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A grande escolha não está no voto

Uma hipotética derrota de Bolsonaro não acabará com o fascismo, nem com os fascistas, no Brasil ou noutro país qualquer. Pelo contrário, a amplitude e dinâmica dos acontecimentos dos últimos meses permitiu à extrema-direita um crescimento de adesão e militância como provavelmente nunca tinha acontecido desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

As questões às quais importa dar resposta, neste momento, são: Quem vai, depois do dia de hoje, seja qual for o resultado, prosseguir com a luta pela democracia? Uma massa difusa e desorganizada contra um oponente perfeitamente organizado e sustentado por oligarquias financeiras? E mesmo que se trate de uma força organizada e combativa, será em torno de quê ou de quem? De um ou dois partidos de nome e inspiração marxista mas que, nos últimos anos, se têm mostrado mais próximos da social-democracia (responsável pelo fortalecimento da extrema-direita) do que do socialismo? Ou estaremos perante uma oportunidade histórica para um novo e revolucionário começo na História do Brasil, que além de significar a derrota total do fascismo, signifique a vitória da democracia não exclusivamente política, mas sobretudo social, educativa e cultural? Poderá e quererá o povo brasileiro fazer essa luta pelo progresso alargado e pela total emancipação das suas classes mais desfavorecidas?

Por tudo isto, porque a escolha tem de ser mais, muito mais do que uma opção eleitoral, é necessário entender que urge estar com a democracia todos os dias e não apenas hoje.

A manipulação da História pelo fascismo: Uma história antiga

A ascensão da extrema-direita, seja na sua vertente fascista ou neonazi, acontece um função de circunstâncias sociais e económicas específicas, que o capitalismo alimenta através das suas crises cíclicas. Assim, a História repete-se mesmo. Há 100 anos, mais coisa menos coisa, a Alemanha saía derrotada da I Guerra Mundial. Humilhada com o Tratado de Versalhes, nascia entre os militares e os defensores do Império Germânico uma vontade de vingança. Os aliados, que também aproveitaram para ganhar territórios à Rússia, então já com os sovietes no poder, estavam mais preocupados em conter a ameaça comunista, preferindo e simpatizando com os totalitarismos da extrema-direita que já existiam antes da II Grande Guerra, nomeadamente em Itália, em Espanha e Portugal, com a ditadura imposta em 1926.

Na Alemanha, cria-se o “Mito da Derrota”. O general Ludendorff coloca a circular notícias falsas, boatos e mentiras, sem qualquer fundamento ou sustentação, atribuindo a culpa da derrota à falta de nacionalismo do povo alemão, à Revolução de Novembro – aos comunistas alemães, portanto – e a uma conspiração judaica internacional, numa falsificação consciente da História. As fake news de há 100 anos, estão a ver? Está então formado o caldo perfeito para o surgimento do nazismo: notícias falsas que culpam determinadas camadas da população por todos os males, a sua difusão acrítica também pela imprensa e uma crise profunda, política e económica, criada pelo absurdo que foi o Tratado de Versalhes e a insuficiência das teorias liberais de Wilson.

É conhecido o momento de emergência que se vive no Brasil e este não é um post exaustivo sobre  causas ou consequências, mas sim sobre a manipulação, 100 anos depois do final da I Grande Guerra. O autor deste vídeo é, supostamente, licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de S. Paulo e estará a fazer mestrado em Estudos Europeus na Holanda. E este é um exemplo claro de que a História se repete e a falsificação consciente da História foi e continua a ser uma arma dos fascistas.


Vamos, então, desmontar o que diz o jovem apenas em questões científicas, já que mais de metade do vídeo trata de questões de opinião e não de facto:

“Quando as pessoas chamam alguém de fascista, estão a desrespeitar milhões de mortos da II Guerra Mundial, que realmente sofreram com o fascismo” e avança para a definição de fascismo: “É o género de ideologia política cujo núcleo mítico em suas várias permutações é uma forma de renascimento do ultranacionalismo populista”.

Certo: Esta é a definição de fascismo. O que está errado é passar por cima da expressão “em suas várias permutações”. Ou seja, a definição clara de fascismo não se restringe à sua origem italiana. Assumiu outras formas em Portugal e Espanha por exemplo. Nesta parte, o jovem ou é ignorante, o que demonstra que, por vezes, um grau académico diz muito pouco, ou mente deliberadamente. Inclino-me para a segunda hipótese.

Falso: “Bolsonaro não é fascista porque ele não quer acabar com o sistema democrático, não quer abolir as instituições, não quer rasgar a constituição” (…) “Por mais que uma pessoa possa ser racista homofóbica, não quer dizer que ela seja fascista”.

É o próprio Jair Bolsonaro que admite que pretende fazê-lo. Declarações de Bolsonaro no dia 28 de Setembro: “O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) declarou nesta sexta-feira (28) que não aceita um resultado das eleições que não seja a sua vitória”.

Falso:“Não quer rasgar a Constituição”. “Vice de Bolsonaro defende nova Constituição sem Constituinte”, 13 de Setembro de 2018.

Falso: “Fascismo verdadeiro é o que teve na Itália, Alemanha, Portugal e Alemanha do Hitler”. A Alemanha de Hitler implantou o nazismo. Até Mussolini se aliar a Hitler, o fascismo não tinha como inimigo principal os judeus nem buscava a raça perfeita. Logo, podemos afirmar que o nazismo era mais xenófobo do que o fascismo. Daí que se conclui que, se é errado chamar fascista a Bolsonaro, é por defeito e não por excesso. Ele é xenófobo, homofóbico e racista. Mais do que dos fascistas, são as características próprias de um nazi. Fascismo verdadeiro existiu em Itália. (ponto) As derivações do fascismo, que o jovem ignorava há uns parágrafos, foram beber as suas influências ao fascismo italiano e implantaram-se em Portugal e Espanha, respetivamente, com o fascismo salazarista e o fascismo franquista.

Falso e errado: “Se quer chamar alguém fascista, deve usar essa palavra para os amigos do Lula: Hugo Chavez, Evo Morales, Fidel Castro”. O jovem acaba por contradizer-se. Se, atrás, caracterizava o fascismo “pelo género de ideologia política cujo núcleo mítico em suas várias permutações é uma forma de renascimento do ultranacionalismo populista”, não encontra essas características , em nenhum dos três exemplos que cita.

Não há ultranacionalismo populista e nenhum dos três. Curiosamente, uma das críticas que fazem a Lula, é o facto de ter importado médicos de Cuba. Logo, o ultranacionalismo de um e de outro cai por terra. O jovem deveria rever os conceitos de solidariedade internacionalista, que está aliás presente na maior parte dos partido comunistas, através da estrela de cinco pontas que surge nas bandeiras: significa a aliança internacionalista proletária com os trabalhadores dos cinco continentes.

Dito isto, se este é de facto um estudante de Relações Internacionais a fazer mestrado na Holanda, terá um longo caminho para acabá-lo.

Uma antiga aliança

O que se passa no Brasil com Bolsonaro, nos EUA com Trump, na Hungria e Itália com governos e governantes fascistas, é tudo reflexo contemporâneo de uma aliança já antiga. Nada de novo. Fascismo e capital, capital e fascismo. Nenhum desses actores subiu ao estrelato sem patrocínio, sem alavancas financeiras colossais. Nenhum deles ganhou prestígio por via de brilhantes curriculums académicos, muito pelo contrário. Ora, acontece que fascismo, capitalismo, imperialismo não se combatem com contra-correntes do género “EleNão”. Com essas e outras iniciativas, pode o fascismo bem.

O que é necessário é organizar, resistir, politizar, tomar partido e avançar. É necessário derrubar, sim, mas construindo. E se o “EleNão” dá uma possível resposta imediata ao derrubar, já o mesmo não ocorre em relação ao que virá depois. Nesse caso, depois da queda, estará um gigantesco ponto de interrogação, que pode, no limite, ser a porta para uma ameaça ainda maior, e a urgência dos tempos ensina-nos que não há grande tempo para perguntas. O fascismo sabe recompor-se e fá-lo rápido. A prova é que, depois do fim de Hitler, Franco, Salazar ou Mussolini, ele está aí. Em todo o lado.

Esta cidade também é nossa! Os brasileiros em Lisboa e no país.

No dia 6 de Julho, o Brasil era derrotado pela Bélgica nas quartas de final da Copa do Mundo e era assim eliminado desta competição. Mas para os brasileiros, a festa não ia parar pelas falhas dos outros. Na Praça do Comércio, a festa continuou pós-jogo e mesmo com algumas lágrimas nos olhos, a batida do funk animou a noite para uns milhares de brasileiros ali presentes.

Ter assistido alguns jogos na praça do comércio, foi importante para perceber a dimensão da ocupação daquela praça consoante os jogos. Em jogos do Brasil e de Portugal, a praça se encontrava cheia de adeptos. Por exemplo, nos jogos de outras seleções as ruas à volta funcionavam normalmente, sem nenhum corte das vias. Nos dias que jogavam estas duas seleções, várias ruas circundantes eram paralisadas para a passagem de automóveis. O sentimento de estar em sardinha enlatada na Praça do Comércio acontecia de forma interessante nestes jogos. Claro que no caso dos jogos da seleção brasileira também estavam presentes muitos portugueses (e os adeptos da seleção opositora), mas mesmo estes eram a minoria e muito pouco residual. A grande ocupação nestes dias, era de uma massa brasileira que se juntava naquela praça para ver os jogos do Brasil.

Entre as populações imigrantes em Portugal, de acordo com os censos de 2011, nós, brasileiros, eramos a maioria entre os imigrantes, perto dos 110 mil residentes, atrás de nós estavam os imigrantes cabo-verdianos, com cerca de 38 mil residentes. Entre os censos de 2001 e 2011 a população brasileira residente em Portugal quase quadruplicou. Em termos de populações de imigrantes brasileiros espalhados pelo mundo, a maior presença nossa encontra-se nos Estados Unidos da América (acima de um milhão de residentes), em quinto lugar encontra-se Portugal. Apesar do fluxo de brasileiros em Portugal ter reduzido entre 2008 a 2013, sobre o efeito do agravamento da crise portuguesa e da época de “prosperidade” económica no Brasil sobre alçada dos governos de Lula e Dilma, acontece que a partir de 2013 muitos brasileiros que voltaram para o Brasil, começaram a retornar para Portugal. Em simultâneo muitos novos brasileiros decidiram imigrar para Portugal. Além dos imigrantes que vêm à procura de trabalho sem grandes formações, começaram a chegar também pessoas mais jovens para estudarem no ensino superior português e acabam por ficar no país e tantos outros já com formação superior. Estas informações são importantes para perceber a dimensão desta população de imigrantes em Portugal. E o seu significado para a realidade portuguesa.

Um outro exemplo de ocupação do espaço público nas cidades portuguesas por brasileiros, vejamos a questão da luta. Desde o inicio das ofensivas golpistas no Brasil, um colectivo forte e combativo de brasileiros que ia desde estudantes universitários até alguns imigrantes, mas também com a presença de portugueses, combateram em Portugal a ofensiva reaccionária no Brasil. Estiveram nas ruas nos grandes momentos destas ofensivas, mas também sempre que um golpista pisava os pés em Portugal, estes não teria descanso, porque como nós brasileiros dizemos, era preciso “escrachá-lo”. Por exemplo, Temer, Moro, Serra e por aí em diante. A luta também passou pelo apoio aos políticos e personalidades que vinham a Portugal dar a voz à luta que se ia fazendo no Brasil contra o golpe. Falo aqui do Coletivo Andorinha, mas sabendo da importância de outros colectivos pelo país. É importante falar sobre este colectivo em especial para a cidade de Lisboa, porque os activistas deste movimento tiveram de ir para as ruas mais que uma vez por semana para levar aos holofotes a crítica da situação brasileira.

Desde o inicio da sua formação, estiveram dezenas de vezes na Praça Luís de Camões, desceram a Avenida da Liberdade nos 25 de Abril e subiram a Almirante Reis no 1 de Maios, foram para portas da Faculdade de Direito, porta de Hotéis, ocuparam as actividades culturais e festivais, veja-se o exemplo da Festa do Avante e o coro que se ergue volta e meia de “Fora Temer!” quando um artista brasileiro está em actuação, desceram uma faixa no concerto do Chico Buarque no Coliseu dos Recreios. Enfim, a sua capacidade de adaptação e ocupação da cidade fez-se nos últimos anos de uma forma bestial e alegre, resistindo, lutando e apoiando, de todos os modos, transformando a cara das cidades portuguesas, principalmente, de Lisboa.

A cidade de Lisboa, e não só, também ficou mais rica com as iniciativas sócio-culturais dos brasileiros cá residentes. Vejamos por exemplo, neste último carnaval tivemos três blocos carnavalescos a partir de pontos diferentes dentro da cidade. A nossa presença, que era muitas vezes relegada às discotecas brasileiras, agora está em todo lado. Da música ao cinema, do teatro às artes plásticas, da arte urbana ao pixo, da resistência política ao futebol, trazemos a bandeira verde e amarela, mas também as bandeiras vermelhas.

Contudo, o desafio que se avizinha é muito complexo. Não devemos esquecer que nem todos os brasileiros cá residentes são progressistas. Por exemplo, no dia 22 de Junho duas dezenas de brasileiros se juntaram no Parque das Nações para apoiar a candidatura a presidente de Bolsonaro, apesar da presença residual, facilmente podemos encontrar brasileiros imigrantes que apoiam Bolsonaro neste país. A questão é que por muito tempo não houve (e sinceramente ainda não há), em Portugal, organizações de imigrantes brasileiros fortes (ou mesmo fracas) que defendessem os interesses desta grande população de imigrantes. Por décadas os brasileiros “se viravam” por redes de amizades, por exemplo, outras populações de imigrantes cá residentes rapidamente criaram organizações que os defendesse (vejam os exemplos dos cabo-verdianos, angolanos, são-tomenses, chineses, nepaleses, ucranianos e muitos outros exemplos). O aparecimento de redes sociais como o Facebook e WhatsApp possibilitou um (re)encontro quotidiano com as redes de amizades e familiares espalhadas pelo Brasil (ou mesmo outros países). Este reencontro permitiu mais que matar saudades e estar actualizado sobre o dia-a-dia dos seus próximos, permitiu também uma politização destes brasileiros (à esquerda e à direita, mas sobretudo à direita). Da partilha das notícias falsas, dos discursos de ódio, que vai desde o machismo, homofobia a xenofobia (sim, xenofobia se tratando de imigrantes!), a partilha fácil e acrítica destes conteúdos levou a que muitos brasileiros residentes cá interiorizassem facilmente estes conteúdos. Soma-se ainda, que cá em Portugal não tinham um contraponto que se opusesse a este discurso. Como disse, não havia uma organização brasileira que estivesse próxima dos seus.

Da complexidade desta questão, surgem então os potenciais conflitos directos, pensando no rescaldo das últimas concentrações realizadas em Lisboa, em vários momentos aconteceram distúrbios provocados por brasileiros reaccionários, entre provocações através do grito, o mandar copos de cerveja, empurrões, exemplos cada vez mais não faltam.

Em ano de eleições, mas não só por causa disso, avizinha desafios aos brasileiros que têm-se organizado à volta destes movimentos progressistas, este desafio é sair da centralidade da cidade de Lisboa e ir para as periferias falar com os seus conterrâneos sobre a democracia portuguesa e brasileira, sobre direitos e deveres, sobre luta e resistência. Cabe diluir as diferenças entre brasileiros. Daqueles que vieram para cá realizar seu mestrado/doutoramento e ficaram por cá porque a terrinha é muito boa, contudo acabam num trabalho precário. E daqueles que vieram para cá atrás de uma vida melhor, independente da sua formação, e desde que cá chegaram sempre estiveram em trabalhos precários. Cabe tanto aos primeiros e aos segundos, tomarem as cidades portuguesas, reivindicando o seu direito à cidade, cabe tanto a um como outro reivindicar uma vida digna neste país, participando e transformando as cidades portuguesas, e por fim, cabe tanto a um como ao outro lutar pela defesa da democracia do Brasil e contra a besta fascista que se levanta. O recado aos portugueses é que vamos continuar sambando e levantando poeira, e àqueles que ainda não se conformaram com esta ideia, vamos sambar na vossa cara mesmo. Estas cidades também são nossas!

Marielle vive! Lula livre! E os avanços da besta fascista no Brasil.

Em que difere a morte de Marielle Franco de todas as outras mortes de dirigentes de esquerda este ano e em anos passados?
No ano de 2017 foram assassinados 66 activistas no Brasil (por exemplo, lideranças de movimentos sociais, dirigentes políticos de esquerda, ambientalistas, pessoas do movimento indígena e quilombola, enfim, exemplos não faltam).

O Brasil nunca ultrapassou esta característica de assassinar aquele, que de alguma forma, luta pela transformação social deste imenso país. E uma importante nota, os assassinos muitas vezes são bem premiados pela sua capacidade de exterminar as formigas que vêm em sentido contrário, e, claro, aos assassinos há uma clara impunidade dos seus actos.

Indo ao passado até ao presente, muitos exemplos ilustram esta prática bárbara. Começando pela revolta conhecida por Balaiada de 1838-1841, liderada por Manuel Balaio. Começo por Balaio por ser um exemplo de quem tenha sofrido de violência policial e também por isto tenha iniciado uma revolta. Saltando uns anos à frente, veja-se o extermínio dos cangaceiros no Nordeste do Brasil, que tem na morte de Lampião e Maria Bonita, no ano de 1938, o exemplo máximo. Após executar o bando do Lampião, a polícia decapitou a cabeça dos mesmos e exibiram-nas em cidades nordestinas, com o objectivo de inibir novas resistências semelhantes. Relembramos a morte de Marighela, em 1969, pela polícia da Ditadura de 64, tendo muitos outros opositores desta ditadura sido assassinados ou torturados. O pós-ditadura e o processo de democratização do Brasil não ultrapassou a questão das execuções sumárias daqueles que lutam. Por exemplo, veja-se o famoso Massacre do Eldorado do Carajás no ano de 1996, onde foram assassinados dezanove sem terras que lutavam pela reforma agrária no Brasil. Por fim, Marielle era para ser mais uma na estatística, que sobe ano-após-ano. O que diferencia o caso dela dos 66 que morreram no ano passado e dos tantos outros que morreram este ano?

A ousadia dos assassinos.

Rapidamente, surgiu um discurso à esquerda de que a morte de Marielle deveu-se ao facto de ela levantar algumas bandeiras de lutas: feminismo; anti-racismo; direitos LGBT. Independentemente da justeza destas bandeiras e da sua relação com a morte de Marielle, penso que houve um aproveitamento leviano da luta de Marielle e, em simultâneo, um branqueamento político de sua luta. Se, por um lado, a questão mediática associada à sua morte apresentava um discurso manifesto que tal se deveu por ela ser mulher, negra, favelada e lésbica, ignorando os tantos outros que morreram no combate político à esquerda que tinha todas estas características. Por outro lado, o que torna a Marielle um símbolo político deveu-se ao facto de ela ser vereadora da cidade do Rio de Janeiro e nesta condição ter batido de frente com a Polícia Militar do Rio de Janeiro. O Rio é um centro mediático muito forte, para muitos é erradamente a capital do Brasil, não tendo este estatuto actualmente, esta cidade nunca perdeu a sua característica de centro político, cultural e económico do Brasil (estatuto muito semelhante à cidade de São Paulo). Matar uma pessoa de relevo político nesta cidade terá maior projecção mediática e política do que a morte de todos os outros menos conhecidos ou em qualquer cidade periférica do Brasil. Quer isto dizer, que a morte da Marielle representa muito mais do que uma simples morte de uma combatente de esquerda, representa um sinal da besta fascista a dizer que ninguém lhes pode parar, aqui demarca-se a ousadia dos assassinos. Um outro exemplo da ousadia desta besta é o ataque a tiros contra a caravana de apoio ao Lula no dia 27 de Março passado.

Em ano de eleições presidenciais, começam a surgir dúvidas se realmente teremos eleições, por exemplo, o comandante do exército brasileiro, o General Villas Boas, que twitou pressões aoSupremo Tribunal Federal, caso este cedesse o habeas corpus a Lula, sendo que rapidamente outros militares se juntaram ao coro. Por outro lado, o segundo candidato mais bem colocado nas sondagens é um fascista evangélico, quando as sondagens colocam o Lula como candidato. Foi há pouco mais de um mês a morte de Marielle e parece que com todos os últimos acontecimentos já tenha uma eternidade. Devemos lutar pela memória de Marielle, não deixar que o seu nome e de todos os outros que morreram na luta não sejam esquecidos. Do mesmo modo, temos de lutar pela liberdade de Lula, detido sem provas contra si. E lutar pela democracia brasileira, com Lula com direito a ser candidato e que os assassinos de Marielle e tantos outros sejam presos.

Marielle vive! Lula livre!

Brasil – Não existe pecado do lado de baixo do equador!

Quando os colonizadores chegaram levavam consigo a moral hipócrita imposta por normas religiosas que vigoravam na Europa de então. Comportamentos que eram reprováveis à luz da moral de então na Europa mas que, nos trópicos, pela distância e condição dos povos colonizados, quase tudo se permitiam fazer.

Fruto ou não desse largo e marcante período histórico, a sociedade brasileira não só não conseguiu superar estas características negativas que alicerçam também a sua formação como nação, como as ampliou à gigantesca dimensão actual do país.

O Brasil vive hoje, a exemplo da maioria da América Latina, um processo de retrocesso político e comportamental.

As religiões mais conservadoras, dentro do largo espectro protestante, ganham as mentes e somam fiéis de maneira avassaladora. A própria igreja católica, para não perder “mercado”, vai se tornando cada vez mais reaccionária, marginalizando os sectores progressistas que já tiveram muito maior peso.

Este avanço dos chamados evangélicos, no Brasil, tem sido alcançado pela omissão de muitos dos movimentos e partidos de esquerda revolucionários.

Com a chegada do PT ao governo, muito do trabalho de sensibilização e agitação de base que se fazia junto às comunidades pobres, nos sindicatos, no campo e em todos os locais propícios à mobilização social foi abandonado. Por sua vez, uma parte significativa dos movimentos sociais atenuou a luta, tornou-a reformista, resignando-se frente às alianças inescrupulosas do PT com partidos e sectores reaccionários e corruptos da sociedade.

Ficou vazio um espaço enorme aproveitado pelas igrejas evangélicas, cuja mensagem, para quem nada tem, é muito mais eficaz por se tratar de acreditar em algo “sagrado” que trará a felicidade através da própria inacção política.

Uma parte significativa destas igrejas conseguiram atingir objectivos organizacionais e económicos impressionantes. São proprietárias de várias empresas de comunicação social, rádios, jornais e televisões. Possuem editoras de livros e discos, empresas de “moda” e confecção de vestuário, escolas e universidades, partidos políticos, etc. Ou seja, dominam parte substancial da comunicação social, ditam o que ler, ouvir e vestir, “educam” para os seus valores e estão presentes com muita força nos diversos poderes institucionais de estado, no governo anterior através de coligações e, no actual, integrando o próprio gabinete golpista de Temer.

Em termos económicos, para além de outras fontes de receita menos lícitas, praticam o que muitos movimentos de esquerda sempre almejaram: a retro-alimentação. Gerando actividade económica no seio dos milhões de seus fiéis, se auto-alimentam com os recursos aí gerados.

Outro pilar fundamental na estruturação da teia (anti)social no Brasil actual é o narcotráfico. Nalgumas cidades mais bem organizado que noutras, tornou-se uma actividade que face à ausência de um estado actuante e honesto, supre as necessidades básicas nas comunidades mais pobres. Refiro-me a medicamentos, livros, transporte e outros tipos de recursos. No caso do transporte, tive mesmo a oportunidade de verificar que as linhas de autocarro que passam por comunidades dominadas por um grupo ou outro, no Rio de Janeiro, oferecem transporte gratuito aos seus moradores. Condição imposta pelos chefes deste(s) grupo(s) junto às empresas de transportes.

A agregar a estes aspectos, a interpenetração do narcotráfico nas forças de (in)segurança como a Polícia Militar e outras, é fundamental para a manutenção e ampliação do seu poder territorial, económico e militar.

Cabe frisar que o narcotráfico existe, segundo uma óptica capitalista, porque há um mercado consumidor muito importante. No Brasil, esse mercado situa-se nas zonas mais ricas, nos bairros ditos “nobres”.

Por último, o terceiro pilar, a corrupção. Apesar de entranhada em todas as esferas, é ao nível de poder institucional que toma proporções gigantescas na apropriação dos recursos económicos do estado.

A exemplo dos colonizadores de 1500 e anos subsequentes, não há pudor nenhum quando se trata de espoliar, roubar. É norma para uma parte substancial dos “governantes” pedirem a sua parte para aprovação de um projecto ou obra junto a empresas, muitas ONGs, etc. E este factor, a corrupção, é transversal aos dois anteriores pilares, a religião no poder institucional e nas outras diversas esferas de domínio da sociedade, o narcotráfico e quem o sustenta e permite.

Com tudo isto, os movimentos sociais, populares e revolucionários, navegam num mar extremamente revolto. São rechaçados por uma parte substancial da pequena-burguesia que, por ignorância, fruto da manipulação nos meios de comunicação hegemónicos e da própria educação formal, além de outros factores, prefere prestar vassalagem ao opressor do que aliar-se aos seus semelhantes oprimidos. Levanta-se facilmente em arrufos de nacionalismo “ingénuo” contra o jornal New York Times, por exemplo, quando este escreve contra a gastronomia carioca. Vai para as manifestações reaccionárias vestida de verde e amarelo, mas nada diz e faz contra a entrega das empresas e recursos energéticos brasileiros ao capital transnacional.

Por outro lado, estes movimentos populares desenvolvem o seu trabalho heróico no campo e na cidade, tendo como base um cenário de ameaças, perseguições, sequestros e assassinatos. Com a chegada ao poder do actual governo golpista, os assassinatos selectivos a líderes rurais, políticos e comunitários tem aumentado substancialmente. E isto tem ocorrido em movimentos com cariz mais reformista até aos mais revolucionários.

Os movimentos sociais populares no Brasil são numerosos, diversos e, nalguns casos, extremamente bem organizados a nível de reflexões, teorias e práticas, características difíceis de se encontrar nos da Europa. Contudo, mesmo assim, estão longe de ser hegemónicos e, principalmente, difíceis de se coordenarem entre si de forma a estabelecerem plataformas de unidade e acção. A pulverização é grande, a ausência de estruturas políticas aglutinadoras, a própria dimensão do país e dificuldades na comunicação, fazem com que muitos desses movimentos permaneçam isolados nas suas próprias realidades locais e/ou regionais.

Os resultados das recentes eleições municipais confirmaram o que se esperava da “democracia” burguesa. Com raríssimas excepções, os/as candidatos/as dos partidos apoiantes do actual governo golpista venceram na esmagadora maioria das cidades brasileiras. Parte considerável das vítimas votaram nos seus carrascos.

Uma nova noite escura de retrocessos e aumento da repressão que chegou ao Brasil, pode ser o mote para muitos dos movimentos sociais que tinham afrouxado a acção, achando que o PT no poder os representaria, reactivarem a resistência, voltarem a radicalizar a luta e a acção de massas.

Afinal, um país tão grandioso em vários aspectos mas tão desigual e injusto, não poderá seguir eternamente a trocar espelhos pelas suas riquezas, como na canção do mexicano Gabino Palomares “la maldición de malinche”.

*Autor Convidado
Carlos Gomes

Luta contra a Direita na América Latina

A luta entre a reacção e as forças do progresso social vive momentos intensos na América Latina.

Amanhã Dilma Rousseff será provavelmente afastada formalmente do cargo de Presidente do Brasil por Senadores (esses sim) corruptos, oportunistas e irresponsáveis, ao serviço da burguesia nacional e estrangeira. A frontalidade exemplar de Dilma perante os acusadores contrastou com o medo do presidente interino, Michel Temer, em ser apresentado durante a cerimónia de apresentação dos Jogos Olímpicos. A acusação de golpe de estado não é mera retórica: a direita brasileira não tendo conseguido derrotar o PT nas urnas, usa acusações juridicamente insuficientes para um processo de impeachment – com o apoio dos media e manifestações reaccionárias – para afastar Dilma, e imprimir um processo acelerado de retrocesso social.

Na Bolivia, os mineiros corporativistas organizam manifestações para garantir interesses privados na exploração dos recursos minérios – que a Constituição da Bolivia garante serem propriedade do povo Boliviano e serem administrados pelo Estado. Não são manifestações de trabalhadores minérios em torno de reivindicações laborais, mas pequenos patrões que impulsionam um movimento conspirativo e golpista. Entre as suas exigências inclui-se impedir a sindicalização nas suas empresas; revogar a Lei Mineira e Metalúrgica que impede o investimento de empresas privadas nas cooperativas mineiras; e flexibilizar a regulamentação ambiental (ver). A natureza provocatória deste movimento foi reforçada pelo ministro Boliviano, Carlos Romero, que assegurou 2ª feira que “entre os mineiros cooperativistas, que causaram a morte de 4 cooperativistas e do vice-ministro do Interior Rodolfo Illanes, se encontram grupos que querem restituir a privatização do sector mineiro.” (ver)

Na Venezuela, a governo Bolivariano tem sido alvo de manobras imperialistas aliadas à direita nacional, um processo que pretende culminar no próximo 1º de Setembro, no que a oposição – aglutinado na Mesa da Unidade Democrática (MUD) – chama de “Tomada de Caracas”, e que poderá vir a constituir uma jornada provocatória da extrema-direita com vista a aprofundar a desestabilização do país.

Recorde-se a ordem executiva dos EUA – aprovada em Março de 2015 e recentemente prorrogada por Barack Obama – que considera a Venezuela uma «ameaça inusual e extraordinária para a segurança nacional e a política externa» dos Estados Unidos. As pressões dos EUA aumentam na preparação da “Tomada”: na passada 5ª feira, foi anunciado que mais de 30 congressistas dos EUA pediram aos Secretários de Estado e Tesouro para imporem mais sanções à Venezuela e seus oficiais, considerando que “a democracia está falhando” na Venezuela.

Mas tal como no Brasil e na Bolívia, também na Venezuela o povo virá à rua defender as suas conquistas. A luta será dura.

O futuro do Brasil não passa pelo Parlamento

Não houve como não parodiar e rir com as desgraçadas intervenções e justificações dos deputados brasileiros na famigerada votação do «impeachment». «Impeachment», diga-se, cujo verdadeiro equivalente de sentido é – convém memorizar – «golpada». E se algum dia lhe disserem o contrário não acredite, é mentira. Palavra de tradutor/intérprete.

Tudo aquilo naquela tarde/noite roçou o irreal, o ridículo. O problema é que o ridículo, no Brasil como noutras partes do globo, pode de facto ser muito perigoso. Sobretudo se tivermos a noção de que passa também por aquele leque de “decisores políticos” muito da vida de um dos países mais populosos do mundo. País esse onde grassa ainda uma grande disparidade social e económica, uma sociedade de alguns ricos e de muitos muitos milhões de pobres.

O destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso

Importa, contudo, ter bem presente – é a História que no-lo ensina – que da mesma forma que o capital não respeita barreiras de formalismos e legalidades na sua acção monopolista e destruidora, o que faz abolindo ou contornando tais “minúcias”, também não há – não pode haver! – obstáculos formais ou legalistas que não possam ser derrubados quando estão em causa questões fundamentais como a democracia, o respeito pela vontade popular, a liberdade.

Importa assim reforçar a ideia de que quanto a esses pilares fundamentais, seja na América do Sul, na Europa ou noutras latitudes onde impere uma organização fundamentalmente burguesa de Estado, o destino do Brasil não se decide nem se decidirá em sessão parlamentar. Na Câmara de Deputados decide-se uma votação, uma mera formalidade. Já o destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso.

Neste caso concreto, a solução terá que passar necessariamente por uma de duas vias: ou o povo luta nas ruas – em todo o lado – de forma firme e organizada – e é bom lembrar que o capital também se organiza e se organiza bem – contra este movimento reaccionário de uma direita corrupta e a soldo dos grandes interesses, ou então o povo – a vítima – será cúmplice e espectador manso da tomada de poder da grande oligarquia financeira nacional e internacional – hoje com mais vigor que no passado –, que há muito anseia pelo saque e controlo total das riquezas e potencialidades económicas do país.