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Maio130: A História do 1º de Maio


Vídeo feito para o espectáculo “Maio 130”, apresentado na Festa do Avante (Café-Concerto de Lisboa) a 4 de Setembro de 2016.

O espectáculo feito “a partir dos acontecimentos de 1886 em Chicago, que marcaram a luta dos trabalhadores e definiram o 1.º de Maio como o seu dia internacional de celebração e de luta”, cruzou “componentes documentais, poéticas e artísticas de diferentes geografias e momentos históricos.

Vídeo de Ana Nicolau, texto de Joana Manuel.
Locução de Joana Manuel e André Albuquerque.

5 razões para ir à Festa do Avante!

Para quem nunca foi à Festa do Avante! aqui ficam cinco boas razões para o fazer este ano pela primeira vez:

1 – Não é um festival: é o maior evento cultural do país

Quando sobre o Avante! se diz que «não há festa como esta» é porque, há 40 anos consecutivos, a iniciativa politico-cultural do PCP não tem paralelo em Portugal. Nem em qualidade, nem em diversidade, nem em dimensão. Este ano, ao longo dos dias 2, 3 e 4 de Setembro, Beethoven, Verdi e Bizet vêm à festa com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, os Xutos e Pontapés tocam os clássicos do rock português; do Brasil chega o samba, e hiphop de Criolo; Sérgio Godinho e Jorge Palma juntam-se para celebrar quatro décadas de carreira e de festas; da Irlanda rebelde vêm os ritmos celtas dos Charlie and the Bhoys; de Cabo Verde vêm os enormíssimos Ferro Gaita; os Diabo na Cruz explicam porque é que ganharam o Portugal Festival Awards; a Orquestra do Hot Clube dá-nos o jazz; os Peste & Sida dão-nos o punk; os mexicanos Los de Abajo dão-nos o ska; Ana Moura dá-nos o fado…

A isto, acrescentemos outros 100 concertos distribuídos por uma dezena de palcos, uma feira do livro fértil de conversas e apresentações, um espaço dedicado à ciência com experiências, debates e exposições, um espaço dedicado a todos os desportos por onde passarão 15 mil atletas de 300 colectividades, clubes e associações. Some-se a dança, o parque infantil mais bonito do mundo, um teatro com 10 espectáculos; um cinema com 20 filmes portugueses; uma bienal de artes plásticas e tanto, tanto mais, que o melhor é mesmo consultar o programa aqui.

2 – O ambiente de igualdade e amizade é único

Conta-se que quando o Chico Buarque actuou na Festa do Avante! de 1980, terá dito ao Zeca Afonso, também cimeiro nesse cartaz, que «nunca tinha visto um comunismo tão bonito», ao que o autor da Grândola respondeu «este comunismo é diferente: é português». Passados 36 anos, toda a gente se trata por «camarada» na Festa, sendo ou não militante do PCP, que é outra forma de dizer que, naquele espaço, somos todos iguais, valemos todos o mesmo. Uma coisa rara nos dias que correm.

Este é um espírito que nasce com a construção da Festa, feita unicamente com o trabalho militante dos comunistas e prolonga-se no imenso trabalho que, durante três dias, a Festa reclama. Da limpeza das casas de banho ao trabalho de arquitectura, da pintura de centenas de murais tão bonitos como efémeros, à confecção de deliciosos pratos regionais… Tudo, literalmente tudo, é feito não a troco de dinheiro, mas por uma causa, por um ideal. E isso nota-se num ambiente de alegria, liberdade que não poderia existir em qualquer outra Festa.

3 – A festa é verdadeiramente para todos

A Entrada Permanente para os três dias da Festa custa 23 euros. Isto diz muito. Tornou-se comum cobrar 200 euros por um bilhete para um festival mas, já o dissemos, a Festa do Avante! não é de todo um festival: é uma festa dedicada a todos os que, em Portugal, vivem do seu trabalho e o PCP, melhor que nenhuma outra força política, conhece a dura realidade que enfrentam os trabalhadores. O resultado é uma Festa onde quem ganha o salário mínimo, está desempregado, precário, a part-time ou a recibos verdes pode ver ópera, ouvir música clássica, ir ao teatro, entrar num museu, ir a um concerto e muitos outros direitos que sucessivos governos transformaram num privilégio.

E quando dizemos que a Festa é para todos, não falamos só dos bolsos: grupos de música tradicional transmontana, no Palco Arraial, convivem lado a lado com bandas de jazz, no Palco 1.º de Maio; bandas de jovens, apuradas em concursos por todo o país, mostram-se pela primeira vez ao grande público; a poucos metros, sobe ao Palco Alentejo o cante. Por ser tão livre, tão heterogénea, a Festa do Avante consegue esta proeza de atrair adolescentes, famílias com crianças e bebés e casais de idosos, imigrantes e emigrantes, gente de todas as orientações sexuais, cores, idades e feitios.

4 – A política é diferente porque o Partido é diferente

Num país em que demasiados trabalhadores não querem saber de política e acham que os «partidos são todos iguais», a Festa do Avante! é um testemunho valioso de que a política é diferente quando o Partido é diferente. Para muitos, a Festa representa um primeiro contacto com aquilo que a política devia ser: uma luta pelos nossos interesses colectivos enquanto classe. Durante os 3 dias da Festa, centenas de milhares de pessoas podem participar em mais de 100 debates sobre o que realmente interessa: como podemos aumentar os salários, impor justiça fiscal a milionários e banqueiros, melhorar o Serviço Nacional de Saúde, garantir uma Educação pública, gratuita de qualidade a todos os níveis de ensino, cumprir o direito à habitação, devolver os direitos e rendimentos que foram roubados, entre muitos outros temas, da ciência à situação internacional passando pelas artes.

A disponibilidade do PCP para ouvir e dialogar demole velhos preconceitos anti-comunistas e constitui um exercício democrático único no país: a Festa do Avante! é o maior e mais aberto fórum político de Portugal. Números conservadores fixam em pelo menos 5000 o número de pessoas que, na Quinta da Atalaia, vêm dar a sua opinião e ouvir as propostas dos comunistas. A riqueza política da Festa faz dela uma experiência profundamente marcante e enriquecedora para quem a visita pela primeira vez: só quem já foi sabe porque é que «A vida são 2 dias e a festa são 3».

5 – O país e o mundo em 30 hectares

A Quinta da Atalaia é o único lugar do mundo onde se pode telefonar a alguém a perguntar «Onde estás?», ouvir de volta «Estou no Chile, e tu?» e responder «Então começa a andar para Santarém e encontramo-nos na Madeira». Nos 28 hectares da Quinta da Atalaia, sete deles por estrear, contam-se 120 restaurantes regionais e internacionais. Cada organização do PCP traz, com indisfarçável orgulho, a gastronomia e o artesanato da terra, mas também a discussão atenta sobre os problemas locais: o hospital que falta; a portagem que não devia existir; a escola que precisa de obras e também, por outro lado, o contributo concreto da CDU para melhorar a vida das populações.

Por seu turno, a Cidade Internacional acolhe mais de 30 partidos políticos de todo o mundo que mantêm relações com o PCP. O mais valioso que trazem à Festa não é apenas a comida e a música tradicional dos seus países, é a solidariedade internacionalista. Para compreender a ameaça que o fascismo e o imperialismo representam, não há nada como conversar pessoalmente com um camponês da duramente reprimida Marcha Patriótica da Colômbia, com um guerrilheiro da Frente Polisário do Saara Ocidental, com um comunista ucraniano na clandestinidade ou com um herói da Frente Popular para a Libertação da Palestina.

Toda a informação sobre a Festa do Avante! está disponível aqui.

A maior festa das nossas vidas


Começa amanhã, quando ribombam os tambores. Na fila costumeira que antecipa a hora, a gente olha-se uns aos outros em absortos sorrisos de aqui termos chegado juntos e alguém pergunta: «A minha primeira festa, sabes onde foi?». E depois, fala-se da poeira do Jamor, dos pedregulhos do Monsanto, das ameaças na Ajuda.

Do que se diz sempre e do que não pode ser dito também. A essência Festa não pode ser descrita porque é o somatório colectivo, compacto e transbordante de experiências tão diferentes que não haveria papel suficiente no mundo para as escrever num livro.

Que outro lugar no mundo congrega, ao mesmo azimute, a música do mundo inteiro com um espaço para as crianças, a literatura com as multidões de adolescentes, o teatro com tantos idosos, a ciência com os casais de namorados, o desporto com os artistas e as belas-artes com as famílias inteiras?

E de tal maneira aperta-se-nos tanto o estômago e arrepia-se-nos tanto a nuca, que mesmo nós, comunistas, filosoficamente materialistas e logicamente cépticos, nos perguntamos, o que maravilha é esta que criámos. É que vemo-los chegarem cansados aos portões da festa, saídos do trabalho, para logo entrarem refeitos da fadiga e restabelecidos de uma energia antiga como as canções do povo e há muito esquecida.

Há uma razão pela qual, ao longo da minha vida, nunca conheci ninguém que não tivesse gostado da Festa do Avante! É que para perceber que esta pequena bolha de três dias é mesmo um mundo mais justo e que os seus obreiros são movidos por ideais belos, não é preciso ser comunista, basta ser honesto.

A Festa do Avante, não é só a maior efeméride da cultura portuguesa, é o único lugar deste país moribundo em que é possível misturarmo-nos numa multidão sem estarmos sozinhos, falarmos de política sem medo que o patrão nos oiça e percebermos, cristalinamente, do que afinal é feito este Partido Comunista Português.

A nossa construção

O pequeno almoço é às 8h00 e a jornada começa às 8h30, ok?

Respondi que sim e sorri. E ao sorrir apercebi-me de quanto tempo passou desde a primeira jornada. Quando peguei num nível a primeira vez durante uma tarde inteira, juntamente com três camaradas, tentámos colocar placas direitas num terreno muito inclinado.

Quando olhava para o Luís, lá em cima nos tubos, e ele, em vez de fazer o que tinha a fazer, andava a passear-se como um funambulista, brincando com ferrolho que achou por bem atirar para cima de mim. Quando ouvia os camaradas mais velhos a rirem-se que nem uns perdidos porque tinham dito aos que estavam ali pela primeira vez para irem tirar as toupeiras dos buracos com uma mangueira ou endireitar as árvores com o maço.

Felizmente nunca ninguém deu conta da minha primeira implantação e safei-me das praxes. Mas não me safei de ouvir anos seguidos, incluindo este, a anedota (….) do gajo que gostava muito de farturas.

Num dos anos, já não estava nas brigadas da cidade da Juventude, mas em Aveiro, fiquei quase um mês. Penso que terá sido o meu primeiro ano em Aveiro. O Ricardo abria a mala do carro, ouvíamos os artistas da Festa desse ano, ríamos o dia todo (enquanto outros camaradas olhavam para nós sem perceber o motivo de tanta parvoíce) e nas pausas eu sentava-me a apreciar o camarada Álvaro, o responsável pelo vegetariano, a «comandar» as tropas. Lembrou-me ele que, na altura, tinha rastas e mal eu sabia que dali a dois anos ia passar a Festa a fazer turnos ali e a dizer que havia comida vegan por achar que vegan era diminutivo de vegetariano. Ao servir um prato com natas rapidamente percebi, pelo volume da voz da miúda que falava comigo, que vegan não devia ser bem o que eu achava que era. Virou-me as costas e foi-se embora e eu acho que ainda demorei uns tempos a perceber afinal o que tinha feito.

Cheguei mesmo a escrever cartas durante a implantação. Acabava a jornada por volta das 17h30 e, depois do banho, ficava deitada na tenda a escrever e depois pedia a quem fosse à cidade fora da Atalaia, que a metesse no correio.

Ao entrar na quinta, o mundo parece que pára. E só existe aquela construção. Do tubo às placas, das projecções nocturnas às pinturas murais, a decoração com vinil e o rapar do tacho dos ovos moles feitos pela Emília na quinta à noite, das recentes e incessantes visitas da ASAE nas semanas anteriores, do café às 18h00 no bar de apoio aos convívios no Telheiro, dos encontros de construtores às canções inventadas enquanto pintas ou metes solho (que odeio!), é inexplicável o que se sente a construir a Festa.

Os abraços aos que não vemos há anos, os sorrisos cúmplices, as histórias que se contam mais uma e outra vez, as filas enormes na cantina ao fim de semana, o «então agora o que é que estás a fazer?» e o reencontrar de pessoas que crescem e se constroem connosco todos os anos, não há nada que se assemelhe à construção da nossa Festa.

Aquele dia em que apareceram três miúdos a perguntar se podiam ajudar e ficar lá a dormir e nunca mais deixaram de ir à implantação (mesmo que não conseguissem ir à Festa), aquela quinta feira em que estiveste com os teus amigos antes da abertura e depois só os viste no ano seguinte, o Búzio (o cão) que já todos sabem quem é e levanta as orelhitas assim que chega à Atalaia como quem já sabe ao que vai, aquele ano, na Cidade Internacional em que desatei aos gritos porque tinha passado o exame de agregação na Ordem dos Advogados (sem ter que ir a oral) e os camaradas acorreram, com medo que tivesse caído e estivesse magoada e, sem me conhecerem, festejaram comigo a alegria do virar de página. Aquela tarde, depois de três horas à torreira do sol a colar folhas de vinil, uma por uma, quando chegam os camaradas do DEP de sorriso aberto e explicam (mas apenas três horas depois) que não era assim: era colar tudo de uma vez e não folha a folha. Nada se esquece. E a árvore com a cortiça ficou muito bonita e nesse ano acho que o pavilhão ficou mais bonito do que o de Santarém.

Mudou muita coisa em todos estes anos. Mas assim que se passa aquela entrada, há uma certeza que não esmorece, que arrepia, que conforta: é um chegar a casa. Onde nos tratamos por iguais. Onde percebemos que somos nós quem está sempre em construção. E que não há construção que aconteça sem a solidariedade e o companheirismo. Sem alguém a segurar-te a escada ou a ensinar-te a montar o tubo. Sem alguém a rir-se à gargalhada e a inventar canções contigo enquanto outros te mandam calar porque cantas mal. Sem alguém a contar-te a mesma anedota pela milésima vez. E no fim, começa a Festa. Num fim que é só um até já. Porque a nossa construção é perene. Nunca está terminada. E nunca estás sozinha nessa construção.