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Liberdade editorial versus liberdade de expressão

“Mas não é por acaso que se vê, de cada vez que se avançam perspectivas para uma beneficiação e elevação dos programas televisivos, que os remédios válidos mostram ser sempre e só remédios de ordem política; só a ideologização do meio técnico pode mudar o seu cunho e a sua direcção. Mas a ideologização não significa “partidarização”; significa apenas imprimir na administração do meio uma visão democrática do país; bastaria dizer: usar o meio no espírito da Constituição e à luz da inteligência. Todos os casos em que a nossa televisão tem dado boa prova de si, no fundo, não foram mais do que deduções correctas deste teorema.” (Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, 1964).
Foi esta semana conhecido o Barómetro de Comentário Político Televisivo Maio 2016, um trabalho do Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL. E vale a pena a sua leitura e análise.

O Barómetro no seu título conclui ainda por “Um quase empate entre a esquerda e a direita”, ora sobre esta conclusão possível, não deixa de ser criticável a introdução de um grau de subjectividade na avaliação e caracterização da representatividade política que eu não subscreveria, embora generosamente entenda a ideia dos autores.

O Barómetro centra a sua análise na representatividade factual e eventual dos partidos políticos no espaço televisivo caso os resultados eleitorais fossem critério de representação nos espaços de comentário político. Assim foram analisados no Barómetro um total de 53 comentadores políticos, dos quais 27 terão filiação partidária conhecida. Também foi analisada a representatividade(no quadro dicotómico esquerda/direita) que poderão ter “personalidades” das quais apenas é conhecido algum apoio eleitoral pretérito ou antiga militância, ou seja, não filiação política actual.

Para ajuda na compreensão deste quadro, que apenas analisa os comentadores com filiação partidária identificada, consideremos a linha do PSD. Este Partido tem 11 comentadores em televisão, e de acordo com a proporcionalidade do seu peso eleitoral nas eleições para a Assembleia da República também teria 11, mas se o critério de selecção fosse os seus resultados eleitorais para o Parlamento Europeu então apenas teria 9.

As conclusões sobre o restante quadro são fáceis de retirar, partido a partido. Há partidos muito sobre-representados como o CDS e o BE(o campeão neste quadro) e outros sub-representados como o PS e o PCP(muito prejudicado, quase clandestino).

Um quadro agravado

O quadro acima refere-se apenas a este mês de Maio mas, salvo uma ou outra alteração muito pontual, é significativo da situação global da representatividade em espaços de comentário político televisivo ao longo do restante ano.

Contudo, o quadro agrava-se se se atender a quadros de representatividade semelhante que se possam estabelecer sobre a restante comunicação social dominante nomeadamente jornais e rádios, entre outros. Aí, e salvaguardando a honestidade do levantamento e da análise, e respeitando igualmente as mais elementares regras da matemática e da proporcionalidade, facilmente se concluiria que no quadro mediático dominante o PCP é absolutamente prejudicado à luz do critério da representatividade eleitoral.

Um problema da Democracia

As conclusões desta análise não serão novidade para muitos leitores do Manifesto 74, contudo será justo recordar que o critério eleitoral não pode nem deve ser o critério para selecção de comentadores políticos, embora também o possa ser. À luz do espírito da Constituição e da vasta legislação sobre o sector(dentro e fora dos períodos de campanha eleitoral), a liberdade de imprensa e a liberdade editorial serão também critérios.

O comentário político saudável pressupõe espírito democrático, a salvaguarda das forças minoritárias, a diversidade e o pluralismo e a assumpção de responsabilidades de todos os intervenientes(até daqueles que dizendo-se independentes no comentário ou no estatuto editorial nunca o são ou foram na prática).

Os perigos(como a formatação de ideias, a mediatização de realidades inexistentes, a construção de resultados eleitorais, entre outros) e o quadro geral cultural, mediático e económico que construiu a situação presente são conhecidos.

Assim, cumpre concluir que a concentração capitalista da riqueza, a concentração nos grandes grupos económicos da comunicação social dominante(televisão, jornais, rádios), a partidarização e ideologização da comunicação social detida pelo Estado, entre outros, são problemas da Democracia que devem ser denunciados e que objectivamente com ela conflituam.

Os Liquidadores de Chernobyl, Heróis da Humanidade

– 1:24 de 26 de Abril de 1986, durante a execução de um teste de segurança na Central Nuclear de Chernobyl explode o reactor número 4.
Novamente a Humanidade será colocada à prova. Numa situação que comportará desafios e riscos humanos absolutamente aterradores pelo que se poderia calcular, e outros, então ainda inimagináveis.

Tendo em conta algumas testemunhas sobreviventes o desastre começa durante o teste de segurança, por erro humano, com a supressão absolutamente irresponsável do cumprimento de algumas premissas essenciais do Regulamento de Segurança Nuclear da União Soviética. Ou seja, os técnicos e engenheiros presentes(não todos) terão negligenciado na execução do seu trabalho de algumas normas de segurança, iniciando um processo em que erros de execução e seguintes erros de correcção se sucedem e agravando tudo até à explosão do reactor 4.

Após a explosão do reactor são logo chamados a intervir numa primeira linha os serviços de bombeiros da cidade vizinha de Pripyat(uma cidade construída de raiz para apoio à Central) que combatem as chamas como podem com milhões de litros de água e nitrogénio líquido.
No centro do reactor 4 debaixo de 14 metros de destroços a grafite que revestia o combustível nuclear queimou-se e derreteu o urânio, a precipitação radioactiva que originaria seria cem vezes maior que a potência combinada das duas bombas atómicas lançadas sobre o Japão
Do reactor apenas ia saindo uma estranha fumaça fina, mas que já era a radiação. 
Por esta hora ninguém teria noção exacta do impacto na Central do acidente e das iminentes consequências posteriores. 
No dia seguinte a vida aparentava a normalidade possível. A cidade não foi evacuada e as primeiras equipas de técnicos, cientistas e engenheiros da URSS apenas agora chegavam a Pripyat e inclusive ficam instaladas num hotel em pleno centro da cidade.
Anormal por então segundo os habitantes, apenas, um saber estranho na boca, meio metálico meio ácido. Já era o iodo radioactivo.
As medições começaram então a ser feitas, numa época em que a unidade de medida ainda era o Roetgen. Em 26 de Abril de 1986 o nível de radioactividade já era 600 mil vezes superior ao normal. Houve quem pensasse que as máquinas de medição não poderiam estar bem. E ninguém sabia no dia seguinte que o reactor continuava a expelir radioactividade. Nesse dia 26, em Pripyat a radiação já estava 50 vezes superior ao nível considerado inofensivo, a aproximação física ao local da Central aumentava exponencialmente os níveis de radiação e 15 minutos de proximidade poderiam ser fatais.
Começa então a rápida evacuação da cidade e zonas limítrofes. A radioactividade continuava a subir.
48 horas depois já só os militares e membros da comissão cientifica permanecem em Pripyat, no mesmo hotel em pleno centro, provavelmente continuavam a desconhecer a real gravidade da situação e respectivos impactos.
Perante as medições da radioactividade e os sucessivos alertas que começam a chegar, inclusive de países vizinhos, procurou-se informação precisa e o estabelecimento de medidas prioritárias. A observação do reactor confirmou a explosão e a sua destruição.

A URSS decide então lançar sobre o reactor, através de helicópteros, areia e chumbo aos milhares de toneladas em sucessivas viagens. Bravos pilotos condenam a sua vida a brutais níveis de radiação sob os céus da Central, muitos perecerão em pouco tempo. Por esses dias seguintes começam a surgir as primeiras vitimas civis e militares por exposição à radiação. Primeiro as náuseas e as tonturas, depois as queimaduras e depois os piores horrores que o ser humano pode passar.
As partículas radioactivas começam a cair com as chuvas, os ventos vão
destruindo paisagens e florestas, as poeiras radioactivas espalham-se, a Bielorrúsia e a Ucrânia são imediatamente afectadas. Países a
milhares de quilómetros sentiram os seus níveis radioactivos subir.
O ataque aéreo tornava-se insuficiente, nem paliativo, seria mesmo necessário entrar na Central. Mineiros(cerca de 10 mil, trabalhando por turnos, de idades compreendidas entre os 20 e os 30 anos) e Engenheiros teriam de entrar, escavar túneis subterrâneos, selar fissuras, retirar materiais. Como se referiu, algumas das primeiras medidas tomadas revelaram-se inócuas e até posteriormente prejudiciais em alguns aspectos.
Os lençóis subterrâneos por baixo da Central estavam em grande perigo ameaçando os rios que atravessavam e serviam algumas grandes cidades. Era urgente restabelecer a todo o custo as temperaturas dentro da central pois uma nova explosão poderia condenar toda a vida humana num raio milhares de quilómetros em poucas horas, era este o maior perigo.
A radioactividade constituía um inimigo invisível e absolutamente aterrador, a Central uma ameaça sem precedentes.

Liquidadores, Heróis da Humanidade

Toda a União Soviética foi mobilizada, todos os recursos se viraram para o controlo possível da catástrofe.
Perante a catástrofe e o holocausto eminente, cerca de um milhão de cidadãos vindos de toda a URSS vêm para a região de Chernobyl participar nas infinitas tarefas de limpeza nuclear. Militares e civis, muitos voluntariamente, de todas as profissões, idades e repúblicas soviéticas, faziam o melhor que podiam. Era preciso limpar a poeira radioactiva que tudo cobria, liquidar os animais para evitar contaminações, enfim um conjunto enorme de tarefas perigosíssimas. A alcunha deste heróis era Liquidadores. Eram os Liquidadores e a sua missão era liquidar, acabar com a radioactividade.
Estariam constantemente cobertos de poeira radioactiva, estariam expostos a níveis de radioactividade brutais e que se desconhecia em precisão e cujas consequências poderiam ser as piores possíveis.
Estes homens e mulheres já sabiam ao que vinham. Sabiam o que deixavam para trás nas suas casas e ao que provavelmente se condenavam. E de facto muitos não sobreviveram e muitos sofreram(e sofrem) terríveis sequelas para sempre.
Em diversas tarefas, os níveis de radiação destruíam as próprias máquinas que as executavam, e então os próprios Liquidadores substituíam máquinas. Ganharam também assim a alcunha de “bio-robots”.
O imenso sacrifício dos Liquidadores, o seu sentido de responsabilidade, a sua dádiva à Humanidade é impossível de adjectivar. Algo que apenas se tenta perceber e sentir.
Após as primeiras linhas de trabalhos junto do reactor se terem manifestado úteis e imprescindíveis para alguns riscos, continuavam no entanto a ser globalmente insuficientes, era agora preciso atacar o coração do reactor 4, ir ao seu cimo e iniciar os trabalhos para a construção de um sarcógafo que pudesse, dentro do possível, selar todo o reactor.
Nunca um projecto destes tinha sido feito, seria necessário projectar e construir uma estrutura colossal num lugar onde humanos apenas poderiam trabalhar durante segundos, literalmente segundos. Era preciso levar homens e máquinas ao topo do reactor e para isso até instrumentos e robots do projecto espacial soviético chegaram a ser utilizados. Para a construção do sarcófago foram necessários 1000 metros cúbicos de cimento.
Todo o trabalho realizado desde a explosão até à construção do sarcófago, já teria custado financeiramente, 18 biliões de rublos.

3 Heróis 

A dado passo foi necessário retirar a água de uma piscina radioactiva que se formou no interior da Central, devido ao perigo de corrosão radioactiva e posterior infiltração nos solos, era absolutamente necessário abrir uma válvula que permitiria a passagem dessa água para outro espaço já seguro. O problema é que essa válvula estava dentro dessa piscina e quem lá fosse provavelmente já não regressaria.
O Técnico Alexei Ananenko, o Engenheiro Valeriy Bezpalov ofereceram-se. Ainda assim precisavam de mais uma pessoa para apoio, pelo que um jovem trabalhador da Central terá dito “Eu vou com vocês”, o seu nome era Boris Baranov.
Foram e cumpriram a missão salvando tecidos de água que abasteciam alguns dos principais rios da Europa e da URSS.
Sobre o que se passou após cumprirem a missão não se sabe precisamente, existindo apenas alguns rumores. Um primeiro, segundo o qual nunca chegaram a regressar, e outro rumor de que regressaram mas que pouco depois terão falecido por síndrome radioactivo.

7 meses após a explosão e o início dos trabalhos com a conclusão da construção do sarcógado da Central e a limpeza da área, as autoridades militares após se ter enfrentado níveis gigantescos de radiação, limpado toda a grafite e realizado tarefas tão heróicas consideraram ser necessário um acto simbólico para a conclusão dos trabalhos, decidiram hastear a bandeira soviética no topo da Central.
Para o jornalista Igor Kostin que acompanhou todo o processo “hastear a nossa bandeira ali foi como hasteá-la no Reichstag quando Exército Vermelho derrotou o fascismo, para aqueles soldados a bandeira era um símbolo do triunfo sobre a radioactividade”.

O preço do desastre de Chernobyl de que se assinalam 30 anos, muito resumidamente, é incalculável sob todos os aspectos. Eventualmente até para a própria existência da URSS.
Os impactos ambientais e humanos do desastre continuam a fazer-se sentir até aos dias de hoje.
O sarcófago foi construído para resistir precisamente 30 anos. E aparentemente tem aguentado a sua tarefa, estando em construção um novo que o cobrirá.
E para acrescentar um pouco mais de incrível…a verdade é que até há poucos anos, o resto da central Nuclear de Chernobyl ainda funcionava, aliás, nunca parou de funcionar…

Que Viva Abril!

Assinalado Abril, mais uma vez, observamos na sociedade portuguesa, em diversas estruturas, institucionais e não institucionais, académicas, sociais, culturais e largamente na comunicação social dominante, persistentes tentativas de reescrita da História, de branqueamento do fascismo, de falseamento ou ocultação de papéis e responsabilidades, e , até, tentativas de denegrir a própria Revolução.

É necessário relembrar o fascismo, proteger a memória da Revolução e transformar esta memória numa força presente.

Tempo de trevas

Cumpre lembrar a natureza do regime que ela destruiu, que a ditadura fascista era o governo terrorista dos monopólios e latifúndios, agindo num quadro de capitalismo monopolista de Estado. Com o desenvolvimento de políticas como a re-organização industrial de 1945, o Fomento Industrial de 1972, o Plano Intercalar de Fomento, ou ainda o Estatuto do Trabalho Nacional inspirado na Carta del Lavoro de Mussolini em Itália, criavam-se as condições para a concentração de poder e capitais, a partir do próprio aparelho de Estado, das suas instituições e legislação. Consumava-se o domínio do país pelos grandes grupos económicos monopolistas, era o tempo dos Mellos, dos Espírito Santo, dos Champallimaud entre outros.

O fascismo desenvolveu a exploração dos trabalhadores e das riquezas naturais do país e das colónias, fomentou as mais gritantes desigualdades económicas e sociais, proporcionando o crescimento de um conjunto de pouquíssimos grupos económicos que explorando simultaneamente as riquezas do país e os trabalhadores, parasitavam dentro do próprio Estado, dominando-o e colocando-o ao seu serviço.

No plano internacional, foi um regime que se inspirou no fascismo de Mussolini, que apoiou abertamente a Espanha de Franco, que colaborou estreitamente com a Alemanha nazi, que participou como Estado fundador da Nato, et caetera. E como tal, foi suportado e apoiado pelas grandes potenciai imperiais como os Estados Unidos, a Inglaterra e França.

No país suprimiu-se a liberdade de expressão, de reunião ou de manifestação, Portugal era o país da mais bárbara exploração do trabalho, ainda com reminiscências do feudalismo nos campos, era o tempo da pobreza massificada e da caridadezinha elevada a política de Estado, era o país do trabalho infantil, da mais alta mortalidade infantil, dos mais vergonhosos índices de analfabetismo, com uma vida cultural e académica condicionada pelo obscurantismo e censura, era então também certo e sabido que o acesso à Educação e à Saúde dignas era só para alguns, era o tempo da emigração em massa e sob as mais penosas condições(cerca de 1 milhão e meio de emigrantes só entre 1961 e 1973), era o tempo em que a juventude partia para uma guerra colonial injusta e sem solução(de que resultaram 8000 mortos e 30000 feridos).

Por cá, ainda, era também o odioso tempo da Legião e da Mocidade Portuguesa, da PIDE e da DGS, da censura e perseguição políticas, dos exílios, das prisões, das torturas e dos assassinatos.

Contudo, os 48 anos de fascismo foram também um tempo de resistência. Uma resistência corajosa, digna, filha do povo e dos trabalhadores e que muito honrou Portugal. Uma resistência ao longo de 48 penosos anos sob diversas circunstâncias e momentos, atravessando diversas fases. Falamos da resistência da classe operária, dos trabalhadores e das camadas anti-monopolistas pelo Direito ao trabalho e ao pão, de muitos patriotas e democratas honrados que se inquietavam com a situação do país, referimo-nos às candidaturas de Norton de Matos ou de Humberto Delgado ou aos Congressos da Oposição Democrática, entre outras expressões de Luta.

Abril

O dia 25 de Abril de 1974 foi o culminar de 48 anos de resistência. As condições objectivas e subjectivas para a Revolução conjugam-se e o movimento dos capitães, rapidamente secundado pelos trabalhadores e o povo põe fim à desgraça do país que dura 48 anos, avançava a Aliança Povo-MFA.

Foi o regresso da Liberdade e o tempo das conquistas, como a Liberdade de reunião, de manifestação, de associação, de expressão e da imprensa, de Liberdade sindical, foi o tempo da reforma agrária, das nacionalizações e do controlo operário, do Direito à greve, as eleições livres e a livre formação dos partidos, o voto aos 18 e para todos, o nascimento do Poder Local democrático. Nasciam o Salário Mínimo Nacional, os subsídios de férias e de natal, o subsídio de desemprego, pensões e reformas generalizadas, igualdade de direitos para as mulheres e Direito à licença de maternidade, os Direito à Saúde, à Educação e à Segurança Social, a Liberdade de criação e fruição culturais, diversificação de relações externas e o fim do isolamento internacional do país, a melhoria generalizada das condições de vida do povo. Nascia em 1976 a nossa actual Constituição, uma das mais avançadas do Mundo.

O que em tanto tempo foi um sonho transformou-se em vida.

Presente

42 anos depois, a Revolução provou-se inacabada, a contra-revolução, e os sucessivos Governos de direita pela mão de PS, PSD e CDS, ameaçaram e condenaram muitas das conquistas da Revolução(nomeadamente no campo económico), num período caracterizável de recuperação capitalista, que deixou novamente o país votado ao atraso económico, social e cultural, aos sucessivos défices e recessões, susceptível a toda a sorte de ingerências externas, conduzindo-o assim a crescentes injustiças e desigualdades e à degradação generalizada das condições de vida do povo português.

Não obstantes tímidos passos recentemente concretizados, a presente situação política, social e económica, permanece sombria. Consequência imediata de décadas de recuperação capitalista, de recomposição de ferozes sectores reaccionários, agravada por uma situação internacional absolutamente desequilibrada em benefício das potências imperiais e onde a guerra e o esmagamento económico são soluções quotidianas.

Ainda assim, não obstante a situação, se há lição histórica que a Revolução e os seus construtores deixaram ao longo dos 48 anos de luta, resistência e construção revolucionária é que as transformações demoram, são de sinuosa construção, momentaneamente podem até apresentar-se contraditórias e obrigando a uma plena compreensão da realidade, da natureza estritamente parcelar de objectivos imediatos rumo aos finais, da justeza da causa e do papel que todos devem ter no processo.

Mas que nunca as agruras do presente nos levem a memória, que das inquietações se reforce a energia revolucionária, que Viva Abril!

“Ucrânia: as máscaras da revolução”



“Passaram-se dois anos desde o golpe, mas, enfim, algum veículo ocidental decidiu abdicar da propaganda odiosa das agências de notícias internacionais e de fato fazer jornalismo em relação à Ucrânia. Trata-se do documentário “Ucrânia: as máscaras da revolução” – disponível, por ora, somente em inglês, alemão e francês.

Realizado pelo jornalista Paul Moreira e exibido pela emissora francesa Canal+, o documentário já é uma realização memorável simplesmente por ser francês – afinal, tudo o que se tem dito nos últimos anos contra o regime de Kiev tem sido descartado, por neoliberais, pretensos democratas, fascistas e até mesmo ditos socialistas confusos como “propaganda russa.” Para além disso, é importante notar também que Paul Moreira expressa, de forma bem clara, não ser nenhum tipo de radical pró-russo, mas um liberal, com uma visão política ocidental, que se preocupa com a “democracia” na Ucrânia – inclusive chega a dizer, ao introduzir sua reportagem, que vibrava pelos manifestantes que ocupavam Kiev e confrontavam a polícia em 2013, ao assistir às imagens pela TV.

O tema central da reportagem é a forma como os fascistas tomaram o país, se tornaram uma força política inquebrável, organizaram batalhões militares, de como influenciam a política – quando, é claro, não ocupam cargos. Mostra de maneira aberta e concreta a violência dos fascistas ucranianos tanto ideologicamente, nas noções abertamente xenofóbicas e genocidas, como em suas práticas – bloqueios à Crimeia, intimidação por meio da força, organização e treinamento de milícias, além de assassinatos em massa. E por fim demonstra o que muitos, inclusive o Presidente Poroshenko, têm tentado negar a todos os custos nos últimos anos: os fascistas não são um setor radical à parte do governo golpista, mas uma célula chave dele, incorporada em cargos, na Assembleia, etc.

É claro, há problemas no documentário: trata muito superficialmente do papel que os Estados Unidos tem tido na Ucrânia, como se a política dos falcões fosse somente a de ignorar os fascistas – quando, de fato, financiaram e apoiaram o golpe abertamente.

Mas é uma obra importante por um simples motivo: o espaço que dão a fascistas, políticos ucranianos e figuras do alto-escalão americano é como uma corda. Com sua capacidade intelectual de sempre, se enforcam em frente às câmeras, imaginando levar a cabo grandes proezas diplomáticas.

Pedro Marin foi editor da Revista Opera, que contou, em 2015, com um correspondente na Ucrânia, e atualmente escreve para o site Global Independent Analytics.”
Via Diário Liberdade

Que nunca se diga que o capital é ingrato

A campanha presidencial em curso tem sido muito desvalorizada, especialmente, por aqueles a quem convém que fique tudo mais ou menos na mesma. Contudo, não é apenas a campanha ou a pré-campanha, com mais exactidão, que tem sido desvalorizada. Na desvalorização mediática, Edgar Silva faz quase o pleno.

Sobre a candidatura de Edgar Silva, ao início foi a surpresa e no instante seguinte a caricatura, logo após, cai o silêncio e a omissão, a censura portanto. Entrado o tempo em que já não é mais possível esconder tanto quanto o foi Edgar Silva, vem o ataque. E a coisa foi contagiando e ficando cada vez mais serventuária e suja.

O primeiro a picar o ponto foi o Dr. Correia Guedes. Já em Dezembro ido, de forma absolutamente intempestiva decidiu despejar o seu saco de ódio ao PCP, com as mais absurdas calúnias sobre a sua direcção, sobre o seu funcionamento interno, e mergulhando até numa analise muito própria sobre o pensamento de Lenine. Tendo logo levado a devida resposta por várias vias.1 2

Decidiu voltar à carga e, de uma penada só, desqualificando todos os candidatos presidenciais, sobre Edgar Silva, o excelso analista e reputado furioso cronista descreve apenas “um antigo padre, convertido ao PC, que se atrapalha com a nova teologia”. Além da repetida metáfora, já ensaiada em Dezembro e até anteriormente, o Dr. Correia Guedes não explica, onde, como e porquê a atrapalhação de Edgar Silva. Mas pronto, siga, o que era importante era dizer qualquer coisinha, mandar a pedrada e seguir em frente.

Segunda na SIC é dia do “comentário” de Miguel Sousa Tavares. Marialva de quinta-ordem, useiro e vezeiro em décadas de “comentário” e “opinião” repletos de simplismos que oscilam entre o medíocre, o impreparado e o leviano, visionário ansioso que no longínquo Agosto de 1991 anunciava que “O PCP acabou e ainda bem”(jornal Semanário), best-seller “Escritor”(com afamada inspiração na leitura de Cette nuit la liberté para o seu Equador),conhecido apreciador da mestria bancária de Ricardo Salgado, enfim, uma figura pública com décadas de histórias, contradições e malabarismos de toda a sorte.

No seu “comentário” na SIC, apressadamente e por tal desatento logo de inicio à sua patética soberba e contradição, Sousa Tavares arranca com um “não conheço ninguém que tenha visto um debate presidencial do princípio ao fim, das pessoas normais”. Outro alinhado na narrativa dominante e promotora da desvalorização do debate, dos seus intervenientes e ideias, permitindo até ao telespectador concluir que o próprio Sousa Tavares não terá visto nenhum debate na íntegra.

Passada a gralha inicial, deixou o ataque a sério do “comentário” para o fim, quando após mais umas quantas generalizações simplistas e mistificadoras como de costume sobre todos os candidatos, disparou exclusivamente para Edgar Silva dizendo que “Edgar Silva para mim tem tido o discurso político mais pobre, mais inconsequente e às vezes até mais leviano que tenho ouvido”. E já está, missão cumprida. Que fez, que disse Edgar para merecer esta desvalorização? Não sabemos, talvez nem Sousa Tavares saiba, mas também não é para isso que o “comentário” serve.

Dia 7 a festa continua, desta vez com Francisco Louçã, agora nas vestes de comentador por aí, na SIC, no Público, na TVI às vezes e sabe-se lá mais onde. E vale sempre a pena sorrir, lembrando os tempos em que pelo exótico PSR o Professor fazia campanha pelo encerramento da televisão aos Domingos…outros tempos.

Sem estilo nem classe, com a subtileza de um bronco ao volante, Louçã escolhe um título intimista, com um tom que se perceberá hipócrita, para um texto em que começa por glorificar os resultados eleitorais do partido que ele próprio dirige de facto, utiliza um oportunista falsamente afectivo “amigo” para se balancear numa crítica sobre as temáticas do Orçamento Rectificativo e claro, como sempre e para sempre a inevitável e previsível Coreia do Norte, onde, sabe Louçã que “deflagrou uma bomba nuclear”. Pelo meio mais umas tretas e conversa-fiada sobre o passado do PCP para poder contra-atacar com referências a processos eleitorais anteriores (que ele considera negativos, omitindo factos, descontextualizando e simplificando tudo). Truques costumeiros de quem toma o leitor por parvo, que começando o texto dizendo-se “amigo” de Edgar Silva termina com a acusação de “não diz o que pensa”.


É por coisas destas que convites para orador e escriba de Bilderberg e Belmiro não faltarão a Louçã. Que nunca se acuse o capital de ingratidão.

Este aqui titula o seu canto no jornal Expresso por “chamem-me o que quiserem”, e quase tudo fica dito com esta rendição anunciada e incondicional. Como não consegui ler a sua prosa até ao fim (ainda queriam que pagasse!), não há muito a dizer, o objectivo da coisa que se presume soberba está anunciado no seu título, a criatura diz que já tinha visto o Sousa Tavares dizer o mesmo (e quis ajudar, entrar na onda, presume-se) e compara Edgar Silva a “Tino de Rans”. Henrique Monteiro não é mais nem melhor que isto, um subproduto do capitalismo no “jornalismo”, afundado no seu amor ao (des)governo anterior PSDCDS de quem era admirador despudorado e servente, fruta da época dos androjosos tempos que se vivem na comunicação social dominada pelo capital, um humilde servo. Ele sabe, nós sabemos, não há vergonha nem pudor, é um serviço apenas, presumivelmente bem pago, “chamem-me o que quiserem” diz o moribundo.

Nestes tempos, além do desastre (anunciado) em que se transformou a qualidade da informação e da opinião na comunicação social dominante (e dominada), pela breve amostra, fica claro a concertação objectiva por parte do capital em procurar apoucar a candidatura de Edgar Silva. Do outro lado, estamos nós.

2 Novembro de 1975, singela homenagem

“A independência que é a minha força, requer a solidão que é a minha fraqueza.” P.P.Pasolini


Escrever sobre alguém e o seu trabalho não é fácil, às vezes porque se é redutor, outras vezes porque se torna difícil evitar excessivos juízos caindo-se provavelmente em adjectivações intempestivas e subjectivas. Escrever  sobre Pier Paolo Pasolini, ainda que breves palavras, não fugirá a estas dificuldades.

Sobre Pasolini há três aspectos gerais que desde já se sublinham. O primeiro prende-se com a sua multidisciplinaridade, ou seja, o vastíssimo conjunto de técnicas de exposição da produção e criação intelectual a que Pasolini recorre, sendo que aqui se destacaria, não hierarquizando, o cineasta, o poeta, o escritor(no seu passaporte a profissão escolhida era “escritor”) e o cronista. E ainda como segundo e terceiro aspectos, interligados entre si, a sua coerência e a sua liberdade, coerência na medida que os seus diversos trabalhos nos diferentes estilos sempre se ancoraram na mesma linha ideológica de profunda fundação humanista, e a liberdade que usou e ousou ter num tempo e num espaço, de uma forma destemida, corajosa e até chocante se se quiser.

Provavelmente a expressão de Pasolini mais conhecida, para muitos será a cinematográfica. Aí Pasolini atravessa diversos ciclos, desde os iniciais, ainda muito marcados pelo estilo neo-realista do pós-guerra italiano como Accattone ou Mamma Roma, outros ainda em parceria com outros autores como A Raiva já num estilo muito documental e como observador crítico da actualidade e das expectativas mundiais do seu tempo, outro ainda em estilo de reflexão filosófica, política e até teológica como em Passarinhos e Passarões ou Evangelho segundo São Mateus, e terminando no absolutamente chocante e explosivo Saló ou os 120 dias de Sodoma.
Em comum nos seus filmes o antropocentrismo seja sobre as grandes questões do presente quotidiano(o desemprego ou a habitação precária) seja sobre os problemas com que a Humanidade se debate(a guerra fria ou a ameaça nuclear por exemplo). As personagens são circunstanciais, nunca são o fim em si mesmo, vivem para o guião e não do guião, são apenas instrumentais para as questões sobre as quais Pasolini pretende intervir, denunciar ou apenas questionar. Ainda que em modos e contextos diferentes, Pasolini utiliza as personagens apenas como sujeitos individuais metafóricos para heróis colectivos ou então como meros porta-vozes das suas inquietações.




Passe a ligeireza e o simplismo que a subjectividade comporta(agravada pela ligeireza de alguma ignorância sobre o seu trabalho poético), consideraria que é enquanto escritor e cronista que Pasolini melhor expõe a sua criatividade, o seu pensamento, a sua crítica, e muito especialmente o seu compromisso ideológico, a coragem e o exercício da liberdade.

Em Rapazes da vida e Uma Vida Violenta, cronologicamente escritos no pós-guerra(finais da década de cinquenta), antecedendo por pouco no plano cinematográfico a realização de Accattone e Mamma Roma, Pasolini, num estilo muito próximo da abordagem e da estéctica do neo-realismo, realiza descrições das diversas expressões da vida suburbana e dos bairros que crescem nas margens das cidades industriais do norte de Itália, espaços de confluência de operários migrados do sul com outros fenómenos sociais como o lumpemproletariado, descrições das misturas culturais e tensões sociais que se colocavam a uma imensa massa humana marginalizada em diversos sentidos económicos, sociais, culturais, recém-chegada a cenários de pós-guerra e reconstrução. Pasolini utilizando a vida rude e a amoralidade dessa juventude retrata a exclusão económica, social e cultural que a opressão do desenvolvimento capitalista comporta.

Já em Petróleo(escrito enquanto vai idealizando Saló),  numa fase que a sua obra recorre a um estilo completamente diferente, muito directo, ultrapassando todas as barreiras, já distante de algum domínio e ponderação sobre os termos e as imagens que se criam, distante também de alguma subtileza típica do neo-realismo, Pasolini ataca ferozmente a hipocrisia da moral burguesa e do ambiente identitário burguês e cristão, nomeadamente sobre a sexualidade.

Noutro registo, já completamente diferente, há o cronista Pasolini que escreve em Tempo e no Corriere della Sera. Aqui, ao contrário do que por vezes acontece com outros, Pasolini continua igual a si próprio. Polemista sempre que entende necessário, seja por mote próprio ou em resposta, assume diferentes perspectivas sobre a vida política, social e cultural em Itália e sobre a actualidade mundial.

Enquanto cronista destacaria três aspectos em Pasolini. Um primeiro e absolutamente trivial que se prende com o belo texto de homenagem e solidariedade que escreve sobre o 1º Maio de 1974 em Portugal onde entre outros refere “o povo português festejou o mundo do trabalho – ao cabo de quarenta anos sem o fazer- com uma frescura, um entusiasmo e uma sinceridade absolutamente intactas, como se a última vez tivesse sido ontem”. Um segundo, sobre a forma destemida como se bateu em defesa de diversos temas de costumes como o aborto ou o divórcio, contra sucessivas acusações políticas(e até pessoais) dos meios reaccionários e conservadores. E terceiro aspecto e que é particularmente interessante porque revela não só a sua resistência ideológica mas também a sua batalha contra as aspirações burguesas e as suas formas de expressão, pegando nos confrontos reais entre a polícia(lembrando-nos de forma subliminar os tais miúdos cujos pais vieram do sul e que cresceram nas periferias) e os jovens esquerdistas nas cidades do Norte que descreve como “policias filhos de proletários migrantes do Sul agredidos por arrogantes filhos dos papás”. Pasolini escrevia o que pensava e o que sentia.

Pasolini foi brutalmente assassinado em 2 de Novembro de 1975. Muito mais, muitíssimo, se poderia escrever, descrever e criticar sobre o seu trabalho e o legado intelectual que deixou. Contudo para já vale a pena apelar à sua divulgação e lembrar todo o seu esforço, a sua criatividade e o seu longo trajecto de compromisso com os explorados e ofendidos, que comportando muita coragem provavelmente lhe terá custado a vida.

Do que se ouve por aí…


“o Primeiro-Ministro tem dinheiro para ter capangas para não lhe irem ao focinho mas não há dinheiro para uma aeronave que salve homens que estiveram uma hora no mar a gritar”

um popular na Figueira da Foz, 6 de Outubro de 2015