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BE ataca Venezuela

«Não me custa nada condenar a falta de democracia na Venezuela.» afirmou, hoje, no JN, Mariana Mortágua, deputada do BE. Há uma semana, quando o PCP apresentou votos de solidariedade com os povos da Venezuela, Brasil e Colômbia, o deputado bloquista Paulino Ascenção afirmava que o seu partido rejeitava “qualquer abuso da força ao nível interno ou através de ingerência externa” e que condenava “qualquer limitação à liberdade de expressão e à livre determinação do povo da Venezuela”. Ou seja, o BE alimentava o peditório de que o governo venezuelano abusa da força e limita a liberdade de expressão.

Num momento particularmente grave na Venezuela, a par do Brasil, em que se tenta legitimar o derrube de Nicolás Maduro, o BE sobe ao muro da traição para dar força aos que já executaram um golpe fascista, entretanto derrotado pelo povo, em 2002. No parlamento europeu, os eurodeputados do BE aliaram-se à direita e abriram caminho à invasão na Líbia e, desde então, tentam repetidamente convencer-nos de que não fizeram nada disso. A haver uma agressão contra Caracas legitimada por uma opinião pública contaminada pelas Marianas Mortágua e Paulinos Ascenção de todo o mundo que saibam os deputados do BE que o criminoso não é só o que dispara. É também o que aponta.

É também curioso que os que dizem defender o legado de Salvador Allende conseguem ao mesmo tempo condenar a revolução bolivariana e Nicolás Maduro porque são, supostamente, os responsáveis pelo caos económico na Venezuela. É que quem tem pelo menos dois dedos de testa e um conhecimento mínimo da história sabe que também houve caos económico no Chile durante o governo da Unidade Popular fruto da mesma estratégia de sabotagem, desabastecimento e bloqueio promovidos pelos grandes grupos económicos, em conjunto com a direita e os Estados Unidos.

Também curiosamente, o BE continua calado sobre a maior deportação de seres humanos desde a 2ª Guerra Mundial que leva o carimbo do Syriza. A polícia de choque do regime grego desaloja milhares de refugiados dos campos e nem uma só palavra sobre o assunto dos amigos do peito de Alexis Tsipras.

Ao sabor da brisa mediática

Até hoje, nas suas relações internacionais, jamais o BE havia tido um governo de um partido que coincidisse com a sua linha política. Timidamente e muito pontualmente, mostrou-se solidário com alguns governos que na América Latina avançavam com políticas progressistas. Nunca vimos este partido organizar actos contra o golpe na Venezuela, Equador ou Bolívia. Com Cuba jamais mostrou o mais pequeno gesto de empatia e não se sabe qual é a sua posição sobre o bloqueio contra a pátria de José Martí.

Nas suas posições sobre questões internacionais, o BE preferiu quase sempre deslizar ao sabor das marés imposta pelo mediatismo. Desde considerar simpática a candidatura de Barack Obama e de François Hollande, a não ter qualquer posição crítica sobre as manifestações em Kiev que levaram o fascismo ao poder com a consequente ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e a guerra contra a insurreição no Leste do país. Sobre a Líbia, é sobejamente conhecido o papel que tiveram os eurodeputados do BE na resolução que abriu as portas à agressão que conduziu aquele país à Idade Média e à brutalização das mulheres.

As críticas e o mal-estar gerado mudaram a sua postura em relação à Síria. Não apelou a uma intervenção externa e moderou o seu discurso em relação ao governo de Bashar al-Assad mas pouco ou nada ouvimos sobre o que pensa dos supostos rebeldes financiados e treinados pelos Estados Unidos, União Europeia, Turquia e Arábia Saudita. Entrevistou, há dias, em Lisboa, ao lado de um monumento com a estrela de David, uma investigadora síria que defende o derrube de Bashar al-Assad.

É curioso, pois, que quando chega ao poder, pela primeira vez, um partido da mesma família política do BE, se dá uma das maiores traições à esquerda das últimas décadas na Europa. O BE tinha apoiado e feito campanha pelo Syriza mas quando chegou ao governo e rasgou tudo o que havia prometido os portugueses tiveram de se retratar. Vários dirigentes que antes eram amigos de Alexis Tsipras fingiam distanciar-se. Os dirigentes do BE sentiram-se obrigados, por diversas vezes, a desmarcar-se das decisões políticas do Syriza mas, na verdade, nunca deixaram de estar ao lado do Syriza.

Esta semana, Marisa Matias voltou à Grécia para um encontro do Partido da Esquerda Europeia onde esteve presente o mesmo Alexis Tsipras que nos dias anteriores havia estado como observador num encontro dos socialistas europeus. O mesmo que aperta a mão ao genocida Nethanyau enquanto firma acordos com Israel. Uma vez mais, as palavras dizem uma coisa, as acções mostram outra. Foi assinado um documento conjunto contra a expulsão de refugiados da União Europeia ao mesmo tempo que Tsipras encabeça um dos governos que pede a deportação rápida de milhares de pessoas que fogem da guerra.

É certo que o BE não tem culpa pelo que decide ou não o Syriza mas este é o mesmo partido que tentou por diversas vezes obrigar o PCP a condenar o regime angolano. Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável.

Quando saltou o tema de Luaty Beirão para as manchetes dos jornais portugueses, o BE tentou aproveitar-se do caso e chegou a acusar uma vez mais o PCP de não estar à altura dos acontecimentos mesmo quando os comunistas haviam apresentados moções em defesa da salvaguarda dos direitos dos vários grevistas de fome. Sabendo que é forte a empatia ideológica entre o BE e o Syriza, a relação de proximidade de anos, os comícios conjuntos tanto na Grécia como em Portugal, a solidariedade mútua durante as campanhas eleitorais, sabendo de tudo isso, quando é que o BE vai condenar o regime grego pela expulsão de milhares de refugiados para a Turquia?

Resistência também é nome de mulher

A histórica luta das mulheres trabalhadoras pelos seus direitos teve episódios que não se podem apagar. Um deles é o do incêndio, em 1857, na fábrica de camisas Triangle, em Nova Iorque, em que centenas de operárias, sequestradas pelo patrão, acabaram carbonizadas. Em Portugal, o exemplo da tragédia que se abateu, em 1954, sobre Baleizão com o assassinato da assalariada rural Catarina Eufémia durante protestos por melhores condições de trabalho. A também comunista estava grávida e com um filho ao colo quando foi abatida pela GNR.

Mas o combate abnegado pela reivindicação mais do que justa de direitos iguais não foi palco apenas de tragédias. O sangue das mártires que caíram nesta luta regou a sementeira de conquistas e significou importantes avanços. O Dia Internacional da Mulher foi conquistado sob proposta da comunista alemã Clara Zetkin que o propôs na II Conferência da Internacional Socialista, em 1910, no contexto da luta pelo direito ao voto, à redução do horário de trabalho e ao aumento de salários. A proposta foi aprovada por unanimidade e, em 1911, o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora foi declarado com manifestações em todo o globo.

Ao longo do século XX, sucederam-se os avanços em matéria de direitos capitaneados, fundamentalmente, pelos países socialistas. Depois da II Guerra Mundial, os trabalhadores, e também as mulheres, conquistaram direitos com a libertação da Europa. A vitória sobre o nazi-fascismo teve nas mulheres soviéticas um importante contributo. As diferentes lutas de libertação nacional e social abriram caminho às mulheres mas as mulheres também abriram caminho às lutas de libertação nacional e social. Fosse em Cuba, no Vietname ou no Burkina Faso, as trabalhadoras desses países conquistaram importantes avanços.

Mas falar hoje das lutas pela emancipação e igualdade é também falar dos retrocessos e dos perigos. Quando nos anos 70 o imperialismo lançou uma campanha para desacreditar o governo progressista do Afeganistão e financiou os talibãs o objectivo era arrancar aquele país da esfera dos países socialistas e devolve-lo ao medievalismo religioso. Sem grandes reservas, muitas forças políticas que, então, se diziam e dizem de esquerda apoiaram o embrião da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Se hoje as mulheres não podem andar de mini-saia, não podem trabalhar sem autorização do marido, não podem conduzir ou são obrigadas a andar de burka a estas forças ditas de esquerda se deve. Quando condenaram o apoio militar soviético pedido pelo governo afegão para evitar a barbárie assinaram a sentença de morte da democracia nesse país. A história repetiu-se também na Líbia e também na Síria.

É, pois, importante denunciar aqueles que à boleia de supostas primaveras democráticas abriram caminho à barbárie no Médio Oriente. As mulheres que hoje estão condenadas à escuridão mais absoluta ou à fuga desesperada à guerra vivem infinitamente pior. Reclusas da estratégia imperialista ou refugiadas à mercê do tráfico, da prostituição e da violência, as mulheres árabes não têm outra opção que a de resistir e nós não devíamos ter outra opção que a de as apoiarmos. Não é estranho, pois, que nas fileiras da resistência curda as mulheres assumam a dianteira da luta. Elas sabem que mais do que ninguém têm tudo a perder.

Spinning

No dia 22 de Janeiro, o PSD e o CDS apresentaram uma proposta no plenário da Assembleia da República para a realização de uma auditoria externa ao Banif. O BE, pela voz de Mariana Mortágua, logo a seguir, afirmou que “a primeira iniciativa que o BE vai ter depois de constituída a comissão de inquérito é propor a realização de uma auditoria externa.” O PCP falou pouco depois e afirmou que não estava disponível para encomendar “auditorias externas” que viessem a condicionar o trabalho da comissão de inquérito e que seriam feitas pelas mesmas empresas que são peritas em esconder a verdade. E o PCP disse mais: que rejeitaria essa proposta, fosse quem fosse que a apresentasse.

O PS mostrou indisponibilidade para aceitar a realização de uma auditoria externa ao Banif. Na verdade, uma auditoria externa é realizada pelas empresas que ao longo dos anos fizeram a avalização das contas do Banif, bem como de todos os outros bancos e grandes empresas portuguesas. O PSD, CDS e BE queriam assim deixar nas mãos de uma empresa privada habituada e especializada em manipular factos e esconder a realidade. Felizmente, o BE percebeu que tal proposta não fazia sentido e aceitou assinar uma proposta conjunta com o PS e o PCP para, em vez de uma auditoria externa, a Comissão de Inquérito pudesse recorrer à Unidade Técnica de Apoio Orçamental (unidade da própria Assembleia da República) sempre que a complexidade técnica dos assuntos a tratar pela comissão o exigisse. Foi o Grupo Parlamentar do PS que apresentou a proposta à Comissão.

O Jornal de Negócios resumiu todo este processo da seguinte forma: Mariana Mortágua quer UTAO a dar apoio à comissão de inquérito. Logo a seguir, alterou dizendo que o PS é que tomou essa iniciativa mas insistindo na ideia de que o BE é que propôs e anunciou. Ao mesmo tempo, o Jornal de Negócios não se limita a esconder a reviravolta do BE, mas vai ao ponto de mentir e dizer que o BE é que anunciou a proposta e que essa é da sua autoria. Mas o mais grave é que a notícia que o Jornal de Negócios faz não é sobre a Comissão de Inquérito, é sobre o BE na Comissão de Inquérito. E faz disso notícia, mentindo.  A questão da realização ou não de uma auditoria e de o BE ter desistido é completamente secundária, mas a forma como a comunicação social começa a mentir para manter a sua campanha publicitária de apoio ao BE é bastante ilustrativa dos procedimentos utilizados para que a percepção pública sobre o trabalho parlamentar seja completamente distorcida. Recordemos que apesar do BE ter votado favoravelmente as três partes do relatório da Comissão de Inquérito ao BES e de se ter abstido na votação final – ao contrário do PCP que votou contra – não deixou de ser promovido como a força política que enfrentou os grandes grupos financeiros

“Em relações públicas, spin é uma forma de propaganda, concretizada através da difusão de uma interpretação manipulada de um evento ou de campanhas para persuasão da opinião pública a favor ou contra qualquer organização ou figura pública. Enquanto as formas tradicionais de relações públicas podem assentar na apresentação criativa dos factos, o spin geralmente utiliza artifícios ardilosos, sem franqueza, enganosos e altamente manipuladores.”

Tradução minha de William Safire, New York Times, December 22, 1996.

Recuperar as 35 horas, uma luta de todos.

A imposição das 40 horas semanais de trabalho aos trabalhadores das administrações central e local foi uma das mais violentas agressões do governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas. Esta decisão, sob a orientação do FMI e da União Europeia e correspondendo aos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, representou um dos mais graves retrocessos para os direitos de quem trabalha na função pública. Na prática, quem trabalha para o Estado, passou a exercer a sua profissão de forma gratuita durante cinco horas por semana, o que corresponde a 20 horas por mês. Ou seja, mais de um mês de trabalho que em cada ano o Estado deixou de pagar.

Esta decisão foi tanto mais grave quando a batalha pela redução horária das jornadas laborais é, desde sempre, uma bandeira central na luta da classe trabalhadora ao longo da sua história. Desde os mártires de Chicago que, em 1886, caíram abatidos pela polícia durante uma manifestação pelas oito horas diárias de trabalho, e cuja tragédia levou à decisão de se assinalar o primeiro dia de Maio como o Dia Internacional dos Trabalhadores, às lutas do proletariado agrícola que nos campos do Alentejo conquistaram as mesmas oito horas em pleno fascismo.

Não admira, pois, que entre as muitas reivindicações dos trabalhadores da Administração Pública nas diversas acções que se realizaram contra o governo liderado pelo PSD e pelo CDS-PP se destacasse a batalha pela recuperação das 35 horas semanais. Tanto foi assim que se conseguiu através da luta que muitas autarquias devolvessem os anteriores horários aos seus funcionários. Esta conquista foi tão generalizada que o actual governo de António Costa não teve qualquer dificuldade em avançar para as 35 horas na Administração Local. Por que não aplica, então, as 35 horas aos restantes funcionários públicos?

Logo que a questão começou a ser discutida na Assembleia da República a máquina mediática tratou de espalhar a desinformação, a manipulação e a mentira. Os porta-vozes dos grandes grupos económicos e financeiros na comunicação social trataram de usar a velha táctica de virar os trabalhadores do privado contra os do público. Por que hão-de os funcionários públicos trabalhar 35 horas quando no privado se cumprem as 40 horas? Ninguém tratou de perguntar em directo para que todo o país ouvisse por que há-de trabalhar 40 horas quem exerce a sua profissão no privado quando os do público conquistaram o direito às 35 horas.

Mas a campanha mediática também tratou de escamotear que a proposta do PS não só não prevê no imediato o regresso das 35 horas para todos os funcionários públicos como deixa no ar a possibilidade de que em determinados sectores – como o da saúde – se possa manter o roubo de cinco horas semanais de trabalho gratuito. É por isso que há que apoiar a luta dos trabalhadores que decidiram fazer greve para reclamar as 35 horas. Os sindicatos da CGTP estão do lado certo da história. O novo quadro político abre caminho à reposição de direitos e à conquista de mais e melhores condições para os trabalhadores e o povo. Naturalmente, a luta é fundamental para que o actual governo cumpra não só algumas das suas promessas eleitorais mas também para que se devolvam outros direitos.

Reclamar as 35 horas é cumprir com o legado histórico pelo qual gerações e gerações de trabalhadores lutaram de forma abnegada. E é justo que se diga que esta reivindicação deve ser entendida como sua por quem trabalha no privado. Na marcha da história, as conquistas dos sectores mais emancipados da classe trabalhadora acabaram por significar importantes avanços para todos. Avancemos, pois.

A música que não cabe nas televisões


Tão longe dos holofotes dos media como dos top musicais, há quem faça da música parteira do mundo novo. São os netos de Woody Guthrie, de Victor Jara e de Zeca Afonso. Ao contrário da pop não é a forma que determina a eficácia do disparo e até o alvo é diferente. Da garganta e dos instrumentos, é o conteúdo que funciona como gatilho. Ninguém se importa com o penteado do ‘O Zulù, uma das vozes dos 99 Posse, como ninguém se importa com o que veste o Alex dos Inadaptats. As ideias acima da estética. Não são alvo da histeria adolescente e a sua obra não caminha aos ombros da indústria discográfica.

Esta é uma realidade que se atravessa ao longo do espectro artístico. A pornografia dos valores está presente do cinema à música e da arquitectura à literatura. A arte como explicou Vladimir Maiakovski não é um espelho para reflectir o mundo. É antes um martelo para forjá-lo. É isto que não interessa aos que comandam os destinos das nossas vidas através do poder económico e financeiro. A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Nada de novo. O estrelato está reservado para quem não questiona o sistema e, sobretudo, para quem o defende atacando as alternativas criadas. Para os outros, há o alçapão da história. Que é escrita pelos vencedores. Até começar a ser escrita por nós.

Análise eleitoral: Podemos supera independentismo

Nas regiões e nações sem Estado, confirmou-se a tendência que vinha dando força ao Podemos. Com diferentes leituras, a formação política liderada por Pablo Iglesias teve importantes resultados em Madrid, em Valência, na Galiza e triunfou no País Basco e na Catalunha. Cientes da necessidade de solidificar os resultados obtidos nas eleições regionais, os dirigentes do Podemos piscaram o olho ao eleitorado independentista e apesar de defenderem a unidade de Espanha reiteraram o seu compromisso com uma reforma constitucional que abra caminho a referendos que permitam aos diferentes povos decidir o seu próprio futuro. O discurso das esquerdas independentistas de que a solução para a ruptura com a crise do capitalismo passava pela ruptura com o Estado espanhol foi suplantado pela ilusão de que seria mais fácil para uma nova força como o Podemos chegar ao poder e protagonizar transformações importantes. Em parte, é o que explica os avanços nas regiões onde o independentismo está mais amadurecido: Catalunha, País Basco e Galiza.

Na Catalunha, depois de negociações que incluíram o reconhecimento do direito à autodeterminação daquele povo, o Podemos conseguiu integrar a Esquerda Unida e as forças que lideram, hoje, a alcaldia de Barcelona, entre elas, a presidente Ada Colau. Outro dos factores que ajudou a formação de Pablo Iglesias foi a ausência da Candidatura de Unidade Popular (CUP). A organização independentista de esquerda tinha conquistado um importante resultado nas eleições autonómicas e é a chave nas negociações que todavia se desenrolam no parlamento catalão para eleger o governo regional. A decisão de não se candidatar ao congresso espanhol de deputados deixou um vazio à esquerda que foi ocupado pelo Podemos.

A receita aplicada na Galiza foi parecida à da Catalunha. Nas eleições regionais, com o apoio do Podemos, diferentes forças políticas coligadas arrebataram importantes cidades numa região que sempre foi um feudo do PP. Para além de perder A Corunha, Compostela e Ferrol, a direita espanhola ficou fragilizada em muitos dos municípios galegos. Agora, sob o nome En Común, a receita passou pela aproximação entre formações espanholas como o Podemos e a Esquerda Unida com organizações independentistas como a ANova-Irmandade Nacionalista, liderada por Xosé Manuel Beiras – dissidente do Bloco Nacionalista Galego (BNG) – que inclui, entre outras, a Frente Popular Galega. Apesar do PP voltar a liderar as contas eleitorais na Galiza, sofreu uma queda valente e, perigosamente, vê aproximarem-se as forças encabeçadas pelo Podemos. Mas estas são também eleições trágicas para a esquerda independentista que se recusou aliar à esquerda espanhola. Durante décadas, a presença da Esquerda Unida na política galega era praticamente inexistente. Sem grande concorrência à esquerda, era o BNG que liderava o discurso independentista que, apesar de descafeinado, tinha presença no parlamento espanhol. Curiosamente, nos últimos anos, com a saída de um importante grupo de militantes, que acabou ao lado de Beiras e do Podemos, as suas posições radicalizaram-se, o que, ainda assim, não conseguiu evitar a hecatombe eleitoral.

Extraordinária foi também a quebra de votos na esquerda independentista basca. Depois do cessar-fogo da organização armada Euskadi Ta Askatasuna (ETA) e do fim das proibições à participação eleitoral de partidos vinculados com essa linha política, as coligações lideradas pelo Sortu foram somando surpreendentes vitórias que ameaçaram o domínio do conservador Partido Nacionalista Basco (PNV). Contudo, a nova estratégia da esquerda independentista, demasiado presa à lógica institucional, começou a perder apoio nas últimas eleições. O descontentamento interno com as constantes cedências nas posições políticas, a suavização do discurso e o abandono dos espaços de confrontação tem feito crescer o perigo de uma cisão na esquerda independentista basca. A coligação EH Bildu perde, inclusive, no seu bastião, a região de Guipuscoa cuja capital é Donostia (São Sebastião), onde fica atrás não só do Podemos como do PNV. Em Navarra, onde os bons resultados da esquerda independentista basca em conjunto com os do Podemos tinham permitido, nas eleições regionais e municipais, arrancar do poder a versão navarra do PP e dar a alcaldia de Iruñea (Pamplona) ao EH Bildu, não conseguem eleger sequer um deputado. A verdade é que o discurso descafeinado da esquerda independentista basca não difere muito do que propõe o Podemos e, apesar da importante derrota, nestes dias, quem passar os olhos pelo Gara – jornal que veicula as principais ideias do Sortu – pode ver piropos ao Podemos e ao seu avanço eleitoral.

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Análise eleitoral: o Estado espanhol rompe com o bipartidarismo

As eleições gerais no Estado espanhol ditaram, este domingo, o fim da hegemonia eleitoral do PSOE e PP. À custa de uma extraordinária pulverização do sistema partidário, entraram no congresso 13 candidaturas, das quais se destacam os fenómenos Podemos e Ciudadanos.

Descaradamente promovidos pela comunicação social da classe dominante, estes dois partidos vêm assumir a herança ideológica dos seus padrastos políticos: Ciudadanos que alcança 40 mandatos, opera à direita a recomposição possível do PP, o grande castigado do escrutínio, com menos 63 eleitos; já o Podemos permite, aliás à semelhança do binómio grego PASOK-Syriza, esvaziar em segurança o desprestigiado e desgastado eleitorado do PSOE.

É certo que somados, PP e PSOE não chegam aos 50% dos votos, mas a relevância política desta epifania é órfã de tradução partidária. É disso exemplo as sistemáticas cedências à direita protagonizadas pelo partido de Pablo Iglesias são disso exemplo: em menos de um ano, o Podemos deixou cair a saída do Euro e da NATO, mudou de opinião sobre o não pagamento da dívida, desistiu da nacionalização da eletricidade, da banca e das telecomunicações, abandonou o projecto da reforma aos 60 anos e passou a «reconhecer a utilidade» das empresas de trabalho temporário.

À esquerda, o grande derrotado é a Esquerda Unida – Unidade Popular, candidatura onde se insere o Partido Comunista de Espanha. Em relação a 2011, a IU, que concorre ainda inserida em várias coligações de âmbito regional, perde metade dos votos e só tangencialmente assegura uma representação parlamentar de dois mandatos, muito atrás dos cinco exigidos pela lei eleitoral para a formação de um grupo parlamentar.

Não escamoteando os erros e contradições já assumidos pela IU, é justo apontar que esta formação foi, entre todas as formações com assento parlamentar, a mais penalizada pelo método d’Hondt: para eleger cada um dos deputados da IU precisou de 454 012 votos enquanto ao PP bastaram 59 697 votos por mandato. Feitas as contas, há cinco partidos políticos que, com menos votos que a IU, conseguem eleger mais deputados.

Ainda à esquerda, merece destaque o crescimento de mais de 4000 votos registado pelo PCPE (Partido Comunista dos Povos de Espanha) que, malgrado muito aquém da representação parlamentar, afirma-se, no panorama estatal, como uma das poucas forças políticas consequentes.

Jogos de pactos

Ao contrário do que se verifica na câmara alta, onde o PP mantém a maioria absoluta de senadores e conserva o poder de impor bloqueios legislativos e controlar eventuais reformas constitucionais, o congresso saído destas eleições augura um cenário prolongado de instabilidade institucional que só pode ser ultrapassado a três, quatro, ou cinco partes.

Sendo, para já, implausível que PSOE e PP consigam fechar um pacto de governo e, por outro lado, considerando que PP e Ciudadanos não bastam para reunir os 176 mandatos que poderiam sustentar uma maioria absoluta, o próximo governo de Espanha dependerá do que fizer o Podemos e os inúmeros partidos independentistas, soberanistas e nacionalistas catalães, galegos e bascos.

O busílis da questão não é tanto a distância entre o Podemos e o PSOE mas, principalmente, as distâncias que estas duas forças estão dispostas a ceder às aspirações de independência das nacionalidades histórica. PSOE e Podemos não conseguem garantir sozinhos a maioria absoluta, pelo que dependeriam de acordos com galegos, bascos e catalães. Neste aspecto, a postura negacionista do PSOE perante o direito de autodeterminação dos povos do Estado espanhol e, por outro lado, a tradição independentista, pouco atreita a colaborar com o regime espanhol, auguram vida curta à XI legislatura da monarquia parlamentar espanhola.

O PSOE surge, assim, numa encruzilhada. Com uma alta probabilidade de conseguir garantir a presidência da câmara baixa, o partido liderado por Pedro Sánchez deve assumir, a curto prazo, opções políticas inéditas para evitar o destino do congénere grego. Ceder a um pacto com PP e Ciudadanos para manter as mesmas políticas, desrespeitando a vontade dos eleitores, significa enviar aquela estrutura partidária num caminho eleitoral de não retorno. Inversamente, embarcar numa dança com o Podemos é um jogo igualmente perigoso para os socialistas: à medida que se consuma a viragem à direita do partido de Iglesias maior será a competição pelo eleitorado do PSOE, colocando em causa acordos municipais como o de Madrid.

A nível estatal, sai destas eleições um cenário de desagregação dos partidos tradicionais do grande capital, que procura no Podemos e no Ciudadanos uma nova formulação partidária e eleitoral. A subsequente instabilidade institucional surge assim como o quociente de uma crise do capitalismo que, no caso espanhol vem alargando fracturas nacionais e sociais, sem que os problemas políticos se espelhem em problemas partidários e eleitorais.

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