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Vai à merda, Isabel

Estávamos em 2017. Lembro-me como se fosse ontem. Provavelmente não te lembras de mim, porque eu era só mais um dos trabalhadores em luta. Era dia 28 de Março e nós, os jovens precários da Randstad, fizemos greve. Tínhamos decidido concentrar-nos à porta do edifício da Meo na Praça do Areeiro, e daí seguimos em marcha até à sede da Randstad em Lisboa, na Avenida da República. Ler mais

Para não ter protestos vãos

Assistimos nos últimos anos (leia-se: desde a entrada em funções do actual governo) ao surgimento de movimentos civis que, mais do que organizar o descontentamento popular, têm todo o apoio da comunicação social para gerar o descontentamento que depois cavalgam. Estamos todos recordados da forma como foi empolada a opção do governo de cortar no financiamento aos colégios privados com contratos de associação. Se não estiverem, podem recordar o drama aqui.

Depois desta idiotice pegada, obviamente, a direita tomou-lhe o gosto e, achando que andamos aqui todos a comer gelados com a testa, pegou em Ana Rita Cavaco, a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros que antes disso foi Conselheira Nacional do PSD e passou por dois governos PSD (o de Durão e o de Passos), e incumbiu-a de criar dois sindicatos-fantoche que só têm servido para colocar em causa o já débil funcionamento do SNS.

A partir daqui a fantochada só piora; mais recentemente, um patrão da camionagem e um advogado trafulha lembraram-se de criar um sindicato de camionagem, apesar do primeiro ser objectivamente quem explora os trabalhadores da sua empresa e o segundo nunca ter pegado num camião na vida. O trafulha, não contente com o feito, já anunciou que vai pertencer aos organismos de gestão de mais uns quantos sindicatos de sectores onde nunca trabalhou.

A pergunta da praxe é, obviamente, “Onde é que andaram nos anos da troika?”. Mas nem é essa a pergunta que importa fazer. Os anos da troika foram maus, mas o que eu gostava mesmo de saber é onde é que andaram nos últimos 45 anos de política de direita, e mesmo assim estou a dar de barato a ausência desta gente no sindicalismo de classe que havia mesmo antes de Abril e que levou muitos camaradas meus, alguns ainda vivos, a bater com os costados na cadeia.

E tal como o meu partido é silenciado na comunicação social – algo tão óbvio que quem quiser debatê-lo pode fazê-lo com a parede mais próxima, porque para esse peditório eu não dou – o sindicalismo de classe, o sindicalismo dos sindicatos da CGTP-IN, é também ele silenciado. São décadas de lutas sem qualquer espaço nos media para os nossos activistas, mas temos directos atrás de directos em protestos de enfermeiros em que os dirigentes dos sindicatos-fantoche cedem a palavra à Bastonária. Despedem-se 51 trabalhadores da autarquia em Almada, e nem uma palavra. O SINTAP faz uma acção e tem lá a comunicação social em peso.

A ver se torno isto claro: o capital não tem medo nenhum de discursos inflamados ou de revolta. Aquilo que assusta o patronato é a luta organizada. E a luta organiza-se com consciência de classe e unidade na acção. E esta unidade tem de ser promovida por local de trabalho, por empresa, por sector. Pode parecer aglutinador um Sindicato dos Trabalhadores do Concelho de Almada (fundado por ex-dirigentes da UGT e do SINTAP), que “integra todas as mulheres e homens trabalhadores que nele se inscrevam, livremente e que exerçam funções de serviços em todos os sectores de actividade, publico, privado ou cooperativo”1, mas que unidade é que isto permite? De que forma é que este sindicato pretende representar ao mesmo tempo os 51 cantoneiros de limpeza despedidos pelo actual executivo PS/PSD na câmara e os trabalhadores do Minipreço em luta pela actualização de tabelas salariais?

O trabalhador de contact center da Randstad colocado ao serviço da Meo tem reivindicações mais próximas do administrativo dos quadros da Meo do que o seu colega de empresa, também trabalhador de contact center da Randstad, mas colocado em Évora ao serviço da Fidelidade. E ainda estamos só a falar de operadores de contact center da mesma empresa. Imagine-se querer agrupar debaixo da mesma bitola todos os operadores de contact center independentemente da empresa para a qual prestam serviço. Tentar fazê-lo, ainda que isto permita algumas conquistas locais, promove a desagregação de laços entre profissionais de áreas diferentes dentro da mesma empresa, quando o objectivo dum movimento sindical unitário, democrático e de classe seria trazê-los à mesma luta.

Merecem a este propósito menção honrosa alguns sindicatos “independentes” de tudo menos de certos grupelhos trotskistas e que, apesar de todo o seu discurso revolucionário, servem um único propósito que é de dividir a classe, acusando toda a CGTP de ser um instrumento do PCP. Se tivessem um pingo de vergonha na cara calavam a boca em vez de repetir a lengalenga que a direita usa há décadas. Seguem a cartilha do capital, que pela mão dos lacaios Maldonado Gonelha e Torres Couto, entre outros, pretendem desde sempre “partir a espinha à intersindical”.

Sim, há muitos comunistas nos sindicatos da CGTP. Há muitos comunistas em comissões sindicais, tal como há muitos comunistas nas comissões de higiene, segurança e saúde no trabalho. Mas só lá estão com o voto daqueles que com eles trabalham. Falar é fácil, mas só mesmo os comunistas para, com prejuízo do seu tempo livre e arriscando o posto de trabalho, ter este espírito de missão que nos faz lutar não por nós, mas por todos.

Não para fugir à exploração, mas para lhe pôr um fim.

P.S. – Um texto sobre o movimento sindical de classe não ficaria completo sem um apelo à participação na Manifestação de 10 de Julho.

Pela revogação das normas gravosas da legislação laboral, contra as propostas de alteração do governo PS que a agrava, pela valorização do trabalho e dos trabalhadores! Dia 10 de Julho, 14h30, na Praça da Figueira.

Notas:

1 – Ex-Dirigentes da UGT e SINTAP fundam Sindicato em Almada

“Sou eu que vos pago o ordenado!”

… e outras tiradas do mesmo calibre. É isto que os trabalhadores do Estado têm de aturar. Nem todos, claro. No país do respeitinho (que é muito bonito!) os polícias estão acima de suspeita ou crítica. Mas são os únicos. Todos os outros são “chulos” e andam a “mamar na teta do Estado”. É mais ou menos esta a opinião publicada, reforçada até à exaustão pelos órgãos de comunicação social e por sucessivos governos que usam a estratégia de semear discórdia entre trabalhadores de diversos sectores como forma de fugir à contestação social.

“Há dois salários mínimos, um no público e outro no privado!”

Não, não há. Salário Mínimo Nacional há um, que é apenas 600€ porque o governo decidiu despachar a discussão desse valor para a Concertação Social, onde se sentam dois representantes dos trabalhadores, dois lacaios e quatro patrões. Na função pública o que há é uma base de tabela salarial de 635,07€ para a carreira de Assistente Operacional. Não há nem tem de haver qualquer relação entre os dois valores: uma coisa é o valor que o Estado burguês deixa que os patrões paguem. Outra é aquilo que através da sua luta os trabalhadores arrancaram ao patrão-estado.

“Também quero ter ADSE!”

Pois. E eu também queria entrar para o pote de Euromilhões daquela malta cheia de sorte. Mas não dá, a ADSE é um subsistema de saúde criado pelos trabalhadores e financiado na totalidade pelo desconto de 3,5% do salário dos trabalhadores do Estado. É um subsistema criado pelos trabalhadores do sector e para os trabalhadores do sector, resultado da forte sindicalização e unidade na luta.

“Trabalham menos horas!”

Verdade. Mas já trabalhámos todos o mesmo tempo. 7 horas de trabalho mais 1 hora de refeição. Entretanto os patrões do privado decidiram fazer o entendimento que o horário de 8h era de 8h de trabalho, e a hora de refeição deixou de contar. Uma vez mais, quem se sente injustiçado deve dirigir a sua indignação não contra os trabalhadores do Estado, mas contra os seus patrões.

“Trabalham pouco e ganham muito!”

A média salarial nas carreiras gerais da função pública é inferior à média nacional. E dentro das carreiras gerais, os mais mal pagos são os assistentes operacionais. O que significa que os trabalhadores que pior recebem no Estado são os gajos que asseguram que toda a gente tem água potável em casa bastando para isso rodar uma torneira. São os trabalhadores da varredura e da recolha de resíduos sólidos urbanos, que constituem a primeira linha de defesa da saúde pública. São os calceteiros, os pedreiros, os serralheiros, etc. Parafraseando o Galeano, são os gajos que fazem o mundo – ou que pelo menos fazem dele um lugar habitável.

“Os professores ganham bem e ainda se queixam!”

É verdade que têm uma remuneração média acima da média nacional. Mas também é verdade que são o sector profissional mais qualificado, levam trabalho para casa – os testes não se preparam nem se corrigem sozinhos – e que têm nas mãos a responsabilidade enorme de formar as gerações futuras.

E assim voltamos ao início: “Sou eu que vos pago o ordenado”

Não, não és. O nosso ordenado quem no-lo paga é o nosso trabalho. E o nosso trabalho é assegurar os serviços públicos e as funções sociais do Estado. De nada.

Esta deformação da opinião pública tem autores e tem objectivos. Semeando a discórdia, a classe dominante consegue que os trabalhadores do Estado percam a solidariedade dos restantes sectores. E sem essa solidariedade, pode ser adiada ad aeternum a regulamentação do subsídio de insalubridade, penosidade e risco. Podem cortar-se subsídios de férias e Natal. Podem congelar-se admissões e progressões. Podem privatizar-se serviços. Podem ser mantidos com baixos salários os trabalhadores de um sector com uma elevada taxa de acidentes de trabalho e doenças profissionais.

E pôde-se, no passado dia 10 de Maio, mas que mais parecia 24 de Abril, cortar-se a passagem a uma manifestação da Frente Comum com duas carrinhas do corpo de intervenção, “por motivos de segurança”, sem que nada o justificasse. Os representantes eleitos por milhares de trabalhadores foram até impedidos de montar um palanque e discursaram de cima de uma escada. Tudo isto na mesma semana em que o descongelamento dos 9 anos, 4 meses e 2 dias dos professores foi novamente recusado pela direita, em que se perdoaram 116 milhões de euros de dívida a um milionário, em que o pulha do Berardo foi à Assembleia da República por a nu a natureza de classe do Estado burguês.

Lucas, Abril imigrou com ele

Há histórias que contadas no Primeiro de Maio, ninguém acredita que já foi 25 de Abril: um patrão faz um contrato a um imigrante; explora-o da forma mais brutal durante um ano; quando esse trabalhador faz greve, o patrão chama a polícia e denuncia a existência de um «imigrante ilegal» que é lestamente detido. O Manifesto74 conversou com Lucas Nascimento, o protagonista de uma história sobre dignidade e coragem.

Lucas chegou legalmente a Portugal, há quase dois anos, então com um visto de turismo. «Comecei a trabalhar no restaurante Miradouro Ignez em fevereiro de 2018, então eu estava legal», explicou ao Manifesto74. «Só me faltava o número da segurança social para poder fazer descontos, mas para ter esse número é preciso que a empresa passe uma declaração indicando que o funcionário está a trabalhar e tem meios de ficar no país».

Mas a desejada regularização não fazia parte dos planos do patrão que responde pelo nome de Mário Gregório: «Ficou a me enrolar por muitos meses, até que finalmente fiquei ilegal no país. Não existe problema na lei: existem patrões que querem se aproveitar da fragilidade da nossa situação para tirar proveito e fugir a impostos», sentenciou.

O «proveito» a que Lucas se refere é um extenso rol de crimes e imoralidades próprias de um traficante de escravos do século XXI: «assédio moral, abuso de autoridade, negação de direitos básicos como subsídio de refeição, horas extras e nocturnas não pagas, horários sempre a mudar e desrespeito pelos prazos para adaptação».
Práticas e métodos que, garante Lucas, mostram como os trabalhadores portugueses estão mais desprotegidos que os brasileiros. «Eu nunca tinha trabalhado aos domingos e nos feriados sempre recebi a dobrar… Já aqui em Portugal é outra história… horários repartidos, o povo trabalha de domingo a domingo, aos feriados e noite dentro. Muitos trabalhadores não têm horários fixos: vivem à merce da vontade do patrão e das horas que ele quer que sejam feitas».

Durante anos, a estratégia de Mário Gregório para explorar ao máximo os trabalhadores do Miradouro Ignez assentou no medo e na divisão dos trabalhadores. «Quando os trabalhadores estão unidos, um patrão desonesto não tem hipótese. Mas com a casa dividida e brigas entre os funcionários, é fácil fazer a vida negra a quem ou mesmo despedir quem faz frente ao patrão». O medo, porém, provar-se-ia ineficaz com Lucas Nascimento.

«Venho de uma família desestruturada e sempre tive muitos conflitos em casa por conta dos vícios do meu pai. Tive de aprender a protestar e a combater desde pequenino. Como minha mãe e meus irmãos não conseguiam fazer-lhe frente, tinha de ser eu. Aos quinze anos consegui expulsá-lo de casa de uma vez por todas, mas esta postura, de não me render perante a injustiça, ficou para sempre».

Portugueses e imigrantes, unidos

A luta dos trabalhadores começou onde normalmente teria acabado: uma injustiça individual, contra uma trabalhadora que, sozinha nada podia fazer, «uma colega do Monte Ignez, que é muito boa pessoa e uma excelente profissional», faz questão de sublinhar. «No seu primeiro trabalho em toda a vida, se deparou com uma patroa que além de lhe pagar miseravelmente, ficou a dever-lhe meses salário. A colega recorreu a todas as instituições do Estado, mas acabou por não conseguir resolver nada. A coitada, já em desespero, foi parar ao Miradouro Ignez em 2017, mas o novo patrão mostrou-se logo tão ou mais desonesto que a anterior: não lhe pagava subsídios, feriados, horas extras e estava constantemente a mudar o horário de trabalho, não ligando se ela tem vida pessoal ou não… Perante essa falta de consideração por parte da entidade empregadora, fomos atrás dos organismos responsáveis do Estado, mas obtivemos sempre respostas do tipo “não há nada a fazer”. Então embarquei nessa luta, em conjunto com meus colegas para mostrar para ela que temos o direito de ter um trabalho onde somos respeitados pelo patrão, que o patrão só tem autoridade até onde a lei permite, e que deve começar por nós a reivindicação de direitos».

À medida que o embrião da luta gestava no restaurante, as velhas «brigas» entre trabalhadores davam lugar à solidariedade. Os portugueses aperceberam-se de que as ilegalidades cometidas contra os imigrantes serviam apenas para pressionar os seus próprios direitos. Estendiam-se pontes entre as exigências de cada um, cada qual descobria no outro a força que sozinho não tinha e, acima de tudo o resto, descobriram que a luta era o único caminho.

«Após ver que nos órgãos responsáveis as chances de mudar algo era quase nula, uma vez que a ACT já tinha autuado o local e nada tinha mudado, tentámos o sindicato, até porque nós não sabíamos quais eram nossos direitos como funcionários da empresa. Nessa altura estávamos muito desgastados e já sem esperança. Lá conhecemos a Albertina que nos recebeu com muita alegria, nos explicou muita coisa, e numa rápida votação, meus colegas me escolheram como delegado do Sindicato da Hotelaria do Norte (SHN).»

Seria o início de uma batalha heroica entre a dignidade e a prepotência, entre a lei e o dinheiro, entre explorados e exploradores.

«Após a chegada da carta do sindicato, a meio de Dezembro, tentaram me comprar. Como eu ignorei, tentaram me ameaçar com despedimento. Então, começaram a mudar o horário dos colegas sem dar prazo de adaptação e a marcar falta às pessoas que não aceitassem o novo horário. Na hora de pagar o salário de Dezembro, o patrão decidiu me pagar apenas o que ele achou que eu deveria receber, mesmo sabendo que eu fiz mais horas que todos na casa, quase todas elas noturnas. A outras duas colegas portuguesas que então estavam de férias, o patrão fez o mesmo e também só pagou o que quis. Quando eu lhe liguei questionando sobre o que tinha acontecido a resposta foi: “Tu não és meu funcionário. És apenas um prestador de serviços e o que recebeste está ótimo. Não entres mais ao serviço que não te quero mais aqui!” Eu respondi-lhe que se ele se quisesse livrar de mim tinha de me fazer chegar uma carta de demissão válida e que no dia seguinte eu estaria ao serviço. Daí para a frente o sindicato decidiu agendar reuniões no Ministério do Trabalho para ver se era possível algum diálogo com o homem».
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Sobre o SHN, que desta forma entrou para a liça, Lucas não poupa elogios: «Tem feito um trabalho incrível, nunca fui tão acolhido e defendido em toda a vida. O Sr. Figueiredo e o Sr. Nuno são homens exepcionais e altruístas», diz dos dirigentes sindicais com que tem contactado, «a luta deles é mesmo a luta de todos que trabalham na restauração».

Perante a absoluta intransigência do patrão, os trabalhadores do Miradouro Ignez avançaram para uma greve de dois dias, a 1 e 2 de Abril, exigindo o cumprimento da lei e o respeito pelos seus direitos. A greve foi um rotundo sucesso, mas a resposta do patrão surgiria depois, quando Mário Gregório despediria ilegalmente Lucas e outros dois trabalhadores imigrantes, chamando a polícia para o deter quando se apresentou ao trabalho.

A PSP confirmou à Lusa a detenção, «após denúncia de que um cidadão estrangeiro podia estar em situação de permanência ilegal no país».

Tanto o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) como a Autoridade para as Condições no Trabalho (ACT) vieram a terreiro desmentir Mário Gregório, que invocara falsamente estas siglas para justificar o despedimento ilegal. Mais ainda, o SEF fez saber que os três trabalhadores imigrantes estão em situação legal a ACT acrescentou que os três estão autorizados a trabalhar em Portugal. E, apesar de tudo isto, borrifando-se para a lei, Mário Gregório mantém o despedimento ilegal.

“Tu não és meu funcionário. És apenas um prestador de serviços e o que recebeste está ótimo. Não entres mais ao serviço que não te quero mais aqui!”

Lucas mantém a vontade de regressar ao seu local de trabalho, mas com mudanças. «Ele tem de perceber que não pode continuar tratar os trabalhadores desta forma» e espera que essas mudanças podem inspirar outros trabalhadores, «o meu caso e dos meus colegas é o caso da maioria dos portugueses que trabalham na área da restauração. Os trabalhadores precisam acordar e lutar contra as injustiças que esse setor promove», sublinha.

A um oceano de distância, Lucas não esconde «uma tristeza imensa» pela situação política do seu país natal e aponta o dedo à reforma laboral de Bolsonaro que «não está a gerar mais empregos ou riqueza, mas sim mais desigualdades», acusa. «O homem que eu via como uma piada está no Poder e aquele que eu admirava está preso. Não sei se sou eu que estou errado ou se é o mundo que está ao contrário».

Não, Lucas Nascimento nunca esteve ilegal em Portugal. Esta terra e a sua cidadania pertencem a quem nela vive e trabalha todos os dias. Já patrões como o dono do Miradouro Ignez, Mário Gregório, estão, eles sim, ilegais, por violar sistematicamente a lei do trabalho, assediar, ameaçar e aterrorizar os trabalhadores mais vulneráveis e explorar desumanamente os que vivem do seu próprio suor. Podíamos começar por denunciar Mário Gregório ao SEF. Pode ser que o deportem para o séc. XIX.

Os lugares onde Marcelo não vai


O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português. Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

As operárias da Triumph são apenas um exemplo: podíamos falar dos operários da Seda Ibérica, neste momento em greve contra os horários desumanos, da Autoeuropa, que não abdicam do direito ao fim-de-semana e à família, dos professores, dos enfermeiros, dos trabalhadores da administração pública… Por mais elementarmente justa que seja a causa, Marcelo faz ouvidos moucos a quem luta.

A mão que tira a selfie

De costas para tudo o que aparece na selfie, Marcelo cultiva uma popularidade inventada, alimentada e dirigida há muitos anos pela comunicação social da classe dominante. Os afectos podem até ser genuínos, mas a mão que tira a selfie é da TVI. Por isso, a atenção mediática e a atenção presidencial que merecem as lutas dos trabalhadores estão sempre ao mesmo nível.

Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. 

Mas que ninguém pense que Marcelo está num concurso de misses. A sua popularidade não é um fim em si mesmo: são munições parcimoniosamente poupadas em Sacavém para, quando for mesmo preciso, disparar em defesa dos patrões. Até lá, Marcelo prefere causas menos problemáticas, ou «consensuais», como lhes chama. Marcelo comporta-se como os «famosos da televisão» que, quando se trata das operárias da Triumph, #AdoptamEsteSilêncio porque a TVI não lhes preparou uma campanha mediática, ou porque, coitadinhos, não sabiam, ou, simplesmente, porque fica mal a uma estrela andar metido em política. Uma coisa é alimentar os sem-abrigo, combater o desperdício alimentar, dar afecto aos pobrezinhos e todas as demais benevolências paternalistas, estritamente voluntárias, que em afectados movimentos ou i pê ésse ésses, aristocráticas e sempre descendentes, atirem um carapau enquanto escondem a cana de pesca atrás das costas. Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. Outra coisa são 500 famílias atiradas para a miséria que exigem (atenção, exigem) os postos de trabalho e os salários em atraso. Isso é política. E na carreira de apresentador de televisão, como na de Marcelo, não interessa.

Neste caso, interessava. A atenção de Marcelo contribuiria para alterar a postura do governo do PS que, ocupado a ajudar financeiramente os milionários da Uber e da Brisa, lava as mãos do crime que está a acontecer em Sacavém. Mas, já sabemos, o que Marcelo tem para oferecer aos trabalhadores são afectos e aquilo de que os trabalhadores precisam é solidariedade. De trabalhadores para trabalhadores, iguais para iguais.

Recuperar as 35 horas, uma luta de todos.

A imposição das 40 horas semanais de trabalho aos trabalhadores das administrações central e local foi uma das mais violentas agressões do governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas. Esta decisão, sob a orientação do FMI e da União Europeia e correspondendo aos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, representou um dos mais graves retrocessos para os direitos de quem trabalha na função pública. Na prática, quem trabalha para o Estado, passou a exercer a sua profissão de forma gratuita durante cinco horas por semana, o que corresponde a 20 horas por mês. Ou seja, mais de um mês de trabalho que em cada ano o Estado deixou de pagar.

Esta decisão foi tanto mais grave quando a batalha pela redução horária das jornadas laborais é, desde sempre, uma bandeira central na luta da classe trabalhadora ao longo da sua história. Desde os mártires de Chicago que, em 1886, caíram abatidos pela polícia durante uma manifestação pelas oito horas diárias de trabalho, e cuja tragédia levou à decisão de se assinalar o primeiro dia de Maio como o Dia Internacional dos Trabalhadores, às lutas do proletariado agrícola que nos campos do Alentejo conquistaram as mesmas oito horas em pleno fascismo.

Não admira, pois, que entre as muitas reivindicações dos trabalhadores da Administração Pública nas diversas acções que se realizaram contra o governo liderado pelo PSD e pelo CDS-PP se destacasse a batalha pela recuperação das 35 horas semanais. Tanto foi assim que se conseguiu através da luta que muitas autarquias devolvessem os anteriores horários aos seus funcionários. Esta conquista foi tão generalizada que o actual governo de António Costa não teve qualquer dificuldade em avançar para as 35 horas na Administração Local. Por que não aplica, então, as 35 horas aos restantes funcionários públicos?

Logo que a questão começou a ser discutida na Assembleia da República a máquina mediática tratou de espalhar a desinformação, a manipulação e a mentira. Os porta-vozes dos grandes grupos económicos e financeiros na comunicação social trataram de usar a velha táctica de virar os trabalhadores do privado contra os do público. Por que hão-de os funcionários públicos trabalhar 35 horas quando no privado se cumprem as 40 horas? Ninguém tratou de perguntar em directo para que todo o país ouvisse por que há-de trabalhar 40 horas quem exerce a sua profissão no privado quando os do público conquistaram o direito às 35 horas.

Mas a campanha mediática também tratou de escamotear que a proposta do PS não só não prevê no imediato o regresso das 35 horas para todos os funcionários públicos como deixa no ar a possibilidade de que em determinados sectores – como o da saúde – se possa manter o roubo de cinco horas semanais de trabalho gratuito. É por isso que há que apoiar a luta dos trabalhadores que decidiram fazer greve para reclamar as 35 horas. Os sindicatos da CGTP estão do lado certo da história. O novo quadro político abre caminho à reposição de direitos e à conquista de mais e melhores condições para os trabalhadores e o povo. Naturalmente, a luta é fundamental para que o actual governo cumpra não só algumas das suas promessas eleitorais mas também para que se devolvam outros direitos.

Reclamar as 35 horas é cumprir com o legado histórico pelo qual gerações e gerações de trabalhadores lutaram de forma abnegada. E é justo que se diga que esta reivindicação deve ser entendida como sua por quem trabalha no privado. Na marcha da história, as conquistas dos sectores mais emancipados da classe trabalhadora acabaram por significar importantes avanços para todos. Avancemos, pois.

Todos ao Primeiro de Maio

Se vives do teu próprio trabalho, se acreditas que é possível um mundo mais justo, se tens coluna vertebral e a tua dignidade não está à venda, se és capaz de distinguir a justiça da injustiça, se não nasceste milionário mas também não nasceste para ser escravo, se sabes porque é que os ricos estão cada vez mais ricos… este é o teu dia. Vem celebrá-lo. Vemo-nos nas ruas.

Todos à rua!

Sábado há manif. E nós vamos, uma vez mais, marcar presença. Não o fazemos meramente porque sim, não se trata realmente de um ritual que cumprimos sem questionar; não respondemos cegamente ao apelo da CGTP como o rebanho obedece ao pastor, fazemo-lo porque acreditamos em algo. E é precisamente nesse acreditar que está a nossa força.

Nem todos os portugueses irão participar nesta manifestação, obviamente. Os nosso patrões não vão sair à rua, os nossos CEO não vão sair à rua, os nossos governantes não vão sair à rua. Aqueles que afinam pelo mesmo diapasão do Passos, do Portas e do Costa também não, esses acreditam mesmo que estamos melhor e que, por conseguinte, não há necessidade alguma de reivindicar o que quer que seja. Não vamos ver na rua o Paulo de Morais, o Camilo Lourenço ou o José Gomes Ferreira – esses são dos que falam, falam, falam mas eu não os vejo a fazer nada (mais a mais porque, em rigor, nada querem fazer e nada querem que seja feito).

Contudo, há alguns quantos portugueses que não vão sair à rua porque simplesmente deixaram de acreditar. Estando em total desacordo com a actual situação que o país atravessa – e não será necessário relembrar aqui e agora os milhares de desempregados, os milhares de emigrados, os milhares de pobres, famintos e miseráveis, os baixos salários, a precaridade, etc – não acreditam que seja possível dar a volta à situação. Continuam a desabafar com os amigos no local de trabalho, no café ou, por que não?, até nas redes sociais: temos de demitir esta gente, há que mudar de rumo, estamos a caminho do abismo. Sair à rua, lutar, é que já se afigura mais dificil.

E é precisamente a esses que nos dirigimos neste momento. Nós contamos convosco ao nosso lado. Nenhuma luta é fácil de ser feita, e nem sempre saímos a ganhar – é o que nos ensinam todos estes anos. Mas se realmente a abandonarmos, se nos deixamos levar pela corrente, teremos apenas a certeza da derrota. Mais do que nunca, temos de acreditar que é mesmo possível construirmos um Portugal com futuro. A mudança que desejamos não se constrói por obra e graça do Senhor. Somos nós que a fazemos. E porque se todos dermos um pouco, poucos não terão de dar tudo, venham connosco. Vamos lutar pelos nossos empregos, pelos nossos salários, pelos nossos direitos, pela nossa saúde, a nossa educação, pelos nossos serviços públicos. Vamos (re)começar já no próximo sábado a construir o nosso futuro! De Bragança a Faro, que ninguém fique em casa!

Faro – 15h30, Mercado Municipal

Aveiro – 15h, Largo da Estação

Beja – 10h30, Largo da Casa da Cultura

Braga – 15h, Largo do Pópulo (sector público) e Largo da Estação (sector privado)

Bragança – 15h30, Rua da República (Mirandela)

Castelo Branco – 15h30, Igreja de São Francisco/Jardim Público (Covilhã)

Coimbra – 15h, Praça da República

Évora – 10h, Praça 1º de Maio

Guarda – 10h30, Jardim José de Lemos

Horta – Assembleia Regional (Horta/Faia)

Leiria – 15h, Largo de Infantaria 7

Lisboa – 15h, Campo das Cebolas (Lisboa) e Praça do Município (Setúbal)

Madeira – 6 de Março, 15h30, Secretaria Regional da Educação e
Recursos Humanos (Funchal)

Porto – 15h30, Praça do Marquês

Ponta Delgada – Governo Regional

Santarém – 15h, Segurança Social

Viana do Castelo – 10h30, Praça da República

Vila Real – 10h, Mercado Municipal

Viseu – 15h30, Rua Formosa