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A maior festa das nossas vidas


Começa amanhã, quando ribombam os tambores. Na fila costumeira que antecipa a hora, a gente olha-se uns aos outros em absortos sorrisos de aqui termos chegado juntos e alguém pergunta: «A minha primeira festa, sabes onde foi?». E depois, fala-se da poeira do Jamor, dos pedregulhos do Monsanto, das ameaças na Ajuda.

Do que se diz sempre e do que não pode ser dito também. A essência Festa não pode ser descrita porque é o somatório colectivo, compacto e transbordante de experiências tão diferentes que não haveria papel suficiente no mundo para as escrever num livro.

Que outro lugar no mundo congrega, ao mesmo azimute, a música do mundo inteiro com um espaço para as crianças, a literatura com as multidões de adolescentes, o teatro com tantos idosos, a ciência com os casais de namorados, o desporto com os artistas e as belas-artes com as famílias inteiras?

E de tal maneira aperta-se-nos tanto o estômago e arrepia-se-nos tanto a nuca, que mesmo nós, comunistas, filosoficamente materialistas e logicamente cépticos, nos perguntamos, o que maravilha é esta que criámos. É que vemo-los chegarem cansados aos portões da festa, saídos do trabalho, para logo entrarem refeitos da fadiga e restabelecidos de uma energia antiga como as canções do povo e há muito esquecida.

Há uma razão pela qual, ao longo da minha vida, nunca conheci ninguém que não tivesse gostado da Festa do Avante! É que para perceber que esta pequena bolha de três dias é mesmo um mundo mais justo e que os seus obreiros são movidos por ideais belos, não é preciso ser comunista, basta ser honesto.

A Festa do Avante, não é só a maior efeméride da cultura portuguesa, é o único lugar deste país moribundo em que é possível misturarmo-nos numa multidão sem estarmos sozinhos, falarmos de política sem medo que o patrão nos oiça e percebermos, cristalinamente, do que afinal é feito este Partido Comunista Português.

A nossa construção

O pequeno almoço é às 8h00 e a jornada começa às 8h30, ok?

Respondi que sim e sorri. E ao sorrir apercebi-me de quanto tempo passou desde a primeira jornada. Quando peguei num nível a primeira vez durante uma tarde inteira, juntamente com três camaradas, tentámos colocar placas direitas num terreno muito inclinado.

Quando olhava para o Luís, lá em cima nos tubos, e ele, em vez de fazer o que tinha a fazer, andava a passear-se como um funambulista, brincando com ferrolho que achou por bem atirar para cima de mim. Quando ouvia os camaradas mais velhos a rirem-se que nem uns perdidos porque tinham dito aos que estavam ali pela primeira vez para irem tirar as toupeiras dos buracos com uma mangueira ou endireitar as árvores com o maço.

Felizmente nunca ninguém deu conta da minha primeira implantação e safei-me das praxes. Mas não me safei de ouvir anos seguidos, incluindo este, a anedota (….) do gajo que gostava muito de farturas.

Num dos anos, já não estava nas brigadas da cidade da Juventude, mas em Aveiro, fiquei quase um mês. Penso que terá sido o meu primeiro ano em Aveiro. O Ricardo abria a mala do carro, ouvíamos os artistas da Festa desse ano, ríamos o dia todo (enquanto outros camaradas olhavam para nós sem perceber o motivo de tanta parvoíce) e nas pausas eu sentava-me a apreciar o camarada Álvaro, o responsável pelo vegetariano, a «comandar» as tropas. Lembrou-me ele que, na altura, tinha rastas e mal eu sabia que dali a dois anos ia passar a Festa a fazer turnos ali e a dizer que havia comida vegan por achar que vegan era diminutivo de vegetariano. Ao servir um prato com natas rapidamente percebi, pelo volume da voz da miúda que falava comigo, que vegan não devia ser bem o que eu achava que era. Virou-me as costas e foi-se embora e eu acho que ainda demorei uns tempos a perceber afinal o que tinha feito.

Cheguei mesmo a escrever cartas durante a implantação. Acabava a jornada por volta das 17h30 e, depois do banho, ficava deitada na tenda a escrever e depois pedia a quem fosse à cidade fora da Atalaia, que a metesse no correio.

Ao entrar na quinta, o mundo parece que pára. E só existe aquela construção. Do tubo às placas, das projecções nocturnas às pinturas murais, a decoração com vinil e o rapar do tacho dos ovos moles feitos pela Emília na quinta à noite, das recentes e incessantes visitas da ASAE nas semanas anteriores, do café às 18h00 no bar de apoio aos convívios no Telheiro, dos encontros de construtores às canções inventadas enquanto pintas ou metes solho (que odeio!), é inexplicável o que se sente a construir a Festa.

Os abraços aos que não vemos há anos, os sorrisos cúmplices, as histórias que se contam mais uma e outra vez, as filas enormes na cantina ao fim de semana, o «então agora o que é que estás a fazer?» e o reencontrar de pessoas que crescem e se constroem connosco todos os anos, não há nada que se assemelhe à construção da nossa Festa.

Aquele dia em que apareceram três miúdos a perguntar se podiam ajudar e ficar lá a dormir e nunca mais deixaram de ir à implantação (mesmo que não conseguissem ir à Festa), aquela quinta feira em que estiveste com os teus amigos antes da abertura e depois só os viste no ano seguinte, o Búzio (o cão) que já todos sabem quem é e levanta as orelhitas assim que chega à Atalaia como quem já sabe ao que vai, aquele ano, na Cidade Internacional em que desatei aos gritos porque tinha passado o exame de agregação na Ordem dos Advogados (sem ter que ir a oral) e os camaradas acorreram, com medo que tivesse caído e estivesse magoada e, sem me conhecerem, festejaram comigo a alegria do virar de página. Aquela tarde, depois de três horas à torreira do sol a colar folhas de vinil, uma por uma, quando chegam os camaradas do DEP de sorriso aberto e explicam (mas apenas três horas depois) que não era assim: era colar tudo de uma vez e não folha a folha. Nada se esquece. E a árvore com a cortiça ficou muito bonita e nesse ano acho que o pavilhão ficou mais bonito do que o de Santarém.

Mudou muita coisa em todos estes anos. Mas assim que se passa aquela entrada, há uma certeza que não esmorece, que arrepia, que conforta: é um chegar a casa. Onde nos tratamos por iguais. Onde percebemos que somos nós quem está sempre em construção. E que não há construção que aconteça sem a solidariedade e o companheirismo. Sem alguém a segurar-te a escada ou a ensinar-te a montar o tubo. Sem alguém a rir-se à gargalhada e a inventar canções contigo enquanto outros te mandam calar porque cantas mal. Sem alguém a contar-te a mesma anedota pela milésima vez. E no fim, começa a Festa. Num fim que é só um até já. Porque a nossa construção é perene. Nunca está terminada. E nunca estás sozinha nessa construção.