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A pós-verdade da Venezuela

Quando se vive – isto é, quando se forma opinião – sobretudo a partir de artigos do Observador, do Expresso ou do Público – quando não apenas dos títulos – é-se “apanhado” muito facilmente naquilo a que tecnicamente se chama “fazer figura de parvo”. É o que muito tem acontecido a quem, por estes dias, tem levantado especiais brados pelo “caos” na Venezuela e se enche dos sentimentos de “pena” e “piedosa comoção” pelo povo do país. É aquele travozinho burguês, chique, enjoativo, quando não de nojo, que tão bem conhecemos, de gente que “acha mal” que a oligarquia corrupta da Venezuela não possa voltar ao seu glorioso passado de muito “progresso” e “prosperidade”, na sempre eterna “esperança” de um belo dia do horizonte “criar muitos empregos” para aqueles “pobrezinhos descalços”.

A verdade é que até aqui, enquanto a dupla EUA/oligarquia interna andou a minar e a atacar sem tréguas a constitucionalidade, a perturbar a paz social, a alimentar a violência, a sabotar a economia e a conspirar internacionalmente contra o próprio país, ninguém teve qualquer especial “pena” do povo venezuelano. Enquanto o caos andou a ser semeado e instado tanto interna como externamente, com consequências directas no degradar das condições de vida do povo, ninguém apareceu a defender a “democracia” nem desatou a insultar os seus principais mentores. Aliás, o “assunto Venezuela” nunca era tema de debate, sobretudo quando o governo bolivariano erradicava o analfabetismo, ou promovia a saúde pública, a educação e a cultura como nunca antes na História do país.

Mas agora, que certa comunicação social portuguesa, paga bem sabemos nós por quem e para quê, coloca títulos e artigos a preceito sobre um propalado “apocalipse” em curso, fica dado o toque de midas para a “comoção” geral. E “comoção” de quem? Sobretudo daqueles que estão sempre à espreita de um qualquer arranjozinho “jornalístico” que permita dar a sempre tão saborosa – e revanchista, reaccionária – bicadazinha ao PCP. Título a preceito, fotografia do Jerónimo, bandeiras vermelhas, um “caos” como hipérbole, a ligação desejada e pronto, está o ramalhete composto. Enfim, como se diz na minha terra, quem não os conhecer que os compre.

A Síria, outra vez

Os Estados Unidos da América desencadearam uma acção punitiva unilateral contra a Força Aérea síria, na sequência dos acontecimentos de Idlib que permanecem no fundamental por esclarecer. Cinquenta e nove mísseis foram disparados a partir de dois navios de guerra, tendo como alvo uma base aérea em Shayrat, a sudoeste de Homs.

Esta acção norte-americana, que de resto não é a primeira (durante a administração Obama, por exemplo, foram bombardeadas posições do exército sírio em Deir ez-Zor, numa acção alegadamente “acidental” durante um cessar-fogo), pode ser interpretada à luz de motivações diversas, sendo que nenhuma delas tem a mais leve relação com as vítimas civis da guerra em Idlib, o último “bastião” dos “rebeldes” expulsos da cidade de Alepo.

O suposto “ataque químico do regime” contra objectivos em Idlib é tão desprovido de sentido como outros anteriormente utilizados como pretexto para iniciativas militares e diplomáticas contra a Síria (bombardeamentos contra povoações turcas ou o ataque de Ghouta, por exemplo). Em nenhuma dessas circunstâncias foi feita prova cabal e definitiva sobre as responsabilidades directas das autoridades sírias. E no entanto tudo no discurso mediático nos leva a acreditar que as responsabilidades são inequívocas.

A guerra síria leva sete anos de duração e se há aspecto que durante este período tem sido saliente na política das forças armadas sírias ele é a capacidade demonstrada de evitar provocações e pretextos que abram uma janela de oportunidade para o desencadeamento de hostilidades por parte de exércitos da NATO ou seus aliados regionais (Arábia Saudita e Israel, no fundamental) em socorro dos grupos jihadistas. O suposto ataque químico de Idlib, relativamente ao qual permanece por demonstrar a responsabilidade da aviação síria, enquadrar-se-ia numa reversão surpreendente e injustificada desta política.

Que interesse teriam as forças militares sírias na utilização de armamento proibido numa operação militar de limitadas consequências, numa fase da guerra em que a supremacia é evidente, e quando muitos olhos neste mundo aguardam com avidez um pretexto para dar aos “rebeldes” o tempo e a força que lhes vai escapando?

Drone bomb me*: como os EUA constroem monstros universais

Chamem-lhe teorias da conspiração, chamem-lhe fanatismo, chamem o que quiserem, mas basta procurar um bocadinho pelos sítios onde a informação não é detida por senhores da guerra e do dinheiro e o rasto está lá: para quem o quiser ver.

O Daesh, esse último grande monstro universal, afinal quer o quê e está ao serviço de quem?

23 de Fevereiro de 2015: a FARS informou que o Exército iraquiano havia derrubado dois aviões de carga do Reino Unido que transportavam armas para o EI.(Iraqi Army Downs 2 UK Planes Carrying Weaons for ISIL)

A 10 de Abril de 2015, a Press TV noticiou que, em resposta a um pedido sírio de que o EI fosse nomeado organização terrorista, os EUA, a Grã-Bretanha, a França e a Jordânia recusaram. Pode ser lido aqui.

Começaram a aparecer fotografias contemporâneas com membros do EI a exibir tatuagens do “Exército dos EUA” ou tendas com carimbos “US”.

A 19 de Maio de 2015, Brad Hoof, em levantreport.com, «Documento da Agência de Defesa e Informação de 2012: O Ocidente facilitará o ascenso do Estado Islâmico “por forma a isolar o regime Sírio”», baseado na divulgação de uma seleção de documentos anteriormente confidenciais, obtidos pela Judicial Watch no Departamento de Defesa e no Departamento de Estado. O documento pode ser lido aqui.

Sobre este relatório, também Jeremy R. Hammond faz uma extensa e fundamentada análise, em Fevereiro de 2016.

O Washington Post, a 15 de Maio de 2012 já afirmava que já os EUA financiavam os «rebeldes»: Syrian rebels battling the regime of President Bashar al-Assad have begun receiving significantly more and better weapons in recent weeks, an effort paid for by Persian Gulf nations and coordinated in part by the United States, according to opposition activists and U.S. and foreign officials.

A 22 de Junho de 2015, o ex-contratado da CIA, Steven Kelley, explicou que os EUA “criaram o EI para benefício de Israel” e para ter “uma guerra sem fim” no Médio Oriente, que torne os países daquela região “incapazes de fazer frente a Israel” e forneça um “fluxo constante de encomendas de armas para o complexo industrial militar em casa, que está a alimentar com muito dinheiro os senadores que apoiam estas guerras”.

Em Novembro de 2015, Vladimir Putin revelou que 40 países – incluindo alguns do G20 – estão a suportar financeiramente o EI, o que começa a revelar a extensão da duplicidade das nações ocidentais, incluindo e especialmente, dos EUA, que têm usado ataques contra o EI concebidos para danificar ou destruir as infraestruturas da Síria.

Ainda nesse mês, várias  fontes noticiaram que os camiões de combustível que transportavam petróleo da Síria para a Turquia estavam “fora dos limites” e que os condutores teriam que ser avisados antecipadamente dos planos dos EUA para os atacarem. Nem a Fox News escondeu.

O New York Times, a 23 de Janeiro de 2016, faz manchete: os EUA dependem do dinheiro saudita para apoiar os rebeldes.

E, claro, em Setembro, em plenas tréguas, os EUA atacam forças anti-terroristas sírias e russas.

Eis algumas pistas, algumas leituras, algumas provas de que a morte, os bombardeamentos, os refugiados, têm responsáveis que movimentam o mundo como o seu tabuleiro privado, no interesse na exploração dos recursos naturais dos países que agora atacam, provocando a barbárie total. Isto é o império. E os muros constroem-se em Calais, levantam-se vedações na Europa, abre-se fogo sobre seres humanos que fogem da barbárie. Escolhidos de cima pelos EUA, porque são culpados. E alvos a abater. A humanidade é alvo a abater.

Os índios da Pradaria

Os Lakota, também conhecidos como índios da pradaria, são um povo indígena da América do Norte, cujas terras originais se estendiam pelos actuais estados norte-americanos do Dacota do Sul e do Norte. Formados por sete tribos vizinhas, entre as quais se encontram os Sioux, os Lakota imigraram para o Norte, oriundos do baixo Mississipi, e ali se fixaram vivendo da agricultura e da caça do búfalo, actividade iniciada após a introdução do cavalo na vida das comunidades, no século XVIII. É em parte da vida dos Lakota que falam grandes produções de Hollywood, como “Dances with wolves” (“Danças com lobos”), filme realizado a partir do romance homónimo, de Michael Blake.

É sabido que as tribos Lakota resistiram ao processo de violenta invasão e colonização branca dos seus territórios, e que essa resistências lhes valeu uma sucessão de massacres, guerras e outros actos de violência brutal por parte do exército norte-americano, que no final do século XIX dizimou populações inteiras de búfalos, de forma a vergar os Lakota, obrigando-os a aceitar a vida em reservas e a dependência de rações alimentares fornecidas pelo governo federal.

Em 1890 dá-se o tristemente célebre massacre de Wounded Knee, na reserva de Pine Ridge (Dacota do Sul), no qual foram mortos centenas de índios, incluindo mulheres e crianças. Depois de várias guerras, traições, promessas quebradas e imposição da fome e do sangue, as autoridades federais obtiveram por fim domínio sobre a Nação Lakota, que em todo o caso é coisa diferente de se dizer que os Lakota foram submetidos à vontade dos seus colonizadores.

Insubmissão em Pine Ridge

A memória de Wounded Knee encontra-se bem viva no seio dos Lakota, e ao longo do século XX muitos foram os incidentes que, com maior ou menor gravidade, maior ou menor visibilidade, mostraram aos norte-americanos e ao mundo que a Nação Lakota se encontra bem longe da domesticação desejada pelo imperialismo.

No início dos anos 70 é criado o American Indian Movement (AIM), assistindo-se a um reforço da luta dos ameríndios Lakota contra as imposições federais. As tensões acumuladas tiveram grave desfecho em Junho de 1975, quando um tiroteio ocorrido na reserva resultou na morte de dois agentes federais e um activista do AIM. Os agentes federais responsáveis pela morte do activista ameríndio foram absolvidos, mas Leonard Peltier, o bem conhecido activista acusado pela morte dos agentes federais caídos, foi condenado a duas penas de prisão perpétua, encontrando-se actualmente na penitenciária federal Coleman, na Florida.

Petróleo na pradaria

O Dakota Access Pipeline Project é um projecto em concretização, que visa construir um enorme “pipeline” para transportar petróleo ao longo de mais de 1.000 quilómetros entre o Dacota do Norte e o Illinois. O tubo atravessa vastas áreas naturais, que incluem territórios que os tratados reservam à Nação Lakota, colocando em risco sítios arqueológicos considerados sagrados pelos Lakota, reservas e cursos de água, terras que as tribos ameríndias vêem como a raiz da sua cultura e identidade.

Os Lakota afirmam, e as evidências parecem confirmar os seus argumentos, que as rupturas de pipelines no Dacota do Norte têm sido frequentes, contaminando as suas terras e dizimando a vida que nelas procura encontrar a tranquilidade aniquilada noutras paragens.

A luta dos Lakota contra o Dakota Access Pipeline tem sido intensa, violenta e olimpicamente ignorada pela imprensa norte-americana e internacional. É precisamente por isso que deste espaço lanço aos índios da pradaria o meu grito de solidariedade e apoio à defesa da sua cultura, das suas terras, memória, identidade e forma de vida. Porque a luta dos Lakota pode não fazer parte dos espaços de entretenimento-informativo a que chamamos “telejornais” (e afins), mas não pode deixar de receber, nos espaços de comunicação livres dos “critérios editoriais” do sistema, o apoio e a divulgação merecida.

“Symphony of Destruction” [*]

Não há “super terça-feira” que valha ao super-circo que são, de facto, as eleições presidenciais made in USA. O que muitos apresentam como uma prova da vitalidade da democracia do regime político de referência para aqueles que teimam em definir-se como “ocidentais” é antes, na minha perspectiva, a triste e patética ilustração da sua decrepitude.

As eleições primárias norte-americanas são um espectáculo encenado de A a Z que poucos compreendem verdadeiramente na sua natureza e mecânica própria. Esta semana falou-se muito da “super terça-feira” e pouquíssimo acerca da complexidade do sistema de apuramento da eleição de delegados em cada um dos dois partidos do sistema bicéfalo ianque. O sistema não é claro nem transparente, como bem demonstrou o canal russo RT em recente peça sobre as primárias no país modelo da chamada “democracia ocidental” [1].

Também a CNN divulgou recentemente um trabalho produzido a partir de imagens de vídeo divulgadas pela candidatura do republicano Ted Cruz, e que mostram os bastidores das gravações de cenas eventualmente destinadas à produção de anúncios da sua candidatura [2]. Ver a peça da CNN é profundamente pedagógico; nelas, Cruz coloca a família ao serviço de uma imagem fabricada com o simples objectivo de incorporar a colossal e milionária campanha de marketing que tem em marcha. A farsa é evidente.

Dito isto creio que se impõe uma palavra em defesa de Trump. O multimilionário é racista, homofóbico, misógino e reaccionário; seria todavia injusto isolá-lo de boa parte dos seus concorrentes, em particular aqueles com quem disputa a nomeação para candidato do Partido Republicano às eleições de Novembro. Gente como Ted Cruz ou Mark Rubio não o são menos. De resto a tese dos candidatos de quem pouco se fala nas primárias republicanas é que na verdade Trump não passa de um “liberal” (o que em boa parte dos Estados Unidos equivale a ser-se “de esquerda”), representante dos “valores de Nova Iorque” (região tida como “mais liberal”) e – pasme-se – defensor de um sistema público de saúde equiparado ao que existe no Canadá e em alguns países da Europa. Trump não é o único tolo nas primárias norte-americanas [3].

Que Trump (ou Cruz, ou Rubio) tenha real oportunidade de ganhar as primárias republicanas e disputar – provavelmente contra Hillary Clinton – a presidência dos Estados Unidos da América não é de forma alguma a prova da saúde do sistema democrático. Pelo contrário: a hipótese real de um demagogo – que entre outras coisas promete construir um muro entre os Estados Unidos e o México com a conta a ser paga “a 100%” pelos próprios mexicanos – vir a ser eleito para o mais poderoso cargo político do mundo actual é a demonstração do esgotamento de um sistema de alternância sem alternativa que tem nos Estados Unidos o seu exemplo mais evidente, mas que se generalizou a boa parte dos países que olham para Washington (e Berlim) como os centros dispensadores de orientação política neste caótico início de milénio.

Notas:
[1] “1 Person 1 Vote? Not in US presidential Elections!“, RT, 01.03.2016.
[2] “Watch Ted Cruz coach his family through a campaign ad shoot“, CNN, 02.12.2015.
[3] “Ted Cruz and Rubio ATTACK TRUMP Over Health Care“, News Direct, 25.02.2016.
[*] “Symphony of Destruction“, Megadeath.

[imagem]

Quarenta mil milhões de razões para alimentar a guerra.

Os acontecimentos de Minsk e Debaltseve dominaram a abordagem mediática à situação da Ucrânia, num momento em que passa precisamente um ano sobre os dias finais do golpe da Praça Maidan, em Kiev. Pouco se fala, pouco se tem falado, da diminuição brutal da actividade económica no país, com uma queda do PIB bem superior àquela verificada em Portugal durante todo o período do “ajustamento” (só em 2014 a queda do PIB foi superior a 7%). Pouco se tem falado da entrada em grande do FMI neste processo de acelerado desmembramento do estado ucraniano saído do processo de auto-dissolução da URSS, no início dos anos 90 do século passado.

Na passada quinta-feira foi anunciado um plano de “ajuda” à economia ucraniana no valor de 40 mil milhões de dólares, soma dividida por várias entidades que obedecem ao mesmo centro de comando. O FMI, a UE, os EUA, o Banco Mundial e “outras instituições financeiras” não especificadas. Boa parte desta quantia astronómica servirá para alimentar bancos falidos, oito em particular de acordo com o Financial Times. Um “filme” que já vimos noutras partes. A produzí-lo estarão os ucranianos comuns, do ocidente e do leste do país.

Outra parte significativa do empréstimo ao estado ucraniano destina-se a financiar gastos militares já que é objectivo da Junta de Kiev e do presidente Poroshenko (que há anos atrás era designado em documentos norte-americanos entretanto divulgados pelo Wikileaks como “our Ukraine insider” [1]) aumentar significativamente o seu investimento em material bélico. Outro “filme” que já vimos noutras partes, e que voltará a ser produzido pelo ucraniano comum, bem mais interessado em recuperar o acesso à saúde, à educação e à segurança social desde há muito perdidos. As grandes corporações da indústria militar esfregam as mãos de contentamento.

Yatseniuk, outro evidente “insider” da equipa da senhora Nuland, faz uso do seu já habitual humor negro quando refere que o empréstimo se destina a restabelecer o crescimento económico no país, mas não explica como pretende fazê-lo quando se prepara para implementar um programa de austeridade que, em alguns aspectos, vai muito além dos indignos programas de austeridade implementados em Portugal e Grécia.

O “ajustamento” ucraniano far-se-á com a receita do costume: redução de funções sociais do estado, diminuição do número de funcionários públicos, reduções salariais, corte nos apoios sociais, eliminação de direitos laborais e, claro está, privatizações. Muitas. A Ucrânia é rica em recursos naturais, dos agrícolas aos energéticos. É também um mercado de enorme potencial para a gula da plutocracia europeia e norte-americana, que apontando um dedo à Rússia deixa outras três na sua própria direcção.

A guerra – que vive neste momento uma trégua frágil, cujo significado está ainda por compreender de forma plena – desempenha em todo este processo num papel chave. Ela é, em larga medida, um sorvedouro de dinheiro que alimenta a dependência ucraniana dos “aliados” ocidentais. Recordo, sobre esta matéria, uma cena célebre do filme “The International” (2009), de Tom Tykwer.


Qualquer semelhança entre o conflito ucraniano e o diálogo desta cena não é pura semelhança.

Notas:
[1] “During an April 28 meeting with Ambassador, Our Ukraine (OU) insider Petro Poroshenko emphatically denied he was using his influence with the Prosecutor General to put pressure on Tymoshenko lieutenant Oleksandr Turchynov (refs A and B).” – fonte.

Das Primaveras do capital aos Outonos que nos querem impor

O frio nos países nórdicos é uma realidade inultrapassável e, ainda assim, os habitantes desses distantes povos andam vestidos em casa, no Inverno, como nós andamos vestidos na rua durante o Verão. As casas dos pobres dos países mediterrânicos são uma merda. Estão mal isoladas, são feitas de materiais baratos e não têm aquecimento central. Andamos em casa como se estivéssemos na rua e, no Sul da Europa, onde os termómetros raramente baixam dos zero graus, um gajo sente mais frio que na Escandinávia.

Em pleno Inverno, um grupo de voluntárias da Cruz Vermelha vestiu a roupa de Verão para uma sessão fotográfica. O objectivo é produzir um calendário cujas receitas revertam a favor daquela instituição. Vários órgãos de comunicação social fizeram eco do acontecimento. Com roupa de Inverno, e sem qualquer referência dos media, uma dezena de trabalhadores recebeu a carta de despedimento da Cruz Vermelha. O que é que têm em comum as raparigas que apareceram nos telejornais? Colaborarem gratuitamente com a Cruz Vermelha. O que é que têm em comum os trabalhadores que não apareceram nos telejornais? Exercerem a sua actividade profissional a troco de um salário e serem todos sindicalizados.

Há dias, uma notícia de um conhecido jornal nacional falava das regalias dos trabalhadores da TAP a propósito da greve marcada para o fim deste mês. Curiosamente, por engano ou não, na mesma notícia, o secretário de Estado dos Transportes era citado e referia-se a direitos ao contrário do jornalista. Já sabemos que há muitos profissionais da comunicação social que reagem de forma pavloviana aos comunicados ministeriais e aos comunicados sindicais. Os primeiros representam a pureza textual e os segundos contêm uma linguagem marcadamente ideológica que há que depurar.

Para se saber, através dos media, as razões que levam trabalhadores a avançar para uma greve há que esperar por uma acção de luta que se localize para lá das nossas fronteiras. Quando rebenta uma paralisação em Roma, Atenas ou Madrid, as reportagens enchem-se de imagens de gente que combate por melhores condições de vida. Quando rebenta uma greve em Portugal, as peças jornalísticas fazem-se com lamuriantes reportagens sobre as duras consequências da luta dos trabalhadores sobre outros da mesma condição com que nenhum jornal alguma vez se preocupa. O direito ao trabalho é, de facto, a coisa mais importante para governantes, patrões e jornalistas. Mas só em dias de greve.

E o discurso indignado dos media sobre os negros assassinados nos Estados Unidos? Os mesmos que são capazes de inventar todos os motivos para justificar a execução policial de jovens negros nos bairros da Amadora são os que derramam lágrimas e apresentam peças compreensivas para a revolta anti-racista em várias cidades norte-americanas. E os antifascistas de Donbass que são pró-russos nas páginas dos mesmos jornais que glorificaram a revolta ucraniana liderada por nazi-fascistas? É assim que funcionam os termómetros nas redacções. A temperatura é a que os seus donos impõem. Primaverizam-se revoltas que interessem aos grandes grupos económicos e financeiros. Outoniza-se a esperança que não desarma e que empenha todas as suas forças para transformar o mundo em que vivemos.