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Chaplin: o cinema e a necessidade de transformar o mundo

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Charlie nasce a 16 de Abril de 1889 em Londres. Filho de um actor e de Hannah (conhecida nos palcos como Lili Harley), uma encantadora actriz e cantora, Charlie passa a sua infância na inenarrável pobreza londrina. A morte do pai e a doença mental da mãe deixaram-no com o seu irmão Sidney, de quem foi, aliás, separado, a lutar pela sobrevivência.

Estreia-se como membro do grupo de teatro The Eight Lancashire Lads e a sua fama de bailarino de sapateado espalha-se. Aos 12 anos, sobe ao palco como Billy em Sherlock Holmes e prossegue como comediante de vaudeville, acabando por ir até aos Estados Unidos em 1910 com a Fred Karno Repertoire Company. Aí nasce a «estrela» e em 1912 é contratado para um filme. Acede fazê-lo em 1913 e passa a trabalhar na Keystone Film Company. Em 1915 muda-se para a Essanay Company e Sidney junta-se ao seu irmão nos Estados Unidos. Junta-se então à Mutual Film Corporation e protagozina The Floorwalker, The Fireman, The Vagabond, One A.M. , The Count, The Pawnshop, Behind the Screen, The Rink, Easy Street, The Cure, The Immigrant e The Adventurer.


Em 1917 lança-se como produtor independente, constrói os seus estúdios e em 1918 lança Shoulder Arms seguidos de Sunnyside e A Day’s Pleasure em 1919. Seguiram-se as obras primas: O Garoto em 1921, A Quimera do Ouro em 1925, O circo em 1928, Luzes da cidade em 1931, Tempos modernos em 1936, O Grande Ditador em 1941, Monsieur Verdouxem 1947, Luzes da ribalta em 1952, Um rei em Nova York em 1957. Já lá irei.

Agora, o nosso vagabundo.

Na sua infância, Chaplin é confrontado com a doença mental da sua mãe, que apesar do amor incondicional pelos seus filhos, não tem quaisquer condições de garantir a sua sobrevivência. Chaplin é sujeito à decisão de internar a sua própria mãe para garantir quer a sua saúde (da mãe), quer o seu sustento. E é dos escombros de uma meninice não vivida que surge uma das personagens que mais risos arrancou em toda a história do cinema. A linguagem física de Chaplin torna-se o seu maior trunfo (em tempos de cinema mudo, que mais poderia desejar-se?) usado com mestria naquele que foi sempre e simultaneamente o seu sonho e o seu objectivo. Charlot tornou-se no que sempre quis ser, por causa e apesar de si mesmo e da sua circunstância.

A ambição logo deu a mão ao espírito crítico e a uma análise social atenta, progressista e completamente em contraciclo do ambiente em que passou a movimentar-se. Ao invés de aproveitar serenamente as vantagens que lhe trazia a sua comédia, Charlie Chaplin decidiu intervir através da sua criação cinematográfica. Com métodos de filmagem jamais explicados (com a desculpa de que seriam a revelação dos segredos de um mágico), os argumentos nunca estavam finalizados. Partiam de conceitos, de situações/cenas concretas rumo à improvisação em torno das premissas cenográficas e situacionistas, construindo-se estrutura narrativa desses pontos de partida. Tal método levava a rodagens longas, a repetições intermináveis, que se juntavam a uma exigência rígida imposta por Chaplin (como nos mostram as inúmeras cenas cortadas e de pré-produção do documentário de 1983, Unknown Chaplin).

Chaplin era ainda escritor (contam-se, pelo menos, quatro livros: My Trip Abroad, A Comedian Sees the World, My Autobiography e My Life in Pictures, além de todos os guiões), compositor (Sing a Song; With You Dear in Bombay; There’s Always One You Can’t Forget, Smile, Eternally, You are My Song) e talvez o único cineasta que financiou e produziu os seus filmes além de ser autor, actor, realizador, e compositor das bandas sonoras dos seus filmes.A grande marca no assumir de posições políticas, num quadro em que elas existiam envergonhadamente, começa em 1921. O Garoto de Charlot, quase num registo autobiográfico e apesar da comédia física (quase visceral) é o retrato das condições de vida de muitas crianças do pós I Guerra Mundial, da extrema pobreza que se instalou na Europa (com impactos profundos numa Inglaterra destruída, com níveis brutais de desemprego e condições de vida altamente precárias) vista pelos olhos do garoto e do vagabundo. Em Tempos Modernos, talvez um dos melhores filmes da história do cinema, Chaplin faz um retrato da modernização fabril que pode mesmo ser transposto (com as necessárias adaptações) aos dias de hoje. Num cenário quase profético, Chaplin retrata os efeitos do taylorismo e do fordismo nos trabalhadores, o tratamento destes como uma peça da grande engrenagem capitalista, a desumanização total das relações laborais, a perseguição política e sindical. Cada cena é incrivelmente actual e assertiva: o trabalhador que sai da fábrica e continua a apertar os parafusos (apertando os botões dos casacos das pessoas que passam), o transeunte que pega numa bandeira caída de um camião (e que se supõe ser vermelha) e imediatamente tem uma manifestação de trabalhadores que seguem a bandeira em punho (que apenas tinha sido levantada para ser entregue a quem a perdeu) e que acabam presos, a inesquecível canção inventada por Chaplin no restaurante, já no fim do filme. Sem nunca perder o fito da crítica económica e social, Chaplin consegue manter o registo profundamente cómico dos seus filmes.

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Não foi por acaso que durante muitos anos Chaplin foi apontado como um perigoso subversivo pelo governo norte-americano e, claro, por McCarthy, o caçador de bruxas, que não deixou, obviamente, de ser caricaturado nos seus filmes. Suspeito de ligações ao Partido Comunista, que Chaplin sempre negou (restará saber a verdade), a verdade é que a sua visão da classe trabalhadora nunca deixou de ser assustadoramente incisiva. O Grande Ditador é exemplo disso mesmo. Logo após a invasão da Polónia por Hitler, as rodagens começam. Filme escrito, produzido e realizado por Charles Chaplin em 1940, este interpreta Adenoid Hynkel, ditador da Tomânia e um barbeiro judeu muito parecido com o governante. Hynkel tem planos para conquistar o mundo (como se vê na dança inesquecível de Chaplin com o globo terrestre) e entra em conflito com Benzino Napaloni, ditador da Bacteria, numa sátira deliciosa a Hitler e a Mussolini, que tem como história central a opressão a que estão sujeitos os judeus do bairro do barbeiro, com episódios evidentemente abstrusos pelo meio. O discurso final de Chaplin é ainda hoje uma referência política mundial:


«É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, ouves-me? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos a sair das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!»

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Gosto de pensar que Chaplin, como o filme homónimo de Richard Attenborough conta, terá morrido no natal de 77, sentado ao sol, com um livro na mão, sereno, convicto de que na sua vida, fez tudo a que se propôs. A figura inesquecível do vagabundo (sempre trôpego, sempre dócil, sempre sorridente), de um grande ditador que provoca gargalhadas, de um garoto que encontra no vagabundo a felicidade maior, de um miúdo que apesar da sua infância roubada nunca deixou de ser um miúdo, um cineasta que apesar de estar no coração do império sempre afirmou o pensamento e a palavra sem medo, com a convicção que só a razão e um profundo humanismo lhe poderiam garantir e que, com a mestria que só Chaplin tinha, pôs o mundo a ver e a pensar o mundo, entre risos sonoros e a comoção que só o sorriso de Charlie Chaplin ainda hoje consegue provocar.

No mês de Abril, o mês de Chaplin, o mês da Revolução, a alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

*Texto originalmente publicado em 2015, no site Arte-Factos

O futuro também começa hoje

Fez, ontem, 80 anos que o fascismo tomou Madrid. Abria-se aquela estrada para a barbárie que só acabaria sepultada seis anos depois em Berlim. Há uma melodia cuja bateria não deixa de tocar no palco da vida. Para nos lembrar que esta é uma guerra que não acabou. Como as cordas da guitarra de Sigaro que, apesar de já não estar, soam porque nos vibram na memória. Porque a indiferença é o peso morto da história, Sócrates trocou o Corinthians pela Fiorentina para ler Gramsci no idioma original. E os corpos agitam-se, como se estivessem preparados para a batalha. A que se desata entre quem através da lâmina da espada faz política na rua. Quando se produzem revoluções e contra-revoluções, não são os votos que definem os avanços e os recuos do pêndulo nos momentos cruciais da história porque da indiferença ao compromisso há um intervalo de coragem. São as ruas que impõem a viragem que se projecta no futuro. A democracia que se constrói nos subterrâneos.

E vejo milhares de jovens entre o fumo vermelho das tochas. A maioria não sabe mais palavras em italiano do que aquelas que aprendeu com as letras de Banda Bassotti. Entre adidas e dr. martens, há punks com e sem crista, skinheads antifascistas e um gentio que preenche quase todos os espaços deste edifício ocupado pela população nos arredores de Madrid a que deram o nome de Atalaya. Se há meio ano, parou de bater o coração de Sigaro, ninguém quis deixar de estar presente para mostrar que uma voz não se perde quando se teve uma vida dedicada a cantar a revolução. De El Salvador à Nicarágua, de Donbass ao País Basco, a insubmissão exige mais coragem em tempos de cobardia. Ao longo de três décadas, poucos músicos se atreveram a desafiar a metralha fascista em contextos de guerra.

Poucos cantam e escrevem sobre a nossa realidade. Quantos músicos e escritores conhecemos que retratem os tempos que vivemos? A revolução portuguesa pariu inesquecíveis intelectuais cuja obra de um passado que era futuro jaz nos alfarrabistas e em lojas de discos para coleccionadores. Esses cumpriram o seu papel na sua época. Nós estamos órfãos. Poucos cantam as nossas lutas e contam-se pelos dedos os que fazem destes tempos sombrios uma ode à resistência. Mas ali, em Vallecas, bairro operário de Madrid, ao meu lado canta um torneiro mecânico que é delegado sindical e dinamizador de uma claque antifascistas nas horas vagas. Lá atrás, nos bastidores, longe dos holofotes da hegemonia capitalista, a contra-cultura respira-se em todas as partes. Organizam-se e partem para a batalha ideológica. Montam os seus estúdios, discográficas, editoras, livrarias, teatros, jornais, bares, ginásios e ousam fazer frente ao passado que nos querem impor uma vez mais. E não é caso único na Europa.

É certo que a revolução não é algo por que se espere. É algo que se constrói. E nesse processo podemos e devemos alavancar o futuro com espaços e experiências que arrebatem ao capitalismo o poder de contaminar todos os elementos que compõem a nossa existência.

«Nós também estivemos lá… por pouco» por Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

Celebrar Abril e Maio não pode ser só estética. É sempre um momento de resistência necessário. Celebrando-se aquilo que foi, reivindica-se o que já não é. Celebramos a luta antifascista e as conquistas arrecadadas. Afirmamos a urgência dos direitos que nos são retirados, que a nossa geração já não conheceu, mas que também não esqueceu. A celebração de Abril e Maio não se ancora numa evocação identitária oca e simplista, mas sim num pulsar de exigências que nos é quotidiano.

A produção cultural, no contexto actual, já é em sim um acto de resistência, sobretudo quando politicamente posicionada, sobretudo em Abril e Maio. Elas também estiveram lá é mais do que a reivindicação da memória histórica e muito mais que uma celebração. A verbalização não sai fácil, a selecta audiência e a imediatez passional da época dificultam a tarefa, mas exigem-se umas linhas sobre as que resistiram, as que lutaram e as que as transformaram – a elas e às suas histórias – em símbolos de luta. Uma peça que, por se posicionar política e ideologicamente sem descurar o sentido estético, tem (ou teria) a capacidade de impactar públicos vastos. Uma peça que conjugando cinema, música, literatura, fotografia e teatro mostra que as opções estéticas são em si veículos de mensagens. Neste caso, numa só peça, a confluência de artes para uma construção colectiva. Uma peça de teatro político que fomenta o sentido crítico e levanta questões sem apontar, à partida, a direcção certa para o processo de reflexão de cada espectador.

Elas. Elas, as mulheres da resistência antifascista, de Abril e Maio, e do PREC. Uma produção que escapa a um cânone de arte militante assente no evento, Elas viajaram e fizeram-nos viajar entre os três momentos que, em comum, têm a resistência e a luta. A resistência e a luta delas que não foi – nem é – a mesma que a deles. Mas, mais do que dar visibilidade às narrativas da Teresa, da Júlia ou da Eugénia, por oposição à resistência e à luta do Domingos, do Vítor ou do Henrique, mostraram-nos como o processo revolucionário foi construído em conjunto, como formas de opressão desaguaram em formas de transformação de classe, de género, de sociedade e de cultura. Elas, que continuam de fora das narrativas oficiais. Elas, que não desistiram das suas reivindicações em Abril de 1974 e, menos ainda, em Novembro de 1975.

Com elas participamos num jogo de espelhos entre ausências e presenças, num confronto entre os actores estabelecidos da nossa memória colectiva e as figuras (femininas) que passaram os últimos 40 anos a julgar que não tinham nada para contar. Trouxeram relatos que iluminam as particularidades de viver mulher durante o fascismo, sobretudo na sombra do quotidiano, da intimidade. A brutalidade de viver mulher sob a asa de um homem – primeiro o pai, depois o marido. Violações conjugais ou abortos clandestinos e solitários – porque o pão não chegava para mais um, os contraceptivos não existiam e o maridinho tinha vontades. A tortura pela PIDE que era tudo o que foi para o Zé, o Pedro e o António, mas para a Georgete, a Conceição e a Aurora revestia-se ainda do machismo sistémico, com humilhação sexual, exposição de nudez e chantagem através dos filhos. Nesta peça, ao iluminar-se o que era viver mulher não se apaga que nem todas as mulheres estavam em pé de igualdade. As mulheres trabalhadoras do Couço não se confrontavam com as mesmas dificuldades da mulher que vivia na Avenida e que escondia as suas leituras proibidas. A livreira, filha de trabalhadores, que estudava na escola comercial e não tinha dinheiro para comprar um dicionário não é a Teresa que foi expulsa do liceu por distribuir propaganda. Mas até sobre isto a peça nos põe a reflectir, sobre a importância da opção de classe.

Neste jogo do ausente e presente, surgem paralelismos com a resistência espanhola, com o que foi lá e cá, numa península que aguentou as mais longas ditaduras europeias. Está ausente da peça, talvez porque só agora começa a surgir na discussão da memória colectiva, relatos do que se passava nas colónias. Relatos das Elas (e eles) que no hemisfério contrário se debatiam contra uma guerra colonial, contra a morte quase certa, contra um fascismo que as considerava menos que humanas.

Ainda há muito caminho a percorrer, mas para isso elas (nós) estão a fazer a sua parte.

Como é que as mulheres desta peça também estiveram lá? Talvez ainda estejam a tentar descobrir. O Teatro do Vestido foi uma das companhias que não recebeu financiamento da DGArtes. Sem financiamento desde Janeiro, as actrizes asseguram os compromissos contratuais já estabelecidos. Até quando é que, nestas condições, elas vão continuar a estar lá?

Como é que nós também estivemos lá? Ainda nem nós sabemos bem. A EGEAC anunciou os poucos dias que a peça estaria em cena (já começa a ser hábito uma programação que serve mais para marcar calendário do que promover uma efectiva política cultural). Condições: 20 bilhetes diários, 2 bilhetes por pessoa levantados no próprio dia a partir das 13h. Local: Cinema São Jorge. Como: Chegada a meio da manhã para marcar lugar. Resultado: 18 bilhetes reservados pela EGEAC, 2 disponíveis. Um cenário que se repetiu como tema e variações nos restantes dias. Fosse isto um momento isolado e estaria a cidade de Lisboa bem servida em matéria de política cultural. O desinvestimento é um dos sintomas da incompreensão do papel da cultura numa sociedade (ou então por compreenderem bem demais). A política de compadrio e de desrespeito pelo público é outro. A cidade de Lisboa e o país precisam de uma política cultural séria, que não se guie pelo monopólio da EGEAC e dos interesses privados que com ela se movem.

O país precisa que elas continuem lá e que ela – a cultura – esteja sempre lá.

*Autor Convidado
Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

Como os nossos pais

Ao fim de vários dias de trabalho sufocantes não queria estar a perder tempo de descanso e arrastar-me dolorosamente até ao teatro. Não sabia ao que ia, o tema da peça, nada. Só sabia da minha exaustão e vontade de dormir.

Mal entro no D. Maria, em cima da hora, vejo o pequeno auditório cheio e uma sala com panos. Lembro-me então que a peça teria qualquer coisa a ver com operários. Mas não sabia o que estava para vir.

Todos aqueles nomes que sempre fizeram parte da minha vida: Coelima, as fábricas em Barcelos, o museu do têxtil. Vizela, Felgueiras, Guimarães, Pevidém, todos aqueles sítios onde a vida me levou e para onde a minha cabeça imediatamente se transportou. E, de repente, estava nos anos 90, em Santa Maria da Feira, a ouvir as sirenes de entrada da Lunik, da Huber Tricot, da Ecco, da Rohde.

À medida que a peça avançou, avançou a minha memória das vigílias intermináveis ao frio, durante o Natal, em frente à Rohde. Das caras das mulheres que na sua meninice estavam na mesa ao meu lado na escola. Das suas mães que estavam na mesma fábrica nas gáspias. Do ano negro de 2003 em que encerraram dezenas de fábricas. Das vigílias dos corticeiros. Da luta das corticeiras pela igualdade salarial que rapidamente se tornou em luta pelo pagamento de salários em atraso.

A história que Eu uso termotebe e o meu pai também conta é a história dos nossos pais, dos nossos avós, dos nossos vizinhos. O exemplar d’A Mãe de Gorki que envergam é o exemplar que tenho na minha estante e que quero deixar à minha irmã mais nova.

Imagino misturar a vida destes testemunhos de operários com a vida dos operários de A Mãe de Gorki. O que mudou desde 1907? Que verdade nasce destes testemunhos confrontados com as históricas lutas do trabalho? Que consciência nasce em mim [se fosse eu um narrador] à medida que a história avança? Talvez isto seja a chave para prosseguir. O operário e o seu espelho. Um espelho fictício mais real do que a realidade. Plagiar o real com a ficção. Como num auto retrato. Será que assim conseguimos roçar a verdadeira vida?

Esta é a pergunta que Ricardo Correia faz depois de ouvir dezenas de operários, de patrões e alguns sociólogos. Uma peça capta a essência da contradição do trabalho e do capital. A persistência da luta de classes e a necessidade da consciência de classe. Da nossa, de cada um de nós. Da repetição em espiral da história que está tão patente na corajosa luta das trabalhadoras da antiga Triumph. Nas citações dos operários que liam Marx, Lenine, Rancière, esses operários letrados que lutavam meses e meses pela jornada de 40 horas e pelo fim do trabalho ao sábado, lado a lado com aqueles que iam ganhando a consciência de classe na luta. E que termina como começou.

Esta é a camisola do avô, que passou ao pai, que passou ao filho para que um dia o que vier possa dizer que valeu a pena. Até lá, é à classe operária que cabe tomar nas suas mãos o seu destino.

As tranças de Maria

Serra do Larouco // Fernando Ribeiro

“Se passeares no adro no dia do meu enterro diz à terra que não coma as tranças ao meu cabelo”, cantam por vezes as mulheres da região de Lafões. Com uma das mais bonitas tranças que vi até hoje, dias antes de morrer, a irmã quase nonagenária da minha avó contou-me a história da deserção do meu bisavô. Acamada e ensombrada pela cegueira num lar transmontano, desdobrou a memória e falou do rapaz que andou clandestino durante meses pelas montanhas do Larouco. Não fazia ideia de quem era Lénine e do que havia sido a Conferência de Zimmerwald mas o pastor e contrabandista, que acabaria por morrer sem nunca ter visto o mar, decidia há cem anos adiar a morte evitando uma guerra que não lhe dizia nada.

No tempo em que viajar a Lisboa era quase mudar de país, uma geração de transmontanos atravessada pela pobreza acabou por se lançar pela aventura da migração. De Fiães do Rio, com 15 anos, saiu Bento Gonçalves para Lisboa onde acabaria como torneiro mecânico no Arsenal da Marinha. Não muito diferente foi a história de Militão Ribeiro que, com apenas 13 anos, começou a trabalhar como operário têxtil no Brasil. O jovem de Murça acabaria por ser expulso daquele país por militar no Partido Comunista Brasileiro e não teve dúvidas em desafiar o fascismo português ingressando no PCP precisamente depois de Bento Gonçalves assumir a direcção do partido. Oito anos depois da morte do então secretário-geral no campo de concentração do Tarrafal, Militão Ribeiro era também conduzido à morte na prisão pelos esbirros. Antes conseguiu escrever com o próprio sangue uma carta em que jurava fidelidade aos ideais por que lutava.

No dia do funeral, entre o nevoeiro e o frio, uma das figuras mais carismáticas do Barroso conduzia a missa de corpo presente da minha tia-avó Maria. Entre o pesado granito da igreja, lembrei-me, então, do Cinco dias, cinco noites. Na adaptação da obra de Álvaro Cunhal ao cinema, foi o próprio padre Fontes que interpretou o barqueiro que conduz o militante comunista ao outro lado da fronteira. Lambaça, o passador responsável por entregar André ao dono da embarcação, carregava também com ele essa dureza que seca o rosto, que abre sulcos nas mãos e que transmite por vezes frieza no trato. Talvez fossem as marcas de um povo calejado por uma história difícil mas forjado na resistência de que falava Miguel Torga. O mesmo padre Fontes que participou nas campanhas de alfabetização ao lado do poeta comunista Manuel Gusmão foi um dos responsáveis pela insistência na preservação dos fortes elementos comunitários e pagãos na cultura barrosã, uma herança que passou de geração em geração.

É na sua relação com o opressor que o oprimido define a sua identidade. E isso reflecte-se na cultura própria de cada realidade. As aldeias raianas ergueram-se entre muralhas de pedra e aguçaram o carácter desconfiado para resistir a Leão e Castela. O lugar que cada um ocupa na cadeia de produção é o cadafalso que descobre à nascença o que vai ser cada um de nós. Por exemplo, a capoeira como sinónimo da identidade combativa dos escravos arrastados de Angola para o Brasil sobreviveu e é executada todavia entre os negros brasileiros. Se ainda resiste a cultura produzida na sombra da barbárie esclavagista é porque as diferentes gerações nunca renegaram a sua condição e a batalha contra a injustiça. Quando se atravessa o Largo de São Domingos e se tropeça no enxame de turistas que diariamente invadem Lisboa, sabemos que aprendem como foram massacrados milhares de judeus naquele espaço. Ao lado, imunes à indiferença, permanecem dezenas de guineenses como herança dos escravos que foram objecto de tráfico no mesmo largo. Ninguém se preocupa com a memória histórica daqueles que foram arrastados à força entre continentes para alimentar as potências coloniais.

Certo dia, um dos locutores da emissora clandestina de rádio das FARC convidou-me para assistir a um baile de cumbia. Guerrilheiras e guerrilheiros ensaiavam para as comemorações do Dia Internacional da Mulher. Uma das combatentes puxou-me para dançar e, entre gargalhadas, explicou-me o que devia fazer. Sobretudo dobrar um pouco os joelhos, inclinar as costas e arrastar os pés. Eu não sabia mas estava a repetir os gestos que séculos antes faziam os escravos acorrentados para imitar a dança dos espanhóis. Foi assim que surgiu a cumbia. A cultura que nos faz lembrar o que realmente somos é desafiada diariamente pela avalanche de informação que nos convida a renegar a nossa condição. Num dos seus livros, o escritor cubano Alejo Carpentier descreve como os donos das plantações desprezavam os batuques africanos e ao mesmo tempo os viam como uma forma de alienação, de manter os escravos entretidos. Não sabiam, contudo, que das batidas no couro saíam códigos de revolta encaixados entre a devoção aos orixás e o ódio ao amo.

O rio da história avança e cresce trazendo até nós a experiência acumulada de séculos de luta contra a opressão. É também o passado que se traduz nas conquistas que hoje tratamos de defender. É de lá que nos acaba de chegar a mensagem que operários de uma fábrica de cimento desenterraram em Kamensk esta semana. Há meio século, funcionários locais deixaram uma nota para ser lida no centenário da revolução de Outubro: “Passarão anos e vocês, a geração de 2017, substituirão os veteranos da Revolução. Pedimos que cumpram com o legado leninista fazendo com que se torne realidade junto das gerações seguintes”. Em Parada de Bouro, no Gerês, também há dias, dezenas de cães passeavam-se com as correntes a arrastar pelo chão da aldeia. Tinham enlouquecido com o barulho de uma carrinha que anunciava cinema itinerante à população. Acabaram por se soltar. Eram já livres mas todavia se ouvia o tilintar do metal da correia. Isso fez-me lembrar que só sente as cadeias que o aprisiona quem se move. É a vida a mostrar que se somos rio, devemos ser mar, sem margens estreitas que nos comprimam a existência.

Pode o passado mascarar-se de futuro?

Uma vez, conheci um homem que viajou no tempo. Mergulhou na vertigem espacio-temporal que o catapultou dos anos 80 para o presente e encontrei-o numa das margens da ria de Bilbau. Entrou na máquina que o trouxe ao futuro ainda jovem e saiu com o rosto enrugado pelo tempo. Respondeu-me que era mentira. Que tinha vindo do futuro e que aterrara no passado. De uma cidade cinzenta e industrial onde a luta de classes era o motor da história, observava agora como se afogava a rebeldia nas mornas águas da cidadania responsável. Curioso, perguntei-lhe como havia viajado no tempo. Um dia, a polícia emboscou-o e metralhou-o. Moribundo, conseguiu sobreviver e viveu sequestrado durante três décadas nos cárceres espanhóis.

Mas às vezes, mesmo à deriva, o futuro acaba por dar à costa. Quando há força colectiva para organizar o porvir o horizonte pode transformar a cultura de um povo. Em 1968, quando as mulheres e os homens de Cabo Verde e Guiné-Bissau forjavam a independência sob a dura melodia das kalashnikov, na outra ponta do Atlântico os estivadores de Baltimore carregavam um navio com modernos instrumentos para alimentar a música electrónica. Submetido a terríveis condições atmosféricas, a tripulação perdeu o controlo da embarcação e dois meses depois de desaparecer dos radares marítimos o navio deu à costa da ilha de São Nicolau. Apesar da guerra, o PAIGC deu a ordem de distribuir os instrumentos eléctricos pelas populações das poucas localidades com electricidade e a embarcação fantasma acabaria por transformar a música cabo-verdiana.

Também há aquelas histórias de quem ficou preso na corda bamba entre o passado e o futuro. Depois de empreender uma fuga marítima, o mais famoso dos poetas turcos foi encontrado por um cargueiro romeno. Nazim Hikmet escapava da noite turca e procurava a via para Moscovo quando o capitão que levava na cabine um cartaz que exigia a libertação do mesmo Nazim Hikmet se dispunha a entregá-lo às autoridades turcas por não ter autorização para o recolher. Felizmente, o telégrafo cumpriu o seu desígnio e devolveu o futuro ao poeta comunista.

São tantas as metáforas que não se compreende como tropeçámos e caímos novamente no vazio do passado. No mesmo ano em que o azar levou o futuro musical a Cabo Verde, a poesia morria debaixo de uma calçada que já não cheira a Verão porque a madrugada se afogou na tormenta social-democrata em Paris. A força da razão ou a razão da força na derrota do futuro em Moscovo quando Gorbachev enterrou a União Soviética? O independentista basco que viajou do futuro veio de um mundo em que as relações laborais mais favoráveis serviam de muro ao passado. Neste compasso em que dançamos sozinhos e fazemos culto à individualidade, interpretamos a cidadania obediente como sinónimo de civilidade.

Vivemos em tempos em que o descomprometimento e a anti-política – que é também política – se encaixam perfeitamente na precariedade dos dias que correm apressados rumo ao passado. As relações sociais afundam-se no silêncio da mediocridade e da precariedade. Somos mais ecológicos porque somos mais limpos ou somos mais limpos porque nos foi imposto? Somos inimigos do ruído porque acreditamos no respeito pelo espaço do outro ou esse respeito não é mais do que fruto do medo? Somos mais livres e descontraídos nas nossas relações pessoais ou isso é afinal resultado das contradições capitalistas e não da emancipação sexual e emocional? É a mesma coisa ser-se moderno que ser-se progressista? Pode o passado mascarar-se de futuro?

A poesia que arde

Agora que a poesia não alimenta escaparates e se esconde nas velhas estantes dos alfarrabistas onde se refugiam também os livros daquelas revoluções de que falam os nossos pais talvez seja tempo de alumiar a madrugada. No tempo em que a verdade se vestia de sombras, Bertolt Brecht disparava sem medo demonstrando que às vezes a poesia é de facto uma arma. O dramaturgo e poeta comunista alemão escreveu que a «arte não é um espelho para reflectir a realidade mas antes um martelo para dar-lhe forma».

Os mesmos que queimaram o Reichstag, em 1933, pegaram fogo aos seus livros numa iniciativa pública. E às vezes os versos acertam no futuro como a melhor das balas. «Então, de que serve dizer a verdade sobre o fascismo que se condena se não se diz nada contra o capitalismo que o origina?», perguntou o autor de A Ópera dos Três Vinténs. Depois da derrota do nazi-fascismo, as autoridades da República Federal da Alemanha trataram de lhe responder proibindo-lhe a entrada no seu próprio país.

Mas se a poesia não é mais do que gatafunhar meia dúzia de palavras por que foi objecto da mais violenta das perseguições? Quando a poesia era apenas outro nome para coragem, houve mulheres e homens que deram voz aos que semeavam o futuro. Viver tempos em que é fácil opinar sobre o passado sem se ter a coragem de estar do lado certo no presente deve fazer-nos odiar os muros em que outros se sentam à espera de saltar para o lado do vencedor.

Pablo Neruda atravessou clandestinamente a cordilheira andina para fugir às autoridades chilenas quando podia ter escolhido o caminho mais fácil. Miguel Hernández escreveu a Josefina Manresa da masmorra franquista onde viria a morrer: «Tu risa me hace libre,/me pone alas./Soledades me quita,/cárcel me arranca». Em papel higiénico, o poeta comunista de Orihuela escreveu alguns dos contos que quis deixar ao seu filho.

Quem tampouco escolheu ficar em cima do muro foi Nazim Hikmet. Ancara, que todavia renega Nazim Hikmet, fez o favor de lhe dar a conhecer várias prisões. Entre viagens clandestinas e fugas espectaculares, alguns dos mais conhecidos poemas do mais importante escritor turco do século XX tiveram as grades do cárcere como companhia. E o que dizer de Joseba Sarrionandia, preso político que se escapou da prisão dentro de um amplificador e que viveu escondido em Cuba durante mais de três décadas? «Cada coisa com a sua dificuldade,/às vezes dar um beijo é mais difícil/que pôr uma bomba no quartel-general do inimigo», escreveu o independentista basco.

A prova de que a poesia às vezes é mais combustível do que a gasolina são os versos que correram de boca em boca entre camponeses analfabetos nas zonas mais pobres da Nicarágua quando já a injustiça tremia ante o passo dos combatentes sandinistas. O analfabetismo nem sempre é uma fortaleza indestrutível. Do mesmo lado das Caraíbas, em El Salvador, o poeta e guerrilheiro Roque Dalton dava corpo às balas e afirmava que «o comunismo será, entre outras coisas,/uma aspirina do tamanho do sol». E durante a longa noite de pedra franquista, o poeta galego Celso Emilio Ferreiro cantou a liberdade sonhada na língua que nos é comum, que há séculos dá voz aos oprimidos de ambos os lados da fronteira.

«Nós queríamos libremente
comer o pan de cada día. Libremente
mordelo, masticalo, dixerilo sin medo,
libremente falando, cantando nas orelas
dos ríos que camiñam para o mar libre.
Libremente, libremente
nós queríamos somente
ser libremente homes, ser estrelas,
ser faíscas da grande fogueira do mundo,
ser formigas, paxaros, miniños».

O comunista português Ary dos Santos semeou versos na barriga do «mais infeliz dos povos à beira-terra» que um dia voltará a abrir as portas que Abril abriu também para que o lugar da poesia incendiária não sejam as poeirentas caves em que se encontram mas nessa luta «onde não seja permitido respirar» e «onde nasça o silêncio» para ouvir «os passos do tirano que parte» de que falava a nicaraguense Gioconda Belli. No tempo da pós-verdade só há lugar para a mentira. Se o que arde cura e se a poesia dói porque arde, que falta nos faz o incêndio.

Um estatuto só para a CNB?

Passam poucos dias sobre a aprovação dos vários projectos de lei sobre as condições de trabalho dos bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. O Grupo Parlamentar do PCP apresentou um vez mais um projecto que dá corpo a um conjunto de velhas, mas urgentes, reivindicações dos trabalhadores da CNB e, juntamente com outros partidos, viu aprovado esse projecto numa primeira discussão – na generalidade – tendo os 3 projectos (do PCP, PSD/CDS e BE) baixado à discussão na especialidade, onde serão discutidos em pormenor e sujeitos a propostas de alteração. O caminho ainda é longo e nada está garantido.


A longa luta dos bailarinos da CNB tem tido o apoio do PCP porque são justas as aspirações dos que, como os bailarinos da CNB, entregam uma grande parte da sua vida activa, da sua criatividade, do seu esforço físico e intelectual, à salvaguarda de um repertório a que de outra forma os portugueses não acederiam e fazem-no através de uma Companhia Nacional, ou seja, de todos os portugueses, do Estado. Daí que a luta dos trabalhadores da CNB tenha vindo a ser desenvolvida junto da sua entidade patronal: o Estado, nomeadamente através do Governo e da Assembleia da República.

A aprovação destes projectos na generalidade, apesar de significar um passo no sentido de uma tremenda conquista para todos os bailarinos portugueses, gerou algumas legítimas dúvidas e algumas críticas que sendo legítimas, me parecem surgir por incompreensão.

Em primeiro lugar, é verdade que os projectos apresentados se aplicam apenas aos bailarinos da CNB. Isso deve-se ao facto de a Assembleia da República e o Governo só representarem a entidade patronal desses bailarinos e ao facto de existir um historial de luta persistente destes trabalhadores junto da sua entidade patronal.

Em segundo lugar, a vitória – ainda incompleta – dos bailarinos da CNB não constitui uma derrota para os outros bailarinos. Antes pelo contrário, constitui uma inspiração para que todos reivindiquem as condições de trabalho justas e adequadas ao real esforço, empenho e exigência da profissão. Tal como em outros sectores de actividade, a elevação das condições de trabalho de uma parte dos trabalhadores beneficia directamente as restantes partes, porque eleva a fasquia. Por exemplo, quanto mais direitos e salário tiverem os professores do ensino público, mais direitos e salário terão os professores do ensino privado e o contrário é igualmente verdade. A Companhia Nacional de Bailado é a companhia pública, na qual as condições de trabalho devem servir de referência para as restantes companhias.

Em terceiro lugar, há dimensões dos projectos de lei apresentados que podem ser ajustadas e aplicadas a todos os bailarinos profissionais de companhias privadas. Por exemplo, é possível criar um contingente de acesso ao ensino superior para todos os bailarinos de companhias privadas que cumpram determinados critérios e requisitos. Tal como é possível criar um seguro de trabalho adequado aos bailarinos de todas as companhias.

Tal como em outras actividades, portanto, a Assembleia da República define as condições mínimas em que é prestado o trabalho por conta de outrém, mas não define o estatuto das profissões que se colocam fora da esfera do Estado. O Governo (com ou sem intervenção da Assembleia da República) define, em conjunto com os sindicatos, o estatuto das carreiras públicas, mas não define os estatutos das carreiras privadas, sem prejuízo de produzir legislação sobre algumas delas.

Mas há duas questões principais que estes projectos não resolvem, nem na CNB, nem no privado: a precariedade e o sub-financiamento, e ambos estão profundamente interligados. É que não haverá estatuto do bailarino da CNB enquanto a prática da CNB for a contratação à peça, sem ingresso dos bailarinos nos quadros de pessoal e sem um vínculo estável e duradouro com esses bailarinos. Da mesma forma, no privado, dificilmente os bailarinos conseguirão um contrato colectivo de trabalho ou acordos de empresa, através dos seus sindicatos e das comissões de trabalhadores enquanto a regra for o recibo verde e a prática forçada do freelancerismo. Logo aqui colocam-se vários outros problemas: enquanto vimos uma capacidade de organização e persistência por parte dos bailarinos da CNB, munidos de uma comissão de trabalhadores e de apoio dos sindicatos (CENA-STE); verificamos a incapacidade de outros grupos de bailarinos junto das suas entidades patronais e a inexistência de comissões de trabalhadores e, não sei mas adivinho, muito baixa taxa de sindicalização.

Esta questão da precariedade tem efeitos devastadores nos direitos e capacidade reivindicativa dos bailarinos, tal como junto de outros sectores das artes do espectáculo. Por um lado, um trabalhador sem vínculo não está abrangido por condições contratuais escritas ou, estando, muitas vezes não sabe e está geralmente numa situação irregular porque na verdade deveria estar abrangido por um contrato de trabalho. Isto passa-se nas companhias públicas e privadas e é inaceitável em todas. Por outro lado, o trabalhador sem vínculo, está em piores condições para se sindicalizar e aglomerar forças com outros trabalhadores porque, geralmente, não trabalha sempre com a mesma equipa nem com a mesma companhia.

Mas estes custos da precariedade e da ausência de vínculos laborais contratualizados explicitamente têm origem no subfinanciamento gritante a que o sector da cultura está sujeito em Portugal. Ao mesmo tempo que o Estado paga 8 mil milhões de euros de juros da dívida, dedica à política cultural através do apoio às artes qualquer coisa como 20 milhões de euros. Isto significa que o valor que gastamos anualmente em juros da dívida (contraída em grande parte pelos bancos privados e grandes grupos económicos) seria o suficiente para 400 anos de financiamento ao apoio às artes se fosse mantido o miserável valor de 20 milhões anuais. Esses 20 milhões são o valor total do que é entregue pelo Estado às companhias das várias expressões artísticas por todo o país, isto é, 20 milhões anuais para arquitectura, artes digitais, artes plásticas, dança, design, fotografia, música, teatro e ainda para os cruzamentos disciplinares. A Companhia Nacional de Bailado é financiada através do OPART numa verba que não conta dentro desses 20 milhões mas que fica igualmente muito aquém do necessário. Ou seja, o subfinanciamento das companhias públicas e privadas é a base do problema da falta dos direitos dos trabalhadores porque esses direitos representam custos. Enquanto os directores da CNB não tiverem dinheiro não vão poder assumir responsabilidades para com os trabalhadores, tal como enquanto as companhias privadas (estruturas de criação artística que não são empresas tradicionais, mas geralmente são associações ou cooperativas) não tiverem apoios públicos suficientes não conseguirão assegurar vínculos estáveis e acordos de empresa dignos com os bailarinos que contratam, ainda que sazonalmente.

nota: é importante clarificar que o regime de acesso à pensão de reforma para TODOS os bailarinos clássicos ou contemporâneos já é distinto do das restantes profissões. Actualmente é assim: A partir dos 55 anos -Ter, pelo menos, 10 anos civis, seguidos ou interpolados, de registo de remunerações correspondente ao exercício a tempo inteiro da profissão; A partir dos 45 anos – Ter, pelo menos, 20 anos civis, seguidos ou interpolados, de registo de remunerações, dos quais 10 correspondentes a exercício da profissão a tempo inteiro

segunda nota: o projecto do Partido Ecologista “Os Verdes” é sobre seguros de trabalho para danos emergentes do exercício da profissão de bailarino e aplica-se a TODOS os bailarinos e não só os da CNB.