All posts tagged: Comunicação Social

Há «camisas verdes» nas redacções

O que determinados órgãos de comunicação social estão a fazer ao PCP é miserável, mas ninguém pode achar que seja propriamente «incompreensível». E isso compreende-se da seguinte forma: todos sabem o que é que o PCP combate. O PCP é um partido histórico, fundador da democracia, com provas dadas, com quase um século de existência. O PCP levou com os estalos dessa Primeira República acossada e turbulenta. Essa República onde a direita liberal (essa dita tradicional, do «centro», institucional, moderada) foi a primeira a ser olímpica e tristemente seduzida, engolida, passivamente possuída – dando todo o consentimento – à aparição e efectivação do fascismo. Essa mesma «direita centrona» e «liberal», «modernaça», «futurista», que existe, mas que está hoje num outro patamar. Perante a passividade quase geral, está a ser não seduzida, mas ela própria a seduzir voluntariamente xenófobos, neo-nazis, fascistas, «populóides», fanáticos do capital, imperialistas.

Toda a gente sabe, pois, qual é a luta do PCP, quem faz a luta do PCP, quais são os rostos do PCP, onde e quando o PCP está para atingir os seus bem definidos e transparentes objectivos! E se o PCP luta com democratas, se luta com anti-fascistas, se os seus rostos não têm cara tapada, e se aponta a objectivos assumidos às claras, quem o ataca coloca-se diametralmente do lado oposto. E essa é a escolha que alguns meios de comunicação e seus jornalistas estão a fazer. Os que atacam o PCP são os que promovem anti-democratas destruindo a democracia, os que omitem e truncam intervenções do PCP mas entrevistam fascistas branqueando o fascismo, os que se movem ou são movidos pelos interesses instalados, os que apontam a finalidades obscuras, com processos obscuros e tudo sob a guarda do “Espírito Santo” (Ou será do Banif?).

Da mesma forma que todos são capazes de conhecer e reconhecer o que o PCP quer e o que o PCP faz, ainda que disso possam discordar, todos são capazes de perceber de igual forma o que é que combatem, na realidade, aqueles que dizem que «nunca combatem ninguém», que são sempre «muito neutros», que só querem «informar», mas que cerram dentes e punhos com mentiras, insinuações e falsidades que acabam por ser desmentidas ponto por ponto. Aqueles que acham que o perigoso mundo das “fake news” – fenómeno tão antigo quanto o da própria imprensa – se resume ou se confina à abstracção das redes sociais, estando os meios ditos “tradicionais” (televisão, rádio, jornais) isentos de controlo por parte de quem quer, por sua vez, também “controlar” a opinião pública e subjugar as massas, vive ingenuamente e já é, em si mesmo, vítima da armadilha dos grandes interesses.

Ainda que no seu processo normal a História não se repita, a verdade é que não falta quem a queira repetir. E tudo a coberto dos partidos institucionais, como palco ou como rampa. É vê-los aí nas parangonas: ontem «liberais», «centrões», «moderados» candidatos a Câmaras, hoje fundadores de partidos xenófobos, homofóbicos, racistas, nazis. E se essa direita partidária já não engole porque foi há muito engolida, os que hoje são, apesar de algumas heróicas excepções, seduzidos e engolidos pela nova emergência da extrema-direita já institucionalizada e sob patrocínio «liberal», são precisamente aqueles que um dia juraram «informar» e «esclarecer» com «neutralidade» e de forma «imparcial» a opinião pública. Depois do 25 de Abril de 1974, nunca como agora o fascismo esteve tão perto de controlar a comunicação social portuguesa. Nunca.

Silêncio

Calados, caladinhos, cabeça baixa, orelhas que tapem os ouvidos, que vão falar os comunistas. Os velhos e cansados, os que desde 1921 que vão acabar, os retrógrados e contra o progresso, mais o liberalismo que é o futuro, mais o feminismo urbano-burguês. Mudos, calados obedientes, que o pensamento é só um, só pode ser um, que é a natureza humana. Calem-se as ideologias estafadas da igualdade de oportunidades do trabalho com direitos e do direito ao trabalho. São millenials, querem T0 com 2 metros quadrados, querem Uber e Glovo, que se foda quem paga as motas e os carros. Isto salva-se com o Banco Alimentar, desde que não haja bifes, porque temos de deixar que nos roam os ossos. Não há uma app que mastigue por mim? É a vida, só há um caminho, é a natureza humana, que é fodida, porque o ser humano é egoísta quando nasce. Claro que há igualdade desde que não abane o défice, que o défice cai bem em qualquer mesa, não pode é haver muita chatice, diz que é pessoal lá em Bruxelas que diz que somos uns calões; calados e mudos. O quarto poder e tal, que anda um bocado mau, o senhor Presidente da República até falou sobre isso.

Do lado de cá estamos nós, surdos e cegos, como o burro no quadro de Grosz. Deu no jornal, que eu vi; deu no Facebook, que eu vi; deu no Portugal Glorioso ou no Direita Política, que eu vi e, se não é verdade, não faz mal, porque podia ser. Vamos lá dar a papa aos meninos, vamos explicar como é que se deve pensar, que temos o Marques Mendes as fazer-nos esse favor, mais a Manuela Moura Guedes e o Jorge Coelho e a ponte que os pariu a todos.

Silêncio
Não se pode dar espaço a quem pensa diferente, a quem tem um projeto diferente. Já viram se a mensagem passa? Vamos bloquear esta merda, mesmo que estejamos a bloquear a nós próprios. Então não é que a UGT votou ao lado da administração numa cena sobre jornalistas precários? Olha que não estava à espera. Ah, espera… Não importa, vamos buscar um ex-isto e ex-aquilo radicalmente social-democrata acomodado, vamos dar espaço, deixar falar. Porque Cuba e Venezuela e Vietname e Laos. E a Coreia do Norte, cheia de mísseis e não sei quando. Temos de discutir as fake news, não se percebe como aqueles lorpas caem nisto. E as armas de destruição massiva no Iraque, que comemos que como lorpas e demos a mastigar aos pacóvios? E aquele maluco da ONU que afinal era mas que o Expresso disse que sim, mas afinal não. E os ucranianos que são maus mas os russos é que são piores. Nós é que somos quem dá a informação cuidada e isenta. Nós somos mesmo quarto poder e devíamos ser contrapoder. Mas depois lá se vão assessorias e consultorias nas próximas eleições. Vamos calar isto, se não, como dizia o António, esta merda vai voar.
Silenciados
A imagem abaixo representa uma recolha efetuada nos sites de diversos órgãos de informação sobre o espaço de comentário político destinado a cada partido. Importa realçar que foram recolhidos dados no JN, DN, Público, Sol, Expresso, TSF, Visão, TVI e SIC. Incluindo os canais noticiosos. Não contam comentadores convidados para assuntos imediatos, que pertencem, invariavelmente, ao círculo ideológico de PS, PSD e CDS, embora não estejam diretamente ligados aos partidos referidos. De referir que a imagem aponta apenas presenças individuais. Há os seguintes casos em que a mesma pessoa se desdobra em vários órgãos, sendo esses os seguintes:

PSD – Paulo Rangel (Público / TVI)
CDS – Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
BE – Marisa Matias (DN / TVI)
BE – Francisco Louçã (Expresso / SIC)

Então, a presença partidária nos media com espaço de opinião está distribuída da seguinte forma:

PS
Ana Catarina Mendes (JN)
Maria Antónia Almeida Santos (DN)
Francisco Assis (Público)
João Gomes Cravinho (Público)
Pedro Adão e Silva (Expresso)
Isabel Moreira (Expresso)
Ana Gomes (SIC)
Jorge Coelho (SIC)
Carlos Zorrinho (TVI)
Fernando Medina (TVI)
João Cravinho (TVI)
Pedro Silva Pereira (TVI)
Catarina Marcelino (Visão)

PSD
Poiares Maduro (JN)
Margarida Balseiro Lipes (DN)
Paulo Rangel (Público / TVI)
Feliciano barreiras Duarte (Sol)
João Lemos Esteves (Sol)
Sofia Vala Rocha (Sol)
Duarte Marques (Expresso)
Diogo Agostinho (Expresso)
Marques Mendes (SIC)
Carlos Carreiras (TVI)
José Luís Arnaut (TVI)
Luís Montenegro (TVI)
Manuela Ferreira Leite (TVI)
José Eduardo Martins (Visão)

CDS
Nuno Melo (JN)
Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
Bagão Félix (Público)
Nádia Piazza (TSF)
Lobo Xavier (SIC)
Paulo Portas (TVI)

BE
Mariana Mortágua (JN)
Marisa Matias (DN / TVI)
Pedro Filipe Soares (Público)
Francisco Louçã (Expresso / SIC)
José Soeiro (Expresso)
Fernando Rosas (TVI)
José Manuel Pureza (Visão)

PCP
Rui Sá (JN)
Bernardino Soares (TVI)
Rita Rato (Visão)

Calados
É inegável que o PCP é silenciado nos órgãos de comunicação social. Hão-de haver motivos. No caso dos três comentadores comunistas, importa realçar que Bernardino Soares, de acordo com o site da TVI, esteve meses sem qualquer participação e não há referência à sua substituição por outro membro do PCP. Não há como romper este bloqueio, que é ideológico. Não é nem mais nem menos que isso. É permitir a outros que comentem sobre tudo, incluindo questões sobre o PCP, sejam elas sobre o partido em si, sejam sobre opções políticas, que são afirmadas sem direito a contraditório. Abaixo, segue um vídeo ilustrativo do que se passa, publicado no Facebook do PCP, sobre uma importante iniciativa e discussão política em torno das posições do Partido.

Organização e luta
Perante este cenário de bloqueio, é demasiado fácil bater no PCP, em que tanto alguma esquerda como a direita mais saudosista de outros tempos usam os mesmos argumentos. Porque não há contraditório. Estamos na era da informação a ser enformados. É também por isso que é tão importante que os militantes comunistas se informem, mais não seja, da atividade do Partido pelos meios que têm à disposição. Que discutam e decidam, que percebam que, se não temos espaço espaço nestes órgãos, não somos nós que estamos errados. Não há critério editorial que pretenda explicar o afastamento do PCP dos media e, ao mesmo tempo, resista ao exemplo de Daniel Oliveira. Sozinho, o ex-bloquista tem espaços de comentário em quatro órgãos: Expresso, SIC, TSF e Canal Q. Eu tenho a minha opinião sobre as posições de Daniel Oliveira, que não vem ao caso. Mas devia, ao menos, fazer-nos pensar como é que alguém, seja quem for, consegue ter mais espaço de comentário do que um partido inteiro que, por acaso, tem 15 deputados.

Armas de intoxicação massiva


Qual é a diferença entre um terrorista em Paris, um saqueador em Palmira ou um sanguinário em Aleppo? É que se ele estiver em Aleppo, na grande imprensa, não terá nenhum destes adjectivos e será apenas um “rebelde” ou um “insurgente”, provavelmente acrescentarão ainda que é “moderado”. É o que tem acontecido.

A grande comunicação social construiu uma gigantesca e sinistra distopia mediática em que um mercenário de guerra fanatizado é apresentado como um “rebelde moderado” que luta por liberdade e democracia  ao passo que simultaneamente um soldado sírio que arrisca a própria vida pela libertação de uma cidade do seu país se vê transformado num carniceiro contra o seu próprio povo capaz de bombardear o vigésimo-sétimo “último hospital para crianças” de Aleppo.

Nos últimos dias, aproximando-se a derrota militar em Aleppo dos terroristas do daesh/al-qaeda/al-nusra entre outros mercenários animados pelos incansáveis e mal-disfarçados apoios de países e organizações como os EUA, UE, Turquia, Israel ou Arábia Saudita, os níveis de intoxicação mediática atingiram patamares absolutamente insuportáveis, pela natureza e cadência. Desta vez também, por exemplo, através de videos de “mensagem final” que chegaram às redes sociais e televisões nos últimos dias.

Se por um lado é verdade que uma análise atenta desmonta facilmente estas sucessivas farsas, por outro lado, através das brutais armas de intoxicação massiva que o capital e o imperialismo têm ao seu dispor para a sua difusão, as aldrabices, as mistificações e manipulações de toda a ordem e feitio acabam por atingir os seus fins em larga escala.

Independentemente de casos de guerra, em que populações civis sequestradas são utilizadas como escudos humanos pelos miseráveis terroristas que insistem em comportar-se como cobardes até à última, e que objectivamente colocam em causa vidas civis, a verdade é que os interesses do império e do capital nestas sucessivas acções de intoxicação mediática à escala global visam a diabolização dos libertadores e o seu isolamento e, naturalmente, criar condições políticas que para já dificultem novas reconquistas, que impeçam o restabelecimento da ordem e a reconstrução do país, bem como preparar no futuro novas escaladas belicistas.

Além dos tradicionais meios e formas de conformação de realidade e intoxicação, de facto hoje por força de novos meios tecnológicos e do seu acesso massificado em vastas áreas do mundo, importa acompanhar e denunciar estas “novas” vertentes da intoxicação até porque são elas próprias muitas vezes causa ou meio difusor para as tradicionais fontes de manipulação de massas. Por exemplo, estes videos que iniciaram a sua circulação em redes sociais rapidamente(esse seria seu objectivo) foram utilizados em televisão ganhando ainda maior projecção. E sim, estes são só um exemplo.

Intoxicação de guerra

Nos últimos dias, na devastada cidade síria de Aleppo, tem ganho progressivo espaço mediático o emocionante caso de uma menina de nome Bana Alabed, de sete anos de idade apenas, e que por via da rede social twitter, vem partilhando preocupações, apelos políticos e outras mensagens sobre o seu dia-a-dia na guerra.
O caso é que Bana é uma ficção. Bana é um produto tóxico inventado num qualquer laboratório ao serviço da guerra mediática, é uma ficção do império colocada ao seu serviço político e cuja divulgação percorreu as redes e meios da moda(primeiro nas redes sociais, seguida por uma rápida e global divulgação nos órgãos de comunicação social de “referência”).
Estórias como esta sempre houve e, francamente, não valeriam grande atenção não se dera o caso desta Bana ter tido honras de
Telejornal da RTP, e veja-se com atenção toda esta peça. Tornando-se em mais um caso, que se soma a tantos outros, de manipulação sobre a guerra na Síria na RTP. Sendo que Bana é, ainda por cima, uma boneca particularmente mal montada.

Aleppo está em guerra há mais de 4 anos, é uma cidade tomada, saqueada e devastada pelos sucessivos grupos terroristas(animados, financiados e munidos por EUA/NATO/UE, pela Turquia entre outras potências regionais) do Daesh à Al-Nusra, dos “rebeldes” aos “insurgentes”, dos “jihadistas” aos “jihadistas moderados”, entre outras mutações nominativas que estes grupos vão assumindo…mas importa que é uma cidade absolutamente destruída. Assim, estranha-se na vida de Bana:

1- como vive e se mantém a viver na cidade, numa zona “controlada pelos rebeldes”?

2- como se mantém ligada constantemente à internet sabendo-se que por lá não existem elementos civilizacionais básicos como a electricidade ou água?

3- como tem e para que tem uma criança de 7 anos um telefone de tecnologia 3G em zona de guerra?
4- como podem neste cenário existir redes de telemóvel e internet?

5- como fala e escreve tão correctamente em inglês uma criança síria de 7 anos(4 deles em guerra)?
6- porque nunca em 415 mensagens escreveu ou falou na sua língua nativa?

7- como sabe ela os nomes de diversos presidentes como Putin(ela ao Assad liga pouco) ou Obama e ainda instituições como o Tribunal Penal Internacional(com sete anos apenas ela já conhece o TPI)?

8- como conhece e porque já se corresponde via twitter com outras crianças “vítimas” de Putin como os pequenos ucranianos e arménios Vadim Dovganyuk e Elena Hagoyan?

9- é notável a pontualidade nos bombardeamentos e o talento cinematográfico de sua mãe(que não a protege, antes a filma à janela enquanto ocorre um bombardeamento);

Esta contagem rápida de situações estranhas podia continuar com muito mais questões. Mas o mais relevante, agora, não é a personagem Bana, mas sim a relevância dada pela RTP a esta aldrabice pegada.

É absolutamente lamentável que as senhoras “jornalistas” Ana Rita Freitas e Sara Cravina, como duas baratas tontas tenham editado e reproduzido uma peça cujos dados não são delas(antes são de alguém que os inventou, que construiu as imagens e  uma narrativa que elas devoraram) e sobre os quais não fizeram qualquer fact-checking, qualquer verificação sobre a sua veracidade. Assim, acefalamente, para adjectivar por baixo, no mínimo, assinaram e mandaram para o ar na estação televisiva de serviço público, em pleno Telejornal(entre outros espaços de “informação” em televisão do grupo RTP), 2 minutos de mentira e intoxicação pura.

A direcção de informação da RTP desde o início da guerra na Síria, em 2012, tem tido um linha editorial perfeitamente enquadrada com a “informação” e opinião construídas e formatadas por agências e outros veículos de produção de conteúdos para os mass media internacionais, que naturalmente servem os objectivos políticos e de narrativa mediática do império, dos EUA/NATO/UE, distribuindo todo esse material desinformativo e objectivamente tóxico por este mundo fora.

O director de informação da RTP, o ascendente ainda que curto, mal formado e patusco, Paulo Dentinho, já esteve na Síria e entrevistou pessoalmente Al-Assad, conheceu aquela realidade, a de uma guerra já desenvolvida e cujos traços essenciais nos planos militar e mediático eram notórios, sendo, portanto, indesculpável a opção editorial da RTP e da sua direcção de informação. Este director e esta direcção, nesta opção que fazem, colocam-se no papel de cúmplices em toda a intoxicação que se serve regularmente aos tele-espectadores sobre a guerra na Síria, sendo este ridículo caso de Bana apenas mais um triste episódio.

Liberdade editorial versus liberdade de expressão

“Mas não é por acaso que se vê, de cada vez que se avançam perspectivas para uma beneficiação e elevação dos programas televisivos, que os remédios válidos mostram ser sempre e só remédios de ordem política; só a ideologização do meio técnico pode mudar o seu cunho e a sua direcção. Mas a ideologização não significa “partidarização”; significa apenas imprimir na administração do meio uma visão democrática do país; bastaria dizer: usar o meio no espírito da Constituição e à luz da inteligência. Todos os casos em que a nossa televisão tem dado boa prova de si, no fundo, não foram mais do que deduções correctas deste teorema.” (Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, 1964).
Foi esta semana conhecido o Barómetro de Comentário Político Televisivo Maio 2016, um trabalho do Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL. E vale a pena a sua leitura e análise.

O Barómetro no seu título conclui ainda por “Um quase empate entre a esquerda e a direita”, ora sobre esta conclusão possível, não deixa de ser criticável a introdução de um grau de subjectividade na avaliação e caracterização da representatividade política que eu não subscreveria, embora generosamente entenda a ideia dos autores.

O Barómetro centra a sua análise na representatividade factual e eventual dos partidos políticos no espaço televisivo caso os resultados eleitorais fossem critério de representação nos espaços de comentário político. Assim foram analisados no Barómetro um total de 53 comentadores políticos, dos quais 27 terão filiação partidária conhecida. Também foi analisada a representatividade(no quadro dicotómico esquerda/direita) que poderão ter “personalidades” das quais apenas é conhecido algum apoio eleitoral pretérito ou antiga militância, ou seja, não filiação política actual.

Para ajuda na compreensão deste quadro, que apenas analisa os comentadores com filiação partidária identificada, consideremos a linha do PSD. Este Partido tem 11 comentadores em televisão, e de acordo com a proporcionalidade do seu peso eleitoral nas eleições para a Assembleia da República também teria 11, mas se o critério de selecção fosse os seus resultados eleitorais para o Parlamento Europeu então apenas teria 9.

As conclusões sobre o restante quadro são fáceis de retirar, partido a partido. Há partidos muito sobre-representados como o CDS e o BE(o campeão neste quadro) e outros sub-representados como o PS e o PCP(muito prejudicado, quase clandestino).

Um quadro agravado

O quadro acima refere-se apenas a este mês de Maio mas, salvo uma ou outra alteração muito pontual, é significativo da situação global da representatividade em espaços de comentário político televisivo ao longo do restante ano.

Contudo, o quadro agrava-se se se atender a quadros de representatividade semelhante que se possam estabelecer sobre a restante comunicação social dominante nomeadamente jornais e rádios, entre outros. Aí, e salvaguardando a honestidade do levantamento e da análise, e respeitando igualmente as mais elementares regras da matemática e da proporcionalidade, facilmente se concluiria que no quadro mediático dominante o PCP é absolutamente prejudicado à luz do critério da representatividade eleitoral.

Um problema da Democracia

As conclusões desta análise não serão novidade para muitos leitores do Manifesto 74, contudo será justo recordar que o critério eleitoral não pode nem deve ser o critério para selecção de comentadores políticos, embora também o possa ser. À luz do espírito da Constituição e da vasta legislação sobre o sector(dentro e fora dos períodos de campanha eleitoral), a liberdade de imprensa e a liberdade editorial serão também critérios.

O comentário político saudável pressupõe espírito democrático, a salvaguarda das forças minoritárias, a diversidade e o pluralismo e a assumpção de responsabilidades de todos os intervenientes(até daqueles que dizendo-se independentes no comentário ou no estatuto editorial nunca o são ou foram na prática).

Os perigos(como a formatação de ideias, a mediatização de realidades inexistentes, a construção de resultados eleitorais, entre outros) e o quadro geral cultural, mediático e económico que construiu a situação presente são conhecidos.

Assim, cumpre concluir que a concentração capitalista da riqueza, a concentração nos grandes grupos económicos da comunicação social dominante(televisão, jornais, rádios), a partidarização e ideologização da comunicação social detida pelo Estado, entre outros, são problemas da Democracia que devem ser denunciados e que objectivamente com ela conflituam.

O que falta nos Panama Papers

O mundo acordou ontem com uma revelação explosiva. Os chamados Panama Papers prometiam colocar a nu um escândalo sem precedentes, de dimensão global, depois da fuga de documentos de uma empresa de advogados especializada em esconder dinheiro, a Mossack Fonseca, do Panamá. Importa referir desde já que há centenas de empresas que prestam este tipo de serviços, logo, esta lista está longe de ser completa. Afinal, o que diferencia esta lista que agora vamos conhecendo, do Wikileaks? Muita coisa. Demasiada.

Mãos de fada
A primeira grande diferença em relação ao Wikileaks é que, neste caso, a informação foi fornecida em bruto e está acessível a quem pretender consultá-la. No Panama Papers, a informação surge filtrada por um consórcio internacional de jornalistas de investigação, cerca de 200, oriundos de 65 países. O “Centre for Public Integrity (CPI) é uma organização que tem como principais doadores a Fundação Ford, a Fundação Carnegie, o Fundo da Família Rockefeller, a Fundação W. K. Kellog e a Fundação Open Society, propriedade do sinistro George Soros. E lá se foi a independência. Só isto deveria fazer soar campainhas de alarme em relação ao objecto da divulgação e ao ser real objectivo. As matérias parecem estar a ser tratadas com mãos de fada pelos benfeitores da CPI.

Wikileaks vs Panama Papers
Como referido atrás, o Wikileaks permite-me, ainda hoje, pesquisar tudo e mais alguma coisa, nomeadamente através de emails trocados por milhares de pessoas e entidades com a Stratfor, uma organização que se dedica a análises geopolíticas e que actua como centro de interesses dos Estados Unidos da América em todo o mundo. Ao contrário dos Panama Papers, em que a informação há-de ser divulgada aos poucos e com um critério que se desconhece, no Wikileaks eu consigo verificar as jogadas de bastidores e, por exemplo, o trajecto de Poroshenko para chegar ao governo da Ucrânia. E, no entanto, ele serviu só como peão, sendo um dos mencionados também nos Panama Papers. Outro exemplo que posso consultar sem filtros é a forma como a Stratfor mediava o patrocínio do RAAM pela Chevron, em Angola, para preparar um golpe de Estado.

Filtros
Como se verifica acima, há uma enorme diferença, e não é pequena: são os filtros por onde a informação passa até chegar a nós. Percebe-se, por isso, o corporativismo do Ricardo Alexandre, editor do Internacional da RTP, quando elogia a divulgação dos dados pelos jornalistas, garantindo a idoneidade deles. Pelos patrocínios atrás mencionados, faria tanto sentido acreditar que não há uma agenda nos Panama Papers como na imparcialidade das análises de Marques Mendes.

EUA fora do mapa
O dado mais curioso surge pelo facto de, até ao momento, não haver qualquer informação relativa a norte-americanos. E a verdade é que nem Putin surge directamente associado a qualquer offshore, pelo que pude ler até agora. Surgem pessoas que lhe são próximas, mas não ele. No entanto, é a cara dele que consta quando se fala em políticos e ex-políticos. E não David Cameron, por exemplo. Facto, até ao momento, é que os grandes visados estão por todo o Mundo, menos nos Estados Unidos da América. Fala-se em brasileiros, em argentinos, africanos, médio-oriente e Europa.

E as consequências?
Várias e nenhuma. Nenhuma, porque estes escândalos não são novos nem inéditos. Alguém se lembra do escândalo que envolveu Jean Claude Juncker e ficou conhecido como LuxLeaks? A investigação de então foi feita pelo mesmo grupo de jornalistas, que parece ter uma especial predilecção para não estado-unidenses. No entanto, o assunto era o mesmo. A consequência foi a sua nomeação para presidente da UE. Ninguém espera que os mesmos que alimentam o capitalismo, que jogam com os países como peças num tabuleiro de xadrez em defesa dos seus interesses particulares, nos forneça armas que coloquem o sistema em causa.

O exemplo da Islândia
A Islândia era, até há bem pouco tempo, a personificação do que alguns acreditavam ser um exemplo de como o capitalismo pode ser conciliador entre classes, entre exploradores e explorados, com o pomposo título de “Islândia iniciou o julgamento do neoliberalismo“. Nada mais falso. Nenhum neoliberalismo será julgado por leis burguesas de tribunais burgueses, que visam a manutenção do sistema em que vivemos. Agora, com o primeiro-ministro da Islândia entre os envolvidos no Panama Papers, pode ser que consigamos todos perceber que há coisas que não se reformam. São irreformáveis, são as suas contradições intrínsecas. Acreditar o contrário é esperar que exista um pote de dignidade no fim do arco-íris do capitalismo.

Nós pagamos o dinheiro desviado para as offshore
Quem paga todos estes desvios somos nós. As tremendas fugas aos impostos de milhares de milhões, com tantos zeros que nem saberia como escrevê-los, são pagas por todos nós, que temos de arcar com os défices e pactos de estabilidade e tudo e mais alguma coisa. A solução seria acabar com os offshores. Claro que isso é defendido e já foi proposto. Tanto o seu fim como a sua taxação. Só que isso implicaria uma vontade global que, lá está, não existe. Porque o capitalismo se entranhou de tal forma que já não vai lá com lavagens a frio. Tem de ser escaldado, pendurado pelos pés, batê-lo bem com uma raquete para tirar o mofo e, por fim, podemos colocá-lo no lixo sem que cause mais danos.

Que nunca se diga que o capital é ingrato

A campanha presidencial em curso tem sido muito desvalorizada, especialmente, por aqueles a quem convém que fique tudo mais ou menos na mesma. Contudo, não é apenas a campanha ou a pré-campanha, com mais exactidão, que tem sido desvalorizada. Na desvalorização mediática, Edgar Silva faz quase o pleno.

Sobre a candidatura de Edgar Silva, ao início foi a surpresa e no instante seguinte a caricatura, logo após, cai o silêncio e a omissão, a censura portanto. Entrado o tempo em que já não é mais possível esconder tanto quanto o foi Edgar Silva, vem o ataque. E a coisa foi contagiando e ficando cada vez mais serventuária e suja.

O primeiro a picar o ponto foi o Dr. Correia Guedes. Já em Dezembro ido, de forma absolutamente intempestiva decidiu despejar o seu saco de ódio ao PCP, com as mais absurdas calúnias sobre a sua direcção, sobre o seu funcionamento interno, e mergulhando até numa analise muito própria sobre o pensamento de Lenine. Tendo logo levado a devida resposta por várias vias.1 2

Decidiu voltar à carga e, de uma penada só, desqualificando todos os candidatos presidenciais, sobre Edgar Silva, o excelso analista e reputado furioso cronista descreve apenas “um antigo padre, convertido ao PC, que se atrapalha com a nova teologia”. Além da repetida metáfora, já ensaiada em Dezembro e até anteriormente, o Dr. Correia Guedes não explica, onde, como e porquê a atrapalhação de Edgar Silva. Mas pronto, siga, o que era importante era dizer qualquer coisinha, mandar a pedrada e seguir em frente.

Segunda na SIC é dia do “comentário” de Miguel Sousa Tavares. Marialva de quinta-ordem, useiro e vezeiro em décadas de “comentário” e “opinião” repletos de simplismos que oscilam entre o medíocre, o impreparado e o leviano, visionário ansioso que no longínquo Agosto de 1991 anunciava que “O PCP acabou e ainda bem”(jornal Semanário), best-seller “Escritor”(com afamada inspiração na leitura de Cette nuit la liberté para o seu Equador),conhecido apreciador da mestria bancária de Ricardo Salgado, enfim, uma figura pública com décadas de histórias, contradições e malabarismos de toda a sorte.

No seu “comentário” na SIC, apressadamente e por tal desatento logo de inicio à sua patética soberba e contradição, Sousa Tavares arranca com um “não conheço ninguém que tenha visto um debate presidencial do princípio ao fim, das pessoas normais”. Outro alinhado na narrativa dominante e promotora da desvalorização do debate, dos seus intervenientes e ideias, permitindo até ao telespectador concluir que o próprio Sousa Tavares não terá visto nenhum debate na íntegra.

Passada a gralha inicial, deixou o ataque a sério do “comentário” para o fim, quando após mais umas quantas generalizações simplistas e mistificadoras como de costume sobre todos os candidatos, disparou exclusivamente para Edgar Silva dizendo que “Edgar Silva para mim tem tido o discurso político mais pobre, mais inconsequente e às vezes até mais leviano que tenho ouvido”. E já está, missão cumprida. Que fez, que disse Edgar para merecer esta desvalorização? Não sabemos, talvez nem Sousa Tavares saiba, mas também não é para isso que o “comentário” serve.

Dia 7 a festa continua, desta vez com Francisco Louçã, agora nas vestes de comentador por aí, na SIC, no Público, na TVI às vezes e sabe-se lá mais onde. E vale sempre a pena sorrir, lembrando os tempos em que pelo exótico PSR o Professor fazia campanha pelo encerramento da televisão aos Domingos…outros tempos.

Sem estilo nem classe, com a subtileza de um bronco ao volante, Louçã escolhe um título intimista, com um tom que se perceberá hipócrita, para um texto em que começa por glorificar os resultados eleitorais do partido que ele próprio dirige de facto, utiliza um oportunista falsamente afectivo “amigo” para se balancear numa crítica sobre as temáticas do Orçamento Rectificativo e claro, como sempre e para sempre a inevitável e previsível Coreia do Norte, onde, sabe Louçã que “deflagrou uma bomba nuclear”. Pelo meio mais umas tretas e conversa-fiada sobre o passado do PCP para poder contra-atacar com referências a processos eleitorais anteriores (que ele considera negativos, omitindo factos, descontextualizando e simplificando tudo). Truques costumeiros de quem toma o leitor por parvo, que começando o texto dizendo-se “amigo” de Edgar Silva termina com a acusação de “não diz o que pensa”.


É por coisas destas que convites para orador e escriba de Bilderberg e Belmiro não faltarão a Louçã. Que nunca se acuse o capital de ingratidão.

Este aqui titula o seu canto no jornal Expresso por “chamem-me o que quiserem”, e quase tudo fica dito com esta rendição anunciada e incondicional. Como não consegui ler a sua prosa até ao fim (ainda queriam que pagasse!), não há muito a dizer, o objectivo da coisa que se presume soberba está anunciado no seu título, a criatura diz que já tinha visto o Sousa Tavares dizer o mesmo (e quis ajudar, entrar na onda, presume-se) e compara Edgar Silva a “Tino de Rans”. Henrique Monteiro não é mais nem melhor que isto, um subproduto do capitalismo no “jornalismo”, afundado no seu amor ao (des)governo anterior PSDCDS de quem era admirador despudorado e servente, fruta da época dos androjosos tempos que se vivem na comunicação social dominada pelo capital, um humilde servo. Ele sabe, nós sabemos, não há vergonha nem pudor, é um serviço apenas, presumivelmente bem pago, “chamem-me o que quiserem” diz o moribundo.

Nestes tempos, além do desastre (anunciado) em que se transformou a qualidade da informação e da opinião na comunicação social dominante (e dominada), pela breve amostra, fica claro a concertação objectiva por parte do capital em procurar apoucar a candidatura de Edgar Silva. Do outro lado, estamos nós.