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Ser docente/investigador no país da austeridade

Série “Ser no país da austeridade”

1. Investigação e “excelência”

Era uma vez um jovem que gostava de história natural e de estudar fósseis. Passava a vida no campo ou num gabinete a comparar asas de aves ou “perninhas” e “antenas” de borboletas. Fascinado pela enorme diversidade do mundo biológico que o rodeava, este nerd mergulhava a fundo na sua paixão: o estudo da morfologia, comportamento e evolução das espécies. Se vivesse nos dias em que a “excelência” obedece sobretudo a critérios economicistas, este jovem nunca teria conseguido obter financiamento para embarcar no navio Beagle, cartografar a costa da América do Sul e andar pelo arquipélago das Galápagos. Este nerd é o Charles Darwin e jamais teria obtido financiamento para um projecto I&D (Investigação e Desenvolvimento) para estudar a morfologia dos tentilhões, as suas asas, os seus bicos.

No mundo da “excelência” tudo é contabilizado em outputs: patentes, artigos, livros e outros “produtos”, sendo que nas revistas de “open-access” o autor tem que pagar pela publicação dos seus trabalhos. As verbas destinadas à investigação são no mínimo ridículas. A FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), uma das entidades financiadoras, caminha a passos largos para acabar com a ciência em Portugal, metendo-a a reboque do dinheiro: não é sequer possível comparar a dotação de fundos para a área da biotecnologia ou da biomedicina (que estão ligadas às patentes e à criação de medicamentos e outros produtos que movimentam grandes somas de capital), por exemplo, com as ciências sociais (que poucos fundos recebem). Mas dentro da biomedicina também há discriminações: uma coisa são os fundos para investigar parkinson ou alzheimer, outra são os fundos para investigar a malária ou outra qualquer patologia do chamado 3º mundo. Afinal no “3º mundo” não há gente com dinheiro para comprar os medicamentos à indústria farmacêutica e às grandes corporações que estas integram.

O jovem Charles Darwin também teria que se sujeitar a nunca saber quando abririam concursos para submeter os seus projectos ou como estes seriam classificados: a FCT não tem agenda e inventa novas classificações. De “Excelente”, que era a classificação máxima, passou a existir, por exemplo, o “Outstanding”; qualquer dia teremos o “Miraculous”. Mas se ainda assim Darwin obtivesse financiamento para um projecto seu, esperava-o depois um longo e tortuoso caminho: a burocracia para conseguir fazer cumprir planos de trabalho, cronogramas e orçamentos, que tantas vezes implica significativos atrasos para a componente científica de um projecto.

2. Docência, gestão não colegial e antidemocrática

Vivendo no nosso tempo e no nosso país Darwin teria que ter tempo para leccionar e para participar nos chamados cargos de “gestão” (variáveis que compõem a avaliação do desempenho). Poderia era acabar sem tempo para investigação, já que existem muitas faculdades onde uma grande percentagem dos docentes dá aulas muito para além daquilo que é legalmente permitido. O desrespeito pelo ECDU (Estatuto da Carreira Docente Universitária) é algo a que se fecha os olhos desde que isso implique roubar e explorar ainda mais aqueles que trabalham. Dando aulas a mais, lutando diariamente para conseguir ter os seus projectos I&D a funcionar, supervisionando o trabalho dos seus orientados e desdobrando-se para se manterem a par das actualizações do conhecimento, os docentes afundam-se em preenchimentos de papelada ou plataformas electrónicas ditadas pelos burocratas. Em algumas universidades, este jovem até teria que ser um docente/investigador que paga o seu próprio salário através de fund-raising. Horários desregulados e noturnos seriam outro dos “mimos” reservados a este jovem: docentes com dias de aulas que têm início às 8:00 da manhã e que terminam às 22:30 são muitos.

Adicionalmente, com a imposição do RJIES (Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior), o ambiente de trabalho tem vindo a piorar. A legislação foi feita por gente que não quer a democracia nas escolas, que impôs as propinas, que reduziu a Acção Social a um valor tão ridículo que é praticamente inexistente. Assim temos uma universidade para quem tem dinheiro: o conhecimento não é para todos, muito menos para os filhos da classe operária, dos assalariados. A esses resta o politécnico e o ensino profissional. Por sua vez os alunos de Darwin aguardariam em longas filas de espera para aquecer, no micro-ondas da faculdade, a comida que levariam de casa. Eles e alguns professores. Porque já nem o “preço social” das refeições universitárias está ao alcance de todos.

3. O papel das universidades e a mediocridade como “excelência”

Bolonha, o RJIES e o novo ECDU são tudo peças de um mesmo puzzle que não só abrem a porta para a vergonhosa privatização do Ensino Superior Público (ESP) e do conhecimento, transformando-os em mercadoria, como metem a liberdade académica no caixote do lixo. Com Bolonha as universidades passaram a ensinar cada vez menos a pensar e cada vez mais a executar, formatando o pensamento. Afinal numa sociedade burguesa as universidades têm um papel muito claro: são um veículo de transmissão do pensamento dominante, que é apresentado como único. Quem luta pela defesa dos seus direitos e dos direitos dos colegas terá que trabalhar muitíssimo mais para chegar ao topo da carreira, e é se chegar. Se for mulher e mais jovem, ainda pior. Afinal em alguns estabelecimentos do ESP o topo da carreira cada vez menos reflecte o valor científico e pedagógico dos envolvidos e é cada vez mais é um acto político. Quanto a Darwin… No país da austeridade, onde a mediocridade é a excelência, A Origem das Espécies nunca teria visto a luz do dia.

*Autora Convidada
Catarina Casanova, docente/investigadora

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

O velho exame da velha escola

A criança tem 9 anos e vai de rosto fechado pela rua fora, como todos os dias. Mas hoje, ao contrário do que é habitual, não me disse bom dia. A princípio, não percebi muito bem porquê. Os pequenos também têm as suas “consumições”, dizia a minha avó, foi o que pensei. Depois despertei. É dia de exame. A criança está absorvida por preocupações. Dia de martírio. De ser encostada à parede. Dia em que, pela primeira vez, aquela criança será sujeita à solenidade terrível de uma espécie de julgamento precoce em que todo o ambiente, todo o contexto à sua volta não propicia senão o nervosismo, a ansiedade, o medo e a insegurança. Os exames finais não são pedagogia em parte nenhuma do mundo. São apenas tormento.

Como tantas outras reminiscências da longa formatação de outros tempos, o esquema actual vem na esteira desse “grande” e “heróico” patamar que era o “Exame da 4ª classe”

Não sei se dormiu tudo, se dormiu bem. Sei que pouco ou nada lhe passará pela cabeça hoje que não uma mistura de o que estudou, o que não conseguiu estudar ou compreender, o que sabendo duvida e o que não sabendo equivocamente crê saber. Tem apenas 9 anos. Está ante um monstro que lhe inventaram, sem par em praticamente lado nenhum. Quase nenhum país europeu coloca uma criança de 9 anos ante a avaliação fria de uma prova “final”, isolada, sumária.

Há dias que são apenas maus. Momentos de infelicidade que vêm e vão. A caminhada até pode ter sido satisfatória, brilhante, capaz, mas pode encontrar um buraco de frustração naquele “mau dia” em que toda a pressão do momento contribuirá para que o insucesso possa ser ainda mais retumbante. A base de uma aprendizagem que deveria assentar na evolução progressiva e constante, numa superação regular e acompanhada no tempo, no espaço e numa organização escolar que desse aos docentes a liberdade plena da avaliação global – sem exames finais impostos por um ministério burocrata e ideologicamente apegado ao passado –, é antes uma aprendizagem que encontra a sua base num sistema que se julgava ultrapassado e derrotado.

Como tantas outras reminiscências da longa formatação de outros tempos, o esquema actual vem na esteira desse “grande” e “heróico” patamar que era o “Exame da 4ª classe”. Essa magna “etapa final”, esse objectivo a que qualquer criança comum ambicionaria ou poderia chegar (e eram só quatro anos de escola…), como tantas outras políticas que nos fazem retroceder às teias do «antigamente é que era bom», preside ainda, alimenta ainda, alicerça ainda a solução de Crato e companhia para o culminar de mais um ano educativo.

A luta contra este governo também passa por aqui. Os pais, os professores, o pessoal não-docente todos têm um papel a desempenhar no sentido de impedir que o futuro das crianças de hoje seja uma educação voltada para os sistemas do passado. É imperativo pôr cobro à mundividência que apenas valoriza a criança como número ou como mero produtor de números. É altura de negar peremptoriamente a coisificação de tudo e, neste caso, dessa estrutura basilar que é a educação. É altura de mudar de rumo de forma efectiva. É altura de negar e lutar contra os governos e os partidos que querem devolver-nos a todo o custo um passado que ninguém quer de volta.