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O outro lado da cortiça

Nasci, cresci e vivi grande parte da minha vida em Santa Maria da Feira. Ainda vivo espartilhada entre cidades, sendo que é ali o meu lar. No meu Partido, toda a vida, estive lado a lado com corticeiros. Era fácil saber quem eram mesmo sem lhes falar porque grande parte deles tinha marcado no corpo o seu saber. Literalmente. Uns tinham perdido um dedo na broca, outros parte de dedos.

Desde muito cedo, com eles, estive à porta das muitas corticeiras do nosso concelho. Hoje contam-se as que sobraram porque a maioria foi asfixiada pelo poder do Grupo Amorim. Não é raro ouvir que um pequeno empresário se suicidou por não poder pagar as dívidas. Mais uma família que fecha a sua pequena fábrica, estrangulada com os créditos dos amigos do BES (lembram-se daquela linha de crédito a micro, pequenas e médias empresas liderada pelo BES e apoiada pelo governo Sócrates?).

Foi à porta dessas empresas, onde todos os meses estávamos, que cedo tomei nota em primeira mão da discriminação salarial brutal entre mulheres e homens no sector corticeiro. Eram mais de cem euros para tarefas iguais. Ali, à porta, havia trabalhadores que timidamente aceitavam o papel do PCP e o escondiam para que não fossem vistos. Também muitos nos diziam que nunca iríamos ganhar nada porque o país precisa é dos engenheiros e doutores do CDS e do PSD, que os operários nunca chegariam a lado nenhum.

Eram locais difíceis onde, não raras vezes, os seguranças estavam muito atentos a quem queria receber um papel ou falar connosco.

Fazíamos, contudo, questão de parar os carros de alta cilindrada à saída para lhes entregar os documentos e fazer saber que ali estávamos e ali iríamos voltar.

Foram milhares de distribuições. Foram também milhares de vigílias junto à APCOR de cada vez que uma empresa fechava, deixando trabalhadores meses e meses sem salários e roubando as máquinas do interior da empresa. Marchas à chuva, concentrações ao sol, as ruas de Santa Maria de Lamas iam sempre dar aos patrões da cortiça.

Foi ali também que ouvi as histórias das mulheres que cuidavam dos pais e dos filhos, que trabalhavam desde os 10 ou 12, que não sabiam como iam cuidar da família: nenhuma falava de si. Foi ali que vi os natais (sempre os natais) que lhes anunciavam o desemprego.

Foi ali que conheci o Sindicato dos Operários Corticeiros, o Alírio, o Mota, o Germano (e tantos outros) e que vi como o Sindicato foi crescendo, sempre do lado certo. Como orgulhosamente tornou a igualdade salarial na sua prioridade apesar de, no parlamento, o Bloco de Esquerda insistir em culpar o sindicato acusando-o de assinar um acordo colectivo de trabalho ou a UMAR publicamente atacar estes (e estas!) trabalhadores, incluindo na queixa que apresentaram tendo por base o acordo colectivo. E lembro-me bem do que, à data senti: nunca os tinha visto em nenhuma destas concentrações ou vigílias, em reuniões, à porta de fábricas e, ainda assim, culpavam os próprios trabalhadores por uma desigualdade imposta pelos patrões com total alheamento de como funciona uma negociação colectiva de um acordo. Sem sequer entender porque é que tinham assinado o acordo e ignorado, deliberadamente, a luta de anos que vinham a desenvolver para acabar com as discriminações salariais.

Elas, eventualmente, acabaram no papel, por via do acordo tripartido e faseado celebrado com o Ministério do Trabalho e, escusado será dizer, já sabemos quem chama a si a vitória.

Mais uma vez, os corticeiros caíram no esquecimento porque já não saíam nos jornais.

Mas continuam a trabalhar ao dia, à semana, a perder partes das suas mãos nas brocas, a receber o salário mínimo, a ver empresas a fechar, a concentrarem-se à porta das empresas e da APCOR. O Alírio, o Armando, o Germano, lá continuam. E reencontrei-me com eles, na semana passada, em frente à Câmara Municipal da Feira, onde dezenas e dezenas de trabalhadores estavam em solidariedade com Cristina Tavares, a Cristina que para muitos de nós é a única Cristina de que falamos. A mesma que foi encontrar forças, ninguém sabe bem onde, para ultrapassar os actos violentos, humilhantes e degradantes que lhe infligiram porque insiste, insiste e insiste em manter o seu posto de trabalho.

Já conheço bem a sua história porque não há camarada que não ma conte, não há dirigente sindical que não a saiba, não há um sindicalista que não tenha estado numa acção promovida pela CGTP, não há uma mulher do MDM que não tenha já manifestado a sua solidariedade.

E não, não conheço Cristina pessoalmente nem faço gáudio disso para poder escrever um artigo de jornal apenas para dizer isso mesmo. Não preciso de conhecer porque cresci no meio de muitas Cristinas. Mas admiro-a. Profundamente. Não sei como se resiste a tamanha violência.
Naquela concentração ouvi Arménio Carlos dizer que já lhe ofereceram milhares de euros para que desistisse dos processos e se afastasse. Mas Cristina respondeu sempre a mesma coisa: não quero o vosso dinheiro, quero o meu posto de trabalho.

E sei bem como é difícil esta postura até ao fim. Muitos foram já os que vi não o conseguir fazer e de nenhuma forma critico quem ao fim de anos a ser violentado (há muitas formas de assédio), não aguente mais. Num só dia, já assisti à assinatura de 24 rescisões e despedi-me de um a um com lágrimas nos olhos. Já passaram três anos sobre esse dia e apenas um encontrou trabalho.

Esta postura de Cristina devia ser um exemplo para os governantes. Despedida uma e outra vez, não desiste. Mas o governo não quer saber. Os deputados do PS, do PSD, do CDS, do PAN não querem saber. Nestas concentrações, vejo sempre os «mesmos»: PCP, Bloco de Esquerda, Os Verdes. Sempre.
São os únicos que sabem quem é a Cristina. Ou que querem saber. Cristina não inspira as fotos das deputadas na assembleia da república. Não se juntam para lhe prestar homenagem. Não inspira as associações «feministas» a fazerem concentrações, vídeos para o instagram, posts para as redes sociais. Não inspira o entretainer Marcelo. Como nunca inspiraram as trabalhadoras da Triumph. Para esta gente, as operárias são talvez menores.

Há pouco tempo vi um filme sobre um advogado, activista, que sempre lutou contra o racismo,  pelos direitos civis dos negros. Um desajeitado, mal vestido que andava de autocarro. Não falava a linguagem da modernidade, ainda ouvia cassetes, não se ajeitou numa palestra da nova geração de activistas que rapidamente o descartou. E alguém diz «We stand on his shoulders. We stand on their shoulders».

E é isso que sinto de cada vez que revejo os meus camaradas corticeiros, de cada vez que leio notícias sobre a Cristina. Nós andamos sobre os ombros deles. São eles e a sua luta que nos sustentam, que sustentam a nossa luta. São eles que nos carregam. Eles e tantos outros. Invisíveis aos olhos do governo e da propaganda (sim, propaganda) feminista liberal.

Mas como dizia Big Jim Larkin, sindicalista irlandês, the great only appear great because we are on our knees, Let us rise. E quando o povo se levanta é sempre cedo.


*A 9 de Fevereiro a CGTP convocou nova concentração de solidariedade com Cristina Tavares, em Lourosa, Santa Maria da Feira.

Nem uma menos

A revolta invadiu o bairro Bosque Calderón, uma das zonas mais pobres de Bogotá, onde vivia Yuliana Samboní. Esta menina colombiana de sete anos foi raptada por um abastado arquitecto. Depois, Rafael Uribe Noguera torturou-a, violou-a e matou-a. Há quatro anos, também na capital colombiana, Rosa Elvira Cely havia sido brutalmente violada num parque por dois homens. Morreu quatro dias depois nas urgências do hospital com os órgãos internos destruídos pelos ramos de árvore que usaram para a violar.

«Esta ciudad es la propriedad del Señor Matanza» cantavam os Mano Negra nos anos mais duros da guerra que regou de sangue as montanhas e cidades da Colômbia. Desde que em 1949 a oligarquia decidiu assassinar o candidato presidencial Jorge Eliecer Gaitán, os trabalhadores e o povo levantaram-se em armas. Primeiro como vingança, depois como forma de resistência. Desse processo nasceram as diferentes guerrilhas que deram voz aos condenados daquela terra.

Hoje, os clichês e preconceitos procuram dar a ideia de que as mulheres e os homens que optaram pela violência política para transformar o esgoto em que vivem são terroristas. A ignorância pode muito mas não pode apagar a história. Os soldados colombianos que em 1928 dispararam sobre uma manifestação de 25 mil trabalhadores que se recusaram a cortar bananas para a United Fruit Company cumpriram a mesma função que os militares de hoje. Nesse dia, foram assassinados quase dois mil grevistas.

Essa violência que se estende até aos nossos dias atinge sobretudo a classe trabalhadora. Quase um século depois do Massacre das Bananeiras, a Colômbia continua a ser o país onde mais sindicalistas são assassinados todos os anos. Mas a barbárie atinge de forma implacável os grupos mais discriminados da população colombiana. As mulheres, os negros e os indígenas são as primeiras vítimas de uma guerra que suja de sangue as mãos da oligarquia e do imperialismo.

O livro «Últimas notícias de la guerra», do jornalista Jorge Enrique Botero, destapa a vida de muitas das mulheres que optaram por ingressar nas FARC. Solangie, uma destemida guerrilheira que foi uma das vozes da emissora clandestina Cadena Radial Bolivariana, fugiu de casa ainda adolescente. A mãe era dona de um bordel numa aldeia no meio da selva e o padrasto tentara violá-la várias vezes. Uma noite, esperou-o na cama e esfaqueou-o. Depois de desenhar mapas para a guerrilha e de fazer parte da rede de vigilância, as FARC acederam aos sucessivos pedidos de Solangie.

Foi clara ao explicar que para muitas mulheres as FARC não são uma opção. São a única via para fugir de uma vida miserável num bordel ou a apanhar pancada do marido. Hoje, quase metade daquela organização guerrilheira é composta por mulheres comunistas que lutam por uma Colômbia onde não haja lugar para o capitalismo e para a violência contra as colombianas. É uma causa que une camponeses, negros e indígenas, entre mulheres e homens, pelo fim da opressão que é responsável também por todo o tipo de discriminações e violências.

O rapto, violação e assassinato de Yuliana Samboní é o retrato da impunidade com que as diferentes discriminações e violências se abatem sobre o povo colombiano. Quando Rafael Uribe Noguera abandonou o seu bairro rico e cómodo para violar uma menina de um bairro miserável de Bogotá repetiu os passos dos generais que ordenavam sequestrar desempregados, toxicodependentes e sem-abrigo para depois de os assassinar vesti-los de guerrilheiros e apresentá-los como troféus de guerra.

A revolta dos cartões

O BE quer mudar o nome do cartão do cidadão para não utilizar termos “sexistas” e levanta-se um vendaval nas redes sociais sobre a intenção do agrupamento político. Ora se levanta a questão da oportunidade, ora a da prioridade, ambas frágeis pois que oportunidade é conceito subjectivo quanto baste para permitir que tudo quanto se queira seja inoportuno em todos os momentos. E prioridade é desculpa para adiar tudo quanto não se queira efectivamente debater.

Para o capital nunca é oportuno defender o aumento dos salários, por exemplo. E sobre oportunidade, por exemplo, que se dirá sobre o projecto do PCP para a suficiência do formato digital na entrega de teses para obtenção de grau académico? É uma prioridade? Tendo em conta que esse mesmo partido defende a gratuitidade total do ensino, não seria prioritário propor o fim das propinas? Portanto, no que às prioridades toca, uma coisa não impede a outra. Tal como o facto de o BE defender a mudança do nome do CC não impede o BE de defender o fim da discriminação salarial da mulher.

Portanto, sobre o cartão de cidadão, julgo que não podemos colocar a questão nem no pleno da oportunidade, nem da prioridade. A questão é mesmo sobre o acerto e justeza da posição política.

Há quem tenha embarcado com entusiasmo na moda da “@”, do “x” ou da repetição de termos. Vemos por aí “tod@s”, “todxs” e “todas e todos”, entre outras novas formas de inovar na oralidade e na escrita. Claro que, a manter-se esta prática, entrará nas normas da língua e da gramática, mas o que importa é compreender se faz algum sentido. Será o inglês uma língua menos machista porque não tem termos que distingam o feminino do masculino? Por exemplo com o correspondente “all”. Portanto a língua dos ingleses e dos americanos já ultrapassou as discriminações sexuais que julgamos ainda contaminarem a nossa? O facto de termos na nossa língua adjectivos, substantivos e pronomes com diferenciação de género torna-a machista? Por exemplo, os ingleses usam o “they” e nós temos o “eles” e o “elas” sendo que se convencionou o “eles” para uso unissexo sempre que necessário.

Ou seja, o género masculino é muitas vezes utilizado para substantivos e pronomes que remetem para colectivos, por mera convenção. Mas o contrário também sucede. Há substantivos colectivos e até individuais que são do género feminino e se aplicam indiscriminadamente a ambos os sexos (eis mais uma diferença entre género e sexo). Por exemplo: “gente”, “malta”, “massas”, “população”, “populações”, “plebe”, “corte”, “pessoa”.

Toda a gente perceberia o ridículo se eu, por ser do sexo masculino, me revoltasse por ser incluído nessa terminologia feminista que me dá por “pessoa”, ou que me inclui, para todos os efeitos nesse gigantesco gineceu que dá pelo nome de “república” e que assume a forma tão feminina de “democracia”.

E voltemos, então, à questão de género e igualdade – e agora é a Lúcia Gomes quem escreve: o Bloco também defende a paridade como forma de combater as desigualdades. E bem se viu o que a paridade fez pelas mulheres: a discriminação salarial persiste (e nuns casos até se agrava). O desemprego feminino aumenta (chamemos-lhe desempregue, para ser neutro), o acesso das mulheres à saúde sexual e reprodutiva é mais difícil porque as taxas moderadoras e o preço dos medicamentos sobe e, no entanto, há mais mulheres nas «lideranças» de partidos, há mais mulheres ministras, há mais mulheres deputadas, sem que isso tivesse qualquer reflexo na vida das mulheres trabalhadoras, por exemplo. Porque a sua política não deixa de ser de classe e não deixa de se submeter aos ditames de uma lógica patriarcal, a que também obedece a paridade: o poder.

Podemos ainda perguntar-nos porque é que o Bloco não coloca ênfase em propostas sobre o fim das discriminações salariais, mas nos cartões de cidadão. (E digo eu que sempre escrevi cartão de cidadã em peças processuais e requerimentos quando se trata de mulheres e nunca me passou pela cabeça ser um «problema» fazê-lo). Lembro-me, por exemplo, quando afirmou que a discriminação salarial na cortiça acontecia porque o Sindicato dos Operários Corticeiros tinha assinado um contrato colectivo que previa essa diferença salarial (esquecendo-se de referir que previa aumentos para todos os trabalhadores e melhores condições), pretendendo culpar o sindicato por essa discriminação.

Podemos perguntar porque é que o Bloco recusa a ligação entre tráfico de mulheres e exploração na prostituição e insiste na tentativa de profissionalização da prostituição e na transformação dos proxenetas em empresários ou das redes de tráfico em clusters empresariais (a consequência directa da profissionalização por mais que tentem pintá-la com os pós-modernismos e os insultos a quem defende a posição contrária).

E, portanto, podemos perceber que a política do soundbyte em nome da «igualdade» (já que as outras bandeiras já caíram, resultado da mobilização popular e das lutas de muitos anos de vários quadrantes políticos) tem dado resultado, pelo menos eleitoral.

Não será antes de perguntar: a revolta das redes sociais tem depois consequência? Ou é instantânea como as redes que a suportam?

Este texto foi escrito pelo pistoleiro Miguel Tiago e pela estalinista Lúcia Gomes. Epítetos agraciados pelos queridos e nada sectários bloquistas e bloquistos.

– Ó André, já chega de falar na barbearia, não?

A Figaro’s continua aberta, os ginásios e spas só para mulheres também. A primeira, nas condições em que está aberta, devia fechar, os segundos, devem continuar abertos. E porquê? Já muita gente explicou, mas muita gente continua a não querer entender. Repito resumidamente: a Figaro’s impede a entrada e/ou permanência física de mulheres no seu estabelecimento, os ginásios e spas exclusivos para mulheres, simplesmente não prestam serviços a homens, mas não os impedem de estar no estabelecimento.

– Ó André, mas há zonas exclusivas para mulheres nesses sítios, onde os homens não podem entrar.
– Ó Leitor(a), assim como num spa onde tu estejas a receber uma massagem e onde, durante o tempo dessa massagem, mais nenhum cliente, homem ou mulher, pode entrar. Assim como há estabelecimentos onde é preciso ser sócio para frequentar zonas exclusivas. Assim como, às vezes, há restaurantes que fecham para outros clientes porque há jantares privados nesse dia.

– Ó André, mas então achas normal que um restaurante não sirva mulheres, ou pretos, ou homossexuais?
– Ó Leitor(a), não, porque o serviço prestado pelo restaurante é servir comida, e boca toda a gente tem.

– Ó André, então pelo teu raciocínio, os clubes ou associações, podem dizer que não querem mulheres, chineses e gregos como sócios porque não têm serviços para essas pessoas, certo?
– Ó Leitor(a), sim e não. Sim, podem dizer que não têm serviços para um dos sexos, e portanto aí é natural que essas pessoas não queiram ser sócias deste clube. Desde que, como em qualquer outro estabelecimento público, possam essas pessoas circular livremente no seu espaço menos nas tais áreas exclusivas. Não, porque dificilmente um clube não tem serviços para pessoas de certas nacionalidades ou etnias, e isso já é discriminação por origem de nascimento ou cor de pele.

– Ó André, então mas um ginásio ou um spa tem serviços para homens e para mulheres, qual é a diferença? Não suam da mesma maneira? Não podem ser massajados da mesma maneira?
– Ó Leitor(a), não sei se já frequentaste um ginásio ou um spa, eu spas conheço mal, ginásios conheço muito bem e aproveito a deixa para saír do diálogo e voltar a falar para toda a gente.

Quem frequenta ginásios pode observar o comportamento de alguns homens nesses locais. Digamos que entre os urros guturais e, mais ou menos, genuínos de quem levanta dezenas de quilos, há sempre um olhar de soslaio para um rabo de uma mulher mais jeitosa, para uma barriga tonificada e descoberta que exercita os abdominais ao fundo da sala, para uma mulher que faz alongamentos encostada a um espaldar, etc…

Somos pessoas, temos olhos para ver, gostamos de corpos, é natural. Não podemos ser impedidos de olhar, mas talvez possamos ser impedidos de babar dos olhos prolongadamente. Quer homens quer mulheres, mas se vão ao ginásio sabem que os homens babam mais dos olhos. Mas se o problema fosse apenas este, estávamos nós bem.

O problema grave, e sério, e que pode começar a configurar assédio sexual, é quando o homem arranja maneira de se “ir fazendo” à sua colega de ginásio. Não se pode proibir uma conversa, mas com estes que a terra há-de comer já vi muitas mulheres a ficarem desconfortáveis com a abordagem de alguns homens virilmente suados. E quando essa abordagem é sistemática e não correspondida? E quando a mulher é obrigada a mudar a sua rotina para ir ao ginásio nas horas em que aquele homem não está presente? E quando o homem, mesmo depois de levar uma tampa continua a tentar a sua sorte? E se este homem tiver 120kg de músculos e a altura de uma torre e a mulher, ao pé dele, ficar ainda mais pequena do que na realidade é por se sentir invadida na sua privacidade enquanto exercita o corpo?

Foi por isto que a certa altura alguém se lembrou de criar ginásios e spas exclusivos para mulheres, porque muitas mulheres se sentiam desconfortáveis nos ginásios mistos. Porque muitas mulheres, por muito que tentassem ignorar, se sentiam despidas com os olhos e assediadas. Porque muitas mulheres, por via da pressão social que lhes é feita e que tenta impôr um cânone de beleza, tinham vergonha de ir exercitar um corpo que foge a esse mesmo cânone. Principalmente em frente de homens que gozavam com os seus “pneus”.

Claro que hoje em dia, com a massificação dos ginásios e com a normalização do exercício físico como componente essencial para uma melhor saúde, este problema diminuiu, mas persiste. Frequento um ginásio com uma sala mista, onde há sempre ou quase sempre mulheres, mas com uma zona exclusiva para elas. O acesso aos seus balneários e à sua sala exclusiva é feito através de um cartão magnético. E porquê? Basta olhar para os olhos de alguns homens quando elas entram na zona mista, basta ouvir as frases que lhes saem da boca, dirigidas directamente a elas ou dirigidas aos outros homens no ginásio.

Há ainda muito a ser feito na luta pelos direitos das mulheres, e certamente que a proibição estampada na porta da Figaro’s é um insulto e um retrocesso de décadas.
Hoje, na aldeia mais isolada do interior do país, já não se tolera que uma mulher seja impedida de entrar numa tasca. Apesar de ser possível continuar a ouvir um silêncio no momento em que uma mulher pisa o chão da tasca, todos os homens, por mais analfabetos e desinformados que sejam, já aprenderam que não é socialmente aceitável que se proíba as mulheres de frequentarem a tasca, que é um local público.

Que uma barbearia, no centro de Lisboa, recupere esta discriminação, além de ilegal, é simplesmente vergonhoso para uma cidade que se afirma cosmopolita e inclusiva, independentemente de género, cor de pele, religião e orientação sexual.
Bom, talvez menos inclusiva para quem seja de uma classe social mais baixa…

E se for: «proibida a entrada a pretos»?


Agora que já tenho a vossa atenção, gostaria de dizer duas ou três coisas sobre o assunto. A primeira vez que ouvi falar de uma barbearia que só atendia homens e cães pensei «ok, tá fixe». Mas a chave estava aqui: atendia.

Ao ler textos de gente despreocupada que escreve sobre moda e de repente usa o termo neomachista porque ficou de fora de um símbolo da cultura pop e não pode ir cortar o cabelo não sei bem onde acabei por não perceber exactamente do que se tratava.

Ao ver a acção do colectivo Interpolação Feminismos, cuja página de Facebook foi denunciada e já não está disponível (sem comentários) prestei atenção ao assunto e apercebi-me de que a questão nada tem a ver com a prestação de serviços. Tem a ver com a proibição de entrada no espaço. Que sendo privado, é aberto ao público. Não preciso de ser feminista (que não sou) nem de ser mulher para perceber a gravidade da questão.

Chama-se segregação, discriminação e crime.

Artigo 240.º – Discriminação racial, religiosa ou sexual

1 – Quem: 
a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo, orientação sexual ou identidade de género, ou que a encorajem; ou 
b) Participar na organização ou nas actividades referidas na alínea anterior ou lhes prestar assistência, incluindo o seu financiamento; 
é punido com pena de prisão de um a oito anos. 
    (…)

É a redacção do Código Penal. 
E o que as criaturas exibem como conceito ou estratégia comercial é um crime. Claro que, tratando-se de mulheres facilmente se perguntará: e os ginásios, os spas e por aí fora? Bem, a diferença, uma vez mais, estará entre prestação de serviços e admissão de entrada. E, tratando-se de mulheres, facilmente se terá a reacção que eu própria tive «não deve ser bem assim, devem estar a exagerar».
Não, não estão: o autocolante à porta tem 3 figuras. Um homem, um cão e uma mulher. Sobre a mulher está uma cruz. Mulher não entra. Claro, se fosse «Preto não entra», «Cigano não entra», «Pobre não entra» a mesma situação causaria muito mais incómodo. Seria evidente a discriminação. Pergunto-me: como não é evidente – por se tratar de mulheres? Por que é que a reacção imediata é a relativização do assunto? Por um lado pelo absurdo que é conceber sequer que se proíbe a entrada de uma mulher onde quer que seja. Por outro lado: «nunca fui discriminada por ser mulher, bem pelo contrário». Por outro lado: misoginia. 
Porquê? Alguns – note-se aqui: alguns – dos que se indignam com esta discriminação inaceitável não se indignam com a violência e ilegalidade das discriminações salariais, das violações dos direitos de maternidade, com os patrões (particularmente nos hipermercados) que pedem às mulheres que ponham as mamas de fora para provarem que estão a amamentar, com os horários de trabalho incompatíveis com a participação social e política, com leis laborais criminosas e por aí adiante. Gostava (muito) de ver uma invasão a um banco, pela forma deplorável como tratam as trabalhadoras deste sector. Mas fazem desta barbearia o alfa e o ómega.
Porquê? Alguns entendem que a gravidade não é assim tanta por serem mulheres que não podem entrar e cortar o cabelo num determinado sítio (e veja-se a gravidade de toda a frase), vão cortar a outro, também não é por aí. Pois.
Porquê? Porque ainda se nega a existência de discriminação em função do sexo ou identidade de «género». E ela existe e tem várias gradações consoante a classe (e aqui, lamento mas não concedo, a mulher burguesa não é discriminada na mesma medida e forma que uma mulher operária).
E com tudo isto, a acção da Interpolação Feminismos põe o dedo na ferida. Em Lisboa, século XXI, uma barbearia proíbe a entrada de mulheres. E, aparentemente, é coisa de somenos. Talvez nos obriguem a sentar no banco de trás dos autocarros. E se formos pretas talvez nem possamos votar.