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Rayo digno [actualizado com um post-scriptum]

O barulho das luzes, o som dos euros em movimento e a doentia fixação das massas adeptas nos resultados das suas equipas, que lhes garantem periódico consolo para vidas de trabalho trucidadas pela desigualdade e pela exploração capitalista, impedem muitos de compreender que as “SAD” nasceram do seio dos clubes, e que os clubes nasceram no seio de comunidades, representando digníssimas formas de associativismo popular que se foram modificando e, de certa forma, corrompendo ao longo do tempo. É por isso com comoção que de tempos a tempos dou de caras com actos de profunda dignidade e regresso aos valores fundamentais dos emblemas, entretanto transfigurados em “marcas” e, nalguns casos, sociedades cotadas em bolsa.

O Rayo Vallecano é um pequeno clube madrileno, emblema maior do bairro de Vallecas, baluarte durante longos anos da orgulhosa classe operária da capital espanhola. Enfrentando as dificuldades reservadas aos pequenos clubes sediados em cidades onde gigantes comerciais e financeiros absorvem atenções, recursos e favores, o Rayo acabou por ser vendido em 2011 a um empresário que capturou, beneficiando das circunstâncias do emblema de Vallecas, a quase totalidade das suas acções. Acontece que, contrariamente ao que muitos previram, o Rayo não perdeu identidade. O povo de Vallecas tem resistido duramente a sucessivas tentativas de transformação do Rayo – a alteração do emblema do clube foi um dos exemplos mais simbólicos e significativos -, não deixando de manifestar permanentemente as suas posições sobre a vida da equipa de futebol profissional. É o que acontece nos dias que passam relativamente à contratação (por empréstimo) do ucraniano Roman Zozulya.

Política e futebol andam desde sempre de mãos dadas. Os clubes, mesmo aqueles que se transfiguraram e descaracterizaram, são expressões associativas originalmente enraizadas nas comunidades de origem, sendo que estas os moldam de acordo com perspectivas, experiências e valores diferenciados, realidade que ganha especial importância no associativismo local, ou de classe. No seio do actual Estado Espanhol é bem conhecido o exemplo particularmente evidente do Athletic Club (de Bilbao), mas outros existem igualmente dignos de nota. De entre estes, o Rayo será um dos mais exemplares, pela ligação à comunidade e à consciência de classe que ainda sobrevive em Vallecas. Não surpreende pois que a chegada de um jogador com simpatia pela extrema-direita fascista/banderista ucraniana cause nas gentes do Rayo a mais viva repulsa, independentemente da sua utilidade futebolística para a equipa, actual décima-sétima classificada da Liga123 (a segunda-liga espanhola).



A reacção dos adeptos do Rayo à chegada de um fascista ucraniano não é uma expressão de anacrónica visão de um futebol que morreu. Pelo contrário, é uma lufada de ar fresco num contexto desde há muito dominado pela substituição dos valores pela ditadura dos resultados. Financeiros, sobretudo.

post-scriptum: De acordo com o jornal “As”, Zozulya já regressou a Sevilha, vencido pela unidade anti-fascista dos adeptos do Rayo. Trata-se de uma lição notável sobre o poder das massas adeptas dos clubes sobre o destino das associações que construíram, e que não são propriedade de ninguém, muito menos das suas direcções, “accionistas” e “donos”.

Rio2016

Tenho grande dificuldade em reflectir de forma racional sobre os JO. Por razões de natureza pessoal, que não vou detalhar neste espaço, e por razões ideológicas, que afastam a minha visão dos Jogos daquela que é dominante no conjunto não apenas da sociedade portuguesa mas também, temo bem, por esse mundo fora.

Cresci a ver os Jogos, a treinar ao lado de atletas olímpicos, a ambicionar participar nos Jogos e a beber tudo aquilo que, há vinte anos, a televisão, os jornais e as revistas davam a conhecer sobre o mais importante evento desportivo-competitivo do calendário da maior parte das modalidades que foram até há alguns anos atrás predominantemente amadoras.

E porque vivi por dentro, de certa forma, a obsessão olímpica sinto-me sempre bastante dividido na hora de olhar os vários Jogos que existem dentro dos Jogos. Tenho uma opinião sobre os JO enquanto evento, hoje totalmente desligado do chamado “espírito olímpico”, e outra bem diferente sobre a generalidade dos torneios olímpicos, que são a essência daquilo que resta do movimento olímpico acarinhado por atletas, treinadores e comunidades desportivas nacionais.

Os JO de Verão 2016 estão a terminar – seguem-se os Paralímpicos (ou Paraolímpicos) – e neste momento já é possível perceber que a missão olímpica portuguesa obteve resultados magníficos, traduzidos através não apenas de uma medalha e vários diplomas olímpicos mas também – e na minha modesta opinião, sobretudo – da diversificação das representações olímpicas nacionais em modalidades e disciplinas fundamentalmente individuais. Da missão olímpica portuguesa fizeram (fazem) parte atletas distribuídos por modalidades relativamente às quais a generalidade dos portugueses desconhece em absoluto a realidade competitiva nacional. Quantos de nós conhecem verdadeiramente o que se passa em Portugal ao nível do Badminton, da Ginástica Desportiva, da Canoagem ou do Hipismo? O meu maior contentamento é ver uma representação olímpica portuguesa envolvida em vários torneios e, dentro destes, em diversas provas, especialidades e distâncias.

Portugal não tem uma tradição relevante de prática desportiva não federada. O nosso número de atletas federado é – sejamos honestos – ridículo e mal distribuído por modalidades e federações. O reduzido campo de recrutamento dos clubes e federações conduz aliás à disputa de atletas, realidade que ilustra bem as fracas possibilidades que o desporto nacional ainda vai alimentando relativamente à possibilidade de disputar de forma continuada resultados mediaticamente relevantes nas provas para as quais todos os olhos se voltam de tantos em tantos anos: Europeus, Mundiais e, naturalmente, Jogos Olímpicos.

Por outro lado as condições financeiras e materiais ao dispor dos atletas federados são na generalidade das modalidades risíveis, quando comparadas com aquelas existentes nos países que lideram os chamados “medalheiros” olímpicos. Um bom exemplo desta realidade diz respeito à natação, modalidade muito mediatizada no panorama olímpico, mas que em Portugal conheceu até há poucos anos atrás um atraso ao nível das infraestruturas que deveria envergonhar um país que cobra constantemente resultados para os quais pouco ou nada contribui ao longo dos anos de preparação de cada ciclo olímpico.

Nada do que escrevo é novo nem original. Aliás, houve quem a partir do Rio de Janeiro o lembrasse através das câmaras da RTP: “querem resultados? dêem-nos condições!”. Não são tretas, desculpas de mau pagador, queixumes sem fundo de verdade; pelo contrário: os atletas nacionais registam de forma geral desempenhos comparados muito superior às condições (também comparadas) de que dispõem. Acontece que temos uma tendência natural para nos colocarmos num plano de desenvolvimento geral e de capacidade desportiva que não encontra correspondência com as realidades de um e outro indicador. E grandes expectativas geram não raras vezes brutais trambolhões.

O país coloca-se às costas de anónimos trazidos para a ribalta mediática durante quinze dias, e perante resultados que não compreende solta a sua boçalidade de algibeira em cima daqueles que tudo deram – e de que tudo se privaram… – nas respectivas competições. Portugal ganha, fulano ou fulana perde, “falha a final”, “desilude” quem se iludiu com base em consultas apressadas de notícias descontextualizadas, pesquisas no Google, vídeos no Youtube. Depois a coisa passa para a generalidade de nós, ausentes do ciclo olímpico entretanto iniciado, mas não passa para atletas cujo impacto físico, social, psicológico e por vezes financeiro da sua entrega à competição é muitas vezes um verdadeiro triturador de vidas.

Os Jogos do Rio foram uma notável demonstração da vitalidade do desporto nacional, contra todas as expectativas, contra todas as barreiras, obstáculos e deficiência de condições. Não me resta, relativamente à representação olímpica nacional, nada que não seja gratidão e orgulho. Estão de parabéns os atletas, os seus clubes, treinadores, dirigentes (quase todos amadores, quase todos sacrificando a sua vida pessoal por amor ao desporto) e, de certa forma, Abril, o momento em que a democracia chegou também ao desporto.

Seja como for não tenho – nunca tive – a obsessão do medalheiro, esse entretém mediático que desfigura o olimpismo, e que arrasta tanta gente para reflexões apressadas, injustas, descontextualizadas e ultra-competitivas acerca de um evento que deveria ter no ouro, na prata e no bronze um pormenor e nunca a sua essência fundamental.

Alerta! Alerta antifascista. Não passarão.

Em Março deste ano, por altura de um jogo da “Liga dos Campeões” entre o Atlético madrileno e os holandeses do PSV, foram divulgadas imagens de adeptos holandeses que em pleno centro da capital espanhola atiravam moedas a um grupo de “mendigos” (que algumas fontes identificaram como refugiados). Semelhantes imagens repetiram-se hoje, em Lille, tendo adeptos ingleses como protagonistas e um grupo de crianças como vítimas. Em Lille, como aliás em Madrid, habitantes da cidade sentiram-se indignados e protestaram perante as gargalhadas, a indiferença e gozo alarve da mole embriagada pelo álcool e pela sensação de superioridade face a todos aqueles diferentes de si. O Euro2016 assume-se cada vez mais como a indesmentível montra da pobreza moral da Europa.

Lille foi de resto o palco de novos confrontos, que se somam a escaramuças e situações de maior gravidade ocorridas um pouco por todo o território gaulês. Na origem de todas elas estão, mais do que países ou nacionalidades, grupos fascistas organizados, compostos não raras vezes por criminosos bem treinados para espancar com a máxima brutalidade. França é hoje o parque de diversões de neonazis húngaros, ingleses, alemães, polacos, russos, albaneses, ucranianos, unionistas da parte ainda ocupada da Irlanda. O nazi-fascismo troglodita mostra nas cidades francesas as suas habilidades criminosas, demonstrando a sua capacidade para gerar terror, intimidação, violência gratuita e, noutros casos, direccionada.

Naturalmente que neste contexto é absolutamente desonesto o aproveitamento que alguns fazem para, sem as soqueiras no bolso, concretizarem no plano mediático a outra parte do trabalho iniciado pelos criminosos à solta em território francês. Intervenções como a de José Milhazes na SICn, referindo que os “comportamentos dos adeptos (russos) são reflexo de uma “campanha anti-ocidental” na Rússia”, não podem ser analisadas nem entendidas fora de uma campanha russófoba com vários episódios – que incluem não apenas toda a mistificação em torno das situações na Síria, Crimeia e no Donbass mas também pequenos incidentes como aquele relativo à passagem de aviões de guerra russos junto do território portugueses, como se daí resultasse alguma ameaça real à segurança nacional… -, e que tem tido no próprio Milhazes um dos principais rostos mediáticos.

O que se passa em França pouco ou nada tem a ver com uma suposta “campanha anti-ocidental na Rússia”. Milhazes sabe-o mas prefere outra abordagem mais ajustada à narrativa previamente definida. Ou então, o que é de certa forma pior, ignora-o; e desta forma actua como papagaio de repetição de uma narrativa que não tem origem na sua própria capacidade de fantasiar quando o assunto é a Rússia à qual tudo deve.

O fascismo das ruas de Lille, Paris ou Marselha é o rabo de fora que denuncia um corpo maior composto por gente engravatada e, na aparência, bem falante. O fascismo no Euro2016 é a dimensão folclórica – ainda que estupidamente brutal – de outras abordagens ainda mais perigosas, protagonizadas por aqueles que sabem bem ser o neonazismo e os seus rufias uma cartada sempre na manga de um capitalismo decrépito que vai abrindo brecha atrás de brecha no imenso edifício político-ditatorial, anti-cultura, económico-financeiro, anti-popular e anti-ambiental que dá corpo à sua dominação planetária.

Confundir fascistas de uma nacionalidade com uma pátria inteira não é apenas um erro; é antes de mais batota propositada. Limitar a violência de um Europeu perfeitamente esclarecedor acerca da força da extrema-direita troglodita (apoiada a partir de gabinetes “insuspeitos”, nos centros políticos, económicos e mediáticos) aos russos não é apenas um disparate: é um insulto ao povo que neste mundo mais se bateu pela Paz, pagando por ela – para si e para os outros – o mais alto preço (quase 30.000.000 de mortos entre 1941 e 1945). Ignorar que a violência entre “adeptos” é apenas na aparência um fenómeno particular das grandes competições de futebol é estúpido, mas muito conveniente.

Alerta! Alerta antifascista.
Não passarão.