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#thisislisbon

A., 50 anos, encontrou trabalho num hotel há dois meses. O filho, segurança, paga metade da renda. Recebeu o aviso prévio para sair de casa daqui a dois meses. Ia ver uma casa, 700 euros. O salário é de 580 brutos. Tem três filhos, dois em idade escolar e o outro que a ajuda. Vão todos ser despejados. Chorou porque acha injusto que o filho suporte o valor da renda que ela como mãe devia assegurar. Mas perdeu o emprego. E agora que recuperou e procura um segundo emprego não tem casa para onde ir.

B., mulher. Deve ter 67 anos. A casa ardeu, não tinha seguro. Irrecuperável. A Santa Casa arranjou um quarto pelo qual paga 250 euros. Obrigada a deixar o cão num canil (a sua única companhia) por não autorizarem animais ainda o visita pelo menos uma vez por semana. No quarto onde vive conta que há ratos e baratas.

Mulher, 60 anos, vai visitar os filhos 1 mês a França. Regressa o prédio foi vendido e mudaram a fechadura. Nunca recebeu nenhuma carta. Está desempregada faz horas em casa de pessoas. Vive numa sala emprestada por uma amiga, com uma puxada de luz e toma banho nas casas onde trabalha. Vivia no prédio desde os 15 anos.

Mulher sozinha. 86 anos. Paga 550 euros de renda. O senhorio, proprietário de uma das agências Remax quer 1100 euros. Mas como sabe que a senhora não pode pagar, despejou-a. “Tenho muita pena mas eu quero ganhar dinheiro. Dava-me jeito que saísse este mês”.

68 anos. Há 68 que vive na mesma casa. Nasceu ali. Está dependente de oxigénio. Recebeu uma carta de umas miúdas alemãs donas do prédio para sair porque querem transformar em alojamento local. Vive com a mulher de 72. Tem o contrato antigo e já beneficiou dos 5 anos da impossibilidade de aumento de renda.

Isto é Lisboa. Predadora, vendida ao capital estrangeiro, submissa ao dinheiro, com cartazes a valorizar esta nova cidade que cospe os seus habitantes e se transforma em condomínio de luxo.

As soluções? Tímidas. Uma moratória anti-despejos até março de 2019 para quem vive há mais de 15 anos na casa e tenha mais de 65 (e todos os outros? Os mais novos? Os que vivem em quartos? Os que têm contrato de um ano?).

Uma lei que aguarda promulgação (e aguarda mesmo, apesar da Presidência se mostrar tão divorciada da realidade que nem sabe que foi aprovada) e que apenas protege o direito de preferência de quem pode comprar. E quem não pode?

Tardam as soluções embora estejam à vista:- fim dos vistos gold;- revisão do regime dos estrangeiros não residentes (que compram cá para não pagarem impostos..);- revogação da Lei Cristas;- Duração mínima de, pelo menos, 5 anos para os contratos de arrendamento para habitação própria e permanente;- Impossibilidade de alteração de licença de habitação própria e permanente para alojamento local;- Quotas de alojamento local e de arrendamento para famílias com baixos rendimentos;- Expropriação da banca e das financeiras do património imobiliário para atribuição a famílias com carência de habitação;- Limite ao aumento de rendas.

Mas nada será possível sem a organização e luta necessárias. Contra a política da Câmara Municipal de Lisboa e de todos os municípios que violam o direito à habitação. Contra a política do Governo que permite que haja tanta gente sem casa ou em condições sub-humanas. Basta. E nós somos mais.

(todas as histórias aqui contadas são verdadeiras)

Medina e o amarelo da Carris

Carta Aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina.

Caro Fernando,
Ouvi-o dizer há alguns meses que o conceito de “turistas a mais não existe. Não tem sentido“. Em plena época de recreio gostava de o incitar a fazer um teste: viver durante uma semana na cidade cujos destinos tem gerido apenas com o passe nas mãos, o mais básico, mantemos o teste dentro da primeira coroa da cidade.

O que sugiro é que vá viver para um local da cidade de Lisboa e que, todos os dias, imagine que trabalhe num sítio diferente. Nesta sua semana sugiro então um conjunto de tarefas:

– apanhar o 28E no Martim Moniz tendo que chegar em meia hora ao final da linha, leve o protector, que a exposição ao elemento solar é perigosa!;
– apanhar o 15E no Cais do Sodré em direcção a Belém, a qualquer hora do dia, aqui terá duas experiências diferentes, a da sardinha em lata ao sol e a da sardinha em lata à lua, porque o eléctrico maior não deve conseguir andar de noite… sugestão, se tiver sono, saia meia hora mais cedo, porque naturalmente não vai apanhar o primeiro eléctrico;
– apanhar a linha verde do metro no Cais do Sodré às 8h30 da manhã (ainda bem que agora Arroios fechou, senão era sardinha em lata subterrânea);
– esperar pelo 760 no Desterro, por exemplo. Mas não se esqueça de mandar sms para a Carris e confirmar que o próximo autocarro chegaria a si dentro de 15 minutos, isto durante 25 ou mais…;
– apanhar a linha azul em São Sebastião por volta das 16h e ver que o próximo metro chega dentro de 9 minutos. Esperar 2 minutos, voltar a olhar para o tempo e ver que o próximo metro chega dentro de…9 minutos. Esperar mais 2 minutos…já percebeu, certo?
– para terminar, aconselho-o a fingir que é carteiro e que trabalhar na Baixa, de preferência tem de entregar cartas na Rua Augusta. Coisas com que terá de ter cuidado: pessoas que travam de repente para a selfie; círculos espontâneos que ocupam toda a rua para verem um artista de rua; empregados de restaurante que, tentando dar o seu melhor, o param a cada passo lhe dizerem “hello!”; e enfim, todo um labirinto de pernas, gadgets, pára-arranca a caminho.

Pronto, fiquemos por aqui.

Se depois de cumprir estes desafios continuar a achar que não há turistas a mais, tiro-lhe o chapéu, é um guru da paciência. Se conseguir passar por isso e nem por um segundo tiver vontade de soltar um berro no meio da rua porque o 728 vinha cheio e não parou, prometo que lhe ergo uma estátua.

Mas até vou concordar consigo, não há turistas a mais, é verdade. Mas há autocarros a menos, metro a menos, limpeza a menos, planeamento a menos, sentido do real a menos. O Fernando tem um gabinete, sai do gabinete vai para os estofos do automóvel, e dos estofos do automóvel para o conforto da casa. Deve chatear-se por vezes com o trânsito, mas este seria menos com transportes a mais…

Enfim, Lisboa está um caos, convença-se disso.
Se quer, como todos queremos, que continuem os estrangeiros a adorar Portugal e Lisboa, pense que a primeira coisa a fazer é mesmo dar melhores condições para quem cá vive, viver melhor, mover-se melhor, desperdiçar menos energias a rogar pragas à enchente de turistas.

Repetindo, o problema não é a enchente, é o serviço da Carris não dar mostras de melhoria, são os constantes problemas técnicos do Metropolitano (até quando havia muitas greves o metro passava mais vezes…), é a impossibilidade que uma família normal tem para alugar uma casa sem ter de hipotecar a vida, é a palermice de decidir que o caos de Lisboa devia aumentar com obras em cada m2 só para chegarmos ao final de Setembro com o seu ego ajardinado.

Por mim estou farto de Lisboa, só não fui já embora porque a minha actividade, para já, não o permite. Mas lhe garanto, assim que tenha possibilidade para o fazer, ála que se faz tarde! Pelo menos passo a ser menos um para lhe dizer que enquanto tivermos respeito a menos por quem vive na cidade, continuará sempre a haver turistas a mais.

Lisboíte aguda

“Vê-se que não é de Lisboa”. Podia ser um comentário de café. Podia ser uma boca parva que se ouve na rua. Podia ser uma afirmação sobranceira de um lisboeta a propósito daquilo a que alguns gostam de chamar província. Mas não. Foi mesmo o argumento político do Vereador Duarte Cordeiro enquanto interrompia fervorosamente a intervenção do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa no debate anual sobre o Estado da Cidade de Lisboa.

Falava-se sobre a ausência de estratégia para o património e para a cultura, ironizando que o evento de abertura do Capitólio fosse, não um evento municipal mas um evento privado da Vodafone, a 45-50 euros o bilhete (já à imagem da corrida Corte Inglés, do Continente não sei quê, da NOS não sei que mais, enfim, os mega eventos que fecham a cidade para dar lugar a eventos patrocinados por grandes grupos económicos com zero contrapartidas para os cidadãos e para o município), do estado em que está o Restaurante Panorâmico de Monsanto, o Pavilhão Carlos Lopes e, cometendo (eu) um lapso, afirmei que já nem há cinemas municipais em Lisboa. Falha minha que não mencionei o S. Jorge, mas não passou disso mesmo, um lapso. Que teve como resposta um «vê-se mesmo que não é de Lisboa».

No momento achei que foi apenas uma tirada infeliz. Infeliz porque o próprio presidente da Câmara Municipal de Lisboa não é de Lisboa. Como não é a Vereadora da Habitação. Mas isso não tem interesse nenhum. Naturalmente, ironizei. Mas a afirmação do senhor Vereador Duarte Cordeiro é perigosa, elitista, diria quase xenófoba. Perfeitamente, essa sim, alienada da cidade pela qual está eleito, sempre tão preocupado com o visit Lisbon e as web summits que está, que até quase parece dar a entender que só se quer em Lisboa o estrangeiro endinheirado mas não o trabalhador que se vê que não é de Lisboa, mas infelizmente vive em Lisboa, trabalha em Lisboa e, caramba, está eleito em Lisboa! Que maçada.

E a coisa não seria preocupante se o Executivo da cidade de Lisboa eleito pelo PS não mostrasse tanto desconhecimento da cidade de Lisboa. Medina apelidou-a de «fábrica de talentos», uma cidade num momento extraordinário, de grande competitividade e oportunidade, uma cidade que atravessa dos melhores momentos de sempre. E foi preciso apenas acesso à internet e 5 minutos para contrariar quase 20 minutos de auto-bajulação:

No entanto, entre 1989 e 2009, a taxa de pobreza na região de Lisboa subiu cerca de 80%, o que poderá ser explicado pela emergência de novas formas de pobreza, particularmente associadas às grandes concentrações urbanas e ao desemprego. O estudo publicado em 2012 pode ser lido aqui.

230 trabalhadores despedidos no 2º semestre 2016 no concelho de Lisboa e incluídos em processos de despedimentos colectivos. 48% eram trabalhadores de empresas de pequena dimensão.


49,7% dos desempregados de longa duração entre os 35-54 anos valor relativo ao 2º trimestre de 2016 e referente ao número de inscritos nos centros de emprego de Lisboa. (Dados do Observatório da Luta contra a Pobreza na Cidade de Lisboa)

De acordo com dados do Instituto da Segurança Social, entre 2006 e 2012, o número de famílias beneficiárias do Rendimento Social de Inserção (RSI) no distrito de Lisboa quase triplicou, passando de 13 mil para 31 mil.

Sobre isto, Fernando Medina responde que os dados não têm respaldo na realidade. (????) E diz-se espantado, quando questionado directamente sobre o motivo pelo qual não se dirigiu aos trabalhadores da hotelaria e turismo que se manifestavam por melhores salários e mais direitos quando foi inaugurar a convenção de turismo mas se limitou a receber aplausos dos empresários. Espantado porque acha que não é de esquerda não defender os empresários. Porque acha que não é de esquerda defender a web summit. Porque acha que não é de esquerda respaldar as políticas da Câmara Municipal que têm levado a cidade de Lisboa a um autêntico estado de sítio.

Não, não é preciso ser-se de Lisboa. Infelizmente é preciso ir viver para Lisboa ou trabalhar para Lisboa para conseguir trabalhar na área que se gosta (ou trabalhar de todo, em alguns casos). Mas é verdade que, não sendo de Lisboa, também se torna mais difícil (cada vez mais) poder permanecer aqui. Porque por mais pedras que lancem e anúncios que façam, as rendas continuam a subir (com uma ajuda preciosa na especulação imobiliária por parte da Câmara), os preços nos cafés, restaurantes e cinemas continuam a subir (sim, só há um cinema municipal na capital do país), os museus e teatros estão praticamente todos privatizados, a rede de transportes não funciona, os salários não acompanham o aumento do custo de vida da cidade.

Esta febre de Lisboa Valley, vendida como uma cidade moderna e atractiva, só existe na cabeça de uns quantos. Não gera emprego, não gera qualidade de vida, não gera bem estar. E começa a gerar essa sobranceria desgraçada que fica muito mal a um representante eleito mas que revela muito bem a política classista a que está votada a cidade e o município.

Vê-se para quem é Lisboa. Para este executivo do PS, Lisboa não é certamente para a classe trabalhadora.

Lisboa: a cidade-parque patrocinada pelo grande capital

Nota prévia: perante a proposta do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa para «manter Santa Apolónia com todas as valências de transportes que actualmente oferece», o PS votou contra, inviabilizando a proposta.

Segue-se a intervenção sobre o fenómeno de gentrificação em Lisboa, proferida hoje, na sessão da Assembleia Municipal.

Assistimos a um fenómeno global de elitização de determinados locais e cidades, resultantes de desenvolvimentos e planeamentos orientados para gerar lucro, enquanto tudo o que é característico, tudo o que é memória e história, a par de todas aquelas que são as condições a que qualquer pessoa deve ter direito para viver no local onde nasceu ou decidiu viver vão desaparecendo, na exacta medida que locais exclusivos e inacessíveis à maioria de nós vão tomando lugar central.

Lisboa não é excepção: aqui não decide um poder local democrático, transparente e para todos. Manda o lucro, o interesse económico, a ditadura do dinheiro, cuja face mais visível se materializa no executivo PS e nos muitos anos de políticas de destruição da cidade para os cidadãos, numa linha demasiado ténue entre o interesse público e interesses privados. Cargo público não é prémio, é compromisso, antes de mais, compromisso com as populações e com o interesse público.

Contudo, a arquitectura deste Executivo é a da descaracterização, da expulsão e da substituição por tudo aquilo que faça bling bling, particularmente quando grandes grupos monopolistas acenam com patrocínios ou proto-investimentos que só se servem a si mesmos, como se tem visto pelo capital sem rosto ou nacionalidade que tem tomado conta dos edifícios e do comércio em Lisboa.

Esta cidade-parque, desenhada à medida de uma ideologia tardo-liberal vai ainda mais longe, chegando não apenas aos locais históricos mas a locais fundamentais para o bem-estar, dia a dia e mobilidade de quem vive e/ou trabalha em Lisboa.

Se há oito meses o PS se apressou a abafar as declarações que afirmavam a vontade de demolir a estação de Santa Apolónia para construção de espaços verdes, espaço para o qual um afamado gabinete de arquitectura – esse mesmo, o Risco – que com o plano da Matinha, aprovado em 2011 por PS e CPL, contemplando a urbanização de cerca de 20 hectares do Grupo Espírito Santo, curiosamente, prevê a construção de um espaço verde na zona da Estação, hoje a intenção de alterar o espaço é óbvia e deixa antever a concretização das declarações iniciais.

Desta estação secular, a 3ª estação do país, edifício público que passou da monarquia para a República e assim se manteve, como edifício público com transportes de qualidade que servem trabalhadores, estudantes, turistas, chegam e partem 150 circulações por dia entre Alfa, Inter-Cidades, Inter-regional, Regionais e Urbanos, sendo que é o local de onde partem os comboios Sud Express e Lusitânia para Paris e Madrid.

O fluxo médio mensal de passageiros ronda os 250 mil e 3 milhões de passageiros ao ano na única estação que está não só na zona nobre de Lisboa como perto de todos os centros de transbordo de barcos, metro e autocarros.

Nesta estação foram investidos 300 milhões de euros para 2158 metros de extensão de linha do Metro, estimando-se a utilização desta linha por 20 milhões de passageiros, com a poupança, resultante desta extensão para o Terreiro do Paço e Santa Apolónia de 2,7 milhões de horas em deslocações e redução em mais de 3 mil toneladas de CO2, de acordo com dados da própria Câmara Municipal.

Mas como o dinheiro fala mais alto, e com o pressuposto, e cito que tal como “a estação de S. Bento, no Porto, onde vão perto de 4000 visitantes anuais que não vão lá para viajar de comboio”, os planos passam pela sua transformação num hotel. Sempre se perguntará quem dormirá melhor, os turistas que venham a ficar no hotel da estação, ou a família Espírito Santo que encontrou mais um veículo de investimento para o frágil património que lhes tira o sono?

Mas a saga continua. Em 2008, Manuel Salgado afirmou à imprensa que «a baixa nunca será uma zona residencial». E para isso tem trabalhado afincadamente: para o Saldanha, Cais do Sodré, Santos e Campo das Cebolas estão previstos parques de estacionamento (implicando mesmo a destruição do simbólico mural José e Pilar); em apenas 16 hectares no Terreiro do Paço, Rua do Ouro, Praças do Rossio e da Figueira e Rua da Madalena, surgiram, em 2015, 60 unidades hoteleiras, ao mesmo tempo que deram entrada mais 113 processos de licenciamento para reabilitação do edificado urbano na baixa com fins hoteleiros.

Em 2010, existiam 741 alojamentos locais, em Novembro de 2015, 2380, num crescimento sem qualquer planificação ou avaliação. Prova disso mesmo é o crescimento exponencial do aluguer através do portal airb’n’b” com 34 mil casas em Portugal e 15 milhões de hóspedes. 60% do crescimento da rede em Portugal deve-se exclusivamente a Lisboa que ocupa hoje o 14º lugar em termos de n.º de hóspedes, na utilização de um instrumento de arrendamento que não está regulamentado, não implica o pagamento de impostos e é maioritariamente utilizado, de acordo com Arnaldo Muñoz, director ibérico da rede, por pessoas que não têm capacidade para pagar as suas rendas, tendo que recorrer a estes mecanismos.

Em Lisboa, o mercado imobiliário atravessa a sua fase especulativa mais feliz, com rendas que não páram de subir, obrigando a que as pessoas, particularmente as classes trabalhadoras, se afastem cada vez mais do centro ou mesmo da cidade, por constrangimentos financeiros.

Para além do grave problema de habitação, todos os dias encerram lojas, cafés e locais históricos, como o caso do Café Palmeira, o café Estádio, lojas na Fábrica Sant’Anna, a Casa Alves, a construção de um novo hotel na secular Braz & Braz, locais que fazem parte da memória colectiva cidadã e que movem já milhares de cidadãos em torno da petição pela salvaguarda das lojas históricas solicitando a intervenção urgente da Câmara Municipal.

Uma baixa cada vez mais deserta dos habitantes de Lisboa, comércio tradicional praticamente inexistente, restaurantes e locais inacessíveis às classes trabalhadores, o direito constitucional à habitação perigado pela especulação ilegítima e injusta, encerramento das ruas e do espaço público à mercê de grupos económicos, destruição do património arquitectónico público, privatização de espaços históricos que passam a ser apenas para alguns, concursos públicos que já se conhecem vencedores antes mesmo do seu lançamento: esta é, de facto, a herança que este executivo quer deixar? A expulsão de pessoas da cidade para a construção de um enorme parque temático, sustentado à custa do aumento exponencial dos preços e a homogeneização de uma cidade, para que se torne, exclusivamente, num local que apenas alguns podem visitar?

*Declaração Política do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa, 16 de Fevereiro de 2016

Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Exmo. Sr. Presidente
Fernando Medina

Tal como o Sr. Presidente, não nasci em Lisboa mas tive que vir para cá trabalhar e viver, foi onde encontrei trabalho relativamente melhor remunerado. Quando cheguei a Lisboa, há cerca de 11 anos, pagava 125 euros de renda, num quarto onde dividia a casa com mais 4 pessoas. Depois passei a pagar 240, mas dividia apenas com mais uma e assim fiquei. Vivi sempre em bairros típicos da cidade – Campo de Santana, Madragoa, Graça, Anjos – sempre a mudar de casa porque de 2 em 2 anos as rendas subiam e o salário descia.

Como sou uma criatura de hábitos, costumo ir sempre aos mesmos cafés, aos mesmos bares, às mesmas lojas, às mesmas costureiras, coisa que deixei de fazer há muito. Hoje opto por andar a pé porque, não só o passe aumentou de €17,00 para €35,50, como os autocarros passaram a demorar mais de 20 ou 30 minutos, deixaram de fazer determinados percursos e o metro, enfim… Não só demora como me recuso a fazer percursos como uma sardinha em lata. O que significa que faça chuva ou sol, os transportes públicos deixaram de ser opção.

Deixou também de ser opção jantar fora ou ir ao cinema. Não gosto de centros comerciais e só há um cinema de rua em Lisboa, o Nimas, onde vou de vez em quando, dependendo da programação que é muito específica e só às vezes consigo ir. Isto porque, para viver em Lisboa tenho que ter 3 empregos para conseguir pagar as taxas da água e saneamento, o passe, a electricidade e, sobretudo, as rendas.

Hoje vejo-me obrigada a procurar novamente casa e, numa zona onde queria viver, já não o vou poder fazer. Só nesta zona abriram mais de 100 hostels e todas as casas se estão a transformar em proto-hostels, arrendando quartos apenas a estrangeiros ou através do air b’n’b. Concorri às rendas convencionadas da Câmara, mas apenas a um prédio. O outro prédio que está a concurso é numa zona sem transportes e eu não tenho carro (nem poderia ter, não poderia jamais mantê-lo).

É que, sr. Presidente Fernando Medina, eu tenho 34 anos e 3 trabalhos, passo a maior parte do tempo a trabalhar e quando o não estou a fazer, estou a participar politica e civicamente, não só no meu Partido, como em várias associações e na Assembleia Municipal. E portanto, tudo o que lhe digo não é novo, até porque já uma vez fiz uma intervenção sobre o planeamento urbano e a gentrificação da cidade.

E sabe, sr. Presidente, é terrível ouvir os velhos que ainda sobrevivem à lei das rendas que só têm o 735 ou o 730 para ir aos hospitais e perderem as consultas porque os autocarros não chegam a tempo e eles não têm dinheiro para o táxi. Ou então porque já não há transporte que passe pelas casas deles.

Como é terrível não poder encontrar-me com os meus amigos no Palmeira porque vai encerrar e é dos poucos sítios onde sou bem tratada e os preços são mais do que acessíveis. Como é terrível não ter dinheiro para pagar uma refeição em nenhum restaurante porque são todos da moda e para as bolsas dos turistas que com um emprego ganham mais do que eu com três.

Como é terrível pedirem-me 3 meses de caução para arrendar uma casa cuja renda é, no mínimo, 550 euros. Eu não posso pagar 550 euros por mês, muito menos 1650 de uma só vez. E, sabe, como a minha mãe é reformada e tem uma reforma de miséria, não tenho fiadores. E talvez por isto tenha que sair de Lisboa, ficando ainda mais isolada do que já estou, porque, como deve saber, não é fácil estar longe da família e amigos, que estão todos a 300 quilómetros, sendo que as viagens de comboio são mais caras do que viagens para fora do país.

E sabe, sr. Presidente, o que me faz muita confusão? A Câmara disponibiliza terrenos à Espírito Santo Saúde, retirando serviços municipais, a Câmara vende ao desbarato (e sim, eu tenho a documentação que o comprova) prédios na baixa que depois se transformam em hotéis ou hostels, a Câmara, embora tentando reverter o processo de privatização dos transportes, deixou que isto chegasse a este estado, a Câmara licencia todas as actividades de especulação comercial e imobiliária sem qualquer contrapartida para a cidade, a Câmara fecha ruas e praças públicas para eventos privados, a Câmara vende património secular (como o pavilhão Carlos Lopes) para interesses privados, a Câmara (ou o Vereador Salgado) até falou em demolir Santa Apolónia, a Câmara não quer saber de quem vive na cidade que administra.

E é com toda a sinceridade que lhe pergunto: como é capaz?  Como é capaz de ver uma geração inteira, bem próxima da sua, a fazer das tripas coração para se manter à tona e nem uma renda conseguir pagar ou ter que voltar a casa dos pais ou dividir casa com estranhos? Como é capaz de assistir ao isolamento dos idosos, cada vez mais esquecidos e deixados a si mesmos? Como é capaz de saber que coisas tão simples como jantar com amigos, ir ao cinema, ir ao café é coisa que hoje não é possível?

E não me fale de programas e planos. Isto é o que é: eu, como tantos outros, trabalho muitas horas por dia, com vários trabalhos e nem dinheiro para uma renda de casa tenho porque as rendas são superiores ao salário mínimo nacional. As rendas na cidade onde é presidente. Os passes são caros e os transportes não funcionam. A água (a água!!!!) é das mais caras do país. Diga-me, sr. Presidente, isto é uma cidade onde se possa viver? Onde se queira viver? Está contente com esta sua cidade? Onde está, claramente, reservado o direito de admissão?

PàF, PuM e Costa, o rei sol

Da figura sisuda e altiva, de homem que parece vestir a pele da cega e, digo eu para este contexto, insensível justiça, do paternalista que dizia ao povo, a quem por determinação constitucional deveria caber o poder político, entre breves e poupados sorrisos, para não ser piegas, ou que, secundado por membros do seu governo, falava de emigração como vantagem competitiva ou de desemprego como oportunidade, da pessoa que chegou a afirmar, quase sem pestanejar, “Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”, como se lhe coubesse a ele ditar os interesses de Portugal e aos que elegem coisa nenhuma, já pouco resta. Passos Coelho agora já não oferece enxadas a quem o desafia, ouve e diz “pois, pois” aparentando interesse, olha para o recibo da pensão de um homem e até simula espanto, fala de regras fiscais que determinam cortes como se não tivesse sido seu autor, abranda caminhadas e pára para ouvir as “pieguices” das pessoas anteriormente julgadas como incapazes para decidir o que convinha ao país, não encolhe os ombros, não vá a populaça achar que ele é o verdugo que os castiga e ignora, e até, causando assombro nas massas, dobra-se para beijar velhinhas num lar, exibe um crucifixo, do qual diz não se conseguir separar, e afirma que tem fé nas pessoas. Uma fé súbita que até suscitou do seu correligionário e antigo apoiante, Ângelo Correia, a piadola “nunca é tarde para se converter”.

Mas Passos Coelho é orgulhoso e não pode dar, pelo menos inteiramente, o dito por não dito e lá vai dizendo que valeu a pena o sacrifício, que não se pode deitar tudo a perder e entregar o país nas mãos de outros, a coligação PàF, nome de sonoridade, no mínimo, palerma, pior seria PuM (Portugal, uma Miséria), igualmente palerma mas um pouco mais certa, é, segundo esta espécie de moderno aspirante a messias, a única que está apta a governar. Deixam no ar a ideia de melhorias vindouras, de um Portugal resiliente. Contudo, apesar dos milhares de vezes em que, de todas as partes do dito arco da governabilidade, presidente da República incluído, ouvimos sonoros apelos ao consenso, a PàF, pasme-se, quer governar sozinha, reclama a maioria absoluta dos votos, a maioria absoluta dos resultados, a maioria absoluta do poder. A fé nos portugueses resume-se à fé nos portugueses que votam PàF. E lá volta à baila a estimadíssima estabilidade governativa, algo que, aos democratíssimos olhos dos pafs, mas também de outro ocupante do tal arco, o PS, é incompatível com o tal consenso.

Bem tenta o PS disfarçar a sua sede absolutista e António Costa até vai dizendo que sabe lançar pontes e unir o país, que “um governo de maioria absoluta pelo qual o líder dos socialistas se tem batido não representaria um menor esforço de concertação”, mas não deixa de dizer, pela boca de dirigentes seus que votar CDU ou BE é como votar na direita. Curiosamente, o Livre fica de fora desta conversa. E lá voltamos nós ao doce e todavia perigoso mundo das aparências, Costa como político bonacheirão, sábio e sensato. Mas a oportuna, ou inoportuna dependendo de quem beneficia, memória mostra-nos que o Gandhi da Mouraria foi ministro, durante anos, foi odiado pelo povo, individualmente e por atacado junto com o seu governo de José Sócrates, é responsável por despedimentos, pela degradação de serviços públicos, responsável pela liquidação de direitos, responsável por cortes nos rendimentos e responsável por privatizações, e foi, até há pouco tempo, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, deste modo responsável pela degradação dos serviços municipais, sobretudo no que respeita à recolha de lixo e saneamento, responsável pelo estado das ruas da cidade capital, responsável pelo aumento das rendas municipais, responsável pelo estado do património municipal, responsável pela falta de fiscalização das actividades comerciais. António Costa é o homem que compra apoios em troca de favores, é o homem que quis ver o PCP fora dos órgãos da Área Metropolitana de Lisboa, é o homem que disse que o PCP e o BE são meros partidos de protesto, é o homem que, no dia das eleições autárquicas, disse, sem o mínimo pudor, que os presidentes das Juntas de Freguesia de Lisboa, eleitos pelo PS, eram os seus representantes nas freguesias, assim de chofre, sem se lembrar que a representação faz-se por eleição e não por nomeação, que o tempo dos poderes locais nomeados já lá vai, que é ao povo da freguesia que o presidente da Junta deve representar perante o presidente da Câmara e não o contrário. Olho para Costa e vejo-o ostentando uma farta cabeleira barroca, rechonchudo e vestido de brocados e folhos, qual iluminado do séc. XVIII, qual rei sol. A campanha do PS é Costa, Costa, Costa, mas isso o jornal Expresso não consegue ver.

Temem os mui responsáveis, sérios, preocupados e detentores da credencial, passada pela divina entidade do capital, que os atesta como aptos a governar, não a incapacidade para se entenderem nas mui responsáveis, sérias e preocupadas opções políticas que pretendem para o país, mas a reacção dos piegas, alvos de fé mas inaptos para definir os interesses do país. Já o duro Ulrich nos veio dizer que o que é preciso é estabilidade, receia que um governo com todo o arco do poder dentro dele deixe demasiada gente de fora, que quando chegue a hora do “aguenta, aguenta” essa gente olhe à sua volta e veja quem são os únicos que estão com ela do lado de fora. O capital teme que os “líderes da oposição” sejam os comunistas, que o ciclo do ora-agora-governo-eu-ora-agora-governas-tu seja rompido.