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Abaixo o caviar, viva o kebab

Há muitos anos que o jornalismo está a ser cozinhado em lume brando. Quando deixou de questionar o poder e passou a servir de apêndice dos grandes grupos económicos e financeiros, os principais jornais, rádios e televisões entraram numa espiral decadente que preferem atribuir às recentes transformações tecnológicas. Em momento algum lhes ocorre questionar se por acaso não terá algo a ver com a crise do sistema político e económico.

Sejamos claros. Durante décadas, venderam-nos falsas verdades e agora que outros seguem o mesmo caminho apontam-lhes o dedo e defendem o monopólio da mentira. Foi a imprensa que serviu de comissária política na cruzada neoliberal pela precarização do trabalho e pela privatização dos serviços públicos. Agora espantam-se que as redes sociais se assumam como fonte prioritária de conhecimento para muitos. É certo que é um mar agitado de mentiras por onde sopram os perigosos ventos da extrema-direita mas é justamente por não haver uma imprensa livre de interesses privados que o discurso destravado do fascismo volta a estar em cima da mesa.

Há umas semanas, a filósofa belga Chantal Mouffe afirmava, em entrevista ao Público, que “a melhor forma de combater o populismo de extrema-direita é com o de esquerda”. Como qualquer pós-marxista, tem um perigoso gosto por transfigurar conceitos que o próprio Pacheco Pereira fez questão em desfazer. Não há populismo de esquerda. Mas, ainda assim, Chantal Mouffe tocou no sensível nervo do campo das armas do nosso tempo para combater o fascismo. Na verdade, de todos os tempos. Só a radicalização do discurso em defesa da ruptura com o capitalismo pode fazer com que os trabalhadores voltem a confiar na esquerda.

Não são poucos os países onde a esquerda descafeinada abandonou princípios e abraçou a política do possível. Sobretudo, deixou de ter a questão de classe como eixo central do seu discurso. Hoje, a extrema-direita é praça-forte em muitos lugares porque adoptou um discurso forte, apesar de pejado de mentiras, construindo uma imagem que aparece aos olhos dos trabalhadores e das populações como alternativa anti-sistema. Foi precisamente a comunicação social que promoveu a anti-política, o individualismo e a ideia de que são todos iguais para que se apoiem sempre os mesmos escondendo que há alternativas.

Há esgotos mais limpos que os corredores por onde as portas giratórias do poder conduzem o dinheiro. São muitos os jornalistas que apenas cumprem ordens e que como qualquer polícia se limitam a brandir o cassetete quando lhes mandam. Mas tanto a caneta como o bastão fazem as mesmas vítimas.

Na Alemanha, a população ficou ganha para o conceito de expropriação quando percebeu que era a única forma de ter direito a ter uma habitação digna. No País Basco, centenas de jovens ocuparam um bairro operário abandonado que estava destinado a servir de terreno para futuros apartamentos para ricos. Na Andaluzia, vários trabalhadores do campo entram em herdades improdutivas e põem-nas a produzir para proveito de todos. Acabou o tempo das palavras mansas e das soluções edulcorantes. Mas também da prática ruminante inconclusiva. Combater o fascismo é defender a justiça social por todos os meios possíveis.

Nem uma União Europeia para os fascistas.

Na iniciativa de convívio com apoiantes da Coligação Democrática Unitária (CDU) realizada segunda-feira, dia 15 no Centro de Trabalho Vitória e que contou com largas dezenas de participantes, João Ferreira, primeiro candidato das listas para o Parlamento Europeu, dirigiu-se aos amigos presentes com um agradecimento, mas também com justas considerações sobre o papel dos comunistas e aliados no contexto actual.

Aliás, o candidato não se limitou a fazer um discurso de mobilização, mas também um discurso de alerta e de luta. A consideração fundamental do camarada assentou na valorização da política alternativa proposta pelo PCP e pela CDU mas avançou para uma questão ideológica sobre o fundo político da actual situação política.

“O PCP nunca embarcou na falsa dicotomia entre nacionalismos ou União Europeia”, para citar livremente. É evidente que aprofundou um pouco e a questão merece ainda mais aprofundamento. Porque o momento político, como aliás sempre se pode dizer, é decisivo. É decisivo para Portugal e para todos os povos que trabalham na Europa, é decisivo para a superação dos movimentos proto-fascistas e abertamente fascistas e é decisivo para a clarificação do campo estratégico em que nos movemos.

A propaganda da União Europeia, de integracionismo, centralização e federalismo, é a propagando dos grandes grupos económicos que falam pela voz dos governos dos estados-membros, dos comissários e da vasta maioria dos deputados ao parlamento europeu.

Neste momento, ganham particular dimensão teses que vêm sendo construídas há muito e que estão intimamente ligadas à natureza e objectivos do grande capital europeu e transnacional.

i. A falsa dicotomia entre União Europeia e nacionalismo e extrema-direita,


ii. A banalização e promoção dos movimentos fascistas históricos e o revisionismo histórico,


iii. A promoção do fascismo como elemento de modernidade,


iv. A preocupação em criar o recipiente popular reaccionário para o apoio à ascenção de forças fascistas,


v. O ataque sem limites às forças progressistas.

Para facilitar, separemos os pontos, apesar da sua interligação evidente.

i. A falsa dicotomia entre União Europeia e o nacionalismo de extrema-direita:

No contexto de aprofundamento da integração federalista e capitalista da União Europeia, o surgimento e agravamento de tensões entre as classes é inevitável. A divisão internacional do trabalho e o patamar diverso de graus de desenvolvimento económico entre os estados acrescenta à crescente tensão entre interesses classistas, a concorrência e disputa inter-capitalista. A integração gera inevitavelmente situações de domínio e submissão, partindo de um ponto desigual. As próprias regras de funcionamento da UE assentam numa arquitectura de domínio económico, financeiro, político e cultural. A soberania dos Estados foi paulatinamente aspirada para cúpulas à escala da UE, no sentido da satisfação dos objectivos das grandes potências. Sempre que as grandes potências, ao serviço das grandes transnacionais, entendem ser útil expropriar um estado da sua capacidade de decisão, captam mais um poder para as instâncias supranacionais. Essa perda de soberania galopante acompanha um sentimento de descontentamento com os resultados desta política. É a própria União Europeia que finge ter no nacionalismo de extrema-direita o seu inimigo. Ao mesmo tempo, é a UE que lhe pavimenta o caminho e que o promove como suposta alternativa. A aposta por todo o espaço europeu em forças proto-fascistas ou abertamente fascistas é uma opção dos grandes grupos económicos e visa assegurar que o descontentamento com os resultados da UE não se organiza em torno de objectivos revolucionários, mas sim conservadores, ou seja, o grande capital garante com o culto do fascismo, que uma franja descontente da população apoia uma segunda via do próprio capital. Por detrás dos nacionalismos exacerbados da extrema-direita estão os mais obscuros e poderosos interesses, exactamente os mesmos que estão por detrás da UE.

Acaso se poderá dizer que não são os grupos económicos que fomentam e estimulam o sugimento dos grupos neo-fascistas. A realidade desmente essa ideia. Vejamos como a comunicação social introduz esse assunto no dia-a-dia, como jornais inteiros funcionam como porta-vozes dessas forças, como se promovem figuras antes irrelevantes nas políticas nacionais a salvadores e como se branqueiam histórias e vidas de criminosos para se travestirem de políticos.

Acaso se poderá dizer que também não é a UE que promove o caldo de cultura reacionária. Mas a realidade desmente essa tese: a constante propaganda anti-comunista; o apoio ao revisionismo histórico por parte da UE; a ameaça russa; a constante espoliação de povos inteiros das suas riquezas e da sua soberania económica, política, produtiva; a imposição de normas desajustadas das realidades de cada povo; a concentração da propriedade produtiva, do solo, da água e outros recursos naturais; a salvação dos grandes bancos da União Europeia; a concentração de recursos nas grandes potências da UE; o desrespeito constante pelas opções de cada povo; a imposição de regras orçamentais que visam a privatização de serviços e a destruição do papel dos estados; a participação na guerra e na agressão imperialistas e a consequente hostilização de povos a quem a própria UE destruiu os seus países; são características permanentes da política da União Europeia. Essas características são objectivamente a origem de todos os descontentamentos. O descontentamento que desagua na extrema-direita, afinal de contas, é apenas a resposta que o grande capital prepara para as suas próprias desgraças. Não é um placebo, é uma dose redobrada do veneno.

ii. A banalização e promoção dos movimentos fascistas históricos e o revisionismo histórico

Por toda a comunicação social, nas escolas, nos discurso dos comentadores e “historiadores” do sistema, há uma banalização dos crimes do nazismo e do fascismo. O fascismo é vendido como um antídoto doloroso, mas funcional. A realidade desmente essa tese: a corrupção, a concentração da riqueza, a pobreza extrema, a fome e a guerra vêm de mãos-dadas com a repressão. A repressão e dureza que são vendidas como fontes de disciplina são apenas fontes de novas formas de exploração e de agrilhoamento de todos os que se não contentem com a desigualdade. O revisionismo histórico que exalta o papel das potências capitalistas ocidentais e apaga ou deturpa o contributo decisivo do sistema comunista mundial contra o fascismo e o nazismo, ao mesmo tempo que se aligeiram os crimes dos regimes fascistas europeus visam apenas afastar os povos e os trabalhadores da única alternativa real ao capitalismo sob todas as suas formas: a luta revolucionária pelo socialismo.

iii. A promoção do fascismo como elemento de modernidade

É enternecedor verificar a constante preocupação da comunicação social com a ausência de um movimento fascista em Portugal. Por todos os jornais, rádios e televisões, se verificam constantes apelos ao surgimento destas forças. Não apenas pela sua promoção, pela projecção de figuras oportunistas e demagógicas, pela sagração de novas vedetas com mais tempo de antena do que as forças políticas que realmente se posicionam no tabuleiro nacional, mas também pela consolidação da ideia de que o fascismo é moderno e de que Portugal está atrasado em relação aos países mais desenvolvidos da União Europeia.

Somos constantemente bombardeados com perguntas do género “porque não existem movimentos de extrema-direita em Portugal?”, como se isso fosse um requisito da actualidade, como se estivéssemos a falhar em alguma coisa. A comunicação social, detida pelos grupos económicos que dominam o país nas mais diversas esferas, faz tudo o que pode para criar novos focos de atenção, para criar literalmente movimentos que não têm expressão material.

iv. A preocupação em criar o recipiente popular reaccionário para o apoio à ascenção de forças fascistas

A comunicação social, acompanhando a degradação do nível de vida das populações e dos trabalhadores, concentra-se na divulgação do crime, deturpa a realidade no sentido de criar a sensação de corrupção estrutural no frágil sistema democrático e nos partidos por igual, hostiliza minorias, exalta a repressão, e dá espaço a um vasto conjunto de intelectuais de sarjeta a quem nenhum outro valor se reconhece a não ser o serviço que prestam à ideologia dominante e o ataque mentiroso ao socialismo e aos portadores do seu projecto.

A existência de canais de televisão e jornais integralmente dedicados à divulgação da pequena criminalidade é um elemento que denuncia bem os seus objectivos. Além de ser óptima fonte de receitas, o medo e a sensação de insegurança são óptimos combustíveis para o ódio fascista. A ameaça, real ou não, à segurança das populações é o primeiro passo para a justificação da repressão.

A promoção de simpatia por líderes como Trump e Bolsonaro e o ataque cerrado a todos os líderes que não se lhes ajoelham são mais um instrumento da comunicação social na luta pelo domínio ideológico.

Depois de várias tentativas falhadas para a criação de um movimento de extrema-direita em Portugal, mas sempre apoiadas pela comunicação social, a táctica altera-se para adoptar o modelo norte-americano e brasileiro: é preciso antes alterar a infra-estrutura para acomodar a super-estrutura. Isso significa que o grande capital decide apostar antes na criação de um desejo popular, de um certo acolhimento e simpatia por ideias reaccionárias, anti-comunistas, racista e xenófobo, idealista e individualista, capaz de ser captado por uma força ainda por criar. Perceberam que antes de nos apresentar a falsa solução, têm de falsificar o problema.

v. O ataque sem limites às forças progressistas

Quarenta e cinco anos de distância permitem a consolidação de mentiras sobre o 25 de Abril, tal como 102 anos de distância permitem consolidar mentiras sobre a grande revolução socialista e 30 anos permitem apagar muito da história da derrota da experiência socialista de leste. À medida que nos afastamos temporalmente de uma realidade, o branqueamento histórico torna-se mais eficaz.

Aproveitando essa distância e o domínio hegemónico da cultura, educação, economia e religião, o grande capital vira todas as suas armas contra o movimento operário, contra os sindicatos e partidos de classe. Onde os pôde destruir ou desfigurar por dentro, não hesitou.

Em Portugal, desde o início dos anos 40 que o PCP ganhou características que dificultaram essa tarefa aos seus inimigos. Características que mantém e que permitem aos comunistas portugueses seguir o caminho da luta e aos trabalhadores portugueses ter um partido de classe, uma vanguarda organizada sem outro objectivo senão o de os defender, mobilizar para essa defesa e de com eles construir uma democracia real, capaz de retirar a decisão das mãos dos administradores e capatazes do capitalismo europeu e de a devolver ao espaço em que trabalhamos: Portugal. O tal “soberanismo” de que acusam o PCP não é mais do que democracia: não pode haver democracia se não for o povo português a decidir.

A deturpação e a mentira, a par de um estratégico silenciamento, são armas dos monopólios e grandes grupos económicos contra o PCP. O ódio desses grupos contra o PCP perpassa para a esmagadora maioria de colunistas e comentadores e até para muitos jornalistas. Fragilizar a força que pode colocar em causa os objectivos dos grupos económicos é um passo fundamental para o sucesso da sua ambição de agravamento da exploração. Mas é muito mais do que isso: a debilitação ou o aumento da hostilidade anti-comunista são também o estrume para as ervas daninhas fascistas.

Temos esta cassete, não por sermos obcecados com ela, não por não sermos capazes de dizer outras coisas, mas porque a realidade é tremendamente brutal: só a luta é o caminho. Teses e debates e diversões e dúvidas existenciais pululam os esquerdismos como se buscassem uma pedra filosofal contra o avanço do fascismo. Pois não há. Mas há sangue e músculos, há homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, que unidos pela superação do capitalismo e pelo aprofundamento revolucionário da democracia, foram, são e serão, a única frente que conta contra o fascismo.

Fascistas, filhos da…

Da imprensa, filhos da imprensa. Que é como quem diz filhos do ventre podre do capitalismo que sempre os pare e os amamenta com o leite azedo do ódio em momentos de crise e falta de capacidade do próprio sistema económico. Incapaz de produzir as condições económicas para a satisfação das necessidades dos trabalhadores, confrontado com o crescente descrédito e descontentamento, por vezes falham os seus mecanismos de controlo ideológico de massas.

A educação viciada, a informação manipulada, o entretenimento degradante como cultura dominante, os presidentes palhaços, as falsas soluções reformistas, esbarram no limite imposto pelas condições materiais de vida dos trabalhadores. A história do capitalismo é a história do desenvolvimento dos meios de produção acompanhada pela concentração da riqueza. O empobrecimento relativo redunda, inevitavelmente, no empobrecimento absoluto. Portugal e muitos outros países ditos “democráticos”, “ocidentais” ou “desenvolvidos” são um exemplo claro disso. Apesar de períodos de empobrecimento apenas relativo (aumento do fosso entre os mais pobres – que melhoram muito ligeira e gradualmente as suas condições de vida – e os mais ricos – que melhoram rápida e drasticamente as suas obscenas fortunas), o regime de acumulação capitalista acaba por impor aos trabalhadores o empobrecimento absoluto (perda de condições materiais), enquanto acentua o enriquecimento de uma minúscula elite.

Essa elite, contudo, domina os meios de comunicação social, a produção de conteúdos, o próprio Estado e os seus instrumentos. Ao ver-se incapaz de manter o contentamento nas massas trabalhadoras e nas camadas mais empobrecidas da pequena-burguesia, essa elite aposta no plano B: o da violência como forma de manutenção da sua ordem.

A conversão da social-democracia em fascismo é um processo, gradual, mas também com saltos qualitativos. Não é possível, porque existe uma realidade concreta de luta e de unidade entre os trabalhadores, impor a ditadura fascista de um momento para o outro. Mas é possível criar o caldo de cultura que se torna permissivo ou até fértil para o surgimento e ascensão do fascismo.

A aposta na criminalização da política, no descrédito das instituições democráticas – com o apoio dos seus próprios protagonistas -;

a aposta no sentimento de insegurança das populações – com jornais e canais de televisão concentrados explicitamente na divulgação do crime e na sua exaltação -;

a hostilização constante do movimento sindical e da luta dos trabalhadores, aliada ao silenciamento de importantes lutas, particularmente as de massas;

a substituição dos segmentos de notícias pelos de opinião, com opinadores escolhidos a dedo e que cacarejam as mesmas estafadas teses e ideias, um após outro após outro;

a contaminação de notícias com a falsificação, ou mesmo a invenção de notícias com vista a criar um determinado sentido de opinião pública;

o alinhamento total com os ditadores de extrema-direita e a promoção das suas opções políticas, apesar de um cínico desalinhamento com os comportamentos das personagens – como bem vemos no Brasil, nos Estados Unidos da América e até com as Filipinas, em que a boçalidade das figuras é criticada apenas como camuflagem mediática, enquanto que simultaneamente todas as suas opções são defendidas, como se os problemas desses tiranos fosse a forma e não o conteúdo;

a alimentação sistemática de abordagens racistas, por um lado, ou desacreditadoras das polícias e dos tribunais, por outro, assim criando a sensação de revolta contra as minorias que surgem como protegidas perante as polícias, quando a verdade demonstra que nem os polícias são intrinsecamente racistas, nem as minorias são intrinsecamente criminosas, mas iludindo a acção do sistema capitalista que, de facto, cria uma estrutura de poder racista e classista (independentemente das orientações dos seus agentes de campo) e económica e culturalmente segregadora perante os pobres e as minorias.

a atenção desproporcionada às aspirações da pequena-burguesia que se vê como progressista, mas que defende o entorpecimento das massas, a escravização das mulheres pelo proxenetismo, e que desvia lutas profundamente justas para movimentos inócuos e desligados da questão fundamental, que é política e de classe;

a busca incansável pelo ódio à representatividade popular – já debilitada e enviesada – com a promoção do fim da democracia como fonte de corrupção;

entre muitos outros mecanismos.

E não nos referimos aqui à vara que grunhe nos jornais assumidamente alt-right ou assumidos agentes mediáticos do neo-liberalismo mas fascizante e que visam pouco mais do que manter contente aquela fatia de fiéis seguidores que se vem de cada vez que um lemos esteves qualquer vomita o seu anticomunismo mais simplório.

Referimo-nos aos grandes jornais, ditos independentes, aos grandes canais de televisão ditos sérios, incluindo os públicos que, sendo ninho para sabujos e serventuários dos grandes grupos económicos, se dedicam afoitamente a mentir, deturpar, manipular e ocultar.

São os comentários aparentemente inocentes de pivots de telejornal, é a linguagem cunhada de ideologia em todas as colunas de jornal, é a competição constante entre quem consegue criar o mais degradante concurso de televisão, são as notícias que pintam terroristas como rebeldes libertadores e os trabalhadores que lutam como potenciais terroristas, são as notícias que criam personalidades onde antes não havia sequer um tumbleweed, são as promoções de visões dogmáticas e idealistas dos vários aspectos da vida, que retiram da esfera da reflexão e da ciência a opinião das massas e a colocam na esfera da crença, irracional e religiosa.

A comunicação social portuguesa, com a grande ajuda dos sucessivos governos PS, PSD e CDS, está a fazer o frete ao grande capital: cria o caldo de cultura que está apto a receber as sementes do fascismo e o desprezo pela democracia – ao invés de entender a insuficiência do regime “democrático” e a necessidade de o aprofundar, uma parte da população compreensivelmente desiludida é conduzida para abominar a pouca democracia que tem, guiada pelos pseudo-ideólogos da comunicação social e da academia. O caldo de cultura está a consolidar-se e só encontra travão na luta organizada dos trabalhadores e dos revolucionários.

Dirão que também os movimentos chamados identitários fazem esse trabalho. Direi que, acaso como já sucede em alguns casos, sejam desligados da luta mais vasta pela superação do capitalismo e pela organização férrea do proletariado, tornam-se enfeites, divisões, e até reaccionários. As lutas pelos justos motivos sexuais, emancipatórios, raciais, ambientais, e outros, se não for afluente do rio caudaloso da luta operária, torna-se numa barragem, numa drenagem desse grande rio pelo simples facto de alimentarem a ilusão de que o capitalismo precisa de ajustes e não de destruição. No momento da ascensão de uma força fascista apoiada pelo grande capital, tais movimentos sucumbirão se não forem parte da luta pelo fim do capitalismo, engolidos pela repressão da ditadura violenta dos monopólios.

A comunicação social está a fazer esse trabalho de sapa dos grupos monopolistas: cria primeiro o grande reservatório de massas tolerantes ao fascismo e mais tarde fará surgir a força política que os representa. Os portugueses têm resistido e, mesmo neste contexto adverso, têm derrotado os ensaios da comunicação social e desprezado os venturas e outros palhacitos que se acham capazes de ser homens fortes da demagogia fascista quando mais não são que fracos oportunistas. Essa realidade, como todas, não é estática. Os primeiros a serem abatidos e perseguidos quando uma força fascista se posiciona no poder, são os comunistas. Por maioria de razão, esses são os primeiros e os últimos a fazer-lhe frente. Mas nunca sozinhos.

Há «camisas verdes» nas redacções

O que determinados órgãos de comunicação social estão a fazer ao PCP é miserável, mas ninguém pode achar que seja propriamente «incompreensível». E isso compreende-se da seguinte forma: todos sabem o que é que o PCP combate. O PCP é um partido histórico, fundador da democracia, com provas dadas, com quase um século de existência. O PCP levou com os estalos dessa Primeira República acossada e turbulenta. Essa República onde a direita liberal (essa dita tradicional, do «centro», institucional, moderada) foi a primeira a ser olímpica e tristemente seduzida, engolida, passivamente possuída – dando todo o consentimento – à aparição e efectivação do fascismo. Essa mesma «direita centrona» e «liberal», «modernaça», «futurista», que existe, mas que está hoje num outro patamar. Perante a passividade quase geral, está a ser não seduzida, mas ela própria a seduzir voluntariamente xenófobos, neo-nazis, fascistas, «populóides», fanáticos do capital, imperialistas.

Toda a gente sabe, pois, qual é a luta do PCP, quem faz a luta do PCP, quais são os rostos do PCP, onde e quando o PCP está para atingir os seus bem definidos e transparentes objectivos! E se o PCP luta com democratas, se luta com anti-fascistas, se os seus rostos não têm cara tapada, e se aponta a objectivos assumidos às claras, quem o ataca coloca-se diametralmente do lado oposto. E essa é a escolha que alguns meios de comunicação e seus jornalistas estão a fazer. Os que atacam o PCP são os que promovem anti-democratas destruindo a democracia, os que omitem e truncam intervenções do PCP mas entrevistam fascistas branqueando o fascismo, os que se movem ou são movidos pelos interesses instalados, os que apontam a finalidades obscuras, com processos obscuros e tudo sob a guarda do “Espírito Santo” (Ou será do Banif?).

Da mesma forma que todos são capazes de conhecer e reconhecer o que o PCP quer e o que o PCP faz, ainda que disso possam discordar, todos são capazes de perceber de igual forma o que é que combatem, na realidade, aqueles que dizem que «nunca combatem ninguém», que são sempre «muito neutros», que só querem «informar», mas que cerram dentes e punhos com mentiras, insinuações e falsidades que acabam por ser desmentidas ponto por ponto. Aqueles que acham que o perigoso mundo das “fake news” – fenómeno tão antigo quanto o da própria imprensa – se resume ou se confina à abstracção das redes sociais, estando os meios ditos “tradicionais” (televisão, rádio, jornais) isentos de controlo por parte de quem quer, por sua vez, também “controlar” a opinião pública e subjugar as massas, vive ingenuamente e já é, em si mesmo, vítima da armadilha dos grandes interesses.

Ainda que no seu processo normal a História não se repita, a verdade é que não falta quem a queira repetir. E tudo a coberto dos partidos institucionais, como palco ou como rampa. É vê-los aí nas parangonas: ontem «liberais», «centrões», «moderados» candidatos a Câmaras, hoje fundadores de partidos xenófobos, homofóbicos, racistas, nazis. E se essa direita partidária já não engole porque foi há muito engolida, os que hoje são, apesar de algumas heróicas excepções, seduzidos e engolidos pela nova emergência da extrema-direita já institucionalizada e sob patrocínio «liberal», são precisamente aqueles que um dia juraram «informar» e «esclarecer» com «neutralidade» e de forma «imparcial» a opinião pública. Depois do 25 de Abril de 1974, nunca como agora o fascismo esteve tão perto de controlar a comunicação social portuguesa. Nunca.

Manuel Goucha Salazar, para que saibas: o fascismo e o racismo não passarão

Não vi o programa, não vou ver. MM participou na execução de um negro – Alcindo Monteiro, (na foto, morto por causa da cor da sua pele, com 27 anos, em junho de 1995, espancado até à morte) – esteve detido por posse ilegal de armas, apela repetidamente ao ódio e ao racismo. De quando em vez, lá vem um órgão de comunicação social dar-lhe palco. Li uma vez uma entrevista sua e bastou-me. Bastou-me a suástica que enverga para imediatamente me reportar à célebre cena de American History X, em que um nazi (com uma estética bem parecida ao dito cujo) esmaga o crânio de um negro no lancil de um passeio. E vejam-na com atenção porque foi isto que se passou na TVI.

A cada momento há sempre alguém que tenta reabilitar a imagem deste nazi, que cria partidos atrás de partidos e de movimentos, organiza contramanifestações ilegais e se passeia como se não fosse um ser absolutamente desprezível que pratica actos que à luz da lei são ilegais. Como é ilegal dar cobertura à propagação de ideologias fascistas e nazis.

Querem ver como não estou a inventar?

Artigo 240.º – Discriminação e incitamento ao ódio e à violência

       1 – Quem:
              a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica, ou que a encorajem; ou
              b) …
              …
       2 – Quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade:

              a) Provocar atos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              c) Ameaçar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica; ou
              d) Incitar à violência ou ao ódio contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.»

Eu repito: “é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.”

Manuel Luis Goucha não foi de modas. Levou um nazi ao seu programa, visto por milhares de pessoas, lavou-lhe a alma e ainda fez isto:

Afirma que este nazi tem ideias polémicas – ideias que levaram à execução bárbara de Alcindo Monteiro – e faz uma sondagem sobre o regresso do fascismo que matou centenas de democratas, comunistas, que mandou para o exílio socialistas, comunistas e outros democratas, que torturou outras tantas centenas, que condenou o nosso país, durante décadas, à discriminação, pobreza e à escravização colonial.

Manuel Luis Goucha, também ele, cometeu um crime – publicamente, divulgou a apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade. Banalizou o racismo. Banalizou o fascismo. Relativizou a execução de um negro às mãos do nazi MM, banalizou as suas posições xenófobas e bárbaras.

A ERC já informou que estaria a investigar. E desengane-se quem acreditar que isto é um hino à liberdade de expressão. É criminoso. E não passará.

Mas o fascismo não faz mal ao béu-béu

O fascismo não entra pela sala adentro com certidão do notário e uma suástica na testa a apresentar-se «Nazi Fascismo, muito prazer».

O nazi-fascismo não acontece quando as SA se lembram de vir para a rua de bota cardada e corrente na mão. É preciso uma legião de pessoas que não se interessem por política e que, por isso, não queiram saber se o super-herói justiceiro é anti-semita ou neonazi. A ideologia é uma sensaboria para os beatos do homem-forte porque o que interessa é que ele faz e acontece: pula escorreito as alpondras da lei e da política e faz, pelas próprias mãos, sem precisar de burocracias nem direitos nem de outras dilações maçadoras, a justiça da multidão.

Quer-se, portanto, máxima publicidade de cada auto-de-fé. Para gáudio da turba dos devotos, não nazis, mas pessoas assustadoramente normais: eles são o nosso primo, a nossa colega de trabalho e aquele tio que não gosta de política mas que gosta de ver o cigano que bateu num cãozinho a levar na tromba…. ou pelo menos alguém disse que bateu: se bateu ou não bateu mesmo é só outra sensaboria.

O fascismo precisa de uma multidão que não questione, que venere o super-herói justiceiro e lhe entregue, inteira e incondicionalmente, a sua fé. O devoto do fascismo nunca se questionará por que razão o alvo é sempre o acampamento do cigano, a barraca do miserável ou o quintal do desempregado, mas nunca o aviário do capitalista nem a ganadaria do latifundiário.

O devoto não se importa que o IRA tenha dito ao Observador, sem ironia daquele nem manipulação deste, que sequestram animais e pessoas. Mesmo que isso seja verdade, o devoto quer é que o béu-béu seja salvo dos maus da fita. O devoto não está preocupado com a possibilidade de o IRA estar errado e as suas vítimas serem inocentes: acha bem que se faça a justiça pelas próprias mãos, desde que seja contra os outros. Para o devoto do fascismo, podia haver um IRA privado para bater em quem não faz pisca, outro IRA para ameaçar quem maltrata os idosos, outro IRA para a delação dos pais que batem nos filhos e, porque não, outro IRA que divulgue na internet as fotografias dos criminosos. Assim, em geral.

A milícia de vigilantes é simultaneamente advogado, procurador, polícia e juiz. O seu poder não decorre do povo nem da democracia, mas do troll anónimo e do Facebook. E assim se atiram foram três mil anos de progresso civilizacional e se regressa por causa do béu-béu ao olho por olho, dente por dente.

Não se trata de absolutizar o cumprimento da lei: situações e momentos históricos há em que as leis injustas devem ser ignoradas, mas apenas para que novas leis, mais justas, possam existir. Mas nem o PAN nem o seu braço armado, o IRA, se orientam por princípios racionais de justiça, mas, única e exclusivamente, pela falácia do permanente apelo à emoção,argumentum ad misericordiam, ad nauseam,já agora.

Porque o devoto do fascismo é, por natureza, um náufrago político, agarra-se à primeira tábua que lhe prometer a salvação. Podem-lhe depois vir dizer à vontade que o santo é nazi: o devoto negará tudo. Podem-lhe mostrar fotografias do santo vestido de nazi, a fazer a saudação nazi, com uma t-shirt nazi rodeado de nazis, que ele dirá que é montagem. Podem-lhe mostrar recibos adulterados, confissões de violência física, provas de relações com traficantes de droga… Tudo será em vão. O devoto acusará sempre qualquer conspiração de lobbies tauromáquicos, ocultos, cabalísticos ou comunistas. O fenómeno é religioso.

O que vamos fazer hoje é um sequestro de um animal. Se chegarmos lá e o dono tiver dado sumiço ao animal, poderemos fazer um sequestro do dono até ele nos contar onde está o animal. Não somos a PSP, não somos o SEPNA [Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente], não somos a GNR nem a Câmara Municipal de Lisboa — as nossas ações justificam os fins que pretendemos: o bem-estar animal.

Declarações do IRA ao Observador (1 de Novembro de 2017)

E mesmo que, afinal de contas, o justiceiro seja mesmo fascista o que interessa ao devoto é só isto: o fascismo faz mal ao béu-béu?

A causa do bem-estar animal, a verdadeira, não precisa tanto de acções espalhafatosas de acção-directa e golpes de luzes mediáticos. Foi, por exemplo, por iniciativa do PCP, arguido contumaz de indiferença para com estas preocupações, que acabaram os abates de animais em canis. Mas pôr fim ao abate de dezenas de milhares de animais é, para os beatos urbanitas que adoram o IRA como adoram um bom bife, outra sensaboria.

Há alguns anos, escrevi aqui sobre a gestação do PAN nos círculos mais obscurantistas da extrema-direita portuguesa. Passados alguns anos, confirma-se que não foi apenas o seu fundador que perfilhou ideais nazis. O PAN convive bem com o fascismo, com o racismo e com a criminalidade dos neonazis porque o fascismo convive bem com o PAN. Nestes tempos de desumanidade, emoções rápidas, desinformação generalizada e confusão ideológica, é mais fácil simpatizar com um cão do que com um Homem, porque sentir pena é mais fácil do que sentir solidariedade e a emoção é sempre mais rápida do que a razão.

A grande escolha não está no voto

Uma hipotética derrota de Bolsonaro não acabará com o fascismo, nem com os fascistas, no Brasil ou noutro país qualquer. Pelo contrário, a amplitude e dinâmica dos acontecimentos dos últimos meses permitiu à extrema-direita um crescimento de adesão e militância como provavelmente nunca tinha acontecido desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

As questões às quais importa dar resposta, neste momento, são: Quem vai, depois do dia de hoje, seja qual for o resultado, prosseguir com a luta pela democracia? Uma massa difusa e desorganizada contra um oponente perfeitamente organizado e sustentado por oligarquias financeiras? E mesmo que se trate de uma força organizada e combativa, será em torno de quê ou de quem? De um ou dois partidos de nome e inspiração marxista mas que, nos últimos anos, se têm mostrado mais próximos da social-democracia (responsável pelo fortalecimento da extrema-direita) do que do socialismo? Ou estaremos perante uma oportunidade histórica para um novo e revolucionário começo na História do Brasil, que além de significar a derrota total do fascismo, signifique a vitória da democracia não exclusivamente política, mas sobretudo social, educativa e cultural? Poderá e quererá o povo brasileiro fazer essa luta pelo progresso alargado e pela total emancipação das suas classes mais desfavorecidas?

Por tudo isto, porque a escolha tem de ser mais, muito mais do que uma opção eleitoral, é necessário entender que urge estar com a democracia todos os dias e não apenas hoje.

Uma antiga aliança

O que se passa no Brasil com Bolsonaro, nos EUA com Trump, na Hungria e Itália com governos e governantes fascistas, é tudo reflexo contemporâneo de uma aliança já antiga. Nada de novo. Fascismo e capital, capital e fascismo. Nenhum desses actores subiu ao estrelato sem patrocínio, sem alavancas financeiras colossais. Nenhum deles ganhou prestígio por via de brilhantes curriculums académicos, muito pelo contrário. Ora, acontece que fascismo, capitalismo, imperialismo não se combatem com contra-correntes do género “EleNão”. Com essas e outras iniciativas, pode o fascismo bem.

O que é necessário é organizar, resistir, politizar, tomar partido e avançar. É necessário derrubar, sim, mas construindo. E se o “EleNão” dá uma possível resposta imediata ao derrubar, já o mesmo não ocorre em relação ao que virá depois. Nesse caso, depois da queda, estará um gigantesco ponto de interrogação, que pode, no limite, ser a porta para uma ameaça ainda maior, e a urgência dos tempos ensina-nos que não há grande tempo para perguntas. O fascismo sabe recompor-se e fá-lo rápido. A prova é que, depois do fim de Hitler, Franco, Salazar ou Mussolini, ele está aí. Em todo o lado.