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BE: O conteúdo está na forma

Sou forçado a admitir que o debate parlamentar – e refiro-me a este, que foi o único que existiu – acerca da eutanásia foi, de facto, muito útil. Não para debater as complexas circunstâncias do tema propriamente dito, cujo aprofundamento nitidamente não interessou a quem apresentou as propostas, mas sim para outros fins, bem menos “heróicos” ou “respeitadores” da “vontade dos cidadãos” que alguma ingenuidade da opinião pública pudesse antever nas defesas vigorosas da respectiva aprovação. Das várias latitudes do “interesse” que havia em fazer de forma apressada uma discussão mediática e uma votação atabalhoada, evidenciou-se, muito destacadamente na imprensa, como é habitual nestes casos, a postura pública do Bloco de Esquerda em relação ao PCP.

Não é novidade a diferença substancial entre o que se diz e faz nas bancadas de BE e PCP. Partidos diferentes, com histórias diferentes, com percursos diferentes, reflectindo em quase tudo essas diferenças e manifestando-as, entre outras dimensões, no debate parlamentar. Porém, aquilo a que se assistiu no “debate da eutanásia” (para simplificar) não se confunde com nada, rigorosamente nada, de o que alguma vez se viu ou ouviu da boca de dirigentes do Bloco em relação ao PCP. E seria totalmente errado, para não dizer até pouco responsável, que agora se afastasse da análise que imperativamente deve ser feita, a forma ou a aparência de o que foi dito, concentrando atenções em exclusivo no conteúdo ou na posição de fundo. Casos há – e este é um deles – em que a forma, o tom ou o uso de determinados termos e expressões, encerram em si mesmas não o acessório, mas o fundamental.

A partir de determinados “decibéis” não há nem pode haver espaço para debate algum. Na ambiência de determinado estilo argumentativo não pode haver a mínima correspondência ou resposta. Duvido que, por mais que se esforçasse, algum dos mais empedernidos deputados do CDS alguma vez tivesse sequer a ousadia de se referir ao PCP como o fizeram alguns deputados do BE. Duvido que o desrespeito histórico e até o cínico ataque pessoal – velado, hipócrita, cobarde – a António Filipe, pudessem ser tão evidentes se vindos de PS ou PSD. Ninguém pode, depois de ouvir com redobrada atenção aquelas intervenções parlamentares (ou reler os textos) do BE acerca do PCP e da sua posição nesta questão concreta, continuar a achar que a discorrência foi apenas “manifestação da diferença de posição”. Não foi.

Isto pode ter sido novidade para uns, adivinhável não novidade para outros. O que não pode haver é indiferença, assobios para o lado, desvalorização. E impõe-se uma reflexão séria, colectiva, firme.