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Fascistas, filhos da…

Da imprensa, filhos da imprensa. Que é como quem diz filhos do ventre podre do capitalismo que sempre os pare e os amamenta com o leite azedo do ódio em momentos de crise e falta de capacidade do próprio sistema económico. Incapaz de produzir as condições económicas para a satisfação das necessidades dos trabalhadores, confrontado com o crescente descrédito e descontentamento, por vezes falham os seus mecanismos de controlo ideológico de massas.

A educação viciada, a informação manipulada, o entretenimento degradante como cultura dominante, os presidentes palhaços, as falsas soluções reformistas, esbarram no limite imposto pelas condições materiais de vida dos trabalhadores. A história do capitalismo é a história do desenvolvimento dos meios de produção acompanhada pela concentração da riqueza. O empobrecimento relativo redunda, inevitavelmente, no empobrecimento absoluto. Portugal e muitos outros países ditos “democráticos”, “ocidentais” ou “desenvolvidos” são um exemplo claro disso. Apesar de períodos de empobrecimento apenas relativo (aumento do fosso entre os mais pobres – que melhoram muito ligeira e gradualmente as suas condições de vida – e os mais ricos – que melhoram rápida e drasticamente as suas obscenas fortunas), o regime de acumulação capitalista acaba por impor aos trabalhadores o empobrecimento absoluto (perda de condições materiais), enquanto acentua o enriquecimento de uma minúscula elite.

Essa elite, contudo, domina os meios de comunicação social, a produção de conteúdos, o próprio Estado e os seus instrumentos. Ao ver-se incapaz de manter o contentamento nas massas trabalhadoras e nas camadas mais empobrecidas da pequena-burguesia, essa elite aposta no plano B: o da violência como forma de manutenção da sua ordem.

A conversão da social-democracia em fascismo é um processo, gradual, mas também com saltos qualitativos. Não é possível, porque existe uma realidade concreta de luta e de unidade entre os trabalhadores, impor a ditadura fascista de um momento para o outro. Mas é possível criar o caldo de cultura que se torna permissivo ou até fértil para o surgimento e ascensão do fascismo.

A aposta na criminalização da política, no descrédito das instituições democráticas – com o apoio dos seus próprios protagonistas -;

a aposta no sentimento de insegurança das populações – com jornais e canais de televisão concentrados explicitamente na divulgação do crime e na sua exaltação -;

a hostilização constante do movimento sindical e da luta dos trabalhadores, aliada ao silenciamento de importantes lutas, particularmente as de massas;

a substituição dos segmentos de notícias pelos de opinião, com opinadores escolhidos a dedo e que cacarejam as mesmas estafadas teses e ideias, um após outro após outro;

a contaminação de notícias com a falsificação, ou mesmo a invenção de notícias com vista a criar um determinado sentido de opinião pública;

o alinhamento total com os ditadores de extrema-direita e a promoção das suas opções políticas, apesar de um cínico desalinhamento com os comportamentos das personagens – como bem vemos no Brasil, nos Estados Unidos da América e até com as Filipinas, em que a boçalidade das figuras é criticada apenas como camuflagem mediática, enquanto que simultaneamente todas as suas opções são defendidas, como se os problemas desses tiranos fosse a forma e não o conteúdo;

a alimentação sistemática de abordagens racistas, por um lado, ou desacreditadoras das polícias e dos tribunais, por outro, assim criando a sensação de revolta contra as minorias que surgem como protegidas perante as polícias, quando a verdade demonstra que nem os polícias são intrinsecamente racistas, nem as minorias são intrinsecamente criminosas, mas iludindo a acção do sistema capitalista que, de facto, cria uma estrutura de poder racista e classista (independentemente das orientações dos seus agentes de campo) e económica e culturalmente segregadora perante os pobres e as minorias.

a atenção desproporcionada às aspirações da pequena-burguesia que se vê como progressista, mas que defende o entorpecimento das massas, a escravização das mulheres pelo proxenetismo, e que desvia lutas profundamente justas para movimentos inócuos e desligados da questão fundamental, que é política e de classe;

a busca incansável pelo ódio à representatividade popular – já debilitada e enviesada – com a promoção do fim da democracia como fonte de corrupção;

entre muitos outros mecanismos.

E não nos referimos aqui à vara que grunhe nos jornais assumidamente alt-right ou assumidos agentes mediáticos do neo-liberalismo mas fascizante e que visam pouco mais do que manter contente aquela fatia de fiéis seguidores que se vem de cada vez que um lemos esteves qualquer vomita o seu anticomunismo mais simplório.

Referimo-nos aos grandes jornais, ditos independentes, aos grandes canais de televisão ditos sérios, incluindo os públicos que, sendo ninho para sabujos e serventuários dos grandes grupos económicos, se dedicam afoitamente a mentir, deturpar, manipular e ocultar.

São os comentários aparentemente inocentes de pivots de telejornal, é a linguagem cunhada de ideologia em todas as colunas de jornal, é a competição constante entre quem consegue criar o mais degradante concurso de televisão, são as notícias que pintam terroristas como rebeldes libertadores e os trabalhadores que lutam como potenciais terroristas, são as notícias que criam personalidades onde antes não havia sequer um tumbleweed, são as promoções de visões dogmáticas e idealistas dos vários aspectos da vida, que retiram da esfera da reflexão e da ciência a opinião das massas e a colocam na esfera da crença, irracional e religiosa.

A comunicação social portuguesa, com a grande ajuda dos sucessivos governos PS, PSD e CDS, está a fazer o frete ao grande capital: cria o caldo de cultura que está apto a receber as sementes do fascismo e o desprezo pela democracia – ao invés de entender a insuficiência do regime “democrático” e a necessidade de o aprofundar, uma parte da população compreensivelmente desiludida é conduzida para abominar a pouca democracia que tem, guiada pelos pseudo-ideólogos da comunicação social e da academia. O caldo de cultura está a consolidar-se e só encontra travão na luta organizada dos trabalhadores e dos revolucionários.

Dirão que também os movimentos chamados identitários fazem esse trabalho. Direi que, acaso como já sucede em alguns casos, sejam desligados da luta mais vasta pela superação do capitalismo e pela organização férrea do proletariado, tornam-se enfeites, divisões, e até reaccionários. As lutas pelos justos motivos sexuais, emancipatórios, raciais, ambientais, e outros, se não for afluente do rio caudaloso da luta operária, torna-se numa barragem, numa drenagem desse grande rio pelo simples facto de alimentarem a ilusão de que o capitalismo precisa de ajustes e não de destruição. No momento da ascensão de uma força fascista apoiada pelo grande capital, tais movimentos sucumbirão se não forem parte da luta pelo fim do capitalismo, engolidos pela repressão da ditadura violenta dos monopólios.

A comunicação social está a fazer esse trabalho de sapa dos grupos monopolistas: cria primeiro o grande reservatório de massas tolerantes ao fascismo e mais tarde fará surgir a força política que os representa. Os portugueses têm resistido e, mesmo neste contexto adverso, têm derrotado os ensaios da comunicação social e desprezado os venturas e outros palhacitos que se acham capazes de ser homens fortes da demagogia fascista quando mais não são que fracos oportunistas. Essa realidade, como todas, não é estática. Os primeiros a serem abatidos e perseguidos quando uma força fascista se posiciona no poder, são os comunistas. Por maioria de razão, esses são os primeiros e os últimos a fazer-lhe frente. Mas nunca sozinhos.

PCP, depósito moral da política portuguesa

Um comunista, ao contrário de um membro do PS, do PSD ou do CDS-PP, vive sob um código moral que não precisa de ser escrito nem dito, mas que todos esperam que cumpra. Um comunista não lixa o colega de trabalho, sente, por instinto, repulsa pelo luxo e faz da humildade uma bandeira verdadeira. De um comunista até os membros de outros partidos todos esperam generosidade, seriedade e verdade. Se alguém do PS se cruza com uma injustiça e vira a cara para não ver, está no seu direito, não era nada com ele. Se um comunista fizesse o mesmo, alguém no café diria «é muito comunista, é muito comunista, mas pode ver um gajo na merda e está-se a cagar». E diria bem. Porque ser comunista não é só ser membro de um partido e lutar por um mundo novo: é aceitar voluntariamente o dever formidável de ser o exemplo vivo, militante, pessoal, diário e tangível da superioridade desse ideal. É por isso que já ninguém se surpreende quando um ministro do PS vai trabalhar para uma empresa que privatizou mas nos chocaríamos se um militante comunista exigisse ser tratado por «doutor». Os comunistas julgam-se por critérios superiores.

A superioridade moral dos comunistas não tem qualquer segredo nem os militantes do PCP são seres humanos diferentes dos outros. Mas num país em que todos os partidos abdicaram da ideologia (pelo menos abertamente), só o PCP defende um ideal nomeável com que se possa confrontar os seus militantes. Ninguém, em nenhuma circunstância, ao balcão de nenhum café, diria algo semelhante a «Já viste? Esse gajo, tanta conversa sobre a social-democracia… Transferiu a massa toda para um offshore nas Bahamas!» ou «Que vergonha! Uma gaja que se diz neo-liberal e tem os trabalhadores com salários em atraso!». Já os comunistas têm um ideal que até a direita associa a princípios elementares de justiça.

É por esta razão que, não sendo diferentes dos outros seres humanos, é tão raro, e por isso surpreendente, conhecer militantes comunistas mentirosos, sobranceiros, corruptos, carreiristas ou oportunistas. No PCP não há empregos, confortáveis tachos nem altos voos políticos: só há trabalho militante e sacrifícios pessoais que, tão grandes que são, só os suporta quem lhes ama a razão e os consegue fazer com um sorriso. Sem esperar nada em troca, a não ser a alegria cheia de nos sabermos parte da luta pelo que é justo.

Miguel Urbano Rodrigues, o que a terra lhe deve

Miguel Urbano Rodrigues morreu hoje, aos 92 anos. Há poucos meses, o revolucionário que entregou toda a vida à causa da libertação dos deserdados do mundo, escrevia em O Diário:

«Recordo que em São Paulo, ao tomar o avião para Lisboa em 2015, disse à minha companheira: esta será a minha última travessia do Atlântico, o oceano que cruzara dezenas de vezes. Era uma decisão e uma certeza.

Há dias, ao dizer adeus a Paris, estava consciente de que não voltaria ali. Desta vez a certeza de que aquela fora a última viagem a França nascia da consciência de um envelhecimento galopante que inviabiliza deslocações ao estrangeiro.

Foram múltiplas, entrelaçadas e com frequência nebulosas as minhas meditações neste fim de ano em Paris.

Recordei a primeira visita há 66 anos, um reencontro com o imaginado através da história e da literatura. Ao descer do avião conheci uma jovem funcionária do turismo francês que me impressionou pela beleza: a minha futura mulher, mãe dos meus três filhos.

Viajamos juntos pelas praias da Normandia; ao largo avistavam-se ainda, encalhadas, as carcaças dos navios britânicos e americanos destruídos durante o desembarque de junho de 1944. (…)

Paris confrontou-me comigo nestes dias. Eu também não me reencontro no homem que visitou a cidade dezenas de vezes.Apoiado numa bengala, seria hoje incapaz, sem a minha companheira, de me movimentar na rede do metro que antes me era familiar, de caminhar sozinho pelos grandes boulevards, de me orientar num trânsito febricitante. A surdez agrava-se progressivamente; a visão enfraquece,a memória cai a cada dia.

Atravessei a ponte para o Novo Ano em reencontro com a minha filha e netos, mas marcado pela certeza da aceleração do envelhecimento.

Saí de Paris uma única vez para rever em Versailles Jean Salem e Marie Pierre, a companheira que o tornou feliz. O filho de Henri Alleg, eminente filósofo marxista, é hoje o mais íntimo dos amigos que me estimam no vasto mundo que percorri. Nevava nesse dia e, ao atravessar os subúrbios brancos no RER, senti com força a dor e a consciência do fim da vida útil.»

Talvez sejam os limites biológicos da nossa condição de homens e mulheres. Ou talvez seja só a simplicidade desassombrada com que olhava a morte. O que é certo é que o Miguel se esquecera de um pormenor importante.

O Che Guevara, que o Miguel conheceu, dizia que «onde quer que a morte nos surpreenda, será bem recebida, desde que o nosso grito de guerra seja escutado». O grito de guerra do Miguel ecoa hoje nos cinco continentes, não mais com a sua voz gentil, mas com milhões de vozes de indígenas, jovens, mulheres, trabalhadores, desempregados, comunistas, revolucionários, portugueses, cubanos, colombianos, galegos, franceses, brasileiros e de tantas mais nações quantas forem as razões para lutar.

Por isso, que fique assente, Miguel: o teu grito foi escutado. Morreste, nas tuas palavras, como o «macedónio Alexandre, que morreu jovem sem conhecer uma só derrota»: as tuas ideias têm a juventude de todos os jovens que nelas encontram justiça. Morreste sem que nem o reformismo, nem a fama, nem a ambição, nem o dinheiro, nem a desesperança, nem o medo te conseguissem derrotar. Como te agradecer isto?

Eu, que só te conheci superficialmente, leio-te há muitos anos e, muitos anos depois da tua morte física, vou continuar a ler-te, a estudar-te, a concordar e a discordar de ti, mas, sempre, a admirar-te. E como eu, a juventude do mundo continuará a ler-te e a contigo desbravar selvas ao lado das guerrilhas dos pobres levantados em armas. Contigo continuaremos a percorrer os túmulos escuros das antigas civilizações esquecidas. Contigo continuaremos a resistir, por muito que nos doa, como os comunistas dignos desse título.

Colosso intelectual, Miguel Urbano Rodrigues foi um dos mais importantes pensadores e jornalistas portugueses: das quase duas dezenas de livros que deu à estampa, sobressai uma cultura enciclopédica, uma compreensão cristalina dos caminhos da história humana e, sempre, um compromisso com a classe trabalhadora, com a justiça, com a revolução social.

Ao longo da sua vida longa, viajada e cheia, nas redacções do Diário de Notícias, da brasileira Visão, do Diário Ilustrado, do Avante! ou de O Diário, nos parlamentos de Portugal ou da Europa, nas mil e uma aventuras que nos deixou escritas, o Miguel viveu como um exemplo: honesto, transparente, generoso, trabalhador, amigo. E, mais que tudo, Miguel Urbano morreu comunista, fiel ao seu partido de sempre, o Partido Comunista Português. Leu e escreveu, literalmente, até ao fim.

No Alentejo do Miguel, canta-se: «Eu sou devedor à Terra / A Terra me está devendo / A Terra paga-me em vida / Eu pago à Terra em morrendo». É assim com uma parte maior das mulheres e dos homens, mas não com o Miguel. Tudo o que o Miguel devia à Terra, pagou-o em vida. Saibamos devolver-lhe o favor, lutando, com ele e como ele, até ao fim.

Somos todos …

A frase, sem dúvida bela, do sub-comandante Marcos – pesem as dúvidas sobre a personagem e quem é e o que foi – que se espalhou por tantos cantos do mundo, tem tido hoje um novo fulgor.

“Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, roqueiro na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México. Enfim, Marcos é um ser humano qualquer nesse mundo. Marcos é todas as minorias não toleradas, oprimidas, que resistem, exploradas, dizendo Já Basta! Todas as minorias na hora de falarem e as maiorias na hora de se calarem e aguentarem. Todos os não tolerados buscando uma palavra, sua palavra. Tudo que incomoda o poder e as boas consciências, este é Marcos.”
Hoje, a frase do sub-comandante está nas páginas sociais de muita gente e a sua forma afirmativa de dizer que está na pele dos oprimidos tornou-se moda de tal forma que quem não for Charlie, ou quem não for Grego, ou quem não foi alguma coisa, merece reprovação imediata. Na verdade, Marcos falou figurativamente. Claro. Tal como todos os que são Charlie, e os “somos todos Gregos” e os “somos todos Palestianos” ou o que quer que sejam. Figurativamente. O tom lírico faz parte do romantismo revolucionário, apesar da assustadora realidade que nos convoca para uma abordagem o mais realista possível.

O lirismo é um recurso que uso e alimento. Mas o lirismo não pode ser a capa sob a qual escondemos o nosso comodismo, a nossa conformidade. Quem dá a vida pela revolução, quem se confronta com a morte (como não sei se Marcos alguma vez fez), tem certamente uma margem de tolerância para o uso das figuras de estilo muito além da minha. Eu não sou Marcos, não sou Charlie, não sou Grego, nem sou nenhuma das vítimas mortais das guerras, nem sou um operário desempregado, nem um professor mal-pago, nem um enfermeiro emigrado, nem um doutorado atrás de uma caixa de supermercado, nem sou um manifestante espancado ou um grevista ameaçado. Não sou um estudante sem dinheiro para propinas, nem um velho a morrer às portas das urgências dos hospitais. Não sou um artista que mendiga para comer, nem um homossexual a querer adoptar um filho. Não sou uma mãe solteira nem uma criança que ficou sem abono de família. Eu não perdi o rendimento social de inserção, nem sou vítima de violência doméstica. Não sou sequer um trabalhador explorado no momento em que escrevo.

A hipocrisia de querer ser tudo deixa-nos, por vezes, apenas o papel de não sermos nada. Ou de sermos pouco. Ou de sermos menos do que podemos ser. Porque juntos somos uma massa de seres humanos, todos diferentes, de condições diferentes, num sistema que nos separa pelo individualismo ao mesmo tempo que nos une pela exploração. O mesmo sistema, a mesma organização social que nos divide para nos enfraquecer, está a educar-nos para a revolta inexorável.

Eu não sou tudo e mais alguma coisa. Mas sou comunista. Integro a luta, como posso, como sou e não como Charlie, nem como Grego, nem como espécie ameaçada de extinção. Os meus princípios e o meu comportamento não são, apesar de poderem ser ampliados por essa forma, metáforas. A nossa luta, a dos revolucionários, a dos comunistas, não é uma metáfora, nem uma fotografia de perfil no facebook. A nossa luta, a dos revolucionários e comunistas não é um acto simbólico, é uma marcha diária, plena de derrotas e desânimos, como assinalada pelas maiores vitórias e conquistas que a Humanidade já construiu. É por isso que os comunistas não são toda a gente ao mesmo tempo, mas são gente que luta pela Humanidade a todo o tempo. A Humanidade será vitoriosa sobre o seu passado, como até aqui tem sido.

Ser Charlie na redacção, ou ser indígena em Chiapas, gay em S. Francisco ou trabalhador explorado ou desempregado em Portugal não me habilita mais a ser consciente sobre o que me rodeia. Ter consciência do que sou e de que é aqui, no meu espaço, no meu país, que mais posso contribuir para a libertação de todos em qualquer parte do mundo, não é tão lírico, nem tão cómodo. Porque ser tudo em toda a parte não me daria tempo para ser coisa em alguma em espaço nenhum. Aqui, onde estou, comunista, é onde a luta diária me chama e convoca. É aqui e é hoje que damos o testemunho do que somos, por que lutamos, o que fazemos por um mundo melhor. É aqui e é hoje que nas acções, sem ser outra pessoa, nos libertamos daquilo que nos prende a todos.

E aquilo que nos prende a todos é o domínio de uma classe sobre outra. Se a inversão desse domínio ou até mesmo a sua extinção terminariam todas as injustiças? Talvez não. Mas será certamente o passo fundamental para que as possamos eliminar. Quando eu me sentir compelido a ser um cartoonista assassinado que não sou, posso sempre usar essa força para que ninguém seja. Se eu for o que não sou, luto onde não estou?

Porque, apesar de tudo, eu não sou. Nem tenho de ser. Tal como ante o assassinato de 38 sindicalistas ucranianos não fomos todos sindicalistas, nem ante o massacre de mais de 2 milhões de comunistas na Indonésia fomos todos comunistas.

Ainda bem que Marcos não disse: sou um czar na Revolução de Outubro, mas aquela frase dava para tudo.