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Como os nossos pais

Ao fim de vários dias de trabalho sufocantes não queria estar a perder tempo de descanso e arrastar-me dolorosamente até ao teatro. Não sabia ao que ia, o tema da peça, nada. Só sabia da minha exaustão e vontade de dormir.

Mal entro no D. Maria, em cima da hora, vejo o pequeno auditório cheio e uma sala com panos. Lembro-me então que a peça teria qualquer coisa a ver com operários. Mas não sabia o que estava para vir.

Todos aqueles nomes que sempre fizeram parte da minha vida: Coelima, as fábricas em Barcelos, o museu do têxtil. Vizela, Felgueiras, Guimarães, Pevidém, todos aqueles sítios onde a vida me levou e para onde a minha cabeça imediatamente se transportou. E, de repente, estava nos anos 90, em Santa Maria da Feira, a ouvir as sirenes de entrada da Lunik, da Huber Tricot, da Ecco, da Rohde.

À medida que a peça avançou, avançou a minha memória das vigílias intermináveis ao frio, durante o Natal, em frente à Rohde. Das caras das mulheres que na sua meninice estavam na mesa ao meu lado na escola. Das suas mães que estavam na mesma fábrica nas gáspias. Do ano negro de 2003 em que encerraram dezenas de fábricas. Das vigílias dos corticeiros. Da luta das corticeiras pela igualdade salarial que rapidamente se tornou em luta pelo pagamento de salários em atraso.

A história que Eu uso termotebe e o meu pai também conta é a história dos nossos pais, dos nossos avós, dos nossos vizinhos. O exemplar d’A Mãe de Gorki que envergam é o exemplar que tenho na minha estante e que quero deixar à minha irmã mais nova.

Imagino misturar a vida destes testemunhos de operários com a vida dos operários de A Mãe de Gorki. O que mudou desde 1907? Que verdade nasce destes testemunhos confrontados com as históricas lutas do trabalho? Que consciência nasce em mim [se fosse eu um narrador] à medida que a história avança? Talvez isto seja a chave para prosseguir. O operário e o seu espelho. Um espelho fictício mais real do que a realidade. Plagiar o real com a ficção. Como num auto retrato. Será que assim conseguimos roçar a verdadeira vida?

Esta é a pergunta que Ricardo Correia faz depois de ouvir dezenas de operários, de patrões e alguns sociólogos. Uma peça capta a essência da contradição do trabalho e do capital. A persistência da luta de classes e a necessidade da consciência de classe. Da nossa, de cada um de nós. Da repetição em espiral da história que está tão patente na corajosa luta das trabalhadoras da antiga Triumph. Nas citações dos operários que liam Marx, Lenine, Rancière, esses operários letrados que lutavam meses e meses pela jornada de 40 horas e pelo fim do trabalho ao sábado, lado a lado com aqueles que iam ganhando a consciência de classe na luta. E que termina como começou.

Esta é a camisola do avô, que passou ao pai, que passou ao filho para que um dia o que vier possa dizer que valeu a pena. Até lá, é à classe operária que cabe tomar nas suas mãos o seu destino.

Maio130: A História do 1º de Maio


Vídeo feito para o espectáculo “Maio 130”, apresentado na Festa do Avante (Café-Concerto de Lisboa) a 4 de Setembro de 2016.

O espectáculo feito “a partir dos acontecimentos de 1886 em Chicago, que marcaram a luta dos trabalhadores e definiram o 1.º de Maio como o seu dia internacional de celebração e de luta”, cruzou “componentes documentais, poéticas e artísticas de diferentes geografias e momentos históricos.

Vídeo de Ana Nicolau, texto de Joana Manuel.
Locução de Joana Manuel e André Albuquerque.

O SMN, a TSU e a “visão de futuro” dos patrões para um novo século XIX

Nuno Carvalho, sócio-gerente da marca Padaria Portuguesa, falou à SIC Notícias sobre a questão do aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) e a eventual descida da TSU. Aquilo que disse já foi motivo de grande alvoroço público, coisa que me espanta na medida em que o “empreendedor” entrevistado não refere nada que não tenha sido dito por outros seus compadres antes e seguramente depois da sua muito comentada intervenção pública.

O que me parece particularmente interessante é o facto de Nuno Carvalho não se ter referido à questão do aumento do SMN, preferindo deter-se noutras matérias que quem acompanha os processos de negociação sabe que são aquelas verdadeiramente relevantes para uma fatia importante dos patrões: a flexibilização da legislação laboral, nomeadamente ao nível da precarização das formas de contratação, liberalização dos despedimentos e desregulação dos horários de trabalho. Sempre acenando com a cenoura na ponta da cana: a ideia de que mais “flexibilidade” (leia-se precariedade) promove mais produtividade e “permite aos colaboradores ganharem mais dinheiro à medida que os negócios evoluam”. A Padaria Portuguesa, que hoje tem uma loja em cada esquina da cidade de Lisboa, é bem a prova de que as coisas não funcionam assim; e os casos em que relações laborais precárias e melhor distribuição de rendimentos se compatibilizam são quanto muito raríssimas excepções que confirmam a regra oposta.

De resto é hoje sabido que ao contrário do que afirma o patronato (e os seus braços políticos nas instituições), salários baixos e precariedade prejudicam a produtividade. Quem o afirma não são radicais comunistas, “inimigos das empresas”, mas gente tão insuspeita como Sandra Polaski, que representou o secretário de estado norte-americano para o mercado laboral internacional. Segundo a senhora Polaski (citada em artigo do The Guardian, traduzido e publicado na edição de Novembro da revista Courrier Internacional) “as pessoas sabem que não estão a receber um salário justo e muitos têm contratos a prazo, pelo que não há motivação para melhorar a produtividade”.

De resto, relações de trabalho precárias inibem as organizações de investirem nos seus trabalhadores (aka “colaboradores”), o que prejudica a sua qualificação – dos trabalhadores e das organizações – com evidentes consequências ao nível da sua produtividade. Também favorecem um elevado nível de “rotatividade” não desejada pelas empresas (porque a desejada é outra conversa completamente diferente…) com custos que não são desprezíveis a vários níveis que não apenas o financeiro.

A questão da produtividade, que é extremamente complexa e que envolve uma série de aspectos das organizações das empresas que não se limita ao trabalho das equipas e dos trabalhadores, tem sido muito estudada ao longo do tempo, e os estudos que sobre o assunto têm sido realizados – por vezes contraditórios entre si – revelam pelo menos que a relação entre salários e produtividade é bem mais complexa do que aquela que no discurso mediático predomina sempre que actualizações salariais são discutidas. E há uma percepção cada vez mais forte sobre a relação existente entre relações laborais estáveis, salários dignos e níveis de produtividade mais elevados.

Naturalmente que o patronato não ignora que trabalhadores sujeitos a vínculos precários – ou a formas de precariedade raramente consideradas dentro desse mesmo conceito, como aquela que se refere à organização dos horários e tempos de trabalho – não estão em condições ideais relativamente ao desempenho das suas tarefas e funções no seio da organização. Não ignoram a existência de uma relação forte entre precariedade e riscos laborais, como bem recordou a CGTP quando afirmou que “apesar de cientificamente comprovada a influência das condições de trabalho e, em especial, da organização do trabalho sobre a saúde física e mental dos trabalhadores, esta é uma matéria que tem estado maioritariamente afastada das preocupações oficiais relativas à prevenção dos riscos profissionais e à segurança e saúde no trabalho“. No entanto, no panorama mediático nacional é quase sempre o discurso inverso que surge como o mais “sensato” e “equilibrado”, em claro proveito das posições patronais.

No caso português é particularmente evidente a contradição entre flexibilização das leis laborais e melhores indicadores ao nível da produtividade, do emprego e da sua qualidade. Ou entre produtividade e horários de trabalho, já que somos um dos países da União Europeia onde mais horas se trabalha sem que esse tempo absolutamente arcaico de horas passadas nas empresas se transforme em ganhos de produtividade evidentes face a países com cargas horárias bem mais reduzidas.

O que Nuno Carvalho e outros tantos “empreendedores” pretendem não é na verdade nada de novo, nada que dê resposta a “uma visão de futuro” relativamente às relações laborais. A realidade confronta-o todos os dias e os trabalhadores d’A Padaria Portuguesa poderão fazer o mesmo, mais cedo que tarde.

Estás grávida? Olho da rua.

“Partilhei com todos no trabalho, fiquei tão feliz. O coordenador deu-me os parabéns”, recorda. Mas alguns dias depois não se “conseguia levantar da cama”. Ficou de baixa sem adivinhar o que a esperava. Em casa, recebeu uma carta de “rescisão do contrato de trabalho por caducidade”. Estava grávida de três meses. Tanto a PT como a empresa de trabalho temporário que a subcontratava, a Autovision, negam qualquer tipo de discriminação.

A 26 de Junho de 2015 contactei, uma vez mais, a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego – CITE. Uma vez mais tinha nas mãos a não renovação de um contrato a termo de uma trabalhadora lactante. Há dois meses tinha sido uma trabalhadora puérpera. Meses depois, uma trabalhadora grávida. Trabalhadoras bancárias de instituições a quem a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, ainda sob a alçada do PS e de Elza Pais tinha atribuído o prémio de boas práticas na igualdade. Trabalhadoras altamente especializadas em empresas de informática. Trabalhadoras de hospitais com contrato individual de trabalho. O motivo é sempre o mesmo: maternidade.

E aqui um parêntesis: a treta da parentalidade, esse conceito moderno, já viram no que deu, não já? Precisamente: retirar a especificidade dos direitos das mulheres e consagrá-los como direitos da família. E o CDS não se faz esperar e apresentou já o projecto para que a licença de pais e mães seja substituída pelos avós. Em 2009, o PCP alertou para a perigosidade desta alteração do PS, que preferiu fazer ouvidos de mercador. Está à vista o resultado. Adiante.

Nesse telefonema, depois de um esclarecimento com muito pouca educação, solicitei falar com o responsável dos serviços jurídicos. Foi-me passado o dito cujo. Queria apenas perceber o entendimento que enviaram por escrito à trabalhadora. A entidade patronal, nos termos do artigo 144º, n.º3 do Código do Trabalho tem que comunicar a intenção de não renovação de contrato a trabalhadora puérpera, lactante ou grávida, e os respectivos motivos, «após 5 dias úteis». Quando leio o «após» será após a comunicação à trabalhadora.

Pois a CITE entende que esses 5 dias são após a cessação do contrato. E escreve isso nos seus pareceres. Assim, questionei o responsável pelo Gabinete Jurídico se, acaso, não estariam a interpretar mal, uma vez que se essa comunicação é feita 5 dias após a cessação do contrato isso invalida qualquer acção da trabalhadora para evitar o despedimento – porque é disso que se trata – nomeadamente através de uma providência cautelar.

Se as entidades patronais estão obrigadas ao aviso prévio de não renovação de 15 ou 30 dias, faria sentido que esses 5 dias úteis fossem a partir dessa comunicação. Mas a CITE entende que é apenas a partir da caducidade do contrato, ou seja, quando a trabalhadora já está fora da empresa e nada pode fazer. E, sublinhe-se, em lado nenhum a lei diz qual o momento. Apesar de a CITE insistir que diz.

A partir deste momento ouvi o seguinte: «não é o nosso papel interpretar a lei de modo a proteger melhor o trabalhador», «não estamos na qualidade de colegas, não vou discutir nada consigo», «se quiser faça uma exposição», «este é o nosso entendimento, se não concorda é consigo».

E assim, as entidades patronais fazem o que querem: por um lado, porque a precariedade é regra, por outro, porque as mulheres são mais afectadas em função da maternidade.

Também há as centenas de casos, nomeadamente no sector bancário, do regresso das trabalhadoras após o gozo da licença a uma mesa vazia, sem funções. E quanto a isto, a CITE entende recorrentemente que está tudo bem.

A solução é simples:

Alterar a lei proibindo o despedimento de trabalhadoras grávidas, puérperas e lactantes e a não renovação dos contratos quando atingem o seu termo. Ou seja: acabaram-se despedimentos colectivos ou por extinção do posto de trabalho e não renovações de contratos.

Apenas em caso de processo disciplinar devem os mesmos ser permitidos, com parecer vinculativo da CITE, ou seja, despedimento com justa causa e com procedimento disciplinar que o anteceda.

Basta haver vontade política para acabar com esta vergonha e esta humilhação. Bem sei que a reprodução, a gravidez, a amamentação, a aleitação e o acompanhamento às crianças representa uma perda de ganho do ponto de vista patronal, mas a maternidade e paternidade são funções sociais do Estado. E cabe ao Estado intervir e garantir que sejam respeitadas por todos.

Mas os vários governos têm fomentado políticas não de protecção mas de facilitação dos tratamentos discriminatórios das mulheres trabalhadoras. E é mais do que tempo de alterar isto, meus senhores. Estamos no século XXI. Já nem deveria ser uma questão. E enquanto continuar a acontecer, a culpa tem que ser assacada aos governos em funções. E qualquer alteração, só será conseguida com a luta. «Mulher, toma nas tuas mãos os teus direitos».

Entrevista com o Inspector-Geral da ACT

Partilho aqui a entrevista feita ao Inspector-Geral da Autoridade para as Condições do Trabalho. Não por estar de acordo a 100% com tudo o que diz Pedro Pimenta Brás, mas pela forma exaustiva mas simples e correcta como analisa de forma directa os principais problemas vividos pelos trabalhadores e trabalhadoras do país. Precariedade, atrasos no pagamento dos salários, acidentes de trabalho, etc. Ah, e aponta alguns caminhos interessantes.

Se há problemas novos, causados pelas novas formas de precariedade laboral, pelo avanço galopante das tecnologias nos locais de trabalho, há problemas que são bem antigos e que se mantêm. Demasiado antigos para acreditarmos que vivemos o ano de 2016, num país onde a inovação enche a boca de muita gente que a única coisa que sabe de inovação é que rima com exploração.

Vejam então a Conversa Capital.

Contratação colectiva: o acto de contrição de Vieira da Silva?

As relações laborais têm vivido momentos mais do que conturbados no que à contratação colectiva diz respeito.

Os avisos não faltaram: desde os sindicais, os políticos, os jurídicos e os académicos – o Código do Trabalho de 2003 seria uma machadada nos direitos colectivos dos trabalhadores e na contratação colectiva.

Ao pedido de inconstitucionalidade apresentado pelo PCP, contendo, entre outras, a magna questão da caducidade e sobrevivência das convenções colectivas, respondeu o Tribunal Constitucional que a caducidade não era inconstitucional – no pressuposto de que os efeitos das convenções se mantivessem na esfera jurídica dos trabalhadores.

Mas claro, tábua rasa (como tábua rasa na decisão sobre as 40 horas que se baseou na contratação colectiva como garante da constitucionalidade, contratação bloqueada pelo anterior governo em todos os ministérios e até no poder local).

2006 e 2009 são anos críticos na quebra do número de convenções e de trabalhadores abrangidos por estas. E estes anos não são por acaso. Tendo acompanhado, a par e passo, toda a discussão parlamentar do Código do Trabalho de Vieira da Silva, não me é possível esquecer às vezes que, baseado no Livro Branco das Relações Laborais (2007), vincou que as normas iriam dinamizar a contratação colectiva “cristalizada e morta”.

Vista grossa aos mais de 4000 pareceres de organizações colectivas de trabalhadores fizeram chegar ao Parlamento com uma frontal posição desfavorável a esta (e outras) alterações, o Código avançou contra os trabalhadores e os seus direitos. Implacabilidade contra mais de 285 propostas de alteração apresentaras pelo PCP, todas rejeitadas.

Era assim, a ferro e fogo.

2016 mostra a Vieira da Silva o resultado, aliás reconhecido por este: a caducidade matou a contratação. A revogação do princípio do tratamento mais favorável do trabalhador em 2003 e a construção de um claro princípio do tratamento mais favorável do patrão com extensos mecanismos de desequilíbrio e de aumento da exploração (banco de horas, adaptabilidade, redução brutal do pagamento do trabalho suplementar – que passa mesmo a ser mais barato do que o trabalho normal! – redução inqualificável das compensações e indemnização por despedimento, precarização dos vínculos), a par da denúncia de centenas de convenções colectivas, arrasaram direitos conquistados com muita luta, resistência e persistência.

Mesmo convenções publicadas depois da vigência do Código foram denunciadas provando a perversidade do mecanismo e levando a uma espécie de acto de contrição do Ministro Vieira da Silva, na passada sexta feira, numa conferência subordinada ao tema, organizada pelo Centro de Relações Laborais, o novo “brinquedo” que serve para promover João Proença e o seu ego.

Sarcasmos à parte, o Ministro afirmou que algo está errado e mostrou abertura para discutir. Discussão essa que já teve lugar com o mesmo Ministro em 2009: é simples – uma convenção apenas pode deixar de vigorar se for substituída por outra, negociada e acordada pelas partes. Sem a pistola da caducidade apontada à cabeça, sem bancos de horas e adaptabilidades. Sem um código das empresas e com o regresso da matriz identitária do direito do trabalho – o princípio do tratamento mais favorável do trabalhador. Negar este princípio é violar a Constituição e a opção, clara, de proteger a parte contratualmente mais débil da relação laboral.

O caminho de inversão, contudo, terá de ser bastante mais profundo, para corrigir as injustiças que este Código provocou e provoca. E que abriu caminho para o agudizar das condições de trabalho também na Administração Pública onde, despoticamente, o Governo (que tantas vezes é parte negocial), chama a si o poder de dizer se os acordos colectivos de empregador público são ou não homologados, impedindo qualquer contratação neste sector. Isto para não falar da negociação geral anual que, há mais de dez anos, não é senão um simulacro: zero aumentos, zero direitos, cortes, cortes e mais cortes. Retrocessos sobre retrocessos e a criação da divisão entre trabalhadores do público e do privado que PSD/CDS tanto fomentaram nos últimos anos.

A contratação colectiva é motor de progresso. E dela não se pode esperar «paz» ou «win-win», mas a consagração de direitos das pessoas. Porque a contratação colectiva é um direito dos sindicatos e não um instrumento de poder do patrão. E apenas com condições de trabalho dignas se promove a tão falada competitividade e produtividade. E já era hora de patrões e governos perceberem isso.

Recuperar as 35 horas, uma luta de todos.

A imposição das 40 horas semanais de trabalho aos trabalhadores das administrações central e local foi uma das mais violentas agressões do governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas. Esta decisão, sob a orientação do FMI e da União Europeia e correspondendo aos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, representou um dos mais graves retrocessos para os direitos de quem trabalha na função pública. Na prática, quem trabalha para o Estado, passou a exercer a sua profissão de forma gratuita durante cinco horas por semana, o que corresponde a 20 horas por mês. Ou seja, mais de um mês de trabalho que em cada ano o Estado deixou de pagar.

Esta decisão foi tanto mais grave quando a batalha pela redução horária das jornadas laborais é, desde sempre, uma bandeira central na luta da classe trabalhadora ao longo da sua história. Desde os mártires de Chicago que, em 1886, caíram abatidos pela polícia durante uma manifestação pelas oito horas diárias de trabalho, e cuja tragédia levou à decisão de se assinalar o primeiro dia de Maio como o Dia Internacional dos Trabalhadores, às lutas do proletariado agrícola que nos campos do Alentejo conquistaram as mesmas oito horas em pleno fascismo.

Não admira, pois, que entre as muitas reivindicações dos trabalhadores da Administração Pública nas diversas acções que se realizaram contra o governo liderado pelo PSD e pelo CDS-PP se destacasse a batalha pela recuperação das 35 horas semanais. Tanto foi assim que se conseguiu através da luta que muitas autarquias devolvessem os anteriores horários aos seus funcionários. Esta conquista foi tão generalizada que o actual governo de António Costa não teve qualquer dificuldade em avançar para as 35 horas na Administração Local. Por que não aplica, então, as 35 horas aos restantes funcionários públicos?

Logo que a questão começou a ser discutida na Assembleia da República a máquina mediática tratou de espalhar a desinformação, a manipulação e a mentira. Os porta-vozes dos grandes grupos económicos e financeiros na comunicação social trataram de usar a velha táctica de virar os trabalhadores do privado contra os do público. Por que hão-de os funcionários públicos trabalhar 35 horas quando no privado se cumprem as 40 horas? Ninguém tratou de perguntar em directo para que todo o país ouvisse por que há-de trabalhar 40 horas quem exerce a sua profissão no privado quando os do público conquistaram o direito às 35 horas.

Mas a campanha mediática também tratou de escamotear que a proposta do PS não só não prevê no imediato o regresso das 35 horas para todos os funcionários públicos como deixa no ar a possibilidade de que em determinados sectores – como o da saúde – se possa manter o roubo de cinco horas semanais de trabalho gratuito. É por isso que há que apoiar a luta dos trabalhadores que decidiram fazer greve para reclamar as 35 horas. Os sindicatos da CGTP estão do lado certo da história. O novo quadro político abre caminho à reposição de direitos e à conquista de mais e melhores condições para os trabalhadores e o povo. Naturalmente, a luta é fundamental para que o actual governo cumpra não só algumas das suas promessas eleitorais mas também para que se devolvam outros direitos.

Reclamar as 35 horas é cumprir com o legado histórico pelo qual gerações e gerações de trabalhadores lutaram de forma abnegada. E é justo que se diga que esta reivindicação deve ser entendida como sua por quem trabalha no privado. Na marcha da história, as conquistas dos sectores mais emancipados da classe trabalhadora acabaram por significar importantes avanços para todos. Avancemos, pois.

Espreme a mama, se não der leite, não há direito?

Escrito que foi, ao correr da pena, na sequência dos comentários e algumas achegas que entretanto me chegaram, ficaram duas questões por abordar aqui.

Então, na continuação da prova por expressão da mama:
E se a mama não der leite? A trabalhadora deixa de ter direito ao período de duas horas diárias?

E se a mama não der leite?

Artigo 47.º – Dispensa para amamentação ou aleitação
1 — A mãe que amamenta o filho tem direito a dispensa de trabalho para o efeito, durante o tempo que durar a amamentação.
2 — No caso de não haver amamentação, desde que ambos os progenitores exerçam actividade profissional, qualquer deles ou ambos, consoante decisão conjunta, têm direito a dispensa para aleitação, até o filho perfazer um ano.
3 — A dispensa diária para amamentação ou aleitação é gozada em dois períodos distintos, com a duração máxima de uma hora cada, salvo se outro regime for acordado com o empregador.

Pois, é que na verdade, se não houver leite nas mamas, é indiferente. A nenhuma trabalhadora pode ser negado o direito de aleitar – até ao 1º ano de idade da criança – independentemente de ser por amamentação ou não. Aliás, imaginemos que é o pai que pede dispensa: como se fará a prova?

Depois desses 12 meses, a prova é feita (ou pode ser) através de declaração médica mensal (“para efeitos do n.º 2 do artigo 39.º do Código do Trabalho, a trabalhadora comunica ao empregador, com a antecedência de 10 dias relativamente ao início da dispensa, que amamenta o filho, devendo apresentar atestado médico após o 1.º ano de vida do filho.”). O único meio previsto é, pois, um atestado. Ou seja, se a entidade patronal quer a dita prova, solicita o atestado. Ponto final.

Outra questão prende-se com a justificação dada pelos hospitais: as licenças «fraudulentas». Pois, mas a inspecção não cabe à entidade patronal.

Aos trabalhadores com filhos até ao primeiro ano de idade, a dispensa para amamentação e aleitação é um direito que não pode ser recusado, muito menos pode ser condicionado a prova física. Se por acaso houver indícios de fraude, o caminho é um: denúncia às entidades competentes. Que, no caso, certamente actuarão diligente e rapidamente por ser em defesa das entidades patronais e não dos trabalhadores. Diz a história e a prática, que a celeridade comanda estes processos.

Mas essa não é a justificação. Diz a enfermeira que já muita gente a emigrar e “a sobrecarga de trabalho é demasiado violenta”. “As mulheres grávidas são pressionadas para reduzirem os tempos de licença de maternidade. As lactantes são pressionadas para abdicarem do horário de amamentação. Falta pessoal, dizem. E tem faltado tanto bom senso!”. Ou seja: para suprir a falta de pessoal no SNS, mães e pais trabalhadores são pressionados para abdicar dos seus direitos e fazer mais (mais horas).

A Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública denunciou, já em Setembro de 2014 que «Segundo os dados da DGAEP, a variação do número de enfermeiros na Administração Pública entre 2011 e 2014 é de menos 1695 enfermeiros, situação agravada pela carência de materiais e meios diversos, a degradação acentuada das condições de trabalho inerente e que hoje atinge níveis de insuportabilidade para a generalidade dos enfermeiros, na globalidade das instituições.


A não-substituição/reforço das equipas tem obrigado a que estes profissionais trabalhem dias consecutivos e a terem mais doentes à sua responsabilidade, atingindo limites de exaustão física e psíquica, com consequências na saúde dos profissionais e na qualidade e segurança dos cuidados a que os doentes têm direito

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses enviou a todos os Hospitais um relatório das horas a mais dos enfermeiros. Só em Santarém, por exemplo, cada enfermeiro tinha um crédito de 400 horas!

Sobre tudo isto, infelizmente, nenhuma entidade – Governo ou CITE – se pronunciou. Se indignou. Nem tão pouco afirmou que tudo faria para combater esta prática. Porque para eles estas coisas são normais. Fazem parte. Resta saber se para nós fazem parte também. Aproximam-se os tempos em que veremos de que lado cada um de nós está.

*Sobre a foto: Testemunho da Sílvia Grade


Uma outra forma de amamentar:
O Luisinho nasceu com 27 semanas no Hospital de São João. Pesava 685 gramas e media 33 cm.
Esteve internado no serviço de neonatologia durante 72 dias. Nunca tive a oportunidade de o amamentar da forma natural.
Por isso, partilho convosco um dos poucos momentos de intimidade que conseguia ter com o meu bébé.” (www.loove.pt)