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Mensagem de Gregório Duvivier aos trabalhadores portugueses do espectáculo e do audiovisual


No Brasil luta-se. Luta-se pela democracia, pela manutenção de alguns direitos sociais e laborais que os governos do PT conseguiram implementar, luta-se pela decência. O actor, poeta, cronista, ilustrador e homem de ainda mais instrumentos, Gregório Duvivier, mais reconhecido em Portugal como “aquele da Porta dos Fundos”, tem estado na linha da frente destas lutas e também na luta contra o desaparecimento do Ministério da Cultura no Brasil.

O Gregório está em Portugal, com o seu espectáculo “Uma Noite na Lua” e o CENA – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, foi conversar com ele. Falou-se da situação dos trabalhadores do sector em Portugal, comparou-se essa situação com a dos trabalhadores brasileiros. O Gregório ficou de olhos esbugalhados com as condições em Portugal. Sendo certo que no Brasil há ainda muitas conquistas a serem feitas, o que ele transmitiu ao CENA é que os trabalhadores brasileiros deste sector são respeitados, têm direito à vida. Isto é, têm contratos de trabalho, os horários são cumpridos, existem tabelas salariais, etc.

E porque é que isto acontece? Porque os sindicatos do sector têm força, porque os trabalhadores se organizam, porque só com gente dentro é que os sindicatos estão vivos, actualizados, aptos a agir, a intervir. Porque a força de um sindicato de classe é mesmo proporcional ao número de trabalhadores sindicalizados.

Neste momento o CENA e o STE, estão a trabalhar em conjunto na preparação de propostas para criar instrumentos de regulamentação das profissões do sector, para acabar com o trabalho não remunerado, para evitar que a precariedade seja o prato do dia, para que os trabalhadores do sector vejam reconhecidos os seus vínculos, para que tenham acesso aos direitos laborais e sociais de qualquer trabalho por conta de outrem, para que as especificidades das profissões do sector sejam reconhecidas.

Se formos 100 a exigir estes instrumentos de regulamentação, tanto o poder político como os patrões podem bem assobiar para o lado, se formos 1.000 o assobio já nos olha de lado, se formos 10.000 ou mais a única solução que vão ter é olhar-nos de frente, reconhecer a nossa força e a justeza da nossa luta. Respeitarem a nossa luta. Respeitarem-nos.

Um sindicato também serve para isso, para que os trabalhadores sejam respeitados, o Gregório sabe disso e quis deixar esta mensagem aos seus colegas portugueses. Se noutros países já nos respeitam, do que é que ainda estamos à espera em Portugal?

Espalhem a notícia.

Com o que sonha o Cristiano Ronaldo?

Cristiano Ronaldo não sonha, certamente, com comprar o carro ou a casa que sempre quis. Pode ficar assegurado o leitor: o sonho do  melhor jogador de futebol do mundo não é nada material. Ao contrário do que se possa achar, Cristiano Ronaldo não sonha com milhões de euros, mulheres bonitas nem ilhas privadas. Estamos em condições de afirmar com segurança que o CR7 já tem todas as copas, ligas, campeonatos, botas de ouro e bolas de ouro que poderia desejar.

Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka, sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência?

E mesmo sendo abstracto o sonho que o move, não é por isso algo mais comum: podemos também assegurar o leitor de que Ronaldo já tem todo o reconhecimento, fama e adoração possíveis de concentrar na auto-estima de um único ser humano. Não lhe faltará, por outro lado, liberdade: Cristiano Ronaldo já é, individualmente, mais livre de fazer no mundo tudo o que lhe couber no tempo que ainda lhe sobra. Faltar-lhe-á naturalmente a privacidade, mas também não é esse o sonho de Cristiano Ronaldo.

Com o que sonha, então, um homem que já é infinitamente rico, idolatrado, bonito, bom naquilo que faz, livre, saudável e jovem?

Pode parecer uma pergunta estúpida mas, se se prestar atenção, já somos obrigados a conhecer tantos e tão irrelevantes detalhes sobre a vida de Cristiano Ronaldo que mais vale debruçarmo-nos sobre o que realmente importa.

Agora o leitor pode até rir-se, mas é provável que Cristiano Ronaldo sonhe ser imortal. Nada de mais: apenas um sonho à escala da vida que leva. Talvez por isso lhe parecerá tão desproporcional a você, que mora no terceiro andar de um prédio e guarda cupões de descontos mas, lá está, o leitor também não tem museus e estátuas dedicados à sua vida.

Mas Cristiano Ronaldo seguramente saberá que nunca será imortal. Eis a contradição: a divindade com prazo de validade. Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência? Ou será que, pelo contrário, mete no máximo o Wizkid, que está em primeiro lugar do Top+, enquanto bebe o melhor champanhe do mercado e vê os melhores desenhos animados do mercado na melhor televisão do mercado?

Seria simples se o português mais famoso do mundo fosse só esta caricatura, edonista de bolas e átomos, mas Cristiano Ronaldo no fundo é tão humano como nós e, para complicar as coisas, assume publicamente, causas justas e sonhos normais. «Quero ser o melhor pai do mundo», disse recentemente numa entrevista. O problema aqui não é não só que Cristiano Ronaldo parte com uma enorme vantagem sobre todos os outros pais na corrida ao título de melhor pai do mundo; o problema é que o melhor pai do mundo não aceitaria um mundo tão injusto para os outros pais; o problema é que não é possível ser um bom pai, olhando com indiferença para os filhos dos outros.

E escusa de me recordar quantos milhões doou Cristiano Ronaldo a que causas. Não está aqui em causa a bondade de Cristiano Ronaldo nem a utilidade de distribuir a caridade em sacos de restos, entrançando harmoniosamente o biscoito ético com a reprodução da própria injustiça.

Mas afinal qual é o teu problema com o CR7?

Nenhum. O meu problema é convencermos a nossa juventude a querer ser como o Cristiano Ronaldo e a emular os seus sonhos. O meu problema é atomizarmo-nos nos nossos sonhos individuais, na impossibilidade de os atingir e no culto de uma imortalidade breve e ilusória, sem História nem sentido social. Por outras palavras, é urgente temperar o nosso enorme YOLO contemporâneo com um bocadinho de Memento Mori medieval.

Numa sociedade obcecada com o sentido da vida, com a procura da felicidade e que põe os olhos e a fé em cada movimento do Cristiano Ronaldo, da tabacaria, sem metafísica, é no mínimo estranho que a ideia da morte não seja convite bastante para nos fazer reflectir sobre o sentido histórico e social da nossa própria existência.

Longe do mundo e à deriva da História, presos num Truman Show de pobreza e injustiça, qualquer sonho é vão se não se apoiar na razão. Até mesmo os sonhos de Cristiano Ronaldo. Não se trata de renunciar à individualidade, mas sim de galgar socialmente, historicamente, os nosso limites biológicos, integrando-os numa história que dê razão ao que, em última análise, só para os religiosos pode ter sentido.

Que sonho devemos, então, colectivamente procurar? O sonho de sermos seres humanos cultos. Culto não no sentido pretensioso, mas na acepção do cultivo da humanidade, como plasmado na definição de Bento de Jesus Caraça:

«O que é o homem culto? É aquele que:
1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.
Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.»*

Não poderemos sonhar livremente enquanto não compreendermos a posição que ocupamos no mundo em que vivemos. Como Cristiano Ronaldo, podemos saltar, dançar, gritar e correr à vontade dentro do barco, que ele continuará a navegar inexoravelmente ao mesmo azimute. É preciso aprender a enfiar a mão na água, para lhe alterar um pouco o rumo e para que, um dia, os nossos netos deitem mão ao leme.

É que por mais que estejamos convencidos de que vivemos no éter, acima dos assuntos do mundo, independentes dos sonhos alheios, é neste mundo que vivemos. Por estarmos vivos estamos desafiados a transformá-lo. E mesmo que sejamos o Cristiano Ronaldo, um dia, quando menos se espera, morre-se uma morte estúpida, como são estúpidas todas as mortes, e alguém há-de dizer que (como Baltasar) não pôde subir às estrelas, se à terra pertencia.

*Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933)

Liberdade editorial versus liberdade de expressão

“Mas não é por acaso que se vê, de cada vez que se avançam perspectivas para uma beneficiação e elevação dos programas televisivos, que os remédios válidos mostram ser sempre e só remédios de ordem política; só a ideologização do meio técnico pode mudar o seu cunho e a sua direcção. Mas a ideologização não significa “partidarização”; significa apenas imprimir na administração do meio uma visão democrática do país; bastaria dizer: usar o meio no espírito da Constituição e à luz da inteligência. Todos os casos em que a nossa televisão tem dado boa prova de si, no fundo, não foram mais do que deduções correctas deste teorema.” (Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, 1964).
Foi esta semana conhecido o Barómetro de Comentário Político Televisivo Maio 2016, um trabalho do Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL. E vale a pena a sua leitura e análise.

O Barómetro no seu título conclui ainda por “Um quase empate entre a esquerda e a direita”, ora sobre esta conclusão possível, não deixa de ser criticável a introdução de um grau de subjectividade na avaliação e caracterização da representatividade política que eu não subscreveria, embora generosamente entenda a ideia dos autores.

O Barómetro centra a sua análise na representatividade factual e eventual dos partidos políticos no espaço televisivo caso os resultados eleitorais fossem critério de representação nos espaços de comentário político. Assim foram analisados no Barómetro um total de 53 comentadores políticos, dos quais 27 terão filiação partidária conhecida. Também foi analisada a representatividade(no quadro dicotómico esquerda/direita) que poderão ter “personalidades” das quais apenas é conhecido algum apoio eleitoral pretérito ou antiga militância, ou seja, não filiação política actual.

Para ajuda na compreensão deste quadro, que apenas analisa os comentadores com filiação partidária identificada, consideremos a linha do PSD. Este Partido tem 11 comentadores em televisão, e de acordo com a proporcionalidade do seu peso eleitoral nas eleições para a Assembleia da República também teria 11, mas se o critério de selecção fosse os seus resultados eleitorais para o Parlamento Europeu então apenas teria 9.

As conclusões sobre o restante quadro são fáceis de retirar, partido a partido. Há partidos muito sobre-representados como o CDS e o BE(o campeão neste quadro) e outros sub-representados como o PS e o PCP(muito prejudicado, quase clandestino).

Um quadro agravado

O quadro acima refere-se apenas a este mês de Maio mas, salvo uma ou outra alteração muito pontual, é significativo da situação global da representatividade em espaços de comentário político televisivo ao longo do restante ano.

Contudo, o quadro agrava-se se se atender a quadros de representatividade semelhante que se possam estabelecer sobre a restante comunicação social dominante nomeadamente jornais e rádios, entre outros. Aí, e salvaguardando a honestidade do levantamento e da análise, e respeitando igualmente as mais elementares regras da matemática e da proporcionalidade, facilmente se concluiria que no quadro mediático dominante o PCP é absolutamente prejudicado à luz do critério da representatividade eleitoral.

Um problema da Democracia

As conclusões desta análise não serão novidade para muitos leitores do Manifesto 74, contudo será justo recordar que o critério eleitoral não pode nem deve ser o critério para selecção de comentadores políticos, embora também o possa ser. À luz do espírito da Constituição e da vasta legislação sobre o sector(dentro e fora dos períodos de campanha eleitoral), a liberdade de imprensa e a liberdade editorial serão também critérios.

O comentário político saudável pressupõe espírito democrático, a salvaguarda das forças minoritárias, a diversidade e o pluralismo e a assumpção de responsabilidades de todos os intervenientes(até daqueles que dizendo-se independentes no comentário ou no estatuto editorial nunca o são ou foram na prática).

Os perigos(como a formatação de ideias, a mediatização de realidades inexistentes, a construção de resultados eleitorais, entre outros) e o quadro geral cultural, mediático e económico que construiu a situação presente são conhecidos.

Assim, cumpre concluir que a concentração capitalista da riqueza, a concentração nos grandes grupos económicos da comunicação social dominante(televisão, jornais, rádios), a partidarização e ideologização da comunicação social detida pelo Estado, entre outros, são problemas da Democracia que devem ser denunciados e que objectivamente com ela conflituam.

VI Lénine, a caminho de Lisboa

Antes de morrer, em 1924, o revolucionário russo Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lénine, foi vítima de terríveis alucinações. Febril e quase paralisado, recorda a sua irmã Maria, chegou a pedir veneno a Stáline para acabar o suplício. Até aqui tudo é histórico.

Segundo o próprio, em Janeiro desse ano, o médico mandou-o apanhar um comboio para Lisboa, onde deveria ser examinado por um médico famoso. Contudo, ao chegar a Lisboa, Lénine depara-se com um mundo estranho que, dizem os jornais, é 2016. Confuso e frustrado, depois de uns dias a vaguear pela cidade, o líder comunista decide regressar à Rússia. É à espera do comboio, em Santa Apolónia, que o encontramos, humano, lúcido, intempestivo e a lutar para compreender quem é que afinal, no meio desta realidade surrealista, está mesmo a alucinar. É esta, grosso modo, a história da peça de teatro «A Última Viagem de Lénine», que a associação Não Matem o Mensageiro estreia em Outubro, no Teatro da Trindade, quando a revolução russa celebra 99 anos.

Por que razão trazer Lénine a Lisboa? O que diria o revolucionário russo se os fios de Clio se enlaçassem e o comboio o largasse nos nossos dias? Admitiria que a viagem é apenas um delírio febril ou, pelo contrário, diria é o nosso mundo que está louco?

Quando Lénine escreveu as «Teses de Abril», em que defendia a tomada de todo o poder pelos sovietes, o revolucionário Alexander Bogdanov disse tratar-se do «delírio de um louco». A sua própria companheira, Nadejda Krupskaia, escreveu: «receio que Lénine possa ter enlouquecido». E, no entanto, seis meses depois, os bolcheviques tomavam o poder e começava a mais heroica aventura da História humana. Lénine não estava louco.

Os grandes protagonistas da História não são os indivíduos, mas as classes sociais. Mas para que esta apreciação materialista nos seja útil é necessário imprimir ao estudo da vida social, único critério da verdade histórica, um dispositivo dialéctico que analise a relação entre as classes e os indivíduos que as lideram. Da mesma forma que a realidade pode e deve ser estudada de forma dialéctica, de fora para dentro, do superficial para o complexo e do aparente para o sistemático, também o papel do carácter e da personalidade dos líderes históricos deve ser considerada da classe para a família, da consciência para a acção, da atitude individual para as contradições entre a atribuição e desempenho de papeis político-sociais.

Esta proposta exige necessariamente a capacidade de desligar a avaliação política da avaliação histórica (quantos políticos anti-comunistas agradecem, mesmo que secretamente, a Estaline pela derrota do III Reich?) e as considerações morais das considerações sociais (quantos anti-comunistas reconhecem que a pobreza aumentou na Roménia desde o fim do socialismo?).

Longe da citação gratuita e descontextualizada e da cor de bronze das estátuas rectilíneas, há um ser humano extraordinário, cujo génio reduz ao ridículo o encómio, a edulcoração e a calúnia. Na sua vida como na sua obra tudo em Lénine é verdadeiramente revolucionário, avançado e destemido.

Mas não precisamos só da obra de Lénine, precisamos da sua maneira de ser. Precisamos do homem extraordinariamente humilde, que gostava genuinamente de falar com os trabalhadores e de aprender com eles. Precisamos do homem que era capaz de criticar rispidamente os seus adversários e vencê-los pela palavra. Precisamos do homem capaz de trabalhar simultaneamente com Stáline, Kollontai, Trótsky, Radek, Zinoviev, Kamenev, Bukharin e Luxemburgo.

Precisamos do homem de sensibilidade fina, que chorava a ouvir Beethoven e que memorizou o Germinal de Zola. Precisamos do homem que ia «caçar» e não disparava porque, admitia, «a raposa era demasiado bonita». Precisamos do homem que, em 1917, legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo e empossou um ministro assumidamente homossexual. Precisamos do homem que uma noite dançou na neve porque a Revolução tinha vivido mais um dia que a Comuna de Paris.

Precisamos de um homem que, como todos, também cometeu erros. Precisamos do homem que os companheiros tiveram de segurar, porque chorava tanto que quase desmaiava, no funeral de Inessa Armand.

Precisamos do refugiado e do preso político que desprezava o luxo e que, conta Gorky, mesmo nos momentos mais duros era capaz de se rir da vida à gargalhada.

Precisamos do homem que admoestou o funcionário que um dia lhe aumentou o salário e que, quando um outro dia, o segurança, que não o conhecia, lhe pediu a identificação, obedeceu e foi a casa buscar o cartão de Presidente do Conselho.

Precisamos do homem que compreendeu quando a tarefa imediata não era construir o socialismo e quando a tarefa era tomar o poder. Precisamos do Lénine que viveu mesmo, do Lénine que vive e do Lénine que viverá. Precisamos do Lénine humano.

A peça que chega em Outubro é um texto original e um trabalho biográfico singular sobre o fundador da URSS que obrigou ao estudo das principais biografias e obras do personagem histórico. Num texto cómico e acessível, confundem-se mais de cinquenta citações da sua obra e de dezenas de cartas, inéditas em Portugal e recentemente divulgadas aquando da abertura dos arquivos do PCUS.

Como se trata de um projecto sem financiamento público, em breve voltaremos a pedir a solidariedade de todos.

Sê bem-vindo a Lisboa, Volodya.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos levava uma vergonha infinita

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, não levava “todas as minhas jóias portuguesas” nem “os meus óclos de sol”. Não, se eu fosse a Joana Vasconcelos procurava antes ajudar esta gente a fazer as malas. Porque eles obviamente não sabem.

Dir-lhes-ia que se é para viajar assim, sem ler as críticas dos hotéis, sem “o meu caderno para poder fazer os desenhos”, sem dinheiro no cartão para gastar em Paris, mais valia ficar em casa.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e visse, como no poema de António Gedeão, “o sangue gorgolejar das artérias abertas e correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas” e visse “as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, órfãs de pais e de mães, andarem acossadas pelas ruas como matilhas de cães” e visse “o grande pássaro de fogo e alumínio cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas amassando na mesma lama de extermínio os ossos dos homens e as traves das suas casas”, eu agarraria “nas lã e na agulha, para qualquer eventualidade” e faria uma obra de arte inócua: qualquer coisa não tivesse nada a ver com os vivos; qualquer coisa estéril e senil, como um naperom gigante ou um cacilheiro em filigrana ou uma pirâmide de plástico ou qualquer coisa que dissesse, assim bem alto “o meu reino não é deste mundo” ou, simplesmente, “estou-me a cagar”.

É que se eu fosse a coqueluche travestida de artista da direita neoliberal, não poderia, mesmo que quisesse, saber como é. Se a minha carreira artística tivesse sido um passeio de mãos dadas com os responsáveis pela destruição dos países de onde vêm os refugiados (que nem turistas sabem ser), eu levaria comigo uma absoluta indiferença pela vida de quem é obrigado a deixar tudo: a família, a casa, a segurança, e também os “óclos” de sol, “as lãs” e o i-pad, para saber o que se passa no mundo.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não poderia parecer solidária mesmo que o piano na música de fundo mo exigisse. Porque, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, saberia que só se pode ser solidário com quem partilha, por mais ínfima que seja a partilha, da nossa condição.

É que se eu fosse a Joana Vasconcelos nunca, nunca (!) estaria naquela condição porque estaria sempre do outro lado: do outro lado das jaulas de arame farpado onde dormem as crianças que não podem passar; do outro lado da linha mediática que separa, por classes, os refugiados, migrantes, os viajantes e os turistas; do outro lado da Europa fortaleza; do outro lado da Comissão Europeia; do outro lado da arte, com o bricolage anabolizante e hiperbolizante; do outro lado da barricada.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não valeria a pena pedir-me para, como no poema, “lutar até ao desespero da agonia” nem para escrever “com alcatrão nos muros da cidade ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA”. Mas, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, como, de uma certa forma mais demorada, todos nós fugimos, teria que levar comigo, para o resto da vida, uma vergonha infitina.

“Ucrânia: as máscaras da revolução”



“Passaram-se dois anos desde o golpe, mas, enfim, algum veículo ocidental decidiu abdicar da propaganda odiosa das agências de notícias internacionais e de fato fazer jornalismo em relação à Ucrânia. Trata-se do documentário “Ucrânia: as máscaras da revolução” – disponível, por ora, somente em inglês, alemão e francês.

Realizado pelo jornalista Paul Moreira e exibido pela emissora francesa Canal+, o documentário já é uma realização memorável simplesmente por ser francês – afinal, tudo o que se tem dito nos últimos anos contra o regime de Kiev tem sido descartado, por neoliberais, pretensos democratas, fascistas e até mesmo ditos socialistas confusos como “propaganda russa.” Para além disso, é importante notar também que Paul Moreira expressa, de forma bem clara, não ser nenhum tipo de radical pró-russo, mas um liberal, com uma visão política ocidental, que se preocupa com a “democracia” na Ucrânia – inclusive chega a dizer, ao introduzir sua reportagem, que vibrava pelos manifestantes que ocupavam Kiev e confrontavam a polícia em 2013, ao assistir às imagens pela TV.

O tema central da reportagem é a forma como os fascistas tomaram o país, se tornaram uma força política inquebrável, organizaram batalhões militares, de como influenciam a política – quando, é claro, não ocupam cargos. Mostra de maneira aberta e concreta a violência dos fascistas ucranianos tanto ideologicamente, nas noções abertamente xenofóbicas e genocidas, como em suas práticas – bloqueios à Crimeia, intimidação por meio da força, organização e treinamento de milícias, além de assassinatos em massa. E por fim demonstra o que muitos, inclusive o Presidente Poroshenko, têm tentado negar a todos os custos nos últimos anos: os fascistas não são um setor radical à parte do governo golpista, mas uma célula chave dele, incorporada em cargos, na Assembleia, etc.

É claro, há problemas no documentário: trata muito superficialmente do papel que os Estados Unidos tem tido na Ucrânia, como se a política dos falcões fosse somente a de ignorar os fascistas – quando, de fato, financiaram e apoiaram o golpe abertamente.

Mas é uma obra importante por um simples motivo: o espaço que dão a fascistas, políticos ucranianos e figuras do alto-escalão americano é como uma corda. Com sua capacidade intelectual de sempre, se enforcam em frente às câmeras, imaginando levar a cabo grandes proezas diplomáticas.

Pedro Marin foi editor da Revista Opera, que contou, em 2015, com um correspondente na Ucrânia, e atualmente escreve para o site Global Independent Analytics.”
Via Diário Liberdade

A marrar contra as paredes

Desenho retirado da reportagem gráfica do blogue,Carbono e Outros. 1, 2, 3, 4

“Aleksei: “É o fim da propriedade privada: vai ser maravilhoso!” Pobres de nós, os bandalhos de terceira! Já que estamos privados do único bem terrestre – a propriedade –, então dá jeito cantarem-nos essas cantigas. Mas mesmo em sonhos continuamos aferrados ao que é nosso: “a minha trouxa, as minhas peúgas, a minha Maria”! O “meu”, que lá nisso nós somos iguaizinhos aos animais. Estás a ver, vocês andam a fazer propaganda a animais! Querer mudar os homens é como marrar contra uma parede: estão à espera de enganar quem?

Comissária: Achas que contra o “eu” e contra o “meu” não há nada a fazer?

Aleksei: O bem-estar egoísta, a propriedade privada, o salário, o pilim, o bónus, o lucro! Desde que o Homem é Homem que esbarramos contra esse muro! Por todo o país hão-de ser sete cães a um osso! Matilhas de proprietários engalfinhados a espumarem por um frango raquítico. Trazemos este fado dentro de nós.

(Cala-se de repente, como se tivesse sido arrancado a uma visão.)

Comissária: Muito bem, a Humanidade é ainda imperfeita – e é melhor assim. Só quer uma coisa: ter um pouco menos de fome. Basta uma galinha para virar os homens uns contra os outros. Fecham-se em casa, barricados com a sua galinhita bem segura… E não vêem as manadas de vacas gordas que lhes passam mesmo diante do nariz. E tu vês isso tudo e não queres saber. Deixas andar e ainda te gabas. É preciso gritar aos ouvidos de cada um: “Estás a ficar sem a tua parte! Estás a ser roubado!”. E se mesmo assim ele ainda não entende, então é preciso agarrá-lo pelo toutiço, a esse piolhoso, levantar-lhe a cara da lama e dizer-lhe: “Queres viver e comer melhor? Queres lavar-te pela primeira vez? Queres desenvolver os miolos? Queres amar?… Então levanta a cabeça, porra! Enfrenta o inimigo, olhos nos olhos, até à morte, se for preciso. Entra no combate – e respira! Percorre a Terra: ela pertence-te! Abandona a noite em que te fecharam e grita, a plenos pulmões: “Viva o sol, e viva a vida digna que eu, enquanto Homem, posso ter!”.

(Silêncio)”

Excerto do texto de “A Tragédia Optimista”, de Vsevolod Vichnievski, tradução de António Pescada. Em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, até ao próximo dia 31 de Janeiro.

Nota: ontem, domingo, dia de eleições, a parede do Teatro tinha sido pixada. Alguém escreveu, “Podem limpar a História mas não podem apagar a nossa memória. Viva a Anarquia!”
Acho que é a primeira vez que participo num espectáculo em que alguém se deu ao trabalho de mostrar publicamente que o nosso trabalho o fez pensar e reagir.
Como actor, sinto que não pode haver maior felicidade e até finalidade no nosso trabalho do que esta.

A música que não cabe nas televisões


Tão longe dos holofotes dos media como dos top musicais, há quem faça da música parteira do mundo novo. São os netos de Woody Guthrie, de Victor Jara e de Zeca Afonso. Ao contrário da pop não é a forma que determina a eficácia do disparo e até o alvo é diferente. Da garganta e dos instrumentos, é o conteúdo que funciona como gatilho. Ninguém se importa com o penteado do ‘O Zulù, uma das vozes dos 99 Posse, como ninguém se importa com o que veste o Alex dos Inadaptats. As ideias acima da estética. Não são alvo da histeria adolescente e a sua obra não caminha aos ombros da indústria discográfica.

Esta é uma realidade que se atravessa ao longo do espectro artístico. A pornografia dos valores está presente do cinema à música e da arquitectura à literatura. A arte como explicou Vladimir Maiakovski não é um espelho para reflectir o mundo. É antes um martelo para forjá-lo. É isto que não interessa aos que comandam os destinos das nossas vidas através do poder económico e financeiro. A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Nada de novo. O estrelato está reservado para quem não questiona o sistema e, sobretudo, para quem o defende atacando as alternativas criadas. Para os outros, há o alçapão da história. Que é escrita pelos vencedores. Até começar a ser escrita por nós.