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BE: O conteúdo está na forma

Sou forçado a admitir que o debate parlamentar – e refiro-me a este, que foi o único que existiu – acerca da eutanásia foi, de facto, muito útil. Não para debater as complexas circunstâncias do tema propriamente dito, cujo aprofundamento nitidamente não interessou a quem apresentou as propostas, mas sim para outros fins, bem menos “heróicos” ou “respeitadores” da “vontade dos cidadãos” que alguma ingenuidade da opinião pública pudesse antever nas defesas vigorosas da respectiva aprovação. Das várias latitudes do “interesse” que havia em fazer de forma apressada uma discussão mediática e uma votação atabalhoada, evidenciou-se, muito destacadamente na imprensa, como é habitual nestes casos, a postura pública do Bloco de Esquerda em relação ao PCP.

Não é novidade a diferença substancial entre o que se diz e faz nas bancadas de BE e PCP. Partidos diferentes, com histórias diferentes, com percursos diferentes, reflectindo em quase tudo essas diferenças e manifestando-as, entre outras dimensões, no debate parlamentar. Porém, aquilo a que se assistiu no “debate da eutanásia” (para simplificar) não se confunde com nada, rigorosamente nada, de o que alguma vez se viu ou ouviu da boca de dirigentes do Bloco em relação ao PCP. E seria totalmente errado, para não dizer até pouco responsável, que agora se afastasse da análise que imperativamente deve ser feita, a forma ou a aparência de o que foi dito, concentrando atenções em exclusivo no conteúdo ou na posição de fundo. Casos há – e este é um deles – em que a forma, o tom ou o uso de determinados termos e expressões, encerram em si mesmas não o acessório, mas o fundamental.

A partir de determinados “decibéis” não há nem pode haver espaço para debate algum. Na ambiência de determinado estilo argumentativo não pode haver a mínima correspondência ou resposta. Duvido que, por mais que se esforçasse, algum dos mais empedernidos deputados do CDS alguma vez tivesse sequer a ousadia de se referir ao PCP como o fizeram alguns deputados do BE. Duvido que o desrespeito histórico e até o cínico ataque pessoal – velado, hipócrita, cobarde – a António Filipe, pudessem ser tão evidentes se vindos de PS ou PSD. Ninguém pode, depois de ouvir com redobrada atenção aquelas intervenções parlamentares (ou reler os textos) do BE acerca do PCP e da sua posição nesta questão concreta, continuar a achar que a discorrência foi apenas “manifestação da diferença de posição”. Não foi.

Isto pode ter sido novidade para uns, adivinhável não novidade para outros. O que não pode haver é indiferença, assobios para o lado, desvalorização. E impõe-se uma reflexão séria, colectiva, firme.

Não Sr. Presidente, não temos nada que agradecer a Passos Coelho! Nada!

Vindo do lado do PS não espanta, mas é necessário mesmo assim repudiar os circunstancialismos mentirosos. Ainda que, além de palmos de terra, os portugueses tenham o hábito de deitar elogios para cima dos esquifes, não se pode aceitar tal “rito” vindo de um presidente da AR. Enquanto foi deputado ou primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho nunca “serviu a causa pública”! Nunca!

Pelo contrário, no exercício das suas funções, atacou sempre e o mais que pôde o Estado e os serviços públicos. Pugnou pelas privatizações de serviços essenciais, beneficiou o grande capital privado, condenou o povo a quatro anos de precariedade, cortou pensões, apoios e reformas, arruinou a vida de muita gente, desgraçou milhares de pequenas e médias empresas, foi peão da banca, dos banqueiros, da senhora Merkel e do BCE.

Foi, enquanto era ainda deputado, o cidadão que “se esqueceu” de pagar 5 anos de contribuições à Segurança Social, e enquanto primeiro-ministro o responsável que protegeu banqueiros enquanto mandava os jovens emigrar. O país nada deve, nem nenhuma consideração deve ter por Passos Coelho ou qualquer governante PSD/CDS do anterior governo. Foram anos negros que não serão branqueados, nem esquecidos! Nem mesmo que este PS queira ajudar a que isso aconteça, o que, pelos vistos, parece ser o caso!

Os da fila de trás

Quando eu era miúda e se juntava a tropa toda que não gostava do «Ramiro» porque era «repetente» (sim, estou a citar o Bruno Aleixo), era fácil para a maioria dos miúdos rir e gozar sem querer saber o porquê.

A minha turma tinha essencialmente filhos de operários de fábricas de calçado e cortiça. Sabíamos sempre quem eram os corticeiros porque normalmente faltavam-lhes dedos. Alguns eram filhos de médicos, advogados e professores (cerca de 7%), e uns poucos (ainda menos) de trabalhadores dos serviços (comércio, etc). A professora gostava que os 7% se sentassem sempre na fila da frente. Seguiam-se-lhes os dos serviços, e, por ordem, os do calçado e depois os da cortiça – eram os mais pobres.

Ao quadro, chamava sempre os da última fila. Normalmente os «repetentes», os que tinham mais dificuldades na aprendizagem, não andavam na «mestra» (era assim que chamávamos aos ATL’s), não tinham acompanhamento no seu estudo. Erravam os exercícios. Eram violentamente espancados pela Dona Alice (que, infelizmente nunca mais vi, teria muito que conversar com ela), incluindo bater com a cabeça na parede forrada a cortiça para os nossos desenhos.

Era demasiado fácil, naquela turma ceder à tentação e chamá-los burros ou repetentes. Mas não, não o fazíamos. Eu furava o esquema e sentava-me sempre na fila da frente para sussurrar as respostas a quem ia ao quadro. E se as não soubesse, os que tinham esse lugar por direito atribuído pela Dona Alice, diziam-mas e eu arranjava maneira de transmitir. Ficávamos sempre aterrorizados quando os das filas de trás eram chamados ao quadro. Nenhum de nós queria nada daquilo. Só queríamos aprender. E, na verdade, muitas vezes eles sabiam as respostas. Mas o medo que lhes era instigado era de tal ordem que nem conseguiam falar. Mas sabiam-nas. Porque apesar de tudo, estudavam, estavam atentos mesmo a ouvir pior do que todos os outros e queriam aprender. Perguntavam. Questionavam. E hoje são profissionais de excelência.

Mas quando alguém entrava na nossa sala, era uma turma bonita. A face visível era a dos que podiam (felizmente) comprar roupa e mochilas novas, livros e cadernos e não tinham que usar os dos irmãos os que lhes eram dados (se fossem). Era muito bonita.

Por que raio estou a contar isto?

Liguem a televisão. Vejam como, de repente, em todos os noticiários a «esquerda» aparece com uma imagem moderna, limpa, intelectualizada, preocupada, com propostas avançadas e arrojadas.

Abram o jornal e vejam como são bonitas as fotos, os sorrisos, a cosmética comunicacional.

E depois, vem a direita, sempre muito bem composta.

E depois, vêm os comunistas. Imagens agastadas, críticas que tantas vezes nem correspondem à verdade, agregados a propostas da tal esquerda moderna que as apresentou, sem nunca se referir que os comunistas já defendiam essas coisas há décadas (alargamento da licença de maternidade e paternidade, aumento do respectivo subsídio, criminalização dos recibos verdes, fim da precariedade na Administração Pública, criação de uma licença de prematuridade, fim das propinas, investimento no cinema português, …..). E, claro, os chavões de sempre, agora usados à «esquerda» e à «direita»: moralistas, aliam-se à direita, conservadores e o que mais houver.

E, se acaso um comunista ousar criticar uma posição moderna, pois será ele o sectário, o impossível, o intolerante e autoritário.

É que, meus caros, eu uso óculos Prada e defendo um salário mínimo nacional de 600 euros (que acho pouco) e 35 horas de trabalho para todos. Vou a museus, gosto de arte, adoro música, escrevo sobre cinema. Não sou um estereótipo. Mas o que se critica são os óculos de sol. Mesmo que os tenha comprado com horas e horas e horas de trabalho, não interessa. Nunca poderei ter a imagem da «esquerda moderna». A essa sim, cabe-lhe a roupagem.

E cabe, caberá sempre essa roupagem à social democracia. Porque por mais que falem dos direitos dos trabalhadores, não se lhes deixa de encontrar sempre a hostilidade aos comunistas. Que a comunicação social adora, empola, e, como na escola, consegue o efeito de massas. São os «repetentes». Ficam no fundo da fila. Porque o que eles sabem, não interessa que se saiba. O que eles dizem, convém não ser ouvido. Muito menos escrito e lido. Porque as suas ideias moveram e movem massas. Organizam trabalhadores. Criam sindicatos. Dizem que assim não pode ser. E transformam. Transformam o sonho em vida.

E enquanto a imprensa inventa a «esquerda moderna», a Holly Golightly do fabuloso Breakfast at Tiffany’s, a que é encantadora, mas afinal, vazia, os da fila de trás não ficam nem vão ficar parados. E era tão bonito perceber que, de facto, o que é preciso é a realidade de quem trabalha a falar por si (porque está a falar por todos os que trabalham) finalmente começa a brotar quando se liga uma televisão ou se abre um jornal… Mas isso, cabe-nos aos da fila de trás, boca a boca, papel na mão, conversa no café, no tribunal a defender o trabalhador, no bairro a defender melhores condições de vida, na Assembleia da República a apresentar propostas que melhorem, efectivamente, a vida dos portugueses ao invés de se transformarem em posts de facebook ou tweets ridículos de tão bafientos que são.

Cá estaremos.

Os inúteis votos úteis

Aviso: neste texto vou concordar com Assunção Cristas, recomendo portanto aos leitores mais sensíveis que ignorem o exposto.

Disse hoje a Assunção Cristas que a nomeação deste governo do PS, com o apoio parlamentar de PCP, PEV e BE, acaba por ser uma oportunidade para o CDS-PP, porque as pessoas passaram a perceber que aquela coisa do voto útil deixa de existir.

E tem razão. Foi preciso andar muito e fazer muito caminho, mas aquela coisa abjecta de termos eleições para Primeiro-Ministro, cai por terra com os resultados e consequências das Legislativas de 2015. Nem toda a gente terá visto, mas na série dinamarquesa “Borgen”, é o partido terceiro classificado que acaba por conseguir formar governo e nomear a Primeira-Ministra. Numa democracia representativa e parlamentar, as contas são simples, a pergunta é – em Portugal -, quem consegue contar até 116?

Claro que depois há o outro lado da questão. Contribuiu bastante o CDS-PP para esta coisa de eleger primeiros-ministros em vez de deputados, andou o CDS-PP a dizer que a solução de governo minoritário do PS com apoio parlamentar era ilegítima. Mas já estamos em Março e o sol espreita, e com a velocidade alucinante da (des)informação, a coerência é valor difícil de manter e julgar.

Mas voltemos ao facto. Depois de 2015 as Legislativas terão outras contas – será também interessante observar este efeito já nas próximas Eleições Autárquicas -, a aritmética e a decisão do voto vai obedecer a raciocínios diferentes e, espera-se, bem longe do inútil voto útil.
A utilidade do voto pode voltar a obedecer à convicção pessoal. A utilidade passa a respeitar a Constituição, é dar mais força a um partido concreto, porque o facto de ele ficar em primeiro, terceiro ou sexto, ou décimo, e desde que eleja deputados e deputadas, não o exclui nem inclui obrigatoriamente numa futura solução governativa.

Desde Setembro que voltámos a ver e ouvir discursos carregados de ideologia sem ignorarem as condições objectivas do momento presente, e o retorno da ideologia só pode ser bom, ajuda a clarificar sobre quem anda ao quê. Cabe agora aos partidos exteriores ao “centrão” capitalizar da melhor forma o fim das maiorias absolutas como a única forma de governar o país. Vamos a isso.

Diário de luta

Escrevo a precisamente quinze minutos de se iniciar a sessão plenária da Assembleia da República que discute, pelo segundo dia, o programa apresentado por PSD e CDS, Passos e Portas, na sequência da sua indigitação por um Presidente da República que não tolera o seu próprio povo. Felizmente, o sentimento é cada vez mais mútuo e só é pena que tenha enganado tanta gente durante tanto tempo.

Escrevo porque é bastante provável que durante a sessão de hoje, as quatro moções de rejeição do programa do Governo, apresentadas por PS, PCP, BE e PEV sejam discutidas e tenham aprovação, provocando a queda do Governo mais reaccionário de que eu tenho memória.

Mas essencialmente para vos dizer isto: há dentro desta Assembleia que hoje reúne um grupo de deputados que esteve sempre do lado da luta dos trabalhadores, que não hesitou um segundo, que não sucumbiu ao charme do capitalismo travestido de falsos internacionalismos, um grupo de homens e mulheres comunistas que durante décadas trouxeram para dentro da Assembleia os problemas do seu próprio povo. Mas há muitos outros. E há dezenas e dezenas de deputados que ao longo da história da nossa instituição parlamentar – sejam do PS, PSD ou CDS – sempre se posicionaram contra os trabalhadores e ao lado dos monopólios.

Para os que se perguntam: “para que serve a luta?”

Deixo eu a seguinte questão: “que fariam hoje as dezenas de deputados do PS se não fosse a luta de milhares, milhões de portugueses, durante os últimos anos contra a austeridade, contra a política de direita?”

Achas mesmo que é o parlamento que está a derrubar o Governo PSD/CDS?

Então subestimas-te.

O Estado da Nação

O país recuou mais de uma década. O poder de compra dos portugueses regrediu a níveis comparáveis com o dos anos 90. Os direitos laborais degradaram-se e mais de um milhão e duzentos mil portugueses estão no desemprego, mesmo após o êxodo forçado de cerca de meio milhão, principalmente de jovens qualificados.

A produção cultural contraiu-se num fechado núcleo de estruturas que tiveram condições para fazer frente à asfixia financeira ou que ainda conseguem obter uma das migalhas que sai do bolso da DGArtes. O apoio do Estado à produção cultural nunca foi tão baixo em democracia.

A cultura cada vez mais se resume ao papel de adorno social e estético de uma pequena-burguesia que, apesar de tudo, está em decadência.

O emprego nunca foi tão precário. Ou melhor, precário sempre foi, mas nunca houve tão pouca compensação pela precariedade do vínculo.

Os salários representam a menor fatia do rendimento nacional de que há memória, sendo apenas comparável a sua proporção ao que se viveu nos tempos do fascismo.

A Ciência e a Tecnologia venderam-se ao mercado das publicações ao quilo, e os laboratórios do estado foram substituídos por unidades que disputam projectos atrás de projectos como se de projectos e financiamento concorrencial vivesse o progresso.

A Universidade e o Ensino, em poucos anos, abandonaram a formação da cultura integral dos indivíduos e passaram a ser espaços de treino onde se formam as peças da engrenagem capitalista, dotadas de aguçadas competências e rombos conhecimentos.

O aparelho produtivo converteu-se num nichozinho de exportações, onde não há lugar para a agricultura familiar, as pescas e a produção industrial.

As empresas públicas foram entregues para posterior desmantelamento, empacotamento e remessa para o estrangeiro.

Milhares de portugueses alinham nas filas para as sopas e a lata de conserva pagas por outros portugueses no supermercado com sede no paraíso fiscal.

Os corredores dos hospitais têm número de cama atribuído nos sistemas de gestão hospitalar e os velhos encostam a solidão nas paredes das alas de urgências, paga a devida taxa moderadora.

O ambiente e as nossas riquezas naturais são lavrados gananciosamente por quem tenha dinheiro para seduzir o governo, seja chinês ou canadiano. De resto, os aerogeradores inflam a factura da electricidade que paga IVA à taxa normal e decoram a paisagem abandonada das reservas e parques naturais.

Os pobres não pagam. Não pagam mas também não andam. Com a agravante de ser o Governo dos ricos a ditar quem é pobre, fixando o limiar da miséria cada vez mais abaixo da linha da sobrevivência.

Os trabalhadores portugueses, já sem horários e pagamentos extraordinários, empobrecem a trabalhar ao invés de poupar.

Os tribunais despacham em catadupa os processos dos ricos enquanto fecham as portas a quem não qualifica como isento na taxa de justiça.

As forças policiais caem lestas sobre os trabalhadores em greve, mas não os protegem nos seus bairros nem nas suas ruas.

Os portugueses suportam cerca de 8 mil milhões anuais com gastos do serviço da dívida e mais 20 mil milhões de amortizações de capital. O Governo corre a substituir esses pagamentos por nova dívida e apresenta-se contente por ter conseguido comprar mais produtos financeiros no mercado dos abutres.

A pátria dos governantes resume-se à bandeira nacional que usam na lapela como marca registada do produto que vendem aos seus donos.

Independentemente da retórica que hoje faça sorrir os títeres parlamentares do capitalismo, independentemente da troca de palavras e ideias e de quem “ganhe” o debate e convença mais portugueses da sua bondade, a prática é o critério da verdade. E este é o estado da nação.

É o Estado construído à imagem dos caprichos da agiotagem e da usura, um Estado repressivo e opressor, que usa a força e a lei para desviar a riqueza dos portugueses para os manipuladores de marionetas que riem de bandeiras nacionais à lapela e do folclore das democracias. É esse Estado que Abril proibiu e eles reconstroem que nos põe, a 8 de Julho de 2015, no estado a que isto chegou.

Houve quem tivesse votado contra o relatório. Alguém deu por isso?

Um senhor que desconheço, de nome João Vieira Pereira, escreve no expresso diário um texto em que direcciona à Comissão de Inquérito do BES/GES um rol de queixas de ataques, usando, como é tão habitual no rebanho de comentadores que nos (en)forma, da táctica “meter tudo no mesmo saco”.

Não podendo, por não terem sido dadas as bases, continuar o bluff em torno do BE, decidiu João Vieira Pereira atacar todos por igual.

Escreve JVP: “O papel de treinador de bancada é sempre o mais confortável. E esse papel foi assumido na perfeição pelos deputados que se sentaram na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).”

Ocultou, por certo voluntariamente – não posso crer que uma pessoa que seja suficientemente informada sobre a Comissão de Inquérito para se dar ao luxo de sobre os seus resultados tecer considerações não saiba do resultado das votações – o facto de o PCP ter votado contra o relatório.

Diz adiante JVP: “Enquanto os deputados andavam na sua vidinha em 2013 e 2014 havia quem lutasse diariamente para descobrir o que se passava no Grupo Espírito Santo. E acreditem que essa luta era tudo menos fácil. Ricardo Salgado rimava com poder. Em todos os sectores. Principalmente no político. A CPI esquece isso.”

Ocultou, por certo deliberadamente, que já em Junho de 2013, o PCP chamava a atenção do Governo e do Banco de Portugal para a necessidade de avaliar a idoneidade de Ricardo Salgado, nomeadamente através de uma intervenção do Deputado do PCP Honório Novo na Comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República. Ocultou igualmente que o PCP fez questão de referir por várias vezes a promiscuidade entre GES/BES e poder político e que, ao longo das 95 propostas de alteração que apresentou, o PCP levantou essa questão vezes sem conta, como se pode ver aqui:

“c478 A (Nova) O Grupo foi sistematicamente louvado como um exemplo, bem como alguns dos seus mais elevados dirigentes, e objetivamente lançado com o apoio activo do Estado, por compromissos de governos suportados tanto por PS, como por PSD, com ou sem a presença do CDS. Apesar de a Constituição da República Portuguesa atribuir ao Estado a tarefa de combater a formação de formas de organização monopolista, no caso do BES e do GES, o Estado foi uma das fontes de alimentação do negócio, tanto no ramo financeiro, como no não financeiro, através de Parcerias Público-Privadas, assessorias e consultadorias várias, bem como através de participação em privatizações. A dimensão do Grupo, integrando ambas as suas componentes, ameaçava por si só a estabilidade do sistema financeiro, bem como a intervenção do Estado em áreas fundamentais da economia, de que aliás os próprios governos se foram demitindo.”

ou em:

“c476 A (Nova) A privatização da Tranquilidade e do Banco Espírito Santo, em 1990 e 1991, respetivamente, durante o mandato de Cavaco Silva como Primeiro-Ministro e Mário Soares com Presidente da República, iniciou um processo de acumulação, em favorecimento claro de uma família específica a quem foi vendido um Banco por 750 milhões de euros, em parte financiado pela própria Caixa Geral de Depósitos e apoiado pela entrada do Crédit Agricole, com intervenção assumida do então Presidente da República Mário Soares. Essa entrega do Banco a um Grupo privado resultou na acumulação de riqueza, na concentração do poder económico e na distribuição de mais de 4 mil milhões de dividendos entre 1991 e 2010 (a preços de 31 de Dezembro de 2013), dividendos esses cujo usufruto foi exclusivamente privado.

Não sei bem com que propósito, eventualmente o de servir os mesmos interesses que os das empresas que parece acusar apenas para dizer que passam entre as gotas da chuva, JVP afirma ainda, atribuíndo essa responsabilidade a todos os deputados:

“Já o disse e digo-o outra vez” [note-se a sobranceria do grande inquisidor] “:A CPI esquece que, além do Banco de Portugal, da CMVM e do ISP, o primeiro garante de que tudo vai bem nos bancos e nas empresas cotadas são as empresas de auditoria. Essas passam entre os pingos da chuva. E saem até bem vistas nesta triste história.”

É verdade que o intuito de JVP é de difícil intuição, mas lá que parece estar a esquecer-se de um “último garante” de que tudo vai bem nos bancos, lá isso parece. É que JVP esquece, talvez por favor, que o “garante último da estabilidade do Sistema Financeiro” é o Ministério das Finanças e o Governo. No seu triste texto, a pretexto das auditoras externas, JVP iliba o Governo. Mas vejamos o que oculta mais JVP sobre empresas de auditoria que, segundo ele, os deputados deixaram passar entre as gotas da chuva. Mas que deputados?

Sobre isso, seguem apenas duas das propostas de alteração apresentadas pelos deputados do PCP. Sim, apesar do incómodo certo que isso provoca a JVP, há deputados comunistas no parlamento português.

“c491 A (Nova) As entidades de auditoria externa funcionaram, como tal, como elementos de camuflagem, por opção, negligência ou incapacidade, da real situação do Grupo Banco Espírito Santo e como câmaras de branqueamento de irregularidades, chancelando e omitindo situações graves que trariam custos pesados para os clientes e para o Estado. Destaca-se, por exemplo, a incapacidade de obter um testemunho convergente quanto à mensagem dirigida pela PWC à KPMG aquando da mudança de auditor do BES em 2002, bem como a afirmação do BdP sobre o desconhecimento do teor do relatório (draft) da PWC apresentado à comissão executiva do BES em 2001, aliás também omitido à CPI até ao momento em que a comunicação social divulga a sua existência.

c491 B (Nova) As entidades de auditoria externa funcionam também como um reservatório de quadros para a banca, sendo que o âmbito de recrutamento para determinadas tarefas corresponde em muitos casos ao seu perímetro. A comissão detetou inúmeros casos de circularização de quadros entre as empresas de auditoria externa e os bancos, sendo que a promiscuidade entre auditor externo e banca vai além da relação entre fornecedor e cliente e ganha contornos de fusão de interesses, com o natural conflito que daí decorre.”

Em último caso, pode sempre confrontar-se o texto de JVP com as declarações do deputado do PCP na Comissão. Felizmente, os comentadores podem apagar o PCP das suas liturgias e elogios ao regime, mas não podem apagar os arquivos da ARTv.

A «Telmice»

O PCP propôs ontem na Assembleia da República uma lei que, no fundo, tinha como objectivo contribuir para a transparência do exercício do cargo de deputado. São, aliás, conhecidas e já várias vezes denunciadas, situações de promiscuidade gritante entre deputados que são simultaneamente políticos e agentes de interesses privados na sede onde se decidem as leis deste país. Como seria de esperar, PS, PSD e CDS votaram e rejeitaram o referido projecto do PCP. E o mais elucidativo é que, tratando-se de matéria de transparência, quem mais acusou o toque e quem mais vociferou contra a proposta foi precisamente o partido dos sobreiros, dos submarinos e de Jacinto Leite Capelo Rego.

Note-se bem… é o CDS, esse mesmo, que vem acusar outro partido de “subserviência” (…) Esse CDS que andou todos estes anos a obedecer às ordens da troika estrangeira mesmo que para isso tenha sido forçado a rasgar todo o leque de promessas eleitorais com que ludibriou “pensionistas”, “agricultores” e “contribuintes”.

Telmo Correia não resistiu a usar contra o PCP e os comunistas os mesmos argumentos que o regime fascista usava nos tempos da Assembleia Nacional. Com uma sobranceria que é proporcional à sua evidente inabilidade para ocupar qualquer cargo político, Telmo Correia, entre outros dislates e observações demonstrativas de uma confrangedora ignorância histórica, acusou o PCP de subserviência à União Soviética. O que é absolutamente caricato é que essa acusação de “subserviência” vem precisamente do CDS. Esse mesmo CDS oportunista que se aninha ao poder (seja PSD ou PS) em troca de dois ou três ministérios. Esse CDS que andou todos estes anos a obedecer às ordens da troika estrangeira mesmo que para isso tenha sido forçado a rasgar todo o leque de promessas eleitorais com que ludibriou “pensionistas”, “agricultores” e “contribuintes”. Esse mesmo CDS, já sem face e sem vergonha, que anda a mendigar a todo o custo uma coligação pré-eleitoral, para ver se o resultado arrasador que o espera – e que merece – se “dissolva” tacticamente nos 20% do PSD.

Com o velhaco recurso a termos como “gulag” e “coreia do norte”, a «Telmice» amplamente difundida nas televisões só serviu para esconder o essencial. E o essencial é que ontem, uma vez mais, foi posta à prova a vontade dos partidos que querem “mais transparência” e dos que querem “menos transparência”. E ficou bem claro, aos olhos de todos, quem são os que estão de um lado e quem são os que estão do lado oposto.