All posts tagged: Economia

A escassez de Economia

Há um livro de Paul Sweezy, de 1973, que tem uma abordagem interessante ao momento que então se vivia no meio académico e que se agravou desde então e, creio, ajuda a explicar a dificuldade sentida, academicamente, no aprofundamento da economia marxista. Economia que, para ser uma ciência social, não pode actuar desgarrada de todas as outras. A economia não é uma ciência exacta, tem matemática mas não é matemática. É por isso que, se num mercado desregulado a oferta e a procura ajustam preços, no mundo real fazem-no à custa do factor do trabalho. É que até o factor capital só existe quando é produzido pelo factor trabalho, e é este princípio que parece ser esquecido ou, não raras vezes, omitido.

Não é menos verdade que o marxismo foi afastado dos programas de Economia das universidades. Aliás, no livro base de qualquer curso de Economia actual, de Samuelson e Nordhaus, pode ler-se: “A agricultura, os sindicatos e a economia marxista foram reduzidos para dar lugar à economia do ambiente, à economia de rede, aos ciclos económicos reais e à economia financeira”. Em suma, a academia não ensina Economia, mas antes um sistema económico, que nos é apresentado como único nas suas variantes, com a nuance de haver mais ou menos regulação.

Porém, a História, recente e não só, tem-nos provado que a regulação efectuada pelos Estados é insuficiente, ineficiente e anacrónica. Porque, mais uma vez, a Economia enquanto ciência social não pode existir sozinha. E, por isso, não pode a Economia alhear-se dos outros fenómenos e analisar os factos à luz de processos que não correspondem à realidade. Afirmar, como na Economia neoclássica, que é necessário que os Estados regulem os mercados, sem ter em conta que os Estados estão capturados pelo poder económico, pelos detentores dos meios de produção e pela minúscula fatia que concentra a esmagadora maioria da riqueza, não é ser Economia, é ser matemática.

Dizia, então, Paulo Sweezy: “O paradigma subjacente que, neste caso, insiste no conflito, no desequilíbrio e na descontinuidade, data igualmente de há uma centena de anos. Precisamente porque o conhecimento que ele produz constitui uma crítica total da sociedade existente, é natural que os beneficiários desta ordem social não o tenham aceite – em primeiro lugar as classes possidentes, que são também as detentoras do poder político. A economia marxista foi, portanto, rejeitada por todas as instituições estabelecidas da sociedade: os governos, as escolas, colégios e universidades. Em consequência, tornou-se a ciência social dos indivíduos e classes em revolta contra a ordem social estabelecida”.

(…)

“A «investigação normalizada» no interior do quadro do paradigma marxiano tem sido, desde o início, extremamente difícil de levar a cabo. Excluídos das universidades e dos institutos de investigação, os economistas marxistas não tiveram as facilidades, o tempo, o ambiente conveniente de que dispunham os outros investigadores. A maior parte deles teve de consagrar as suas vidas a outras tarefas, muitas vezes em sectores da actividade política que exigiam um trabalho esgotante e uma grande tensão nervosa. Em tais circunstâncias, não é de espantar que tão poucas coisas tenham sido realizadas: pelo contrário, talvez se deva antes sublinhar o facto de tanto se ter concretizado nestas circunstâncias”.*

Ontem, a Oxfam publicou um estudo onde se pode ler que 80% da riqueza criada foi para 1% da população mundial, apelando a uma justa repartição dos rendimentos, mas fá-lo com uma conclusão errada, que é não referir – que heresia – que isso não acontecerá neste modelo económico, com ou sem regulação, pelo que foi dito atrás. Não há alternativa a este estado de coisas neste modelo económico e social. Não há alteração da distribuição de rendimentos enquanto o valor do trabalho não for propriedade de quem o produz.

É na parte menos pior do capitalismo que este é vendido como inevitável, único e o fim da História. Sendo também nesta zona do globo que são ditadas as leis que acabam por perpetuar o actual estado das coisas. É aqui que estão as universidades, os detentores dos meios de produção e os centros de decisão mundiais. Não há uma instituição mundial localizada na Etiópia, no Mali, no Haiti. Não é por acaso. É porque a metade menos pior do capitalismo se mantém nos ombros de milhões de explorados para que se possa alterar tudo, sem mudar coisa nenhuma. De cátedra, FMI, Banco Mundial, OMC e dezenas de outros organismos, onde cada um diz o mesmo com vozes diferentes, explicam ao explorado porque é que tem de ser explorado para que os primeiros possam ser exploradores. E é nesta zona do globo, no chamado Ocidente, que se definem as políticas de todo o mundo, mantendo metade na mais extrema pobreza e uma parte substancial do que resta na ilusão de que pode viver com dignidade a pagar a um banco aquilo que é seu por direito.

E entramos então num círculo que urge romper. Os detentores dos meios de produção, que se confundem com reguladores e, por isso, governos, são quem define políticas, incluindo educativas. Através dessas políticas, perpetuam o seu estatuto. Quando acaba o seu tempo útil de vida, retiram-se e são substituídos por outros formados dentro do mesmo campo, formados dentro dos mesmos parâmetros.

Obviamente, é útil conhecer os fundamentos e o funcionamento da economia de mercado. Diria que é essencial para quem a combate. Mas tenhamos todos noção que o trabalho de um marxista, nesta como noutras questões, é redobrado em relação todos os outros. Mas, tenhamos noção que “é assim porque tem de ser assim”, enquanto nós quisermos que seja.

Há escassez de Economia na Economia. E suprir esta falha é, também, uma tarefa de todos.

*”Para uma Crítica da Economia Política”
Publicações Escorpião – Cadernos o Homem e a Sociedade
Impresso em 16 de Março de 1973

“douradinhos é bom, mas é pouco.”

Há pouco mais de um ano, na fila do supermercado, o homem à minha frente, acompanhado da sua filha, passou várias embalagens de arroz como compra. Aliás, tanto quanto me recordo, arroz foi tudo quanto comprou, juntamente com um qualquer enlatado de conserva. Era assim que se alimentava.

Hoje, no supermercado da Bela Vista, em Setúbal, uma mãe com duas filhas só comprou quatro embalagens de congelados. Uma de rissóis, uma de croquetes, duas de pastéis. A conta foi 10 euros e uns cêntimos, dois contos e qualquer coisa. A mulher pagou com uma nota e umas moedas. Estavam contadas.


Há dois anos o país estava ocupado, sob um pacto de submissão assinado por PS, PSD e CDS junto de um clube de agiotas internacionais que predaram a economia portuguesa de uma forma como eu, com 35 anos, nunca tinha visto. Hoje, o país continua asfixiado pelo garrote da política de direita que faz da dívida e do défice as amarras que justificam o desvario. Não, não é nem nunca foi “austeridade”, nunca passou de assalto. Não há rigor nas contas públicas compatível com 8 500 milhões de euros sangrados do trabalho realizado em Portugal para pagar a dívida de uma burguesia que viveu e vive à grande e à francesa, comprometida com a grande banca em Portugal que, por sua vez, canaliza milhões para os centros do grande capital que se federam na banca francesa e alemã. Cerca de metade da dívida portuguesa é detida por entidades estrangeiras e mesmo a parte detida por entidades nacionais, bancos, fundos de investimento e pequenos aforradores, corresponde em boa parte a dívida emitida para suportar os negócios dos mais ricos dos mais ricos.

Uma mãe que alimenta os filhos com o que tem a mais não é obrigada. Mas um Estado que condena as mães e os pais a alimentar os filhos com arroz e conservas, ou com rissóis e pastéis não faz o que pode, muito menos o que devia.

É verdade que que existem sinais de inversão de sentido de algumas políticas. Os portugueses não estão sujeitos, neste preciso momento a uma política orientada para o seu empobrecimento e para o aumento da exploração. A participação do Partido Comunista Português numa solução que visou viabilizar um Governo que se aproximasse do sentido de voto dos portugueses também determinou que em áreas fundamentais, como no rendimento do trabalho, hoje se debata o ritmo da reposição de salários e pensões e não o ritmo ou a gravidade de novos cortes, como PSD e CDS pretendiam e pretendem. Não é menos verdade que a situação actual não ultrapassa os constrangimentos fundamentais com que os portugueses estão confrontados, por opção do partido que constituiu Governo.

As pessoas, os trabalhadores, continuam a pagar com o seu trabalho os custos das opções de destruição e afundamento nacional de sucessivos governos, aliciados pela maravilha europeia que afinal de contas não passa de um ardil para impor o capitalismo como regra, a fórmula mais sedutora que os partidos da política de direita, com particulares responsabilidades do PS, encontraram para colocar, mais do que o socialismo, a própria Constituição da República, na gaveta. Que é como quem diz que foi a forma encontrada para trair Abril pelo atalho mais rápido.

Abril é soberania, União Europeia é submissão. Abril é tomar o partido do Trabalho na luta de classes, União Europeia é impor as regras do Capital. Abril é democracia, União Europeia é plutocracia, cleptocracia, pornocracia. Abril é Educação e Cultura, União Europeia é formação profissional e entretenimento. Abril foi um sorriso na cara dos trabalhadores, uma esperança imensa, uma ascensão audaciosa da classe operária. A União Europeia é a realidade de hoje. É um rissol.

A fome nas escolas persiste. Os baixos salários e o desemprego persistem. A estagnação económica está longe de vencida. Os juros da dívida pesam cada vez mais no orçamento do Estado. Apesar dos avanços, as questões estruturais mantêm-se. E o problema do país não é simplesmente económico, como a linguagem de pau da política, do Governo e de boa parte do Parlamento, fazem crer. O problema do país é político.

O Secretário-Geral do PCP, nos momentos próximos da construção da actual solução política que afastou a cangalhada PSD e CDS do Governo, afirmou que a fase actual da vida política não pode gerar atentismos. Apesar da esperança que o afastamento do PSD e CDS pôde criar nas massas trabalhadoras, esperar não pode ser o resultado. Os pais não podem continuar a comprar pacotes de arroz à espera de que a política do Governo lhe permita comprar mais um saco de arroz. A mãe não pode comprar rissóis, esperando um dia poder comprar mais uma embalagem de congelados. Não. Não enquanto outros podem refastelar-se nas piscinas de uma riviera qualquer, passear num iate pelo Caribe, ou descansar num hotel brasileiro com as contas pagas pela família Espírito Santo. Não enquanto Ricciardi for o banqueiro do ano. Não enquanto a EDP, construída com o investimento e o trabalho dos portugueses, pagar milhares de milhões de lucros a chineses. Não enquanto os banqueiros se vão revezando entre os campos de golfe e as cadeiras da administração que escolhe quem tem e quem não tem crédito. Não enquanto Governos escolhem pagar 400 mil euros anuais a gestores públicos.

O potencial progressista da actual situação política nacional depende, não dos orçamentos do Estado, não do Governo, não da União Europeia, não da dívida, não do défice, não dos patrões, mas essencialmente da capacidade que tenhamos, todos, de compreender que esta situação não é uma solução. Não é uma solução. É apenas um passo na resistência à política de direita, um passo com limitações que só podem ser vencidas com a força do povo, com a consciência clara de que este caminho não tem futuro a não ser que Abril seja trazido para os objectivos políticos de um Governo, que este caminho não é a solução de que o país precisa, mas apenas a que foi possível criar no presente, com os olhos postos no futuro.

O primeiro passo para o futuro é esse, não nos contentarmos com três embalagens de pasteis congelados em vez de duas. E acima de tudo não esperar que a terceira nos caia no regaço. Olhos postos no futuro com um movimento operário forte, na frente da luta. Essa é condição necessária para Abril e para o futuro dos portugueses. E não há Governo, nem correlação de forças que mude isso. Há é situações políticas que favorecem a ascensão política do operariado e situações que a tolhem.

Sobre o glifosato e a Bayer.

Desculpem-me os leitores do manifesto74 por vir usar o vosso espaço com uma clarificação que passa perto de uma defesa pessoal, mas que, como compreenderão, é não só necessária, como colectiva.

O jornal i decidiu, no âmbito da campanha mediática em curso contra a solução governativa para que o Partido Comunista Português contribuiu, fazer uma delirante notícia com direito a meia capa. O correio da manhã, esse produto tóxico em papel que devia constar na categoria 2A da classificação da IARC – International Agency for the Research on Cancer – acompanhou de imediato. A origem da notícia está numa abstrusa manipulação de um artigo que escrevi neste blog levada a cabo por militantes e dirigentes do BE nas suas páginas de Facebook, onde me acusavam de insinuar que o BE teria recebido dinheiro da Bayer para propor a proibição do Glifosato. O i e o CM limitaram-se a aproveitar a boleia.

Então vamos ao que julgo interessar e poder contribuir para se perceber todo o enleio:

O glifosato é um composto químico classificado na lista 2A da IARC, ou seja, classificado como “potencialmente cancerígeno”. Isto significa que, em determinadas circunstâncias, perante determinadas concentrações, o produto pode ter efeitos cancerígenos. Nessa lista está o café quente (acima de 65º), a carne vermelha, praticamente todos os insecticidas domésticos e profissionais, a profissão de vidreiro ou de cabeleireiro, por exemplo.

O glifosato foi introduzido no mercado como herbicida pela Monsanto em 1974. A patente do glifosato rendeu milhões a essa multinacional, principalmente porque essa multinacional desenvolveu várias sementes geneticamente modificadas cuja principal característica era serem resistentes ao glifosato. Significa isto que a semente era vendida por ser resistente a um herbicida, o herbicida matava portanto as daninhas todas, sem prejudicar a cultura principal. Claro que com o tempo, as daninhas desenvolveram resistência ao glifosato e, como resposta, era necessário usar cada vez mais glifosato. A Monsanto tinha descoberto uma mina de ouro: sementes resistentes a um herbicida e o herbicida, tudo vendido pela mesma companhia.

Além dessa utilização, o glifosato é também utilizado no controlo de daninhas em espaço público, como forma de impedir o desenvolvimento de pragas, como as de carraças e outros insectos, alguns deles vectores de doenças de animais e humanos.

Ora, tal como todos os compostos, importa sempre gerir o risco. No caso da utilização do glifosato para controlo de daninhas em espaço público, devemos ponderar: é preferível ter carraças ou glifosato? é preferível usar algum outro composto alternativo? E avaliar a resposta a cada uma dessas perguntas.

Mas a verdadeira questão, como já devemos ir percebendo ao longo desta leitura, está na utilização de transgénicos resistentes a compostos sintéticos, sejam pesticidas, herbicidas, ou insecticidas. A utilização dessas sementes pode ser rentável para a Monsanto, para a Bayer, para a Syngenta, etc.. pode até, em alguns casos, ser rentável para o produtor que consegue volumes de produção como não podia ter sem a utilização dessa semente, mas não é certamente rentável para o planeta, para os solos, para a biodiversidade, para a saúde pública, etc. Ora, o PCP apresentou uma proposta para a proibição de cultivo de variedades vegetais geneticamente modificadas que foi sendo sucessivamente rejeitado desde a X legislatura por PS, PSD e CDS.

Mas em torno do glifosato colocaram-se outras questões. Com o alarme público que vem sendo alimentado desde 2014, existe uma preocupação generalizada em torno do composto, muitas vezes sem ter plena consciência do grau de risco a que se refere o “potencialmente cancerígeno” que, como já vimos, coloca a carne vermelha e o café quente exactamente no mesmo patamar que o glifosato. Esse alarme público é também resultado do normal lobbying junto dos orgãos de poder e surge só após a caducidade da patente da Monsanto, em 2001 e curiosamente, após o desenvolvimento do Liberty e do Ignite, compostos com que a Bayer visa substituir o Roundup – nome comercial do glifosato. Essas manobras, se não ligadas à ciência podem provocar a proibição de um composto de domínio público, barato e já experimentado pelos humanos para que seja substituído por um composto patenteado, caro e cujos efeitos na saúde são ainda desconhecidos. Uma vez mais, não significa que não se deva substituir, significa que se devem pesar estes riscos, um a um.

No entanto, com a alimentação da histeria colectiva em torno do glifosato patrocinada também pela comunicação social dominante, a Monsanto vê desvalorizar o seu principal activo: o glifosato e as sementes que lhe resistem. Ora, não podendo o glifosato ser utilizado, as sementes também se tornam inúteis. Podemos, neste momento, colocar a questão: mas a substituição do glifosato pode ser feita por vinagre diluído ou por água fervente. Para isso, a minha resposta é só: “ya, meu, então não se está mesmo a ver!?”. A resposta a uma proibição do uso do glifosato na agricultura industrial seria apenas uma: encontrar uma alternativa para a semente transgénica e para o herbicida. Curiosamente, só existe uma alternativa ao produto da Monsanto: a da Bayer, chamada glufosinato de amónio e comercializada sob o nome de liberty ou ignite.

Ora, quando em Março, o PCP foi acusado de defender a Monsanto, com insinuações várias de dirigentes do BE, quer no facebook, quer no esquerdapontonet, os órgãos de comunicação social limitaram-se a associar o PCP a um produto potencialmente cancerígeno sem tentar explicar uma única vez a posição do PCP e sem ouvir sequer a direcção do PCP ou o Grupo Parlamentar. Nessa altura, uma das muitas acusações lia-se assim: “PCP junta-se a PSD e CDS na defesa da Monsanto. Hoje, inacreditavelmente, o PCP juntou-se ao PSD e ao CDS para chumbar o projeto de lei do Bloco para proibir o glifosato no espaço público. A Monsanto agradece.” Esta foi produzida por Nelson Peralta, mas podíamos encontrá-la no mural de João Vasconcelos, deputado do BE.

Nessa altura, o PCP emitiu um comunicado, ignorado por toda a comunicação social. Ao mesmo tempo, o PCP, não escondendo que o problema do uso de químicos sintéticos na agricultura vai muito além do glifosato, pois que a demagogia é inimiga da sensatez, apresentou um projecto de resolução que visava dar a resposta necessária e ampla. Esse projecto foi igualmente ignorado pela comunicação social. Era muito mais simples, fácil e útil insistir na absurda ideia de que o PCP estava do lado da direita por estar feito com a Monsanto ou por mero sectarismo. Sectarismo esse que, a existir, não explicaria por que raio se teria o PCP abstido num projecto do BE sobre glifosato uns meses antes. A diferença é que o primeiro projecto tinha um conjunto medidas, entre as quais recomendar ao Governo Português que assumisse uma posição favorável à não renovação da licença do glifosato no plano da União Europeia, e o projecto do BE de Março visava proibir a utilização do glifosato no espaço público imediatamente. Ora, para ficar claro, o PCP votou a favor do projecto do Partido Ecologista “Os Verdes” que recomendava a não renovação da licença do glifosato. Logo aí ficou percebida a posição do PCP: apoiar soluções graduais que visem a não renovação da licença do glifosato mas demarcar-se de aventuras que visassem a proibição imediata, sem alternativas. O PCP preferiu a seriedade ao facilitismo.

Mas esse facilitismo pelo que obtou o BE não pode deixar de ser enquadrado na onda que beneficia a Bayer. Ou seja, o BE, tal como em muitas outras ocasiões, preferiu alinhar pelo mediatismo da questão do que pela defesa da saúde pública. A ser proibido, sem mais, o glifosato, que fariam as autarquias ao stock ja adquirido? como controlariam as daninhas? como impediriam pragas de carraças, por exemplo? Claro que pode haver alternativas, mas devem ser avaliadas e planificadas. O mais grave é que o BE sabia desde o início que o PCP tinha essa posição. O BE modificou o seu projecto de maneira a fazer com que o PCP alterasse o seu voto de abstenção para contra, e agendou o debate com essa intenção. O BE podia ter pedido a baixa do projecto sem votação, com o apoio do PCP, para que o projecto pudesse ser mais debatido. Optou por não o fazer. Porquê? Simples: a sua intenção não era aprovar o texto, era obter o voto contra do PCP para poder fazer as acusações que fez depois. Curiosamente, quando o projecto anterior chumbou como resultado da posição do PS, o BE não dirigiu ao PS as acusações que dirigiu ao PCP. Critérios e amizades que se compreendem.

Chegados a este ponto, vamos ao que escrevi. “A Bayer tinha um produto caro que visava substituir um produto barato. Agora talvez o consiga fazer com o apoio da legislação feita ao sabor de interesses não anunciados. Se o BE recebeu ordens de alguém para propor em Portugal a proibição do glifosato, não poderemos saber, mas que houve quem lucrasse milhões com propostas desse tipo, lá isso houve. Criado o alarme em torno do glifosato, restou ao BE cavalgar o seu mediatismo e acusar os comunistas de defenderem a Monsanto e a utilização de produtos cancerígenos. Na sua estratégia de isolar constantemente o PCP, o glifosato foi um eficaz produto. A comunicação social encarregou-se de intoxicar a opinião pública com essa “nova propriedade” do glifosato e com o preconceito de que o PCP é um partido tão ortodoxo que defende que devemos todos morrer por exposição a produtos que provocam o cancro.”

No dia em que a Bayer anunciou a compra da Monsanto, manobra que o PCP denunciou logo em Março aquando da discussão do projecto do BE, limitei-me a mostrar que o BE, na sua marcha anti-PCP e na sua habitual cavalgada sobre a espuma do mediatismo, acabou por estar alinhado com a estratégia de uma multinacional que agora vai deter praticamente o monopólio mundial da agricultura e dos fitofármacos e pesticidas mais importantes. A Bayer adquiriu a Monsanto a um preço mais baixo do que podia ter adquirido, caso o glifosato ainda tivesse patente e legalidade com perspectiva de futuro. O glifosato será substituído pelo glufosinato de amónio, cujos impactos e efeitos cancerígenos ainda são desconhecidos por ter uma utilização menos disseminada e mais recente. Mas o problema continuará: as sementes têm os seus genes patenteados por grandes multinacionais que dominam a agricultura mundial com custos incalculáveis para o planeta e o ser humano, mas gerando lucros brutais. Em vez de usarem glifosato vão usar glufosinato de amónio e em vez de serem detidas pela Monsanto e pela Bayer, serão todas detidas pela Bayer.

Espero que resulte claro que a minha alusão ao “BE ter recebido ordens” era uma chamada de atenção para os pés de barro do BE no que toca às suas posições. Se o PCP foi acusado de defender a Monsanto quando não apoiou o BE, julgo que é legítimo dizer que esse argumento pode ser utilizado também para o BE quando contribui para o sucesso da estratégia da Bayer. Evidentemente, considero tão ridícula a acusação do BE ao PCP como a minha insinuação, todavia a minha insinuação surge nesse contexto com vista a demonstrar precisament isso. Mas o BE gosta pouco que lhe chamem as atenções: quer ficar bem nas fotografias do mediatismo burguês mas não quer assumir que isso tem custos políticos. Quando ficava bem dizer mal de Khadafi, o BE não hesitou em apoiar a intervenção militar no parlamento europeu., mas nunca quis assumir o sangue nas mãos pelas bombas que caíram na Líbia. Agora que ficava bem ser contra o glifosato, nada indica que o BE tivesse vontade de assumir que essa posição favoreceu a estratégia da Bayer.

Glifosato fora de moda

Agora será má altura para relembrar que a Bayer comprou a Monsanto por 60 mil milhões de euros, depois de ter sido levada a cabo uma campanha de alarme em torno do principal activo da Monsanto – o glifosato e as culturas transgénicas tolerantes a esse herbicida -, mas ainda assim, porque só com as peças todas podemos montar o puzzle, aqui vai:

A Monsanto produziu o roundup (glifosato) e ao mesmo tempo vendeu milhões de sementes tolerantes ao químico, dominando assim uma importante parte da agroindústria e da produção de alimentos. A Monsanto detinha a patente das variedades transgénicas tolerantes ao herbicida e ao mesmo tempo a patente do herbicida. As variedades não eram resistentes a pragas, como muitos tentaram fazer-nos crer, mas sim ao roundup. A patente do glifosato expirou em 2001, e isso permitiu que fosse possível produzir e utilizar glifosato com custos muito menores, continuando a usar variedades vegetais resistentes ao herbicida.

Durante os últimos anos a Bayer tem vindo a colocar no mercado um substituto do glifosato, o único substituto eficaz, segundo a marca. O LibertyLink, que suporta os produtos Liberty e Ignite, ambos da Bayer, vem trazer os mesmos resultados que o glifosato, de acordo com a Bayer.

Portanto, e sem me alongar em especulação, eis os factos: o alarme público em torno do glifosato desvalorizou a Monsanto e abriu caminho à proibição de um produto não patenteado, tal como abriu o caminho à sua integral substituição por um outro produto, desta feita patenteado pela Bayer e que pode ser aplicado precisamente às mesmas colheitas e variedades vegetais.

A Bayer tinha um produto caro que visava substituir um produto barato. Agora talvez o consiga fazer com o apoio da legislação feita ao sabor de interesses não anunciados. Se o BE recebeu ordens de alguém para propor em Portugal a proibição do glifosato, não poderemos saber, mas que houve quem lucrasse milhões com propostas desse tipo, lá isso houve. Criado o alarme em torno do glifosato, restou ao BE cavalgar o seu mediatismo e acusar os comunistas de defenderem a Monsanto e a utilização de produtos cancerígenos. Na sua estratégia de isolar constantemente o PCP, o glifosato foi um eficaz produto. A comunicação social encarregou-se de intoxicar a opinião pública com essa “nova propriedade” do glifosato e com o preconceito de que o PCP é um partido tão ortodoxo que defende que devemos todos morrer por exposição a produtos que provocam o cancro.

O caminho do BE estava destinado ao sucesso. Hoje, a Bayer comprou a Monsanto e prepara-se para substituir o glifosato pelo glufosinato de amónia com publicidade de borla e honras de circo parlamentar. Mas hoje, hoje já ninguém quer saber. Porque a mesma comunicação social que elevou o BE a paladino do ambiente e da saúde pública, não vai fazer a ligação entre a aquisição da Monsanto pela Bayer e o súbito alarme público em torno do glifosato.

A questão não está na utilização do glifosato ou do novo LibertyLink, mas na utilização de variedades transgénicas que colocam a produção agrícola mundial nas mãos dos monopólios do agronegócio e que ditam a sobreutilização dos solos e a sua destruição. Proibir o glifosato enquanto se permite a continuação da utilização de sementes modificadas para serem resistentes a produtos químicos não muda nada a não ser o nome dos produtos. No caso presente, mudou também o proprietário das patentes. Onde a Bayer detinha uma parte do mercado, passou a detê-lo todo.

Mais monopólio, menos planeta.

Faltam por aqui 3,9 mil milhões de euros.

“falta por aqui uma grande razão” dizia Cesariny. E agora falta de facto por aqui “uma grande realmente razão” porque anda por uma aí uma tremenda confusão. Mas o Manifesto74, em linha com a sua tradição, está aqui para ajudar.

Ora, então depois de termos ouvido durante um ano inteiro, PSD e CDS teimarem que o Estado não pagou um tostão da resolução do BES e que foi tudo pago pela banca, eis que vêm agora, um e outro, dizer que se o Estado não vender o Novo Banco não poderá reaver o que gastou. Em que ficamos? Então não tinham sido os bancos a pagar o Novo Banco? Que tem o Estado a reaver se foram os bancos que pagaram o Novo Banco? Ah, afinal o PCP tinha razão e os bancos não pagaram nada. Estamos esclarecidos.

O PS, que diz que o PSD tratou mal o processo Banif, acabou por entregar o Banif ao Santander e ainda pagou pela operação – concluindo o processo em linha com o que queria o PSD – e que sempre criticou o processo do BES/Novo Banco, afinal de contas prepara-se para prosseguir com a estratégia do PSD/CDS ao dizer que não vê a nacionalização senão como hipótese de último recurso, no caso de não aparecer comprador privado.

Mas a confusão não se fica por aí. O BE, que desde o dia 25 de Janeiro tem nas ruas por todo o país uma campanha de outdoors a dizer: “Novo Banco – pagamos para vender? – banca pública ao serviço das pessoas” e que desde 2014 que tem a sua líder a dizer que “já pagámos, só nos falta mandar“, vem agora dizer que é preciso pensar muito bem, política e tecnicamente a solução para o Novo Banco e que não se pode fazer o debate à pressa e que pode bem ficar para mais tarde, para “depois da aprovação final do Orçamento do Estado“.

Tudo isto porque o PCP assumiu a posição e decidiu concretizá-la com uma proposta concreta. PS, PSD e CDS sentem que a posição do PCP ameaça o sistema no seu coração – o sistema financeiro e os grupos monopolistas – e o BE não disfarça uma espécie de frustração por não ter tido a coragem ou o engenho de avançar com a proposta.

Mas então, vamos lá explicar a operação para que todos percebam onde está o dinheiro público e como foi feita a resolução e pode ser feita a venda a privados ou a nacionalização. Ao menos o dinheiro público ainda sabemos onde está, apesar de não sabermos para onde foi o dinheiro do banco que deu origem ao buraco de mais de 8,6 mil milhões de euros, já que ninguém quis aprovar a proposta do PCP para ir procurar os que andaram a viver à grande e à francesa com o dinheiro das poupanças dos clientes do Banco que acabámos todos por pagar.

Cenário da resolução: o Fundo de Resolução tinha que pagar 4,9 mil milhões pela resolução do Novo Banco, no sentido de satisfazer as necessidades de capital do Banco. Contudo não tinha dinheiro.
O Fundo é alimentado por um imposto pago pela banca a um ritmo de cerca de 100 a 150 milhões anuais, pago por todas as sociedades de crédito que trabalham em Portugal, na medida da sua dimensão e lucro. A Caixa Geral é, portanto, quem mais paga anualmente para o Fundo de Resolução, seguida pelo BCP, depois Novo Banco, e por aí fora. Ora, estava portanto o fundo em muito más condições de dinheiro e teve de pedir emprestado para pagar os tais 4,9 mil millhões ( 4 900 000 000 euros ) pelo banco que não era assim tão novo. Vai daí e pede emprestado aos portugueses 3,9 mil milhões de euros ( 3 900 000 000 euros ) e aos bancos pede emprestado cerca de 1000 milhões ( 1000 000 000 euros ). Portanto, neste momento, o Fundo de Resolução deve ao Estado Português 3,9 mil milhões e aos bancos mil milhões, empréstimo pelo qual paga juros aos credores, apesar de não ter dinheiro próprio.

Cenário de venda a um privado (reprivatização do Novo Banco): Se um privado oferecer, por exemplo, 500 milhões pelo Novo Banco, o Fundo de Resolução recebe esses 500 milhões e vende a parte boa do banco, ficando com os activos tóxicos (créditos não pagos, imobiliário desvalorizado, garantias inexistentes ou sobravaliadas, etc..) e com uma dívida ao Estado e aos bancos. Com os 500 milhões que recebe, paga 400 milhões ao Estado e 100 aos bancos, dos quais, 40 para a Caixa Geral. Ou seja, fica a dever ao Estado 3,5 mil milhões de euros e aos bancos 900 millhões de euros, um total de 4,4 mil milhões. Ao longo dos anos seguintes, os bancos – incluindo a Caixa – vão pagar os tais cerca de 100 milhões anuais em impostos que o Estado coloca no Fundo de Resolução e com esses 100 milhões anuais, o Fundo de Resolução vai pagando os 3,5 mil milhões que deve ao Estado e os 900 milhões que deve aos bancos mais os juros sobre esses valores. Ora, na melhor das hipóteses, tendo em conta os juros, e partindo do pressuposto de que nenhum outro banco precisará de resgate durante esse período, o Fundo de Resolução iria conseguir pagar a dívida ao Estado e aos bancos portugueses mais ou menos daqui a 40 e alguns anos.  Portanto, o Estado ficaria sem Novo Banco, com um empréstimo de 3,5 mil milhões a um fundo de resolução que nunca o vai conseguir pagar e ainda teria de assumir a responsabilidade sobre as litigâncias e outros problemas do Novo Banco que o privado exigiria separar do banco que quer comprar.

Cenário de venda ao Estado: imaginemos que o Estado avalia o Banco em 500 milhões, tal como o privado. E que solicita a segregação dos activos tóxicos, tal como o privado. O resultado é este: o Estado paga 500 milhões de euros ao Fundo de Resolução, o fundo paga ao Estado 400 milhões e aos bancos 100 para amortizar o empréstimo. Fica assim a dever ao Estado 3,5 mil milhões e aos bancos 900 milhões. Ao longo dos anos, os bancos vão pagando o imposto que alimenta o fundo e o fundo vai pagando a dívida ao estado no valor de 3,5 mil milhões ao longo de qualquer coisa como 40 e alguns anos. O Fundo de Resolução fica com os activos tóxicos e coloca-os numa qualquer sociedade veículo, como faria no caso de ser feita a venda a um privado e fica com uma dívida ao Estado e aos bancos num total de 4,4 mil milhões, tal como deveria caso tivesse vendido o banco a um privado. Ao mesmo tempo, o Estado reavê os 3,9 mil milhões que emprestou na totalidade ao longo dos tais 40 e e alguns anos porque ao longo desses 40 e alguns anos a banca continuará a alimentar o fundo com cerca de 100 a 150 milhões de euros por ano. A diferença é que o Estado ficava com a parte boa do Banco para si. Se o Fundo de Resolução nunca conseguir pagar o que deve, a situação é exactamente igual à que se viria a verificar no caso de venda a um privado, ou seja, o risco é o mesmo.

A questão é simples: o Fundo de Resolução é alimentado por um imposto que rende um valor anual. Do ponto de vista da lei, o Estado receberá sempre o empréstimo, caso o banco seja entregue a um privado ou fique na esfera pública. Portanto, se o Estado adquirir o banco por 100 euros, o Fundo de Resolução ainda fica a dever ao Estado 3 899 999 920 euros e aos bancos 899 999 980 euros que deverão ser pagos pelos impostos da banca ao longo dos anos. Se o Estado, como cenário meramente hipotético, entender que o Banco vale 4,9 mil milhões de euros, paga esse valor ao fundo de resolução e o fundo de resolução paga ao Estado o que lhe deve e aos bancos o que lhes deve e fica a zeros, sem dívidas e a receber, anualmente, os impostos dos bancos. Evidentemente, o Banco vale apenas uma parcela desse valor, sendo que o restante terá de ser assumido como perda do Fundo de Resolução, que terá de pagar com o imposto que os bancos lhe vão pagando anualmente. A forma de melhor salvaguardar o interesse público é, portanto, pagar o mínimo possível pelo Novo Banco, mas ficar com ele. Porque a opção contrária, é um privado pagar o mínimo possível e ficar com o banco que pode render, como acabámos de ver, muitos lucros por anos para quem o comprar.

O Estado pode comprar o Novo Banco por 1 euro, se quiser, e isso não invalida o facto de o Fundo de Resolução continuar a dever-lhe 3,9 mil milhões de euros, menos um euro. Mas como esse euro que o Estado paga fica no Fundo de Resolução, que é uma entidade pública cujas contas consolidam nas contas públicas, a operação continua a ser neutra no longo prazo.

Que seria de nós sem o Marco?

Disseram-te que viveste acima das tuas possibilidades. Que tinham gasto o dinheiro dos teus impostos em investimentos públicos. Que tinhas direitos a mais. Que não trabalhavas o suficiente. Os poderosos deste país, com a ajuda do PS, do PSD e do CDS, fizeram-te uma verdadeira “inception”. Pouco a pouco, conseguiram inculcar-te a ideia de que o Estado é uma entidade estranha nas relações sociais, que os teus direitos são caprichos, que o teu tempo todo – livre ou de trabalho – pertence ao patrão, que as escolas são para quem pode pagar, que os filhos dos pobres nasceram para obedecer e os dos ricos nasceram para mandar. No essencial, pouco a pouco, transformaram o pensamento dos trabalhadores no pensamento de um patrão.

E nada pior para um trabalhador do que pensar pela cabeça do patrão. Porque quanto mais igual for o pensamento, mais diferente será o rendimento.

Essa injecção de ideologia burguesa afecta-nos a todos, rodeia-nos, cerca-nos e infecta-nos. É o pensamento dominante, a lógica dominante e a cultura dominante, a hegemonia. E nenhum de nós lhe é imune. Os ídolos, os exemplos, os elementos de diversão, a educação, o funcionamento das empresas privadas e a cultura do indivíduo, o culto do consumo e a igreja da exploração entram-nos pela vida adentro, mesmo sem pedir licença e sem convite.
E foi também por isso que Teixeira dos Santos e Sócrates, com o apoio do PSD e do CDS, dirigidos por Passos Coelho e Paulo Portas, conseguiram convencer milhões de portugueses de que era necessário pedir um empréstimo para garantir os pagamentos do Estado, nomeadamente salários e pensões. Para isso, foi preciso esconder ou normalizar durante décadas a corrupção e promiscuidade, os salários principescos, as regalias e caprichos dos senhores do dinheiro e dos seus “gestores de topo” e apontar um foco para as despesas públicas, quer as de gastos necessários com gestão corrente do Estado, quer as de investimento. Ou seja, se uma empresa privada não paga salários dignos, nem impostos e assenta arraiais no Luxemburgo ou na Holanda e por isso fica com lucros absurdos, é louvável que gaste o dinheiro em mais call-centres e “graças a Deus que há quem ainda nos dê emprego”, mas já se o Estado constrói uma escola é um “vê se te avias” que “onde é que vai buscar o dinheiro?!”.

Com isto, escondem-nos a perversidade do funcionamento do sistema capitalista. Enquanto o a grande empresa privada baixa salários, foge aos impostos, desrespeita a vida profissional, familiar e social dos trabalhadores, ganha milhões que são vistos como resultado do “mérito do empreendedorismo e da cultura do risco”. Já o Estado que fica empobrecido pelo facto de essa grande empresa não pagar salários dignos e de fugir aos impostos porque tem sede nas Ilhas Virgens Britânicas, é um monstro que gasta os nossos recursos em escolas, hospitais, tribunais, segurança pública, e essas tretas que podiam bem ser feitas por privados que saía mais em conta. E é isso mesmo que vai acontecendo. Só que não sai mais em conta pelo simples facto de que as empresas que ficam com as escolas, os hospitais, a segurança pública e qualquer dia até com os tribunais, se comportam na verdade como a primeira grande empresa referida e, portanto, a cada privatização mais longe ficamos do equilíbrio necessário entre a actividade económica privada, pública e cooperativa.

A realidade, porém, mostra-nos que o processo de “impressão” da ideologia burguesa tem resultado na psique colectiva e no pensamento político das massas. Só assim, uma parte significativa dos portugueses aceitou passar por menino mimado que vivia acima das suas possibilidades e pedir ajuda às “instituições estrangeiras” para nos salvar da miséria em que o Estado nos tinha posto. No meio dessa confusão toda, só os comunistas e os sindicatos de classe não vergaram e passaram por irredutíveis gauleses, acantonados numa postura soberanista incompreensível para com quem nos vinha cá “ajudar” a salvar o país da bancarrota. E o raio dos comunistas continuava a apontar o dedo aos grupos monopolistas, à banca e às políticas de direita e a falar do euro e da União Europeia como se o mundo fosse o mesmo desde que Marx escreveu o Capital.

Ora, estamos agora em Janeiro de 2016, 5 anos passados sobre Maio de 2011, altura em que foi assinado o tratado de submissão entre os representantes da República e as instituições estrangeiras. 5 anos após a invasão a pedido da grande burguesia nacional com a condescendência consciente ou involuntária da pequena-burguesia, a incompreensão de importantes sectores populares e a resistência de amplos sectores de camadas intermédias, jovens, trabalhadores e reformados, insuficiente ainda assim para desmascarar por completo a política em curso e para derrotar o Governo PSD/CDS de serviço. Mas, voltando aos 5 anos passados, eis que as notícias de 11 de Janeiro de vários órgãos de comunicação social vêm comprovar aquilo que o PCP sempre disse: que o pacto de agressão e submissão não era um empréstimo para resgatar as contas públicas, mas um verdadeiro sequestro das contas públicas, da democracia, da república, para resgatar a banca.

Dizem-nos os jornais e até o esquerda-ponto-net, como se a coisa fosse nova, a 11 de Janeiro, aquilo que há meses atrás o PCP denunciou, que os portugueses já assumiram ajudas à banca num valor de 86 mil milhões de euros. Ora, relembro que o “empréstimo” da troika ascendeu a 82 mil milhões de euros e que ficou um pouco abaixo disso porque o Governo decidiu fazer um número de propaganda e “abdicou” da última tranche do “empréstimo” e até conseguiu uma “saída limpa”. Limpinho, limpinho.

Mas então… então os cerca de 80 mil milhões que os portugueses tiveram de contrair como dívida ao FMI, ao Banco Central Europeu e à União Europeia não foram para pagar salários e pensões? Não foram para pôr as contas públicas em ordem? Como podem ter ido todos parar à banca?

Disseram-nos que o “empréstimo da troika” ia ser para pôr o país em ordem e que ia ser constituído um fundo de 12 mil milhões para emprestar a bancos que necessitassem de recapitalização e o resto seria para o que fosse preciso. Depois, os deputados comunistas na Assembleia da República perguntaram ao Governo e os do parlamento europeu perguntaram à Comissão Europeia quanto daquele dinheiro ia ser pago em juros e ficámos a saber que em juros iria qualquer coisa como 35 mil milhões de euros. Restavam então cerca de 30 mil milhões para o “financiamento à economia”. Olhando agora é fácil dizer que não só esse dinheiro nunca chegou à economia, como, na verdade, em 4 anos, lhe foi quase totalmente subtraído.

Como foi então gasto o dinheiro da troika? 12 mil milhões para recapitalizar bancos. 35 mil milhões para pagar juros. 30 mil milhões em garantias bancárias. Ah e tal, mas garantias bancárias não implicam necessariamente gastos. Pois, basta ver como funcionam:

A banca precisa de dinheiro e tem de se endividar no estrangeiro porque andou numa orgia de lucros à custa dos depósitos dos cidadãos, mas os bancos estrangeiros – que gostam de fazer o mesmo mas não são parvos – não emprestam aos bancos portugueses porque sabem que os bancos portugueses não têm dinheiro para pagar os empréstimo. Então é simples, os bancos portugueses pedem ao Estado Português uma garantia e assim, com obrigações garantidas pelo Estado, os bancos portugueses vão aos bancos estrangeiros e dizem: “precisamos de crédito e se nós não pagarmos, o Estado português paga.” E ficam todos muito satisfeitos porque é um negócio da china para o banco estrangeiro e para o banco português. E o Estado português farta-se de ganhar porque sempre que emite uma garantia, recebe juros. O problema é que o Estado vai logo a correr gastar o que recebe de juros num outro banco, contratando um SWAP para fazer o seguro da garantia emitida. Então, mas o Estado para emitir uma garantia tem de ter o dinheiro e para ter o dinheiro tem de emitir dívida. Isso mesmo.

O Estado pede emprestado para dar garantias aos bancos para pedirem emprestado a outros bancos. Depois, os bancos que recebem a garantia já podem endividar-se porque têm fiador. Entretanto, como o Estado é fiador dos bancos que pedem emprestado, tem de pagar juros mais elevados juntos dos bancos que lhe emprestam. No fim de tudo, o Estado garantiu a liquidez de uma banca capitalista corrupta por natureza, assegurou a capitalização dos bancos, pagou os juros pelas operações, e depois pagou a dívida cortando nos salários e pensões e ainda arranjou maneira de aliviar ou anular por completo os impostos dos bancos e dos grupos monopolistas como bónus por terem contribuído para um país mais desenvolvido e moderno.

E pronto, 86 mil milhões de euros, quase o mesmo que todo um Orçamento do Estado, entregue à banca portuguesa. O que vale é que em troca disto, temos o Euro. Que seria de nós sem o Marco alemão?

Impostos Ideológicos

Paulo Portas descobriu a sua nova campanha populista. Com medo de voltar às feiras, envereda agora pelo seu chavão favorito; os partidos que criticam a acção do seu governo e propõem alternativas são ideológicos.

Como a maioria dos chavões do faceto tal afirmação não tem crédito em lugar algum, com excepção na demagogia ou de alguma forma tautológica que, na sua boca, é habitual.

A questão surge invariavelmente quando se discute a questão público/privado: para Paulo Portas o Estado é um mau dono e um mau gestor, o que não deixa de ser inteiramente verdade quando o próprio se encontra como ministro da nação.

Para o anterior governo PSD/CDS, as nacionalizações e as privatizações desapareceram, uma vez mais fruto de operações de linguagem que a comunicação social resolveu aceitar sem grande controvérsia. Assim, quando o Estado usava fundos com origem no erário público para regularizar a “boa gestão” da banca privada dava-se uma compra ou uma injecção de liquidez sem que se operasse uma nacionalização (termo que outrora se usou quando um Estado adquiria qualquer coisa). No verso da medalha, o Estado, quando chegava a hora de alienar, estaria a vender o dito banco ou dita empresa em vez de privatizar (termo que outrora se usou quando um Estado alienava uma parte do seu património).

Deste modo, não se nacionalizou o BES quando se injectou mais de 4 mil milhões de euros, e a sua alienação, feita por ordem e acção do Estado, é sempre referida como a venda do Novo Banco. O mesmo é válido para todas as outras operações de privatização operadas pelo governo PSD/CDS que foram quase tão numerosas como ruinosas para a nação.

Semântica resolvida, Paulo Portas vende-nos que navega num discurso político limpo de sujeira da ideologia. A sua mentira, longe de ser nova, remonta já aos tempos de Adam Smith (provavelmente até antes) que na sua obra “Riqueza das Nações” depressa descobriu que as classes trabalhadoras tinham interesses claramente contraditórios aos Fundiários e aos Capitalistas. Este economista, tal como muitos do que a partir daqui delinearam a economia liberal baseados na sua obra, afirmaram várias vezes que tal facto deveria ser o mais omitido possível pelo bem da estabilidade da sociedade. Smith vai mais longe afirmando que a sua descoberta não corre perigo de causar tumulto social porque os trabalhadores, mantidos no limiar da sobrevivência para lucro dos Fundiários e Capitalistas, por força das longas horas de trabalho e fraca educação não passariam de bestas de carga (objectificando o trabalhador como uma máquina de produção) que nunca compreenderiam que o seu lugar na sociedade era o de obedecer e produzir para sobreviver, nunca se questionando porquê.

Paulo Portas tem muito medo do escrutínio à privatização da TAP. Sabe que a fez sem qualquer tipo de legitimidade e de forma obscura e ilegal. O governo PSD/CDS privatizou a TAP sem que para tal tivesse poder, principalmente quando em menos de 24h assegurou a estatização das garantias bancárias necessárias no caderno de encargos, entre outras ilegalidades que serão agora postas a nu.

O que Paulo Portas não diz, mas sabe muito bem, é que impostos ideológicos são os milhares de milhões que estamos a pagar pela “boa gestão” privada da banca que representa o maior problema sistémico da nossa economia e que onera os contribuintes cada vez que há prejuízos. Impostos ideológicos são os que pagamos nas rendas crescentes dos principais meios de produção já privatizados como são os produtores de energia. Impostos ideológicos são os que empobrecem a classe trabalhadora para pagar uma crise de origem financeira. Impostos ideológicos são os que pagamos diariamente para sustentar a opção de desindustrializar o país para nos tornarmos consumidores das maiores indústrias europeias. Impostos ideológicos são os que nos custa manter uma moeda que não controlamos e que serve apenas as grandes economias europeias. E claro, os submarinos que o Paulo Portas comprou ou a sua gigantesca dívida são também pagos por impostos ideológicos!

A honra de um banqueiro não serve como garantia.

Exercício:

o Estado português pede 10 milhões emprestados aos bancos portugueses, com juros de 2%. Ao mesmo tempo, e para que a economia tenha financiamento num contexto em que o país não emite moeda, o Estado português assume-se como fiador dos bancos portugueses em mais 10 milhões. Os bancos portugueses conseguem assim, junto da banca alemã e francesa, obter 20 milhões de euros com juros abaixo dos 1%.

Desses, 10 milhões são para comprar dívida pública portuguesa e os restantes 10 milhões são para empréstimos a privados. Ora, desses 10 milhões, a banca empresta aos seus accionistas e empresas associadas cerca de 7. Esses accionistas e essas empresas consomem o capital e não pagam. Contudo, os juros cobrados pelos 10 emprestados ao Estado e às famílias e PME a quem emprestaram os 3 milhões restantes são suficientes para gerar um fluxo de liquidez que assegura o pagamento.

Isto passou-se assim anos a fio até que o crédito vencido na banca portuguesa atingiu mais de 30 mil milhões de euros. Nesse contexto, os bancos estrangeiros aumentaram brutalmente os juros da dívida pública. Aqui é que a operação não é compreendida por muitos.
Então vejamos: a banca privada é que se endividou acima das suas capacidades e consumiu capital com os seus próprios accionistas e empresas em seu nome, a maior parte sedeada em paraísos fiscais. No entanto, os bancos que emprestaram dinheiro aos bancos portugueses sabem que os bancos portugueses andaram a esbanjar e que não vão poder pagar o que pediram emprestado, apesar de as famílias, PME e Estado pagarem ou terem as dívidas contra garantias (casas, propriedades, obrigações, garantias pessoais do Estado, etc.). Como o fiador dos bancos, quer através da dívida pública colocada, quer através das garantias dadas à banca, é o Estado, o Estado por essa via sofre directamente os custos do risco de financiamento da banca privada.

Mas mesmo nos casos em que a dívida não esteja garantida pelo Estado, ou em que não haja dívida pública colocada, os bancos estrangeiros sabem que o Estado não pode permitir uma falência bancária e, como tal, faz reflectir nos juros do financiamento do Estado a possibilidade de o Estado ter de financiar bancos privados. Ou seja, quando os bancos estrangeiros vierem cobrar as prestações, querem a totalidade. Se não estiver na banca privada, está no Estado. É um investimento seguro e faz disparar juros da dívida pública apenas porque ela engloba o risco do privado.

Genial, não é?

O Estado não está a honrar os seus compromissos, está a honrar o dos banqueiros. E da honra de um banqueiro não há fiador que aguente os custos.