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As tragédias do nosso contentamento

Alan Kurdi. Sem ir ao Google, não serão muitos aqueles que se recordam de quem falo. Alan Kurdi correu mundo, parado, morto, num momento captado por um fotógrafo quando deu à costa da Turquia ao tentar escapar de Kobani, na Síria. Tinha três anos. Fugia dos horrores da guerra tentando atravessar ao Mar Egeu, num trajeto feito por milhares, como fazem outros milhares atravessando o Mediterrâneo. Alan Kurdi fugia da agressão à Síria, patrocinada pela UE, NATO e Arábia Saudita, cuja raiz do problema surge em 2009. Assad decide tornar a Síria uma plataforma de passagem de um oleoduto para abastecer a Europa. O projeto inicial deveria iniciar-se-ia no Qatar, passaria pela Arábia Saudita, Síria, Jordânia e entraria na Europa pela Turquia. Este era o plano inicial. No entanto, surgiu uma segunda proposta, que passaria pelo Irão, Iraque, Síria, Chipre e Grécia, que deixaria de fora Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Jordânia. E foi a partir daqui que se iniciou, certamente, por mera coincidência, uma invasão de jihadistas ligados ao Daesh naquele país, depois da Primavera Árabe – prontamente apoiada por alguns setores supostamente progressistas – que se transformou num outono sem fim à vista.

Alan Kurdi morreu e a UE foi rápida a tomar medidas. Não abriu as fronteiras para quem morre a tentar fugir da morte, antes passou a pagar à Turquia – como se sabe, um país onde os Direitos Humanos são respeitados integralmente – para que os receba, a partir da Grécia, até ontem governada pelos radicais esquerdistas do Syriza, que afinal foram só mais do mesmo, a troco de dinheiro. 3.000.000.000 de euros para que a mercadoria de pele e osso siga da Grécia para a Turquia, afastando assim a tragédia para longe dos ossos olhos.

A nossa simpatia com Alan Kurdi demorou, mais coisa menos coisa, uma semana e meia. Todos partilhámos os cartoons, as primeiras páginas com a criança de cara colada na areia. Ela foi, afinal, mais um grão na engrenagem da Europa fortaleza que é o projeto europeu. Mas, como a onda que lhe molha a cara, a maré recua e, passados uns dias, já ninguém se lembra de Alan Kurdi. Porque alguém se lembra de dizer que resgatar refugiados que morrem no Mediterrâneo é ajudar redes criminosas de emigração ilegal e consta que, agora, o racismo e a xenofobia fazem parte do direito à liberdade de expressão. Ou ao politicamente incorreto, eufemismo repetido nos media para racismo e xenofobia.

Quando, aqui ao lado, avança a “Cara al Sol”, a maré de compaixão pela cara de Alan Kurdi colada na areia foi desvanecendo, mais ou menos como a espuma das ondas.

Surgiu, entretanto, o caso de Oscar Alberto Martinez e da sua filha Angie Valera, de dois anos. Morreram colados ao tentarem chegar aos EUA, fugidos de El Salvador, um dos países mais violentos do Mundo, também ele colado às Honduras e Guatemala, onde a miséria é pão nosso de cada dia. Morreram colados, de cara colada à lama, cobertos pela água que, mesmo turva, consegue ser mais clara do que o futuro que procuravam. Ali não há mar, há rios. E a água, que em tempos foi ponte, é agora poço sem fundo para milhares que enfrentam a morte para conseguirem viver. E voltamos a ver as caras coladas na lama, a foto partilhada nas redes, os cartoons, a incredulidade daquilo em que nos tornamos enquanto seres humanos. Mas passa. E passará cada vez mais rápido à medida que forem mais comuns. É a normalização destes casos. Do mesmo modo que as imagens de crianças, idosos, menos idosos, na Palestina, a serem assediadas, ameaçadas e mortas já não chocam ninguém. Porque as assumimos como normais, porque aquela zona do globo é assim.

Isto parece-nos tudo tão longe, tão distante, que o nosso choque só é emotivo porque há um impacto visual. Sem estas fotos, Alan Kurdi, Oscar Martinez e Angie Valera seriam anónimos, como outros milhares que tiveram a mesma sorte. Hoje mesmo, alguns países da Europa e da UE continuam a discutir o que fazer com estes peões no jogo político. Itália fecha-se, a Hungria envolve-se em arame farpado, a Bulgária banaliza a caça ao refugiado, a Polónia proíbe partidos comunistas, a Ucrânia saúda Bandera, os EUA aumentam muros – que já existiam antes de Trump, diga-se.

O sistema dominante precisa destes choques para que nos possamos sentir bem. Fazemos uns posts indignados, chocamo-nos e vamos dormir, com a cara colada na almofada até sabermos qual vai ser o assunto do dia seguinte. É a perceção de que fizemos a nossa parte, sem termos tempo – ou vontade ou, sobretudo, necessidade de pensar porque é que isto acontece. Porque se pensarmos que isto acontece porque todos nós permitimos que aconteça, o sistema tremerá mais do que o frio que estas pessoas enfrentam quando se fazem à morte à procura da vida. E, nessa altura, quando tremer, cairá.

Sanções à Venezuela: Cronologia de uma morte lenta

Hoje mesmo, o autoproclamado presidente de qualquer coisa na Venezuela, Juan Guaidó, vem pedir à UE que imponha novas sanções ao povo venezuelano. O sofrimento do seu povo ainda não é suficiente, Guiadó quer mais, precisa de mais, para que a estratégia resulte. Sobre sanções, já aqui escrevi o seguinte, em relação a outro assunto: “[Até 2006] Em 50 anos, foram impostas 141 sanções a países. Dessas 141 sanções, 85 foram impostas unilateralmente pelos EUA, com motivos tão diversos como desestabilizar Allende no Chile, apoiar a UNITA em Angola, na Nicarágua para desestabilizar os sandinistas, em Granada para afetar os simpatizantes comunistas, em Cuba para atacar os comunistas, na Jugoslávia para atacar Milosevic. Em todas elas, os que mais sofreram foram os povos afetados por este tipo de medidas, que, a cobro de desculpas como o “restabelecimento dos direitos humanos” – uma das justificações que surge amiúde quando se trata de embargos e sanções a países africanos – morreram e morrem aos milhões, todos os anos, devido à guerra económica movida pelas potências dominantes no panorama internacional.

Ainda não consegui encontrar um estudo que demonstre o impacto que as sanções têm e tiveram no descalabro económico da Venezuela. No entanto, fica uma cronologia da guerra económica de Obama e Trump que, neste como outros casos, em nada diferem uma da outra. Aguardo que alguém que apoie este golpe de Estado consiga dissociar o estado social e económico da Venezuela deste quadro. E que digam qual o país que conseguiria sobreviver com estas restrições.

14/04/2013: Nicolás Maduro é eleito presidente da República Bolivariana da Venezuela, com 50,6% dos votos expressos nas urnas. O seu principal opositor, Henrique Capriles Radonski, não reconhece a derrota eleitoral e apela os seus apoiantes para que saiam às ruas em protesto. O balanço foi de 11 chavistas mortos e 65 feridos.

12/02/2014: A oposição tenta derrubar o presidente pela força. Balanço: 42 mortos e 850 feridos. Face ao fracasso do golpe de Estado e, tendo em conta as derrotas eleitorais, inicia uma guerra económica e financeira, com o propósito de estrangular a população venezuelana e virá-la contra o governo revolucionário Bolivariano.

18/12/2014: O Congresso dos Estados Unidos aprova a lei 113-278, intitulada “Lei Pública de Defesa dos Direitos Humanos e da Sociedade Civil na Venezuela”. Este instrumento jurídico dita a linha de ação política dos EUA e dos seus aliados contra a Venezuela. Esta lei estabelece a possibilidade de tomar medidas unilaterais coercitivas contra a Venezuela nos domínios económico, financeiro e comercial. Para além disso, estipula que se deve “trabalhar” nesse sentido, junto com os seus parceiros e membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia (UE).

08/03/2015: O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assina a Ordem Executiva 13692 – o “decreto Obama” -, que se baseia na Lei dos Poderes Económicos em Situação de Urgência Nacional; na Lei de Urgência Nacional e na Lei 113-278, declarando a Venezuela como uma “ameaça extraordinária e fora do comum, relativamente à segurança nacional e à política externa dos EUA”. Este decreto vai dar a cobertura legal aos ataques económicos que desde então incidem na Venezuela.

Abril de 2016: Começa o embargo financeiro. A partir desta data, são aplicadas restrições às instituições venezuelanas titulares de contas bancárias no estrangeiro que pretendam efetuar pagamentos em dólares, nomeadamente, para comprar medicamentos e outros bens de importação comuns, como por exemplo alimentos.

Maio de 2016: O banco alemão Commerzbank fecha as contas de várias instituições venezuelanas, incluindo as contas dos bancos públicos da Venezuela e da empresa pública petrolífera PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A.

Julho de 2016: O banco americano Citibank proíbe a sua rede de intermediários bancários de efetuar transações com instituições venezuelanas, incluindo o Banco Central da Venezuela.

Agosto de 2016: O fecho unilateral das contas de intermediários bancários obriga a Venezuela a efetuar transações noutras moedas, sendo que a maior parte das receitas obtidas pela venda de petróleo é em dólares. O país sofre grandes perdas devido aos novos custos das transações, das taxas de câmbio e outros custos operacionais.

Agosto de 2016: O Novo Banco (Portugal) informa o Estado venezuelano, que não realizará mais nenhuma transação em dólares com bancos ou instituições venezuelanas, devido à pressão exercida pelos seus intermediários bancários.

Julho de 2017: A empresa Delaware, que gere os portfólios de títulos da PDVSA, informa a PDVSA que o seu banco intermediário, PNC Bank, não aceitará mais fundos provenientes da empresa petrolífera.

Julho de 2017: O banco americano Citibank rejeita um pagamento do Estado venezuelano destinado à compra de 300 mil doses de insulina.

21/08/2017: O Banco Da China, sediado no Panamá, informa a Venezuela que, no seguimento de pressões do Departamento do Tesouro dos EUA, bem como do governo do Panamá, não poderá realizar mais nenhuma transação em dólares a partir da Venezuela ou para a Venezuela.

22/08/2017: Vários bancos russos informam a Venezuela da impossibilidade de realizar transações com os bancos venezuelanos, devido à restrição imposta pelos bancos intermediários dos Estados Unidos e de vários países europeus.

23/08/2017: O banco intermediário BDC Shandong bloqueia uma transação da China para a Venezuela, no valor de 200 milhões de dólares. Seria necessário mais de um mês para que a Venezuela pudesse recuperar esta soma pecuniária.

24/08/2017: Donald Trump assina a Ordem Executiva 13808, intitulada “Imposição de sanções adicionais a propósito da situação na Venezuela”. Este decreto proíbe toda uma série de transações com o Estado venezuelano, e sobretudo com a PDVSA, e qualquer outra entidade pública da Venezuela. É, assim, estabelecida uma lista de restrições a operações financeiras :

– O Estado venezuelano e a PDVSA estão proibidos de emitir novos títulos de dívida.

– Interdição de efetuar transações de títulos emitidos pelo governo antes da entrada em vigor do decreto.

– É proibido o pagamento de dividendos ou de lucros ao governo da Venezuela, pela parte de entidades residentes nos EUA. Isto afeta sobretudo a Citgo, empresa subsidiária da PDVSA e que conta com três refinarias e 6 mil estações de serviço no território dos EUA.

– É proibida a compra de certos títulos do Tesouro e de dívida venezuelana.

A Casa Branca declara que este conjunto de proibições foi “cuidadosamente pensado para negar à ditadura de Maduro, uma fonte não negligenciável de financiamento”. O decreto 13808 visa a sistematização de ataques contra empresas públicas e operações comerciais e financeiras do Estado venezuelano, com o objetivo de destruir a economia do país. Relativamente a este assunto, o embaixador americano na Venezuela, William Brownfield declarou: “A nossa melhor resolução é precipitar o colapso do governo, mesmo que isso implique meses e anos de sofrimento para os Venezuelanos”.

Agosto de 2017: No seguimento de pressões do Departamento do Tesouro americano, a empresa Euroclear, uma filial do banco americano JP Morgan, congela as operações de transação sobre a dívida soberana da Venezuela. A Euroclear retém assim, desde esta altura, 1,2 mil milhões de dólares, pertença da República Bolivariana da Venezuela.

Agosto de 2017: O Banco Da China – filial de Frankfurt – recusa a emissão de uma transação no valor de 15 milhões de dólares devidos pela Venezuela à empresa mineira Gold Reserve.

05/09/2017: O Canadá e os EUA associam-se para “adotar medidas económicas contra a Venezuela e contra pessoas que contribuem ativamente para a situação atual do país”.

Outubro de 2017: O Deutsche Bank informa o banco chinês CITIC Bank do fecho de contas nos seus intermediários bancários, por terem aceitado pagamentos da PDVSA.

Outubro de 2017: A Venezuela compra vacinas e medicamentos à Organização Pan-Americana de Saúde, uma filial da Organização Mundial de Saúde, e, portanto, sob a égide da ONU. Em virtude da extraterritorialidade das leis norte-americanas, o banco suíço UBS rejeitará o pagamento, provocando um atraso de quatro meses na entrega das vacinas, desorganizando amplamente o sistema público de vacinação gratuito do Ministério da Saúde venezuelano.

03/11/2017: O presidente Maduro anuncia que a Venezuela reembolsou mais de 74 mil milhões de dólares aos seus credores nos últimos 4 anos. Apesar disto, as agências financeiras degradam a notação ligada ao risco de incumprimento da Venezuela, tornando assim mais difícil a obtenção de crédito no mercado de capitais.

09/11/2017: Os Estados Unidos sancionam um grupo de funcionários venezuelanos, evocando o “espezinhar da democracia e de administrar programas governamentais corrompidos de distribuição de alimentos”. Os funcionários responsáveis pela importação de alimentos no país ficam impedidos de assinar acordos comerciais, que favoreçam a política alimentar do governo.

13/11/2017: A UE proíbe a venda de material de defesa e de segurança interna à Venezuela.

14/11/2017: A agência de notação Standard and Poor’s declara o “incumprimento parcial” da Venezuela, apesar dos pagamentos regulares de dívida.

15/11/2017: O Deutsch Bank, principal intermediário do Banco Central da Venezuela, fecha definitivamente as contas desta instituição, colocando em perigo todas as suas operações bancárias.

Novembro 2017: A Venezuela compra medicamentos anti-malária (primaquina e cloriquina) ao laboratório colombiano BSN Medical. O governo da Colômbia impede a entrega dos medicamentos, sem nenhuma justificação.

Novembro de 2017: Os grupos farmacêuticos transnacionais Baxter, Abbott e Pfizer recusam emitir certificados de exportação com destino à Venezuela, tornando impossível a compra de medicamentos produzidos por estas empresas, nomeadamente de natureza oncológica.

Novembro de 2017: Os bancos intermediários recusam várias transações da Venezuela no valor de 39 milhões de dólares. Esta soma destinava-se a 23 operações de compra alimentar para as celebrações de Natal e fim de ano.

29/01/2018: O Departamento do Tesouro americano afirma que “A campanha de pressão contra a Venezuela começa a dar frutos. As sanções financeiras que impusemos obrigaram o governo deste país a entrar em incumprimento relativamente à sua dívida soberana, bem como da dívida da PDVSA. Podemos assim assistir (…) a um colapso económico total da Venezuela. Ou seja, a nossa política funciona e a nossa estratégia funciona, devemos por isso continuá-la”.

12/02/2018: O Departamento do Tesouro americano alarga as sanções financeiras contra a Venezuela. É proibido renegociar e restruturar a dívida venezuelana, bem como a dívida da PDVSA emitida antes de 25 de Agosto de 2017.

Março de 2018: 15 pugilistas venezuelanos são impedidos de participar nas competições de qualificação para os Jogos da América Central e das Caraíbas de 2018, devido à falta de acordo com a agência de viagens, emissora dos bilhetes de avião. Quando a empresa se apercebeu que se tratava do transporte da Federação Venezuelana de Pugilismo, os preços das passagens aéreas passaram de 300 dólares para 2 100 dólares por pessoa. Posteriormente, uma companhia privada propôs um voo charter para transportar a equipa. No entanto, Colômbia, Panamá e o México não autorizaram a aeronave a sobrevoar o seu espaço aéreo.

02/03/2018: Os Estados Unidos renovam por mais um ano, os decretos 13692 (Obama) e 13808 (Trump). O decreto 13808 impõe seis novas medidas coercitivas, tendo como objetivo, atacar a estabilidade financeira da Venezuela. O Gabinete de Crimes Financeiros dos Estados Unidos (FinCEN) alerta as instituições financeiras mundiais que as transações com entidades públicas venezuelanas são suspeitas de corrupção. Esta acusação, sem fundamento nem provas, tem como consequência a travagem do pagamento às empresas alimentares e aos laboratórios farmacêuticos, tornando difícil a importação de bens essenciais. Isto resultará no congelamento de 1,65 mil milhões de dólares, pertença do Estado venezuelano.

19/03/2018: O presidente Trump assina a ordem executiva 13827, que proíbe todos os cidadãos e instituições, de efetuar transações financeiras com a criptomoeda venezuelana “Petro”, mesmo antes de esta dar entrada nos mercados de criptomoedas. Esta decisão é a primeira do género a ocorrer na curta história das criptomoedas.

27/03/2018: O governo do Panamá publica uma lista de 16 empresas venezuelanas suspeitas, sem provas, de branqueamento de capitais e de financiamento do terrorismo.

19/04/2018: Steve Mnuchin, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, reúne-se com representantes da Alemanha, Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Espanha, França, Guatemala, Itália, Japão, México, Panamá, Paraguai, Perú e Reino Unido, para pedir “acções concretas, de forma a restringir, a capacidade dos funcionários venezuelanos corrompidos e das suas redes de apoio”. Afirma que o presidente Nicolás Maduro não tem legitimidade para pedir financiamento em nome do seu país. A drenagem financeira da Venezuela representa assim o único objetivo destas propostas.

Maio de 2018: São congelados 9 milhões de dólares ao Estado venezuelano, destinados aos tratamentos de diálise. Como consequência, 20 mil pacientes serão privados de tratamento.

Maio de 2018: O banco italiano Intensa Sanpaolo bloqueia o dinheiro destinado à construção do pavilhão da Venezuela na XVIª Bienal de Arquitectura de Veneza.

21/05/2018: Devido à reeleição de Nicolás Maduro para a presidência, Donald Trump reforça as sanções. De agora em diante, todos os cidadãos e empresas americanas estão proibidos de adquirir propriedades pertencentes ao governo da Venezuela no território dos EUA.

25/06/2018: O Conselho Europeu adota a decisão 2018/901, sancionando os membros da administração venezuelana, incluindo os que operam no sector da alimentação. Esta medida faz eco àquela que foi tomada um ano mais cedo pelos EUA (9 de Novembro de 2017), tendo como finalidade impossibilitar a compra de alimentos pelo governo venezuelano.

01/11/2018: O presidente Trump assina um novo decreto, autorizando o Departamento do Tesouro a confiscar as propriedades dos operadores do sector mineiro aurífero da Venezuela, sem que acusações penais ou civis sejam necessárias. O objetivo é o de impedir a recuperação, por parte do Estado da Venezuela, da bacia mineira de Orinoco, uma das maiores reservas mundiais de minério aurífero. O Secretário-adjunto do Tesouro americano, Marshall Billingslea, num absoluto cinismo, declarará, a propósito deste assunto: “Deveríamos manifestar mais indignação face aos danos infligidos ao ambiente e às populações indígenas”.

09/11/2018: O Banco Central do Reino Unido recusa devolver à Venezuela 14 toneladas de ouro pertencentes àquele país. Trata-se de um valor que ronda os 550 milhões de dólares.

13/12/2018: A fabricante norte-americana de pneus Goodyear fecha a sua fábrica na Venezuela. O motivo invocado pela direção da empresa é que “as sanções dos Estados Unidos tornam a sua atividade impossível naquele país”.

04/01/2019: Os governos do Grupo de Lima (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colombia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Sainta Lúcia), com exceção do México, adotaram uma resolução para reforçar o bloco. O texto prevê estabelecer uma lista de personalidades jurídicas venezuelanas com as quais “não devem trabalhar, devem ter o aceso impedido aos seus sistemas financeiros e, se necessário, congelar os seus ativos e recursos económicos”. Igualmente, a resolução obriga os países do Grupo de Lima a trabalharem de perto com os organismos financeiros internacionais que integram para impedirem a cedência de novos créditos à República Bolivariana da Venezuela.

Fonte: https://www.romainmigus.info/

A Caravana

Nas últimas semanas, chegou-nos aos olhos e aos ouvidos a história de uma caravana de milhares de emigrantes partidos das Honduras rumo aos EUA. A forma como a história é tratada deveria fazer pensar todos os que estão envolvidos no jornalismo. A começar pelos próprios. O que fica da informação que é dada é que, de repente, milhares de pessoas decidiram partir das Honduras, a pé, atravessar o México e tentar entrar nos EUA em busca de uma vida melhor. Não me recordo – e a caixa de comentários está aí para quem quiser fazer o favor de me corrigir, o que agradeço – de ver nestas peças os motivos que levam milhares de pessoas a abandonar o seu país, a pé, percorrerem centenas de quilómetros e tentarem entrar num país em que, à partida, sabem que serão barrados.

Um olhar para esta caravana sem ter em conta os desenvolvimentos de 2009, quando Zelaya foi deposto à boa maneira dos anos 60 na América Latina, inclusivamente levado para uma base militar dos EUA no país, é abrir caminho às teorias da invasão de migrantes, ao populismo, ao alarmismo e à aceitação do fecho de fronteiras neste como noutros casos. Nesta entrevista do ex-presidente hondurenho ao portal Sputnik, é abordado, ainda que de forma superficial, algo inegável: Foi o momento em que se iniciou uma viragem à direita nas Américas, no retorno generalizado daquele meio continente ao bordel dos EUA do século passado. Nenhum jornal, rádio ou tv se lembrou de recordar o dia 9 de Junho, quando passaram nove anos daquele golpe. A Telesur fê-lo.

Eleições em 2017 e um enorme 21
A 26 de Novembro de 2017, tiveram lugar eleições que opuseram o conservador Juán Orlando Hernández, oligarca acusado de vários casos de corrupção e do partido no poder desde 2009, a Salvador Nasralla, candidato da oposição democrática. No dia seguinte às eleições, com 60% dos votos apurados, Nasralla seguia à frente na votação com uma margem de 5%. Dois dias depois, depois de um apagão nos dados e alegados problemas técnicos, o Supremo Tribunal Eleitoral dava Orlando Hernández em vantagem. Vantagem essa que viria a ser confirmada 21 dias depois. Vinte e um dias depois. Os resultados oficiais deram 42,95% ao presidente em exercício e 41,42% a Nasralla. Ao fim de 21 dias.

Protestos, mortos, estado de exceção
No tempo que mediou a eleição e a divulgação dos resultados, o povo saiu às ruas e tiveram lugar protestos que culminaram em mortos, feridos e ao apelo da ONU pelos direitos humanos, como podemos ver nesta notícia do Público, igual à do JN, de 2 de Dezembro de 2017. Antes disto, no caso do Público, apenas por uma vez se aflorou o tema Honduras, a 30 de Novembro; já o JN pegou no assunto por três vezes, nos dias 18 de Dezembro, 27 de Dezembro e 7 de Janeiro. Foram estas as notícias que encontrei após pesquisar nos dois jornais. As referências a Zelaya surgem apenas de forma lateral como um membro da candidatura, omitindo, propositadamente ou não, que foi deposto em 2009 após um golpe militar.

Silêncio
No dia 15 de Dezembro de 2017, o PCP emite uma nota de imprensa sobre a situação das Honduras, manifestando solidariedade com as forças democráticas. Nos media portugueses, nem uma linha. No mesmo espaço de temporal entre as eleições e as notícias dos jornais lusos, temos, no portal AbrilAbril, seis entradas com o mesmo assunto (aqui, aqui – onde se aborda uma significativa greve de polícias -, aqui, aqui e aqui. Deixo para o fim esta entrada. Aqui, o AbrilAbril faz o que nenhum órgão de informação tradicional foi capaz de fazer. Cruza fontes, cita jornais hondurenhos e de outros países da região, deixa ligações para páginas de ativistas e organizações.

A Caravana que foge de tudo
Por tudo isto, é responsabilidade dos media, se quiserem recuperar a credibilidade perdida, mais do que dar as notícias, enquadrá-las, explicá-las, desmontá-las e ir mais além. O povo hondurenho foge de tudo o que aconteceu depois de 2009. Da violência, da corrupção, da fome, dos assassinatos. Peguemos, por exemplo, no relatório da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura –, que deu origem a esta notícia da Lusa replicada pelo DN, onde podem ler-se as brilhantes frases: “A Venezuela é o país da América Latina com maior número de pessoas subalimentadas, 3,7 milhões de cidadãos, segundo dados divulgados hoje pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO)”, para, mais à frente, afirmar que “Segundo o relatório, o Haiti tem cinco milhões de pessoas subalimentadas (45,7% da população)”. Ou seja, na contabilidade da Lusa, que o DN copia e cola sem critério, 3,7 milhões são mais do que cinco milhões. Regressando às Honduras, o relatório, disponível online para quem quiser ler, diz, por exemplo, que os casos de desnutrição crónica afetam mais de 25% das crianças, sendo o terceiro país com a maior taxa, superado apenas pela Guatemala e pelo Equador.

Tempos
O tempo das notícias não pode ser o tempo das redes sociais, dos cliques, das visualizações. Da espera por uma foto chocante da Caravana que se torne viral. É preciso entender, explicar. É preciso jornalismo. A forma como este e outros temas são tratados são ignição para o que está a acontecer no Mundo. Um filme repetido que todos já vimos mas, parece, ninguém se importa de rever.

Por fim, deixo este texto de José Goulão, jornalista, que enquadra na perfeição a situação na América Latina e faz aquilo que mais ninguém, até agora, fez. Jornalismo.

A Síria aqui tão perto

Foto de bombardeamento saudita no Iémen, já partilhado
nas redes sociais como sendo em Goutha, na Síria

Woodrow Wilson, depois do final da I Grande Guerra, considerava que os Estados deviam ter em conta a Opinião Pública nas tomadas de decisão. Aliás, deveria ser a Opinião Pública a definir o caminho dos Estados. À parte de outros contributos para uma tentativa de reorganização do Sistema Internacional, o então presidente dos EUA esqueceu uma parte essencial sobre o que é a Opinião Pública, como se forma, quem a forma e com que meios.


Quase 100 anos depois, fica clara a insuficiência do pensamento, mas mantém relevância na análise da realidade internacional. A Opinião Pública é formada, informada e enformada, essencialmente, pela classe dominante, que controla o poder económico e os agentes que formam Opinião Pública, que por sua vez controlam os Estados, sendo os seus interesses antagónicos com os da Opinião Pública, que os assume, por paradoxal que possa parecer. Os dias de hoje deixam isso a nu. A manipulação da Opinião Pública atingiu dimensões inimagináveis há 100 anos. É por isso que os interesses dominantes atribuem diferentes graus de valor àquilo que chega e como chega à Opinião Pública e que, por conseguinte, a forma.

Daqui podemos verificar as diferenças de tratamento da crise na Venezuela, que nos chega como governamental, de sistema político e económico, mas na Colômbia e México são ciclos económicos e vagas de criminalidade, nas Honduras ou no Haiti a crise chega-nos como humanitária.

É por isto que, por vezes, abordamos a questão Síria, com toda a tragédia e complexidade que a envolve, pegando em imagens de Aleppo antes da libertação como sendo da Goutha. E, desvalorizando esse facto, assumimos que é trágico na mesma, porque as imagens não devem ser muito diferentes. Mas, no entanto, a normalização de imagens deslocadas da realidade que pretende retratar, é também uma forma de manipulação da Opinião Pública.

Habituámo-nos à violência em Gaza, por exemplo, a cujas fotografias de Aleppo também poderiam corresponder. Mas dura há tantos anos que já entra na nossa realidade como norma. Em Gaza é assim porque é assim.

Isto para dizer que a Opinião Pública que formamos a partir do que recebemos nos chega, não raras vezes, de forma a que resulte na seletividade do choque.


No Iémen, como na Síria, há uma tragédia humanitária que dura desde 2015, com mais de 9.245 mortos e 52.800 feridos. Entre as vítimas civis, 5.558 são mortais e 9.065 são feridos. Até 14 de Dezembro de 2017. Cerca de 75% da população necessita de assistência humanitária, incluindo mais de 11 milhões que necessitam de assistência imediata para sobreviverem – aumentou um milhão desde Junho de 2017. Há 8,4 milhões em risco de morrer à fome e a vida de 400.000 crianças com menos de cinco anos está em risco.

A diferença substancial no que concerne à perceção que chega à Opinião Pública, é que a intervenção no Iémen, com vista a depor o governo, é composta por EUA, Reino Unido, França e Arábia Saudita. O lado ocidental da perceção, portanto. Por incrível que pareça, sim, a visão saudita é também a que interessa ao Ocidente.

Tal como na Síria que tem, no entanto, uma diferença.Em 2009, Assad decide tornar a Síria uma plataforma de passagem de um oleoduto para abastecer a Europa. Iniciar-se-ia no Qatar, passaria pela Arábia Saudita, Síria, Jordânia e entraria na Europa pela Turquia. Este era o plano inicial. No entanto, surgiu uma segunda proposta, que passaria pelo Irão, Iraque, Síria, Chipre e Grécia, que deixaria de fora Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Jordânia.

E é esta a raiz do problema e da perceção que nos chega, na formação da Opinião Pública. Um oleoduto que deixaria de fora os países do Médio Oriente com relações próximas com os EUA e os seus aliados, perdendo o controlo da sua distribuição, perante uma segunda hipótese, que permitiria abastecer a Europa a partir de outros países menos recetivos às interferência externas.

São estas razões que fazem com que Goutha, na Síria, nos pareça tão perto, e Sanaa, no Iémen, nos pareça tão distante.

O discreto Caracazo haitiano*


Dois meses. A revolta do povo haitiano estalou há dois meses e na comunicação social da classe dominante nem uma notícia. Talvez o critério editorial seja uma escala tanatológica de um para mil em que, para o Haiti ser notícia, é necessário mil haitianos mortos por cada morto estado-unidense. Mas hoje não há terramotos no Haiti e os rodapés dos telejornais voltarão a desfilar fait divers sobre celebridades, futebol, curiosidades avulsas, a grande questão nacional Santana versus Rio e um restaurante em Manchester que dá os restos aos pobres.

Entretanto, por todo o Haiti, o povo desafia nas ruas a proibição de manifestações contra o regime cleptocrata de Jovenel Moïse. O movimento que começou, em Setembro, quando foi apresentado o orçamento do Estado, como um protesto contra o aumento dos impostos e taxas sobre o trabalho transformou-se em mobilização nacional contra a doutrina neo-liberal, clamor pela soberania e exigência de demissão do governo de Moïse.

No poder há um ano, Jovenel Moïse, partido Tèt Kale, é apenas o último nome na longa lista de serventuários do imperialismo dos EUA que, desde o golpe de Estado com o selo CIA contra o governo democraticamente eleito de Jean-Bertrand Aristide, em 2011, se sucedem num caótico turbilhão de violência, miséria e privatizações. Moïse tomou o poder através de uma farsa democrática de um só acto eleitoral que, embora anémico (menos de 30 por cento dos haitianos votaram), exigiu o brutal esmagamento do movimento de massas. Depois de decapitar as duas agências anti-corrupção, Moïse deu o braço com o presidente do Banco de Desenvolvimento Interamericano, o guru neoliberal Luis Alberto Moreno e pôs em marcha a Caravana da Mudança, um bizarro circo que melhor pode ser descrito como um cruzamento entre um programa de austeridade, uma máquina de lavagem de dinheiro e um comício de demagogia itinerante.

Gosta do capitalismo? Vá para o Haiti!

As manifestações de massas sucedem-se, em Porto Príncipe, várias vezes por semana, apesar do Estado recorrer com crescente brutalidade à repressão. Na passada terça-feira, a título de exemplo, homens armados dispararam 24 tiros contra uma manifestação pacífica. As matrículas revelaram que os veículos dos atiradores pertenciam ao Estado. Mas nem as dezenas de detenções, nem os disparos, nem as provocações orquestradas pelo Estado estão a conseguir deter a luta das massas. Quando, no passado dia 21 de Setembro, Moïse tentou fazer uma demonstração de força, encabeçando uma parada militar na principal avenida da capital, uma chuva de pedras e garrafas obrigou comitiva do presidente a fugir. No dia 2 de Outubro, uma greve geral marcou a nova fase da luta, contra o neoliberalismo e pela demissão do governo, consciente da sua própria história.

Mais de duzentos anos depois da primeira revolta colonial e anti-esclavagista das Américas, o Haiti continua a pagar o preço do atrevimento. 60 por cento dos haitianos vive na pobreza e 25 por cento passa fome; 40 por cento é analfabeta e os um por cento mais ricos detêm tanta riqueza como os 45 por cento mais pobres; segundo a ONU é um dos países do mundo onde mais crianças são abusadas sexualmente. Mesmo ao lado da digna cuba socialista, inspiração de frequentes comparações absurdas e para onde os anti-comunistas mandam emigrar quem luta por um mundo mais justo, o Haiti apodrece. Infinitas vezes poderíamos responder «E você, gosta do capitalismo? Vá para o Haiti!»

À semelhança do Caracazo venezuelano de 1989, a revolta haitiana continua órfã de organização e liderança formal. O partido Fanmi Lavalas, do ex-presidente Aristide e a plataforma cindida da primeira organização, Pitit Desalin, do senador Jean-Charles Moïse, são as forças políticas mais influentes no movimento que permanece, contudo, essencialmente espontâneo. Como aconteceu com o Caracazo, a revolta haitiana não tem direito a primeiras páginas nem a prémios Sakharov. Mas até do mais discreto Caracazo pode florescer um Chávez.

*Primeiro esboço de um artigo publicado no jornal Avante! N.º 2292 de 2 de Novembro de 2017

Um pequeno incidente no condado Cobb*

Na manhã do passado dia 7, Brian Easley, de 33 anos, entrou num balcão do Wells Fargo em Cobb, um subúrbio de Atlanta, na Geórgia, EUA, e anunciou que tinha a mochila cheia de explosivos. Depois, pediu às duas trabalhadoras que chamassem a polícia e telefonou para o canal de televisão local, a WSB-TV, e comunicou o ponto único da curta lista de exigências: 892 dólares.

«Tiraram-me o subsídio e já não tenho nada», explicou à estação de TV, «Vou ficar na rua. Não tenho para a comida. Não tenho nada. Já não tenho dinheiro para sobreviver até ao fim do mês». À editora Stephanie Steiger, numa emissão em directo que se prolongou por 45 minutos, Easley garantiu que não iria magoar as duas reféns: «já lhes disse que se for detonar a bomba, deixo-as sair primeiro. Estas senhoras estão a ser muito simpáticas e estão a ajudar-me, a apoiar-me», disse. Uma promessa confirmada mais tarde pelas duas trabalhadoras, que o descreveriam como «respeitoso» e «gentil». Mas Brian Easley tinha uma bomba e estava transtornado.

Enquanto o banco era cercado pelas forças especiais e os franco-atiradores se instalavam nos telhados, o veterano protestava contra o corte do subsídio que lhe fora atribuído por mazelas sofridas durante a guerra do Iraque.

Segundo-cabo dos fuzileiros navais, Easley combateu entre 2003 e 2005, os anos mais sangrentos da invasão. Quando regressou à Geórgia, trabalhou num armazém, mas o salário não lhe permitia arrendar casa e teve de voltar para casa dos pais. Pouco tempo depois, divorciou-se. Contou à pivô que queria estudar cinema, mas não havia dinheiro: só havia dinheiro para mais uma noite no motel. Depois, ficava na rua.

Ao negociador do FBI repetiu a mesma exigência: a devolução do subsídio de que precisava para viver e ajudar a filha de oito anos. «O subsídio é meu! Eu continuo ferido!», repetia. É que para além das feridas, as físicas, que lhe valeram o subsídio, Brian trouxera outras, mais profundas, que se mantiveram mesmo depois do Departamento de Assuntos dos Veteranos o considerar recuperado. Mais tarde, soube-se que, dias antes, Easley procurara ajuda psiquiátrica num hospital. O hospital chamou a polícia, que o arrastou para a rua.

Uma definição de terrorismo

Passavam-se as horas e o impasse permanecia sob os holofotes dos helicópteros e das objectivas: nem Easley anuía em soltar os reféns sem que lhe devolvessem o subsídio nem o negociador cedia. Para a maior máquina de guerra do mundo, cujo orçamento bélico para 2018 ultrapassa os 639 mil milhões de dólares, o veterano negro não valia 892 dólares. Já cumprira o seu propósito ‒ podia desaparecer, como os 128 mil veteranos que, desde 2001, se suicidaram. Ou podia não desaparecer, como os 50 mil veteranos que vivem nas ruas ou os dois milhões que sobrevivem abaixo do limiar da pobreza. Como todos os que cresceram na liturgia das «nossas tropas» e também quiseram ser «homens e mulheres que arriscam a vida pela nossa liberdade», enviados ainda imberbes para chacinar outros povos em nome de uma qualquer mentira, para salvar, não a liberdade, não a democracia, não um povo, mas interesses imperialistas, mercados e taxas de lucro. Sim, «Deus abençoe as nossas tropas», porque elas vão precisar disso depois do fim anunciado do Medicaid, o último programa de saúde pública para os mais pobres.

Segundo uma versão, descrita pelo portal WSWS, Brian soltou as reféns imediatamente antes da polícia o matar. A polícia desmente. Certo é que um carro blindado arrombou a porta do banco e as metralhadoras dos SWAT dispararam centenas de balas. Brota o sangue de nascentes às dúzias. Alaga o mármore, que não brilha menos por isso. O corpo arrefece. Missão cumprida? Quase. Cá fora, as câmaras captam a procissão de robôs, barreiras e armaduras dos especialistas em demolições, minas e armadilhas.

Mas dentro da mochila de Brian Easley não há bombas, nem explosivos, nem pistolas, nem armas químicas, nem ditaduras. Há uma pedra. Não uma pedra certeira, como a que judiciosamente abateu Golias; não uma pedra mágica, como as filosofais que conferem imortalidade aos alquimistas que as levam na mochila; não uma pedra que mudasse o mundo, como o Onfalo embrulhado em roupas que tragou Cronos julgando devorar um filho; não uma pedra que gritasse por justiça e rugisse à polícia como a Lia Fáil dos reis irlandeses; nem sequer uma pedra grande, como o Uluru esculpido por milenárias serpentes aborígenes. Só uma pedra. Normal, igual a todas.

Já deixaram os reféns o banco. Que a pedra detone. E o mundo mude.

*Versão de um texto originalmente publicado no jornal «Avante!» N.º2276

A culpa é do sistema

Sérvia, Europa, Janeiro de 2017

Os agradecimentos aos construtores da União Europeia sucedem-se, nos últimos dias. Afinal, como não agradecer a quem nos atirou dinheiro a troco daquilo que, achávamos nós, era nada? Há melhor incentivo? Claro que não havia outro caminho, nunca há outro caminho. É aquele discurso das inevitabilidades que tão bem conhecemos. Ficámos com estradas que levam a lugar nenhum, porque recebemos dinheiro para modernizar as infraestruturas do país, mas ficámos sem ter o que transportar, porque também recebemos para não produzir, recebendo de fora o que produzíamos, mas não importa. Enquanto houvesse obras públicas, havia de haver emprego. Obra feita, pois claro. Nem pescas, nem agricultura, nem indústria, mas os gigantes da Europa fizeram o favor de nos dar dinheiro. Que agora pagamos com todos os juros, financeira e economicamente.

Ao que parece, para alguns sectores, não fosse a nossa entrada na UE e estaríamos todos desumanizados, uma Albânia ou uma Cuba atravancada no cu da Europa, entre Espanha e o Atlântico. Assim, felizmente, estamos no mundo desenvolvido. Temos tudo e, ao mesmo tempo, temos nada, porque o que temos é, na verdade, propriedade de quem nunca vimos e não passa de uma série de zeros e uns que circulam entre redes. Comércio livre! Temos é pouco para vender, a menos que comecemos a cortar os dedos.

Mas isso não importa, porque temos liberdade, que isto não é Cuba nem Albânia. A menos que seja em Espanha, por exemplo, onde se pedem dois anos e meio de prisão para uma jovem que escreveu, no Twitter, sobre o fascista Carrero Blanco. Ou na Hungria. Ou na Ucrânia. Ou na Polónia. Temos paz no continente e isso é relevante. Menos quando os terroristas, que a nossa humana UE patrocina, se mudam de malas e bagagens para o nosso mundo. Que o dos outros nós vemos na TV ou na Internet.

Estamos do lado certo da História, nem podia ser de outra maneira. Estamos na vanguarda do que são os Direitos Humanos, juntamente com os EUA, que perderam agora um presidente que fez toda a diferença. Tornou o Mundo um lugar seguro e menos desigual, apesar de ter conseguido a proeza de bombardear mais países do que o seu antecessor, mas tem swag, boa imagem, é engraçado e é negro, o que faz as delícias de alguns que acham que basta mudar o sexo ou a cor de pele do poder para mudar de políticas. Não é, Merkel?

Na foto, ali em cima, está o retrato do que é a UE em 2017 e que nunca poderia ser diferente. Porque foram sempre a economia e as finanças que estiveram na sua mira. A UE que vende refugiados à Turquia – também cheia de liberdades, humanismo e democracia – para que os arrume e os tire das nossas vistas, que a nossa liberdade também é isso. Afastar dos nossos olhos o que nos incomoda, fazer de conta que não existe. Porque Obama falhou em algumas coisas mas. E a UE falhou em algumas coisas mas. E vamos andando de falha em falha, de mas em mas, até que consigamos perceber que, nisto tudo, o que falha é o sistema predador em que vivemos, canibal numa primeira fase e, agora, autofágico.

O choque da pobreza cubana

A morte de Fidel foi mais um pretexto para a o avanço da ideologia dominante na propagação da ideia de que ou há este caminho ou não há caminho nenhum. Da social-democracia mais à esquerda ou mais à direita, poucos são os que têm coragem de assumir que as conquistas cubanas são tão profundas e importantes que não podemos compará-las com as democracias haitianas, porto-riquenhas ou dominicanas. É que, por incrível que possa parecer, é com esses países que Cuba deveria ser comparada. Porque foram países brutalmente colonizados, explorados nos seus recursos e nos seus povos. Porque era lá que os homens de família que deslocavam em negócios de saias, enquanto enchiam a boca com o moralismo e a santa madre igreja. No entanto, o progresso cubano foi tão expressivo que o comparamos com os países desenvolvidos, ou exploradores, como preferirem. E, por incrível que possa parecer, Cuba supera esses países em categorias tão importantes como a saúde infantil, materna, educação, tratamento do HIV, acesso à habitação. Mas o que importa isso?

Como é que é possível um país não ser aberto só porque o seu líder sofreu 638 tentativas de assassinato por parte da maior potência mundial, fora as tentativas de golpe de Estado?

Claro que o embargo não explica tudo. Afinal, o que pode explicar um país não poder efectuar trocas comerciais com outros? Olhemos para nós, que não nos importamos nada, nem há manchetes e campainhas e alarmes de cada vez que a nossa balança comercial se inclina para um lado ou para o outro? Um embargo não explica tudo.

Um embargo não explica tudo. Os cubanos pedem sabonetes e champôs aos turistas, onde já se viu. E o embargo não tem nada a ver com isto. Ainda se fossem sem-abrigo e pedissem pão, isso sim, era liberdade, democracia e desenvolvimento.

Então e tu? Já visitaste Cuba? Ou reges-te pela imprensa, que lhe é tão favorável. Claro que sim. A imprensa, ao serviço da classe dominante que abomina e silencia tudo o que foi alcançado com a revolução cubana. A mesma imprensa que, no entanto, é obrigada a noticiar que é em Cuba que são operados doentes portugueses com cataratas. Fora isso, Cuba é um pesadelo. Nunca lá foste, pois não? Então não sabes nada.

O embargo não explica que o sistema eleitoral cubano não seja democrático porque não está de acordo com as nossas democracias amadurecidas, como a dos EUA, em que é possível, numa eleição uninominal, ser eleito alguém com menos votos. Mas pelo menos há eleições. Em Cuba também, mas não importa. As de Cuba são más porque são em Cuba.

E a pobreza em Cuba? Que é muito mais pobreza do que em qualquer cidade sul-americana? Os pobres em Cuba deviam ser pobres como os do Haiti, não é como os cubanos. Onde já se viu, andarem a pedir sabonetes. Já disse que deviam pedir comida e um abrigo, sei lá, não disse? Isso sim, é pobreza menos má, porque é nossa, e olhamos e atravessamos a rua e está resolvido. Agora pobreza quando vamos de férias? Onde já se viu? Nós habituados a ir a Paris, Londres, Barcelona, Madrid, Berlim e lá não há miséria, seus burros. São carências. Claro que não tem a ver com a expulsão dos habitantes locais das grandes cidades para os arredores, transformando-as em enormes centros turísticos, sem a pobreza, que incomoda tanto.

Sim, os putos sabem ler e escrever em Cuba, ao contrário de 200 milhões de crianças por todo o Mundo. Têm aulas de música, desporto e artes que aqui só temos se pagarmos. Muito. Mesmo muito. Pá, mas aquilo não é uma democracia porque não pensam como nós.

Sim, a saúde, está bem. Só porque tem um médico para cada 150 pessoas? Isso justifica alguma coisa? Até parece que, aqui, se eu precisar de um médico não posso ir ao privado. Está bem, tenho de ter um seguro de saúde e pagar por isso. Mas pronto. Posso ficar no público à espera. E se for urgente temos as urgências. Pagamos? Ok, mas ganhamos muito mais que os cubanos, até andam alguns a ver se a gente chega aos 557 euros por mês, em vez dos 600, é porque devemos estar bem. Depois, é pagar luz, água, gás, passe social, renda ou empréstimo e paga-se a consulta nas urgências com o que sobrar.


Fidel foi um criminoso porque matou pessoas durante a revolução. Que importa se o país permaneceu ameaçado, interna e externamente, pelos EUA? Onde já se viu, fazer uma revolução e assassinar pessoas? Isto não ia lá com veludo, ou com cores, ou com estações do ano, como se tem visto com tanto sucesso? Era preciso uma revolução tão revolução?

Depois há os outros, que sim, Cuba tem coisas boas, como o ensino e a educação, mas. Claro que mas. Uma das principais opositoras cubanas vive na ilha, é paga por George Soros e é conhecida por ser blogger, entrando e saindo da ilha quando quer. Numa ilha sem internet, sem nada, onde se comunica por sinais de fumo. De charuto, claro. Nem liberdade, como canais de rádio e TV que emitem diariamente a partir de Miami. Para onde vão os democratas cubanos, com subsídios do governo norte-americano, desde que não cheguem de avião. Se chegarem de avião, não têm visto.

E os médicos, engenheiros, professores que passam por tantas dificuldades? E os nossos todos aqui tão bem nos callcenter e na Uber ou emigrados ou a servirem de mão-de-obra barata nos supermercados, através das empresas de trabalho temporário? Pelo menos podem sair do país. Em Cuba também, desde que não vão de avião e para os EUA.

Matou pessoas, Fidel. Foi um criminoso sem um pingo de humanidade. Democracia em Cuba, só mesmo em Guantánamo. Devia ter sido mais como nós, que somos cheios de humanidade, mas estamos no lado dos que votaram para eleger um presidente que se recusou a condenar o Apartheid. Curiosamente, Fidel foi uma das pessoas a quem Mandela agradeceu todo o apoio dado à causa dos negros sul-africanos, bem como à libertação de países daquele continente.E o Amílcar Cabral. Tudo bem, mas não era preciso matar pessoas, até parece que não se resolvia a descolonização de outra forma, com paciência e jeitinho.

A malta é de esquerda e está com a Palestina. Fidel é um criminoso admirado na Palestina pelo apoio dado àquele povo, às tantas temos aqui um problema, mas não, porque teremos sempre um mas. Matou pessoas e tudo numa revolução. Que bruto. Em vez de abrir o país à democracia de modelo burguês ocidental, como fez ao Chile de Allende. Morreu mas pelo menos morreu cheio de democracia imposta pelos nossos aliados. O Pinochet é que sabia.

A gente é de esquerda e até esteve pelo Obama. Guantánamo? Mas ele é mesmo cool. Viste-o naquele talk-show? Super engraçado.

E aquelas férias na Tailândia? Que importa o turismo sexual, os pobres lá são muito melhores. Mesmo que, à chegada, nos digam quais os locais para onde podemos ir sem correr o risco de ser assaltados. A pobreza lá é muito melhor. Não pedem champô nem sabonetes. Isto sim, são pobres à maneira. Nem falo na Índia. Lá é que a pobreza é como deve ser.

E Marrocos? É lindíssimo o Saara Ocidental. Presos saarauís? Mas os pobres lá são de categoria, tens é de entrar e fechar-te no hotel e escolher bem o percurso com os guias. Estes ao menos não te pedem champôs. Mas, se puderes deixar ficar uns dólares… Aquele deserto é lindo.

A gente quer é escrever as nossas sentenças nos nossos smartphones feitos com mão-de-obra escrava, a nossa roupa cosida por crianças e poder dar às nossas crianças os brinquedos que são feitos por crianças mais pequenas do que elas. Nenhuma delas é cubana, podem ser haitianas, salvadorenhas ou porto-riquenhas, mas aquela pobreza lá, com pessoas que pedem champôs e sabonetes, choca muito qualquer um.

Cuba não é o paraíso na terra. Mas também não é o inferno que são os seus vizinhos sul-americanos. Por muito que isso custe a quem gostava que fosse.