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Marielle, Rosa, Catarina, Iñez, Alice

A lista é infindável. As mulheres executadas porque defendem ideais que combatem a ordem vigente, rompem com o domínio do poder capitalista cujos instrumentos passam pela subjugação da mulher, da mulher negra, da mulher operária, da mulher reivindicativa, da mulher que luta contra um conceito de uma sociedade patriarcal que as quer silenciadas e no lar.

A morte prematura com as execuções de Rosa Luxemburgo, de Catarina Eufémia, as greves de Alice Paul, a morte de Inez Milholland após um comício em que defendia igualdade no direito de voto para as mulheres – todas, independentemente da etnia e da classe social e a execução de Marielle Franco, activista, feminista, eleita, mãe, como se descrevia.

Não que a vida de uma valha mais do que as outras, que a sua história ou a sua luta seja mais ou menos importante, nem é sequer mensurável, a verdade é que o actual momento político e a violência brutal e bárbara no Brasil, perpetrada pelo poder corrupto e golpista, leva a que as manifestações de solidariedade sejam muito mais do que isso. Sejam um verdadeiro dever que cada uma de nós sente. E digo uma, porque é efectivamente o momento das mulheres perceberem que a ilusão da emancipação e da inexistência da exploração é um mito fofinho que nos entra pela casa diariamente.

Vergonhosamente – sim, porque as mulheres não são todas iguais e não defendem todas a mesma coisa – na lista que subscreve esta homenagem, que comporta em si o grito de que todas as mulheres, particularmente as mulheres negras e pobres, que lutam pelo seu lugar, pela sua representação enquanto negras, operárias, pobres, estão nomes cujas subscritoras me envergonham, à falta da sua vergonha na cara. Mulheres que aprovam o golpe no Brasil, que chamam terrorista a Dilma (e quem sabe chamariam a Marielle Franco), que defendem o privilégio branco e a sua manutenção, que acham que é por quotas que isto lá vai (quando a própria Marielle Franco tantas vezes o rejeitou), que legitimam políticas públicas racistas e opressoras da classe trabalhadora e que se acham no direito de dizer que homenageiam a vítima de uma execução pelo simples facto de serem mulheres.

Não é isto que as torna feministas, que as torna titulares deste grito que não é um lamento. É de luta. É de despertar. É de continuar o trabalho de alguém que nos era perfeitamente desconhecida até há uns dias e agora nos convoca a sair à rua. Com motivos que são comuns a quem luta pela igualdade. E se umas defendem o seu direito à propriedade privada, à manutenção dos seus privilégios de classe, à persistência do patriarcado, à opressão das trabalhadoras, nós defendemos a nossa representação em todos os patamares da vida política e social, a igualdade salarial, o fim do racismo e da discriminação, o acesso às políticas de educação, saúde, habitação para todos, o direito ao trabalho com direitos. E nós somos mais. Muitas mais.

Sempre fomos e é por isso que nos matam. Mas hoje todas estas mulheres vivem na nossa voz. Saibamos, pois, sair à rua, mobilizar as mulheres para as greves (e motivos não faltam), exigir o fim das discriminações, a participação, a representação, a igualdade.

Presente. Sempre.

A revolução tem voz de mulher

Avessas à ideia de que a guerra é coisa de homens, combateram durante mais de meio século nas selvas e montanhas da Colômbia. São milhares, representam quase metade dos integrantes da mais importante guerrilha latino-americana e lutam pela paz e pela justiça social. As combatentes das FARC-EP levam a revolução na voz, são feministas e não têm dúvidas. Não há poder que se possa tomar sem a participação das mulheres.

Guerrilheiras farianas

São três da tarde. Dentro do jeep resiste-se à inclemência do calor e aos sobressaltos da estrada de terra batida. Ao longe, entre as montanhas de Santa Marta e a cordilheira andina, vê-se o primeiro de um número infindável de postos de controlo do exército. Só acabam um quilómetro antes do acampamento das FARC. Centenas de soldados depois e com gincana à mistura, surge a primeira mulher armada e não pertence às forças armadas colombianas. É guerrilheira.

Atrás do sorriso da combatente fariana, há uma autêntica cidade levantada à força dos braços de quem constrói a luta de todos os dias. É Tatu, outra «camarada», como se tratam todos aqui, que fica responsável por mostrar o acampamento. Caminhando pelas ruas dos que projectam o futuro de um mundo melhor, não se fica indiferente ao formigueiro humano que faz palpitar este pedaço de floresta. E também à quantidade de mulheres.

Sentada, ao lado da kalashnikov, no cambuche onde dorme todas as noites, Tatu conta ao Sermos Galiza por que decidiu entrar muito jovem nas FARC: «Eu via a vida das mulheres à minha volta e sentia que não queria aquilo. Não me queria sentir obrigada a ter um marido, a ter filhos, a levar uma vida miserável em que a minha opinião não contasse para nada». Para a guerrilheira de 35 anos as FARC eram um espaço de liberdade. «Eu via-as poderosas, combativas e conscientes do que queriam. A minha entrada foi uma questão de tempo», explica.

Também Maria quer que se saiba por que entrou na organização guerrilheira. Enquanto limpa uma pequena casa, quase em ruínas, a única existente no acampamento, a combatente que leva uma t-shirt desportiva do Junior Barranquilla conta a sua história. Explica que entrou nas FARC há 17 anos e que «não tinha outra opção». A miséria e a pobreza traçaram o caminho: «a minha família não tinha condições económicas e decidi lutar por um país com oportunidades para todos». Maria espera que o filho pequeno não tenha de viver o mesmo e mostra-se expectante com o processo de paz. Gostava de poder estudar comunicação social e desenho gráfico mas não deixa lugar para dúvidas: «Naturalmente, continuarei a participar na luta política porque muda a forma mas não muda o objectivo de construir uma Colômbia justa, socialista e soberana».

«Olhe, jornalista, estou a ler este livro. Fixe o nome: Últimas notícias da guerra. É de um colega seu, Jorge Enrique Botero», quem o diz é um homem vestido à civil que prefere não ser identificado. Soubera que alguém andava a interrogar por que aderiam as mulheres às FARC e meteu conversa: «Esta é a história verídica de uma guerrilheira que fugiu de casa ainda adolescente. A mãe era dona de um bordel numa pequena aldeia e o padrasto tentara violá-la várias vezes. Uma noite, esperou-o na cama e esfaqueou-lhe a barriga. Depois escapou-se e entrou nas FARC». Com ar sério, deu a sua opinião de que para muitas mulheres a entrada na guerrilha não é uma opção. «É talvez a única via para fugir de uma vida miserável num bordel ou a apanhar pancada do marido. E aqui sentem que lutam para que todas as mulheres não tenham de fazer essa escolha. O mundo tem de saber isto», rematou.

«Tente violá-la»

Os oligarcas mandam, os jornalistas apontam e os soldados disparam. Durante anos, o conflito que se travou nas montanhas despertou a guerra mediática para forjar uma opinião pública que sustentasse a ofensiva brutal que se desatou contra este grupo armado sobretudo na última década e meia. A mais importante das ideias veiculadas sobre as FARC foi a de que se tratava de um grupo de narcotraficantes e isso permitiu isolar a guerrilha internacionalmente. Mas outra das informações frequentemente veiculadas em reportagens acusava-os de tratar brutalmente as mulheres. Desde supostos haréns de guerrilheiras que tinham de fazer favores sexuais a comandantes, a violações e abortos forçados.

Inty Maleywa é provavelmente uma das artistas mais conhecidas das FARC. Os seus traços ilustram muitos dos desenhos que retratam o imaginário guerrilheiro e a sensibilidade das suas mãos já encheram exposições em vários pontos do país. Ao contrário da maioria das mulheres e homens, camponeses, que se tornaram guerrilheiros pela sua condição de miséria, explica que estudou na universidade e que depois decidiu pegar nas armas.

Questionada sobre os haréns e as violações, o rosto de Inty fecha-se e a voz endurece. Fixa os olhos e conta a história de um jornalista que há anos lhe fez a mesma pergunta. «Está a ver aquela guerrilheira ali ao fundo com uma kalashnikov? Vá e tente violá-la», respondeu-lhe deixando-o calado. É que para a artista plástica não faz sentido algum acreditar em tal mentira. «Mas se fossemos violadas e maltratadas alguma vez nos dariam armas para as mãos? É um absurdo. A violação nas FARC está prevista no regulamento interno com o fuzilamento para quem a cometer.»

Não sabe se são os homens no poder ou se são os homens nas redacções, ou ambos, que não conseguem aceitar que milhares de mulheres colombianas tenham decidido entregar, livremente, a sua vida à luta por um mundo diferente. É que aqui, explica, não há diferenças entre elas e eles. Anedoticamente, lembra quando a mãe foi a um acampamento visitá-la pela primeira vez. «Chegou e abriu a minha mochila. Queria saber se era verdade que nós estávamos obrigadas a levar a roupa dos comandantes», ri-se.

8 de Março

Meia centena de guerrilheiras vestiu o melhor dos sorrisos para desfilar de fuzil ao ombro. São mulheres que marcham sob a orientação de três videógrafas. O objectivo é lançarem uma mensagem à Colômbia e ao mundo no Dia Internacional da Mulher. Enganam-se várias vezes e riem-se muito. A mais velha das combatentes olha para a câmara e explica a importância da participação das mulheres na vida política e social do país e a urgência de se somarem à luta pela paz com justiça social. Em coro, terminam o vídeo com um grito de punho cerrado: «Que vivam as mulheres!»

Fechada num automóvel que acaba de chegar ao acampamento, Virgínia tenta fugir do ruído para gravar. «É a minha voz que vai aparecer no vídeo», explica enquanto limpa o suor da testa. A combatente de 26 anos revela que é de Barranquilla e que estudou filosofia na universidade. Durante vários anos deu aulas como professora em diferentes institutos. Agora, é uma das locutoras da rádio clandestina Cadena Radial Bolivariana. «Comecei a fazer militância estudantil e ganhei consciência política para os problemas do país. Um dia descobriram que colaborava com as FARC e tive de vir para as montanhas», conta.

Para as FARC, o 8 de Março não é uma data qualquer. É uma das mais importantes do calendário. Todos os anos, mesmo nos tempos mais duros, celebram a data e este não é excepção. Enquanto dezenas de guerrilheiros ensaiam um espectáculo de cumbia, outros preparam uma obra de teatro que retrata a opressão que vivem as mulheres.

A meio ano da data em que se prevê a entrega total das armas à ONU, há guerrilheiras que não tiveram outra opção senão pegar em armas no princípio da adolescência. Na Colômbia, sete de cada dez mulheres sofreram ou vão sofrer algum tipo de agressão na sua vida. Segundo a Defensoria del Pueblo, em cada dia, 38 são violadas. Só nos últimos cinco anos, 8 mil mulheres foram assassinadas revela o Centro de Referencia Nacional de Violencia. São números assustadores. A transição para a vida civil pode representar um duro embate para estas guerrilheiras que cresceram longe da realidade em que qualquer mulher pode ser vítima de assassinato, violação e de agressão.

Até para homens guerrilheiros como Yesid que não serão alvo dessa barbárie. No seu cambuche, escreve um texto sobre a luta feminista e explica que é para expor num painel que vai estar à disposição para todos os materiais que estejam relacionados com o tema. «Também vou participar na peça de teatro, vou fazer de mulher», revela. Questionado sobre se se sente cómodo para assumir o papel de mulher, o jovem guerrilheiro responde com um olhar interrogativo: «Como assim? Por que não havia de me sentir cómodo?».

[reportagem publicada no jornal Sermos Galiza]

Dia Internacional da Mulher Trabalhadora

Comemora-se hoje o 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Fiz uso no título original desta data— Dia Internacional da Mulher Trabalhadora — pois é bom recordar que esta comemoração, iniciada em 1909, teve a sua origem no seguimento de lutas laborais das mulheres e foi impulsionada por mulheres socialistas, como Clara Zetkin e Alexandra Kollontai, como um dia de luta por melhores condições de vida e trabalho das mulheres, pelo direito de voto, pela igualdade entre homens e mulheres, e pelo socialismo.

Em Agosto de 1910, na Segunda Conferência de Mulheres Trabalhadores, Zetkin propôs celebrar um dia, cada ano, em todos os países, sob o lema «O voto das mulheres irá unir a nossa força na luta pelo socialismo». Seria um dia focado nas mulheres, nas suas lutas específicas, mas não desligado nas questões sociais e políticas mais alargadas. Kollontai explica-nos que a data inicialmente escolhida foi o 19 de Março, evocando a revolução de 1848 quando «o Rei da Prússia reconheceu pela primeira vez a força do povo armado e sucumbiu perante a ameaça de um levantamento proletário. Entre as muitas promessas que fez, que depois não cumpriu, estava o voto das mulheres.» O Dia Internacional da Mulher Trabalhadora foi comemorado pela primeira em 1911. Em 1913, foi decidido alterar para o dia 8 de Março.


Foi nesse dia (23 de Fevereiro pelo calendário juliano), em 1917, que dezenas de milhares de operárias têxteis Russas protestaram nas ruas de São Petersburgo contra a guerra, contra a fome e contra o tsar, cob o lema de «Paz, pão, liberdade». Os seus protestos juntavam-se à greve dos operários da fábrica Putilov que duravam há já alguns dias. Nos dias seguintes, cresceram os protestos e greves. A 12 de Março as forças militares uniram-se às forças revolucionárias, e três dias depois o Tsar abdicava, pondo fim a um império de largos séculos.

Embora o voto das mulheres já tinha sido alcançado na maioria dos países do mundo, as desigualdades entre género continuam marcadas, Recentemente o relatório do Fórum Económico Mundial (de 2016) cerca de metade dos países aumentaram a discrepância entre géneros face ao ano anterior, medido em termos de participação e oportunidade económica, educação, saúde e participação política. Dos 144 países analisados, a paridade em questões de educação e saúde está perto de ser alcançada, mas há muito ainda por trilhar na participação económica e política (ver quadro). Segundo dados da EUROSTAT, embora as mulheres constituam cerca de metade dos trabalhadores, estão subrepresentadas nos lugares de chefia. Em Portugal as mulheres trabalham mais, e ganham menos.

Justifica-se assim plenamente continuar a marcar este dia, e a celebrá-lo em luta. Em Portugal, o Movimento Democrático de Mulheres convoca para um Concentração de Mulheres (sendo os homens naturalmente bem-vindos) no dia 11, declarando como objectivos:

  • Alargar a frente social de luta das mulheres propondo, reivindicando, valorizando as mulheres na sua acção pela cultura e progresso da humanidade, na sua intervenção contra as desigualdades e discriminações que as afectam na família, no trabalho e no plano social, político e cultural.
  • Ampliar a luta das mulheres na exigência do cumprimento dos seus direitos.
  • Contribuir para elevar a consciência social, política e cultural dos diversos sectores de mulheres.
  • Alargar o número de mulheres, de diversas idades, de diversas profissões das diversas regiões e dos diferentes sectores de actividade, fazendo ouvir a sua voz.

Resistência também é nome de mulher

A histórica luta das mulheres trabalhadoras pelos seus direitos teve episódios que não se podem apagar. Um deles é o do incêndio, em 1857, na fábrica de camisas Triangle, em Nova Iorque, em que centenas de operárias, sequestradas pelo patrão, acabaram carbonizadas. Em Portugal, o exemplo da tragédia que se abateu, em 1954, sobre Baleizão com o assassinato da assalariada rural Catarina Eufémia durante protestos por melhores condições de trabalho. A também comunista estava grávida e com um filho ao colo quando foi abatida pela GNR.

Mas o combate abnegado pela reivindicação mais do que justa de direitos iguais não foi palco apenas de tragédias. O sangue das mártires que caíram nesta luta regou a sementeira de conquistas e significou importantes avanços. O Dia Internacional da Mulher foi conquistado sob proposta da comunista alemã Clara Zetkin que o propôs na II Conferência da Internacional Socialista, em 1910, no contexto da luta pelo direito ao voto, à redução do horário de trabalho e ao aumento de salários. A proposta foi aprovada por unanimidade e, em 1911, o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora foi declarado com manifestações em todo o globo.

Ao longo do século XX, sucederam-se os avanços em matéria de direitos capitaneados, fundamentalmente, pelos países socialistas. Depois da II Guerra Mundial, os trabalhadores, e também as mulheres, conquistaram direitos com a libertação da Europa. A vitória sobre o nazi-fascismo teve nas mulheres soviéticas um importante contributo. As diferentes lutas de libertação nacional e social abriram caminho às mulheres mas as mulheres também abriram caminho às lutas de libertação nacional e social. Fosse em Cuba, no Vietname ou no Burkina Faso, as trabalhadoras desses países conquistaram importantes avanços.

Mas falar hoje das lutas pela emancipação e igualdade é também falar dos retrocessos e dos perigos. Quando nos anos 70 o imperialismo lançou uma campanha para desacreditar o governo progressista do Afeganistão e financiou os talibãs o objectivo era arrancar aquele país da esfera dos países socialistas e devolve-lo ao medievalismo religioso. Sem grandes reservas, muitas forças políticas que, então, se diziam e dizem de esquerda apoiaram o embrião da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Se hoje as mulheres não podem andar de mini-saia, não podem trabalhar sem autorização do marido, não podem conduzir ou são obrigadas a andar de burka a estas forças ditas de esquerda se deve. Quando condenaram o apoio militar soviético pedido pelo governo afegão para evitar a barbárie assinaram a sentença de morte da democracia nesse país. A história repetiu-se também na Líbia e também na Síria.

É, pois, importante denunciar aqueles que à boleia de supostas primaveras democráticas abriram caminho à barbárie no Médio Oriente. As mulheres que hoje estão condenadas à escuridão mais absoluta ou à fuga desesperada à guerra vivem infinitamente pior. Reclusas da estratégia imperialista ou refugiadas à mercê do tráfico, da prostituição e da violência, as mulheres árabes não têm outra opção que a de resistir e nós não devíamos ter outra opção que a de as apoiarmos. Não é estranho, pois, que nas fileiras da resistência curda as mulheres assumam a dianteira da luta. Elas sabem que mais do que ninguém têm tudo a perder.