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O Homem na Jaula: racismo e capitalismo*


No Verão de 1906, o número de visitantes do Jardim Zoológico do Bronx triplicou. Segundo os registos oficiais do Zoo nova-iorquino, durante o mês de Setembro, eram mais de 40 mil os curiosos que, diariamente, pagavam bilhete para ver a jaula com os próprios olhos. Numa placa junto às grades, podia ler-se: «O Pigmeu Africano Ota Benga. Idade, 23 anos. Altura, 1,25m. Trazido do rio Kasai, Estado Livre do Congo, pelo Dr. Samuel P. Verner».

Quando a história de Ota Benga começa, a escravatura já tinha sido abolida nos EUA há 40 anos, mas o grande capital tinha herdeiros promissores. Foi William John McGee, presidente da prestigiada Associação Antropológica Americana, que solicitou à comunidade científica «a captura de africanos pigmeus» para exibição na Exposição Mundial de St. Louis de 1904. Os EUA eram então o epicentro mundial das teorias eugénicas sobre a «superioridade branca» que mais tarde inspirariam Hitler e a Expo de 1904 arrogava, orgulhosa, o «Império Americano» exibindo em jaulas dezenas de homens e mulheres de diferentes povos. Ota Benga era um deles.

Segundo o relato do autoproclamado «explorador e etnólogo» Paul Verner, o jovem Ota Benga fora «salvo de uma tribo de canibais e ficou muito feliz por se poder juntar a nós». Mais tarde, Verner admitiria que o adolescente fora comprado como escravo, por cinco dólares, ao Governo belga. O Rei Leopoldo II, genocida responsável por mais de 10 milhões de mortos e amigo pessoal de Verner, confessou-se «tão entusiasmado com a caçada» que quis participar pessoalmente. Mas não foi necessário caçar: o governo belga conduziu Verner ao mercado de escravos de Bassongo e, entre centenas de prisioneiros mutilados, uns sem mãos, outros sem orelhas, o «etnólogo» escolheu e comprou nove jovens da tribo mbuti, o mais novo com apenas 12 anos. Ota Benga é, dos nove, o único cujo destino nos é conhecido.

A manchete do St. Louis Pot-Dispatch de 26 de Junho era «Africanos Pigmeus na Expo» e, no interior, podia ler-se «Pigmeus requerem dieta de macaco». Preso dentro de uma jaula, Ota Benga era o centro das atenções do «mundo civilizado»: os homens picavam-no com bengalas para forçá-lo a mexer-se, as crianças gritavam-lhe e atiram-lhe pedras, as senhoras riam. Mais tarde, no Jardim Zoológico do Bronx, onde a tortura continuou, vários visitantes descrevem como Ota Benga, fechado numa cela com um orangotango, se tornara apático e indiferente às provocações das multidões.


Foi então que James Gordon, um religioso afro-americano, declarou guerra ao espectáculo degradante. «A nossa raça já está deprimida o suficiente sem que nos exibam junto de símios. Somos dignos de sermos considerados seres humanos», escreveu o reverendo numa carta ao New York Times. O editor do jornal respondeu que «os pigmeus são muito inferiores na escala humana» acrescentando que «a sugestão de que Benga devia estar numa escola em vez de numa jaula ignora a alta probabilidade de que uma escola seria para ele um lugar de tortura. A ideia de que todos os homens são iguais em tudo excepto nas oportunidades é uma ideia extremamente anacrónica».

Mas à pressão exercida pelos afro-americanos somou-se a resistência de Ota Benga, que tinha aprendido inglês sozinho e usava a nova língua para denunciar a sua situação aos visitantes do jardim zoológico. A gota de água chegou, em 1906, quando Benga, usando uma faca roubada, se defendeu de um grupo de agressores. Finalmente, no dia 28 de Setembro de 1906, Ota Benga foi libertado e acolhido num orfanato para negros, onde teve acesso à educação básica. Depois, trabalhou numa fábrica de tabaco em Lynchburg, na Virgínia. Segundo os que o conheceram pessoalmente, era um homem bom que gostava de andar descalço e tinha nas crianças os melhores companheiros e amigos. Ensinava os rapazes a caçar e contava-lhes histórias sobre a vida no Congo. As crianças costumavam observá-lo a acender uma fogueira para cantar na sua língua e dançar conforme a sua cultura. Estava, contava aos vizinhos, a planear a viagem de regresso para África. 

A I Guerra Mundial veio paralisar as viagens transatlânticas e travar os planos de Ota Benga. Dizem os relatos coevos que, lentamente, tornou-se taciturno e deixou de brincar com as crianças. Então, na noite de 20 de Março de 1916, há precisamente 100 anos, as crianças de Lynchburg viram-no acender uma fogueira cerimonial. Terá dançado e cantado toda a noite. Mas dessa vez, antes da manhã romper, suicidou-se com um tiro no coração. 

Uma só raça, a raça humana

Cem anos é muito tempo dirão alguns. O racismo não era «normal» há um século? Perguntarão outros. Será que a triste história de Ota Benga foi apenas um infeliz anacronismo histórico? Toda a História é anacrónica no sentido em que se move de contradição em contradição. Como Cronos, o deus do tempo que na mitologia grega devorava os seus próprios filhos, a História devora-se a si mesma alimentando-se, na eterna luta entre as classes, das classes e das contradições que ela própria gerou. O próprio conceito de «raça», que hoje em dia se insiste em usar, é anacrónico: há mais de meio século que a comunidade científica nos diz que este termo não faz sentido. A única raça humana é a humanidade.

Por outro lado, o racismo é ele mesmo tão anacrónico hoje como há trezentos anos. Muitas sociedades antigas conheciam a xenofobia e a escravatura, mas eram alheias ao conceito de raça e consideravam a cor dos olhos, da pele e do cabelo meras ocorrências geográficas. A escravatura, por exemplo, dependia da guerra ou da classe social mas não da cor da pele.

O racismo, como o conhecemos hoje, é uma construção ideológica do capitalismo, uma invenção para legitimar a hierarquia social. Com efeito, entre as primeiras demonstrações de racismo da História, o anti-semitismo coincide com a incubação do capitalismo a partir do século XIII. A escravatura foi indispensável ao desenvolvimento do capitalismo e do «mercado livre» e o racismo deu-lhe a base ideológica. Nas palavras de Malcolm X, «não há capitalismo sem racismo».


Marx escreveu que «o trabalho de pele branca nunca poderá ser livre enquanto o trabalho de pele negra for marcado como gado». O racismo continua a ser usado hoje em dia, como há cem anos, para dividir o proletariado por cores, legitimando a discriminação com falsos pretextos naturais e, por outro lado, justificando a negação das próprias promessas da burguesia: «liberdade, igualdade, fraternidade». A vida privada Thomas Jefferson, um dos «pais fundadores» dos EUA, reflecte este mecanismo: o autor da Declaração da Independência, famoso por afirmar que «todos os Homens nascem iguais», não via qualquer contradição em ser proprietário de 50 escravos, porque, afinal, se todos os homens nasciam iguais, os afro-americanos não eram humanos.

Na semana em que se assinala o Dia Internacional contra a Discriminação Racial devemos questionar-nos por que razão subsistem estes «anacronismos». É que, lembremo-nos, os captores de Ota Benga eram «civilizados», «democráticos», «desenvolvidos» e «cosmopolitas». E recordemos também que, «anacronicamente», poucos meses depois da morte de Benga, na Rússia Czarista, uma das regiões mais atrasadas do mundo, começava a construção mais avançada da humanidade. E o princípio do fim do racismo.


*Versão parcial de um artigo publicado no jornal «Avante!» n.º2208 de 24 de Março de 2016.

COP21: sucesso?

A Cimeira de Paris, também conhecida por COP 21, sobre as alterações climáticas chegou a um acordo final (ver). O facto de se ter chegado a um acordo é um progresso face ao falhanço da anterior cimeira mundial em Copenhaga em 2009 (a COP 15). É também positivo ter sido acordada a meta de limitar a subida da temperatura abaixo dos 2 graus centígrados. Porém segundo alguns comentadores, o acordo tem suficiente flexibilidade que mesmo sendo cumprido, o mundo persista no caminho de aumento acima dos 3 graus. Em aberto ficaram ainda mecanismos efectivos de apoio aos países em desenvolvimento e aos mais afectados pelas alterações que se vêm verificando. A experiência da ineficácia do Protocolo de Quito, acordado em 1997 e implementado entre 2005-2012, período durante continuou a haver um aumento global de emissões, exige cautela face às eficácia do presente acordo. Não tendo ainda condições de tecer uma análise detalhada sobre o presente acordo, queria aproveitar a ocasião para assinalar algumas questões.


O nosso planeta tem mais de 4 mil milhões de anos. Ao longo desse extenso tempo tem sofrido extensas variações de clima, incluindo um período em que era uma imensa bola de neve. De forma que quando hoje se falam em alterações climáticas, cabe perguntar “como se comparam as presentes alterações climáticas com as que a Terra tem exibido ao longo da sua história?”, assim como “em que medida as actividades humanas são responsáveis pelas actuais alterações climáticas?”.
As áreas científicas que têm analisado o estado do planeta e procurado fazer previsões face ao futuro, incluindo a climatologia e oceanografia, estudam padrões que têm elevados níveis de variação e incerteza associados. Mas apesar disso, a comunidade científica exibe grande consenso em concluir que a actividade humana dos últimos dois séculos foi responsável por um assinalável aumento da emissão de gases de estufa (como o dióxido de carbono, por via da combustão de hidrocarbonetos, ou de metano, pela actividade agro-pecuária) que têm alterado a composição da atmosfera e dos oceanos. A concentração de CO2 na atmosfera atingiu o ponto mais alto dos últimos 500 mil anos, e fê-lo a uma taxa excepcionalmente alta. Também a taxa de mudança de temperatura é maior que a verificada durante as oscilações glaciares do Pleistocénio, durante o qual a temperatura mudou entre 4 a 7 graus. Ou seja, é importante compreender que o que enfrentamos não é distinto pelo grau das alterações, mas pela rapidez com que estas se estão a verificar, e pelo papel das actividades humanas.
Embora menos referida, o impacto das emissões tem sido até mais marcante quando consideramos os oceanos, registado-se como uma subida da temperatura da camada superficial e consequentes alterações de circulação, incluindo uma redução das correntes ascendentes de águas frias, ricas em nutrientes, e que são importantes para sustentar a produtividade nas águas superficiais. A alteração térmica dos oceanos tem resultado já num abrandamento da circulação oceânicas global conhecida como «tapete rolante oceânico» (ocean conveyor belt), que tem um importante papel na regulação climática. O aumento de tempestades e ciclones, cuja origem tem lugar nos oceanos, é já de si um efeito destas alterações. Um elemento importante a compreender é que alterações de alguns graus podem levar a alterações qualitativas das correntes e logo do clima, cujo impacto seria assinalável e difícil de reverter.
Um outro aspecto a referir sobre os oceanos é que estes têm absorvido um componente muito significativa do CO2, quer através da actividade biológica quer através da reacção química da água com o CO2, conduzindo a uma progressiva acidificação das águas, atingindo já níveis sem paralelo nos últimos 300 milhões de anos. Esta acidificação, combinada com as alterações de temperatura, têm já efeitos nos recifes de coral tropicais, as zonas de maior concentração de biodiversidade marinha.
À margem das considerações científicas (“quanto é necessário diminuir as emissões para evitar as piores consequências?”), cabe colocar éticas (“quem são os principais responsáveis?” e “como fixar metas justas para cada país?”). E fundamental para o diálogo global é o reconhecimento de desigualdades a vários níveis: as tremendas diferenças de responsabilidade sobre as emissões acumuladas nos últimos séculos; as diferenças de emissões actuais entre países; a causa das actuais emissões e sua relação com o nível de desenvolvimento dos países; e a disparidade que os efeitos das alterações climáticas terão sobre diferentes países.
Os países mais desenvolvidos acarretam uma maior responsabilidade pelas emissões históricas e pela situação enfrentada hoje, e a tal responsabilidade deve corresponder uma maior responsabilidade em mitigar o presente estado, não só cortando as suas emissões mas na ajuda a outros países, em particular os países mais vulneráveis às alterações climáticas, mas também aos países em desenvolvimento para que estes não sigam a mesma trajectória de emissões. Acresce que podemos qualificar as emissões como sendo necessárias para garantir um nível de desenvolvimento nacional que satisfaça as necessidades do país, ou como sendo em parte para garantir actividades “de luxo”, como seja o uso desmesurado de transporte pessoal. Mas encontrada uma forma justa de repartir os “custos” de mitigação, cabe ainda pensar em formas políticas eficazes e justas de implementar as necessárias medidas. As dificuldades enfrentadas nas cimeiras têm sido sobretudo em torno destas questões éticas e políticas. Ao que é permitido aferir, a maior responsabilidade dos países desenvolvidos têm ganho aceitação, mas tal não se tem traduzido eficazmente em soluções políticas justas. Recorde-se a solução do “mercado de carbono” que foi inteiramente ineficaz na redução de emissões e mercantilizou a mitigação de emissões. Ou a imposição pelos EUA no presente acordo de Paris de incluir uma cláusula que impede processos de responsabilização ou compensações.

Ser docente/investigador no país da austeridade

Série “Ser no país da austeridade”

1. Investigação e “excelência”

Era uma vez um jovem que gostava de história natural e de estudar fósseis. Passava a vida no campo ou num gabinete a comparar asas de aves ou “perninhas” e “antenas” de borboletas. Fascinado pela enorme diversidade do mundo biológico que o rodeava, este nerd mergulhava a fundo na sua paixão: o estudo da morfologia, comportamento e evolução das espécies. Se vivesse nos dias em que a “excelência” obedece sobretudo a critérios economicistas, este jovem nunca teria conseguido obter financiamento para embarcar no navio Beagle, cartografar a costa da América do Sul e andar pelo arquipélago das Galápagos. Este nerd é o Charles Darwin e jamais teria obtido financiamento para um projecto I&D (Investigação e Desenvolvimento) para estudar a morfologia dos tentilhões, as suas asas, os seus bicos.

No mundo da “excelência” tudo é contabilizado em outputs: patentes, artigos, livros e outros “produtos”, sendo que nas revistas de “open-access” o autor tem que pagar pela publicação dos seus trabalhos. As verbas destinadas à investigação são no mínimo ridículas. A FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), uma das entidades financiadoras, caminha a passos largos para acabar com a ciência em Portugal, metendo-a a reboque do dinheiro: não é sequer possível comparar a dotação de fundos para a área da biotecnologia ou da biomedicina (que estão ligadas às patentes e à criação de medicamentos e outros produtos que movimentam grandes somas de capital), por exemplo, com as ciências sociais (que poucos fundos recebem). Mas dentro da biomedicina também há discriminações: uma coisa são os fundos para investigar parkinson ou alzheimer, outra são os fundos para investigar a malária ou outra qualquer patologia do chamado 3º mundo. Afinal no “3º mundo” não há gente com dinheiro para comprar os medicamentos à indústria farmacêutica e às grandes corporações que estas integram.

O jovem Charles Darwin também teria que se sujeitar a nunca saber quando abririam concursos para submeter os seus projectos ou como estes seriam classificados: a FCT não tem agenda e inventa novas classificações. De “Excelente”, que era a classificação máxima, passou a existir, por exemplo, o “Outstanding”; qualquer dia teremos o “Miraculous”. Mas se ainda assim Darwin obtivesse financiamento para um projecto seu, esperava-o depois um longo e tortuoso caminho: a burocracia para conseguir fazer cumprir planos de trabalho, cronogramas e orçamentos, que tantas vezes implica significativos atrasos para a componente científica de um projecto.

2. Docência, gestão não colegial e antidemocrática

Vivendo no nosso tempo e no nosso país Darwin teria que ter tempo para leccionar e para participar nos chamados cargos de “gestão” (variáveis que compõem a avaliação do desempenho). Poderia era acabar sem tempo para investigação, já que existem muitas faculdades onde uma grande percentagem dos docentes dá aulas muito para além daquilo que é legalmente permitido. O desrespeito pelo ECDU (Estatuto da Carreira Docente Universitária) é algo a que se fecha os olhos desde que isso implique roubar e explorar ainda mais aqueles que trabalham. Dando aulas a mais, lutando diariamente para conseguir ter os seus projectos I&D a funcionar, supervisionando o trabalho dos seus orientados e desdobrando-se para se manterem a par das actualizações do conhecimento, os docentes afundam-se em preenchimentos de papelada ou plataformas electrónicas ditadas pelos burocratas. Em algumas universidades, este jovem até teria que ser um docente/investigador que paga o seu próprio salário através de fund-raising. Horários desregulados e noturnos seriam outro dos “mimos” reservados a este jovem: docentes com dias de aulas que têm início às 8:00 da manhã e que terminam às 22:30 são muitos.

Adicionalmente, com a imposição do RJIES (Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior), o ambiente de trabalho tem vindo a piorar. A legislação foi feita por gente que não quer a democracia nas escolas, que impôs as propinas, que reduziu a Acção Social a um valor tão ridículo que é praticamente inexistente. Assim temos uma universidade para quem tem dinheiro: o conhecimento não é para todos, muito menos para os filhos da classe operária, dos assalariados. A esses resta o politécnico e o ensino profissional. Por sua vez os alunos de Darwin aguardariam em longas filas de espera para aquecer, no micro-ondas da faculdade, a comida que levariam de casa. Eles e alguns professores. Porque já nem o “preço social” das refeições universitárias está ao alcance de todos.

3. O papel das universidades e a mediocridade como “excelência”

Bolonha, o RJIES e o novo ECDU são tudo peças de um mesmo puzzle que não só abrem a porta para a vergonhosa privatização do Ensino Superior Público (ESP) e do conhecimento, transformando-os em mercadoria, como metem a liberdade académica no caixote do lixo. Com Bolonha as universidades passaram a ensinar cada vez menos a pensar e cada vez mais a executar, formatando o pensamento. Afinal numa sociedade burguesa as universidades têm um papel muito claro: são um veículo de transmissão do pensamento dominante, que é apresentado como único. Quem luta pela defesa dos seus direitos e dos direitos dos colegas terá que trabalhar muitíssimo mais para chegar ao topo da carreira, e é se chegar. Se for mulher e mais jovem, ainda pior. Afinal em alguns estabelecimentos do ESP o topo da carreira cada vez menos reflecte o valor científico e pedagógico dos envolvidos e é cada vez mais é um acto político. Quanto a Darwin… No país da austeridade, onde a mediocridade é a excelência, A Origem das Espécies nunca teria visto a luz do dia.

*Autora Convidada
Catarina Casanova, docente/investigadora

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Resposta às perguntas do Canal de História

«Será isto uma prova da existência de uma raça pré-histórica de gigantes?» corte para animação em 3d «E terão esses gigantes construído… as pirâmides do Egipto?!» imagens de arquivo de pirâmide sob efeitos de pós-produção de filme barato de terror «E será que os lendários gigantes não eram seres humanos deformados, mas extra-terrestres vindos do espaço?» sequência rápida de fotografias de obras de arte antiga, de várias civilizações…

Tantas perguntas, tão poucas respostas, diria Brecht. Acabo de assistir a isto no National Geographic Channel. Podia ser só má televisão, mas é muito mais do isso, é a liberdade de fazer as mais absurdas e perigosas perguntas, a despeito de milhares de anos de respostas dadas, pensadas e trabalhadas, intoxicando as futuras gerações com fumos digitais da formidável nova idade das trevas.

Os canais de televisão estado-unidenses que antes passavam documentários, hoje passam reality shows. Onde antes se podia ouvir historiadores, agora apre(e)nde-se sobre camiões, armas e outras curiosidades. Alguns exemplos revestem-se de óbvia transcendência cultural, dizendo mais sobre a sociedade em que vivemos, que volumes de sociologia: apenas sobre prisões, temos, actualmente, a liberdade de escolher entre «Mulheres atrás das grades», «Presos no estrangeiro», «Prisões americanas», «Fugas da prisão», «Prisões de alta segurança» e «Prisões: bastidores». Mas, ponto de ordem à mesa, se eventualmente parecer trocista esta singela ideia, de ter a liberdade de escolher o programa sobre prisões, desenganemo-nos… que os tipos que mandam nisto têm mais inteligência que sentido de humor.

Afinal que sociedade livre é esta, que vive obcecada por estar presa? Entretanto, nestes mesmos canais, são zero os programas sobre literatura. É que dá-se que o formato do reality show evadiu-se, já há mais de uma década, dos matadouros de inteligência onde eram guardados, assaltando de supetão toda a televisão e a internet das massas. E como as consequências desta transformação vão muito além do óbvio, debrucemo-nos sobre alguns exemplos vívidos. O reality show não se compadece de método, nem estudos nem tampouco pode aguardar por conclusões científicas: exige permanentemente mais acção e novas descobertas, sempre e agora. Em virtude desta pressa, os programas sobre a vida selvagem que antigamente nos mostravam o resultado, longamente arquitectado de semanas de estudo e trabalho de campo, reclamam agora uma violação, violenta e imprevisível, da ordem das coisas: onde estava o documentário onde se observava a vida de uma serpente, insuspeita da presença das câmaras, agora assiste-se (sim, assiste-se) a um marialva que perturba a serpente no seu habitat natural, forçando-a a engoli-lo vivo, num fato especial produzido para o efeito, para gáudio ou náusea do público. A ciência dá lugar à aventura e o cientista cede passagem ao explorador, normalmente um labrego simpático com indisfarçáveis matizes jingoistas.

O reality show, por outro lado, não tem quaisquer pretensões históricas ou científicas, embora fale de história e de ciência. É apenas entretenimento, esgrime num sorriso amarelo. E isso dá-lhe o direito de mentir, deturpar, confundir e alienar-nos a todos. Vejamos outro exemplo: quem experimentar, a qualquer hora do dia, passar a correr entre o National Geographic, o Canal de História ou o Discovery Channel, entre outros possíveis, encontrará certamente pelo menos um programa sobre compras e vendas. Num, compram-se antiguidades que são, depois, vendidas em segunda mão, noutro, seguimos o quotidiano de uma família que opera uma loja de penhores, noutro ainda, acompanhamos o trabalho das pessoas que compram armazéns repletos de coisas perdidas ou abandonadas. À superfície, pode parecer que isto terá pouco de ideológico, para além do claro endeusamento do dinheiro e do insinuado fetiche com o comércio, mas, novamente, é muito mais do que isso. É que, surpresa das surpresas, os protagonistas destes reality shows comentam as coisas que compram e vendem, dão apontamentos históricos, tecem comentários políticos e procuram resumir tudo, de Darwin à revolução francesa passando pela URSS, em burlescas aulas de quatro a dez segundos.

À medida que o capitalismo retira ao ensino público todas as faculdades democráticas e culturais dispensáveis à produção, são, progressivamente, estes veículos os principais formadores ideológicos, filosóficos e históricos das massas. Que defesas tem um adolescente que, ligando o CANAL DE HISTÓRIA, escute um «autor» a dizer-lhe que Hitler teve contacto com extra-terrestres? Que contraditório tem o documentário que explica que o holocausto aconteceu por uma qualquer mania, crença ou desgosto pessoal de Hitler? Que televisão protege a História que o Canal de História destrói?

E desiludam-se os que acham que este efeito «dica da semana» só se debruça politicamente sobre a História recente. Voltemos ao exemplo anterior: o National Geographic dá palco a dois «investigadores» dos EUA, por sinal de origem portuguesa, que «investigam», sempre num registo «em directo», a possibilidade de uma fabulosa raça de gigantes ter construído algumas estruturas em pedra com muitas centenas de anos. A premissa é simples (e semelhante à das pirâmides terem sido construídas por extra-terrestres): os povos não-europeus e não-brancos nunca poderiam ter construído semelhante coisa, não tinham os conhecimentos nem a inteligência que, nesse tempo, só os brancos europeus detinham. E assim, a partir da falsificação de História tão longínqua quanto o Antigo Egipto, reforça-se e legitima-se o poder da classe dominante.

Reality shows sobre prospectores de ouro, pescadores de atum e motoristas de pesados, documentários sobre extra-terrestres, nazis em bases lunares e monstros mitológicos escondidos nos esgotos: é este o conhecimento que o capitalismo quer para as massas; é com esta História que os donos dos meios de produção nos querem esmaecer; é nesta nova era medieval que nos querem cegar. Destruir o capitalismo, até à sua última estrutura, não é apenas o interesse dos trabalhadores de todos os países, é o interesse vital do nosso milenar património de ciência conhecimento e da própria inteligência humana.