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Terá o idealismo raízes no materialismo? (ou "O pateta que insiste")

Confesso que tenho muita dificuldade em discernir qualquer linha de pensamento dos arrazoados simplistas com que José Rodrigues dos Santos insiste em fundamentar uma atoarda que lhe terá saído mal. Das duas uma, ou JRS é ignorante ao ponto de insistir porque julga que tem razão, ou JRS está profundamente comprometido com a linhagem teórica do revisionismo histórico em curso que tenta a todo custo aproximar o marxismo do fascismo. Ou ambas, que é uma coisa que JRS ainda não alcançou: a dialéctica.
Tendo em conta o caudal de argumentos desconexos, que traz consigo, como uma torrente, a lama de uma arrogância típica dos ignorantes, é muito difícil estruturar uma resposta que possa abarcar todos os aspectos daquilo a que JRS – não sei se como jornalista que cultiva a imparcialidade, se como escritor de ficção, se como investigador e historiador – se tenta referir sem apresentar uma única fonte que sustente as suas “provas”. Não deixa de ser curioso que um jornalista e escritor aponte como fonte para uma tese tão estapafúrdia como “o fascismo tem origem no marxismo” as suas próprias reflexões num livro de ficção. Sobre isso, para quem faz jornalismo e investigação, julgo que é tão básico como perceber que não se pode usar como fonte o veículo, por ser uma informação cuja confirmação se torna circular. Faz-me lembrar Paulo de Morais quando, durante os trabalhos da comissão de inquérito do BES, afirmava que a Comissão de Inquérito não sabia quem eram os beneficiários dos créditos do BES Angola porque não queria, sendo que ele já sabia. Instado pela Comissão a fazer chegar os documentos e provas que pudessem comprová-lo, Paulo de Morais envia os seus próprios artigos de opinião publicados na imprensa portuguesa. Ora, interagir com alguém que não compreende o ridículo dessa operação, torna-se demasiado penoso.

Mas, no caso, o marxismo merece o exercício de paciência e o esforço para que não restem dúvidas sobre a falsidade da tese de JRS.
Vejamos o que diz JRS, portanto:
1. Que alguns políticos se terão sentido incomodados com a sua afirmação de que “o fascismo tem origem no marxismo”e que recorreram, sem argumentos, ao insulto baixo.

Sobre isto, não sei a que políticos se refere e, à parte as reflexões sobre o termo “político” usado por JRS, eu sinto inserir-me nos “políticos” que se sentiram incomodados, porque me provoca incómodo, não que alguém possa dizer tamanhos disparates, mas que esse alguém seja um jornalista com carteira e um escritor muito lido, cuja credibilidade foi construída como um produto e é, por isso, uma ilusão de massas. Mas não deixa de ser uma “fonte credível” para um vasto conjunto de pessoas, pelo menos para todas quantas reputam como boa a literatura produzida pelo autor com uma chancela – por mais falsa que seja – de idoneidade e seriedade, até sob uma capa de uma certa cientificidade. Tendo em conta que não vi mais “políticos” a reagir ao jornalista, suponho que pelo menos eu seja visado neste seu desabafo, para o que, importa dizer, dispõe de espaço num jornal nacional. Em primeiro lugar, eu dei-me ao trabalho de traduzir “A doutrina do Fascismo” de Mussolini, para poder usar como fonte e base para o que dizia. E sim, é verdade que deduzi que JRS fosse um ignorante e escrevi-o. Daí a dizer que não utilizei argumentos quando publiquei as próprias frases de Mussolini que compõem um capítulo da obra “A doutrina do Fascismo” que se chama “A rejeição do marxismo”, julgo que tem de fazer um caminho só mais curto do que aquele que JRS tem de percorrer até poder discutir marxismo e fascismo, não como escritor de ficção, mas como político, filósofo ou mesmo historiador. Sim, porque JRS faz chacota e amesquinha a ciência política, arvorando-se em investigador, em pensador político e filósofo.
2. Que o marxismo se via como uma ciência “tão científico, na sua opinião, como a física de Newton”. JRS não compreende que o materialismo se opõe ao idealismo. Aqui começa o deslize de compreensão de JRS que acaba por se transformar na grandiosa conclusão própria de que “muito pouca gente sabe, mas é verdade”, “o facto de que o fascismo é um movimento que tem origem marxista”. Na verdade, Marx e Engels usavam a abordagem científica, materialista da História da Humanidade. O que JRS desconhece – mas bastava ter lido uma brochurazita sobre marxismo – é que o marxismo usa o método científico para estudar a realidade, mas em caso algum espera da realidade um comportamento linear. Aliás, o marxismo, com a utilização do método científico na construção dos seus fundamentos compreende muito bem quais são as forças que devem actuar para motivar as transformações sociais. O que JRS afirma “A ideia era simples: ao feudalismo sucede-se o capitalismo, cujas contradições levarão inevitavelmente os proletários à revolução que conduzirá ao comunismo. Nesta visão a história é teleológica e determinista. Não é preciso ninguém fazer nada, pois a revolução do proletariado é inevitável.” manifesta uma tremenda falta de compreensão sobre o marxismo para quem acha que pode sequer debatê-lo. Pelo contrário, quem resume o marxismo desta forma, não apenas demonstra ignorância, mas também que não cumpre os mínimos para um debate sério sobre o tema em que, por mais cacetada que leve, insiste.

Em nenhum momento, em forma alguma, Marx ou Engels terão dito ou escrito qualquer coisa semelhante à que JRS usa para definir o marxismo. Isso, por si só, é revelador.
3. JRS tenta dar alguma cientificidade aos seus delírios, chamando ao debate um monte de gente que ninguém conhece e assim tentando construir uma legitimidade e credibilidade pelo impacto. “Epá, o tipo deve saber muito disto.” Vamos lá então: em primeiro lugar, JRS confunde movimento com ideologia, acção política com doutrina. E fá-lo desajeitadamente e provavelmente sem se aperceber do erro que comete. É que, se por um lado é verdade e correcto dizer-se que o movimento fascista tem origem na instrumentalização dos movimentos operários, já é absurdo dizer que o fascismo tem origem marxista. E porquê? É verdade que perante a ascensão do proletariado enquanto classe revolucionária, as burguesias dominantes tentam condicionar o crescimento da luta e dar-lhe um carácter conservador e reaccionário. É, portanto, verdade, que o movimento operário e reivindicativo esteve na origem do crescimento do fascismo, porque o fascismo cresce precisamente pela manipulação desse movimento. Quanto mais divisões, mais alheamento, mais religiosidade, o fascismo pôde introduzir no movimento operário, mais o conseguiu tornar reaccionário. Ora, começa a perceber-se um primeiro patamar do problema de JRS: começa por confundir movimento operário com marxismo. Adiante, no seu artigo, vai mesmo confundir o conceito de socialismo dos anos 20 com marxismo.
4. Depois da gloriosa tirada que resume “Das Kapital” em três frases, JRS tenta dizer-nos que há duas grandes correntes no pensamento marxista que importam para a ligação entre o fascismo e o marxismo: a visão de Sorel e a visão de Bauer. Aproveita para dizer que o bolchevismo nasce com a perspectiva soreliana, assim desvalorizando Lenine. JRS diz que é Sorel que traça o destino do partido bolchevique ao definir, no seu livro “Reflexões sobre a violência” a vanguarda e a violência como fórmulas revolucionárias. Infelizmente para JRS, já Marx, uns bons 60 anos antes falava da eventual necessidade de violência e Lenine, 6 anos antes de Sorel escrever o livro que JRS diz ter sido a base da acção bolchevique, escreve o conhecido “Que fazer?”, obra na qual Lenine define com relativa precisão a necessidade de organizar política e socialmente o proletariado. Curiosamente, o anarquista Sorel é citado como fonte inspiradora, não por Lenin, mas por Mussolini. Começa bem, JRS.
5. Adiante, JRS diz: “Recorde-se que Marx e Engels consideravam que o capitalismo era uma fase necessária e imprescindível da história humana e que sem capitalismo nunca haveria comunismo. Os bolcheviques renegaram esta parte do marxismo quando preconizaram que na Rússia era possível passar diretamente de uma sociedade feudal para o comunismo, mas neste ponto os fascistas mantiveram-se marxistas ortodoxos ao aceitar que o capitalismo teria mesmo de ser temporariamente cultivado em Itália.” e consegue introduzir dois enganos. O primeiro é o de que os bolcheviques renegaram esta parte do marxismo. Com isto, JRS demonstra ignorar o escopo da NEP (nova política económica) e a persistência de várias práticas inerentes ao capitalismo na economia russa e soviética, assim decidida precisamente por terem os bolcheviques compreendido que a organização capitalista da economia potenciava, transitoriamente e para aquele contexto, melhores condições para o desenvolvimento das forças produtivas e para a superação do feudalismo e do atraso tecnológico da Russia. O segundo é o de dizer que defender o capitalismo é ser “marxista ortodoxo”. Pelo simples facto de que a consideração marxista sobre o papel do capitalismo era uma constatação de factos e não uma defesa do capitalismo. O marxismo não defende que o capitalismo deve preceder o socialismo por motivos morais, o marxismo identifica esse nexo como factual no fluxo da história. Mas numa perspectiva “marxista ortodoxa”, o que seria de esperar seria a defesa do capitalismo como fase transitória para o socialismo. Ora, é precisamente isso que o fascismo nega. O fascismo não afirma como objectivo, em fase alguma da sua história, a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Pelo contrário, o fascismo advoga a iniciativa privada e abomina o colectivismo. Ao longo de todos os discursos de Mussolini está presente essa visão, bem como na obra fundadora do fascismo enquanto doutrina “A doutrina do Fascismo”.
6. Sobre o nome do NSDAP, Partido Nacional-Socialista da Alemanha que JRS usa como prova máxima da sua tese abjecta, importa dizer duas coisas: em primeiro lugar, o socialismo não é o marxismo, o conceito de socialismo e a sua utilização naquela altura estava longe de ser meramente marxista. O socialismo é um modelo de organização da economia que não é fundado por Marx, nem por Engels. Aliás, Marx e Engels começam os estudo do capitalismo precisamente para compreender como se pode construir o socialismo, já conceptualizado muitos anos antes pelos socialistas utópicos. Em segundo lugar, a utilização do termo “socialista” no nome do NSDAP é o aproveitamento oportunista do momento histórico, económico e social que a Alemanha vivia naquela altura. É preciso relembrar JRS de que as eleições quase tinham sido vencidas pelo Partido Comunista Alemão e que o contexto era de ascensão do proletariado e que, por isso mesmo, Hitler não teria as mesmas hipóteses caso não tivesse optado por parasitar esse sentimento?

Infelizmente para os povos de todo o mundo, nem Hitler nem Mussolini tinham qualquer simpatia pelo socialismo sequer, muito menos pelo marxismo.
Mas JRS comete um erro fundamental que, no seu desenvolvimento, o faz confundir “movimento” com “doutrina”; “socialismo” com “marxismo”; “Ciência” com “método científico”; “dialéctica” com “determinismo”. É que JRS está no campo filosófico do idealismo: dos que preferem ter como facto tudo o que não é possível negar, a crença, a ideia. E os marxistas estão do lado oposto: no campo filosófico do materialismo: dos que preferem ter como facto aquilo que podem confirmar.
Curiosamente, JRS está no mesmo campo filosófico que Mussolini, o do idealismo.
O que é grave, não é que JRS tenha ideias próprias. Ainda bem que as tem. O que é grave é que amesquinhe quem dedica a vida aos estudos sérios, com cientificidade, com método. O que é grave é que não se aperceba do respeito que deve a quem o lê e o que é grave é que não perceba que a ligação entre marxismo e fascismo que ele estabelece não é matéria de facto, é matéria de opinião. E o que é grave é que uma pessoa que entra em nossa casa como imparcial jornalista seja, na verdade, um cruzado político que, como bom cruzado, porta o estandarte da religião. No caso, a anti-comunista.

Não passarão.

O fascismo é um recurso do capitalismo, não é um elemento exterior ao sistema que dele se apodera quando menos se espera. É por isso com apreensão mas sem surpresa que muitos de nós vêem o ressurgimento de forças partidárias de extrema-direita explícita em vários países, dentro e fora da Europa. Perante as circunstâncias do contexto, diferentes na Europa face a vários países da América Latina onde o fascismo ganha garras, o capitalismo não hesita em libertar o seu velho cão raivoso. Foi assim nos anos 30 do século passado.

O crescimento eleitoral de forças políticas-partidárias da extrema-direita assumida, com destaque para a Frente Nacional em França e agora a AfD alemã, não espantará aqueles que desde há muito avisam para os riscos de uma política desastrosa por parte de instituições nacionais e supranacionais, que abre portas à afirmação de dirigentes “pós-políticos” (geralmente eleitos com um discurso anti-partidos e céptico face a elementos determinantes de qualquer sistema democrático), que se afirmam acima dos interesses que na verdade lhes dão corpo, e que deles beneficiarão caso ditaduras terroristas do grande capital cheguem novamente (ou pela primeira vez) ao poder nos países onde ganham força.

Discursos populistas, racistas, misóginos e excepcionalistas, como aqueles protagonizados por boa parte dos candidatos republicanos na corrida à Casa Branca, ganham noutras paragens formas diferentes, entroncando em estratégias golpistas, como aquelas que são evidentes no Brasil e na Venezuela. Trump é aprendiz de reaccionário quando comparado com Capriles. E o lumpemproletariado que em parte enche os pavilhões – e os bolsos – das campanhas da extrema-direita norte-americana está a milhas da disponibilidade golpista daqueles que desfilam pelas ruas de Brasília e do Rio de Janeiro com o braço estendido “à romana”, denunciando vinculação ideológica de má memória.

O fascismo é a ditadura e a guerra e o capitalismo é a maternidade do monstro fascista que lhe pede todos os dias que o liberte, para melhor o servir. Na última vez que isso aconteceu, em larga escala, foram precisos muitos anos, muitas lutas, milhões de mortos e a destruição inteira de gerações para decepar a cabeça à besta. É também por isso que importa denunciar desde já as campanhas golpistas em curso em países como o Brasil e a Venezuela, custe o que custar.

Contra o fascismo não pode haver descanso, não podem ser concedidas tréguas.

Não passarão.

Requiem por Cavaco

O anúncio da morte política de Aníbal Cavaco Silva não é nitidamente exagerado. Cavaco teve hoje, dia 24 de Novembro de 2015, a poucos meses da sua saída formal e com a indigitação de António Costa como primeiro-ministro, o seu último acto de relevo enquanto agente político neste país. E há que acentuar isto mesmo, a sua faceta enquanto político, de que ele tanto hipocritamente se quis afastar nos últimos anos e da qual nunca obviamente poderia fugir. Foram vinte anos de Cavaco, e vinte anos de Cavaco é muito tempo. Dez anos como primeiro-ministro, dez anos como presidente da República e, todavia, nenhum como estadista, nenhum como digno e imparcial representante do povo português. Foi, isso sim, um fiel serventuário do capital e um intrépido defensor do primado do poder económico e financeiro sobre a democracia e sobre os valores nascidos de Abril. Cavaco foi a lança de todo um histórico frentismo empresarial e institucional – que começa no PSD e acaba nos banqueiros e empresários monopolistas – que sempre logrou ajustar contas com um passado que, “tenebrosamente”, ameaçava não dar tréguas ao sistema de exploração, repressão e indignidade que sempre deu tanto a uma dúzia de privilegiados e tão pouco à esmagadora maioria do povo.

Dos grandes desperdícios de fundos à criminosa liquidação produtiva nacional, tudo constituiu um longo e doloroso desastre económico e social do país

Cavaco personificou um certo regresso ao passado e uma certa esperança de que tudo voltasse a ser como o «bom velho antigamente». Foi a inspiração – e daí a explicação para muitos dos votos que foi tendo – de todos quantos desejavam o renascimento, ou o regresso, da figura austera de mandante supremo e sagrado de um Portugal «à deriva». O soturno “professor de Coimbra”, o “economista” de ar grave e disciplinado – e disciplinador, se pudesse – que veio espevitar em muito boas almas, finalmente, esse fascismo contido, guardado a sete chaves, desde aquela malvada madrugada de Abril de 1974.

Foram vinte anos de Cavaco, e vinte anos de Cavaco é muito tempo. Dos grandes desperdícios de fundos à criminosa liquidação produtiva nacional, tudo constituiu um longo e doloroso desastre económico e social do país, que faz de Portugal hoje um pobre cão-de-fila do capitalismo e do imperialismo, domesticado, obediente, subjugado, ainda vergado a blocos militaristas e a desastrosos ditames da banca europeia e mundial.

Ainda que consciente de que por morrer esta andorinha não se acaba a primavera do capital, nem sequer aquilo que Cavaco personificou ou personifica, longe disso, permito-me hoje, ainda assim, partilhar um sentimento que é de profunda satisfação. Esperava-o e desejava-o há muito. A ira que, assumo, sempre senti face a Cavaco Silva em particular, aprofundada e radicalizada – se quiserem – com o tratamento mesquinho e vingativo em tempos dado a homens como Salgueiro Maia ou José Saramago, aos próprios e à sua memória post-mortem, foi crescendo de dia para dia, acompanhando toda a escalada de cinismo que a esse propósito Cavaco não deixou de pôr em prática sobretudo enquanto presidente da república.

O desaparecimento político de Cavaco, a sua retirada de todo e qualquer poder institucional, é para mim sinónimo de sincera satisfação. Não para festejos, até porque o rasto de destruição é demasiado largo para tal. Mas hoje é de assinalar e de ter presente que pelo menos “este” já não faz mais mossa. Adeus! Cavaquismo, nunca mais!

Alerta antifascista… e na primeira linha o partido comunista!

Os patrões condenam, os jornais escondem, os fascistas atacam. Um grupo de neonazis atacou, esta tarde, pelo menos três pessoas, entre as quais uma que saía do comício da CDU que encheu, esta tarde, o  Coliseu dos Recreios. Quantas páginas dedicará à versão das vítimas a próxima edição do Expresso?

Foi assim durante toda a tarde: a pretexto de uma manifestação contra a «islamização», capangas fascistas percorreram impunemente as ruas de Lisboa, provocando negros, comunistas e homossexuais.

Mais, na verdade, foi sempre assim: os cabeças-rapadas só agridem e fogem porque os donos da comunicação social estão mais interessados em ver as traseiras dos autocarros a caminho de um jogo que ouvir as vozes que lutam por um país mais justo. Da mesma forma que os fascistas sempre foram a vanguarda do capital, os comunistas continuarão a ser a vanguarda dos trabalhadores.

Nenhuma rua para o fascismo, nenhum voto neutro.

Fascismo americano: as raízes de uma nação sob deus*

Ao avesso do tradicional ramerrão eleitoral da direita portuguesa que, de quatro em quatro anos, prega um discurso tacticamente moderado nos mais empedernidos candidatos conservadores, a antecipação do escrutínio presidencial estado-unidense dá azo a uma invulgar competição de reaccionarismo entre os dirigentes do Partido Republicano.

Ao passo que para o PS, PSD ou mesmo CDS-PP, um acesso de frontalidade equivaleria a cometer harakiri político, nos EUA, os homens que se perfilam para a nomeação republicana assumem as mais virulentas declarações de guerra ao progresso como um trunfo mediático.


Arca de Noé da Direita Americana




O senador do Texas, Ted Cruz, inaugurou a campanha às primárias republicanas com um desafio aos outros candidatos: «Todos vão dizer que “Eu sou o homem mais conservador que alguma vez viveu”, mas falar é fácil. Digam-me antes o que defenderam e pelo que lutaram», rematou.


Estava lançado o mote para uma bizarra corrida de pureza ideológica em que o pódio pertence aos titulares das melhores credenciais religiosas, aos currículos estaduais que abonarem a favor da destruição das funções sociais do Estado e aos paladinos do racismo, homofobia e da xenofobia: uma verdadeira arca de Noé.

Entre os 15 principais candidatos à nomeação, cinco, John Kasich, Ben Carson, Rick Perry, Rick Santorum e Mike Huckabee, garantem ter sido escolhidos por deus; Já Jeb Bush (irmão de George W.) prometeu «pôr um ponto final» no Medicare, o único programa de saúde pública que disponibiliza serviços mínimos à população mais carenciada; por seu turno, Ted Cruz não tem pejo em denunciar uma «guerra contra a masculinidade» e promete proibir o aborto, mesmo nos caso de violação ou perigo de vida para as mulheres; Não ficando atrás, Scott Walker, que promete encerrar o Departamento de Educação (equivalente ao ministério), perguntava-se, em jeito de campanha: «Se fui capaz de acabar com cem mil sindicalistas no Wisconsin, o que é que acham que sou capaz de fazer a nível internacional?». 

Malgrado o sestro, asinino e boçal, de que se fazem acompanhar estas declarações, o reaccionarismo republicano não é, de todo, uma reacção psicossomática, mas sim o bilhete de entrada na liça política. Prova disto é Donald Trump, a quem as sondagens elevaram ao primeiro lugar entre os republicanos depois de ter dito que os «mexicanos são violadores e criminosos», para prometer expulsar todos os imigrantes ilegais.

O fantasma de João Calvino

Na verdade, o reaccionarismo norte-americano insere-se numa longa tradição de «política de pretexto», em que o capitalismo cria um quadro cultural e psicológico favorável ao seu desenvolvimento, uma ideologia nacionalista que reclama obediência e ameaça com uma gradação moral maniqueísta e implacável. Neste processo, que não é contínuo, os antagonismos económicos são acompanhados, na vida social, pela desconexão entre o futuro e o progresso e entre a realidade e a moralidade.

Os ardentes fundamentalistas religiosos que, ao longo do século XVII, colonizaram o que viria a ser os Estados Unidos produziram, para consumo interno, uma narrativa moral que pretendia unificar a sociedade e justificar o status quo. De acordo com o calvinismo, a mais influente das seitas protestantes entre os «peregrinos» originais, o destino dos homens está, à partida, traçado por deus. Deste modo os homens e as mulheres já estão condenados, à nascença, ao paraíso ou ao inferno, pelo que nenhuma acção pode alterar o rumo pré-destinado, nem mesmo a exploração, o genocídio ou a crueldade: começa a nascer o pretexto para «uma nação escolhida por deus». Esta relação dialéctica entre a moralidade e a economia foi o alvo certeiro da obra de Max Webber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, mas, ao contrário do que é insinuado pelo autor, não só não foi a ética que pariu o capitalismo, como a forragem espiritual do capitalismo foi, historicamente, um pretexto.

O mercado de Wall Street

A infra-estrutura económica do capitalismo norte-americano, assente sob o trabalho forçado de quatro milhões de escravos africanos, gerou, ao longo do séc. XIX, contradições que acabariam por conduzir à guerra civil de 1861-1865. Longe de ser uma batalha ética pela libertação dos escravos, nas origens do conflito estiveram discrepâncias económicas entre a indústria do Norte e o modo de produção esclavagista no Sul.

Sangrenta para os trabalhadores, a guerra civil criou importantes fracturas entre as classes dominantes que se mantêm até aos nossos dias. Não é curiosidade histórica que Wall Sreet, centro nevrálgico da banca, tenha começado por ser um mercado de escravos. Com efeito, durante a guerra, a alta finança do Norte nunca deixou de apoiar a Confederação, mas soube lucrar com o seu ocaso. JP Morgan Chase ou Lehman Brother foram, de resto, os principais investidores das plantações de escravos mas adaptaram-se com ligeireza à nova «liberdade». Não pôr todos os ovos no mesmo cesto é, como ser verificará mais tarde, o adágio eterno da facção mais radical do capital estado-unidense.

A inspiração de Hitler
Para suturar as profundas feridas da guerra civil e controlar a maré de progressos sociais e lutas de classe que floresceram espontaneamente durante a era da Reconstrução, a aristocracia do Sul e os capitalistas do Norte pactuaram um conceito de nação dogmático e moralista. A partir da última década do séc. XIX, «ser americano» começa a implicar a adesão a uma ideologia nacionalista, a subscrição de uma moral cristã e capitalista, o reconhecimento da natureza divina da nação, bem como a obediência cega às leis e aos símbolos nacionais. A nova narrativa moral sobre o nacionalismo foi o pretexto ideal para uma escalada de perseguição dos sindicatos que se formavam sob a influência do socialismo e que desembocou, em 1886, na revolta de Haymarket, cuja violenta repressão daria mais tarde origem ao 1.º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador.
Surge assim, em 1892, a obrigação de repetir diariamente o juramento de bandeira em todas as escolas públicas. Originalmente, as crianças faziam a saudação romana enquanto repetiam: «Juro obediência à bandeira dos EUA e à república que ela representa, uma nação, sob deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos». Depois, gritavam em uníssono: «Um país! Uma Língua! Uma Bandeira!».

É também durante esta época que, nos EUA, nascem os primeiros programas de eugenia do mundo, destinados a exterminar os indivíduos «geneticamente inferiores». Em resposta às ideias marxistas que chegavam da Europa, magnatas como Andrew Carnegie e John Rockefeller investiram milhões na promoção do pretexto de que a pobreza e o crime eram o corolário de «genes inferiores». Em 1907 os Estados de Washington, Connecticut, Califórnia, Virgínia, Nevada, Iowa, Nova Jersey, Nova Iorque e Indiana operavam programas para a esterilização forçada de pobres, nativos americanos, doentes mentais e presidiários. Foi nos EUA que a Alemanha nazi bebeu a inspiração para o seu próprio programa eugenia e, desde o primeiro Congresso Internacional de Eugenia, em 1911, cientistas alemães tornaram-se alunos assíduos dos centros americanos de esterilização em massa.

A primeira ameaça vermelha

A Revolução Bolchevique de 1917, porventura o acontecimento mais relevante da História humana, é interpretado pela burguesia norte-americana como uma ameaça indirecta ao ethos nacionalista do pós-guerra civil e ao próprio poderio da sua classe. A Revolução de Outubro mostrara que os trabalhadores podiam viver melhor gerindo, eles mesmos, a sociedade, sem necessidade de exploradores, racismo, deuses ou discriminação sexual.

Após uma tentativa frustrada de sufocar, via invasão militar, a jovem revolução, o capital estado-unidense lançou uma campanha doméstica de histeria anti-comunista para evitar que a fagulha de Petrogrado incendiasse as planícies americanas. Entre 1917 e 1920, milhares de sindicalistas, comunistas e anarquistas da International Workers of the World foram assassinados, deportados ou, simplesmente, desapareceram.

Também para os afro-americanos, a Revolução de Outubro foi uma janela de esperança. A escravatura fora substituída por um novo sistema de opressão racista, mais adequado às novas condições económicas e através do encarceramento massivo, da discriminação salarial e da segregação, os antigos escravos continuavam a ser brutalmente oprimidos. No entanto, como fez notar o presidente Woodrow Wilson, «negros americanos a regressar do estrangeiro seria o melhor meio para conduzir o bolchevismo para a América».

Para responder às organizações de classe operária que os negros formavam por todo o país, o capital respondeu com três instrumentos. Por um lado, foram levado a cabo dezenas de massacres que culminaram com o Verão Vermelho de 1919, que registou matanças de negros em 34 cidades. Por outro, acelerou-se o processo de gestação de um nacionalismo cada vez mais intolerante, moralista, dogmático e agressivo, que se impôs na educação pública, nos meios de comunicação social e através da propaganda. Finalmente, foi criada uma poderosa organização fascista de massas, o Ku Klux Klan.

O KKK, que em 1924 atingiu quatro milhões e meio de membros, representava a materialização do pretexto nacionalista. Sem surpresas, só uma organização fascista, altamente violenta e ao serviço das classes dominantes do Sul, poderia garantir a obediência a uma moralidade cada vez menos ética.

A violência exercida pelo KKK e quejandos sobre negros, sindicalistas e comunistas permitiu ao patronato manter baixos níveis salariais e reduzir para metade, em apenas cinco anos, ao longo dos anos 20, a percentagem de trabalhadores sindicalizados nos EUA.

A cultura do fascismo

Nos anos 30, apesar de um significativo passo atrás na economia com o New Deal de Franklin Roosevelt, o reaccionarismo norte-americano continua a ganhar expressão com o chamado «americanismo», a primeira tentativa de organizar a ideologia moral do nacionalismo americano.

O americanismo, promovido por homens como Henry Ford, defendia a preservação da cultura e valores americanos de influências estrangeiras e procurava equiparar o comunismo com o judaísmo. Ford, que se dedicava à publicação de literatura anti-semita desde os anos 20, é um exemplo claro da aproximação cultural da ideologia nacional americana ao fascismo.

Nos anos 30, receoso de sindicatos nas suas fábricas, Ford começou a conceder aos trabalhadores a possibilidade de trabalhar cinco dias por semana e oito horas por dia, desde que vivessem vidas «de acordo com a moral nacional» e com a religião.

O famoso Departamento de Sociologia de Ford levava a cabo buscas domiciliárias na casa dos operários para garantir que viviam «vidas regradas» de acordo com a moral do patrão. A Liga de Protecção Americana, que chegou aos 250 mil membros nos anos 30, garantia a vigilância e delação dos costumes dos trabalhadores, expondo não só os «imorais» como os «traidores» e, claro, os «comunistas».

Nazis e americanos, uma história de amor

Ao longo dos anos 30, as pontes económicas e culturais entre a Alemanha Nazi e os Estados Unidos da América não pararam de se desenvolver, ao ritmo dos negócios de empresas como a General Motors, a IBM ou a Coca-Cola. Na verdade, o fascismo tornou-se extremamente popular na América da década de 30: em 1934, o Departamento de Estado classificava a vitória do Partido Fascista, por 99,8%, no «referendo» de 1934 como uma «demonstração da popularidade incontestável do fascismo» e, em 1937, elogiava o mesmo regime por ter «substituído o caos pela ordem, a anarquia pela disciplina e a bancarrota pela solvência».

O embaixador dos EUA na Alemanha Nazi, William Dodd, escrevia, em 1937, que «uma clique de industriais dos EUA está determinada em substituir a nossa democracia por um Estado fascista. No meu posto em Berlim pude verificar como algumas das famílias que mandam no nosso país são próximas do regime nazi. […] Certos industriais americanos tiveram muito a ver com a chegada dos regimes fascistas ao poder na Alemanha e em Itália. Ajudaram o fascismo a chegar ao poder e agora estão a ajudá-lo a manter-se lá».


As famílias de que Dodd falava eram, nem mais nem menos que os Hearst, os Kennedy, os Lindbergh, os Rockefeller, os DuPont e os Bush. Entre as empresas, distinguem-se nomes como a Coca-Cola, a General Electric e a Exxon, entre muitas outras. Como prova o crescimento em quase 50% dos investimentos norte-americanos na Alemanha até ao começo II Guerra Mundial, ao contrário do desinvestimento verificado no resto da Europa, o capital estado-unidense repetiu a receita da guerra civil: financiar os amigos sem se comprometer politicamente. Mesmo durante a guerra, as relações comerciais e financeiras mantiveram-se clandestinamente, em alguns casos com requintes de malvadez, como é o caso da IBM de Thomas Watson, pessoalmente galardoado por Hitler por ter produzido e emprestado à Alemanha máquinas, feitas à medida, para contar e seriar as vítimas do holocausto. O patrão da IBM que expressou «a mais alta estima por Hitler, o seu país e o seu povo», esperava que as máquinas fossem devolvidas «quando os alemães acabassem».

A casa de Hitler nas montanhas



No entanto, para a construção do reaccionarismo americano, o fundamental foi a acção da Hearst Publications, o maior grupo de imprensa do mundo. Se, hoje em dia, o grupo Hearst detém 300 revistas, 50 jornais e 31 canais de televisão, nos anos 30 era ainda mais poderoso, controlando dois terços de todo o mercado editorial dos EUA. O seu dono, William Hearst, um reconhecido nazi, não foi só o fundador do conceito de imprensa sensacionalista, como foi também o inventor de alguns dos mitos anti-comunistas mais antigos.

Em 1937 a Revista Fortune, propriedade de Hearst, escrevia: «O bom jornalista deve reconhecer no fascismo as boas virtudes da raça. Entre elas, a disciplina, o dever, a coragem, a glória, o sacrifício».

Já na Reader’s Digest, também de Hearst, lia-se: «A forma como Hitler conquistou os corações dos alemães é tão completa que mesmo que os camisas castanhas desaparecessem continuaria a ser o homem mais poderoso da Alemanha: Hitler é reconhecido por toda a intelligentsia política como um homem extraordinário, um profeta. […] Não encontrei um único alemão que sonhasse com a possibilidade de uma guerra. A verdade é que a mente dos nazis está concentrada em problemas internos e não vai querer ser incomodada com assuntos estrangeiros durante muito tempo».

Entretanto, em 1938, a Better Homes and Gardens, do mesmo dono, dava ao prelo: «Hitler é um homem de bom gosto e a sua casa na montanha mostra como é simpático, humilde e acessível».

A História provou que o III Reich financiava directamente a máquina de propaganda de Hearst, mas nem todas mentiras nazis morreram com Hitler. Uma delas, criada pelo Ministério Alemão da Propaganda em 1934 vive até aos nossos dias: o «holodomor», a ideia que os bolcheviques empurraram deliberadamente a Ucrânia para a fome. Foram os tablóides de Hearst, a pedido dos nazis e com fontes nazis que criaram esse mito.

A segunda ameaça vermelha

A declaração de guerra aos nazis foi um processo complexo e extremamente contraditório. Tal e qual como na guerra civil, a entrada dos EUA na II Guerra Mundial resultou da pugna pelo poder político entre diferentes sectores do grande capital monopolista. Como sintetizou o Secretário de Guerra, Henry Stimson, «se vais entrar numa guerra ou preparar-te para uma guerra num país capitalista, tens de deixar que as empresas façam dinheiro com a guerra ou não vai funcionar». Nesta esteira, é sintomático que todas as empresas atrás referidas tenham sido indemnizadas pelos EUA por todos os estragos provocados às suas propriedades na Alemanha, incluindo em bases militares nazis. Merece ainda destaque a contratação, em massa, de cientistas e oficiais nazis pelos EUA, após a guerra para liderar missões científicas ou como «caçadores de comunistas» dispersos pelo mundo.

Anti-comunismo sem comunistas

Terminada a Guerra, começa a maior caça às bruxas de todos os tempos nos EUA: a segunda ameaça vermelha. Entre 1947 e 1957, o chamado Macartismo, em referência ao senador Joseph McCarthy, embutiu na cultura da direita americana os últimos elementos anti-comunistas, ultra-conservadores, racistas e radicalmente nacionalistas.

O violento anti-comunismo dos anos 50 é singular porque dispensa a existência de uma verdadeira ameaça comunista, ideologia que, nessa década, representava, nos EUA, uma minoria com pouca influência política. Sobressai, mais uma vez, a ideologia americanista como um pretexto para alavancar objectivos económicos de classe.

Da mesma forma que, na década de 50, bastava aos afro-americanos o fantasma do comunismo para precipitar os direitos civis, também aos capitalistas bastava esse espectro para desencadear a repressão. Com efeito, a segunda vaga anti-comunista, não teve como principal alvo dirigentes comunistas, sindicalistas, operários e camponeses, mas principalmente os agentes culturais, os intelectuais, os estudantes e os artistas.

América Anti-intelectual

O McCartismo marcou de forma indelével o significado de «ser americano» porque intrelaçou de forma inexpugnável as ideias de comunismo, traição e intelectualidade. Se, até 1920, o comunista era um imigrante europeu, barbudo e selvagem, agora, nos anos 50, o comunista era representado na propaganda como um professor culto e sofisticado que, através de perigosos argumentos, consegue lavar o cérebro de americanos leais à nação.

O resultado da política de perseguição de académicos, escritores e intelectuais que, mesmo sem serem comunistas, questionavam e ousavam pensar instituiu uma alergia geracional à cultura que se mantém nos nossos dias, a par de um anti-intelectualismo que perdura na política como atestado de patriotismo.


Actividades anti-americanas

O Comité das Actividades Anti-Americanas, HUAC nas siglas em inglês, cuja vida de terror se prolongou entre os anos 30 e os anos 70, foi a pedra-de-toque na instalação de um ambiente de permanente ansiedade anti-comunista: a acusação de 324 trabalhadores do espectáculo, adicionados à infame Lista Negra, e a condenação de dez profissionais do cinema foram o suficiente para obrigar Hollywood inteira a entrar numa competição indigna para mostrar quem era mais anti-comunista, mais conservador, mais nacionalista, ou, numa palavra, mais americano.

Durante os anos cinquenta, o nacionalismo americano tornou-se também sinónimo de militarismo, sexismo, homofobia e apoio incondicional ao conceito de «tropas».

O sonho americano

O actual reaccionarismo da direita estado-unidense é o produto cultural de dois séculos de desenvolvimento de capitalismo. Ao contrário da maioria dos Estados capitalistas desenvolvidos, os EUA nunca abandonaram uma noção de nação que incorpora elementos fascistas. Na verdade, ao longo destes 200 anos, a definição da ideologia americana, ou americanista, foi crescendo, até se transformar, hoje em dia, numa fina película super-estrutural muito semelhante ao fascismo, que filtra a percepção da realidade vivida por milhões de estado-unidenses.

Mais do que mero ersatz da histeria anti-comunista dos anos cinquenta, o nacionalismo estado-unidense mantém-se como um instrumento de luta de classes ao serviço do grande capital e um elemento unificador nacional que se estende da extrema-direita do Partido Republicano ao centro do Partido Democrata.

Na actualidade, a ideologia americanista é um pretexto para justificar o belicismo, a tortura, a espionagem e a repressão policial. Por outro lado, permite manter a opressão económica e social dos afro-americanos, fechar alternativas políticas ao capitalismo bicéfalo e, ao mesmo tempo, convencer os trabalhadores de que no «sonho americano», ao contrário de todos os outros países, é possível enriquecer trabalhando arduamente. Nesta perspectiva individualista, os trabalhadores que não enriquecem devem-se culpar unicamente a si próprios, aos seus genes, à sua inteligência, à sua falta de fé, ou à sua força de vontade, mas nunca ao seu patrão.

*Versão parcial de um texto originalmente publicado no Caderno Vermelho n.º23 – Revista do Sector Intelectual de Lisboa do PCP

Diz-me as tuas fontes e dir-te-ei se és parvo

Circula na internet um texto em que se acusa os EUA de estarem a patrocinar a vaga de refugiados que, durante estes dias, entra na União Europeia. Neste texto, pergunta-se como é que esses refugiados conseguem o dinheiro para pagar o passe e cita-se uma «fonte anónima» que confirma que existe uma estratégia norte-americana em curso para encher a Europa de «migrantes».

Mais tarde, esta noite, deparei-me com outro texto vergonhoso, que avisava que na «invasão silenciosa» de refugiados, estão a passar muitos «terroristas». Esta informação, por seu turno, não vinha acompanhada de uma «fonte anónima», mas de uma fotografia em que se pode ver um homem vestido com uma farda e, mais tarde, à civil. Prova indisputável.

A estupidez humana não conhece limites e, já se sabe, a Internet tem destas coisas, mas o tratamento que a Europa está a dar aos refugiados que, com a ajuda americana, foram obrigados deixar os seus países é demasiado grave para admitir que se equacione terrorismo com refugiados. Este é o argumento do fascismo, do racismo e dos que não questionam nem sabem pensar.

Mas vejamos, afinal, de onde vem esta informação. O artigo é assinado por sujeito chamado Pierre-Alain Depauw. Fui descobrir quem é e, a julgar pelos sites que divulgaram a sua prosa, conto ser o único.

Pierre-Alain Depauw é o pseudónimo de um padre fundamentalista católico, anti-semita, anti-comunista e de extrema-direita que escreve regularmente num site chamado medias-presse.info. Nos seus artigos, Pierre-Alain Depauw dedica-se a:

Bem, agora que já sabemos, por esta pequeníssima amostra, quem é o autor do artigo que está a ser divulgado como a «fonte confiável» de alguns sites de esquerda, deixemos claras três conclusões:

  1. Quando trabalhadores estão a ser apedrejados, perseguidos, afogados e reduzidos a lixo, ninguém se deveria atrever a levantar suspeitas perigosas e infundadas, e por isso estúpidas, de que há terroristas escondidos entre os refugiados. Quem quiser procurar terroristas não precisa de ir procurar nas fronteiras, nos vagões dos comboios nem nos bairros pobres: eles estão nos governos, em Bruxelas, nas direcções dos bancos e nos grandes grupos económicos.
  2. Citar ultra-católicos fascistas não é só estúpido, é uma irresponsabilidade política que nasce de uma forma de pensar a política de uma forma linear e idealista em que associamos, de forma acéfala o que julgamos serem os interesses dos nossos inimigos à realidade observável.
  3. Antes de voltar a citar o medias-presse.info, vejam primeiro o canal de youtube, é bem mais divertido.