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Sanções à Venezuela: Cronologia de uma morte lenta

Hoje mesmo, o autoproclamado presidente de qualquer coisa na Venezuela, Juan Guaidó, vem pedir à UE que imponha novas sanções ao povo venezuelano. O sofrimento do seu povo ainda não é suficiente, Guiadó quer mais, precisa de mais, para que a estratégia resulte. Sobre sanções, já aqui escrevi o seguinte, em relação a outro assunto: “[Até 2006] Em 50 anos, foram impostas 141 sanções a países. Dessas 141 sanções, 85 foram impostas unilateralmente pelos EUA, com motivos tão diversos como desestabilizar Allende no Chile, apoiar a UNITA em Angola, na Nicarágua para desestabilizar os sandinistas, em Granada para afetar os simpatizantes comunistas, em Cuba para atacar os comunistas, na Jugoslávia para atacar Milosevic. Em todas elas, os que mais sofreram foram os povos afetados por este tipo de medidas, que, a cobro de desculpas como o “restabelecimento dos direitos humanos” – uma das justificações que surge amiúde quando se trata de embargos e sanções a países africanos – morreram e morrem aos milhões, todos os anos, devido à guerra económica movida pelas potências dominantes no panorama internacional.

Ainda não consegui encontrar um estudo que demonstre o impacto que as sanções têm e tiveram no descalabro económico da Venezuela. No entanto, fica uma cronologia da guerra económica de Obama e Trump que, neste como outros casos, em nada diferem uma da outra. Aguardo que alguém que apoie este golpe de Estado consiga dissociar o estado social e económico da Venezuela deste quadro. E que digam qual o país que conseguiria sobreviver com estas restrições.

14/04/2013: Nicolás Maduro é eleito presidente da República Bolivariana da Venezuela, com 50,6% dos votos expressos nas urnas. O seu principal opositor, Henrique Capriles Radonski, não reconhece a derrota eleitoral e apela os seus apoiantes para que saiam às ruas em protesto. O balanço foi de 11 chavistas mortos e 65 feridos.

12/02/2014: A oposição tenta derrubar o presidente pela força. Balanço: 42 mortos e 850 feridos. Face ao fracasso do golpe de Estado e, tendo em conta as derrotas eleitorais, inicia uma guerra económica e financeira, com o propósito de estrangular a população venezuelana e virá-la contra o governo revolucionário Bolivariano.

18/12/2014: O Congresso dos Estados Unidos aprova a lei 113-278, intitulada “Lei Pública de Defesa dos Direitos Humanos e da Sociedade Civil na Venezuela”. Este instrumento jurídico dita a linha de ação política dos EUA e dos seus aliados contra a Venezuela. Esta lei estabelece a possibilidade de tomar medidas unilaterais coercitivas contra a Venezuela nos domínios económico, financeiro e comercial. Para além disso, estipula que se deve “trabalhar” nesse sentido, junto com os seus parceiros e membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia (UE).

08/03/2015: O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assina a Ordem Executiva 13692 – o “decreto Obama” -, que se baseia na Lei dos Poderes Económicos em Situação de Urgência Nacional; na Lei de Urgência Nacional e na Lei 113-278, declarando a Venezuela como uma “ameaça extraordinária e fora do comum, relativamente à segurança nacional e à política externa dos EUA”. Este decreto vai dar a cobertura legal aos ataques económicos que desde então incidem na Venezuela.

Abril de 2016: Começa o embargo financeiro. A partir desta data, são aplicadas restrições às instituições venezuelanas titulares de contas bancárias no estrangeiro que pretendam efetuar pagamentos em dólares, nomeadamente, para comprar medicamentos e outros bens de importação comuns, como por exemplo alimentos.

Maio de 2016: O banco alemão Commerzbank fecha as contas de várias instituições venezuelanas, incluindo as contas dos bancos públicos da Venezuela e da empresa pública petrolífera PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A.

Julho de 2016: O banco americano Citibank proíbe a sua rede de intermediários bancários de efetuar transações com instituições venezuelanas, incluindo o Banco Central da Venezuela.

Agosto de 2016: O fecho unilateral das contas de intermediários bancários obriga a Venezuela a efetuar transações noutras moedas, sendo que a maior parte das receitas obtidas pela venda de petróleo é em dólares. O país sofre grandes perdas devido aos novos custos das transações, das taxas de câmbio e outros custos operacionais.

Agosto de 2016: O Novo Banco (Portugal) informa o Estado venezuelano, que não realizará mais nenhuma transação em dólares com bancos ou instituições venezuelanas, devido à pressão exercida pelos seus intermediários bancários.

Julho de 2017: A empresa Delaware, que gere os portfólios de títulos da PDVSA, informa a PDVSA que o seu banco intermediário, PNC Bank, não aceitará mais fundos provenientes da empresa petrolífera.

Julho de 2017: O banco americano Citibank rejeita um pagamento do Estado venezuelano destinado à compra de 300 mil doses de insulina.

21/08/2017: O Banco Da China, sediado no Panamá, informa a Venezuela que, no seguimento de pressões do Departamento do Tesouro dos EUA, bem como do governo do Panamá, não poderá realizar mais nenhuma transação em dólares a partir da Venezuela ou para a Venezuela.

22/08/2017: Vários bancos russos informam a Venezuela da impossibilidade de realizar transações com os bancos venezuelanos, devido à restrição imposta pelos bancos intermediários dos Estados Unidos e de vários países europeus.

23/08/2017: O banco intermediário BDC Shandong bloqueia uma transação da China para a Venezuela, no valor de 200 milhões de dólares. Seria necessário mais de um mês para que a Venezuela pudesse recuperar esta soma pecuniária.

24/08/2017: Donald Trump assina a Ordem Executiva 13808, intitulada “Imposição de sanções adicionais a propósito da situação na Venezuela”. Este decreto proíbe toda uma série de transações com o Estado venezuelano, e sobretudo com a PDVSA, e qualquer outra entidade pública da Venezuela. É, assim, estabelecida uma lista de restrições a operações financeiras :

– O Estado venezuelano e a PDVSA estão proibidos de emitir novos títulos de dívida.

– Interdição de efetuar transações de títulos emitidos pelo governo antes da entrada em vigor do decreto.

– É proibido o pagamento de dividendos ou de lucros ao governo da Venezuela, pela parte de entidades residentes nos EUA. Isto afeta sobretudo a Citgo, empresa subsidiária da PDVSA e que conta com três refinarias e 6 mil estações de serviço no território dos EUA.

– É proibida a compra de certos títulos do Tesouro e de dívida venezuelana.

A Casa Branca declara que este conjunto de proibições foi “cuidadosamente pensado para negar à ditadura de Maduro, uma fonte não negligenciável de financiamento”. O decreto 13808 visa a sistematização de ataques contra empresas públicas e operações comerciais e financeiras do Estado venezuelano, com o objetivo de destruir a economia do país. Relativamente a este assunto, o embaixador americano na Venezuela, William Brownfield declarou: “A nossa melhor resolução é precipitar o colapso do governo, mesmo que isso implique meses e anos de sofrimento para os Venezuelanos”.

Agosto de 2017: No seguimento de pressões do Departamento do Tesouro americano, a empresa Euroclear, uma filial do banco americano JP Morgan, congela as operações de transação sobre a dívida soberana da Venezuela. A Euroclear retém assim, desde esta altura, 1,2 mil milhões de dólares, pertença da República Bolivariana da Venezuela.

Agosto de 2017: O Banco Da China – filial de Frankfurt – recusa a emissão de uma transação no valor de 15 milhões de dólares devidos pela Venezuela à empresa mineira Gold Reserve.

05/09/2017: O Canadá e os EUA associam-se para “adotar medidas económicas contra a Venezuela e contra pessoas que contribuem ativamente para a situação atual do país”.

Outubro de 2017: O Deutsche Bank informa o banco chinês CITIC Bank do fecho de contas nos seus intermediários bancários, por terem aceitado pagamentos da PDVSA.

Outubro de 2017: A Venezuela compra vacinas e medicamentos à Organização Pan-Americana de Saúde, uma filial da Organização Mundial de Saúde, e, portanto, sob a égide da ONU. Em virtude da extraterritorialidade das leis norte-americanas, o banco suíço UBS rejeitará o pagamento, provocando um atraso de quatro meses na entrega das vacinas, desorganizando amplamente o sistema público de vacinação gratuito do Ministério da Saúde venezuelano.

03/11/2017: O presidente Maduro anuncia que a Venezuela reembolsou mais de 74 mil milhões de dólares aos seus credores nos últimos 4 anos. Apesar disto, as agências financeiras degradam a notação ligada ao risco de incumprimento da Venezuela, tornando assim mais difícil a obtenção de crédito no mercado de capitais.

09/11/2017: Os Estados Unidos sancionam um grupo de funcionários venezuelanos, evocando o “espezinhar da democracia e de administrar programas governamentais corrompidos de distribuição de alimentos”. Os funcionários responsáveis pela importação de alimentos no país ficam impedidos de assinar acordos comerciais, que favoreçam a política alimentar do governo.

13/11/2017: A UE proíbe a venda de material de defesa e de segurança interna à Venezuela.

14/11/2017: A agência de notação Standard and Poor’s declara o “incumprimento parcial” da Venezuela, apesar dos pagamentos regulares de dívida.

15/11/2017: O Deutsch Bank, principal intermediário do Banco Central da Venezuela, fecha definitivamente as contas desta instituição, colocando em perigo todas as suas operações bancárias.

Novembro 2017: A Venezuela compra medicamentos anti-malária (primaquina e cloriquina) ao laboratório colombiano BSN Medical. O governo da Colômbia impede a entrega dos medicamentos, sem nenhuma justificação.

Novembro de 2017: Os grupos farmacêuticos transnacionais Baxter, Abbott e Pfizer recusam emitir certificados de exportação com destino à Venezuela, tornando impossível a compra de medicamentos produzidos por estas empresas, nomeadamente de natureza oncológica.

Novembro de 2017: Os bancos intermediários recusam várias transações da Venezuela no valor de 39 milhões de dólares. Esta soma destinava-se a 23 operações de compra alimentar para as celebrações de Natal e fim de ano.

29/01/2018: O Departamento do Tesouro americano afirma que “A campanha de pressão contra a Venezuela começa a dar frutos. As sanções financeiras que impusemos obrigaram o governo deste país a entrar em incumprimento relativamente à sua dívida soberana, bem como da dívida da PDVSA. Podemos assim assistir (…) a um colapso económico total da Venezuela. Ou seja, a nossa política funciona e a nossa estratégia funciona, devemos por isso continuá-la”.

12/02/2018: O Departamento do Tesouro americano alarga as sanções financeiras contra a Venezuela. É proibido renegociar e restruturar a dívida venezuelana, bem como a dívida da PDVSA emitida antes de 25 de Agosto de 2017.

Março de 2018: 15 pugilistas venezuelanos são impedidos de participar nas competições de qualificação para os Jogos da América Central e das Caraíbas de 2018, devido à falta de acordo com a agência de viagens, emissora dos bilhetes de avião. Quando a empresa se apercebeu que se tratava do transporte da Federação Venezuelana de Pugilismo, os preços das passagens aéreas passaram de 300 dólares para 2 100 dólares por pessoa. Posteriormente, uma companhia privada propôs um voo charter para transportar a equipa. No entanto, Colômbia, Panamá e o México não autorizaram a aeronave a sobrevoar o seu espaço aéreo.

02/03/2018: Os Estados Unidos renovam por mais um ano, os decretos 13692 (Obama) e 13808 (Trump). O decreto 13808 impõe seis novas medidas coercitivas, tendo como objetivo, atacar a estabilidade financeira da Venezuela. O Gabinete de Crimes Financeiros dos Estados Unidos (FinCEN) alerta as instituições financeiras mundiais que as transações com entidades públicas venezuelanas são suspeitas de corrupção. Esta acusação, sem fundamento nem provas, tem como consequência a travagem do pagamento às empresas alimentares e aos laboratórios farmacêuticos, tornando difícil a importação de bens essenciais. Isto resultará no congelamento de 1,65 mil milhões de dólares, pertença do Estado venezuelano.

19/03/2018: O presidente Trump assina a ordem executiva 13827, que proíbe todos os cidadãos e instituições, de efetuar transações financeiras com a criptomoeda venezuelana “Petro”, mesmo antes de esta dar entrada nos mercados de criptomoedas. Esta decisão é a primeira do género a ocorrer na curta história das criptomoedas.

27/03/2018: O governo do Panamá publica uma lista de 16 empresas venezuelanas suspeitas, sem provas, de branqueamento de capitais e de financiamento do terrorismo.

19/04/2018: Steve Mnuchin, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, reúne-se com representantes da Alemanha, Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Espanha, França, Guatemala, Itália, Japão, México, Panamá, Paraguai, Perú e Reino Unido, para pedir “acções concretas, de forma a restringir, a capacidade dos funcionários venezuelanos corrompidos e das suas redes de apoio”. Afirma que o presidente Nicolás Maduro não tem legitimidade para pedir financiamento em nome do seu país. A drenagem financeira da Venezuela representa assim o único objetivo destas propostas.

Maio de 2018: São congelados 9 milhões de dólares ao Estado venezuelano, destinados aos tratamentos de diálise. Como consequência, 20 mil pacientes serão privados de tratamento.

Maio de 2018: O banco italiano Intensa Sanpaolo bloqueia o dinheiro destinado à construção do pavilhão da Venezuela na XVIª Bienal de Arquitectura de Veneza.

21/05/2018: Devido à reeleição de Nicolás Maduro para a presidência, Donald Trump reforça as sanções. De agora em diante, todos os cidadãos e empresas americanas estão proibidos de adquirir propriedades pertencentes ao governo da Venezuela no território dos EUA.

25/06/2018: O Conselho Europeu adota a decisão 2018/901, sancionando os membros da administração venezuelana, incluindo os que operam no sector da alimentação. Esta medida faz eco àquela que foi tomada um ano mais cedo pelos EUA (9 de Novembro de 2017), tendo como finalidade impossibilitar a compra de alimentos pelo governo venezuelano.

01/11/2018: O presidente Trump assina um novo decreto, autorizando o Departamento do Tesouro a confiscar as propriedades dos operadores do sector mineiro aurífero da Venezuela, sem que acusações penais ou civis sejam necessárias. O objetivo é o de impedir a recuperação, por parte do Estado da Venezuela, da bacia mineira de Orinoco, uma das maiores reservas mundiais de minério aurífero. O Secretário-adjunto do Tesouro americano, Marshall Billingslea, num absoluto cinismo, declarará, a propósito deste assunto: “Deveríamos manifestar mais indignação face aos danos infligidos ao ambiente e às populações indígenas”.

09/11/2018: O Banco Central do Reino Unido recusa devolver à Venezuela 14 toneladas de ouro pertencentes àquele país. Trata-se de um valor que ronda os 550 milhões de dólares.

13/12/2018: A fabricante norte-americana de pneus Goodyear fecha a sua fábrica na Venezuela. O motivo invocado pela direção da empresa é que “as sanções dos Estados Unidos tornam a sua atividade impossível naquele país”.

04/01/2019: Os governos do Grupo de Lima (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colombia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Sainta Lúcia), com exceção do México, adotaram uma resolução para reforçar o bloco. O texto prevê estabelecer uma lista de personalidades jurídicas venezuelanas com as quais “não devem trabalhar, devem ter o aceso impedido aos seus sistemas financeiros e, se necessário, congelar os seus ativos e recursos económicos”. Igualmente, a resolução obriga os países do Grupo de Lima a trabalharem de perto com os organismos financeiros internacionais que integram para impedirem a cedência de novos créditos à República Bolivariana da Venezuela.

Fonte: https://www.romainmigus.info/

A consequência Trump, a causa Hillary

Está tudo em polvorosa. Trump ganhou as eleições. Nos mercados, sempre racionais, as bolsas começaram a cair mas acalmaram após a declaração do novo presidente dos EUA, que não falou em muros nem bombas nucleares nem em agarrar mulheres pela vagina. Os próximos tempos têm tudo para ser interessantes e há tanto para analisar que não há-de caber neste texto, nem em centenas de outros tantos que vão produzir-se. Nos EUA, a política deixou de ser política e passou a ser espectáculo, há muitos anos. Se é que algum dia a política foi política naqueles estados. Sendo espectáculo, ganhou um show man produzido e adorado pelos media por ser excêntrico. Um grunho, mas um grunho excêntrico, e é isso que vamos todos comendo no quotidiano. O discurso de que os políticos são todos iguais é o que mais vende nos nossos dias, principalmente por cá. Se é verdade que há muitos que o são, há outros tantos ou mais para quem isto é uma comparação injusta. Não é preciso ser “especialista” no que quer que seja para perceber no que dá. Mas todos os dia se dá tempo de antena a gente que não faz mais do que acusar os políticos, essa entidade estranha que ninguém sabe bem quem é, mas que é suficientemente abrangente para sacudir culpas e lançar acusações. Basta ver, por exemplo, a quantidade de personagens “independentes” com ambições políticas que têm vindo a ganhar espaço em todos os espaços, dos media às autarquias.

A nossa superioridade intelectual
Apesar de tudo, estamos confortáveis aqui na Europa. Afinal, somos pobres que acreditamos que qualquer um pode ter um apartamento de meio milhão de euros. E foi também com esta ilusão que Trump ganhou as eleições. Que qualquer um pode ser milionário, a pobreza é apenas um tempo intermédio até lá chegarmos. Estamos confortáveis, sim. No fim de contas, não somos sírios, não somos iraquianos, libaneses, iemenitas, não fomos afectados pela beleza da Primavera Árabe que levou um caos ainda maior àquela região do globo, não sofremos com o golpe no Brasil e com a desestabilização da América Latina, que continua a ser vista como a casa de putas dos interesses dos EUA.Claro que para nós é um choque. Estamos aqui sentados a ver tudo nos smartphones, enquanto meio mundo explorado tenta chegar ao meio mundo explorador para fugir à morte. E este é também o legado de Hillary fora dos EUA. Agora, como sucedeu com o Brexit, vamos só achar que são burros e esquecer os motivos e as causas dessa burrice. Porque nós somos tão inteligentes. Nós, que elegemos Cavaco quatro vezes.

O espectáculo
Vivemos na era da enformação. Papamos tudo desde crianças, sem questionar. Só sabemos que é assim porque é assim e nunca poderia ser de outra forma. Vamos pegar no exemplo de canais de televisão vistos, essencialmente, por jovens. A MTV deixou de ser um canal de música para ser um canal de reality shows. A SIC Radical tem na sua programação espaços em que transmite reality shows sobre empresas de reboques, cozinhas, tatuagens, uma família que vive do negócio da pornografia. Curiosamente, foi também na SIC Radical que pudemos conhecer melhor Trump, já que transmitiu O Aprendiz, onde era possível assistir ao despedimento de pessoas. Entretenimento. Só para dar alguns exemplos e sem entrar nas generalistas e em canais que em tempos foram de informação e formação, mas que, hoje, transmitem reality shows a partir de cadeias dos EUA, sobre a caça ao ouro e a vida dos traficantes. É isto que estamos a comer todos os dias, a todas as horas. Mas, já sabemos, os americanos é que são estúpidos. Nem nos apercebemos que estamos a ficar tão estúpidos como eles. Quem nunca se riu, afinal, daqueles inquéritos aos norte-americanos em que não sabem identificar países nem oceanos e mais além?

Género e raça
A onda de esperança que atravessou o globo com a eleição de Obama, só não se esvaiu imediatamente a seguir porque, lá está, também ele se transformou numa estrela. Estamos a falar de alguém que chegou à presidência dos EUA e recebeu um Nobel da Paz mas que deixou o país envolvido em mais conflitos do que quando tomou posse. Ao seu lado estava Hillary. Nesse tempo, aumentou a desigualdade entre ricos e pobres, a desigualdade salarial, a desigualdade de género e, pasme-se, também a racial. Nos últimos anos, aliás, assistimos a uma tensão crescente entre a comunidade negra e as forças policiais. Mas Obama continua a ser, para nós, o que podemos chamar de um gajo porreiro. Até dança em programas e faz vídeos engraçados para o YouTube. A ter havido votos que Hillary perdeu por ser mulher, foram residuais. O problema do capitalismo não é de género ou de raça, é do sistema; ainda que mulheres e não-brancos possam ser mais afectados por ele. Mas essa é uma condição do capitalismo.

Trump? Impossível.
Quando Trump anunciou que seria candidato pelos republicanos, poucos acreditaram. E muitos, do alto da sua superioridade intelectual, ridicularizaram o pré-candidato. No entanto, Trump começou a ganhar estado atrás de estado. Mas, para alguns especialistas e analistas, faltava sempre um estado que era impossível ganhar. Não faltou. Quando foi nomeado o candidato republicano, Hillary ia trucidá-lo. Hillary perdeu. Mas perderam também as sondagens, como já havia sucedido com o Brexit. Talvez seja altura de começarmos a questionar para que servem, afinal, as sondagens, se não para serem mais um elemento de condicionamento das escolhas.

A consequência
Acredito que Trump não será a causa de coisa alguma. Trump é uma consequência de tudo o que foi e não foi dito atrás. Trump é também uma consequência do que foi Hillary na sua vida política. Trump é um produto do sistema e não creio que vá ser tão louco como foi durante a campanha. O novo presidente não é uma ameaça para o sistema, é um produto dele. E o que poderá acontecer, no máximo, é a troca do establishment do sistema por outros actores. O sistema eleitoral, político e económico dos EUA segue vivo e de boa saúde, para gáudio de quem vive muito bem às custas dele.

Uma noite em Kilkenny, ou porque é que a esperança não é para ter, é para manter

“The Hole in the Wall”, Kilkenny, Irlanda

Eu e ela andámos pela Irlanda. Passámos em Kilkenny – passem por lá que vale a pena. A noite foi passada num pub, claro, chamado “The Hole in the Wall“, que está aberto desde meados do séc.XVI! Nesse pub, nessa mesma noite, não estava muita gente, mas havia de tudo, e por ordem cronológica do contacto que tivemos com eles: o jovem barman irlandês; um dentista norte-irlandês católico e que emigrou para o sul; um casal suíço; o dono irlandês do pub e conceituado médico cardiologista; dois casais de norte-americanos que vivem perto de Kansas City.

E a conversa teve vários desenvolvimentos, todos quiseram saber novas de Portugal, todos tinham queixas do sistema político actual, todos tinham a cabeça meio baralhada nos conceitos, nas escolhas e nas prioridades. Mas vamos por partes, ou melhor, por personagens.

– o jovem barman irlandês: o que tenho a realçar é que não sabia o que eram os PIIGS e que, sendo músico e pelos vistos putativo maestro, não conhecia fado, o Chico Buarque e a Elis Regina.

– o dentista norte-irlandês católico e que emigrou para o sul: emigrou para o sul porque se sentia excluído na Irlanda do Norte. Disse qualquer coisa sobre se sentir um negro na África do Sul em tempo de apartheid. Disse também que vivemos em fascismo, que a Merkel isto e aquilo, mas depois, mais tarde, disse também que só gostava de dois políticos, Donald Trump e Vladimir Putin.

E como pessoa que sentiu a segregação religiosa na pele, achou por bem afirmar que há quem diga que Paris em 2050 e Londres em 2070, serão cidades islâmicas e que ele não quer viver em cidades islâmicas. Conclusão, é preciso mesmo expulsar os árabes do continente europeu.

– o casal suíço: entre eles falavam alemão, ele chamava-se Roberto (que pronunciou num italiano impecável), ela chamava-se Laure (que pronunciou num francês impecável). Mantiveram-se a noite toda a falar entre eles, pouco interagindo com os restantes. O alemão permite manter a distância, seja isso bom ou mau…

– o dono irlandês do pub e conceituado médico cardiologista: foi médico do corredor de Fórmula 1, Eddie Irvine, inventou um medicamento qualquer para o coração. Um cérebro. E a conversa ia bem, quando no início da noite disse que o pub não era dele, era do banco, que andávamos todos a trabalhar para pagar aos bancos. Até aqui tudo normal, é um facto indesmentível, o que se faz quanto a isso é que nos pode distanciar.

Não sei se estamos muito ou pouco distantes, mas esta mesma pessoa, que durante a noite mostrou ser bom anfitrião, a certa altura elogiou Donald Trump, dizendo que ele tem coragem de dizer coisas que os políticos nem sempre dizem, e que espera que para lá de as dizer, ele as faça. E quais são essas coisas? Dificultar a entrada de estrangeiros nos EUA, ora pois…

– os dois casais de norte-americanos que vivem perto de Kansas City: vamos subdividir em casal 1 e homem 2 (o homem do casal 2, sendo que não ouvi nada da mulher 2, a não ser cantar).

O casal 1 quer muito visitar Portugal. A filha dela esteve cá há pouco tempo (pela conversa a surfar no Alentejo) e adorou, prometeu também voltar. Adoram vinho, demos conselhos.

Quanto ao resto. Não gostam muito do Trump, mas também não gostam da Hillary. ainda assim talvez votem Trump, porque ele não é mentiroso, porque até é um homem de sucesso e porque não pode ser um monstro tão grande se gosta tanto, e demonstra, da mulher e dos filhos.

E sobre Bernie Sanders? Bem, esse é apelidado de socialista – ficámos sem perceber se para eles isso era bom ou mau -, mas na verdade até nem é, porque depois entra em contradição sobre alguns temas. Mas captou muito eleitorado jovem porque defende o acesso às universidades de forma gratuita. E o casal 1 concorda que o que se paga para tirar um curso nos EUA é absurdo. Um médico, por exemplo, tem de pagar cerca de 260.000$, fazendo com que, tendo recorrido a um empréstimo, chegue aos 30 e poucos anos com meio milhão de dólares de dívida ao banco. Mas o casal 1 continua a preferir o Trump…bem, o homem 1 balançou um pouco…

E um outro lado, menos comum e mais agradável. O casal 1 e o homem 2 afirmaram que detestam a arrogância norte-americana que os faz não estudar outras línguas, que os faz dizer que os EUA são o melhor país do Mundo e o resto é paisagem. Não gostam do complexo de superioridade, é isso. Positivo. Dizem que gostavam imenso de aprender outras línguas, de visitar outros países, era a primeira vez que saíam dos EUA e notaram logo que os irlandeses são gente muito, muito simpática. E são.

Disseram ainda que das coisas que tinham mais pena por viverem no Kansas, era a dificuldade de contacto com pessoas de outros países, porque quase nenhum turista vai visitar a cidade deles.

Conclusões: e porque é que vos conto este encontro nocturno? Porque ele não me sai da cabeça, porque sempre que dizem que só em Portugal é que acontece isto ou aquilo, cada vez me arrepio mais. Quando me disserem que só neste país é que há falta de activismo por causas, só neste país é que há um desconhecimento grande a nível político e ideológico, tomarei aquela noite como um belo barómetro.

É claro que há alheamento, desinformação, falta de cultura política, falta de prática democrática, alienação, mas isso acontece em todas as partes do globo. Nesta conversa estavam presentes pessoas com cursos superiores, com profissões que normalmente associamos a um certo nível intelectual, mas as baboseiras que saíram daquelas bocas foram similares às baboseiras que muita gente com graus académicos muito básicos diz.

Não é a academia que forma a solidariedade entre as pessoas e os povos, a academia americana não conseguiu travar um movimento recente de jovens estudantes universitários que acha que certos livros devem ser pura e simplesmente banidos das bibliotecas universitárias, sugerindo até eventos com fogueiras bem vivas e alimentadas pelas suas páginas. Não é a academia que elimina todos os preconceitos mais básicos e animais de alguns seres humanos, nem é ela que vai fazer com que abdiquemos do pequeno quintal que conquistámos durante anos.

O Mundo não é um lugar bonito, nem pacífico, e na maior parte do seu território e nas cabeças de muita gente, não está sequer a caminhar no sentido do progresso e da modernidade. O Mundo é mesmo um lugar estranho, que vive de equilíbrios muito precários, de constante luta por recursos e ideias de putativas sociedades ideais.

O ser humano está cheio de contradições, seja em Portugal, na Irlanda, na Suíça ou nos EUA. Mas o que me assustou mais naquela noite, foi mesmo a constatação de que não caminhamos para uma sociedade que queira paz, caminhamos para uma sociedade que se deixa levar na cantiga do cada um por si e se cada um não consegue o que quer a culpa é do outro. Depois é só escolher quem é o outro, se é o vizinho, ou se é o refugiado ou imigrante que nos entra pelo país e pela cabeça dentro aos trambolhões sem que os nossos Estados se preocupem em combater a xenofobia crescente. Internacionalismo não rimará nunca com racismo.

No dia em que os seres humanos perceberem que a luta é mesmo entre o fundo e o topo da pirâmide, o que o médico irlandês vai perceber é que se andamos todos a trabalhar para os bancos então o que é preciso não é expulsar quem vem para o nosso país, é lutar contra os bancos dos seus países de origem. O que os norte-americanos que acham incrível o custo da educação no seu país vão fazer, é provavelmente juntarem-se e começarem por acabar com o sistema de bipartidarismo que os oprime. O que o dentista norte-irlandês católico vai fazer é voltar para o Ulster e em conjunto com os seus pares protestantes libertar o país do imperialismo capitalista britânico.

No dia em que os seres humanos perceberem, deixa de haver pirâmide, porque a base deixa de suportar o bruto peso do topo.