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«A Cova da Moura é uma prisão de grades invisíveis»

No dia 5 de fevereiro de 2015, vários jovens, reconhecidos mediadores deste bairro da Amadora, membros da associação Moinho da Juventude, dirigiram-se à esquadra da PSP para saber da situação de Bruno Lopes, detido nessa tarde. Entre eles estava Flávio Almada, conhecido como ‘LBC’. Foram algemados, espancados e detidos. “Não sabem como odeio a vossa raça. Quero exterminar-vos a todos desta terra”, disse-lhes um dos agentes. É o que consta da acusação do Ministério Público contra 18 polícias que já foram afastados daquela divisão e que estão no banco dos réus acusados dos crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física qualificada, agravados pelo ódio e discriminação racial.

Qual é o seu trabalho no bairro?

Eu trabalho com jovens, dou apoio escolar e tenho algumas responsabilidade em diferentes frentes a nível institucional no Moinho da Juventude de cuja direção também faço parte.

Nasceu e cresceu em Cabo Verde. Em que medida isso influenciou o seu compromisso social e político?

Eu cresci na periferia da Cidade da Praia. Vivi em vários bairros: Eugénio Lima, Calabaceira e Safende. Era muito parecido com a Cova da Moura e até ganhou a alcunha de Chechenia. Havia gente também da Nigéria, do Gana e do Senegal. Bebi todas essas influências. E havia o marido da minha tia que me dava livros sobre o capitalismo. Na escola, éramos muito contestatários. Fiquei lá até aos 18 anos.

Como foi chegar a Portugal?

Eu vim para estudar sociologia na Universidade da Beira Interior mas não fiquei muito tempo por várias razões de ordem material. Então, vim para a Cova da Moura onde estava a minha mãe.

É a partir daí que começa a inserir-se no movimento social do bairro e a ganhar mais consciência?

Quando comecei a trabalhar na construção civil, aprendi bastante porque estava sempre a ouvir histórias. Foi um choque ver como a exploração era tão profunda. A emigração cabo-verdiana pintava a coisa de forma diferente. Eu trabalhava ali com pessoal mais velho que tinha trabalhado na J. Pimenta. e contavam-me histórias de luta. Era gente sem contrato. Falavam-me de várias situações. Sobre como os patrões fugiam no final do mês e ninguém recebia. Falavam-me de como tentavam fazer alguma coisa para melhorar a sua situação e a dos bairros. Isso para mim foi muito importante e acabou por me influenciar. Há edifícios que nós construímos, por exemplo, alguns hospitais, que eram privados, e quando ficamos doentes não podemos ir lá porque não temos dinheiro. É um paradoxo. As pessoas que construíram aquilo não podem lá entrar.

Isso acontece também com quem limpa escritórios e com quem cozinha em restaurantes.

Sim, lembro-me de uma senhora que limpava numa universidade. Ela limpava gabinetes e dizia que quando as pessoas entravam não a reconheciam. Era como se ela não existisse. O africano foi transformado num corpo que deve ser explorado através de um processo muito violento. O corpo negro e o escravo são a mesma coisa. E não é só na sociedade portuguesa mas também a nível mundial.

Isso explica a forma como a polícia se comporta convosco na Cova da Moura?
Eu acho que faz parte de uma lógica que é intrínseca à forma como a sociedade está organizada. Há uma excecionalidade. A forma como a polícia atua sobre pessoas que têm determinado corpo, isso faz parte de uma lógica. Por exemplo, a Cova, e os bairros em geral, são zonas de exceção. A polícia é só a face visível. Mas depois somos também os últimos a conseguir emprego e os piores empregos. E os primeiros a ser despedidos, claro. Depois há a forma como se ensina. Os materiais escolares refletem o ensino, o projeto político que se quer para a sociedade que não nos beneficia como não beneficia todos os outros que são explorados. O Estado não é neutro. Responde aos interesses de uma elite.

E a polícia responde a essa elite?

Sim, quem é que a polícia defende? No caso dos Estados Unidos ou do Brasil, a polícia nasceu para capturar escravos. Ou estás no gueto ou estás na prisão. E o gueto é uma prisão de grades invisíveis, com checkpoints.

Vocês têm regularmente cercos policiais?

Sim, mas agora diminuiu um pouco com o nosso caso mas lembro-me de um episódio para ver como as coisas estão relacionadas com o que se passa no resto do mundo e que demonstra também por que devemos estar solidários com todos os que resistem à opressão. Aquele miúdo que morreu há pouco tempo, que era rapper, o Puto G [faleceu afogado em junho no Luxemburgo], foi à Palestina e passou por um checkpoint. Quando alguém que ia com ele lhe perguntou a sensação, respondeu-lhe que era familiar. “É como no bairro”. São realidades extremamente diferentes mas ele ganhou mais consciência sobre a opressão que vivia na Cova da Moura.

O que significa viver num território de exceção?

Há que convencer a sociedade portuguesa de que há uma ameaça e quando se faz essa construção da narrativa para convencer a restante parte da sociedade portuguesa – porque nós também fazemos parte dessa sociedade – automaticamente é um apelo de que este sítio deve ser pacificado, que este sítio deve ser acantonado, que este sítio deve ser escrutinado, que nós representamos o elemento corrosivo da sociedade. E a sociedade reage e diz que nós devemos ser punidos. Devemos ser cercados. O medo que nos é lançado é também o medo que permite a elite estar no poder através da forma como as pessoas estão assustadas. Vivendo no bairro, naquilo a que se chama gueto, consegues ver o paralelismo com o que os imperialistas fazem porque ao assassinar a imagem de determinado espaço, cria-se a necessidade de que esse espaço seja invadido como o que aconteceu na Líbia ou na Síria. Isto numa lógica de pacificação e de civilização sobre alguém que eles disseram que é o outro, mas que até faz parte deles, criando uma fronteira artificial entre as pessoas.

Viver na cova da moura é como viver num apartheid?

Não é uma metáfora. Quando a polícia cerca o bairro, que é a face mais visível desse apartheid, cria-se a sensação de que tu não pertences à restante sociedade. Cria-se uma fronteira visível. Estás na estação da Damaia e consegues ver que não consegues entrar no bairro. Se um branco tentar penetrar neste espaço vão dizer que vem para comprar droga. Isso criou um problema porque essa espécie de apartheid se manifesta de várias formas. Se uma pessoa vai à procura de emprego tem receio de pôr o endereço no curriculum. Os taxistas recusam-se a transportar gente para cá. Se um jovem for abordado em Lisboa e lhe perguntarem a morada vai dizer que mora na Buraca e eu percebo porquê. Porque quando aparece o nome da Cova da Moura são automaticamente mobilizados uma série de referências e estereótipos que fazem dessa pessoa uma criminosa. A criminalização do bairro tem também um propósito imobiliário e um propósito político para criar clivagens sociais e abrir caminho a políticas securitárias, xenófobas, anti-imigração, restrição de direitos. Até para alimentar uma indústria de vigilância. Nada disto é acidental. Faz parte de uma lógica estrutural que teve como consequência a morte de vários jovens nos bairros da Amadora. O ‘Teti’ foi levado para dentro da esquadra, foi torturado e morreu no hospital [em 2004]. A polícia foi absolvida e isso significa que os tribunais validaram a morte dele. Como se não fosse uma perda, como se não significasse nada. Há uma cultura de impunidade. Ao ‘Kuku’ deram-lhe um tiro na cabeça a uma distância de 20 cm quando tinha 14 anos [em 2009].

É possível haver uma mudança com a mediatização do vosso caso?

Eu tenho a obrigação de tentar ser racional. A partir dos elementos que tenho, partindo da nossa história, não tenho grandes expetativas. Eu vou como [Amílcar] Cabral. Espero o melhor mas vou preparado para o pior. Nós não estamos só a lutar contra esses 18 agentes que estão no banco dos réus. Eles fazem parte do Estado que é uma estrutura que durante muito tempo legitimou essa prática de violência.

É uma luta contra a história?

Sim e eu não sei se vai haver uma viragem. Claro que o pessoal tem esperança que se faça justiça, que o terrorismo dos fardados acabe e possa ser a primeira vez que vejam algo que devolva à população a crença nesta justiça.

Neste julgamento estiveste cara a cara com os agentes?

Não, não estive, mas mesmo que estivessem lá eu ia ser honesto da mesma forma. No julgamento, chegou uma fase em que eu comecei a chorar e não tenho vergonha disso porque somos educados para reprimir aquilo que sentimos e não foi um sinal de fraqueza. Foi basicamente naturalizar a minha humanidade. Eu não sou obrigado a reprimir quando estou a sentir dor só para dizer que eu não sinto dor. E não foi porque me torturaram. Foram lágrimas de indignação pelo que fizeram a uma pessoa com mobilidade reduzida [Rui Moniz, um dos agredidos, que teve um AVC aos nove anos e tem o braço paralisado]. Isso é crueldade e ainda por cima eles tiveram prazer em fazê-lo. É cobardia. Foi isso que me indignou. Não é que tivesse pensado em desistir. Na minha cabeça, desistir não faz parte do meu vocabulário. Eu estou todos os dias aqui no Moinho da Juventude a fazer o meu trabalho com a comunidade. Decidi não aceitar validar o sistema que nos oprime. Eles escolheram torturar-nos e nós escolhemos resistir.

Entrevista publicada originalmente em A Voz do Operário. Fotografia de Buala.

O medo não passará


O nazi Mário Machado, acabado de sair da prisão por discriminação racial, coacção agravada, danos e ofensa à integridade física qualificada, difamação, ameaça e coacção a uma procuradora da República e posse ilegal de arma de fogo, acaba de acusar um dos activistas da Cova da Moura de ser criminoso. A organização fascista Nova Ordem Social com membros acusados de tráfico de droga e participação em homicídios como o do Alcindo Monteiro publicou fotografias de Jakilson Pereira e pormenores da sua vida pessoal expondo-o como eventual alvo da violência da extrema-direita e da polícia. O seu trabalho na Cova da Moura no Moinho da Juventude, a sua actividade enquanto activista anti-racista, o seu papel como rapper no combate à exclusão e a sua militância comunista não são crime. Criminosos são aqueles que querem impor em Portugal um regime que foi derrotado pelos povos através da revolução de Abril e das lutas de libertação nacional nas ex-colónias.

O populismo racista tem proliferado a propósito da acusação sobre a totalidade dos agentes da polícia na esquadra de Alfragide que durante anos têm espalhado o terror entre os habitantes da Cova da Moura e outros bairros. O substrato mediático que alimenta este surto – como a boçalidade fascista do candidato o PSD a Loures – é o que possibilita que se possa impunemente e sem qualquer pudor publicar os dados de uma pessoa sem reflectir sobre as consequências que isso possa ter para a sua vida. O propósito é espalhar o medo. Recordemos uma vez mais que a Constituição da República Portuguesa não permite a existência de organizações que perfilhem ideais racistas e fascistas.

Sem justiça não há paz

“Simply because we were licked a hundred years before we started is no reason for us not to try to win.” [Simplesmente porque fomos derrotados cem anos antes de começar não é motivo para não tentar vencer.]A citação é óbvia. Atticus Finch é a razão pela qual muitos americanos proclamam a opção pela advocacia. Compreensivelmente, diria. Os crimes raciais são mais do que muitos e há uma altura que a impotência perante os vários sistemas inflige a necessidade de agir dentro desses sistemas. O assunto da semana levou-me a pensar cuidadosamente se deveria escrever algumas palavras sobre ele. Naturalmente, sobre a decisão, nada direi, aguardando cuidadosamente o rumo que tomará em tribunal. Em todo o caso, sendo esta a minha casa, não posso deixar de escrever algumas coisas que desde o início do processo me incomodaram e só agora emergiram.

A 5 de Fevereiro de 2015 a comunicação social foi chamada à esquadra de Alfragide e noticiou uma tentativa de invasão por jovens da Cova da Moura. A narrativa pegou e foi corroborada pelos agentes. Não obstante estarem 6 pessoas desfiguradas, com sinais físicos visíveis de agressão, rapidamente uma maioria se apressou a justificar tal estado com um «alguma coisa fizeram». Até os técnicos que os acudiram na esquadra tomaram por boa a versão policial da «queda acidental»: 6 pessoas, com hematomas, sangue, dentes partidos, ferimentos de bagos de borracha – «queda acidental». (vamos começar a contar os protagonistas – PSP, CMTv, INEM, bombeiros)

Multiplicaram-se os comentários generalizados: devem ir para a terra deles, criminosos, bandidos, ladrões, pretos de merda, vivem à custa do estado. Protagonistas? Qualquer pessoa com acesso à internet para escrever nas caixas de comentários. E não foram poucos.


No decurso dessa semana, muitas associações se solidarizaram, uniram esforços, organizaram uma manifestação contra a violência policial e a violência racista. Pretos e brancos, em voz una, contra uma história que se repete demasiadas vezes. Podíamos ler num dos cartazes «não quero ter medo da polícia». Não houve nenhum cartaz de ódio, de ataque, de generalização. Um protesto em frente à Assembleia da República, uma exigência clara de tomada de medidas para que estas situações não se repitam. Um silêncio aterrorizante do Governo, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, da generalidade dos partidos com assento parlamentar, do Provedor de Justiça. A Direcção Nacional da PSP rapidamente, como sempre, não deu margem para dúvidas: correu tudo dentro da normalidade. Mais uma vez, correu tudo dentro da normalidade. A Inspecção Geral da Administração Interna abriu um inquérito. O Alto Comissariado para as Migrações prometeu uma comissão e trabalho de intervenção no bairro para aproximar polícias e moradores. (continuando a contagem: CIG, partidos, Governo, ACM, DN da PSP, IGAI, Provedoria da Justiça)

No dia da manifestação uma das vítimas disse-me que eles não eram ninguém mas se naquele dia eu estivesse no meio deles e mostrasse a cédula profissional, talvez já não tivessem sido torturados. Isto não me saiu da cabeça – a minha cor e a profissão seriam o meu escudo e isso era absolutamente normal. E disse-me, uns meses mais tarde, que a polícia ia reiteradamente ao bairro, de shotgun em punho, mas que havia uma coisa que o incomodava profundamente. Faziam-no às 3 e 4 da tarde, com as crianças na rua, aos gritos e a apontar as armas a toda a gente. «Eu entendo que eles têm que ir lá e fazer o trabalho deles, mas pelo menos podiam ir à noite, quando as crianças não têm que assistir a isto». Mais uma vez fiquei a pensar nisto: a normalização da violência é tal que entrar na rua onde se mora de shotgun em punho é aceitável porque «é o trabalho deles». Evidentemente, do alto do meu privilégio, nada disto me fez sentido.

E começaram a passar-se os dias e os meses. Já ninguém falava disto. Eles, contudo, lembravam-se todos os dias. E passaram dias e horas entre esquadras e tribunais. A prestar declarações, a fazer exames. A dizer aos seus patrões que tinham que ir à polícia e a por o seu emprego em risco. Com a qualidade processual de arguidos, a terem que dizer a todo o momento se iriam afastar-se da sua residência mais do que 5 dias, um deles com apresentações regulares e periódicas – tudo para que não se esquecessem que estavam a ser investigados e que, aos olhos da lei e das autoridades eram suspeitos de terem cometido vários crimes. Aos olhos da sociedade… basta ler as caixas de comentários. Um dos dias deparei-me com a necessidade de ter que ir à esquadra a propósito do processo. Não tive coragem. Pensei que no momento em que dissesse o número do processo poderia eventualmente ter o mesmo destino. Eu, que não passei nunca por nada daquilo. Eu que não moro no bairro. Não fui capaz.

No decurso destes dois anos, o ACM afirma que fez projectos de proximidade. Ninguém deu conta deles no bairro. A CIG permanece impávida perante tudo isto. A IGAI sem nunca nos ter deixado aproximar do processo está hoje sob a mira da opinião pública com os milhares de queixas. A PSP sabe que isto não pode acontecer e certamente sabe que tem que tomar medidas (e não, não são todos iguais). A PJ fez um trabalho irrepreensível. O INEM fala do dever constitucional de prestar auxílio quando confrontado com o facto de ter escrito «queda acidental». O Governo permanece em silêncio sendo certo que este assunto não se resume à decisão judicial, é bem maior e exige medidas executivas. A TVI e a CMTv demonizam os habitantes da Cova da Moura. Nós? Debatemos. Finalmente, debatemos diariamente o racismo.

Mas passaram dois anos. Se o despacho não tivesse esta dimensão teria sido uma «queda acidental». A IGAI não seria beliscada e os polícias permaneceriam na mesma esquadra, onde, aliás, estiveram nestes dois anos. Teria existido uma tentativa de invasão. Alguns jornais e televisões permaneceriam na difusão de estereótipos e preconceitos sem pejo nem agravo. E isto deve preocupar-nos. O Ministério Público não deixou passar. Desta vez. Mas todas as outras vezes que deixa? Todas as outras pessoas que não conseguem pagar e enfrentar os processos judiciais (que este só foi possível dada a solidariedade dos muitos que se juntaram)? Todas as agressões e abusos que se vão passando longe dos jornais mas presentes no quotidiano?

Bombeiros, INEM, IGAI, PSP, CIG, ACM, Provedoria de Justiça, comunicação social (CMTV e agora TVI), Governo – todos falharam, todos viraram as costas. Todos. A sociedade falhou. O Estado falhou. E não é porque todos falharam que vamos deixar de dizer a verdade e de tentar vencer. Mas a que custo?

Sem justiça não há paz.

Violência policial na Cova da Moura: não esquecemos nem perdoamos

«A primeira coisa que me vem à cabeça é a negação da humanidade aos africanos. Para aqueles agentes fardados nós não éramos pessoas.»

5 de Fevereiro de 2015, jovens são brutalmente torturados numa esquadra em Alfragide.

Às vezes o telefone tocava a meio da noite e a minha primeira expressão não era a de preocupação com algum acidente ou algum problema de saúde. A primeira ideia era «alguém foi preso, aconteceu alguma coisa». A tensão social e particularmente a atitude musculada da polícia, tornava estes telefonemas frequentes. Noites à procura de pessoas detidas sem se perceber bem onde, violação de todas as regras e leis – impedindo contacto com advogados ou pessoas de confiança – detenções para identificação sem sequer permitir a identificação testemunhal no local, práticas que se tornaram normais e curriqueiras e que nenhum juiz ousou condenar quando as pessoas, justamente, se queixaram. «Práticas normais», dizem. Como se fosse normal ser encostado a uma parede porque se é preto e levado para uma esquadra, como se fosse normal ser-se identificado pela polícia porque se participa numa manifestação que exige aumentos salariais, como se fosse normal ser detido porque se conhece a lei e se exige que esta seja respeitada.

No dia 5, foi diferente. Estavam pessoas a ser torturadas numa esquadra. E nem sequer interessa se fizeram alguma coisa ou não  – e não fizeram – mas aparentemente a tortura é justificável quando se trata de «criminosos» (que o são porque são pretos e vivem na Cova da Moura, nada mais interessa). Deles só se soube no dia 5, quando finalmente puderam falar com a sua família e amigos (depois de uma breve presença do advogado na esquadra). Três dias sem se saber como estavam ou o que lhes estava a acontecer.

Se eu mandasse vocês seriam todos exterminados. Não sabem o quanto eu odeio vocês, raça do caralho, pretos de merda.

“Vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados“.

 «”Esse aí é português.” E outro: “Não, ele é pretoguês”.»

“Se eu mandasse vocês seriam todos exterminados. Não sabem o quanto eu odeio vocês, raça do caralho, pretos de merda.”

Mas, “a PSP actuou como o “previsto””.

A PSP, o Governo, o ACIDI (agora ACM) – todas as instituições falharam e continuam a falhar. Os mesmíssimos agentes acusados de tortura permanecem na esquadra e patrulham o Bairro da Cova da Moura. Cruzam-se com os que os acusaram. Com o mesmo ódio com que lhes marcaram a pele, o corpo e a vida em 2015. A polícia continua a invadir o bairro, a qualquer hora, de shotgun em punho, diante de crianças, de velhos – encosta à parede. É normal para eles e é normal para quem lá vive. Já me disseram que não se importam que lá vá a polícia mas que o faça quando não há crianças na rua. Já me disseram «que pena que não tenhas estado lá, eu não sou nada mas se calhar quando vissem que és advogada seria diferente, talvez não tivessem batido».

As associações falharam, deixaram de estar, de falar sobre o assunto. Todas as personalidades que se indignaram, à data, desapareceram. O Alto Comissariado para as Migrações nunca sequer lá pôs os pés para falar com ninguém ou intervir e se disser que o fez, mente. Todos viraram as costas, fingindo que não há racismo, não há violência, não há tortura. Serão talvez os primeiros a levantar a placa anti-Trump (pese embora justa, não deixa de ser vazia) e a autoproclamar-se bastiões da igualdade. Num mundo em que um jovem deixa de sair à rua porque não quer encontrar a polícia nem que que no bairro o acusem de por o bairro em perigo porque enfrentou a polícia. Num mundo em que um corpo fica desfigurado porque foi agredido, porque foram negados cuidados médicos (constando nos relatórios dessa noite que «caíram») e a marca é permanente. Num mundo onde dizem a um semelhante que deve ser exterminado, que não é pessoa.

Os que sempre lá estiveram, continuam a estar, lado a lado, numa luta que também é sua. Eu passei a estar apenas depois desse dia. E até hoje, de cada vez que os olho nos olhos, sinto-me esmagada pela sua resistência, pela sua capacidade de olhar em frente com esperança, pelo seu amor à vida, pela forma abnegada com que resistem, todos os dias, numa vida que ninguém devia ser forçado a viver. Não nestas condições, não desta forma abjecta. Em que centenas ainda vociferam que não há lugar para «aquela gente». Que ainda bem que aquilo lhes aconteceu. E de cada vez que ouço os relatos daquela noite, pergunto-me: que humanidade é esta que violenta, agride e se sente legitimada a tal, sem que nunca nada aconteça a quem exerce este domínio sobre o outro em razão da cor da pele, do sexo, da classe? Mas os olhos deles, quando contam novamente o que aconteceu, dizem-me que não desistem e não traem. Que não descansam. E que continuam a lutar.

Rosa, Chamam-te Rosa, minha preta formosa. E na tua negrura teus dentes se mostram sorrindo. Teu corpo baloiça, caminhas dançando, Minha preta formosa, lasciva e ridente Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças Em teu corpo correndo a seiva da vida Tuas carnes gritando E teus lábios sorrindo… Mas temo tua sorte na vida que vives, Na vida que temos…Amanhã terás filhos, minha preta formosa E varizes nas pernas e dores no corpo; Minha preta formosa já não serás Rosa, Serás uma negra sem vida e sofrente Serás uma negra E eu temo a tua sorte! Minha preta formosa não temo a tua sorte, Que a vida que vives não tarda findar…Minha preta formosa, amanhã terás filhos. Mas também amanhã…… amanhã terás vida!(Amílcar Cabral)

Somos todas as Covas da Moura

Entrei no bairro pela primeira vez. Com a sensação de estar a conhecer uma realidade bem diferente de tudo o que já conheci.

Fico em frente à varanda onde Jailza foi baleada. Vejo onde as carrinhas costumam – costumam – bloquear o bairro. Ele chega e conta o que aconteceu. Onde estava, como foi agarrado e o que lhe disseram. Todo o tempo apenas sou capaz de fazer um esgar de incredulidade.

Esperamos. Chegam mais pessoas.

– Quantos anos tens?
– 18.
– E tu?
– 19.
-…
– 24.
– Então mas tens os dentes partidos?
– Sim, ele até disse que tinha que se portar bem com a namorada porque está muito feio.

A conversa decorre enquanto eles têm os olhos baixos. Ninguém poderia fazer prever o que aconteceu naquela noite. Ninguém branco.

Para eles é normal. Já sabem que porque nasceram e toda a vida viveram na Cova da Moura podem ser espancados, baleados. Já sabem que ninguém vai acreditar neles. Já sabem que vão ser insultados. É tão normal que quando contam saem expressões como «estávamos a tomar café enquanto levavam o T. e o espancavam», «as carrinhas cortam o trânsito aqui e aqui», «costumam vir por aqui», «este foi o mesmo que me tentou prender naquele dia», «no outro processo…».

De repente entendo mesmo que somos de dois mundos absolutamente diferentes. Ali, de nada me adianta dizer que as provas e a lei os protegem porque não protegem. De nada me adianta dizer que depois deste julgamento será diferente. Porque eu não sei o que é ser algemada e ser metida numa carrinha, de joelhos, enquanto o polícia pára e arranca para que eu bata com a cabeça. Eu não sei o que é ser deitada no chão com o os pés em cima do meu pescoço e sem conseguir respirar. Eu não sei o que é ser insultada por ser escumalha branca que merece ser exterminada. E de nada me adianta dizer que sei.

O que sei é que isto não pode acontecer. O que sei é que me sentei no meio de dezenas de pessoas que vivem no bairro da Cova da Moura e uma delas me ofereceu um prato de cachupa porque ainda tinha que ir para casa e assim não tinha que me preocupar. O que sei é que nenhuma destas pessoas pode continuar a viver no meio do medo e da ausência de direitos.

Depois de ouvir aqueles relatos, mais do que choque, cresceu-me a raiva nas veias de saber que há muitas mais Covas da Moura, muitas mais esquadras da Amadora, muitas mais entradas nos hospitais por «quedas» e permanecem impunes no silêncio e aceitação da sociedade.

Não que não lesse, ouvisse e visse, mas foi a primeira vez que ouvi o relato na primeira pessoa.

Amanhã, dia 12 de Fevereiro, pelas 17 horas, em frente à Assembleia da República, não serei Cova da Moura. Mas serei e sou contra a violência policial, contra a barbárie, contra o racismo. Serei e sou companheira de luta de todas as Covas da Moura. De todos os que são agredidos e torturados. De todos os que já morreram às mãos da polícia. De todos os que resistem, todos os dias, porque a sua pele dita que são diferentes. De todos os que fazem frente.

Amanhã, venham também. Venham «em paz».

A Cova da Moura não caminha só

Costuma-se dizer que na Amadora há bairros em que a polícia não entra, mas não é verdade. Nesses bairros, o que não entra é a Constituição da República Portuguesa. É preciso dizê-lo claramente: a Cova da Moura é um bairro de trabalhadores. Gente que todas as manhãs desce a encosta íngreme de ruas labirínticas para ir levar os filhos à escola e depois, quando há trabalho, ir trabalhar. Quem conhece o Alto da Cova da Moura depressa aprende a admirar a criatividade, a alegria e a solidariedade desta comunidade que, desafiando a exclusão dos governos, a pobreza imposta pelo capitalismo e as condições de vida, tantas vezes miseráveis, consegue ser um exemplo de dignidade para Portugal.

Esta população, por ser maioritariamente negra, pobre e imigrante, vive assediada por vândalos e arruaceiros que, com total impunidade, revistam, questionam, espancam, ofendem, humilham e detêm. Em poucas palavras, a Cova da Moura é a nossa Gaza. Uma bolha temporal onde subsiste o espírito colonial português num pensar, tantas vezes articulado aos ouvidos dos encostados à parede, “vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados”, numa corrida com os pretos que queriam entrar numa esquadra da PSP, para, vejam só a lata, apresentar queixa dos polícias, numa doce impunidade de saber, que podes ir com a tua tatuagem nazi para dentro do bairro das barracas e começar a disparar contra as mulheres nas varandas e as crianças a brincar e contra tudo o que te apetecer magoar, porque “o lugar de lixo e cães é no chão”

É isto que se passa e não é de agora. E quem mora na Cova da Moura não conta apenas histórias de espancamentos, torturas e assassinatos às mãos da PSP, narra o assédio constante de homens armados até aos dentes que te mandam parar quando vais para casa, que te revistam e te ofendem quando vais trabalhar, que te mandam embora porque não podem fazer nada, mas primeiro ainda levas uma chapada.

Numa destas noites, há pouco tempo atrás, um amigo da Cova da Moura foi detido ilegalmente pela polícia e largado no meio do Monsanto. Não tinha telemóvel e voltou para casa a pé. Quando lhe perguntei porque é que não apresentava queixa ele explicou-me que num tribunal a palavra de um polícia conta sempre mais que a palavra de um africano. No próximo dia 12 de Fevereiro, as nossas vozes valerão muito mais do que a palavra de qualquer racista. Estaremos em frente à Assembleia da República para dizer que em Portugal não há lugar para fascistas e que a repressão policial contra a população da Cova da Moura tem que terminar. Estar em solidariedade com a Cova da Moura e reclamar consequências criminais contra os responsáveis pela brutalidade de 5 de Fevereiro é defender a Constituição, a liberdade e o que resta de democracia. Estejamos presentes: temos ouvidos e lemos, não podemos ignorar.