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Silêncio

Calados, caladinhos, cabeça baixa, orelhas que tapem os ouvidos, que vão falar os comunistas. Os velhos e cansados, os que desde 1921 que vão acabar, os retrógrados e contra o progresso, mais o liberalismo que é o futuro, mais o feminismo urbano-burguês. Mudos, calados obedientes, que o pensamento é só um, só pode ser um, que é a natureza humana. Calem-se as ideologias estafadas da igualdade de oportunidades do trabalho com direitos e do direito ao trabalho. São millenials, querem T0 com 2 metros quadrados, querem Uber e Glovo, que se foda quem paga as motas e os carros. Isto salva-se com o Banco Alimentar, desde que não haja bifes, porque temos de deixar que nos roam os ossos. Não há uma app que mastigue por mim? É a vida, só há um caminho, é a natureza humana, que é fodida, porque o ser humano é egoísta quando nasce. Claro que há igualdade desde que não abane o défice, que o défice cai bem em qualquer mesa, não pode é haver muita chatice, diz que é pessoal lá em Bruxelas que diz que somos uns calões; calados e mudos. O quarto poder e tal, que anda um bocado mau, o senhor Presidente da República até falou sobre isso.

Do lado de cá estamos nós, surdos e cegos, como o burro no quadro de Grosz. Deu no jornal, que eu vi; deu no Facebook, que eu vi; deu no Portugal Glorioso ou no Direita Política, que eu vi e, se não é verdade, não faz mal, porque podia ser. Vamos lá dar a papa aos meninos, vamos explicar como é que se deve pensar, que temos o Marques Mendes as fazer-nos esse favor, mais a Manuela Moura Guedes e o Jorge Coelho e a ponte que os pariu a todos.

Silêncio
Não se pode dar espaço a quem pensa diferente, a quem tem um projeto diferente. Já viram se a mensagem passa? Vamos bloquear esta merda, mesmo que estejamos a bloquear a nós próprios. Então não é que a UGT votou ao lado da administração numa cena sobre jornalistas precários? Olha que não estava à espera. Ah, espera… Não importa, vamos buscar um ex-isto e ex-aquilo radicalmente social-democrata acomodado, vamos dar espaço, deixar falar. Porque Cuba e Venezuela e Vietname e Laos. E a Coreia do Norte, cheia de mísseis e não sei quando. Temos de discutir as fake news, não se percebe como aqueles lorpas caem nisto. E as armas de destruição massiva no Iraque, que comemos que como lorpas e demos a mastigar aos pacóvios? E aquele maluco da ONU que afinal era mas que o Expresso disse que sim, mas afinal não. E os ucranianos que são maus mas os russos é que são piores. Nós é que somos quem dá a informação cuidada e isenta. Nós somos mesmo quarto poder e devíamos ser contrapoder. Mas depois lá se vão assessorias e consultorias nas próximas eleições. Vamos calar isto, se não, como dizia o António, esta merda vai voar.
Silenciados
A imagem abaixo representa uma recolha efetuada nos sites de diversos órgãos de informação sobre o espaço de comentário político destinado a cada partido. Importa realçar que foram recolhidos dados no JN, DN, Público, Sol, Expresso, TSF, Visão, TVI e SIC. Incluindo os canais noticiosos. Não contam comentadores convidados para assuntos imediatos, que pertencem, invariavelmente, ao círculo ideológico de PS, PSD e CDS, embora não estejam diretamente ligados aos partidos referidos. De referir que a imagem aponta apenas presenças individuais. Há os seguintes casos em que a mesma pessoa se desdobra em vários órgãos, sendo esses os seguintes:

PSD – Paulo Rangel (Público / TVI)
CDS – Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
BE – Marisa Matias (DN / TVI)
BE – Francisco Louçã (Expresso / SIC)

Então, a presença partidária nos media com espaço de opinião está distribuída da seguinte forma:

PS
Ana Catarina Mendes (JN)
Maria Antónia Almeida Santos (DN)
Francisco Assis (Público)
João Gomes Cravinho (Público)
Pedro Adão e Silva (Expresso)
Isabel Moreira (Expresso)
Ana Gomes (SIC)
Jorge Coelho (SIC)
Carlos Zorrinho (TVI)
Fernando Medina (TVI)
João Cravinho (TVI)
Pedro Silva Pereira (TVI)
Catarina Marcelino (Visão)

PSD
Poiares Maduro (JN)
Margarida Balseiro Lipes (DN)
Paulo Rangel (Público / TVI)
Feliciano barreiras Duarte (Sol)
João Lemos Esteves (Sol)
Sofia Vala Rocha (Sol)
Duarte Marques (Expresso)
Diogo Agostinho (Expresso)
Marques Mendes (SIC)
Carlos Carreiras (TVI)
José Luís Arnaut (TVI)
Luís Montenegro (TVI)
Manuela Ferreira Leite (TVI)
José Eduardo Martins (Visão)

CDS
Nuno Melo (JN)
Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
Bagão Félix (Público)
Nádia Piazza (TSF)
Lobo Xavier (SIC)
Paulo Portas (TVI)

BE
Mariana Mortágua (JN)
Marisa Matias (DN / TVI)
Pedro Filipe Soares (Público)
Francisco Louçã (Expresso / SIC)
José Soeiro (Expresso)
Fernando Rosas (TVI)
José Manuel Pureza (Visão)

PCP
Rui Sá (JN)
Bernardino Soares (TVI)
Rita Rato (Visão)

Calados
É inegável que o PCP é silenciado nos órgãos de comunicação social. Hão-de haver motivos. No caso dos três comentadores comunistas, importa realçar que Bernardino Soares, de acordo com o site da TVI, esteve meses sem qualquer participação e não há referência à sua substituição por outro membro do PCP. Não há como romper este bloqueio, que é ideológico. Não é nem mais nem menos que isso. É permitir a outros que comentem sobre tudo, incluindo questões sobre o PCP, sejam elas sobre o partido em si, sejam sobre opções políticas, que são afirmadas sem direito a contraditório. Abaixo, segue um vídeo ilustrativo do que se passa, publicado no Facebook do PCP, sobre uma importante iniciativa e discussão política em torno das posições do Partido.

Organização e luta
Perante este cenário de bloqueio, é demasiado fácil bater no PCP, em que tanto alguma esquerda como a direita mais saudosista de outros tempos usam os mesmos argumentos. Porque não há contraditório. Estamos na era da informação a ser enformados. É também por isso que é tão importante que os militantes comunistas se informem, mais não seja, da atividade do Partido pelos meios que têm à disposição. Que discutam e decidam, que percebam que, se não temos espaço espaço nestes órgãos, não somos nós que estamos errados. Não há critério editorial que pretenda explicar o afastamento do PCP dos media e, ao mesmo tempo, resista ao exemplo de Daniel Oliveira. Sozinho, o ex-bloquista tem espaços de comentário em quatro órgãos: Expresso, SIC, TSF e Canal Q. Eu tenho a minha opinião sobre as posições de Daniel Oliveira, que não vem ao caso. Mas devia, ao menos, fazer-nos pensar como é que alguém, seja quem for, consegue ter mais espaço de comentário do que um partido inteiro que, por acaso, tem 15 deputados.

Marcelo: O candidato deles

O custo das campanhas das presidenciais e a forma como Marcelo Rebelo de Sousa foi louvado pelos media já foi aqui abordado, e tão bem, pelo António. Não é sobre isso que me apetece escrever, embora isto ande tudo ligado. No dia 3 de Janeiro de 2016, o Público decidiu vender um folheto de campanha do candidato que é tão independente do PSD/CDS como eu sou vegetariano.

Esta capa deve fazer-nos pensar, tem de fazer-nos pensar no papel dos media tradicionais na formação de opinião. E Marcelo é um especialista nisso, tendo em conta que andou anos e anos, durante 52 domingos por cada um, a explicar-nos como devemos pensar em relação a tudo e mais alguma coisa, desde o futebol, passando pelo atletismo, política internacional, nacional, culinária, geopolítica, rendas de Bilros e tudo o mais.


Nas suas Conversas em Família, Marcello, perdão, Marcelo, pôde dizer tudo, ensinar-nos tudo, com o alto patrocínio da TVI. Voltando ao dia 3 de Janeiro e ao Público, convém recordar desde já que é propriedade da família Azevedo. Do Belmiro e do Paulo. Na sua criação e história, o Público sempre foi tido como um diário mais inclinado para a esquerda, uma esquerda urbana e intelectual, com estudos. Foi essencialmente a secção cultural que, durante muitos anos, fez o Público crescer entre este segmento da população.

O equívoco começa aqui. Um diário de esquerda criado por um capitalista é coisa que não existe. O primeiro número do Público, para quem se recorda, tinha como foto da primeira página Álvaro Cunhal de costas, com uma manchete que anunciava o fim do PCP e da sua linha ideológica. E fica claro para que “esquerda” é que o Público foi criado, pensado e mantido durante tantos anos, mesmo com todos os prejuízos que sempre teve.

A verdade é que o poder da imprensa escrita já não é o que era. Logo no dia 3 de Janeiro, nas redes sociais, foram inúmeras as publicações a condenar o Público e a questionar se fará o mesmo com todos os outros candidatos. É pouco, é certo. Há uma parte substancial da população que não usa redes sociais e continua a comer tudo o que é debitado pelos media. Mas começa a haver uma mudança que os media tradicionais parecem não acompanhar ou não perceber. A Internet permite um escrutínio e difusão muito mais abrangente do que sucedia há uns anos, quando o Correio da Manhã tomava o partido da direita e apelava ao voto na AD. De forma tosca, mas apelava. E, honra lhe seja feita, sem grande dissimulação.

É evidente que há uma promiscuidade entre jornais, jornalistas e política. No anterior governo do PSD/CDS, foram pelo menos dez os jornalistas do Diário de Notícias que assumiram funções em cargos de nomeação, desde directores de serviço até assessores. Isso mesmo: dez jornalistas que um jornal que se aguenta nas bancas sabe-se lá como, perdeu para um governo. Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Licínio Lima, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. O DN há-de ser um caso de estudo sobre a sua verdadeira utilidade, sendo um jornal de âmbito nacional que vendia, em 2014, pouco mais de 15.000 exemplares por dia, contadas também as assinaturas digitais. Isto talvez ajude a perceber a simpatia mediática que Marcelo, o candidato da direita, goza nos jornais, rádios e tv.

Marcelo é o candidato deles. Da direita, do populismo dos orçamentos para as campanhas, mesmo depois de ter apoiado Cavaco, quando este gastou 1.800.000 euros na sua campanha. Nesta altura, Marcelo andava pouco preocupado com os gastos. É o candidato dos donos dos media e dos seus amigos do BES, por onde também passou Maria de Belém, que a Ordem dos Médicos, com um sentido de oportunidade muito apurado, homenageará no dia 12.

Nenhuma destas questões é nova e a promoção do candidato do PSD/CDS repetir-se-á até ao dia das eleições. De forma mais ou menos clara, Marcelo será levado ao colo até ao trono de Belém. Cabe a nós desmascarar o papel que sempre teve no apoio à direita, às várias direitas que foram comandando o país através de esquemas de promoção semelhantes.