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O futuro do Brasil não passa pelo Parlamento

Não houve como não parodiar e rir com as desgraçadas intervenções e justificações dos deputados brasileiros na famigerada votação do «impeachment». «Impeachment», diga-se, cujo verdadeiro equivalente de sentido é – convém memorizar – «golpada». E se algum dia lhe disserem o contrário não acredite, é mentira. Palavra de tradutor/intérprete.

Tudo aquilo naquela tarde/noite roçou o irreal, o ridículo. O problema é que o ridículo, no Brasil como noutras partes do globo, pode de facto ser muito perigoso. Sobretudo se tivermos a noção de que passa também por aquele leque de “decisores políticos” muito da vida de um dos países mais populosos do mundo. País esse onde grassa ainda uma grande disparidade social e económica, uma sociedade de alguns ricos e de muitos muitos milhões de pobres.

O destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso

Importa, contudo, ter bem presente – é a História que no-lo ensina – que da mesma forma que o capital não respeita barreiras de formalismos e legalidades na sua acção monopolista e destruidora, o que faz abolindo ou contornando tais “minúcias”, também não há – não pode haver! – obstáculos formais ou legalistas que não possam ser derrubados quando estão em causa questões fundamentais como a democracia, o respeito pela vontade popular, a liberdade.

Importa assim reforçar a ideia de que quanto a esses pilares fundamentais, seja na América do Sul, na Europa ou noutras latitudes onde impere uma organização fundamentalmente burguesa de Estado, o destino do Brasil não se decide nem se decidirá em sessão parlamentar. Na Câmara de Deputados decide-se uma votação, uma mera formalidade. Já o destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso.

Neste caso concreto, a solução terá que passar necessariamente por uma de duas vias: ou o povo luta nas ruas – em todo o lado – de forma firme e organizada – e é bom lembrar que o capital também se organiza e se organiza bem – contra este movimento reaccionário de uma direita corrupta e a soldo dos grandes interesses, ou então o povo – a vítima – será cúmplice e espectador manso da tomada de poder da grande oligarquia financeira nacional e internacional – hoje com mais vigor que no passado –, que há muito anseia pelo saque e controlo total das riquezas e potencialidades económicas do país.

Não passarão.

O fascismo é um recurso do capitalismo, não é um elemento exterior ao sistema que dele se apodera quando menos se espera. É por isso com apreensão mas sem surpresa que muitos de nós vêem o ressurgimento de forças partidárias de extrema-direita explícita em vários países, dentro e fora da Europa. Perante as circunstâncias do contexto, diferentes na Europa face a vários países da América Latina onde o fascismo ganha garras, o capitalismo não hesita em libertar o seu velho cão raivoso. Foi assim nos anos 30 do século passado.

O crescimento eleitoral de forças políticas-partidárias da extrema-direita assumida, com destaque para a Frente Nacional em França e agora a AfD alemã, não espantará aqueles que desde há muito avisam para os riscos de uma política desastrosa por parte de instituições nacionais e supranacionais, que abre portas à afirmação de dirigentes “pós-políticos” (geralmente eleitos com um discurso anti-partidos e céptico face a elementos determinantes de qualquer sistema democrático), que se afirmam acima dos interesses que na verdade lhes dão corpo, e que deles beneficiarão caso ditaduras terroristas do grande capital cheguem novamente (ou pela primeira vez) ao poder nos países onde ganham força.

Discursos populistas, racistas, misóginos e excepcionalistas, como aqueles protagonizados por boa parte dos candidatos republicanos na corrida à Casa Branca, ganham noutras paragens formas diferentes, entroncando em estratégias golpistas, como aquelas que são evidentes no Brasil e na Venezuela. Trump é aprendiz de reaccionário quando comparado com Capriles. E o lumpemproletariado que em parte enche os pavilhões – e os bolsos – das campanhas da extrema-direita norte-americana está a milhas da disponibilidade golpista daqueles que desfilam pelas ruas de Brasília e do Rio de Janeiro com o braço estendido “à romana”, denunciando vinculação ideológica de má memória.

O fascismo é a ditadura e a guerra e o capitalismo é a maternidade do monstro fascista que lhe pede todos os dias que o liberte, para melhor o servir. Na última vez que isso aconteceu, em larga escala, foram precisos muitos anos, muitas lutas, milhões de mortos e a destruição inteira de gerações para decepar a cabeça à besta. É também por isso que importa denunciar desde já as campanhas golpistas em curso em países como o Brasil e a Venezuela, custe o que custar.

Contra o fascismo não pode haver descanso, não podem ser concedidas tréguas.

Não passarão.

OTHON e o direito à habitação

OTHON é uma curta metragem que mostra uma grande realidade. Filmado com a distância do documentário de observação, os realizadores passam um mês no antigo e luxuoso Othon Palace Hotel, em São Paulo, captando o quotidiano de um microcosmos de famílias que ocuparam o edifício há muito abandonado.

A ocupação é protagonizada por um movimento de ocupas denominado por Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto que pretende organizar várias famílias a reclamarem um espaço para habitar. De diversas zonas do Brasil, as famílias que encontram um quarto no Othon são todas da classe trabalhadora. Pouco qualificados, queixam-se do salário ser apenas uma escolha entre um tecto ou a fome. Muitos conhecem a rua onde habitaram vários anos, outros de melhor sorte encontraram no desemprego o fim da sobrevivência precária que levavam antes.

Cidadãos sem escolhas que se deparam com a gentrificação da cidade onde vivem, cuja especulação imobiliária os empurra para cada vez mais longe. Sem escola vêem mais longe do que muitos que a frequentaram e nunca tiveram de pensar onde passarão a próxima noite. Sentem o investimento na bola como um atentado às suas prioridades, questionando o que o dinheiro poderia fazer por quem não tem casa, saúde e educação.

Ali encontram uma pequena sociedade que os abriga. Debaixo do mesmo tecto falam de passados diferentes. “Todo o mundo ajuda o outro”. Em comum têm o sonho de levar uma vida “normal”, com casa, comida e hipótese de dar aos filhos a educação que não tiveram. Cada minuto é uma provação entre a necessidade de carregar água pelas escadas acima e a ansiedade do despejo eminente.

Othon é uma lição de direito à habitação falada na primeira pessoa. De fotografia cuidada e edição magnífica é uma das curtas a não perder no IndieLisboa (próxima exibição a 1 de Maio às 21:30, Competição Nacional de Curtas, Cinema São Jorge).