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A ficção da finança.*

Era uma vez um banco que emprestava dinheiro à fundação X que comprava casas e arrendava ao Partido X. Esse banco também emprestava muito dinheiro aos seus acionistas A e B.

O banco emprestou à fundação X 10 milhões de euros e aos acionistas A e B, 150 a cada um.
As casas compradas pela fundação X valiam, no entanto, apenas uma parte do valor do dinheiro emprestado pelo banco. 
O Partido X não pagava as rendas pelas casas da fundação compradas com o dinheiro do banco que, por sua vez, era dinheiro dos depositantes. 
Como o Partido X não pagava, a fundação também não conseguia pagar ao banco as prestações dos empréstimos. O banco podia ficar com as casas de volta, mas já não valiam nada. 
Os acionistas pegaram no dinheiro emprestado e investiram no seu próprio luxo. 
O banco ficou sem 310 milhões de euros e precisou de ajuda do Estado para poder continuar a remunerar os depósitos dos cidadãos. O Estado emprestou o dinheiro necessário e ficou dono do banco porque o valor do banco era já muito pequeno  ou mesmo negativo porque tinha emprestado dinheiro a mais e cobrado a menos.
Portanto, a fundação X ficou a dever 10 milhões ao banco, e os acionistas A e B, 300 milhões.
Aparece a empresa-internacional-assim-meio-desconhecida-de-toda-a-gente, e oferece ao banco 40 milhões para que o banco lhe venda o buraco de 310 milhões deixados pelo não pagamento. A empresa-internacional-assim-meio-desconhecida recebe 40 milhões dos acionistas A e B, que assim lhe compram de novo a dívida por 20 milhões cada um. Portanto, como tinham ficado com 150 milhões de crédito, precisam apenas de despender 20 desses 150, levando de borla para casa 130 milhões roubados ao banco, pagos pelo Estado. Ao mesmo tempo, como o banco era do Estado, a Ministra das Finanças do Partido X que deve 10 milhões à fundação X, autoriza ou fecha os olhos à venda daqueles empréstimos à empresa-internacional-assim-meio-desconhecida-de-toda-a-gente. A empresa-internacional retribui vendendo também à fundação X por um euro a dívida de 10 milhões. A fundação X fica com 9.999.999€ de borla e sem dívidas a ninguém. A empresa-internacional apresenta lucros com a operação de 1 euro. O acionistas A e B apresentam lucros de 130 milhões cada. A fundação tem um lucro de 9.999.999€. O Banco perde 270 milhões. Não faz mal, o Estado paga. Ou melhor, fica o Estado a dever a um banco alemão qualquer. 
A Ministra do Partido X trabalha hoje para a empresa-internacional-assim-meio-desconhecidas-de-toda-a-gente.

* este pequeno conto é baseado em factos, mas ficciona em torno de possibilidades hoje não desmentidas nem comprovadas. Como no mundo da finança, a realidade supera, muitas vezes a ficção, o conto serve apenas como ilustração das grandes potencialidades do empreendedorismo no mundo da banca e do partido X.

Spinning

No dia 22 de Janeiro, o PSD e o CDS apresentaram uma proposta no plenário da Assembleia da República para a realização de uma auditoria externa ao Banif. O BE, pela voz de Mariana Mortágua, logo a seguir, afirmou que “a primeira iniciativa que o BE vai ter depois de constituída a comissão de inquérito é propor a realização de uma auditoria externa.” O PCP falou pouco depois e afirmou que não estava disponível para encomendar “auditorias externas” que viessem a condicionar o trabalho da comissão de inquérito e que seriam feitas pelas mesmas empresas que são peritas em esconder a verdade. E o PCP disse mais: que rejeitaria essa proposta, fosse quem fosse que a apresentasse.

O PS mostrou indisponibilidade para aceitar a realização de uma auditoria externa ao Banif. Na verdade, uma auditoria externa é realizada pelas empresas que ao longo dos anos fizeram a avalização das contas do Banif, bem como de todos os outros bancos e grandes empresas portuguesas. O PSD, CDS e BE queriam assim deixar nas mãos de uma empresa privada habituada e especializada em manipular factos e esconder a realidade. Felizmente, o BE percebeu que tal proposta não fazia sentido e aceitou assinar uma proposta conjunta com o PS e o PCP para, em vez de uma auditoria externa, a Comissão de Inquérito pudesse recorrer à Unidade Técnica de Apoio Orçamental (unidade da própria Assembleia da República) sempre que a complexidade técnica dos assuntos a tratar pela comissão o exigisse. Foi o Grupo Parlamentar do PS que apresentou a proposta à Comissão.

O Jornal de Negócios resumiu todo este processo da seguinte forma: Mariana Mortágua quer UTAO a dar apoio à comissão de inquérito. Logo a seguir, alterou dizendo que o PS é que tomou essa iniciativa mas insistindo na ideia de que o BE é que propôs e anunciou. Ao mesmo tempo, o Jornal de Negócios não se limita a esconder a reviravolta do BE, mas vai ao ponto de mentir e dizer que o BE é que anunciou a proposta e que essa é da sua autoria. Mas o mais grave é que a notícia que o Jornal de Negócios faz não é sobre a Comissão de Inquérito, é sobre o BE na Comissão de Inquérito. E faz disso notícia, mentindo.  A questão da realização ou não de uma auditoria e de o BE ter desistido é completamente secundária, mas a forma como a comunicação social começa a mentir para manter a sua campanha publicitária de apoio ao BE é bastante ilustrativa dos procedimentos utilizados para que a percepção pública sobre o trabalho parlamentar seja completamente distorcida. Recordemos que apesar do BE ter votado favoravelmente as três partes do relatório da Comissão de Inquérito ao BES e de se ter abstido na votação final – ao contrário do PCP que votou contra – não deixou de ser promovido como a força política que enfrentou os grandes grupos financeiros

“Em relações públicas, spin é uma forma de propaganda, concretizada através da difusão de uma interpretação manipulada de um evento ou de campanhas para persuasão da opinião pública a favor ou contra qualquer organização ou figura pública. Enquanto as formas tradicionais de relações públicas podem assentar na apresentação criativa dos factos, o spin geralmente utiliza artifícios ardilosos, sem franqueza, enganosos e altamente manipuladores.”

Tradução minha de William Safire, New York Times, December 22, 1996.

A «Resolução» de Passos no PSD

Banif. Pois claro. Tinha de haver uma muito boa razão para o gangue direitista não querer largar o poder tão cedo. Tinha de haver ali qualquer coisinha a «salvaguardar» a todo o custo, mesmo estando os dois partidos em minoria na Assembleia da República. Tinha de haver lixo – e que lixo! – debaixo do tapete. Havia que continuar a esconder o crime e a abafar o odor a cadáver com mais quatro anos de PAF. Tudo debaixo da total complacência e “cooperação institucional” de alguém que, sem dúvida informado em detalhe desta tramoia – Cavaco Silva – tem sido arredado das culpas e do leque de responsáveis pelo desastre que os contribuintes, mais uma vez, vão ser chamados a pagar. Será uma pena se ninguém o chamar, ou se ninguém o interrogar formalmente, na anunciada e mais que justificada comissão de inquérito ao caso Banif.

E de repente, com o desnudar do crime Banif, é de esperar que da parte da trupe laranja se oiçam menos «desejos» de novas eleições para o «ano novo».

Mas hoje ficámos ainda a saber que, ao que todos os sinais indicam, não é só o BANIF que está a ser alvo de «resolução». Ao que parece, há agora duas pedras no sapato do agitadiço vespeiro do PSD, do qual de resto, o acagaçado CDS já fugiu a toda a brida. A questão é que essas “pedras” incómodas não se tratam de meros e descartáveis deputados madeirenses, mas sim de duas das principais figuras do último governo PSD/CDS: Maria Luís Albuquerque e Pedro Passos Coelho. Viu quem quis, a ex-ministra esteve no debate desta manhã em isolamento total. E em silêncio, também. E não se lhe conhece doença contagiosa alguma, a não ser a maleita da vergonha, de que de forma evidente o vespeiro parece querer agora afastar-se. Já Pedro Passos Coelho, que anteontem afirmou que se estivesse no governo não teria feito diferente de o que fez o PS, foi olimpicamente desautorizado pela sua bancada parlamentar, que ao invés da aprovação, resolveu abster-se.

MLA em estado de «isolamento total»

Ora, numa época propícia a «resoluções de ano novo», parece certo que, no interior do PSD, Passos Coelho (MLA acaba por ser uma irrelevância em matéria partidária) está em vias de ser posto à venda a qualquer Santander. E de repente, com o desnudar do crime Banif, é de esperar que por parte da trupe laranja se oiçam menos «desejos» de novas eleições para o «ano novo». Se calhar, agora que fica mais uma vez provado, com estrondo, que o anterior governo fez igual ou pior que os executivos que o precederam, é melhor que se lixem mesmo as eleições, não vá o último dos últimos argumentos – o de ter mais votos… – ir rapidamente pelo cano abaixo.

PS: Nada medida do possível, umas boas festas a todos.