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Os derrotados de todos os dias

«Das eleições acabadas, do resultado previsto, saiu o que tendes visto: muitas obras embargadas. Mas não por vontade própria, porque a luta continua, pois é dele a sua história e o povo saiu à rua». A letra é do Zeca mas a história é de todos: quando contei o resultado das eleições ao meu pai, que se aproxima gentilmente dos 88 anos, ele disse-me que já viu pior. Recordei-lhe que, em eleições para o Parlamento Europeu, o escrutínio de domingo devolveu o pior resultado da CDU, com a perda de metade dos votos em relação a 2014. «Já vi pior», insistiu. E já viu mesmo.

É fácil perdermos a perspectiva na espuma dos dias e esquecermo-nos de como eram as derrotas há apenas meio século, meia-dúzia de dias à escala da História e ontem para mulheres e homens como o meu pai.

Durante o fascismo, o meu pai era jornalista da Capital e militante do PCP. Lembra-se da prisão, da tortura, do medo que sentiu no isolamento e de quase morrer sem assistência médica. O meu pai lembra-se de achar que a vida dele tinha chegado ao fim. Lembra-se de, quando foi preso, pensar que os dois filhos e a mulher tinham ficado sem qualquer sustento. O meu pai lembra-se dos camaradas que foram assassinados.

Então, quando lhe falo na perda de um euro-deputado, o meu pai lembra-me do Comité Central estar praticamente todo preso. Quando lhe leio o Expresso a declarar o óbito do PCP, ele lembra-me de que os jornais, já nos anos 50 e 60, anunciavam o fim do PCP a cada redada policial. Quando lhe desabafo que os nossos militantes se estafaram a trabalhar nesta campanha, ele lembra-me das gerações de comunistas que lutaram até ao fim das suas forças sem chegar a ver o 25 de Abril.

E o meu pai não é um herói. Não é um Álvaro, nem um Jaime Serra, nem um Sérgio Vilarigues, nem um Blanqui Teixeira, nem um António Dias Lourenço. O meu pai é um militante como outros milhares, um trabalhador reformado, um homem bom que aprendeu a ler, a escrever e a pensar.


O que distingue o PCP de todos os outros partidos é a sociedade totalmente nova, mais justa, por que lutam os comunistas. E o socialismo é uma corrida de resistência e distância longa, potencialmente mais longa do que o nosso tempo de vida. Não espanta, pois, que nas mais amargas noites eleitorais haja quem tome a alegria comunista por desfasamento da realidade. Mas não se trata de dificuldade na admissão da derrota, mas de uma perspectiva, histórica e democrática, que vai para além do momento do voto.

A campanha eleitoral dos comunistas dura a vida toda. Com mais ou menos votos, nos parlamentos e fora deles, na manhã seguinte lá estão os comunistas, nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, nas greves, nas estações de comboios, nos tribunais, na conversa com os colegas, com ou sem eleições, legal ou clandestinamente. Quem teve as unhas arrancadas não desanima com eleições.

O mau resultado do PCP será alvo, estou certo, da devida análise no seu seio. Milhares de militantes, em cada organização, em cada freguesia, em cada local de trabalho, terão oportunidade de discutir franca, e lealmente, tudo o que pode ser feito, para chegar às próximas legislativas com um resultado diferente, não porque crescer nas eleições burguesas seja em si uma vitória, mas porque esses resultados são necessários ao fortalecimento da luta dos trabalhadores e à divulgação das propostas comunistas.

Ontem ajudei uma amiga a chegar ao sindicato pela primeira vez: os patrões têm em curso uma campanha terrorista de assédio moral para a pressionarem a aceitar um salário mais baixo, um contrato que não corresponde às suas funções e a retirada de direitos. A derrota eleitoral da CDU não impressiona  quem está, todos os dias, com os que são derrotados todos os dias. Os trabalhadores não são só derrotados nas eleições: são derrotados quando o patrão pode impor horários livremente, quando têm de aceitar um salário com que não se consegue sobreviver, quando têm de comer e calar porque têm medo de não ser renovados. Essa é a derrota a que importa pôr termo.

Soube hoje que esta amiga se sindicalizou e que, pela primeira vez, não vai baixar os braços perante a injustiça. Esta é uma vitória que, sabendo-a uma partícula no oceano, enche-me de esperança para continuar a luta, até à vitória, sempre.

CDU, a força dos trabalhadores e do povo

Imaginem alguém que nada contra a corrente. Imaginem-se a correr em terra batida contra alguém que vai num tapete rolante. Imaginem uma equipa que joga sempre fora com um árbitro comprado pelo adversário que leva vários golos de avanço e que tem um altifalante que o elogia durante 90 minutos. Esse altifalante são os jornais, rádios e televisões. É assim qualquer campanha em que participa a CDU. Seja por omissão, desvalorização ou manipulação, os candidatos e os programas desta candidatura estão sempre arredados no último lugar da agenda mediática.

Geralmente, os resultados eleitorais da CDU são construídos a esforço pela sua capacidade colectiva. Pela sua ligação aos trabalhadores e ao povo. É gente que sabe o que é trabalhar, que sabe o que é andar de transportes, que sabe o que é receber miseravelmente, que sabe o que é estar no desemprego, que sabe o que é não ter dinheiro para pagar as propinas, que sabe o que é não ter dinheiro para dar uma vida melhor aos filhos. Mas é também gente que sabe que a nossa miséria enche os bolsos de alguém. Que esse alguém é quem decide quem vai ser o próximo director do Expresso, que esse alguém é quem decide que partido deve o altifalante apoiar, que esse alguém é quem decide que empresa vai ser administrada por aquele ministro ou autarca que lhe adjudicou determinada obra ou que aprovou determinada lei favorável ao seu negócio.

Esse alguém sabe que a CDU é a porta-voz dos que resistem e lutam pela democratização social, económica, política e cultural das nossas cidades, vilas e aldeias. É por isso que domingo é mais uma jornada de luta. Para que possamos construir, como diria o Zeca, cidades sem muros nem ameias, gente igual por dentro, gente igual por fora.

Nomeação de Hillary: uma vitória das mulheres?

Hillary Clinton com dois membros do Pussy RiotOs resultados de ontem das eleições primárias do Partido Democrata deram uma folga mais confortável a Hillary Rodham Clinton como a candidata nomeada por este partido (na Convenção no fim de Julho) às eleições Presidenciais em Novembro. Bernie Sanders porém ainda não desistiu da corrida, até porque existem ainda existem ainda 712 superdelegados cujo voto não é mandatado pelas eleições primárias e caucuses. Mas Hillary (e boa parte da comunicação social concorda) assume-se como a presumível candidata, declarando já o marco histórico de ser a primeira mulher candidata à presidência dos EUA. Sendo claramente uma “primeira vez”, cabe pensar se tal significa, como Hillary proclama, uma vitória das mulheres e para as suas lutas.

Antes de mais é bom de assinalar que sendo esta nomeação um marco para o cargo de presidente dos EUA, no contexto global não é particularmente notável. Há uma longa lista de mulheres que têm assumido o cargo de presidente ou primeiro-ministro, não só na Europa (na Alemanha, Dinamarca, Eslovénia, Lituânia, Noruega, Polónia, só para mencionar as casos actuais), como na América Latina (e.g., Argentina, Brasil, Chile, Jamaica, incluindo agora antigas líderes), África (Libéria, Senegal, São Tomé e Principe, República Centro-Africana), Ásia (Paquistão, Índia, Bangladesh, Sri Lanka, Tailândia, Coreia do Sul). A lista é mais extensa, mas estes exemplos bastam.

Pensando em casos concretos, torna-se também claro que ter uma mulher como líder não tem necessariamente sido seguido por avanços sociais, políticos e económicos para a generalidade das mulheres desses países, ou uma alteração de estilo de liderança. Algumas das líderes mais marcantes, foram protagonistas de políticas conservadoras e beligerantes. A eleição de uma mulher só será uma grande vitória para as mulheres, se a mulher eleita efectivamente agir em prol das mulheres.

Embora Clinton tenha dado voz ao discurso dos direitos das mulheres, as suas acções não corroboram esse discurso. Por exemplo, nos anos 80, quando Bill era ainda governador do Arkansas, Hillary a primeira mulher nomeada para o Conselho de Administração da Walmart, uma das maiores empresas do mundo e um importante empregador nos EUA e estrangeiro, uma percentagem predominante dos quais são mulheres (57%). Mas durante essa participação (de 1986 to 1992, ou seja até à co-presidência Clinton), Hillary nada fez ou opinou sobre a desigualdade salarial das cerca de 800 mil trabalhadores da Walmart que ganham cerca de um dólar menos por hora que os homens, por trabalho equivalente. A Walmart veria a ser alvo da maior acção judicial colectiva por desigualdade de género (representando cerca de 1.6 milhões de actuais e antigas mulheres trabalhadoras), caso que apenas foi abandonado porque a Walmart foi considerada demasiado grande para processar.

Se Hillary conseguir romper a barreira, quebrar o tecto de vidro, é também interessante reflectir, porque agora, porque ela. Uma possível resposta é que Hillary aprendeu a fazer o jogo de quem decide o futuro político dos EUA, incluindo o sistema militar-industrial, o sector financeiro, os importantes grupos de pressão e contribuintes financeiros, como seja os pró-Israelita. Diana Johnstone, autora do livro «Hillary Clinton, Rainha do Caos» (Ed. Página a Página) identifica um momento em que Hillary transita das questões políticas que a ocuparam no início da carreira política (defesa das crianças, sistema de saúde) para a maior atenção dada à política externa dos EUA. Enquanto primeira dama, Clinton participou na conferência internacional da ONU sobre mulheres realizada em 1995. No seu discurso, muito elogiado na altura, convergiu o tema da mulher com o dos direitos humanos e depois, significativamente, com a política de guerra e intervenção humanitária. Começou então a desenvolver a sua política de poder inteligente: o uso legítimo de todos os meios necessários para intervir na política interna de outros países, ao abrigo da excepcionalidade dos EUA, único legítimo líder mundial e garante da liberdade, democracia, e direitos humanos no mundo. Uma combinação de força militar, propaganda, pressão económica e trapaça diplomática. Receita usada na Yugoslávia (enquanto primeira dama), no Iraque (enquanto Senadora) ou na Líbia (enquanto Secretária de Estado). Cabe perguntar: as mulheres ficaram melhores após a sua guerra na Líbia e o assassinato de Kadahfi? Ou ficarão melhores na Síria caso Assad seja derrubado? Nestes dois países árabes, as mulheres gozam de maiores liberdades e direitos que nos países árabes aliados dos EUA, como a Arábia Saudita.

Termino explicando a imagem acima: Hillary juntamente com dois membros do Pussy Riot, o grupo que faz uso da provocação e cujos membros foram presos após terem profanado uma igreja na Rússia. A sua prisão foi usada, incluindo por Clinton, como elemento na campanha anti-Rússia, procurando demonstrar que Putin é um ditador. Cabe dizer que elas foram presas no seguimento de um processo instaurado pela igreja, e que foi Putin quem lhes permitiu sair do país. Hillary elencou as Pussy Riot entre as mulheres que lhe inspiraram, e orgulhosamente deixou-se fotografar com elas. As Pussy Riot?! O seu tipo de exibicionismo nem é arte, nem é acção política, nem é exemplar do feminismo ou da defesa da liberdade.

Os inúteis votos úteis

Aviso: neste texto vou concordar com Assunção Cristas, recomendo portanto aos leitores mais sensíveis que ignorem o exposto.

Disse hoje a Assunção Cristas que a nomeação deste governo do PS, com o apoio parlamentar de PCP, PEV e BE, acaba por ser uma oportunidade para o CDS-PP, porque as pessoas passaram a perceber que aquela coisa do voto útil deixa de existir.

E tem razão. Foi preciso andar muito e fazer muito caminho, mas aquela coisa abjecta de termos eleições para Primeiro-Ministro, cai por terra com os resultados e consequências das Legislativas de 2015. Nem toda a gente terá visto, mas na série dinamarquesa “Borgen”, é o partido terceiro classificado que acaba por conseguir formar governo e nomear a Primeira-Ministra. Numa democracia representativa e parlamentar, as contas são simples, a pergunta é – em Portugal -, quem consegue contar até 116?

Claro que depois há o outro lado da questão. Contribuiu bastante o CDS-PP para esta coisa de eleger primeiros-ministros em vez de deputados, andou o CDS-PP a dizer que a solução de governo minoritário do PS com apoio parlamentar era ilegítima. Mas já estamos em Março e o sol espreita, e com a velocidade alucinante da (des)informação, a coerência é valor difícil de manter e julgar.

Mas voltemos ao facto. Depois de 2015 as Legislativas terão outras contas – será também interessante observar este efeito já nas próximas Eleições Autárquicas -, a aritmética e a decisão do voto vai obedecer a raciocínios diferentes e, espera-se, bem longe do inútil voto útil.
A utilidade do voto pode voltar a obedecer à convicção pessoal. A utilidade passa a respeitar a Constituição, é dar mais força a um partido concreto, porque o facto de ele ficar em primeiro, terceiro ou sexto, ou décimo, e desde que eleja deputados e deputadas, não o exclui nem inclui obrigatoriamente numa futura solução governativa.

Desde Setembro que voltámos a ver e ouvir discursos carregados de ideologia sem ignorarem as condições objectivas do momento presente, e o retorno da ideologia só pode ser bom, ajuda a clarificar sobre quem anda ao quê. Cabe agora aos partidos exteriores ao “centrão” capitalizar da melhor forma o fim das maiorias absolutas como a única forma de governar o país. Vamos a isso.

Análise eleitoral: Podemos supera independentismo

Nas regiões e nações sem Estado, confirmou-se a tendência que vinha dando força ao Podemos. Com diferentes leituras, a formação política liderada por Pablo Iglesias teve importantes resultados em Madrid, em Valência, na Galiza e triunfou no País Basco e na Catalunha. Cientes da necessidade de solidificar os resultados obtidos nas eleições regionais, os dirigentes do Podemos piscaram o olho ao eleitorado independentista e apesar de defenderem a unidade de Espanha reiteraram o seu compromisso com uma reforma constitucional que abra caminho a referendos que permitam aos diferentes povos decidir o seu próprio futuro. O discurso das esquerdas independentistas de que a solução para a ruptura com a crise do capitalismo passava pela ruptura com o Estado espanhol foi suplantado pela ilusão de que seria mais fácil para uma nova força como o Podemos chegar ao poder e protagonizar transformações importantes. Em parte, é o que explica os avanços nas regiões onde o independentismo está mais amadurecido: Catalunha, País Basco e Galiza.

Na Catalunha, depois de negociações que incluíram o reconhecimento do direito à autodeterminação daquele povo, o Podemos conseguiu integrar a Esquerda Unida e as forças que lideram, hoje, a alcaldia de Barcelona, entre elas, a presidente Ada Colau. Outro dos factores que ajudou a formação de Pablo Iglesias foi a ausência da Candidatura de Unidade Popular (CUP). A organização independentista de esquerda tinha conquistado um importante resultado nas eleições autonómicas e é a chave nas negociações que todavia se desenrolam no parlamento catalão para eleger o governo regional. A decisão de não se candidatar ao congresso espanhol de deputados deixou um vazio à esquerda que foi ocupado pelo Podemos.

A receita aplicada na Galiza foi parecida à da Catalunha. Nas eleições regionais, com o apoio do Podemos, diferentes forças políticas coligadas arrebataram importantes cidades numa região que sempre foi um feudo do PP. Para além de perder A Corunha, Compostela e Ferrol, a direita espanhola ficou fragilizada em muitos dos municípios galegos. Agora, sob o nome En Común, a receita passou pela aproximação entre formações espanholas como o Podemos e a Esquerda Unida com organizações independentistas como a ANova-Irmandade Nacionalista, liderada por Xosé Manuel Beiras – dissidente do Bloco Nacionalista Galego (BNG) – que inclui, entre outras, a Frente Popular Galega. Apesar do PP voltar a liderar as contas eleitorais na Galiza, sofreu uma queda valente e, perigosamente, vê aproximarem-se as forças encabeçadas pelo Podemos. Mas estas são também eleições trágicas para a esquerda independentista que se recusou aliar à esquerda espanhola. Durante décadas, a presença da Esquerda Unida na política galega era praticamente inexistente. Sem grande concorrência à esquerda, era o BNG que liderava o discurso independentista que, apesar de descafeinado, tinha presença no parlamento espanhol. Curiosamente, nos últimos anos, com a saída de um importante grupo de militantes, que acabou ao lado de Beiras e do Podemos, as suas posições radicalizaram-se, o que, ainda assim, não conseguiu evitar a hecatombe eleitoral.

Extraordinária foi também a quebra de votos na esquerda independentista basca. Depois do cessar-fogo da organização armada Euskadi Ta Askatasuna (ETA) e do fim das proibições à participação eleitoral de partidos vinculados com essa linha política, as coligações lideradas pelo Sortu foram somando surpreendentes vitórias que ameaçaram o domínio do conservador Partido Nacionalista Basco (PNV). Contudo, a nova estratégia da esquerda independentista, demasiado presa à lógica institucional, começou a perder apoio nas últimas eleições. O descontentamento interno com as constantes cedências nas posições políticas, a suavização do discurso e o abandono dos espaços de confrontação tem feito crescer o perigo de uma cisão na esquerda independentista basca. A coligação EH Bildu perde, inclusive, no seu bastião, a região de Guipuscoa cuja capital é Donostia (São Sebastião), onde fica atrás não só do Podemos como do PNV. Em Navarra, onde os bons resultados da esquerda independentista basca em conjunto com os do Podemos tinham permitido, nas eleições regionais e municipais, arrancar do poder a versão navarra do PP e dar a alcaldia de Iruñea (Pamplona) ao EH Bildu, não conseguem eleger sequer um deputado. A verdade é que o discurso descafeinado da esquerda independentista basca não difere muito do que propõe o Podemos e, apesar da importante derrota, nestes dias, quem passar os olhos pelo Gara – jornal que veicula as principais ideias do Sortu – pode ver piropos ao Podemos e ao seu avanço eleitoral.

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Análise eleitoral: o Estado espanhol rompe com o bipartidarismo

As eleições gerais no Estado espanhol ditaram, este domingo, o fim da hegemonia eleitoral do PSOE e PP. À custa de uma extraordinária pulverização do sistema partidário, entraram no congresso 13 candidaturas, das quais se destacam os fenómenos Podemos e Ciudadanos.

Descaradamente promovidos pela comunicação social da classe dominante, estes dois partidos vêm assumir a herança ideológica dos seus padrastos políticos: Ciudadanos que alcança 40 mandatos, opera à direita a recomposição possível do PP, o grande castigado do escrutínio, com menos 63 eleitos; já o Podemos permite, aliás à semelhança do binómio grego PASOK-Syriza, esvaziar em segurança o desprestigiado e desgastado eleitorado do PSOE.

É certo que somados, PP e PSOE não chegam aos 50% dos votos, mas a relevância política desta epifania é órfã de tradução partidária. É disso exemplo as sistemáticas cedências à direita protagonizadas pelo partido de Pablo Iglesias são disso exemplo: em menos de um ano, o Podemos deixou cair a saída do Euro e da NATO, mudou de opinião sobre o não pagamento da dívida, desistiu da nacionalização da eletricidade, da banca e das telecomunicações, abandonou o projecto da reforma aos 60 anos e passou a «reconhecer a utilidade» das empresas de trabalho temporário.

À esquerda, o grande derrotado é a Esquerda Unida – Unidade Popular, candidatura onde se insere o Partido Comunista de Espanha. Em relação a 2011, a IU, que concorre ainda inserida em várias coligações de âmbito regional, perde metade dos votos e só tangencialmente assegura uma representação parlamentar de dois mandatos, muito atrás dos cinco exigidos pela lei eleitoral para a formação de um grupo parlamentar.

Não escamoteando os erros e contradições já assumidos pela IU, é justo apontar que esta formação foi, entre todas as formações com assento parlamentar, a mais penalizada pelo método d’Hondt: para eleger cada um dos deputados da IU precisou de 454 012 votos enquanto ao PP bastaram 59 697 votos por mandato. Feitas as contas, há cinco partidos políticos que, com menos votos que a IU, conseguem eleger mais deputados.

Ainda à esquerda, merece destaque o crescimento de mais de 4000 votos registado pelo PCPE (Partido Comunista dos Povos de Espanha) que, malgrado muito aquém da representação parlamentar, afirma-se, no panorama estatal, como uma das poucas forças políticas consequentes.

Jogos de pactos

Ao contrário do que se verifica na câmara alta, onde o PP mantém a maioria absoluta de senadores e conserva o poder de impor bloqueios legislativos e controlar eventuais reformas constitucionais, o congresso saído destas eleições augura um cenário prolongado de instabilidade institucional que só pode ser ultrapassado a três, quatro, ou cinco partes.

Sendo, para já, implausível que PSOE e PP consigam fechar um pacto de governo e, por outro lado, considerando que PP e Ciudadanos não bastam para reunir os 176 mandatos que poderiam sustentar uma maioria absoluta, o próximo governo de Espanha dependerá do que fizer o Podemos e os inúmeros partidos independentistas, soberanistas e nacionalistas catalães, galegos e bascos.

O busílis da questão não é tanto a distância entre o Podemos e o PSOE mas, principalmente, as distâncias que estas duas forças estão dispostas a ceder às aspirações de independência das nacionalidades histórica. PSOE e Podemos não conseguem garantir sozinhos a maioria absoluta, pelo que dependeriam de acordos com galegos, bascos e catalães. Neste aspecto, a postura negacionista do PSOE perante o direito de autodeterminação dos povos do Estado espanhol e, por outro lado, a tradição independentista, pouco atreita a colaborar com o regime espanhol, auguram vida curta à XI legislatura da monarquia parlamentar espanhola.

O PSOE surge, assim, numa encruzilhada. Com uma alta probabilidade de conseguir garantir a presidência da câmara baixa, o partido liderado por Pedro Sánchez deve assumir, a curto prazo, opções políticas inéditas para evitar o destino do congénere grego. Ceder a um pacto com PP e Ciudadanos para manter as mesmas políticas, desrespeitando a vontade dos eleitores, significa enviar aquela estrutura partidária num caminho eleitoral de não retorno. Inversamente, embarcar numa dança com o Podemos é um jogo igualmente perigoso para os socialistas: à medida que se consuma a viragem à direita do partido de Iglesias maior será a competição pelo eleitorado do PSOE, colocando em causa acordos municipais como o de Madrid.

A nível estatal, sai destas eleições um cenário de desagregação dos partidos tradicionais do grande capital, que procura no Podemos e no Ciudadanos uma nova formulação partidária e eleitoral. A subsequente instabilidade institucional surge assim como o quociente de uma crise do capitalismo que, no caso espanhol vem alargando fracturas nacionais e sociais, sem que os problemas políticos se espelhem em problemas partidários e eleitorais.

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Terramoto eleitoral na Venezuela

O pior dos cenários foi confirmado, na Venezuela, pelo Conselho Nacional de Eleições. De forma esmagadora, a direita conquistou mais de dois terços dos lugares disponíveis na Assembleia Nacional. A derrota das forças revolucionárias e progressistas era uma possibilidade assumida entredentes nas fileiras chavistas mas a hecatombe eleitoral que acabou por dar-se surpreendeu a própria Mesa da Unidade Democrática (MUD). A oposição vai ter à disposição 112 deputados com a possibilidade, entre outras coisas, de reformar a própria Constituição, de destituir o vice-presidente e os ministros de Nicolás Maduro. Num acto eleitoral em que a afluência dos venezuelanos às urnas foi superior à de há cinco anos, tudo leva a crer que o resultado, mais do que uma aposta no programa da direita, expressa o protesto contra a degradação das condições de vida, a corrupção e a burocracia. Foi de tal forma surpreendente que a oposição conseguiu, inclusive, ganhar no bastião do chavismo, em Caracas.

O que aconteceu no bairro 23 de Enero ilustra algumas das debilidades e contradições da revolução bolivariana. Depois da direcção do PSUV ter apostado nas primárias por Zulay Aguirre, mãe do deputado assassinado Robert Serra, em detrimento de Juan Contreras, que o havia substituído e que é um histórico militante daquele baluarte da esquerda venezuelana, a direita conquistou o deputado a eleger por aquela zona. Apesar de Juan Contreras se ter empenhado de forma comprometida na campanha ao lado de Zulay Aguirre, houve muitos habitantes que se recusaram dar o seu voto a uma candidata sem qualquer outro atributo que o de ser mãe do jovem mártir. Mas as críticas não são de agora.

Em 16 anos, a única vez que as diferentes forças que apoiam a revolução bolivariana foram derrotadas eleitoralmente foi em 2008. Por uma margem mínima, os eleitores venezuelanos rejeitaram em referendo um conjunto de propostas de alteração à Constituição que teriam aprofundado o carácter progressista do sistema político e económico inaugurado por Hugo Chávez. Foi esse revés que levou o comandante a falar de impulsar novamente a revolução através dos três “R”: rectificação, revisão e reimpulso. O facto é que nenhum deles foi levado à letra e o empenho em fazê-lo nunca foi verdadeiro. Não admira, pois, que, agora, se volte a falar em levá-los à prática como solução para sair do atoleiro em que o chavismo está metido.

Seria injusto, e pouco honesto, entender esta derrota unicamente como causa das contradições das forças revolucionárias e progressistas. Obliterar que a revolução bolivariana esteve desde o primeiro momento sob a mira do imperialismo norte-americano e europeu seria fazer o jogo da reacção. Mas esconder as falhas, as vacilações e os recuos do governo liderado primeiro por Hugo Chávez e, depois, por Nicolás Maduro é precisamente o que rejeitam os milhares de venezuelanos que se têm reunido em assembleias, comícios e manifestações por todo o país. Não admira, pois, que o vice-presidente Jorge Arreaza se tenha dirigido à conhecida esquina caliente, onde se concentram diariamente dezenas de chavistas junto à estátua de Simón Bolívar para debater a realidade política. Já em frente ao palácio presidencial de Miraflores, Nicolás Maduro saltou para uma camioneta e falou com a multidão que ali se havia concentrado. Poucos dias depois das eleições, a direcção do PSUV convocou uma reunião extraordinária com quase um milhar de delegados onde o presidente da Venezuela pediu que se falasse sem receios. Não tardaram as críticas de militantes inflamados sobre as falhas em diferentes regiões do país. Um dos militantes acusou, inclusive, de que às vezes a crítica é vista como contra-revolucionária.

O certo é que este é o corolário das tensões que se geraram após a morte do histórico comandante da revolução bolivariana. As barricadas, os ataques a edifícios e a pessoas, o açambarcamento de produtos, a diminuição brutal dos preços do petróleo, a especulação, as filas à porta das lojas e a manipulação mediática foram produto de uma estratégia imperialista cujo objectivo nunca foi outro que o de gerar o descontentamento geral da população e intensificar as contradições internas dos partidos e organizações que sustentam o processo bolivariano.

Hoje, está claro que só a saída da actual situação poderá evitar o triunfo da direita. Como há 40 anos, em Portugal, a oposição tratará de recuperar o tempo perdido e destruir a Constituição. Mas está tudo em aberto. As forças armadas bolivarianas continuam a representar um sólido pilar da revolução e os trabalhadores e o povo podem ainda travar as ofensivas institucionais através do combate nas ruas e nos locais de trabalho usando as inúmeras ferramentas conquistadas ao longo desta década e meia. Entre elas, estão os Conselhos Comunais que, segundo a legislação, “são instâncias de participação, articulação e integração entre as diversas organizações comunitárias, grupos sociais e os cidadãos e que permitem ao povo organizado exercer directamente a gestão das políticas públicas e projectos orientados para responder às necessidades e aspirações das comunidades na construção de uma sociedade de equidade e justiça social”. A criação de estruturas paralelas ao Estado pode, precisamente, abrir um caminho para romper com a institucionalidade burguesa. Importa saber como vão querer responder as forças revolucionárias e progressistas a este momento que tem tanto de decisivo como de perigoso e que recolhe as atenções e preocupações de uma parte importante dos povos latino-americanos e do mundo sobre o futuro do primeiro governo que depois do fim da URSS ousou falar em revolução, socialismo e ruptura com o capitalismo.