusmão – poeta e ensaísta
Manuel Loff – historiador
Manuel Mendonça – actor
Manuel Rocha – músico e professor
Manuela Pires – jurista
Márcia Lima – actriz
Margarida Madeira – animadora e ilustradora
Margarida Pinheiro – professora e cantora
Margarida Rita – produtora teatral
Margarida Sousa – actriz
Marlene Duarte – podologista
Maria Alice Samara – historiadora
Maria Anadon – cantora
Maria Gusmão – técnia superior da admin. pública
Maria Helena Alves – empregada sindical reformada
Maria João Fura – músico e cantora
Maria João Garcia – produtora
Maria João Luís – actriz e encenadora
Maria João Simões – directora técnica e de cena
Maria de Lurdes Nobre – produtora cultural
Maria Manuel Ferreira de Almeida – técnica superior FLUC
Maria do Mar – músico
Maria Sequeira Mendes – professora de teoria do teatro
Mariana Magalhães – actriz
Mário Afonso – bailarino e coreógrafo
Marlene Cavaco – conservadora restauradora
Marta Bernardes – artista plástica e de cena
Marta Carreiras – cenógrafa e figurinista
Marta Manuel – professora e músico
Marta Pinho Alves – professora do ensino superior politécnico
Marta Silva – bailarina
Matamba Joaquim – actor
Miguel Bonneville – artista
Miguel Gonçalves Mendes – realizador
Miguel Moreira – artista
Miguel Oliveira (MOLÉCULA) – rapper
Miguel Pires Ramos – director de programas tv
Mónica Calle – actriz e encenadora
Mónica Garnel – actriz
Mónica Talina – actriz e produtora cultural

Nádia Monteiro – assessora de imprensa
Nélson Duarte (Sr. Alfaiate/DJ Nelassassin) – dj hip hop
Nuno Almeida – assistente administrativo da CML
Nuno Góis – actor
Nuno Grácio – músico
Nuno Machado – actor
Nuno Pinto Custódio – encenador
Nuno Vieira de Almeida – músico

Octávio Gameiro – professor, autor e tradutor
Ofélia Libório – educadora de infância
Olga Roriz – coreógrafa
Orlando Santos – músico

Patrícia Calais Garcia – técnica superior da Seg.Social
Patrícia Santos Pedrosa – arquitecta e investigadora
Paolo Marinou-Blanco – realizador e argumentista
Paula Almeida Silva – assistente de produção
Paulo Capelo Cardoso – artista plástico e cenógrafo
Paulo Montez – produtor
Paulo Moura Lopes – actor
Paulo Raposo – antropólogo e docente universitário
Pedro Barbosa – produtor
Pedro Estorninho – encenador
Pedro Gil – actor
Pedro Jordão – arquitecto
Pedro Lamas – actor e professor de teatro
Pedro Madaleno – músico
Pedro Madeira – assistente de realização
Pedro Penilo – artista plástico
Pedro Pernas – actor
Pedro Pestana – músico
Pedro Pousada – artistas plástico e professor universitário
Pedro Rodrigues – produtor teatral
Pedro Sabino – argumentista
Pedro Sousa Loureiro – actor, encenador e artista plástico
Pedro Vieira – guionista

Rafaela Lacerda – bióloga e encenadora
Raquel Bulha – locutora de rádio e tv
Raquel Castro – actriz
Raquel Castro – investigadora
Renata Sancho – realizadora
Renato Azul – músico e videógrafo
Ricardo Alves – encenador
Ricardo Correia – encenador
Ricardo Neves-Neves – encenador e actor
Ricardo Pinto – músico
Ricardo Vaz Trindade – actor
Rita Cruz – actriz
Rita Maia – dj
Rita Namorado – pianista e professora
Rita Natálio – performer, escritora e investigadora
Rita Santos – produtora
Rita Saraiva Grade – bailarina
Rita Simões – professora
Rita Veloso – professora
Rodrigo Malvar – actor e artista sonoro
Rogério Nuno Costa – artista
Romeu Costa – actor e encenador
Romeu Runa – bailarino
Rui Alves – músico
Rui Ferreira – criativo
Rui Francisco – arquitecto e cenógrafo
Rui Galveias – músico e artista plástico
Rui Guerra – músico
Rui Júnior – músico
Rui Monteiro – desenhador de luz
Rui Pité (RIOT) – músico
Rui Valente – director técnico

Sandra Cristina Rodrigues – bancária
Sara Barbosa – encenadora e actriz
Sara Carinhas – actriz e encenadora
Sara Gonçalves – actriz e encenadora
Sara Trindade – assistente social
Sara Vaz – bailarina e actriz
Saúl Falcão – professor e músico
Sebastião Faro – publicitário
Sérgio Alves – designer
Sérgio Dias Branco – professor universitário
Sérgio Godinho – músico e escritor
Sérgio Machado Letria – gestor cultural
Sílvia Filipe – actriz
Sónia Arantes – produtora
Sofia Oliveira – directora de produção
Sofia de Portugal – actriz
Sofia Reis – produtora executiva
Susana Bilou Russo – antropóloga
Susana Fonseca – decoração
Susana Moody – músico
Susana de Sousa Dias – realizadora

Tadeu Faustino – actor
Tânia Alves – actriz
Tânia Guerreiro – actriz
Tânia Guerreiro – gestora cultural
Teresa Almeida – administrativa
Teresa Carvalho – artista plástica
Teresa Coutinho – actriz
Teresa Faria – actriz e encenadora
Teresa Lopes – professora
Teresa Miguel – directora de produção
Teresa Sobral – actriz
Thomas Walgrave – director artístico
Tiago Baptista – conservador de cinema
Tiago de Lemos Peixoto – dramaturgo
Tiago Mota Saraiva – arquitecto
Tiago Santos – músico
Tiago Silva – montador de som
Tomás Pimentel – músico
Tó Trips – músico

Vanda Cerejo – actriz
Vânia Couto – cantora, coordenadora de projectos e professora
Vânia Rovisco – coreógrafa e performer
Vasco Araújo – artista plástico
Vasco Nogueira – médico
Vasco Paiva – engenheiro florestal
Vasco Peres – maquinista de cena
Vasco Pimentel – director de som
Vera Marques – produtora
Vera Moura – estudante
Vera Silva – perchista
Vicente Alves do Ó – realizador
Vítor d’Andrade – actor
Vítor da Glória Silva – bancário reformado
Victor Pinto Ângelo – assistente de produção

Zézé Gamboa – realizador
Zillah Branco – socióloga

Mensagem de Gregório Duvivier aos trabalhadores portugueses do espectáculo e do audiovisual


No Brasil luta-se. Luta-se pela democracia, pela manutenção de alguns direitos sociais e laborais que os governos do PT conseguiram implementar, luta-se pela decência. O actor, poeta, cronista, ilustrador e homem de ainda mais instrumentos, Gregório Duvivier, mais reconhecido em Portugal como “aquele da Porta dos Fundos”, tem estado na linha da frente destas lutas e também na luta contra o desaparecimento do Ministério da Cultura no Brasil.

O Gregório está em Portugal, com o seu espectáculo “Uma Noite na Lua” e o CENA – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, foi conversar com ele. Falou-se da situação dos trabalhadores do sector em Portugal, comparou-se essa situação com a dos trabalhadores brasileiros. O Gregório ficou de olhos esbugalhados com as condições em Portugal. Sendo certo que no Brasil há ainda muitas conquistas a serem feitas, o que ele transmitiu ao CENA é que os trabalhadores brasileiros deste sector são respeitados, têm direito à vida. Isto é, têm contratos de trabalho, os horários são cumpridos, existem tabelas salariais, etc.

E porque é que isto acontece? Porque os sindicatos do sector têm força, porque os trabalhadores se organizam, porque só com gente dentro é que os sindicatos estão vivos, actualizados, aptos a agir, a intervir. Porque a força de um sindicato de classe é mesmo proporcional ao número de trabalhadores sindicalizados.

Neste momento o CENA e o STE, estão a trabalhar em conjunto na preparação de propostas para criar instrumentos de regulamentação das profissões do sector, para acabar com o trabalho não remunerado, para evitar que a precariedade seja o prato do dia, para que os trabalhadores do sector vejam reconhecidos os seus vínculos, para que tenham acesso aos direitos laborais e sociais de qualquer trabalho por conta de outrem, para que as especificidades das profissões do sector sejam reconhecidas.

Se formos 100 a exigir estes instrumentos de regulamentação, tanto o poder político como os patrões podem bem assobiar para o lado, se formos 1.000 o assobio já nos olha de lado, se formos 10.000 ou mais a única solução que vão ter é olhar-nos de frente, reconhecer a nossa força e a justeza da nossa luta. Respeitarem a nossa luta. Respeitarem-nos.

Um sindicato também serve para isso, para que os trabalhadores sejam respeitados, o Gregório sabe disso e quis deixar esta mensagem aos seus colegas portugueses. Se noutros países já nos respeitam, do que é que ainda estamos à espera em Portugal?

Espalhem a notícia.

Democratizar a Cultura, valorizar os seus trabalhadores

O PCP tem feito uma série de audições públicas que visam recolher depoimentos, propostas e ideias que possam enriquecer o programa eleitoral a apresentar às eleições legislativas. No dia 18 de Maio, foi a vez da Cultura, num debate bastante participado e intitulado “Democratizar a Cultura, Valorizar os seus Trabalhadores”.

Deixo aqui a intervenção final de Jerónimo de Sousa e sublinho o parágrafo final: “A política patriótica e de esquerda e a democracia que os comunistas portugueses defendem e propõem não podem ser separadas umas das outras e a própria democracia política, tal como a queremos construir e mesmo como queremos defender, depende de uma cultura que vá para além da estreita doutrinação da classe dominante, da monocultura das grandes produções de entretenimento, da visão ideológica neutralizante ou entorpecedora que o poder reinante impõe. Depende de uma cultura que se afirme como portadora de valores humanos, mas igualmente valores sociais de transformação e progresso.”

Ser actriz no país da austeridade, por Luisa Ortigoso

2 Série “Ser no país da austeridade”

COISAS DO GLAMOUR

Quando aos 12 anos, numa reunião de família, me perguntaram o que queria ser no futuro, respondi com a certeza da adolescência: “Actriz, vou ser actriz!”. Toda a gente se riu. E eu resolvi que nunca mais ia falar sobre o assunto. E não falei.

O cheiro do teatro colava-se a mim de uma forma que tornava o caminho inevitável.

Quando aos 20 anos me estreei como actriz profissional, senti-me uma menina na véspera de Natal. Que emoção. Que felicidade. O teatro, as palavras partilhadas, os espectáculos, o público. A vida.

Tirando o facto de ter uma profissão que eu considerava “especial”, nada me separava de qualquer outro cidadão profissionalmente activo. Tinha um salário, os direitos de qualquer outro trabalhador (direito a baixa por doença, licença de parto, subsídio de desemprego em caso de necessidade…). Tudo estava certo.

Um dia houve um senhor (diz que agora é presidente da república) que acordou com uma ideia : “’bora lá dar recibos verdes a esta gente e eles que se desenrasquem!” . A ideia era tão boa que os recibos verdes, saíram azuis da tipografia…

Começou aí o nosso caminho para o calvário. Direitos, nenhuns. Deveres, todos. As passadeiras vermelhas escondem casas penhoradas, dívidas à segurança social, adultos que vivem com os pais, que não têm condições para terem os seus próprios filhos, que trabalham doentes para não perderem “aquele” trabalho, que trabalham 12 e 13 horas com cachés bastante inferiores aos que tinham há 15 anos, que (entre irs e segurança social) deixam ao estado mais de 50% do que ganham.

A minha “romântica” profissão, tornou-se numa luta diária pela sobrevivência para a maioria das actrizes e actores deste país.

O Estado (que devia ser de direito) tornou todos os trabalhadores de espectáculo em mentirosos militantes. Todos somos trabalhadores “independentes”, diz o estado (com letra minúscula, porque um estado assim não tem nada de grande em si, nem mesmo a letra).

Continuo a pensar que a Arte e a Cultura são um direito de todos (assegurado na Constituição da República Portuguesa. São um direito para quem usufrui e para quem faz da Arte e da Cultura a sua vida.

Continuo a querer ser o que sou. Mas quero os meus direitos de volta. Quero a minha carteira profissional de volta. Quero o meu estatuto profissional de volta. Quero a minha vida de volta.

*Blogger Convidado
Luisa Ortigoso, actriz

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.