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Liberdade editorial versus liberdade de expressão

“Mas não é por acaso que se vê, de cada vez que se avançam perspectivas para uma beneficiação e elevação dos programas televisivos, que os remédios válidos mostram ser sempre e só remédios de ordem política; só a ideologização do meio técnico pode mudar o seu cunho e a sua direcção. Mas a ideologização não significa “partidarização”; significa apenas imprimir na administração do meio uma visão democrática do país; bastaria dizer: usar o meio no espírito da Constituição e à luz da inteligência. Todos os casos em que a nossa televisão tem dado boa prova de si, no fundo, não foram mais do que deduções correctas deste teorema.” (Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, 1964).
Foi esta semana conhecido o Barómetro de Comentário Político Televisivo Maio 2016, um trabalho do Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL. E vale a pena a sua leitura e análise.

O Barómetro no seu título conclui ainda por “Um quase empate entre a esquerda e a direita”, ora sobre esta conclusão possível, não deixa de ser criticável a introdução de um grau de subjectividade na avaliação e caracterização da representatividade política que eu não subscreveria, embora generosamente entenda a ideia dos autores.

O Barómetro centra a sua análise na representatividade factual e eventual dos partidos políticos no espaço televisivo caso os resultados eleitorais fossem critério de representação nos espaços de comentário político. Assim foram analisados no Barómetro um total de 53 comentadores políticos, dos quais 27 terão filiação partidária conhecida. Também foi analisada a representatividade(no quadro dicotómico esquerda/direita) que poderão ter “personalidades” das quais apenas é conhecido algum apoio eleitoral pretérito ou antiga militância, ou seja, não filiação política actual.

Para ajuda na compreensão deste quadro, que apenas analisa os comentadores com filiação partidária identificada, consideremos a linha do PSD. Este Partido tem 11 comentadores em televisão, e de acordo com a proporcionalidade do seu peso eleitoral nas eleições para a Assembleia da República também teria 11, mas se o critério de selecção fosse os seus resultados eleitorais para o Parlamento Europeu então apenas teria 9.

As conclusões sobre o restante quadro são fáceis de retirar, partido a partido. Há partidos muito sobre-representados como o CDS e o BE(o campeão neste quadro) e outros sub-representados como o PS e o PCP(muito prejudicado, quase clandestino).

Um quadro agravado

O quadro acima refere-se apenas a este mês de Maio mas, salvo uma ou outra alteração muito pontual, é significativo da situação global da representatividade em espaços de comentário político televisivo ao longo do restante ano.

Contudo, o quadro agrava-se se se atender a quadros de representatividade semelhante que se possam estabelecer sobre a restante comunicação social dominante nomeadamente jornais e rádios, entre outros. Aí, e salvaguardando a honestidade do levantamento e da análise, e respeitando igualmente as mais elementares regras da matemática e da proporcionalidade, facilmente se concluiria que no quadro mediático dominante o PCP é absolutamente prejudicado à luz do critério da representatividade eleitoral.

Um problema da Democracia

As conclusões desta análise não serão novidade para muitos leitores do Manifesto 74, contudo será justo recordar que o critério eleitoral não pode nem deve ser o critério para selecção de comentadores políticos, embora também o possa ser. À luz do espírito da Constituição e da vasta legislação sobre o sector(dentro e fora dos períodos de campanha eleitoral), a liberdade de imprensa e a liberdade editorial serão também critérios.

O comentário político saudável pressupõe espírito democrático, a salvaguarda das forças minoritárias, a diversidade e o pluralismo e a assumpção de responsabilidades de todos os intervenientes(até daqueles que dizendo-se independentes no comentário ou no estatuto editorial nunca o são ou foram na prática).

Os perigos(como a formatação de ideias, a mediatização de realidades inexistentes, a construção de resultados eleitorais, entre outros) e o quadro geral cultural, mediático e económico que construiu a situação presente são conhecidos.

Assim, cumpre concluir que a concentração capitalista da riqueza, a concentração nos grandes grupos económicos da comunicação social dominante(televisão, jornais, rádios), a partidarização e ideologização da comunicação social detida pelo Estado, entre outros, são problemas da Democracia que devem ser denunciados e que objectivamente com ela conflituam.

O que falta nos Panama Papers

O mundo acordou ontem com uma revelação explosiva. Os chamados Panama Papers prometiam colocar a nu um escândalo sem precedentes, de dimensão global, depois da fuga de documentos de uma empresa de advogados especializada em esconder dinheiro, a Mossack Fonseca, do Panamá. Importa referir desde já que há centenas de empresas que prestam este tipo de serviços, logo, esta lista está longe de ser completa. Afinal, o que diferencia esta lista que agora vamos conhecendo, do Wikileaks? Muita coisa. Demasiada.

Mãos de fada
A primeira grande diferença em relação ao Wikileaks é que, neste caso, a informação foi fornecida em bruto e está acessível a quem pretender consultá-la. No Panama Papers, a informação surge filtrada por um consórcio internacional de jornalistas de investigação, cerca de 200, oriundos de 65 países. O “Centre for Public Integrity (CPI) é uma organização que tem como principais doadores a Fundação Ford, a Fundação Carnegie, o Fundo da Família Rockefeller, a Fundação W. K. Kellog e a Fundação Open Society, propriedade do sinistro George Soros. E lá se foi a independência. Só isto deveria fazer soar campainhas de alarme em relação ao objecto da divulgação e ao ser real objectivo. As matérias parecem estar a ser tratadas com mãos de fada pelos benfeitores da CPI.

Wikileaks vs Panama Papers
Como referido atrás, o Wikileaks permite-me, ainda hoje, pesquisar tudo e mais alguma coisa, nomeadamente através de emails trocados por milhares de pessoas e entidades com a Stratfor, uma organização que se dedica a análises geopolíticas e que actua como centro de interesses dos Estados Unidos da América em todo o mundo. Ao contrário dos Panama Papers, em que a informação há-de ser divulgada aos poucos e com um critério que se desconhece, no Wikileaks eu consigo verificar as jogadas de bastidores e, por exemplo, o trajecto de Poroshenko para chegar ao governo da Ucrânia. E, no entanto, ele serviu só como peão, sendo um dos mencionados também nos Panama Papers. Outro exemplo que posso consultar sem filtros é a forma como a Stratfor mediava o patrocínio do RAAM pela Chevron, em Angola, para preparar um golpe de Estado.

Filtros
Como se verifica acima, há uma enorme diferença, e não é pequena: são os filtros por onde a informação passa até chegar a nós. Percebe-se, por isso, o corporativismo do Ricardo Alexandre, editor do Internacional da RTP, quando elogia a divulgação dos dados pelos jornalistas, garantindo a idoneidade deles. Pelos patrocínios atrás mencionados, faria tanto sentido acreditar que não há uma agenda nos Panama Papers como na imparcialidade das análises de Marques Mendes.

EUA fora do mapa
O dado mais curioso surge pelo facto de, até ao momento, não haver qualquer informação relativa a norte-americanos. E a verdade é que nem Putin surge directamente associado a qualquer offshore, pelo que pude ler até agora. Surgem pessoas que lhe são próximas, mas não ele. No entanto, é a cara dele que consta quando se fala em políticos e ex-políticos. E não David Cameron, por exemplo. Facto, até ao momento, é que os grandes visados estão por todo o Mundo, menos nos Estados Unidos da América. Fala-se em brasileiros, em argentinos, africanos, médio-oriente e Europa.

E as consequências?
Várias e nenhuma. Nenhuma, porque estes escândalos não são novos nem inéditos. Alguém se lembra do escândalo que envolveu Jean Claude Juncker e ficou conhecido como LuxLeaks? A investigação de então foi feita pelo mesmo grupo de jornalistas, que parece ter uma especial predilecção para não estado-unidenses. No entanto, o assunto era o mesmo. A consequência foi a sua nomeação para presidente da UE. Ninguém espera que os mesmos que alimentam o capitalismo, que jogam com os países como peças num tabuleiro de xadrez em defesa dos seus interesses particulares, nos forneça armas que coloquem o sistema em causa.

O exemplo da Islândia
A Islândia era, até há bem pouco tempo, a personificação do que alguns acreditavam ser um exemplo de como o capitalismo pode ser conciliador entre classes, entre exploradores e explorados, com o pomposo título de “Islândia iniciou o julgamento do neoliberalismo“. Nada mais falso. Nenhum neoliberalismo será julgado por leis burguesas de tribunais burgueses, que visam a manutenção do sistema em que vivemos. Agora, com o primeiro-ministro da Islândia entre os envolvidos no Panama Papers, pode ser que consigamos todos perceber que há coisas que não se reformam. São irreformáveis, são as suas contradições intrínsecas. Acreditar o contrário é esperar que exista um pote de dignidade no fim do arco-íris do capitalismo.

Nós pagamos o dinheiro desviado para as offshore
Quem paga todos estes desvios somos nós. As tremendas fugas aos impostos de milhares de milhões, com tantos zeros que nem saberia como escrevê-los, são pagas por todos nós, que temos de arcar com os défices e pactos de estabilidade e tudo e mais alguma coisa. A solução seria acabar com os offshores. Claro que isso é defendido e já foi proposto. Tanto o seu fim como a sua taxação. Só que isso implicaria uma vontade global que, lá está, não existe. Porque o capitalismo se entranhou de tal forma que já não vai lá com lavagens a frio. Tem de ser escaldado, pendurado pelos pés, batê-lo bem com uma raquete para tirar o mofo e, por fim, podemos colocá-lo no lixo sem que cause mais danos.

Que nunca se diga que o capital é ingrato

A campanha presidencial em curso tem sido muito desvalorizada, especialmente, por aqueles a quem convém que fique tudo mais ou menos na mesma. Contudo, não é apenas a campanha ou a pré-campanha, com mais exactidão, que tem sido desvalorizada. Na desvalorização mediática, Edgar Silva faz quase o pleno.

Sobre a candidatura de Edgar Silva, ao início foi a surpresa e no instante seguinte a caricatura, logo após, cai o silêncio e a omissão, a censura portanto. Entrado o tempo em que já não é mais possível esconder tanto quanto o foi Edgar Silva, vem o ataque. E a coisa foi contagiando e ficando cada vez mais serventuária e suja.

O primeiro a picar o ponto foi o Dr. Correia Guedes. Já em Dezembro ido, de forma absolutamente intempestiva decidiu despejar o seu saco de ódio ao PCP, com as mais absurdas calúnias sobre a sua direcção, sobre o seu funcionamento interno, e mergulhando até numa analise muito própria sobre o pensamento de Lenine. Tendo logo levado a devida resposta por várias vias.1 2

Decidiu voltar à carga e, de uma penada só, desqualificando todos os candidatos presidenciais, sobre Edgar Silva, o excelso analista e reputado furioso cronista descreve apenas “um antigo padre, convertido ao PC, que se atrapalha com a nova teologia”. Além da repetida metáfora, já ensaiada em Dezembro e até anteriormente, o Dr. Correia Guedes não explica, onde, como e porquê a atrapalhação de Edgar Silva. Mas pronto, siga, o que era importante era dizer qualquer coisinha, mandar a pedrada e seguir em frente.

Segunda na SIC é dia do “comentário” de Miguel Sousa Tavares. Marialva de quinta-ordem, useiro e vezeiro em décadas de “comentário” e “opinião” repletos de simplismos que oscilam entre o medíocre, o impreparado e o leviano, visionário ansioso que no longínquo Agosto de 1991 anunciava que “O PCP acabou e ainda bem”(jornal Semanário), best-seller “Escritor”(com afamada inspiração na leitura de Cette nuit la liberté para o seu Equador),conhecido apreciador da mestria bancária de Ricardo Salgado, enfim, uma figura pública com décadas de histórias, contradições e malabarismos de toda a sorte.

No seu “comentário” na SIC, apressadamente e por tal desatento logo de inicio à sua patética soberba e contradição, Sousa Tavares arranca com um “não conheço ninguém que tenha visto um debate presidencial do princípio ao fim, das pessoas normais”. Outro alinhado na narrativa dominante e promotora da desvalorização do debate, dos seus intervenientes e ideias, permitindo até ao telespectador concluir que o próprio Sousa Tavares não terá visto nenhum debate na íntegra.

Passada a gralha inicial, deixou o ataque a sério do “comentário” para o fim, quando após mais umas quantas generalizações simplistas e mistificadoras como de costume sobre todos os candidatos, disparou exclusivamente para Edgar Silva dizendo que “Edgar Silva para mim tem tido o discurso político mais pobre, mais inconsequente e às vezes até mais leviano que tenho ouvido”. E já está, missão cumprida. Que fez, que disse Edgar para merecer esta desvalorização? Não sabemos, talvez nem Sousa Tavares saiba, mas também não é para isso que o “comentário” serve.

Dia 7 a festa continua, desta vez com Francisco Louçã, agora nas vestes de comentador por aí, na SIC, no Público, na TVI às vezes e sabe-se lá mais onde. E vale sempre a pena sorrir, lembrando os tempos em que pelo exótico PSR o Professor fazia campanha pelo encerramento da televisão aos Domingos…outros tempos.

Sem estilo nem classe, com a subtileza de um bronco ao volante, Louçã escolhe um título intimista, com um tom que se perceberá hipócrita, para um texto em que começa por glorificar os resultados eleitorais do partido que ele próprio dirige de facto, utiliza um oportunista falsamente afectivo “amigo” para se balancear numa crítica sobre as temáticas do Orçamento Rectificativo e claro, como sempre e para sempre a inevitável e previsível Coreia do Norte, onde, sabe Louçã que “deflagrou uma bomba nuclear”. Pelo meio mais umas tretas e conversa-fiada sobre o passado do PCP para poder contra-atacar com referências a processos eleitorais anteriores (que ele considera negativos, omitindo factos, descontextualizando e simplificando tudo). Truques costumeiros de quem toma o leitor por parvo, que começando o texto dizendo-se “amigo” de Edgar Silva termina com a acusação de “não diz o que pensa”.


É por coisas destas que convites para orador e escriba de Bilderberg e Belmiro não faltarão a Louçã. Que nunca se acuse o capital de ingratidão.

Este aqui titula o seu canto no jornal Expresso por “chamem-me o que quiserem”, e quase tudo fica dito com esta rendição anunciada e incondicional. Como não consegui ler a sua prosa até ao fim (ainda queriam que pagasse!), não há muito a dizer, o objectivo da coisa que se presume soberba está anunciado no seu título, a criatura diz que já tinha visto o Sousa Tavares dizer o mesmo (e quis ajudar, entrar na onda, presume-se) e compara Edgar Silva a “Tino de Rans”. Henrique Monteiro não é mais nem melhor que isto, um subproduto do capitalismo no “jornalismo”, afundado no seu amor ao (des)governo anterior PSDCDS de quem era admirador despudorado e servente, fruta da época dos androjosos tempos que se vivem na comunicação social dominada pelo capital, um humilde servo. Ele sabe, nós sabemos, não há vergonha nem pudor, é um serviço apenas, presumivelmente bem pago, “chamem-me o que quiserem” diz o moribundo.

Nestes tempos, além do desastre (anunciado) em que se transformou a qualidade da informação e da opinião na comunicação social dominante (e dominada), pela breve amostra, fica claro a concertação objectiva por parte do capital em procurar apoucar a candidatura de Edgar Silva. Do outro lado, estamos nós.

Marcelo: O candidato deles

O custo das campanhas das presidenciais e a forma como Marcelo Rebelo de Sousa foi louvado pelos media já foi aqui abordado, e tão bem, pelo António. Não é sobre isso que me apetece escrever, embora isto ande tudo ligado. No dia 3 de Janeiro de 2016, o Público decidiu vender um folheto de campanha do candidato que é tão independente do PSD/CDS como eu sou vegetariano.

Esta capa deve fazer-nos pensar, tem de fazer-nos pensar no papel dos media tradicionais na formação de opinião. E Marcelo é um especialista nisso, tendo em conta que andou anos e anos, durante 52 domingos por cada um, a explicar-nos como devemos pensar em relação a tudo e mais alguma coisa, desde o futebol, passando pelo atletismo, política internacional, nacional, culinária, geopolítica, rendas de Bilros e tudo o mais.


Nas suas Conversas em Família, Marcello, perdão, Marcelo, pôde dizer tudo, ensinar-nos tudo, com o alto patrocínio da TVI. Voltando ao dia 3 de Janeiro e ao Público, convém recordar desde já que é propriedade da família Azevedo. Do Belmiro e do Paulo. Na sua criação e história, o Público sempre foi tido como um diário mais inclinado para a esquerda, uma esquerda urbana e intelectual, com estudos. Foi essencialmente a secção cultural que, durante muitos anos, fez o Público crescer entre este segmento da população.

O equívoco começa aqui. Um diário de esquerda criado por um capitalista é coisa que não existe. O primeiro número do Público, para quem se recorda, tinha como foto da primeira página Álvaro Cunhal de costas, com uma manchete que anunciava o fim do PCP e da sua linha ideológica. E fica claro para que “esquerda” é que o Público foi criado, pensado e mantido durante tantos anos, mesmo com todos os prejuízos que sempre teve.

A verdade é que o poder da imprensa escrita já não é o que era. Logo no dia 3 de Janeiro, nas redes sociais, foram inúmeras as publicações a condenar o Público e a questionar se fará o mesmo com todos os outros candidatos. É pouco, é certo. Há uma parte substancial da população que não usa redes sociais e continua a comer tudo o que é debitado pelos media. Mas começa a haver uma mudança que os media tradicionais parecem não acompanhar ou não perceber. A Internet permite um escrutínio e difusão muito mais abrangente do que sucedia há uns anos, quando o Correio da Manhã tomava o partido da direita e apelava ao voto na AD. De forma tosca, mas apelava. E, honra lhe seja feita, sem grande dissimulação.

É evidente que há uma promiscuidade entre jornais, jornalistas e política. No anterior governo do PSD/CDS, foram pelo menos dez os jornalistas do Diário de Notícias que assumiram funções em cargos de nomeação, desde directores de serviço até assessores. Isso mesmo: dez jornalistas que um jornal que se aguenta nas bancas sabe-se lá como, perdeu para um governo. Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Licínio Lima, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. O DN há-de ser um caso de estudo sobre a sua verdadeira utilidade, sendo um jornal de âmbito nacional que vendia, em 2014, pouco mais de 15.000 exemplares por dia, contadas também as assinaturas digitais. Isto talvez ajude a perceber a simpatia mediática que Marcelo, o candidato da direita, goza nos jornais, rádios e tv.

Marcelo é o candidato deles. Da direita, do populismo dos orçamentos para as campanhas, mesmo depois de ter apoiado Cavaco, quando este gastou 1.800.000 euros na sua campanha. Nesta altura, Marcelo andava pouco preocupado com os gastos. É o candidato dos donos dos media e dos seus amigos do BES, por onde também passou Maria de Belém, que a Ordem dos Médicos, com um sentido de oportunidade muito apurado, homenageará no dia 12.

Nenhuma destas questões é nova e a promoção do candidato do PSD/CDS repetir-se-á até ao dia das eleições. De forma mais ou menos clara, Marcelo será levado ao colo até ao trono de Belém. Cabe a nós desmascarar o papel que sempre teve no apoio à direita, às várias direitas que foram comandando o país através de esquemas de promoção semelhantes.

Crónica dos dias negros

As eleições foram há um mês e um dia. Falou o povo, o PS decidiu responder ao apelo da esquerda e, entretanto, meteram-se ao barulho o Cavaco, os banqueiros, a direita mais conservadora e saudosista, comentadores e opinadores, no Expresso e no Observador, com particular incidência, com as suas três mãos: duas agarradas à cabeça e uma a bater no peito, em defesa dos superiores interesses da nação.
Nas televisões, a generalidade dos comentadores avisa para a desgraça dos mercados, a fragilidade de um possível acordo do PS com a esquerda e meia-dúzia de maluquinhos criam eventos no facebook para darem as mãos e saírem à rua contra qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o que é.

Cavaco entrou em pânico e convidou a minoria parlamentar a formar governo, mesmo sabendo que será chumbado, deixando de lado a estabilidade política e os mercados – outra vez os mercados. Paulo Rangel, de braço dado com o seu colega no Parlamento Europeu, Francisco Assis, vão lançando avisos para as tempestades que se avizinham.

Pelo meio, Cristas levanta-se e revela-nos que foi buscar inspiração a Jesus para ser ministra e Calvão da Silva – valha-me deus, que a chuva no Algarve é o criador a colocar-nos à prova – de fato completo e galochas. Foi obra do senhor, que ainda chamou um octogenário para a sua beirinha, tão bom e misericordioso, e o pé-de-meia para um segurozinho, talvez a piscar o olho à ala de ressabiados do PS, que devemos ter sempre algum de lado para uma necessidade, como se o nosso quotidiano não consumisse toda a nossa necessidade.

O dono dos jornais diários de Viseu, Leiria, Coimbra e Aveiro assina um editorial em que avisa para o perigo comunista e assume o combate aos vermelhos, que medo, que nos vêm tirar tudo. Bem vistas as coisas, só tem medo que lhe tire alguma quem tem alguma coisa para ser tirado. E a esmagadora maioria da população não tem.

A direita pinta os dias negros, a comunicação social faz-lhe eco, ou oco, como preferirem, contra tudo aquilo que devia ser o jornalismo. Ontem mesmo, lia-se por todo o lado que os refugiados que chegarão a Portugal terão médico de família e isenção de taxas moderadoras. Os jornalistas, sem conhecerem ou procurarem conhecer a lei de asilo e o estatuto do refugiado, e nós, o povo, pequeninos que somos, enchemos o peito de brio para os que são ainda mais pequenos que nós e dizemos que não pode ser, e os nossos, os nossos pobres, que ainda há uns dias eram os malandros que viviam à custa do rendimento mínimo, sem quererem trabalhar, malandros, a viver à custa de quem trabalha, como eu.

Sem percebermos que nós é que estamos mal, que aceitamos não ter médico de família como se fosse normal, e pagamos tudo e mais alguma coisa porque nos dizem que tem que ser assim, que pagamos ou temos o abismo, quando o Ricardo Salgado, coitado terá a sua reforma aumentada para o triplo. O mesmo Salgado a quem o agora ministro Calvão da Silva, valha-me deus, atestou a idoneidade.

Ao final do dia, o Expresso titulava que, caso o PS forme governo, os funcionários públicos seriam aumentados quatro vezes no próximo ano, quando o que deveria dizer é que os roubos nos salários de que foram vítimas seriam repostos, ainda que sem retroactivos.

Que PSD e CDS entrem em pânico por perderem os lugares, mesmo apesar das nomeações em catadupa que surgiram antes das eleições, para boys e girls de toda a espécie e feitio, é uma coisa; que haja órgãos de comunicação social que se prestem ao seu serviço, é vergonhoso, mas, ao que parece, também e coisa que não abunde por aqueles lados.

Que PSD e CDS pintem os dias de negro, é uma opção, que a comunicação social esteja, descaradamente ao seu serviço, é um negro diferente, um negro triste, um negro cinzento tão pobre, tão sem nada que faz lembrar os anos em que só à força do lápis azul era possível travar a verdade. Os tempos são outros, os lápis são cinzentos, como são cinzentos e negros os interesses que se movem em alguns meios dos nossos órgãos de comunicação.

Botas cardadas com pezinhos de lã

Ui, que lá vêm eles com mania da perseguição queixar-se da cobertura mediática. Não é nada disso. Trata-se apenas da constatação de um facto que os últimos dias de incerteza governativa ajudaram a deixar claro. A direita-se pela-se de medo da esquerda e qualquer convergência que envolva o PCP é um ataque à democracia. Se isso se tornou evidente em todos os canais de televisão, jornais e rádios, no mundo complexo dos jornais regionais locais o caso é ainda mais grave. Num caso que não me recordo de alguma vez ter visto, surge o mesmo editorial, letra por letra e linha por linha, em quatro jornais locais: Diário de Coimbra, Diário de Leiria, Diário de Aveiro e Diário de Viseu. A vantagem destes em relação a outros órgãos de informação, neste caso os de carácter nacional, é que estes assumiram abertamente o seu combate à esquerda e ao PCP em particular, com referências tolinhas ao PREC e à desgraça que seria ter os comunistas no poder. Caiu a máscara a tantos e pode ser que isso ajude a clarificar aquilo que acusam de ser uma cassete.

Todos os artigos são assinados por Andriano Callé Lucas, director dos quatro jornais:

“Todos os que vivemos os tempos conturbados do processo revolucionário de 1975 (o PREC de má memória) nos lembramos bem dos desmandos e dos grandes prejuízos causados ao País, quando os comunistas estiveram no poder. Desde logo quando tentaram suprimir as liberdades individuais, a começar pela Liberdade de Imprensa ao tomarem de assalto quase todos os jornais, incluindo o “República”, do próprio Partido Socialista, no intuito de silenciarem os opositores, visando a implantação de uma ditadura ao estilo soviético.
A bem do País, e da confiança dos agentes económicos indispensável ao crescimento e à criação de emprego, esperamos que impere o bom-senso no Partido Socialista, que esta associação perversa com a extrema esquerda não venha a concretizar-se e que não se repita em Portugal o triste exemplo a que assistimos este ano na Grécia com o Syrisa, que agravou o empobrecimento do povo grego.
O Diário de Viseu manter-se-á fiel aos princípios do seu Estatuto Editorial e não deixará de combater este cenário tão negativo para o País se o mesmo vier a concretizar-se. Continuaremos na mesma linha, ao serviço dos nossos leitores, assinantes e anunciantes, que são a nossa única razão de ser, a quem agradecemos a preferência e o apoio que nos têm dado”.


A todos o nosso Bem Haja.


Isto explica, em parte, porque é que dá tanto trabalho ter uma militância activa num Partido como o PCP. Não são só os grandes grupos de media que distorcem, cortam e subvalorizam o que são as posições do PCP. A nível local, conseguir uma notícia em jornais propriedade de gente como esta, é uma tarefa hercúlea. Por isso é que tenho a firme convicção de que eleger um deputado do PCP numa Assembleia de Freguesia, numa Câmara ou numa Assembleia Municipais ou na Assembleia da República, provoca mais receio nos fazedores da opinião dominante do que eleger mais cinco de outro partido qualquer. Porque sabem que não foi através deles que conseguimos, não foi pela sua simpatia ou condescendência, mas sim que cada voto é conquistado através do esclarecimento directo, olhos nos olhos.

Mas, convenhamos, há um gostinho especial em ver vermes como este a espernear:

“(…) defensor de causas que interessam às suas gentes, da Liberdade de Imprensa, da livre iniciativa privada, da economia de mercado e da sã concorrência, do combate aos monopólios, à burocracia, ao centralismo do Estado e a quaisquer ideologias colectivistas, totalitárias, fascistas, comunistas ou outras, que alienam e escravizam os seres humanos. Defendemos a regionalização do País bem como a plena integração e unificação europeia, numa Europa federada, numa Europa das Regiões e dos Cidadãos, dado estarmos convictos que é na Europa e na partilha dos seus valores (de democracia, de liberdade, de economia de mercado, de moeda única, de defesa comum, entre outros) que a grande maioria dos portugueses se revê, como cidadãos europeus de pleno direito que também somos, conforme tem sido expresso nos diversos actos eleitorais”.

O Falso Génio

É já quase um lugar-comum o facto de não haver pé de igualdade entre candidatos e candidaturas aos principais órgãos políticos do país. Sabemos muito bem que a formação da opinião pública, e consequentemente do voto, ainda depende – e muito – do que é veiculado e “como” é veiculado pelos órgãos de comunicação social. A direita, melhor do que ninguém, sabe que assim é, e não tenhamos dúvidas de que, nos dias que correm, tão importante como escolher deputados e ministros é escolher e mover influências para ter determinados comentadores “a entrar” todos os dias nas casas dos portugueses. Faz parte da estratégia que vai enganando e “controlando” muito boa gente neste país. Faz parte das razões que trouxeram o país para o pântano em que se encontra metido.

À custa daquele que será o maior tempo de antena da história, muitos dos que votaram no “falso génio da economia”, ameaçam agora votar no “falso génio da política”.

Vejamos com atenção o caso de Marcelo Rebelo de Sousa e da sua candidatura à presidência da república. Quem estiver minimamente atento ao que Marcelo diz pela boca fora, e se se propuser olhar em retrospectiva, com algum afinco, para a errância da sua trajectória política, constatará que a imagem real de Rebelo de Sousa está longe, muito longe, de corresponder ao que se foi “cultivando” ao longo dos últimos anos. A oratória arranjada e a fluência de discurso são a aparência; a prática político-partidária é a substância. Que diferença existe entre uma e outra? A oratória é um mérito; a prática política o espelho da inabilidade.

Marcelo é um gigantesco falso-génio, um mestre do verbo de encher, um construtor de nada e coisa nenhuma, que nunca fez nada digno de memória, que nunca demonstrou capacidade para liderar o que quer que fosse. Marcelo é um político de fraca estopa, um burguês medrado nas “boas famílias” do antigo regime, um ultra-conservador que a comunicação social tratou de promover durante anos a fio… e apenas isso. À custa daquele que será o maior tempo de antena da história, à custa desse longo reinado de pavoneio em horário nobre dos principais canais, muitos dos que votaram na ‘cavacalidade’ do “falso génio da economia”, ameaçam agora votar no “falso génio da política”. E falso por falso, laranja por laranja, conservador por conservador, capitalista por capitalista, que venha o povo e escolha, e escolha diferente, porque até aqui o diabo já se encarregou de o fazer.