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Esta cidade também é nossa! Os brasileiros em Lisboa e no país.

No dia 6 de Julho, o Brasil era derrotado pela Bélgica nas quartas de final da Copa do Mundo e era assim eliminado desta competição. Mas para os brasileiros, a festa não ia parar pelas falhas dos outros. Na Praça do Comércio, a festa continuou pós-jogo e mesmo com algumas lágrimas nos olhos, a batida do funk animou a noite para uns milhares de brasileiros ali presentes.

Ter assistido alguns jogos na praça do comércio, foi importante para perceber a dimensão da ocupação daquela praça consoante os jogos. Em jogos do Brasil e de Portugal, a praça se encontrava cheia de adeptos. Por exemplo, nos jogos de outras seleções as ruas à volta funcionavam normalmente, sem nenhum corte das vias. Nos dias que jogavam estas duas seleções, várias ruas circundantes eram paralisadas para a passagem de automóveis. O sentimento de estar em sardinha enlatada na Praça do Comércio acontecia de forma interessante nestes jogos. Claro que no caso dos jogos da seleção brasileira também estavam presentes muitos portugueses (e os adeptos da seleção opositora), mas mesmo estes eram a minoria e muito pouco residual. A grande ocupação nestes dias, era de uma massa brasileira que se juntava naquela praça para ver os jogos do Brasil.

Entre as populações imigrantes em Portugal, de acordo com os censos de 2011, nós, brasileiros, eramos a maioria entre os imigrantes, perto dos 110 mil residentes, atrás de nós estavam os imigrantes cabo-verdianos, com cerca de 38 mil residentes. Entre os censos de 2001 e 2011 a população brasileira residente em Portugal quase quadruplicou. Em termos de populações de imigrantes brasileiros espalhados pelo mundo, a maior presença nossa encontra-se nos Estados Unidos da América (acima de um milhão de residentes), em quinto lugar encontra-se Portugal. Apesar do fluxo de brasileiros em Portugal ter reduzido entre 2008 a 2013, sobre o efeito do agravamento da crise portuguesa e da época de “prosperidade” económica no Brasil sobre alçada dos governos de Lula e Dilma, acontece que a partir de 2013 muitos brasileiros que voltaram para o Brasil, começaram a retornar para Portugal. Em simultâneo muitos novos brasileiros decidiram imigrar para Portugal. Além dos imigrantes que vêm à procura de trabalho sem grandes formações, começaram a chegar também pessoas mais jovens para estudarem no ensino superior português e acabam por ficar no país e tantos outros já com formação superior. Estas informações são importantes para perceber a dimensão desta população de imigrantes em Portugal. E o seu significado para a realidade portuguesa.

Um outro exemplo de ocupação do espaço público nas cidades portuguesas por brasileiros, vejamos a questão da luta. Desde o inicio das ofensivas golpistas no Brasil, um colectivo forte e combativo de brasileiros que ia desde estudantes universitários até alguns imigrantes, mas também com a presença de portugueses, combateram em Portugal a ofensiva reaccionária no Brasil. Estiveram nas ruas nos grandes momentos destas ofensivas, mas também sempre que um golpista pisava os pés em Portugal, estes não teria descanso, porque como nós brasileiros dizemos, era preciso “escrachá-lo”. Por exemplo, Temer, Moro, Serra e por aí em diante. A luta também passou pelo apoio aos políticos e personalidades que vinham a Portugal dar a voz à luta que se ia fazendo no Brasil contra o golpe. Falo aqui do Coletivo Andorinha, mas sabendo da importância de outros colectivos pelo país. É importante falar sobre este colectivo em especial para a cidade de Lisboa, porque os activistas deste movimento tiveram de ir para as ruas mais que uma vez por semana para levar aos holofotes a crítica da situação brasileira.

Desde o inicio da sua formação, estiveram dezenas de vezes na Praça Luís de Camões, desceram a Avenida da Liberdade nos 25 de Abril e subiram a Almirante Reis no 1 de Maios, foram para portas da Faculdade de Direito, porta de Hotéis, ocuparam as actividades culturais e festivais, veja-se o exemplo da Festa do Avante e o coro que se ergue volta e meia de “Fora Temer!” quando um artista brasileiro está em actuação, desceram uma faixa no concerto do Chico Buarque no Coliseu dos Recreios. Enfim, a sua capacidade de adaptação e ocupação da cidade fez-se nos últimos anos de uma forma bestial e alegre, resistindo, lutando e apoiando, de todos os modos, transformando a cara das cidades portuguesas, principalmente, de Lisboa.

A cidade de Lisboa, e não só, também ficou mais rica com as iniciativas sócio-culturais dos brasileiros cá residentes. Vejamos por exemplo, neste último carnaval tivemos três blocos carnavalescos a partir de pontos diferentes dentro da cidade. A nossa presença, que era muitas vezes relegada às discotecas brasileiras, agora está em todo lado. Da música ao cinema, do teatro às artes plásticas, da arte urbana ao pixo, da resistência política ao futebol, trazemos a bandeira verde e amarela, mas também as bandeiras vermelhas.

Contudo, o desafio que se avizinha é muito complexo. Não devemos esquecer que nem todos os brasileiros cá residentes são progressistas. Por exemplo, no dia 22 de Junho duas dezenas de brasileiros se juntaram no Parque das Nações para apoiar a candidatura a presidente de Bolsonaro, apesar da presença residual, facilmente podemos encontrar brasileiros imigrantes que apoiam Bolsonaro neste país. A questão é que por muito tempo não houve (e sinceramente ainda não há), em Portugal, organizações de imigrantes brasileiros fortes (ou mesmo fracas) que defendessem os interesses desta grande população de imigrantes. Por décadas os brasileiros “se viravam” por redes de amizades, por exemplo, outras populações de imigrantes cá residentes rapidamente criaram organizações que os defendesse (vejam os exemplos dos cabo-verdianos, angolanos, são-tomenses, chineses, nepaleses, ucranianos e muitos outros exemplos). O aparecimento de redes sociais como o Facebook e WhatsApp possibilitou um (re)encontro quotidiano com as redes de amizades e familiares espalhadas pelo Brasil (ou mesmo outros países). Este reencontro permitiu mais que matar saudades e estar actualizado sobre o dia-a-dia dos seus próximos, permitiu também uma politização destes brasileiros (à esquerda e à direita, mas sobretudo à direita). Da partilha das notícias falsas, dos discursos de ódio, que vai desde o machismo, homofobia a xenofobia (sim, xenofobia se tratando de imigrantes!), a partilha fácil e acrítica destes conteúdos levou a que muitos brasileiros residentes cá interiorizassem facilmente estes conteúdos. Soma-se ainda, que cá em Portugal não tinham um contraponto que se opusesse a este discurso. Como disse, não havia uma organização brasileira que estivesse próxima dos seus.

Da complexidade desta questão, surgem então os potenciais conflitos directos, pensando no rescaldo das últimas concentrações realizadas em Lisboa, em vários momentos aconteceram distúrbios provocados por brasileiros reaccionários, entre provocações através do grito, o mandar copos de cerveja, empurrões, exemplos cada vez mais não faltam.

Em ano de eleições, mas não só por causa disso, avizinha desafios aos brasileiros que têm-se organizado à volta destes movimentos progressistas, este desafio é sair da centralidade da cidade de Lisboa e ir para as periferias falar com os seus conterrâneos sobre a democracia portuguesa e brasileira, sobre direitos e deveres, sobre luta e resistência. Cabe diluir as diferenças entre brasileiros. Daqueles que vieram para cá realizar seu mestrado/doutoramento e ficaram por cá porque a terrinha é muito boa, contudo acabam num trabalho precário. E daqueles que vieram para cá atrás de uma vida melhor, independente da sua formação, e desde que cá chegaram sempre estiveram em trabalhos precários. Cabe tanto aos primeiros e aos segundos, tomarem as cidades portuguesas, reivindicando o seu direito à cidade, cabe tanto a um como outro reivindicar uma vida digna neste país, participando e transformando as cidades portuguesas, e por fim, cabe tanto a um como ao outro lutar pela defesa da democracia do Brasil e contra a besta fascista que se levanta. O recado aos portugueses é que vamos continuar sambando e levantando poeira, e àqueles que ainda não se conformaram com esta ideia, vamos sambar na vossa cara mesmo. Estas cidades também são nossas!

Rayo digno [actualizado com um post-scriptum]

O barulho das luzes, o som dos euros em movimento e a doentia fixação das massas adeptas nos resultados das suas equipas, que lhes garantem periódico consolo para vidas de trabalho trucidadas pela desigualdade e pela exploração capitalista, impedem muitos de compreender que as “SAD” nasceram do seio dos clubes, e que os clubes nasceram no seio de comunidades, representando digníssimas formas de associativismo popular que se foram modificando e, de certa forma, corrompendo ao longo do tempo. É por isso com comoção que de tempos a tempos dou de caras com actos de profunda dignidade e regresso aos valores fundamentais dos emblemas, entretanto transfigurados em “marcas” e, nalguns casos, sociedades cotadas em bolsa.

O Rayo Vallecano é um pequeno clube madrileno, emblema maior do bairro de Vallecas, baluarte durante longos anos da orgulhosa classe operária da capital espanhola. Enfrentando as dificuldades reservadas aos pequenos clubes sediados em cidades onde gigantes comerciais e financeiros absorvem atenções, recursos e favores, o Rayo acabou por ser vendido em 2011 a um empresário que capturou, beneficiando das circunstâncias do emblema de Vallecas, a quase totalidade das suas acções. Acontece que, contrariamente ao que muitos previram, o Rayo não perdeu identidade. O povo de Vallecas tem resistido duramente a sucessivas tentativas de transformação do Rayo – a alteração do emblema do clube foi um dos exemplos mais simbólicos e significativos -, não deixando de manifestar permanentemente as suas posições sobre a vida da equipa de futebol profissional. É o que acontece nos dias que passam relativamente à contratação (por empréstimo) do ucraniano Roman Zozulya.

Política e futebol andam desde sempre de mãos dadas. Os clubes, mesmo aqueles que se transfiguraram e descaracterizaram, são expressões associativas originalmente enraizadas nas comunidades de origem, sendo que estas os moldam de acordo com perspectivas, experiências e valores diferenciados, realidade que ganha especial importância no associativismo local, ou de classe. No seio do actual Estado Espanhol é bem conhecido o exemplo particularmente evidente do Athletic Club (de Bilbao), mas outros existem igualmente dignos de nota. De entre estes, o Rayo será um dos mais exemplares, pela ligação à comunidade e à consciência de classe que ainda sobrevive em Vallecas. Não surpreende pois que a chegada de um jogador com simpatia pela extrema-direita fascista/banderista ucraniana cause nas gentes do Rayo a mais viva repulsa, independentemente da sua utilidade futebolística para a equipa, actual décima-sétima classificada da Liga123 (a segunda-liga espanhola).



A reacção dos adeptos do Rayo à chegada de um fascista ucraniano não é uma expressão de anacrónica visão de um futebol que morreu. Pelo contrário, é uma lufada de ar fresco num contexto desde há muito dominado pela substituição dos valores pela ditadura dos resultados. Financeiros, sobretudo.

post-scriptum: De acordo com o jornal “As”, Zozulya já regressou a Sevilha, vencido pela unidade anti-fascista dos adeptos do Rayo. Trata-se de uma lição notável sobre o poder das massas adeptas dos clubes sobre o destino das associações que construíram, e que não são propriedade de ninguém, muito menos das suas direcções, “accionistas” e “donos”.

Um onze inicial de classe redobrada

Além de um entretenimento de massas, que por esta altura ganha contornos absolutamente desproporcionados e muito saturantes, o futebol pode ser também um meio de expressão, de luta e protesto. Assim e aproveitando a época, hoje apresenta-se um onze, de jogadores de futebol, de notoriedade diversa, com mais ou menos razão, de vários pontos do mundo, que em certa altura das suas carreiras decidiram fazer mais do que apenas jogar futebol.


1. Metin Kurt

Extremo do Galatasaray e internacional pelo seu país, a Turquia. Ficou conhecido pela sua militância comunista e pelo seu esforço pela criação de um sindicato de classe para os desportistas profissionais.

Pelo seu activismo foi penalizado quando o Galatasaray não lhe pagou o bónus pela vitória na taça turca, no que teve a solidariedade de quatro colegas que acabariam expulsos da equipa, até que foram reintegrados pela pressão dos adeptos. kurt mesmo assim acabaria por sair do clube pouco depois. Esteve ligado à formação da Associação dos atletas Amadores(1970) e da União Revolucionária dos Trabalhadores Desportivos(2010).Para Kurt “havia necessidade de uma luta
democrática nos desportos porque a relação entre os desportistas e os
executivos é similar à relação entre escravo e amo”
. Em 2011, ainda antes de falecer, foi candidato por Istambul pelo Partido Comunista da Turquia.
2. Agustín Goméz Pagola


Foi uma das centenas de crianças e adolescentes que em plena guerra civil espanhola fugiram para Moscovo na eminência da vitória franquista. Na URSS revela o seu talento futebolístico ao serviço do Torpedo de Moscovo e da própria selecção soviética, mantendo a sua militância no Partido Comunista de Espanha. Durante uma breve abertura franquista em 1956 para quem quisesse deixar a URSS e regressar a Espanha, Agustín ingressa no Atlético de Madrid, mantendo a sua militância comunista clandestina.

Após o fim da sua carreira dedicou-se a treinar equipas de juvenis no País Basco enquanto mantinha a sua actividade política. Em 1961 foi capturado, preso, torturado e finalmente liberto graças a uma campanha internacional. Acabou por se exilar na Venezuela passando a integrar o Comité Central do PCE e a sua actividade internacional. Acaba por se afastar em ruptura com a tendência eurocomunista, mantendo-se comunista até ao fim.

3. Deniz Naki

Nasceu na Alemanha mas de ascendência curda. A sua carreira tem tido diversos altos e baixos e várias vezes os baixos têm sido precisamente por motivos políticos, baixos como quem diz, depende da perspectiva.

No início da sua carreira jogou no clube popular e de notoriedade antifascista de Hamburgo, o FC St. Pauli, onde acabou punido pela federação e envolto em polémica por após ter marcado um golo da vitória se ter envolvido em provocações com os adeptos do rival Hansa Rostock, conhecidos pela sua orientação de extrema-direita. Mais tarde, já jogando no clube turco Genclerbirligi teve de sair do país por ter sido alvo de diversas ameaças e até agressões físicas após ter feito diversos comentários nas redes sociais em apoio à resistência curda aos diversos ataques quer do exército turco quer do daesh.

Já este ano e com Deniz Naki regressado à Turquia e ao território curdo para jogar no 3o escalão foi suspenso 12 jogos e multado em 7000€ por ter dito “dedicamos esta vitória a todos os que foram feridos ou perderam a vida durante a repressão na nossa terra que dura há mais de 50 dias. Estamos orgulhosos de ser um pequeno raio de esperança para os problemas da nossa gente”.


4. Sócrates

Dr. Sócrates como era carinhosamente conhecido foi um dos melhores jogadores brasileiros de sempre e ainda hoje é recordado não só pelo seu jogo como também pela sua intervenção social e política.

Após anos de gestão ruinosa no Corinthians pelas sucessivas direcções, Sócrates é um dos impulsionadores de um novo período na vida do clube chamada de “Democracia Corinthiana”, isto ainda no período da ditadura militar brasileira.

Na “Democracia Corinthiana” todos dentro do clube tinham direito de voto, e igual, sobre as decisões referentes à vida do clube, do roupeiro aos jogadores, do treinador aos dirigentes, todos decidiam por igual. Mais, em plena ditadura militar a “Democracia Corinthiana” decidiu estampar no lugar publicitário da camisola expressões como “diretas já” ou “quero votar
para Presidente”.



5. VolKer Ippig

  

O ex-guarda-redes da década de 80 actualmente trabalha nas docas de Hamburgo enquanto treina camadas jovens da sua zona.

Volker Ippig por três vezes interrompeu a sua carreira por motivos altruístas. A primeira para se tornar monitor de crianças orfãs com incapacidades motoras, a segunda para se dedicar à agricultura e à produção saudável e a terceira para rumar à Nicarágua e à recuperação de aldeias destruídas pela forças do governo.

Em 1991 devido a uma lesão teve de abandonar a sua carreira prematuramente mas ainda foi a tempo de alertar os cidadãos da ex-RDA das descriminações que iriam sofrer sob a “reunificação”.

6. Maradona

Maradona não precisa de apresentações. Passemos em frente.

 

 

 

 

 

7. James Macclean

Quem conhece o desporto e o futebol inglês sabe que é usual o uso da papoila à lapela por atletas, dirigentes, treinadores e até adeptos no mês de Novembro. Serve a papoila por altura do “Rememberance Day” para recordar os que tombaram em combate pela coroa britânica .

Desde há alguns anos a excepção é James Mcclean, nascido em Derry na Irlanda do Norte no seio de uma família católica. James foi por diversas vezes internacional pela Irlanda do Norte mas desde a sua passagem a sénior recusou-se continuar a servir essa selecção e foi cooptado pela selecção Irlandesa.

Chegado ao futebol inglês em 2011 recusou-se sempre a usar a papoila tendo-lhe essa decisão custado insultos, ódios e até ameaças de morte. Segundo James “Se esta flor se referisse apenas às vitimas da Primeira ou Segunda Guerras Mundiais eu usaria sem qualquer problema. Usaria a papoila todo ano se fosse o caso! Mas não é o caso…Esta flor simboliza todos os conflitos em que o Reino Unido esteve envolvido. Por motivos históricos e por ser de Derry, eu não posso usar algo que significa isso”.
Na localidade de Derry em Janeiro de 1972, 14 pessoas foram mortas pelas tropas britânicas no conhecido “Bloody Sunday”.

8. Josean de la Hoz Uranga

5 Dezembro de 1976, num Estado espanhol em convulsão política e social, teria lugar na cidade basca de Donostia/San Sebastian o derby basco entre Real Sociedad e Athletic Bilbau. A ikurrina, bandeira basca, continuava ilegalizada desde o fim da guerra civil espanhola, como símbolo da luta do povo basco pela autodeterminação.

Josean, jogador da Real Sociedad decide por em marcha um plano para o derby que consistia na entrada da bandeira com a entrada das equipas. Para tal, pediu à sua irmã que cozesse uma bandeira que fez entrar no estádio através das malas de transporte de água. Depois de falar com os capitães das duas equipas, todos concordaram em assumir o risco.

Pela primeira vez em décadas a Ikurrina seria vista em público, apenas meses depois seria aprovado o Estatuto regional e a bandeira legalizada.

9. Eric Cantona

Eric Cantona foi um dos melhores jogadores franceses de sempre, com especial destaque no Manchester United. Descendente de refugiados da guerra civil espanhola em França, especialmente desde o fim da sua carreira tem-se tornado um activista social contra a ditadura do poder financeiro e pela devolução do futebol aos adeptos e contra a sua mercantilização absoluta(do futebol, entenda-se). Recentemente realizou um filme sobre “Os rebeldes do futebol”.
“Quando o teu país está em guerra e os teus amigos se estão a matar, que entreguem armas em vez de bolas ás crianças, que importa se o mundo inteiro te admira, tens que actuar!”


10. Rachid Mekhloufi

Nos anos 50 a Argélia continuava a ser uma colónia francesa no Norte de África, contudo Rachid Mekhloufi já brilhava em França na equipa de Saint-Étienne. A tal ponto que seria seleccionado para a selecção francesa que disputaria o Mundial da Suécia de 1958.

Foi então que Rachid aproveitando a visibilidade da selecção francesa, juntamente com o seu colega de origem argelina Zitouni, decidem abandonar a concentração da selecção francesa. Dois dias depois formavam a equipa da Frente Nacional de Libertação Argelina, conhecida como “os 11 da independência”, que apenas jogaria partidas amigáveis pela Ásia e África devido ao não reconhecimento pela FIFA.

Mais tarde com a independência do país e a selecção reconhecida, Rachid volta a brilhar nos relvados franceses, “adoraria ter jogado um Campeonato do Mundo mas isso não era nada comparado com a independência do meu país”.


11. Cristiano Lucarelli

Cristiano Lucarelli foi um ponta-de-lança italiano nascido na mesma cidade que o Partido Comunista Italiano, Livorno. Desde cedo assumiu-se como um comunista cujo sonho era representar o clube da sua terra.

Lucarelli num jogo da equipa sub-21 da selecção italiana após marcar um golo exibiu uma t-shirt de Che Guevara por baixo da camisola azul da selecção. Eventualmente por tal gesto esteve 5 anos sem voltar a jogar na selecção italiana. Por isso e talvez também por ter dito que “os árbitros prejudicam sempre o Livorno porque sabem que somos comunistas”.
Lucarelli passou por diversos campeonatos(Itália, Espanha, Ucrânia) apontando mais de 200 golos, celebrados com o punho direito fechado. A sua carreira acabou por ser retratada no documentário99 Amaranto.

Alerta! Alerta antifascista. Não passarão.

Em Março deste ano, por altura de um jogo da “Liga dos Campeões” entre o Atlético madrileno e os holandeses do PSV, foram divulgadas imagens de adeptos holandeses que em pleno centro da capital espanhola atiravam moedas a um grupo de “mendigos” (que algumas fontes identificaram como refugiados). Semelhantes imagens repetiram-se hoje, em Lille, tendo adeptos ingleses como protagonistas e um grupo de crianças como vítimas. Em Lille, como aliás em Madrid, habitantes da cidade sentiram-se indignados e protestaram perante as gargalhadas, a indiferença e gozo alarve da mole embriagada pelo álcool e pela sensação de superioridade face a todos aqueles diferentes de si. O Euro2016 assume-se cada vez mais como a indesmentível montra da pobreza moral da Europa.

Lille foi de resto o palco de novos confrontos, que se somam a escaramuças e situações de maior gravidade ocorridas um pouco por todo o território gaulês. Na origem de todas elas estão, mais do que países ou nacionalidades, grupos fascistas organizados, compostos não raras vezes por criminosos bem treinados para espancar com a máxima brutalidade. França é hoje o parque de diversões de neonazis húngaros, ingleses, alemães, polacos, russos, albaneses, ucranianos, unionistas da parte ainda ocupada da Irlanda. O nazi-fascismo troglodita mostra nas cidades francesas as suas habilidades criminosas, demonstrando a sua capacidade para gerar terror, intimidação, violência gratuita e, noutros casos, direccionada.

Naturalmente que neste contexto é absolutamente desonesto o aproveitamento que alguns fazem para, sem as soqueiras no bolso, concretizarem no plano mediático a outra parte do trabalho iniciado pelos criminosos à solta em território francês. Intervenções como a de José Milhazes na SICn, referindo que os “comportamentos dos adeptos (russos) são reflexo de uma “campanha anti-ocidental” na Rússia”, não podem ser analisadas nem entendidas fora de uma campanha russófoba com vários episódios – que incluem não apenas toda a mistificação em torno das situações na Síria, Crimeia e no Donbass mas também pequenos incidentes como aquele relativo à passagem de aviões de guerra russos junto do território portugueses, como se daí resultasse alguma ameaça real à segurança nacional… -, e que tem tido no próprio Milhazes um dos principais rostos mediáticos.

O que se passa em França pouco ou nada tem a ver com uma suposta “campanha anti-ocidental na Rússia”. Milhazes sabe-o mas prefere outra abordagem mais ajustada à narrativa previamente definida. Ou então, o que é de certa forma pior, ignora-o; e desta forma actua como papagaio de repetição de uma narrativa que não tem origem na sua própria capacidade de fantasiar quando o assunto é a Rússia à qual tudo deve.

O fascismo das ruas de Lille, Paris ou Marselha é o rabo de fora que denuncia um corpo maior composto por gente engravatada e, na aparência, bem falante. O fascismo no Euro2016 é a dimensão folclórica – ainda que estupidamente brutal – de outras abordagens ainda mais perigosas, protagonizadas por aqueles que sabem bem ser o neonazismo e os seus rufias uma cartada sempre na manga de um capitalismo decrépito que vai abrindo brecha atrás de brecha no imenso edifício político-ditatorial, anti-cultura, económico-financeiro, anti-popular e anti-ambiental que dá corpo à sua dominação planetária.

Confundir fascistas de uma nacionalidade com uma pátria inteira não é apenas um erro; é antes de mais batota propositada. Limitar a violência de um Europeu perfeitamente esclarecedor acerca da força da extrema-direita troglodita (apoiada a partir de gabinetes “insuspeitos”, nos centros políticos, económicos e mediáticos) aos russos não é apenas um disparate: é um insulto ao povo que neste mundo mais se bateu pela Paz, pagando por ela – para si e para os outros – o mais alto preço (quase 30.000.000 de mortos entre 1941 e 1945). Ignorar que a violência entre “adeptos” é apenas na aparência um fenómeno particular das grandes competições de futebol é estúpido, mas muito conveniente.

Alerta! Alerta antifascista.
Não passarão.

Trivela de Quaresma

“Amigo,
Imagina que eras tu com o teu filho nos braços que tinhas de deixar o teu país, escondido, a fugir da guerra e da fome, desesperado por encontrar um sítio no mundo onde pudesses recomeçar e dar ao teu filho tudo aquilo a que ele tem direito.
Agora que imaginaste, vê a realidade do que se está a passar na Europa.
As crianças que fogem da guerra também são nossas crianças, também elas têm direito de ter um futuro e construir um mundo melhor.
Não podemos ficar indiferentes a este problema, está nas nossas mãos impedir isto”

 Ricardo Quaresma, 29/8/2015